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Centro Potiguar de Cultura - CPC/RN - 2009/2019 " "Dandara", simbolo de luta em favor da LIBERTAÇÃO da população NEGRA!&...

terça-feira, 10 de dezembro de 2019

10 DE DEZEMBRO - DIA DO PALHAÇO!

GRUPO ARTE VIVA
Imagem de Messias, coordenador das Casas de Cultura do RN

"PALHAÇO" é alegria.
É a alma da platéia.
Palhaço é filosofia.
Também ele é ideia.
O "Circo" sem palhaço
É lobo sem alcateia.
Parabéns aos palhaços e palhaças pelo seu dia.
10 de dezembro!

GÉLSON PESSOA

Delírio e ignorância no caos cultural

O ataque à arte e à cultura deflagrado pelo governo Bolsonaro não é um ataque comum. A investida vem acompanhada de delírio e ignorância, num acesso de insanidade jamais visto; um grande espetáculo de preconceito e mentiras protagonizado pelos próprios gestores dessa área – ou pelo que restou dela.
Por João Paulo*
Vivemos nesta semana o auge do pesadelo anticultural por meio de atos e palavras sem nexo com a realidade, uma triste fase de falsificação da história com potencial de destruir o senso crítico, a melhor arte deste país e o pensamento intelectual, como se o atual governo odiasse tudo que não entende e quisesse substituir a cultura por algo sem pé e nem cabeça, baseado em ideólogos obscurantistas como o astrólogo e teórico da conspiração Olavo de Carvalho, um negacionista da Ciência que vive nos Estados Unidos e tem notória influência neste governo.
Houve de tudo de segunda-feira para cá. O novo secretário da Cultura, Roberto Alvim, que havia agredido a atriz Fernanda Montenegro no mês passado, abriu um portal de onde saiu um grupo de auxiliares alucinados em termos culturais – alguns deles defensores da “teoria da Terra
Plana”, a ponto de chamar quem está certo sobre o formato do planeta de “terrabolistas”.
Todos eles muito próximos do estilo da ministra Damares Alves no quesito irracionalidade e desvario. O maestro Dante Mantovani, por exemplo, nomeado para a Funarte, diz que o “rock ativa as drogas, que ativam o sexo livre, que ativa a indústria do aborto, que ativa o satanismo”.
Rafael Nogueira, designado para a presidência da Biblioteca Nacional, e também discípulo de Olavo de Carvalho, associa Caetano Veloso ao analfabetismo, enquanto a nova secretária do Audiovisual, Katiane de Fátima Gouvêa, não exibe em seu currículo qualquer experiência na área audiovisual, mas se dedica a protestar contra obras de arte que, em sua visão, não se alinham ao patriotismo, à preservação da família e aos símbolos nacionais, como se a arte tivesse a obrigação de alimentar esses valores como se fosse uma instituição religiosa ou militar.
Na terça-feira, cartazes de filmes brasileiros foram removidos dos corredores da Ancine e do site da agência de fomento ao cinema, por determinação do atual presidente, Alex Braga. Uma tentativa de apagar da memória clássicos como “Deus e o Diabo na Terra do Sol”, de Glauber Rocha, “O Bandido da Luz Vermelha”, de Rogério Sganzerla, e “Cabra Marcado para Morrer”, de Eduardo Coutinho.
O ataque à cultura brasileira é um caso grave e preocupante, embora algumas vezes a falta de noção soe como humor involuntário. O próprio Alvim, conhecido por detratar a arte brasileira em fóruns internacionais, parece querer repetir no Brasil, a farsa do nazismo em relação à arte. A exemplo de Hitler, o secretário e sua equipe parecem preocupados em destruir toda a produção cultural que não esteja baseada nos ideais clássicos de pureza, embora Alvim tenha pouca informação sobre o classicismo, preferindo atribuir à arte seus preconceitos ideológicos, tratando a atual produção cultural como coisa de esquerdista.
O resultado dessa tragédia é o empobrecimento da cultura; é a transformação de órgãos como a Funarte em máquinas de propaganda política do governo; é a volta da censura e da ideologia autoritária como meio e fim da arte e o fechamento de incentivos e editais para produções de qualidades, deixando o Brasil fora do circuito internacional, como é o caso do cinema, em que produções nacionais, algumas delas de Pernambuco, têm conquistado prêmios de festivais renomados, como os de Cannes e Berlim.
Até agora não se sabe se a concepção medieval estabelecida nessa área é loucura ou método. De qualquer forma, a prevalência dessas ideias perdidas no tempo comprometerá o futuro da cultura brasileira, que é a alma do nosso povo.
*  Deputado estadual pelo Partido Comunista do Brasil (PCdoB) e primeiro presidente da CUT Pernambuco. Eleito quatro vezes deputado estadual e depois prefeito do Recife  sendo reeleito em 2004. Foi deputado federal e ex-superintendente da Sudene. Economista, professor e ex-metalúrgico.
As opiniões aqui expostas não representam necessariamente a opinião do Portal Vermelho.

