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terça-feira, 7 de julho de 2020

O Partido Comunista e o cinema brasileiro (1945-1956)

O moderno cinema brasileiro – que tem um dos seus pontos altos no Cinema Novo – deve muito aos intelectuais comunistas. No breve período em que o Partido Comunista do Brasil (na época, PCB) permaneceu na legalidade (1945-1947), eles já se aventuravam na área cinematográfica. Estavam antenados com o que havia de mais moderno no campo da comunicação com o grande público. Haviam criado uma rede de jornais diários em vários estados e até uma agência de notícias.
Por Augusto C. Buonicore*
Cartaz de <i>Rio 40 Graus</i>, dirigido por Nelson Pereira dos Santos, um dos mais ativos jovens intelectuais comunistas à época Cartaz de Rio 40 Graus, dirigido por Nelson Pereira dos Santos, um dos mais ativos jovens intelectuais comunistas à época
As tiragens de muitas de suas publicações ultrapassavam a dos jornais tradicionais. Chegaram a editar dezenas de revistas temáticas. Logo após a anistia, Ruy Santos organizou uma equipe para filmar o comício de Prestes no Estádio do Pacaembu, realizado em 15 de julho de 1945. O material serviu à montagem de um documentário de 9 minutos intitulado São Paulo a Luiz Carlos Prestes, lançado logo em seguida. Ruy Santos atuou como diretor e fotógrafo, Amarílio Vasconcelos assumiu a narração e Alinor Azevedo escreveu o texto.
O jornal comunista baiano O Momento comunicava: “Este magnifico cinegrafista que é Ruy Santos, um dos entusiastas animadores do nosso cinema, iniciou com um short (curta-metragem) sobre o comício de Luiz Carlos Prestes a série de cinejornais e documentários que vai realizar sob o patrocínio da Tribuna Popular, com o objetivo de manter um amplo serviço informativo através do cinema”. Isso deu estímulo à criação da Liberdade Filmes, criada por Oscar Niemeyer e o próprio Ruy Santos. Como dissemos, os comunistas estavam sincronizados com o seu tempo, quando o cinema era o principal meio de diversão e de comunicação de massas.
Assista ao curta São Paulo a Luiz Carlos Prestes – O Comício do Pacaembu (1945)
Em 22 de outubro de 1947, o deputado federal comunista Jorge Amado apresentou um projeto de lei propondo a criação do Conselho Nacional do Cinema, cujas atribuições eram regulamentar as normas para a produção, importação, distribuição e exibição de películas cinematográficas. O projeto foi arquivado pela mesa da Câmara sem ir a voto, mas serviria de referência para os debates posteriores travados pelos críticos e cineastas de vários matizes.
As coisas não pararam por aí. Em 16 de novembro, a Tribuna Popular anunciava para o dia seguinte, na sede da Associação Brasileira de Imprensa (ABI), a exibição de Marcha para a Democracia, documentário que cobria as viagens de Prestes em campanha pelo interior de São Paulo, Rio Grande do Sul e Minas Gerais. Deste só restam algumas poucas fotos, inclusive uma de Ruy Santos utilizando a sua competente câmera.
A obra mais ousada foi um longa-metragem de 1h20min tratando da história do PCB: 25 anos de Luta. O roteiro era de Astrojildo Pereira, intelectual e fundador do Partido. Ruy Santos dirigiu e fotografou. A narração novamente coube ao jornalista Amarílio Vasconcelos, com música de Gustavo Mahler. A película trazia depoimentos de Astrojildo, Prestes e Jorge Amado, entre outros. Reconstituíam-se os principais momentos da história do partido em ambientações diferentes, em vários estados e também nos estúdios da Cinédia.
