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terça-feira, 24 de dezembro de 2019

Textos sobre Hélio Xavier de Vasconcelos

Hélio Xavier de Vasconcelos

Textos sobre Hélio Xavier de Vasconcelos

Carta Aberta a Ordem dos Advogados do Brasil – Secção RN
Roberto Monte e Aldemir Lemos

Depoimentos de Clara e León Góes
Hélio Xavier de Vasconcelos
Prefácio de Moacyr de Góes

Que bom falar de quem é bom
Carlos Jansen Vasconcelos

Homem plural
Geniberto P. Campos

Ícone da política estudantil
Clementino Câmara Neto

Sempre um caso a contar
Omar Fernandes Pimenta

Geração que sonhou grande
Mailde Pinto

Amigo doce e de firmeza ideológica
Maria Conceição Pinto de Góes

Hélio Vasconcelos, um homem natalense
Ivis Bezerra

Mais um poeta na praça
Danilo Bessa

Dignidade e firmeza de caráter
Paulo Frassinetti de Oliveira

Tenacidade inacreditável, nunca abandonando o campo de luta
Caio Graco Pereira de Paula

Luta em favor da educação
Virgílio Fernandes de Macedo Júnior

Lições de vida
Jarbas Antônio da Silva Bezerra

Postura ética incorruptível
Joê

Um depoimento para Hélio, meu cunhado, meu companheiro e irmão
Luiz Martins da Silva Sobrinho

Reserva moral
Manoel

Pela rua da amargura
Berilo Wanderley


Acervos raros de HÉLIO XAVIER DE VASCONCELOS: http://www.dhnet.org.br/helio/documentos.htm

"LEMBRANÇA PARA NÃO ESQUECERMOS!" - Missa de 7º Dia de Hélio Vasconcelos é realizada na OAB/RN - "Saudades!" - Eduardo Vasconcelos

No final da tarde desta terça(22), foi realizada na sede da OAB/RN a missa de 7º dia de falecimento de seu ex-presidente Hélio Xavier de Vasconcelos. A celebração foi feita pelo padre Gentil e contou com a participação de familiares e amigos.

“Hélio Vasconcelos foi uma pessoa excelente, humano de primeira grandeza, solidário, amigo dos amigos”, disse o Membro Honorário Vitalício do Conselho da OAB/RN Caio Graco.
“Hélio foi uma pessoa autêntica, verdadeira, de sentimentos e palavras coerentes em todos os seus gestos”, destacou o Membro Honorário Vitalício do Conselho da OAB/RN Joanilson de Paula Rêgo.

“Hélio foi um advogado singular. O sofrimento não alterou sua firmeza no futuro, jamais reclamou do que passou. Sempre tinha em mãos a bandeira da paz”, relembrou o Membro Honorário Vitalício do Conselho da OAB/RN Carlos Gomes.

“Estou tomado pela emoção neste momento. Hélio foi uma figura que marcou o Rio Grande do Norte pelos gestos e atitudes. Foi um grande amigo”, ressaltou o Desembargador do Trabalho José Rocha.

Tomado pela emoção, o ex-presidente da OAB/RN Odúlio Botelho falou em nome da Ordem, destacando Hélioexerceu a Advocacia com brilho e dignidade. Na ocasião, a família externou que o momento agora é de saudade e não de tristeza.

HÉLIO XAVIER DE VASCONCELOS, natural de Macaíba, o filho de Salomão Lima de Vasconcelos e Maria de Vasconcelos, nasceu no dia 26 de novembro de 1932. Cursou Direito na Universidade Federal do Rio Grande do Norte na turma de 1961. Foi presidente da OAB/RN no período 1993/1995. Teve uma trajetória brilhante na Instituição, com registro de vários importantes feitos.

Publicado em 23 de outubro de 2013. pela https://www.oabrn.org.br

Hélio Xavier de Vasconcelos - Resistência e Direitos Humanos no RN - "Um defensor dos DIREITOS HUMANOS!" - Eduardo Vasconcelos


Hélio Xavier de Vasconcelos fala na OAB-RN, no Comitê em Defesa da Vida, ato promovido pelo Centro de Direitos Humanos e Memória Popular CDHMP, OAB-RN e pela Comissão Pontifícia Justiça e Paz da Arquidiocese de Natal RN, no dia 29.08.1989

DIREITOS HUMANOS: 40 ANOS DE ANISTIA As memórias da Ditadura no RN esquecidas com o tempo

Movimentos foram às ruas pedindo Anistia ampla - Créditos: Arquivo Diap

Movimentos foram às ruas pedindo Anistia ampla / Arquivo Diap

 Perseguições políticas e torturas por agentes do Estado em 64 só sobrevivem na mente de quem sofreu ou cometeu os crimes