Tom Jobim e a ditadura, por Urariano Mota

Por força destes meses malditos de fascismo, para falar sobre Tom Jobim pesquiso sobre a sua vida na ditadura, sobre o que ele passou e nem sempre deixou claro. Na Wikipédia, encontro:
“Em 1971, ano anterior à composição de ‘Águas de Março’, Tom Jobim havia sofrido a única grande perseguição política em sua vida.[4] Em um protesto contra a censura que vigorava durante a ditadura militar no Brasil, Tom Jobim e alguns compositores assinaram um manifesto e se retiraram do Festival Internacional da Canção, da Rede Globo. Doze artistas, entre os quais Tom, foram detidos e, durante algumas horas, interrogados.[5] Segundo declarações posteriores de Chico Buarque, Edu Lobo e Ruy Guerra, um diretor da emissora esteve presente e insistiu para que os compositores voltassem atrás e retornassem ao festival. A pressão não funcionou, mas – na opinião de Chico e Ruy – instigou o aparelho repressivo do regime a enquadrá-los na Lei de Segurança Nacional.[4] Depois, Tom foi intimado várias vezes a prestar depoimento, chegou a ter o seu telefone grampeado e a suas cartas, violadas.[4] Segundo Tom, a questão foi resolvida ‘de uma maneira bastante brasileira’, quando um escrivão de polícia solidário o chamou e disse: ‘Olhe, o senhor não queira se meter com polícia… Isso aqui não é bom. Negócio de polícia não é bom. Vou bater um negócio aqui para o senhor…’. E assim, o escrivão bateu à máquina de escrever uma declaração, que Tom assinaria. ‘Este papel aqui diz que o senhor não teve intenção’”.[6]”
A informação é verdadeira, porque ao continuar a pesquisa mais adiante venho a saber dessa prisão pouco divulgada:
Chico Buarque, Tom Jobim, Edu Lobo, Paulinho da Viola e Ruy Guerra foram presos pelo DOPS por terem se recusado a participar do Festival Internacional da Canção de 1971. Segundo Chico, o responsável pela prisão teria sido o próprio Paulo César Ferreira, que na época era assessor de Walter Clark e organizava o Festival. Paulo César Ferreira, ex-diretor da Rede Globo de Televisão, usou a estrutura da ditadura para forçar músicos a se apresentarem no 6º Festival Internacional da Canção, em 1971.
Pior, ou melhor, para a reputação política dos compositores: eles divulgaram uma carta na imprensa denunciando que não participariam do Festival devido à censura. Todos eles foram presos pelo Dops (Departamento Estadual de Ordem Política e Social) e, durante um dia inteiro, ficaram detidos e receberam ameaças. Os policiais do Dops alegavam que a atitude dos músicos era de caráter “comunista”, e que eles deveriam comparecer ao Festival. A Rede Globo já havia comercializado os direitos de transmissão do 6º Festival para outros países, tendo interesses econômicos na participação dos artistas,
Então vou ao reflexo da música de Tom Jobim no romance “A mais longa duração da juventude”. A sua música vem como um dos acontecimentos estéticos do tempo da ditadura:
“Penso na mais longa duração da juventude, resistente nos cabelos brancos, no coração a pulsar regenerado, no peito renascido para o amor. Como um broto que rebenta na árvore envelhecida, penso. E, no entanto, eles que de nada sabiam vão pela Imbiribeira, palmilhando a Estrada do Sol, de Jobim e Dolores Duran, que cantavam ao sair de manhã da garagem da casa de Tonhão.
“É de manhã
Vem o sol
Mas os pingos da chuva
Que ontem caiu
Ainda estão a brilhar
Ainda estão da dançar
Ao vento alegre
Que me traz esta canção…”
Em outro ponto da memória, o ano de 1972 foi um dos mais luminosos de nossas vidas. Como última luz de estrela, brilhou não somente por comparação às trevas do ano seguinte. Mas em si mesmo. Se não antecedesse viradas trágicas, seria um ano digno do mais caloroso afeto. 1972 foi como um disco vinil, uma canção que ouvíamos sem parar na radiola de ficha wurlitzer. Da embriaguez na noite ao arrependimento na manhã, havia sempre uma canção em nosso caminho, de Blue Moon com Ella Fitzgerald a YellowSubmarinee Chovendo na Roseira. Mas ao confrontar há pouco o sentido da memória, pude ver que levamos para um mesmo espaço acontecimentos de tempos diferentes. Isso quer dizer, os anos às vezes se confundem, unificados e na unidade do sentimento. Assim, guardei como de 1972 a manhã de um sábado em que ouvi Chovendo na Roseira em 1974. Por que a canção na voz de Elis Regina veio como se fosse de 1972? Entendo, ou procuro entender o amolecimento elástico do coração. É que na mesa do bar no Pátio de Santa Cruz ouvimos a voz de Elis e o piano de Tom Jobim. Ficamos suspensos na manhã de 1974 como se cantássemos em um jardim de pétalas vermelhas. “Olha, está chovendo na roseira, que só dá rosa, mas não cheira”. Vinha um nó na garganta que deixava a gente sem fala, e o empurrávamos para baixo com goles de cerveja. “Adivinhou a primavera”, pensei há pouco, de modo apressado, que podia ter sido no ano da luz de 1972. Mas se tivesse pesquisado no íntimo, veria que o sentimento num instante de 1974 não poderia ser o de 1972”.