Além de escrever roteiros para filmes, Jorge Amado deu depoimentos ao filme 25 anos de Luta, sobre o Partido Comunista
O filme chegou a estrear no Rio, na sede da ABI, e depois em São Paulo, no cine São João. Aí começou a via-crúcis que o fez desaparecer nos arquivos da repressão política. Ele foi enviado à Censura Federal em 1947 e nunca mais seria visto. Os deputados comunistas Gervásio Azevedo e Jorge Amado protestaram quanto a demora na sua devolução. Tudo em vão. “Como se vê, está sendo usada a censura cinematográfica como arma política”, afirmou Amado. Outra cópia de 25 anos de Luta extraviou-se na Checoslováquia, enquanto a da Cinédia foi queimada por Ademar Gonzaga quando do golpe militar de 1964. Esta foi, sem dúvida, um dos maiores prejuízos causados à memória da esquerda brasileira.
A Liberdade Filmes, produtora de algumas destas obras, não resistiu à cassação do Partido Comunista e de seus parlamentares e à radicalização da Guerra Fria, mas permaneceu como uma rica experiência desenvolvida pela esquerda a ser mais bem estudada. O fim da empresa não significou que os comunistas abandonassem as tentativas de produzir filmes – de ficção ou documentário. Continuaram desenvolvendo suas ações e dando importantes contribuições à cultura nacional, revolucionando-a.
Nelson Pereira dos Santos, então um jovem militante do PCB, dirigiu os documentários Juventude (1950), destinado ao Festival Internacional da Juventude a ser realizado em Berlim, e Atividades Políticas em São Paulo. Ainda em 1950 uma equipe composta quase exclusivamente por membros do Partido produziu Estrela da Manhã, com argumento de Jorge Amado, roteiro e fotografia de Ruy Santos, música de Radamés Gnatalli e Dorival Caymmi e direção de Jonald (Oswaldo de Oliveira).
Assista trecho do filme Estrela da Manhã. Caymmi canta Nunca Mais (1950)
Três anos depois foi lançado O Saci, baseado na obra de Monteiro Lobato, produzido pela Brasiliense Filmes, pertencente ao comunista Arthur Neves. Sua equipe era composta por Rodolfo Nanni (diretor), Ruy Santos (fotógrafo), Cláudio Santoro (música), Nelson Pereira dos Santos (assistente de direção), Alex Viany (assistente de produção), entre outros. Quase todos eles eram membros do Partido.
O Saci foi escolhido para participar da Mostra de Filmes Infantis, paralela ao Festival de Cannes (França), mas o Ministério de Relações Exteriores atrasou o envio da fita. Por isso, acabou não sendo apresentado naquele evento. Foi, porém, exibido como hors concours (fora de competição) durante a parte principal do Festival, sendo bastante aplaudido. Muitos tinham a opinião de que, se tivesse chegado a tempo, poderia ter sido premiado.
Alguns anos depois, era vez de Alex Viany dirigir Agulha no Palheiro (1953). Um dos maiores críticos cinematográficos do país, Viany – que havia vivido vários anos em Hollywood, fazendo cobertura para a imprensa brasileira – ingressara no Partido em 1950.
Os comunistas brasileiros envolveram-se até mesmo numa obra coletiva chamada Rosa dos Ventos, de caráter internacionalista, tratando da vida e do trabalho feminino em vários países do mundo (União Soviética, China, Itália, França e Brasil). Produzido na República Democrática Alemã, o episódio brasileiro, chamado Ana, foi dirigido por Viany e baseava-se num texto de Jorge Amado. O filme estreou mundialmente em 1957.