Brasil de Fato 
No dia 28 de agosto de 2019 se comemorou o aniversário de 40 anos da Lei de Anistia, promulgada em plena ditadura militar após muita mobilização social. Mas pouca gente sabe do que essa lei trata e como ela afetou o Rio Grande do Norte.
Desde o primeiro dia do golpe militar brasileiro, em 1 de abril de 1964, o estado do RN passou por importantes mudanças. O governo estadual de Aluísio Alves, no primeiro momento, foi aliado do regime militar, fazendo uma política de repressão alinhada com os ditames federais.
Segundo Juan de Assis Almeida, advogado e membro da Comissão da Verdade da UFRN, “ocorreram diversas intervenções em sindicatos, diretórios estudantis e repartições públicas. Muito porque o RN era bem engajado com educação popular e educação com direitos humanos, com as experiências de Paulo Freire, em Angicos (1961); e com o ‘De Pé no Chão Também se Aprende a Ler’, idealizado pelo prefeito de Natal na época, Djalma Maranhão, e pelo secretário de educação, Moacir Gomes”.
Ele afirma que logo no início do golpe houve uma ação muito intensa de perseguição política contra diversos setores do estado, principalmente os progressistas e da Igreja Católica. Isso porque as atividades desenvolvidas por esses setores tinha “um viés político de emancipação e educação que despertava a consciência de classes, também mobilizavam muita classe estudantil local da época, como secundaristas e universitários”.
Em 1964, as perseguições no RN se concentravam mais na capital. O 16° Batalhão de Infantaria (16 RI) era o principal local de prisões políticas, apesar de que outros estabelecimentos também serviram, como o quartel geral da Polícia Militar, Base Naval de Natal e a Base Aérea de Parnamirim, onde se registram as principais violações de direitos humanos. Já no final da década de 60 para início de 70 prisões foram registradas no interior, como o caso do estudante de engenharia Queginaldo, que participava do Diretório Central dos Estudantes (DCE) e era militante do Partido Comunista Brasileiro (PCB), preso em Alexandria (Oeste Potiguar).
Juan explica que na Comissão da Verdade da UFRN “a gente cataloga, em 64, diversas violações, como tortura, privação de sono, prisões extrajudiciais”. Com essas atitudes violentas e o grande número de prisões o governo conseguiu desmantelar as organizações sociais e estudantis do estado. Até que entre 1967 e 68 começou um engajamento bem intenso de pessoas em ações de resistência ao regime.
Segundo o advogado,“O PCB local, como em todo Brasil, se desintegra em outros partidos, como o Partido Comunista Revolucionário (PCR) e o Partido Comunista Brasileiro Revolucionário (PCBR). E lideranças estudantis, principalmente dos cursos de humanas (Direito, Sociologia e Serviço Social), tiveram uma participação mais intensa, como Emanuel Bezerra dos Santos (oficialmente assassinado pelo Regime)”. Esse maior engajamento leva esses militantes a partir para a luta armada.
Anistia
A partir da segunda metade da década de 70, nacionalmente se iniciou um processo de luta pela Anistia. Após o Movimento Feminino pela Anistia e o Comitê Brasileiro da Anistia, foram criados os comitês regionais e locais.
“O Comitê estadual foi criado em abril de 1979, quando já existia 15 anos de ditadura, de ausência de estado de direito”, explica a socióloga Maria Rizolete Fernades, que era secretária do órgão. Ela coordenava o Comitê junto ao deputado estadual Roberto Furtado e Sérgio Dieb, que se tornou vereador depois da abertura política.
O modo de operação desse Comitê era a realização de atos, audiências que mobilizassem a opinião pública e, também, visitas aos presos políticos nos locais de detenção. Segundo Juan, “o Comitê realizava, recorrentemente, audiências públicas, onde se debatiam a luta por uma Lei da Anistia em que mobilizasse a soltura de presos políticos, a reintegração de servidores públicos demitidos por circunstâncias políticas e ideológicas e a responsabilização de agentes públicos”.
Juan explica que “nessa segunda onda de repressão o Rio Grande do Norte não foi palco de prisões políticas. Maurício Anísio de Araújo foi um dos poucos presos políticos aqui, que ficou na penitenciária da Zona Norte. Mas a maioria dos potiguares eram presos em Pernambuco, unidade central do aparato da justiça militar”.
Rizolete nos conta que o Comitê organizava viagens à Ilha de Itamaracá (PE) para visitar os presos políticos potiguares. Ônibus eram alugados e uma comitiva viajava com comidas para partilhar com os detentos. Essa era uma forma de fiscalizar o estado da prisão e os proteger de retaliações. O dinheiro para essas viagens era recolhido de pedágios feitos no RN.
O Comitê exigia a Anistia, que, de maneira geral, pode ser compreendida como o “perdão de crimes políticos”. Ela é irrevogável, coletiva e concedida pelo Estado. O ato de anistia tem caráter radical pelo fato dela não apenas cessar a pena, mas o fato considerado criminoso. No Brasil, lutava-se para que ela fosse geral, ampla e irrestrita. Mas não foi o que aconteceu: a lei sancionada pelo Ditador João Batista Figueiredo não incluiu aqueles considerados terroristas e incluiu os militares torturadores.
De toda forma, muitas pessoas foram abarcadas pela Lei de Anistia de 79, principalmente servidores públicos que tinham saído de seus cargos por perseguição. Segundo Juan “diversos professores universitários e servidores estaduais voltaram aos seus antigos postos de trabalho, foi um movimento de readmissão e reintegração do serviço público no Rio Grande do Norte, uma volta do status quo de muito perseguidos políticos.”
Falta de memória local
O advogado Juan conta que durante a investigação da Comissão da Verdade da UFRN, “a gente enfrentou diversas dificuldades, sobretudo de pesquisa documental, pois o estado do Rio Grande do Norte não preserva bem os seus acervos de direitos humanos. A gente procurou num arquivo público do estado, em arquivos públicos em condições muito precárias da própria universidade. Constatamos sumiços de diversos acervos importantes, como no caso da Assessoria de Segurança e Informações, um órgão de repressão que funcionava dentro da universidade”.
Ele afirma que “a gente tem uma lacuna, de arquivos parcialmente destruídos e sem uma localização precisa. A memória sobre esse período ainda precisa ser muito bem elaborada, muito bem construída.” Esse processo de apagamento, segundo ele, serviu muito para as elites locais, porque a ditadura teve apoio delas.
Após todo relatório da Comissão, foi feito dez recomendações à universidade e aos poderes do estado, de medidas que visassem aprofundar ações de memória e verdade. Uma delas foi a criação de memoriais, em que a cidade pudesse ter consciência que houve ditadura e violações de direitos humanos aqui. Juan afirma que “nós temos diversas repartições militares que foram centros clandestinos de tortura, então isso passa muito despercebido aos ouvidos da população”.
Entretanto, os órgãos públicos ainda não acataram as recomendações da Comissão, o que é visto pelo advogado como “um projeto de esquecimento do que aconteceu naquele período e que ainda está muito presente.” Para ele, esse “apagamento” é ainda mais reafirmado com os posicionamentos do presidente Jair Bolsonaro (PSL) a favor de ex-torturadores e da própria Ditadura.
“A pauta do direito a memória, da reparação e da verdade, é algo que se foi definido como um projeto constituinte de país. Lá em 1987-1988, os deputados constituintes entenderam que o Estado brasileiro praticou crimes contra seus cidadãos. Esse projeto que Bolsonaro está encampando é contradizer o que a própria Constituição consagrou como projeto de país: que reconhece o que aconteceu no passado, repara seus cidadãos e tenta construir um novo presente”.
Edição: Marcos Barbosa - https://www.brasildefato.com.br
Adaptado pelo Centro Potiguar de Cultura - CPC/RN, em 24/12/2019.