Agora, como uma ligação à sua morte em 8 de dezembro de 1994, lembro a música que mais ouvi quando soube do último dia de Tom Jobim em Nova York:
No CD Passarim, Borzeguim, Isabella vão passando. É o velho novo Tom renovando o peito da gente. Súbito, paro. Ouço uma voz entre a brincadeira e a seriedade:
“Un, deux, trois”, e vem um coro feminino, e começo a ouvir uma conversa melódica de Tom, entre a brincadeira e a seriedade mais uma vez:
“When I arrived in New York
The immigration officer asked me
Where have you been, Mr. Bim?
Where have you been, Joe?
You’ve been abroad for too long, Mr. Bim,
Haven’t you been?
I got to the hotel exhausted to my room
Having to attend a cocktail
Late that afternoon
And there my boss Nesuhi,
An old friend of Jobim’s, said:
May I introduce you to Gloria?
By all means
Buy all jeans…”
E vem então uma melodia que é um estender-se de Tom ao piano, uma canção que acende na gente uma melancolia tão doce quanto letal:
“I’ve never been in Paris for the summer
I’ve never drank a Scotch with this bouquet
My life is such a mess let’s have a Brahma
I’m happy that you called,
I really feel touché
Oh, it’s been a long, a very long time
Since a Brazilian has been in Paris com você”
E chegam uns acordes breves do piano que são uma impressão digital de Tom, que remetem a Wave, que remetem a Águas de Março, que remetem à voz nos dedos do Jobim maduro. Então ele retoma, num prolongamento, numa repetição com outras palavras:
“You look so cute there wearing my pajamas
You look so sexy with my pince-nez
Let’s highjack this Concord to the Bahamas
Come on dress up my love
Let’s go to the ballet
Oh, it’s been a long, a very long time
Since a Brazilian has danced with you
Le pas-de-deux”.
Por que a gente lembra e insiste em lembrar uma canção de versos tão bobos? Esqueçamos por ora a lição antiga de que a letra na música não tem vida própria, autônoma. Esqueçamos que os estruturalistas, quando reclamam a primazia absoluta do texto, são tão medíocres quanto estreitos e amesquinhadores. Esqueçamos. Un, deux, trois. E volta a melodia:
“I’ve never been in Paris for the summer
I
’ve never drank a Scotch with this bouquet
My life is such a mess let’s have a Brahma…”
Não é nem o “a minha vida está uma bagunça, uma confusão tamanha, vamos a uma cerveja”, que nos toca de passagem como uma confissão. O que há nessa música é a história que sabemos de Tom, posterior a ela. Como esquecer que Tom morreu em Nova York? Como esquecer que o câncer de bexiga fez com que ele morresse, com toda tecnologia e avanço norte-americano, em um hospital tão longe? Não riam, por favor, mas os artistas são meio bruxos, meio profetas. Sei que esta não é a hora de uma discussão racionalista, para que se prove a vigorosa intuição que possui um artista.
Isso exigiria uma descida até o nascimento da arte nas sociedades mais primitivas, quando a religião, a invocação aos deuses anímicos era ao mesmo tempo uma representação do sonho humano. Isto exigiria ainda o relato da experiência viva, que temos observado ao longo do tempo. Não, agora é começo do ano. O que importa agora é dizer: a brincadeira, a piada de Tom, sobre uma sua chegada a Nova York, traz para nós, seus sobreviventes, a luz da precariedade da vida humana.
“I’m happy that you called,
I really feel touché
Oh, it’s been a long, a very long time
Since a Brazilian has been in Paris com você.”
Assim foi, assim é. Até parece que its been a long, a very long time, mas não, foi hoje, 8 dezembro.
Urariano Mota, jornalista, é autor dos romances Soledad no Recife, O Filho Renegado de Deus e A Mais Longa Duração da Juventude. É colunista do  Portal Vermelho e colaborador do Prosa, Poesia e Arte.