Cena da co-produção internacional Rosa dos Ventos, que tem um episódio brasileiro
Entre outras ações voltadas à divulgação cultural, chegaram a organizar uma empresa para distribuir películas brasileiras e soviéticas, a Tabajara Filmes. O principal formador de novos diretores e pessoas ligadas ao trabalho cinematográfico foi o cineclube. E aqui também os comunas jogaram um grande papel. Foram os principais animadores do movimento cineclubista, a exemplo do que vinha ocorrendo em outras partes do mundo. No Clube de Cinema da Bahia, organizado por Walter da Silveira, se formaram cineastas como Glauber Rocha, Roberto Pires, Orlando Senna. Walter havia ingressado no PCB em 1945 e o abandonaria durante a crise vivida pelo partido entre 1956 e 1957.
Os pecebistas não se reduziram a produzir e exibir filmes – também procuraram organizar os trabalhadores da área (técnicos e diretores) e os críticos. Influenciariam fortemente a Associação Brasileira de Produtores Cinematográficos, presidida por Moacir Fenelon. Em 1951, fundaram a Associação Paulista de Cinema (APC), que articularia o 1º Congresso Paulista de Cinema Brasileiro, entre 14 e 17 de abril de 1952. Os comunistas estiveram por trás dos dois primeiros congressos do Cinema Brasileiro, ambos ocorridos em 1952 – abril no Rio e dezembro em São Paulo. Ali se aprovou uma pauta voltada ao fortalecimento da cinematografia nacional.
Um dos debates girou em torno da definição de filme brasileiro. Os comunistas tinham uma visão bastante restrita naquele momento. Filme brasileiro seria aquele “realizado em estúdios e laboratórios nacionais, com capital cem por cento brasileiro; argumento, roteiro, diálogos e direção de brasileiros ou estrangeiro radicado no Brasil” (FABRIS, 1994:74). Também propunham uma pauta a ser reivindicada ao governo e ao Congresso: “facilidade de financiamento, isenção de impostos para importações de materiais cinematográficos (…), incentivo à fabricação destes materiais no Brasil, criação de uma escola nacional de cinema”. Por fim, havia a defesa do aumento da cota dos filmes brasileiros nos cinemas. Defendiam que, para cada oito filmes estrangeiros, deveria ser exibido um filme nacional (RUBIM, 1989:97/98). A proposta se vinculava à capacidade de produção dos estúdios brasileiros naquela época.
Entre 1948 e 1954, predominou uma linha muito esquerdista e sectária no interior do PCB, seguindo a linha da Guerra Fria. Isso refletiu no mundo cinematográfico e conduziu a vários conflitos entre comunistas e não comunistas. Desde a sua eleição em 1950, o presidente Getúlio Vargas sofria uma forte oposição. Era, equivocadamente, considerado um agente do imperialismo estadunidense. Quando ele, através do grande diretor Alberto Cavalcante, apresentou projeto criando o Instituto Nacional de Cinema (INC), os comunistas o rejeitaram e fizeram-lhe duras críticas. A principal publicação tratando de cultura, incluindo cinema, era a revista Fundamentos, principal defensora do realismo-socialista nas artes e expressava bem o sectarismo do período.
Os críticos Alex Viany e Vinicius de Moraes recepcionam, no Rio, o cineasta norte-americano Orson Welles