Villa Lobos: a independência musical do Brasil

Não sem razão é lhe atribuída a “descoberta musical” do povo brasileiro.
Heitor Villa-Lobos, falecido há 60 anos, jamais poderá ser esquecido. Ele foi o principal responsável pela descoberta de uma linguagem peculiarmente brasileira em música de arte, o maior expoente musical de todo tempo moderno.
Por Carlos Russo Jr.*
Carioca, nascido em 1887, filho de Raul Villa-Lobos, músico amador, foi este quem lhe deu as primeiras instruções e adaptou uma viola usada para que o pequeno Heitor iniciasse seus estudos de violoncelo. Aos 12 anos, pobre e órfão do pai, Villa passou a tocar violoncelo em teatros, cafés e bailes. Em 1903, terminou com bolsa de estudos os estudos básicos no Mosteiro de São Bento.
Costumava juntar-se aos grupos de choro, que foi sua primeira paixão, tocando violão em festas e em serenatas. Foi nessa época que conheceu e tocou em parceria com músicos como Catulo da Paixão Cearense, Ernesto Nazareth, Anacleto de Medeiros e João Pernambuco.
Villa, entretanto, possuía uma necessidade íntima de conhecer a fundo a musicalidade e o folclore de nosso povo. Tendo como recursos unicamente sua viola e a capacidade de ensinar, realizou suas famosas viagens pelo norte e nordeste do Brasil, que duraram mais de sete anos. Os instrumentos musicais regionais, as cantigas de roda e os repentistas deixaram-no absolutamente impressionado. O jovem Villa assimilou em cada povoado, em cada cidade, nas tribos indígenas, nos sons dos animais da mata, a musicalidade de nosso povo e seus regionalismos.
Não sem razão é lhe atribuída a “descoberta musical” do povo brasileiro. E nosso folclore será a base sobre a qual ele edificará sua imensa criação artística, que por toda uma vida nem mesmo doenças chegaram a interromper. Será uma exuberante floresta tropical de obras, maravilhosa, imbricada, extasiante.
Retorna ao Rio em 1912 e já em 1913 casa-se com a reconhecida pianista Lucília Guimarães. O domínio exímio do piano, que principiara com uma tia, ele o deveu à sua primeira esposa.
Se as primeiras composições de Villa-Lobos trazem a marca dos estilos europeus da virada do século XIX para o XX, contendo influências de Wagner, Puccini, Cesar Frank e dos impressionistas, será nas “Danças Africanas” (1914) que ele iniciará seu “repúdio” aos moldes europeus e principiará o desenvolvimento de uma linguagem própria, que viria a se firmar nos revolucionários bailados “Amazonas” e “Uirapuru” (1917), elogiados por ninguém menos Debussy.
Villa chegará à década de vinte, perfeitamente senhor de seus recursos artísticos, revelados em obras que conquistaram até mesmo o Velho Mundo.
Já aquilo que podemos denominar de uma segunda fase musical, é essencialmente pianística, cheia da leveza da descoberta. Nela encontramos as “Cirandas”, a “Lenda do Caboclo”, a “Prole do Bebê”. As experiências pessoais com o folclore brasileiro resultaram em “O Guia Prático”, uma coletânea de canções destinadas à educação musical nas escolas.
Em 1922, Villa-Lobos participa da Semana da Arte Moderna. Nesse momento, ele deu forma musical a uma boa parte da poesia do modernismo brasileiro, destacando-se a adaptação do lirismo íntimo de um Manuel Bandeira, assim como às “Quatorze Serestas” de 1925. Deste período ainda teremos o “Noneto”, quase uma panorâmica folclórica do interior brasileiro, traduzida pelo gênio do compositor. Também os “Choros” e a “Alma Brasileira”, para voz e piano, aquela que inclui um dos pontos mais altos de toda a nossa musicalidade, o “Rasga Coração”.
Mário de Andrade comentou que Villa, ao universalizar o elemento básico da música, que é o canto popular, não o traiu, mas nele despertou o que há de mais humano.
Será um Villa, já formador de opinião, que viajaria a estudos para a Europa em 1924 e novamente em 1927, financiado pelo milionário carioca Carlos Guinle, retornando ao Brasil em 1930. Durante esse tempo no Velho Mundo, seu estilo eclético incorporou uma forte influência de Debussy e de Stravinsky, tendo ainda adensado um profundo estudo de Bach e de outros mestres do passado.
No retorno, Villa engaja-se na nova realidade produzida pela Revolução de 1930; realiza uma turnê por cidades, e introduz a “Cruzada do Canto Orfeônico”, levada a cabo na cidade do Rio de Janeiro. Em 1932, Vargas, de quem Villa-Lobos tornar-se-ia grande amigo, assinou um decreto que tornava obrigatório o ensino de canto orfeônico nas escolas. No mesmo ano, foi criado o Curso de Pedagogia de Música e Canto Orfeônico para Professores do Distrito Federal, projetos de Heitor Villa-Lobos.
Através de seu projeto de educação musical, Villa-Lobos procurava aproximar-se das massas populares, objetivando incutir-lhes os ideais de civismo, disciplina e ordem. De acordo com o historiador Arnaldo Contier, pela primeira vez no Brasil, um grande número de pessoas, em coro, teria entoado marchas e canções cívicas.
Villa-Lobos definia o canto orfeônico como um “fator poderoso no despertar dos sentimentos humanos, não apenas os de ordem estética, mas os de ordem moral, sobretudo aqueles de natureza cívica. Influi, junto aos educandos no sentido de apontar-lhes… a noção de disciplina, não mais imposta sob a rigidez de uma autoridade externa, mas aceita, entendida e desejada. Dá-lhes a compreensão da solidariedade entre os homens, da importância da cooperação, da anulação das vaidades individuais e dos propósitos exclusivistas…”
Mirelle Ferreira em sua tese sobre Villa, concluiu: “O grande interesse do maestro ao desenvolver seu projeto era ensinar música às crianças nas escolas públicas. Ainda que fosse bem remunerado pelo Estado, não podemos afirmar que o dinheiro movia seu trabalho. Embora expressasse uma postura política alinhada ao Estado Novo, a preocupação principal dela era a música, o ensino, a educação.”
No ano de 1937, o mestre desenvolverá a “Missa de São Sebastião” e a suíte “O Descobrimento do Brasil”, obra prima de uma polifonia desvairada, tropical, quase do tamanho de um “O Guarani” de Carlos Gomes do século passado.
O casamento de Villa com Lucília Guimarães termina na década de 1930, conflituoso como já o era de há muito. Lucília jamais lhe concederia o divórcio.
Em 1936, Villa conhecerá Arminda Neves d’Almeida, a Mindinha, com quem viverá até a morte, em 1959. A ex-aluna foi sua grande companheira tanto nos momentos mais difíceis, após a cirurgia de câncer a que deverá se submeter em 1948, quanto nos momentos de maior glória mundial vivida nos anos de 45. Deve-se a ela a compilação e a divulgação de parcela imensa da obra de Villa que permanecera inédita durante a vida.
Em 1942, quando o maestro Stokowski e a The American Youth Orchestra foram designados pelo presidente Roosevelt para visitar o Brasil, o maestro solicitou a Villa-Lobos que selecionasse os melhores músicos e sambistas, a fim de gravar a coleção “Brazilian Native Music”. Villa-Lobos reuniu Pixinguinha, Donga, João da Baiana, Cartola, que sob sua batuta realizaram apresentações e gravaram uma coletânea de discos, pela Columbia Records. Esta coleção, de enorme repercussão, incluiu definitivamente a música brasileira no repertório internacional de vanguarda.
Em 1944/45, Villa-Lobos viajou aos Estados Unidos para reger as orquestras sinfônicas das cidades Boston e de Nova York. Apareceu pessoalmente no filme da Disney “Alô, Amigos” (1940), ao lado do próprio Walt Disney, seu fã.
Em uma entrevista, em Nova York, Villa-Lobos foi perguntado sobre o uso de melodias indígenas em sua música. Ele respondeu que usava, sim, mas que eram melodias tão antigas que os índios atuais não as conheciam. Pergunta: “Se as melodias foram esquecidas pelos índios de hoje, como o senhor conseguiu entrar em contato com elas?”. Villa-Lobos, rápido: “Pelos papagaios. Os papagaios brasileiros ouviram essas melodias há muitos anos e não as esqueceram. Eles vivem até uma idade muito avançada. Ouvi os papagaios e anotei as melodias”.
Tirada típica do caráter e temperamento do compositor, um trocista emérito.
Em 1945, fundou a Academia Brasileira de Música.
A fase que muitos chamam de neobarroca de Villa, estendeu-se pelos quase quinze anos posteriores, cujos maiores destaques foram as “Bachianas Brasileiras” em número de nove, para diversas formações instrumentais e vozes. Um tributo a Bach, que nosso maestro considerava o maior folclorista de todos os tempos. As “Bachianas Brasileiras” são uma síntese absolutamente “sui generis” e genial, que funde sob as formas pré-clássicas elementos do folclore brasileiro, como a música caipira, com a intenção explícita de construir uma versão brasileira dos “Concertos de Brandemburgo”.
Trabalho de genialidade inigualável, alguns trechos se tornaram mais populares que outros: o quarto movimento da Bachiana n° 2, a tocata “O Trenzinho do Caipira”, a ária “Cantilena”, que abre a Bachiana de n° 5; o coral “O Canto do Sertão” e a dança “Miudinho”, ambos na Bachiana n° 4.
Appleby, um de seus biógrafos, destaca que o compositor, sempre bem humorado, também se dedicava a fantasiar os relatos sobre seu passado. “A cada pessoa ele contava uma história diferente sobre suas viagens entre 1905 e 1911, sobre o tempo em que teria morado em tribos indígenas”. Ao analisar o legado do compositor, o biógrafo diz que “Villa-Lobos criou o reconhecimento internacional da música brasileira que tornou possível o sucesso, mais tarde, da música popular brasileira”, colocando-o como o precursor de Tom Jobim, Caetano Veloso e Chico Buarque.
“Villa-Lobos não ligou para diferenças estilísticas entre música clássica e música popular”, afirma. “Tentou exprimir a alma brasileira com as ideias dele, formulando seu estilo individual.”
Não constitui exagero afirmar-se que com Heitor Villa-Lobos, a música brasileira alcançou a sua independência!
Bibliografia:
  1. Carpeaux, O.M.. Uma nova história da música. Zahar Editores.
  2. Sadie, S.. Dicionário Grove de Música: edição concisa. Zahar Editores,1994.
  3. Contier, A.. Identidade cultural e estética nacionalista na música brasileira (1922-1945).
  4. Appleby, D.. Heitor Villa-Lobos: a bio-bibliography. Greenwood Press, 1988.
*Graduado pela Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (FMRP) e pela Faculdade de Odontologia (FO), ambas da USP.