Um oráculo chamado Grande Sertão: Veredas

O trabalho de criação brasileiro que mais me impacta, e há muito tempo, é Grande Sertão: Veredas, do Guimarães Rosa. Li o romance algumas vezes. Li também a versão em quadrinhos, assisti à série do Walter Avancini dos anos 1980, que está no Globoplay, vi o longa em preto e branco rodado em 1965 por Geraldo e Renato Santos Pereira. E assisti recentemente à premiada montagem para teatro da Bia Lessa.
Por Fernando Meirelles
Montagem de Bia Lessa adaptada de <i>Grande Serão: Veredas</i>: atores recriam a paisagem com seus corpos Montagem de Bia Lessa adaptada de Grande Serão: Veredas: atores recriam a paisagem com seus corpos
A paisagem do sertão, a flora e a fauna são parte importante do livro; na peça, os atores interpretam os animais, a vegetação, recriam a paisagem com seus corpos. Uma montagem primorosa. Agora o diretor Guel Arraes está preparando uma nova adaptação, bem livre, para cinema.
Não recordo ter lido ou assistido a outra obra em tantos formatos, e as versões me fascinam sempre.
A primeira vez que eu tentei ler o livro, não fui até o final. Esse era o livro favorito do meu pai que, também médico, sempre achou que Guimarães Rosa fosse o nosso principal escritor. Cheguei lá pela página 50 e não consegui entrar naquela história, me dava sono. Desisti.
Anos depois, já na faculdade, quebrei a perna e fiquei seis meses de repouso. Não tinha nada para fazer, então comecei a ler compulsivamente. Nessa onda de ler dois, três livros por semana, pensei: “Agora é a hora”.
Mergulhei e fiquei fascinado. Entendi que Grande Sertão: Veredas é uma leitura para períodos em que a mente esteja liberada, uma época de férias, por exemplo. É difícil sair do nosso mundo e entrar naquele quando se está ocupado com o dia a dia.
Percebi que é um livro difícil de começar, é preciso entender a linguagem, se acostumar com os neologismos, compreender como vai ser a jornada. Depois de certo ponto, aquele ritmo passa a ser natural. Você nem percebe mais as construções sofisticadas, é como aprender a falar uma nova língua. Vira puro prazer.
Foi nesse período que passei a gostar mais de leitura, ou de boa literatura. Desde então, toda noite antes de dormir preciso ler ao menos uns 20 minutos, mesmo se cansado. Desde então, quase todos os dias de minha vida têm sido assim. Não por acaso, quase tudo o que eu faço no cinema é adaptação de livros.
Adaptar Grande Sertão: Veredas para cinema é um sonho há 20 anos. Um tempo atrás, eu queria, mas não ousava, achava que faria um arremedo, uma anedota do livro. Agora eu acho que já estou mais maduro, não para encarar o livro, mas sim para encarar o ridículo de errar feio.
Se algum dia eu adaptar a história, iria pelo caminho da Bia Lessa: usaria muitas imagens da natureza do sertão. Mas este não é um filme que se financie facilmente e não dá para rodá-lo com pouco dinheiro. São muitos cavalos, muitos atores e figurantes, muito figurino e estrutura a levar para o meio do sertão. Mas a cada seis meses eu penso nisso. E a versão do Guel será tão livre que não impede uma mais clássica.
A história de Grande Sertão: Veredas é a narração de um ex-jagunço, Riobaldo, revendo a sua trajetória e tentando entender se o Diabo, o mal, existe e de onde ele vem.
Essa mesma questão está em uma das sequências cinematográficas de que mais gosto, em Além da Linha Vermelha (1998), do Terrence Malick. Na Segunda Guerra, o Exército americano invade um acampamento japonês e os soldados vão trucidando e destruindo tudo e todos que encontram. É muito violento, vemos de perto o sofrimento dos japoneses.
De repente, o som da cena é cortado e, diante da barbaridade, entra uma narração do personagem que conta a história. É um recurso muito usado pelo Malick. Ele se questiona de onde vem essa crueldade, a vontade de destruir. “De onde vem este mal diabólico?”, pergunta-se.
É a mesma reflexão sobre a origem do mal, sobre o porquê de agredir os outros, que faz Riobaldo. Às vezes me faço essa pergunta ao entrar na internet: por que entrar em redes sociais para xingar quem não se conhece? Por que, em vez de discordar, queremos aniquilar o outro?
No livro, existe uma história objetiva que permeia toda a jornada, mas o que gosto não é dessa trama, ótima aliás, mas da subjetividade do Riobaldo, suas reflexões e conclusões, que sempre deixam espaço para a dúvida. “Eu quase que nada não sei. Mas desconfio de muita coisa”, diz.
Há muitas leituras sobre o significado do livro. Uma de que gosto é a que vê o “grande sertão” como os espaços desconhecidos e selvagens da nossa mente. As “veredas” seriam as dobras do nosso cérebro. A obra seria um mergulho na consciência, na profundidade da psique.
Em uma passagem, os personagens precisam atravessar o liso do Sussuarão, uma jornada à qual ninguém sobrevive. É como estar diante de áreas da psique com as quais não se ousa lidar. Mas eles escolhem atravessar.
Acho interessante essa interpretação do livro como um processo de autoconhecimento, cada parte da história sendo uma etapa do desenvolvimento no processo de individuação.
Para mim, Grande Sertão: Veredas funciona até como um oráculo. Abre-se uma página ao acaso, lê-se o que está à frente e ali estará uma pequena revelação. Dificilmente outra obra me tocará tanto na vida.
* Fernando Meirelles é cineasta
Publicado originalmente na Ilustríssima (Folha)

domingo, 8 de dezembro de 2019

BACURAU E ITACURUBA: A HISTÓRIA SE REPETE, A PRIMEIRA COMO FICÇÃO, AMBAS COMO TRAGÉDIAS

Tal qual a personagem interpretada por Thardelly Lima, o prefeito inescrupuloso Tony Júnior, que vende seu próprio povo aos interesses escusos de estrangeiros, o deputado estadual Alberto Feitosa (partido Solidariedade), acompanhado por um time de especialistas pró-usina nuclear, se tornou o principal lobista a “abrir caminho” ao empreendimento nuclear.