Fruto desse embate dois grandes amigos se separaram: o comunista Viany e Vinícius de Moraes, defensor do projeto “varguista”. Este, além de poeta foi um dos principais críticos de cinema brasileiro. Viany escreveu a Vinícius: “De minha parte, que você saiba, de uma vez por todas, sou 100% contra Getúlio Vargas e o que ele representa. Portanto, sou 100% contra o anteprojeto que cria o INC ou qualquer outro órgão que não situe de maneira positiva quais são os inimigos do cinema brasileiro, e que não indique como combatê-los” (Autran. 2013:62). Chegou ao cúmulo de comparar o INC de Alberto Cavalcante a um novo DIP, que visaria vigiar e controlar a produção cinematográfica e os diretores. O fato é que, apesar dos seus possíveis defeitos, era um avanço a constituição daquele órgão.
Os dois Congressos Nacionais do Cinema coincidem com esse período. Comunistas e não comunistas ali disputaram posições. Quando no 2º Congresso se aprovou uma manifestação de apoio ao reatamento de relações diplomáticas entre o Brasil e os países socialistas, alguns protestaram dizendo que os objetivos centrais do Congresso estariam sendo desvirtuados pelos comunistas. Foi somente após a morte de Vargas que a situação mudou, passando a haver uma aproximação entre comunistas e trabalhistas. Eles se uniriam em torno da chapa JK-Jango na eleição de 1955.
Os jovens comunistas eram muito reticentes à incipiente produção cinematográfica brasileira. Viany, em artigo publicado na revista Fundamentos (1952), criticaria as produções da Vera Cruz e de outros estúdios, como não sendo verdadeiramente nacionais: “uma história não é brasileira só por ser situada no Brasil e feita em estúdios brasileiros. Caiçara, Presença de Anita, Terra É Sempre Terra, Suzana e o Presidente, Anjo do Lodo, Liana a Pecadora, Ângela e outros filmes recentes não podem ser tidos como brasileiros se nada apresentaram de brasileiro e nada contribuíram para a formação de uma tradição cinematográfica brasileira. Diferenciam-se pelo melhor ou pior nível técnico, pela honestidade ou desonestidade de seus realizadores no terreno das finanças”. (SANTOS. 2013:6).
Numa crítica ao primeiro filme da Companhia Vera Cruz, Caiçara (1950), publicada na Fundamentos, Nelson Pereira dos Santos comentaria: “Cinema brasileiro será aquele que reproduzir na tela a vida, as histórias, as lutas, as aspirações, de nossa gente, do litoral ou do interior, no árduo esforço de marchar para o progresso, em meio a todo atraso e a toda a exploração, impostas pelas forças da reação. Cinema brasileiro será aquele que respeitar, ainda que falho inicialmente de técnica e de forma, a verdade e a realidade de nossa vida e de nossos hábitos, sem preocupação maliciosamente evidente de pôr em relevo costumes que não são nossos e cacoetes” (SANTOS. 2013:5). É nítido aqui a influência do realismo socialista de matriz soviético, apregoado pela Fundamentos.
O Partido Comunista e Rio 40 Graus
Outro grande acontecimento no campo cinematográfico foi o lançamento, em 1955, de Rio 40 Graus, dirigido por Nelson Pereira dos Santos, que se tornaria um dos maiores diretores brasileiros. Quando dirigiu a película, era um dos mais ativos jovens intelectuais comunistas. Contudo, alguns anos após, Nelson afirmou que o PCB havia sido contrário à produção do filme, considerado um ato “aventureiro”. “Não queriam que fizesse o filme, diziam que filme popular só depois da revolução. Mas, eu vi que dava (…). E fui fazer”. Por isso, “fui rebaixado da Comissão de Cultura do Partido para a célula da Lapa e Santa Teresa”, disse Nelson (SALEM. 1987:100). Essa foi a versão que ficou.