segunda-feira, 23 de dezembro de 2019

O Rio Grande do Norte já teve uma ilha que foi abandonada e inundada - Por Henrique Araujo

Na pequena povoação habitavam gente simples e pobre, pescadores e pequenos atravessadores de especiarias, mas também haviam portugueses com boas condições financeiras, interessados na exploração e no comércio de sal marinho.
Partiam da ilha carregamentos de peixes, couro e sal. Nesse período ocorreram saques por parte de embarcações de corsários, o que até levou os representantes da Coroa a construírem um fortim para defesa, o Forte de Manoel Gonçalves.
Mapa do RN de 1811 onde consta a Ilha de Manoel Gonçalves
Quem fundou essa ilha foram os portugueses Martins Ferreira e seus genros Antônio Joaquim de Souza, Manoel Antônio Fernandes, José Joaquim Fernandes, Manoel Fernandes e o brasileiro João Garcia Valadão, o João da Hora.
Eis que no ano de 1825 as águas do mar do Oceano Atlântico começaram a avançar de uma forma que a população que vivia lá não tinha outro jeito senão abandonar a ilha e procurar abrigo em região próxima.
Mapa do RN onde consta a Ilha de Manoel Gonçalves. Fonte: Lemnisco.
Os moradores partiram em busca de outro local na mesma região, e acabaram se instalando às margens do Oceano Atlântico, num local que oferecia condições para instalações do povoado. A nova localidade se chamou Alagamar, e depois: Macau.
Segundo Câmara Cascudo, Macau, tem este nome em razão das semelhanças geográficas com a pequena cidade chinesa de Macau (ou Macao), na província de Cantão, que foi território português até 1999. Mas há uma controvérsia em realização à origem do nome. Segundo o escritor Getúlio Moura, em seu livro “Um Rio Grande e Macau”, o nome Macau tem origem nas araras vermelhas que habitavam a região, cujo os indígenas chamavam de “Macaw”.
Outros autores dizem que a palavra vem da palavra chinesa “A-ma-gao”, e que significa “Porto de À Má”, a deusa dos navegantes.
Bandeira de Macau (RN)
O fato é que a ilha de Manoel Gonçalves foi a primeira povoação do que hoje é o município de Macau, a 175 quilômetros da capital Natal.
A ilha desaparecida foi tema de um livro do professor, escritor e historiador João Felipe da Trindade, clique aqui pra conferir.
Rio Piranhas-Assu, Foto: Fábio Pinheiro.

Fonte: Curiozzo
No dia 2 de outubro de 1847, de acordo com a Lei nº 158, a cidade se

1% do PIB para a Cultura: Artistas, arqueólogos, bibliotecários e arquivistas se manifestam em Portugal

Centenas de artistas e trabalhadores da área da Cultura se reuniram em Lisboa, Porto e Bragança no dia 10/12, dia Internacional dos Direitos Humanos, para exigir 1% do PIB.