Bacurau, filme de Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles, dá nome à cidade fictícia em que o enredo se desenvolve. A distopia trata de desigualdade, descaso político, morte, resistência, mas, principalmente, ilustra a atual polarização brasileira: os que lutam para sobreviver e os que lutam pelo direito de matar.
Itacuruba, município do sertão de Itaparica, Pernambuco. Pouco mais de 4 mil habitantes. Desde a década de 80 a receber “boas novas” sobre um progresso excludente.
As semelhanças entre vida e arte ora são explícitas, ora se revelam nas diversas camadas que permeiam a trama.
Partindo do cenário temos o mesmo sertão semiárido e a ambígua convivência entre alta tecnologia com a mais profunda desigualdade social. Acesso à internet é mais fácil que acesso à comida e água, no retrovisor do caminhão pipa vemos drones… as contradições soariam caricaturas exageradas da ficção, não fossem caricaturas da vida real.
Às camadas que exigem mais do olhar temos a primeira semelhança (ou profecia dos cineastas?): assim como Bacurau, Itacuruba pode “sumir do mapa”.
Caso a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) do Pacto Federativo seja aprovada municípios com menos de 5 mil habitantes deixam de existir.
ITACURUBA POSSUI CERCA DE 4.369 HABITANTES E, SEGUNDO A PEC, PASSARIA A SER INCORPORADA AOS VIZINHOS BELÉM DE SÃO FRANCISCO OU FLORESTA, DEIXANDO DE EXISTIR ENQUANTO CIDADE, IDENTIDADE, CULTURA, HISTÓRIA, POVO. E, TRISTEMENTE, NÃO SERIA A PRIMEIRA VEZ.
O desenvolvimento tecnológico, econômico e social, prometido com o empreendimento, não veio. As desigualdades sociais foram aprofundadas e os altos índices de depressão e suicídio, em todas as faixas etárias, são reconhecidos nacionalmente.Itacuruba, no final da década de 80, foi inundada para a construção da usina hidrelétrica Luiz Gonzaga (conhecida como Usina Hidrelétrica de Itaparica) e obrigou a transferência dos moradores dos seus lugares de origem.
A nova proposta consegue ser ainda mais cruel, pois lhe nega a condição de identidade.
NOVOS ATAQUES, VELHAS MENTIRAS
Em abril, no Rio de Janeiro, durante uma articulação mundial de empresas nucleares através da “World Nuclear Spotlight” (WNA), foi apresentado um plano de expansão de usinas nucleares, onde o Ministério de Minas e Energia declarou um Plano Nacional de Energia 2030 (PNE 2030) que prevê a construção de quatro a oito usinas nucleares no País.
Itacuruba foi apresentada como um local já estudado e apto a receber propostas para construção de um Sítio Nuclear com 6 reatores, ao custo inicial de 120 bilhões de reais.
Aldeia dos Pankarás com Rio São Francisco ao fundo. Onde será construído a usina
A não emissão de carbono é apontada como pressuposto de uma “energia limpa”, não revelando que a cadeia do urânio, o combustível das usinas, seu processo de extração e “enriquecimento” são extremamente poluentes.
Os custos da desmontagem, descontaminação e armazenamento das usinas são altos e não são considerados nos custos totais da obra, o que implica ao final em riscos de abandono do sítio nuclear e aumento das tarifas de energia para arcar com os custos do descomissionamento.
A nova investida, portanto, traz os clichês de sempre: promessa de geração de empregos, desenvolvimento social e econômico à cidade e região, omissão de dados acerca dos impactos do empreendimento, protagonistas e antagonistas clássicos.
PERSONAGENS
A poderosa corporação estrangeira, os arautos das “boas novas”, lobistas, a resistência…todos os elementos estão tanto no filme quanto na história de Itacuruba.
Tal qual a personagem interpretada por Thardelly Lima, o prefeito inescrupuloso Tony Júnior, que vende seu próprio povo aos interesses escusos de estrangeiros, o deputado estadual Alberto Feitosa (partido Solidariedade), acompanhado por um time de especialistas pró-usina nuclear, se tornou o principal lobista a “abrir caminho” ao empreendimento nuclear.
A comissão antinuclear, formada por lideranças de povos tradicionais, sindicatos, movimentos sociais, com apoio de parte da igreja católica, resiste. Campanhas e mobilizações permanentes de conscientização dos riscos e impactos trazidos por um modelo de energia que já é descartado em diversos países apontam também caminhos sustentáveis de geração de energia como a solar e eólica, abundantes na região.
Entre os paralelos da ficção com a realidade ficam as incertezas de quantas almas mais serão sacrificadas até que a resistência dos que lutam para continuar a existir sobressaia-se aos que impõem seus anseios em destruir em nome do lucro.
por Daniel Filho, mestre em psicanálise na educação, Pós-Graduado em Programação do Ensino de Língua Portuguesa pela Universidade de Pernambuco, Especialista em Filosofia pela Universidade Federal de Pernambuco, professor da rede estadual de ensino de Pernambuco.
Fonte: Jornalistas Livres