Cartas do filme Rio 40 Graus, um dos marcos da aproximação entre o cinema nacional e o PCB
Estranhamente, se corrermos os olhos nos jornais do Partido, veremos o grande destaque dado ao filme desde os primeiros ensaios realizados em 1954 até seu lançamento oficial. Como visto anteriormente, a opinião de Nelson parece não corresponder plenamente aos esforços feitos pelos comunistas entre 1945 e 1955 visando ao fortalecimento do cinema nacional. Exemplo disso foram os inúmeros filmes, congressos, mesas-redondas realizados, entidades e produtoras criadas e projetos de legislação apresentados em defesa do nosso cinema, como o de Jorge Amado.
Voltemos ao filme Rio 40 Graus. “Em termos de cinema brasileiro, essa era uma proposta absolutamente subversiva para os anos 1950: mostrar o favelado, o povo de pé no chão, sem preconceito, vivendo seus dramas reais. Falando a língua de seu próprio jeito (com erros e gírias)” (SALEM1987:113). Nelson usou um grande número de atores não profissionais, como os cinco meninos negros vendedores de amendoins conduzindo a narrativa do filme, que cruza várias estórias ocorridas na Cidade Maravilhosa.
Num país conservador, era de se esperar o aparecimento de problemas com as autoridades e setores das classes dominantes. Em 26 de agosto de 1955, a fita foi aprovada pela Censura Federal para maiores de 10 anos. Os produtores, então, começaram negociar com a Columbia Picture do Brasil sua distribuição em âmbito nacional e até no exterior.
A alegria durou pouco. Um mês depois, o coronel Geraldo de Menezes Cortes, chefe do Departamento Federal de Segurança Pública, proibiu o filme em todo território nacional. Afirmou tratar-se de uma obra comunista financiada com o “ouro de Moscou”. “O filme só apresenta os aspectos negativos da capital brasileira e foi feito com tal habilidade que só serve aos interesses políticos do extinto PCB”, disse o coronel. A “distorção comunista” começava pelo título, pois nunca havia feito 40 graus no Rio. A película também não mostrava ninguém trabalhando, a não ser os meninos vendedores de amendoim. Não adiantou explicar-lhe que a história se passava num único domingo ensolarado.
Rio 40 Graus foi censurado não apenas nos cinemas mas também em uma exibição privada
Não contente em proibir nos cinemas, chegou a vetar uma exibição privada na sede da ABI, com a presença de centenas de pessoas em desagravo à censura ao filme. O presidente da República era o golpista Café Filho, substituto de Vargas e apoiado pela UDN. Estávamos em plena campanha presidencial, tendo JK como favorito, e diante da ameaça de novo golpe visando impedir a sua posse.
Jorge Amado publicou um artigo no jornal comunista Imprensa Popular no qual conclamava todos a lutarem contra “o terror e o obscurantismo”. “Rio 40 Graus precisa ser exibido. Porque é um bom filme, obra de talento e sensibilidade, honesto, brasileiro, patriótico, e porque, ao proibi-lo, estão os homens do golpe iniciando sua luta frontal contra a intelectualidade”, afirmou o escritor.