Por Miranda                                                                                                                                            
Centenas de artistas e trabalhadores da área da Cultura se reuniram em Lisboa, Porto e Bragança no dia 10/12, dia Internacional dos Direitos Humanos, para exigir 1% do PIB.
O Orçamento do Estado para 2020 foi apresentado na última segunda-feira na Assembléia da República sem nenhum novo posicionamento ou clareza com relação à Cultura. Pode ser alterado até fevereiro do ano que vem.
Atualmente o montante destinado ao sector não chega a 0,3%. Os projetos contemplados são escolhidos após inscrição em concursos da DGartes, cujo critério de avaliação dentre os projetos considerados elegíveis é pouco claro.
Convocados pela plataforma Cultura em Luta, artistas e trabalhadores da área da conservação foram às ruas. Calculam que com apenas 8,5 milhões de euros teria sido possível contemplar todos os projetos elegíveis apresentados neste ano. 75 projetos elegíveis ficaram de fora. A região do Alentejo, por exemplo, não teve nenhum apoio do governo neste ano e Trás-os-Montes, por sua vez, ficou com zero de recursos na área do teatro. Há também suspeitas de que parte da mísera verba destinada para a Cultura esteja a ser desviada para pagar docentes, mesmo apesar da área da Educação ter uma verba muito maior para existir e, pior, verba esta que sai do Orçamento Obrigatório do Governo e não do Orçamento Discricionário do governo (uma espécie de orçamento para despesas pontuais e esporádicas), como é o caso da Cultura.
Esta também é uma das lutas dos trabalhadores da Cultura: fazer com que a despesa na área seja vista como investimento na formação dos humanos e da memória que compõem este país e, portanto, exigem que o montante destinado à Cultura seja incluído no Orçamento Obrigatório do Estado.
A arte tem uma importante função na constituição dos seres humanos, enquanto estimulante do pensamento crítico e da criatividade, é um meio de dar asas aos sonhos, portanto, tem um papel fundamental. Numa sociedade materialista e num planeta que, mais do que nunca, precisa de criatividade para se reinventar em face a autodestruição, sim, a Arte faz diferença.
Manifesto em Defesa da Cultura:
“CULTURA EM LUTA. 1% do PIB PARA A CULTURA. PARA UM PAÍS DE CULTURA
Nós, gente reunida neste tempo, reunidos neste país nascido há 45 anos, queremos. Queremos lutar pelo direito de todos a toda a Cultura. Exigimos o cumprimento da Constituição da República. Exigimos que o Estado assegure o livre acesso de todos à criação e fruição culturais e assuma a responsabilidade de prover os meios necessários a esse fim. Queremos uma política cultural democrática, que reconheça o primado do direito de todos os cidadãos à criação e à fruição, que reconheça o direito de todos à produção da cultura do seu tempo.

POR UM SERVIÇO PÚBLICO DE CULTURA

Propomos e lutamos pela definição e construção de um serviço público de cultura em todo o território nacional. Um serviço público organizado, equipado com recursos humanos e técnicos e o devido financiamento, assente no levantamento do que existe e do que pode e quer existir, tendo em conta as diferenças, as possibilidades e as carências no território. Um serviço público que organize uma rede de serviços e de bens, que promova e apoie as iniciativas, as organizações e as dinâmicas existentes e que detenha e ponha em movimento os meios e equipamentos necessários ao livre desenvolvimento e dinamização cultural das comunidades e das pessoas. Um serviço público de matriz nacional, orientado para a liberdade e a diversidade, nunca fragmentado ou municipalizado.

TODO O APOIO ÀS ARTES

Afirmamos uma radical recusa desta miséria de política para a criação artística e literária.”