Artistas e parlamentares reagem ao ataque de Bolsonaro à cultura

A decisão do governo Bolsonaro de excluir do sistema de Microempreendedor Individual (MEI) 17 ocupações, dentre elas várias do setor artístico-cultural, foi contestada por artistas e parlamentares. Eles analisam formas de reverter a medida que poderá agravar ainda mais a informalidade no trabalho. Um abaixo-assinado virtual pedido a anulação da resolução já recebeu milhares de apoios.
O rapper Emicida considera a medida um crime  O rapper Emicida considera a medida um crime
O rapper Emicida considera que é ”criminoso excluir atividades artísticas e culturais do MEI. Empurra mais gente ainda para um lugar obscuro sem chance de emancipação econômica baseada em seus maiores talentos”. Ele alfineta eleitores que votaram em Bolsonaro dizendo não saber o que motivou tal voto e enfatiza “a essa altura já dá pra chamar esse governo de catástrofe assassina”.
Para o cantor e músico Roberto Frejat, a medida vai aumentar o desemprego na área cultural. Ele chega a chamar a decisão de “sabotagem vil, que faz mal ao Brasil e aos brasileiros só para vencer uma pendenga pessoal”. Ele falou ainda de medidas que estão sendo tomadas no âmbito do Poder Legislativo e entre os músicos para reverter o que chamou de “estrado irresponsável”.
A deputada federal Jandira Feghali (PCdoB-RJ) afirmou que Jair Bolsonaro, além de promover a censura, tenta desestruturar a arte no Brasil. “Retirar profissionais deste setor do MEI é massacrar trabalhadores que constroem e promovem a cultura, o saber, a expressão artística. Retrocesso gigantesco de um inepto no poder”, afirmou a parlamentar comunista através de suas redes sociais. Já a ex-deputada Manuela d’Ávila, também do PCdoB, chamou a medida de “ataque à cultura”.
Para Fernando Haddad, ex-candidato a presidente da República, a medida é uma retaliação ao setor cultural. Segundo o ex-prefeito de São Paulo, a cultura para o presidente da República “é ideológica em si, independentemente da posição política do artista. E ele está certo: Cultura é liberdade e criatividade, uma verdadeira ameaça aos fascistas e obscurantistas.”
Maria do Rosário, deputada federal do PT-RS Maria do Rosário afirmou que “a extinção do MEI para essas profissões só gera mais desemprego e precarização” e anuncia que já estão sendo tomando providências.
O deputado Orlando Silva (PCdoB-SP) vai além do ataque à cultura e diz que “Bolsonaro tem ódio dos pobres! A retirada de atividades do programa MEI não afeta apenas a produção cultural, mas até as manicures e barbeiros nas periferias”. Acostumando a circular nas comunidades pobres, o parlamentar enfatiza que bares, manicures e barbeiros são o grosso do empreendedorismo popular e serão duramente atingidos, agravando ainda mais as dificuldades vividas por grandes parcelas do povo trabalhador.
Abaixo assinado
A reação à medida autoritária de Bolsonaro veio em forma de um abaixo-assinado virtual que em pouco tempo já obteve mais de vinte mil assinatura. O abaixo-assinado afirma que “a classe artística vem sendo atacada há meses. Agora com a extinção de vários cnaes da área do MEI, toda uma cadeia produtiva será afetada. Vamos recolher o máximo de assinatura para pressionar Rodrigo Maia de pautar a votação de um PDL anulando esse decreto absurdo e cruel com artistas de todo o Brasil”.
Para dar seu apoio à está luta, assine aqui.
Desemprego
O aumento da informalidade no setor de cultura, apontado pelo Sistema de Informações e Indicadores Culturais (SIIC), divulgado na quinta-feira pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) , pode se tornar ainda maior a partir do ano que vem. A razão é a Resolução nº 150, publicada no Diário Oficial da União (DOU) na sexta-feira (6) pelo Ministério da Economia, que exclui uma série de ocupações ligadas à cultura do sistema de Microempreendedor Individual (MEI), a partir de 1º de janeiro.
Pela resolução elaborada pelo Comitê Gestor do Simples Nacional, foram excluídas 17 ocupações, dentre elas seis ligadas diretamente ao setor cultural: Cantor/Músico Independente; DJ/VJ; Humorista/Contador de Histórias; Instrutor de Arte e Cultura/ Instrutor de Música. Outras três subclasses, voltadas ao desenvolvimento e licenciamento de programas de computador, também podem ter impacto no setor. A mesma resolução incluiu outras cinco categorias no MEI, como motorista de aplicativo, serralheiro e quintandeiro.
Ao aderir ao programa de Micrompreendedor Individual, o profissional que fatura até R$ 81 mil por tem a possibilidade de ter um CNPJ, emitir notas fiscais por um custo fixo de R$ 55,90 ao mês e de contribuir para o INSS. Quem optar por transformar o registro de MEI em Micro Empresa (ME), passa a ter uma tributação fixa por cada nota emitida, com percentual definido por cada categoria, além de despesas mensais obrigatórias de contabilidade.
A exclusão de várias ocuações gerou um temor é de muitos profissionais do mercado, que hoje atuam como MEI, voltem à informalidade. Segundo o estudo divulgado pelo IBGE, este percentual de trabalhadores aumentou de 38,3% em 2014 para 45,2% em 2018. A análise leva em conta tanto trabalhadores com carteira assinada quanto trabalhadores que contribuem para a previdência social, mesmo que autônomos. De acordo com a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD Contínua), uma das fontes de dados usados pelo IBGE no estudo, o setor cultural ocupava, em 2018, mais de 5 milhões de pessoas, representando 5,7% do total de ocupados no país.
O programa de Microempreendedor Individual completou 10 anos em 2019. Segundo dados divulgados pelo Sebrae, o MEI é a única fonte de renda de 1,7 milhão de famílias no Brasil e  foi responsável por tirar mais de 2 milhões de empreendedores da informalidade.
Veja o que muda com a Resolução:
Fonte Portal BRASIL CULTURA

Que interessante que as escolas não nos ensinam....



Vivendo e aprendendo!!
Você tinha conhecimento disso?

"As oferendas deixadas nas encruzilhadas era uma forma de os negros alimentarem seus irmãos escravos que estavam fugindo dos feitores.

Eles escolhiam lugares estratégicos por onde escravos fugitivos passariam e colocavam comida pesada; carne, frango e farofa porque sabiam da fome e dos vários dias sem comer desses indivíduos e deixavam também uma boa cachaça pra aliviar as dores do corpo e dar-lhes algum prazer na luta cotidiana.

As velas eram postas em volta dos alimentos pra que animais não se aproximassem e consumissem o que estava reservado para o irmão em fuga e aí surge o que todos conhecem como macumba.

O rito permanece sendo realizado pelas religiões afro como forma de agradecimento e pedidos aos seus ancestrais e em homenagem a seus santos. A cultura branca e eurocêntrica foi quem desvirtou a prática, para causar medo, terror e abominação e reforçar os preconceitos e discriminações contra os negros.

Não tenho religião e não pratico nenhum culto mas gosto de saber que já houve tanta solidariedade no mundo e que as pessoas se preocupavam muito umas com as outras a ponto de fazerem um esforço pra alimentarem alguém mesmo sem conhecerem o seu rosto.