A película foi exibida privadamente e aplaudida de pé no Museu de Arte Moderna (MAM) de São Paulo. Na mesma cidade, outra exibição reuniu deputados, vereadores e até o prefeito Lino de Matos. Como ocorreu no estado do Rio, a Assembleia Legislativa de Minas Gerais aprovou moção contra a censura. Houve até uma exibição no Palácio da Liberdade com a presença do governador. Outro evento na sede da ABI criou uma Associação em Defesa do Cinema Brasileiro, presidida por Pompeo de Souza, chefe de Redação do Diário Carioca. E da França chegou uma nota de solidariedade assinada por pessoas ligadas à cultura, como Ives Montand, Simone Signoret, Georges Sadoul, Jacques Prévert, entre outros.
Esta foi uma das maiores campanhas em defesa de um filme nacional e contra a censura realizada até então. Os militantes do PCB tiveram um grande papel nela. Colaborou o fato de trabalhistas e comunistas estarem juntos na Campanha de JK e na defesa de sua posse, somente garantida pelo golpe preventivo dado pelo marechal Henrique Teixeira Lott em 11 de novembro, destituindo Café Filho e colocando, em seu lugar, Nereu Ramos. No dia 31 de dezembro, a censura foi revogada e o filme finalmente pôde estrear nos cinemas de todo país. JK estava eleito e faltava-lhe tomar posse, o que ocorreria em 1º de fevereiro de 1956.
Rio 40 Graus foi apresentado no Festival de Karlovy Vary, na antiga Tchecoslováquia. Ali Nelson Pereira ganhou o prêmio de “jovem realizador”. Dois anos depois, o mesmo Nelson dirigiria Rio Zona Norte. Os dois filmes, inspirados fortemente pelo neorrealismo italiano, serviriam de referência ao movimento do Cinema Novo. A realidade nua e crua vivida pelo povo brasileiro finalmente entrava com força nas telas do cinema. Glauber Rocha, com sua maneira sempre entusiasta, assim se referiu a Rio 40 Graus: “O primeiro filme revolucionário do 3º Mundo antes da Revolução Cubana”.
Assista a Rio 40 Graus (1955), de Nelson Pereira dos Santos
Ao historiador e camarada Orestes Augusto Toledo, um grande conhecedor do cinema e defensor ardoroso do cineclube militante.
* Augusto C. Buonicore é historiador e diretor de Publicações da Fundação Maurício Grabois. Escreveu, pela Fundação Maurício Grabois e Editora Anita Garibaldi, os livros Marxismo, História e a Revolução Brasileira – Encontros e Desencontros; Meu Verbo É Lutar – A Vida e o Pensamento de João Amazonas; e Linhas Vermelhas: Marxismo e os Dilemas da Revolução.
BIBLIOGRAFIA
– AUTRAN, Arthur. Alex Viany: Crítico e Historiador. São Paulo: Ed. Perspectiva, 2013.
– BUONICORE, Augusto, C. O Partido Comunista, a Cultura e os Intelectuais nos Anos 1940 e 1950, Portal Fundação Maurício Grabois, publicado em 18/082019.Link: 
http://www.grabois.org.br/portal/artigos/154737/2018-11-28/o-partido-comunista-a-cultura-e-os-intelectuais-nos-anos-1940-e-1950
– FABRIS, Maria Rosaria. Nelson Pereira dos Santos. Um Olhar Neorrealista. São Paulo: Edusp/Fapesp, 1994.
– SANTOS, Igor David. O Nacional no Cinema: A Revista Fundamentos e as Críticas às Primeiras Produções da Companhia Vera Cruz no Início dos Anos 1950. Texto apresentado no XXVII Simpósio Nacional de História, Natal/RN, 2013.
– RUBIM, Antônio Albino C. Marxismo, Cultura e Intelectuais no Brasil. Salvador: Centro Editorial e Didático da UFBA, 1995.
____________________ O Partido Comunista e o Cinema no Brasil, IntercomRevista Brasileira da Ciência da Comunicação, v. 12, n. 60, 1989.
– SALEM, Helena. Nelson Pereira dos Santos: O Sonho Possível do Cinema. Rio de Janeiro: Ed. Record, 1987.
– Jornal Imprensa Popular (1954-1956)