Fonte: Jornalistas Livres

Coca-Colonização da cultura: Como o Natal se americanizou pelo mundo

A hegemonia sociocultural e econômica dos EUA exportou um Papai Noel de roupas vermelhas e uma garrafa de Coca-Cola em mãos como árbitro das celebrações natalinas
por Gabriel Deslandes
O feriado religioso mais popular da cristandade carrega em si próprio uma grande contradição: é durante as celebrações de Natal que ao menos quatro dos sete pecados capitais, condenados pelo cristianismo, são mais venerados – a gula, a luxúria, a avareza e a inveja.
A festividade cristã se tornou uma das datas comerciais mais lucrativas e, embora esse fenômeno não seja essencialmente norte-americano, ele se agudizou à medida que avançava a hegemonia sociocultural e econômica dos EUA, que exportou um Papai Noel de roupas vermelhas e uma garrafa de Coca-Cola em mãos como árbitro das celebrações natalinas em todo o mundo.
Basta estudar a própria construção simbólica do Natal tipicamente norte-americano para constatar que a festividade bebe das mais diversas tradições culturais europeias, trazidas por imigrantes e incorporadas à cultura popular dos EUA. É nesse sentido que o antropólogo britânico Daniel Miller – estudioso formulador da “Teoria do Natal”, por meio da qual expõe descaracterizações na data, trazidas pela obrigação da troca de presentes – identifica uma série de linhas de influências que atravessaram os mares e passaram a operar na celebração do Natal desde meados do século 19.
Segundo Miller, o Natal moderno mistura o corte de árvore da tradição alemã, o preenchimento de meias da tradição holandesa, o envio britânico de cartões natalinos e a manjedoura dos presépios típica dos italianos. Além disso, os dois artistas responsáveis ​​pelas representações visuais mais influentes da figura do Papai Noel tinham fortes antecedentes europeus: no século 19, o cartunista Thomas Nast (nascido na Alemanha em 1840) e, no século 20, o ilustrador publicitário Haddon Sundblom (norte-americano de ascendência sueca e finlandesa).
Entretanto, para o professor de Estudos de Mídia George Mckay, da Universidade de East Anglia, houve nos EUA um elemento fundamental para que todos esses símbolos oriundos de ritos cristãos e pagãos se aglutinassem em um só arquétipo moderno de festejo natalino: o fenômeno do consumo de massa.
O Natal disseminado como ocasião de consumo de massa impulsionou o feriado como “festival global”. Se o Natal contemporâneo, de fato, envolve uma amálgama de costumes, geralmente específicos de nações, regiões ou até aldeias, também está integrado à formação de símbolos e costumes “globais”, isto é, influenciados pelos processos de globalização e americanização. Na própria sequência de “’festivais de consumo” no calendário norte-americano, que inclui o Halloween e o Dia de Ação de Graças, somente o Natal alcança o status de festejo global, tendo como principal figura visual o Papai Noel, um personagem criado nos EUA.
Um discurso recorrente em críticas ao aumento do consumo no Natal é que há uma contradição entre a concepção tradicional da data como festividade cristã e ritual de celebração da família – espaço caracterizado pela afetividade – e o comércio durante a temporada natalina – espaço intrínseco à esfera impessoal do mercado. O “materialismo” vigente no sistema de mercadorias seria a força capaz de destruir o “espírito natalino”, e a oposição imediata a ele seriam certos laços de sociabilidade, em especial a família nuclear.
O ritual de dar presentes no Natal remonta às sociedades pré-industriais. Ele começou na época das 13 Colônias, quando os primeiros norte-americanos mantinham uma antiga “obrigação” de oferecer presentes aos mais pobres. Naquele período, não havia ainda a troca de presentes, mas apenas uma “doação”. Porém, essa tradição futuramente se readequou a um conjunto de práticas e inovações na vida social e comercial ligadas ao desenvolvimento do capitalismo ocidental nas esferas urbanas, tanto doméstica como pública. Ao mesmo tempo, a expansão das lojas de departamentos criou uma experiência de lazer e de estilo de vida consumista, e a publicidade se tornou uma forma dominante de comunicação e persuasão da mídia de massa, baseada, em grande medida, nos novos produtos disponíveis nessas “catedrais do consumo”.
Ainda no século 19, os lojistas norte-americanos perceberam o enorme potencial de impacto do Natal no aumento de suas vendas. O primeiro reconhecimento do aumento sazonal nas vendas e no volume de negócios no período natalino – fenômeno comercial hoje conhecido de todos – aconteceu já em 1867, quando Rowland Hussey Macy, dono da tradicional loja de departamentos Macy’s, estendeu o horário de funcionamento de sua loja em Nova York até meia-noite, fazendo com que, em único dia, atingisse um recorde de vendas superior a US$ 6 mil. Em 1874, a Macy’s inovou ao apresentar na vitrine uma promoção de bonecas importadas no valor de US$ 10 mil, exclusiva para a compra de presentes natalinos, e ao oferecer bônus de Natal a seus funcionários.
O significado social da popularização das lojas de departamentos nos EUA e, mais tarde, na Europa no final do século 19 e início do século 20 ultrapassa a mera ascensão do consumo e do “materialismo”. Era algo inédito que consumidores pudessem entrar gratuitamente em uma grande loja, e a disposição acessível das mercadorias estimulava as compras, mesmo para quem não tivesse condições de comprar. Em outras palavras, as lojas de departamento democratizaram o desejo.
Além disso, foi nessa época que a loja de departamentos Montgomery Ward, em Chicago, criou no imaginário popular outro personagem símbolo do Natal: Rudolph, a rena do nariz vermelho. Em 1939, mais de 2 milhões de cópias da história de Rudolph foram enviadas junto com os catálogos da Montgomery Ward. Uma década depois, a canção homônima cantada por Gene Autry, baseada no personagem da rede de lojas, tornou-se um grande sucesso e continua sendo uma das canções de Natal mais populares da temporada natalina nos EUA, evidenciando a inter-relação entre publicidade e cultura popular. Todavia, nenhum símbolo expõe de forma mais explícita a relação entre a temporada natalina e predominância do jogo das relações mercantis do que a figura do Papai Noel.
A divindade do “materialismo”
Com seu saco de presentes e dotado de toda sorte de poderes mágicos – onisciência, voo, viagem no tempo e mudança de forma –, o personagem do “bom velhinho” foi central na transformação do Natal em um festival global. Sua principal característica como provedor de bens de consumo fez com que alçasse o status de símbolo da abundância material e do prazer hedonista e, por consequência, de “divindade do materialismo”, como diria Daniel Miller. Ele – e não Jesus Cristo – passa a ser a figura central de organização do evento, e o nascimento a ser comemorado não era mais o do aniversariante da data segundo a tradição cristão, mas o de um novo nicho de mercado.
Figura sagrada feita sob medida para um mundo secular, o Papai Noel moderno é fruto da fusão sincrética de vários personagens diferentes trazidos por imigrantes europeus aos EUA. É o que aponta Claude Lévi-Strauss em seu clássico ensaio O Suplício do Papai Noel, de 1952, em que analisa um caso ocorrido no Natal anterior em Dijon, na França, quando católicos e luteranos se uniram para queimar um boneco de Papai Noel em uma fogueira em protesto pela “crescente paganização do dia de Natal” – um episódio que o jornal espanhol El País apelidou de “o último auto de fé da Europa”. Para o antropólogo francês, a variedade de nomes dados ao personagem – Papai Noel, São Nicolau ou Santa Claus – demonstra que ele é resultado de um “fenômeno de convergência e não um protótipo antigo conservado por toda parte”.
Por outro lado, o “bom velhinho” identificado fundamentalmente a partir dos EUA não se assemelha mais com os personagens europeus que o originaram, como São Nicolau (protetor dos marinheiros e comerciantes) ou Knecht Ruprecht (companheiro de São Nicolau, de acordo com o folclore alemão). Ele tem uma personalidade mais apresentável para sua aparição em lojas e residências e distribui presentes e não apenas frutas, nozes e brinquedos caseiros. Com uma aparência paterna não ameaçadora, sua imagem como conhecida hoje surgiu em janeiro de 1863 pelas mãos do cartunista político da revista Harper’s Weekly, Thomas Nast. Em um contexto de Guerra da Secessão nos EUA (1861-1865), o Papai Noel já estava localizado ideologicamente nos desenhos de Nast. Para construir parte do imaginário da União (o Norte) durante a Guerra Civil, a implicação era que as crianças sulistas se perguntariam por que o Papai Noel não as estava visitando.
Um homem estranho, gordo e de bochechas rosadas que invade as casas no meio da noite e frequentemente visita as crianças em seus quartos passou a evocar não um pesadelo, mas um sonho e desejo, e se tornou símbolo de um festival domesticado. Por ironia, a despeito de sua aparência distinta e de sua origem localizada reconhecidamente nos EUA, o Papai Noel não é facilmente identificável como uma figura tipicamente norte-americana – suas roupas, por exemplo, são vermelhas e brancas e não vermelhas e azuis, tais quais as cores da bandeira nacional. Talvez a única exceção a isso seja o primeiro desenho de Nast, de 1863 – um Papai Noel em um acampamento de tropas da União com a bandeira estrelada em seu paletó e calça listrada.
De fato, a americanidade do Papai Noel se tornou mais clara desde os primeiros antecedentes históricos da propaganda para o marketing sazonal de Natal ainda no século 19, quando uma loja na Filadélfia utilizou o personagem para fazer propaganda de suas mercadorias aos transeuntes e recorreu à sua representação visual que se tornaria clássica no século seguinte – alegre, corpulento, com uma barba branca e vestindo roupas felpudas. Pois essa é a imagem incorporada à publicidade da Coca-Cola Company no início da década 1920, quando a marca de bebidas começou a fazer campanhas de Natal nas cores corporativas da empresa em vermelho e branco, a fim de expandir as vendas de refrigerantes no inverno. Foi a campanha da Coca-Cola que tornaria tal representação do Papai Noel consagrada no imaginário coletivo contemporâneo.
A companhia de bebidas utilizou o personagem em sua publicidade sazonal pela primeira vez em 1915 e, mais tarde, quando desenvolveu propagandas de sua água mineral White Rock especialmente para a revista Life entre dezembro de 1923 a 1925. Os anúncios mostravam um Papai Noel em trajes e cenários familiares: roupas de pele vermelhas e brancas, sentado ao lado de uma geladeira, em ambientes domésticos de Natal confortáveis ​​e acolhedores (em geral, em contraste com uma cena de inverno do lado de fora, visível através de uma janela). Em meio à década da Proibição pela Lei Seca (1920-1933), os anúncios popularizaram a White Rock a ponto de seu nome ter virado sinônimo de água com gás e, mais tarde, um código secreto para pedir bebidas alcoólicas misturadas nos bares norte-americanos.
Foi a partir de 1931 que a figura visual do Papai Noel ganharia extrema popularidade com os traços do ilustrador Haddon Sundblom e demarcaria definitivamente a conexão no seio da sociedade norte-americana entre a publicidade natalina e o comércio. Os desenhos coloridos do personagem por Sundblom – impressos não só em revistas, mas também em cartões natalinos – ocupam até hoje um lugar central no imaginário público sobre o que representa o Natal.
Do ponto de vista mercadológico, a sazonalidade das vendas é um ponto nevrálgico para produtos refrigerados, já que há pico de vendas no clima quente (verão) e queda no frio (dezembro é inverno nos EUA). Assim a Coca-Cola soube articular sua estratégia de marketing sazonal de aumento de gastos dos consumidores com a compra de presentes e, para tal, optou por associar sua imagem ao consumismo crescente da época festiva. Por isso, sua campanha inicial foi “Sede não conhece estação”. Inicialmente, os anunciantes apresentaram Papai Noel relaxando de seus trabalhos bebendo o refrigerante; depois, mostraram como as crianças poderiam deixar não mais leite, mas uma Coca-Cola, para o “bom velhinho”; por fim, sugeriram que os presentes entregues pelo Papai Noel eram em troca do próprio refrigerante. Todo esse conjunto de códigos compunham a identidade de uma marca poderosa com reconhecimento transnacional.