Hoje vejo tanta gente em igrejas e igrejas em tantos lugares servindo apenas como instrumento de manipulação e exploração da fé alheia para manutenção do poder.
Enfim, nós não evoluímos."


Professor Leandro (historiador da UnB)

Começou a circular dia 13 de junho de 2017, na página do Facebook “Ìkóòdídé” (1) um texto atribuído a professor “Leandro”, “historiador da UNB” (embora nos quadros de docentes do departamento de história na UNB não existe nenhum professor Leandro: http://www.his.unb.br/en/docentes). A publicação discorre algumas linhas sobre a prática de religiões de matriz africana de oferecer comidas nas encruzilhadas, mas é um festival de besteiras e invencionices que beira o absurdo. Infelizmente, quanto mais estúpido e sem noção são esses clickbaits, mais seguidores atraem (a última vez que olhamos já tinha ultrapassado 43 mil compartilhamentos).
Segundo este suposto autor “as oferendas deixadas nas encruzilhadas era uma forma dos negros alimentarem seus irmãos escravos que estavam fugindo dos feitores”. Pois bem, o processo de escravidão no Brasil, durou de 1539 até 1888 e foi de norte a sul do Brasil. Os primeiros escravizados foram trazidos para o Brasil, eram oriundos do Antigo Reino do Kongo. Seguido pelo Reino do Dahomey e finalizando pelos Reinos Yorubá.
O texto não cita exatamente qual região isso acontecia, quais as etnias envolvidas nesse processo, nem a época que isso aconteceu. Sendo o Brasil um país continental e o período de tempo longo da escravidão (349 anos), seriam uma informações importantes para situar e entender a prática.
A primeira leva de africanos que chegou ao Brasil, foi enviada para as fazendas de cana de açúcar no nordeste. Confinados, trabalhando de sol a sol, com muita sorte tinham o domingo de folga, onde eram obrigados a adotar práticas cristãs. Quando muito, tinham comida suficiente para se manter em pé no trabalho árduo, não tinham NENHUM acesso livre a “encruzilhadas” (se tivessem, com certeza iriam atrás dos seus irmão fugidos!) e muito menos comida de sobra para distribuir para “os irmãos foragidos”.
Outro exemplo é Minas Gerais, a escravidão era dentro das minas de ouro e pedras preciosas: os escravos de pequena estatura eram escolhidos para procriar, dando a luz a mais mão de obra. Viviam e morriam dentro de minas apertadas, apenas com pequenas lamparinas de óleo de baleia para iluminar sua labuta forçada em túneis insalubres. Morriam muito cedo e eram tratados pior que mercadoria.
Mais a frente, diz o autor não identificado: “colocavam comida pesada; carne, frango e farofa porque sabiam da fome e dos vários dias”. Como o autor não cita o local e a época, também não cita onde eles encontravam “carne sobrando”, ainda mais COZIDA, para deixar na encruzilhada. Nesse ponto, o autor mostra um total desconhecimento das oferendas: comidas não são “depositadas nas encruzilhadas”: as refeições sagradas são COMPARTILHADAS NA COMUNIDADE. E essa prática já veio da África: os ancestrais e divindades participam à mesa do banquete sagrado.
Existem diversos tipos de oferendas feitas pelos adeptos da religião de matriz africana: o mais conhecido é o padê (2): uma mistura de farinha, água, mel ou dendê e bebida alcóolica. No padê do candomblé, NÃO VÃO CARNES, ao contrário do que daria a entender o autor do texto. O padê com pimenta, carne, frango, peixes, cebola, etc é uma adaptação recente da Umbanda para o antigo costume do Candomblé.
A carne do animal sacrificado, também NÃO é oferecida diretamente às divindades: a parte oferecida é conhecida como axé do animal: são o sangue e outras partes que NÃO são usualmente consumidas. Animais largados inteiros em encruzilhadas NÃO são práticas das religiões de matriz africana. entenda que a carne JAMAIS é desperdiçada. Muitas vezes os animais sacrificados são a única forma de proteína disponível para a comunidade ao entorno do terreiro!!! Isso já tem sido tema de debate pois evangélicos inescrupulosos distorcem estas informações para angariar defensores dos animais contra as religiões africanas, fazendo-os acreditar que os religiosos afros “torturam animais” o que é uma enorme mentira.
O autor também cita: “uma boa cachaça pra aliviar as dores do corpo e dar-lhes algum prazer na luta cotidiana” reforçando o estereótipo de que o negro é dado ao vício e a bebedeira. A bebida alcoólica é oferta votiva em diversas religiões, incluindo a igreja católica, onde o sangue do Cristo é representado pelo vinho: mas ninguém insinua que o padre bebe por prazer. Voltando ao assunto do texto, a “pinga” (nome dado à aguardente pela forma como o álcool resultado das fermentações da cana de açúcar pingava do teto durante o processo, causando dor nos ferimentos nas costas dos escravos, daí o outro nome: água-ardente) era algo que os escravos NÃO tinham acesso fácil.
Mais para frente no texto outra besteirada que não possui nenhum fundamento histórico ou cultural: “As velas eram postas em volta dos alimentos pra que animais não se aproximassem”. A vela NÃO pertence à cosmogonia africana; é algo típico da cultura européia. Não existia na época da escravidão lojas de velas disponíveis para que os escravizados fossem para adquirir velas. Com qual dinheiro fariam isso? como conseguiriam a parafina? como produziriam as velas na senzala, debaixo dos olhos dos capatazes?
Continuando a leitura, surgem mais incongruências preconceituosas: “aí surge o que todos conhecem como macumba” NÃO! O que conhecemos como Macumba (3) é a prática de reunir africanos, afro-brasileiros, mestiços de brancos e índios, marginalizados pela sociedade européia da época. Essa prática da macumba é típica do Rio de Janeiro, uma cidade urbana, onde existia essa possibilidade de encontro, entre escravos, libertos, pobres, índios, brancos, etc. A palavra macumba tem origem no idioma Kimbundo: sua tradução literal é: reunião de pessoas veneráveis, reconhecidas. E o nome de um instrumento musical, muito usado nestas reuniões.
Ao continuar a leitura, vemos mais besteiras e desinformação: “O rito permanece sendo realizado pelas religiões afro”. O termo “religiões afro” coloca todas as práticas e crenças africanas, afro-brasileiras e afro-indígenas no mesmo balaio! As religiões de matriz africana são inumeras: Calundus, Candomblés de Caboclo, Candomblés de Angola, Nagô e Jêje, Xangôs, Amburaxó, Xambá, Terecô, Omoloko, Kimbanda, Babaçuê, Batuque, Umbanda . . . entre outras que surgiram e desapareceram e não tiveram a chance de deixar o seu nome na história. Cada prática tem suas particularidades e não cabe a ninguém de fora falar em nome das práticas. E certamente não cabe a alguém falar em nome de todas.
Por fim, ao aparentemente tentar defender as práticas afro-brasileiras, o autor faz um ataque covarde a essas práticas: “cultura branca e eurocêntrica foi quem desvirtou (sic) a prática, para causar medo, terror e abominação e reforçar os preconceitos e discriminações contra os negros”. No parágrafo anterior, ele afirma que os negros repetem práticas que hoje perderam o sentido, já que não existem mais escravos fugitivos. Agora ele afirma que as práticas atuais são para causar medo e terror e reforçar preconceitos, ou seja: ou as práticas são vazias e sem sentido ou são abominações.
Aparentemente o autor tentou dar um ar evangélico-cristão e condescendente para as antigas práticas ancestrais. Ou talvez em sua ignorância extrema tente racionalizar tais rituais, tentando dar um sentido prático de algo que faz parte da cultura/fé de um povo. Talvez ele nem se de conta do preconceito que suas palavras carregam.
Esperamos que o tal texto, apesar de mentiroso, preconceituoso e distorcido, seja útil para trazer mais debate e entendimento. Para cada linha de baboseira que se encontra na internet, precisamos sentar e escrever uma página de texto para refutá-la.
Por Kesa dia Nzaambi com comentários de Marcelo Del Debbio
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1- Ìkóòdídé: pena do rabo do do papagaio africano Odidé, largamente utilizada nos candomblés de origem Yorubá (keto ou nagô).
2- O Ìpàdé, feito de farinha de mandioca no Brasil e de farinha de Inhame na África é uma prática ancestral: Ìpàdé significa reunião é uma forma de agradar Exu Orixá. Na umbanda, ganhou o diversos complementos, como carne, pimenta, cebola, etc para servir de oferenda ao Exu Espírito.
3- O idioma kimbundo o plural não está no final da frase, mas no começo: Kumba é uma grande pessoa, viva ou morta. Ma é o prefixo que indica plural. Kumba: Venerável. Makumba: Veneráveis.