Netos de Gonzagão divulgam ‘nota de nojo’ ao governo Bolsonaro

Para os netos do Rei do Baião, Luiz Gonzaga (Gonzagão), o atual governo “faz todos os gestos ao seu alcance para confundir e colocar em risco a população do Brasil, enquanto protege a si mesmo e aos seus”
Em nota assinada por Amora Pêra, Nanan Gonzaga e Daniel Gonzaga, os netos de Luiz Gonzaga repudiaram o uso da música Riacho do Navio em live de Bolsonaro, na última quinta-feira. O texto foi divulgado no perfil de Facebook de Amora Pêra. A música Riacho do Navio é de autoria de Luiz Gonzaga e Zé Dantas.

“Diante da impotência e da impossibilidade de processo por propaganda indevida, por dupla apropriação, da canção de Luiz Gonzaga e Zé Dantas e do projeto do Rio São Francisco; nós, filhos de Luiz Gonzaga Jr, netos de Luiz Gonzaga, apresentamos uma NOTA DE NOJO diante deste governo mortal e suas lives”.
Para os netos de Gonzagão, o atual governo “faz todos os gestos ao seu alcance para confundir e colocar em risco a população do Brasil, enquanto protege a si mesmo e aos seus”.
Veja a íntegra da nota:
Diante da impotência e da impossibilidade de processo por propaganda indevida, por dupla apropriação, da canção de Luiz Gonzaga e Zé Dantas e do projeto do Rio São Francisco; nós, filhos de Luiz Gonzaga do Nascimento Jr, netos de Luiz Gonzaga, o Gonzagão, apresentamos uma NOTA DE NOJO diante deste governo mortal e suas lives. Governo que faz todos os gestos ao seu alcance para confundir e colocar em risco a população do Brasil, enquanto protege a si mesmo e aos seus.
Não estamos de acordo com o uso da canção Riacho do Navio, nem sua alteração, nem sua execução (com duplo sentido) pelo Senhor Gilson Machado Neto, presidente da Embratur, em transmissão ao vivo pelo Senhor Presidente.
E, AINDA QUE SIMBOLICAMENTE, não autorizamos ao Governo Federal o uso das canções assinadas por nenhum de nossos familiares, ou, ao menos, das respectivas partes que nos cabem.
Sonhamos com o dia em que nosso país volte a ser e a ter respeito e honestidade em relação à sua história, suas injustiças e desequilíbrios.
Sonhamos o dia em que se volte a reconhecer, dentro do país, a importância da Cultura, das artes Brasileiras, e seu imenso legado por gerações, assim como o é em todo o mundo.
Sonhamos com o dia em que a informação e o conhecimento sejam distribuídos democraticamente à todos, para, apenas recomeçar, sanarmos essa doença que não faz distinção, além da social, como costuma ser na nossa violenta história. E depois, para que o poder e o espaço, em toda instância, possa ser equalizado e distribuído.
Sonhamos dias sem mortos pela violência do Estado, seja ela direta ou indireta.
Finalmente, sonhamos com quando poderemos dançar e cantar abraçados, sem medo, nos bailes de forró e nas tantas festas as quais o Brasil faz e das quais é feito.
Trabalhamos todos os dias por realizar estes sonhos, que não são apenas por nós, mas por todas as gentes deste país.
Por hora, trabalhamos em casa, cumprindo as indicações internacionais da Organização Mundial de Saúde e pedimos que, todos que possam, também o façam.
Amora Pêra Gonzaga do Nascimento
Fonte: Vermelho; foto de Chico Albuquerque.
Com CTB NACIONAL

segunda-feira, 6 de julho de 2020

06 DE JULHO - NOVA CRUZ/RN REGISTRAVA SUA MAIOR ENCHENTE DA HISTÓRIA DO RIO CURIMATAÚ!

Foto postada pelo capoeirista, DERLEY! - NOVA CRUZ-RN

Parabéns, Derley pela lembrança!  Isso é cultura. Lembrar o passado de sua cidade é não perder o trem da história! Eduardo Vasconcelos, presidente do Centro Potiguar de Cultura - CPC / RN.

Martha Rocha, 1ª Miss Brasil, morre aos 87 anos em Niterói (RJ)

Martha Rocha
Crédito: Reprodução/TV GloboMartha Rocha foi eleita a primeira Miss Brasil em junho de 1954
Martha Rocha, a primeira Miss Brasil, morreu no sábado, 4, aos 87 anos em Niterói (RJ) em decorrência de uma insuficiência respiratória seguida de infarto. A informação é do G1.
Segundo Álvaro Piano, um dos três filhos, Martha Rocha estava acamada há muito tempo e não conseguia andar.
O sepultamento ocorreu neste domingo no Cemitério no Santíssimo Sacramento.
“A vida dela foi muito sofrida nos últimos anos, ela estava acamada há muito tempo e não conseguia andar. Morreu sem muito sofrimento. Ela já estava cansada. Rodeada de pessoas que cuidavam dela. Esses últimos meses a gente só se falava através de contatos telefônicos. Sinto falta da minha mãe, mas ela descansou”, disse Álvaro.
Maria Martha Hacker Rocha foi eleita a primeira Miss Brasil em junho de 1954, em um concurso no Hotel Quitandinha, em Petrópolis, na região Serrana do Rio de Janeiro.