A “Coca-Colonização” do mundo

No anúncio de Natal da Coca-Cola de 1943, Papai Noel é mostrado caminhando alegremente pela neve virgem com um pesado saco de presentes sobre um ombro e uma garrafa de Coca-Cola na outra mão. Suas botas cobertas de neve, indicando a longa jornada que peregrina, e o slogan “’Onde quer que eu vá” são a metáfora perfeita da ambiciosa expansão global do plano de negócios da empresa. Por trás dela, na direção em que ele está caminhando, também flutua um globo terrestre, enrolado com uma fita e um rótulo de presente de Natal. No globo, podem ser facilmente identificadas as Américas, a África e a Europa, enquanto o logotipo “Coca-Cola” cobre o território dos EUA no mapa.
Na mesma época, os soldados norte-americanos no front na Europa bebiam garrafas de Coca-Cola fornecidas pelo próprio governo dos EUA como parte dos esforços de guerra. O slogan publicitário de 1945 era: “Sempre que você ouve ‘Coca-Cola’, ouve a voz da América”. Cinco anos depois, as fábricas da companhia já estavam estabelecidas em diversos países da Europa Ocidental, e a capa da revista Time mostrava o mundo bebendo uma garrafa de Coca-Cola. O refrigerante estava rapidamente se tornando a bebida do planeta.
Na Europa do pós-Guerra, a chegada da Coca-Cola provocou oposição em vários países. Em muitos casos, os interesses locais de bebidas tentaram bloquear a entrada do refrigerante americano, como na Bélgica e na Suíça, onde a companhia enfrentou ações judiciais sob a alegação de que continha uma quantidade perigosa de cafeína. Na Dinamarca, as cervejarias conseguiram banir a bebida temporariamente. Na maioria dos casos, os partidos comunistas locais lideraram essa oposição, descrevendo a bebida como uma droga viciante ou mesmo um veneno. Na Itália, o L’Unità, jornal do Partido Comunista, alertou os pais de que a Coca-Cola poderia deixar os cabelos das crianças brancos. Já os comunistas austríacos afirmaram que a nova fábrica de garrafas em Lambach poderia ser facilmente transformada em uma fábrica de bombas atômicas.
Todos esses distúrbios pareceram triviais se comparados com o tamanho da controvérsia de quando a Coca-Cola chegou à França, onde as primeiras garrafas de Coca-Cola foram vendidas aos militares americanos em 1919, após a Primeira Guerra Mundial. Porém, com exceção de alguns cafés famosos que atendiam a turistas americanos, os estabelecimentos franceses raramente serviam a bebida durante os anos 1920 e 1930. Após a Segunda Guerra, a Coca-Cola Export Corporation orquestrou um plano de marketing voltado ao país, com a construção de uma nova fábrica em Marselha. As concessionárias deveriam empregar técnicas americanas de vendas e distribuição, incluindo novos caminhões brilhantes pintados nas cores da empresa, degustação gratuita e recomendações por parte de esportistas e artistas de cinema.
Prontamente, iniciou-se uma fortíssima oposição à penetração da empresa de bebidas na sociedade francesa. A Coca-Cola enfrentou sérios problemas políticos e levantou preocupações generalizadas sobre a “americanização da França”. A expressão “Coca-Colonização” ganhou as páginas da mídia imprensa comercial e de esquerda e, entre 1949 e 1953, travou-se uma batalha que ia desde os círculos comunistas até o governo da 4ª República francesa, passando por industriais e viticultores – todos discutindo sobre cultura e identidade nacionais da França em meio à implantação do Plano Marshall. O jornal comunista L’Humanité se perguntava: “Seremos coca-coca-colonisés?”. O Partido Comunista Francês alertava que a companhia norte-americana diminuiria ainda mais as vendas de vinho e que as reduções tarifárias exigidas pela Coca-Cola piorariam o déficit comercial do país, além de noticiar o boato de que o sistema de distribuição da empresa serviria de fachada para a rede de espionagem dos EUA.
Nesse cenário típico de Guerra Fria, o antiamericanismo liderado pelos comunistas atacou a geladeira como um sintoma do consumo excessivo dos norte-americanos. Para os militantes do Partido Comunista Francês, a Frigidaire, subsidiária norte-americana da marca de eletrodomésticos Electrolux, produzira equipamentos inúteis para a maior parte do ano, exceto por fazer cubos de gelo para coquetéis de uísque. Isso porque, na França, fazia frio o suficiente para pendurar na janela as sobras de cordeiro, e elas se manteriam conservadas de domingo até quarta-feira.
Paralelamente, a geladeira era um item essencial da vida cotidiana norte-americana mesmo durante o inverno. Portanto, o eletrodoméstico era símbolo da esfera doméstica das casas nos EUA, justamente o espaço familiar que servia de ambiente para os anúncios natalinos do Papai Noel da Coca-Cola – retratados com uma lareira crepitante, uma árvore de Natal decorada e uma geladeira contendo garrafas de refrigerante.
Já sacralizado como ícone central das publicidades da Coca-Cola, fica difícil não pensar o Papai Noel, portanto, como um emblema global do modelo de consumo constituinte do American way of life. A diáspora do Papai Noel não é diferente da diáspora da Coca-Cola como uma alegoria da modernidade americana. Nesse sentido, as formas de consumo nos EUA inscreviam em si próprias variadas expressões de poder, prazer e medo. Consistiriam elas uma forma de imperialismo cultural por parte dos EUA? Afinal, o conceito de imperialismo cultural norte-americano diz respeito à própria agressividade com a qual Washington tenta exportar seus bens culturais e ideologias dominantes a outras nações. Essa modalidade de imperialismo não significa controle colonial aberto, mas dependências econômicas e dominação ideológica por influência cultural. A exportação da cultura popular norte-americana é criticada nos países que a recebem por conta de seus supostos efeitos homogeneizadores, que eliminariam peculiaridades locais.
No movimento de americanização, a penetração global das empresas norte-americanas anda de mãos dadas com uma disseminação cultural e ideológica quase unilateral. O marketing da mídia norte-americana, incluindo o cinema hollywoodiano e sua música popular, se integra à presença política, econômica e militar dos EUA em todos os continentes, propagando os costumes e valores norte-americanos, bem como o próprio idioma inglês em todo o mundo. Segundo o professor George Mckay, nesse jogo, a novidade se sobrepõe à tradição e a nostalgia à história, e a mídia de massa e a mercantilização desenfreada nos negam agência em nossas próprias escolhas culturais.
É justamente a esse processo que diferentes sociólogos deram o nome de Disneyzação (Alan Bryman), McDonaldização (George Ritzer) e Walmartização (Neil Wrigley), assim como, é claro, a Coca-Colonização. Todos eles defendem que, nas sociedades contemporâneas, elementos culturais – roupas, música, TV, alimentação, convenções linguísticas e modelos de negócios – aparentemente estão se tornando cada vez mais padronizados. A Coca-Colonização sustenta a perspectiva da homogeneização do mundo, fruto do triunfo do imperialismo cultural sobre as culturas locais rumo a um modelo de consumo mundialmente americanizado.
Cruzando fronteiras com facilidade, os prazeres da América são experimentados pelo mundo inteiro pelo consumo conspícuo de produtos de marcas dos EUA, como os cigarros Marlboro, os tênis Nike, as barras de chocolate Hershey, os jeans Levi e os chicletes Wrigley – comprados pelo simples fato de serem norte-americanos. O regozijo pelo livre acesso a essas marcas – profissionais em apelar e manipular cada vez mais às emoções de seus potenciais consumidores – é acompanhado do consumo cultural do rock ‘n’ roll, jazz, rap, NFL, NBA, HQs, pop art, fast food e LSD, envolvendo os jovens estrangeiros no hedonismo e provocando pânicos morais regulares entre diferentes gerações em torno da última moda pop.
No caso do Velho Mundo, hierarquias culturais e consensos intergeracionais foram bruscamente rompidos no decorrer do século 20. As reações populares ao poder mercadológico desses cânones do capitalismo norte-americano contribuíram para uma corrente de desconfiança dos EUA e de seus prazeres culturais pop entre os mais significativos setores das sociedades europeias. Essa desconfiança atravessa todo o espectro político e ganhou dimensões perigosas durante a Guerra Fria. O medo francês da dominação norte-americana em seu território tem um sentido não só cultural, mas também político e econômico.
Em um cenário em que a Coca-Cola e a iconografia do feriado natalino se desenvolveram quase como irmãos gêmeos nos EUA, a reação à livre invasão cultural das mercadorias e da simbologia norte-americana do Natal mistura crítica políticas e estritamente estéticas. Na Europa, são recorrentes narrativas contrárias à invasão de um Natal americanizado, que exporta consigo árvores de plástico, neve enlatada, Papai Noel de poliéster e canções natalinas gravadas como músicas de elevador. Durante novembro e dezembro de 1991, no Canadá, as pinturas do Papai Noel de Sundblom para as propagandas da Coca-Cola foram exibidas em exposição no Museu Real de Ontário, em Toronto, e rapidamente sofreram um rechaço coletivo de críticos de arte, que repudiaram a “associação do museu com junk food” e a vinculação do “nascimento de Cristo com o Papai Noel, com o consumo”.