sábado, 7 de dezembro de 2019

DIRETORIA DA ALAAP REUNIRAM-SE HOJE NA CASA DE CULTURA DE NOVA CRUZ/RN E APROVARAM CALENDÁRIO DE AÇÕES PARA 2020

 Eduardo Vasconcelos, presidente do CPC/RN e Agente de Cultura registrando reunião da Academia de Letras e Artes do Agreste Potiguar - ALAAP, realizada hoje (7) na Casa de Cultura de Nova Cruz/RN
Após a reunião o CLIC registro

Hoje (7) a tarde na Casa de Cultura "Lauro Arruda Câmara" - Nova Cruz/RN, o presidente do Centro Potiguar de Cultura - CPC/RN, radialista e Agente de Cultura, Eduardo Vasconcelos participou a CONVITE da reunião dos Membros da Academia de Letras e Artes do Agreste Potiguar - ALAAP, cujas pautas, foram: Informes, Prédio literalmente abandonado da DRAE/SEEC/RN na cidade de Santo Antonio; Prestamento de Conta e Calendário de atividades da ALAAP 2020 e encaminhamentos.

Após 3 horas e reunião foram aprovados o calendário de atividades para 2020 com reuniões bimestrais, conforme calendário: Fevereiro: dia Santo Antonio (CIAC) Março: Abril 11/04; junho 13/06; agosto: 08/08; outubro: 10/10 e dezembro: 12/12.

A ALAAP também propôs realizar um evento inicio do próximo em Nova Cruz em parceria com o Centro Potiguar de Cultura - CPC/RN e Casa de Cultura, data a ser definida início do próximo ano.

Participaram da reunião os membros da ALAAP: Abílio Alves de Lima - Nova Cruz(presidente), Maria GORETE Orico - Santo Antônio; Admilson Amorim; Nova Cruz; Antonio Barbosa: Nova Cruz; Braz Faustino - Passa e Fica; Francisco de Assis da Silva e Eduardo Vasconcelos.