Natal, consumismo e americanização?

Porém, afinal de contas, se o Natal se tornou temporada de consumo dentro da lógica do capitalismo norte-americano, o sentido tradicional do feriado religioso teria sido completamente corrompido? O Natal contemporâneo, moldado nas formas do American way of life, seria uma mera “profanação” descaracterizada pelo consumismo, perdendo seu valor originalmente sagrado? Para o sociólogo Michael Schudson, da Universidade de Columbia, a prevalência do costume de dar presentes sugere que as pessoas frequentemente compram coisas não porque são materialistas, mas porque são seres sociais. Portanto, em geral, elas não estariam substituindo os valores familiares tradicionais pelo consumo material, mas, sim, consumindo com o objetivo de preservar os próprios laços afetivos.
Por outro lado, toda a esfera pública vem sendo progressivamente penetrada e dominada por interesses corporativos. Isso significa que as atividades socioculturais se tornaram objetos de importância comercial e levam ao surgimento de “sociedades de outdoors”, em que cada pessoa, instituição ou evento pode se transformar em um portador potencial de mensagens comerciais.
Nessa conjuntura, um arquétipo de Natal foi impulsionado ao máximo com a internacionalização das grandes marcas dos EUA, com a Coca-Cola à frente desse processo incontrolável que a jornalista e ativista canadense Naomi Klein apelidou criticamente de “promessa equalizadora de um globo conectado por logotipos”. Em meio à profusão de comerciais de grandes marcas mostrando locais estranhamente remotos, a representação dominante é de que as fronteiras geográficas e culturais são transcendidas pelas formas de mercadorias.
Além disso, tal “cultura do consumo” comumente é acusada de ofuscar valores imateriais, como a própria religião. De fato, o capitalismo contemporâneo é caracterizado por processos de mercantilização e secularização, transformando todas as práticas culturais daqueles que entram em sua órbita. Ao mesmo tempo, o simbolismo e as práticas rituais que incorporam distinções sagradas e profanas continuam a existir nos processos sociais seculares, e com o “festival global” do Natal não é diferente.
Nesse sentido, a história da própria Coca-Cola e de seu consumo no Natal por meio da figura-chave do Papai Noel em seus anúncios desde os anos 1930 deixa clara a relação entre o “materialismo” e o feriado natalino como parte de uma americanização da cultura popular a nível mundial. Por mais que lutas ideológicas tenham sido travadas no século 20 contra a tomada do feriado religioso pelo consumismo ininterrupto, trata-se de um processo integrado a uma conjuntura muito maior de transnacionalização do capital e de hegemonia política e cultural dos EUA no mundo.
Fonte: Revista Opera