Miss Universo

Em 1954, Martha Rocha disputou o concurso de Miss Universo ficou em segundo lugar, atrás da norte-americana Miriam Stevenson.
Na época, disseram que ela só perdeu o título por conta de “duas polegadas” a mais do quadril, fato que ela desmentiu tempos depois.
Martha Rocha foi casada com o banqueiro português Álvaro Piano, com quem teve dois filhos, Ele morreu em um desastre de avião.
De volta ao Brasil, se casou com Ronaldo Xavier de Lima e teve outra filha, a artista plástica Claudia Xavier de Lima.

“…E o Vento Levou” deve ser visto pelo que é: uma fantasia perversa sobre a Guerra Civil Americana

Ao retirar o clássico do catálogo para posteriormente reinseri-lo com contexto, Warner e HBO promovem reparação histórica.

Por James Cimino*

Esta semana foi marcada por uma nova polêmica racial, desta veznão envolvendo a polícia, mas a indústria do entretenimento dos Estados Unidos. O serviço de streaming HBO Max, que pertence ao grupo Warner Brothers, decidiu retirar de seu catálogo o clássico de 1939, vencedor de oito Oscar, inclusive de melhor filme, “…E o Vento Levou”.

A decisão foi tomada após John Ridley, roteirista do filme “12 Anos de Escravidão”, publicar um artigo no jornal Los Angeles Times, em que pedia que o filme fosse retirado do catálogo “PELO MENOS POR ENQUANTO”. Essa informação vem em caixa alta porque ela é muito importante e tem sido ignorada no debate.

No mesmo artigo, Ridley disse não acreditar em censura nem que gostaria que o filme fosse “enfiado em um cofre em Burbank”, cidade do condado de Los Angeles onde se encontram os estúdios da Warner. Seu pedido era que, em respeito ao que está acontecendo neste momento nos Estados Unidos, o filme fosse retirado e depois reinserido com outros filmes e documentários que retratassem a Guerra da Secessão com mais fidelidade ao seu contexto histórico.

Segundo Ridley, o clássico dirigido por Victor Fleming e estrelado por Vivien Leigh, Clark Gable, Leslie Howard, Olivia de Havilland e Hattie McDaniel “romantiza os horrores da escravidão”. E ele está certo. Tanto que a produtora, que detém os direitos sobre o filme, decidiu acatar o pedido do diretor.
Por que não se trata de censura
Imediatamente um debate infundado sobre censura tomou conta das redes sociais. Infundado porque a HBO Max realmente pretende remover o filme apenas temporariamente. Segundo porque a ação da produtora e de sua plataforma de streaming não configuram censura. Não foi o governo dos Estados Unidos que exigiu a remoção da obra do catálogo nem tampouco determinou sua destruição.

Não podemos esquecer que censura é sempre estatal e institucional. Pelo menos é isso que sugere a professora Cristina Costa, diretora do Observatório de Comunicação, Liberdade de Expressão e Censura da USP (Obcom), em uma série de reportagens sobre a censura às novelas durante a ditadura militar publicada em 2013 no UOL.

A professora inclusive destaca que a sociedade civil “pode e tem o direito de não querer ver certas coisas na TV, mas não pode ser um órgão do governo que irá decidir isso”. Foi o que aconteceu. Um representante da sociedade civil fez o pedido e a produtora e proprietária do filme resolveu acatá-lo em consideração ao momento político pelo qual o país está passando. E nunca é problema adicionar informação, contanto que o filme seja mantido em sua edição original.

Mas por que este filme que aprendemos a amar por ser um dos primeiros épicos do cinema falado e em cores é tão ofensivo aos descendentes de escravos dos Estados Unidos?
Muita gente que defende o retorno do longa-metragem ao catálogo da HBO Max acusa o estúdio de promover revisionismo histórico, pois o filme faz o “retrato de uma época”. Outra falácia. O pedido de John Ridley se baseia exatamente no caráter revisionista e romantizado que o filme faz sobre a história americana, mais especificamente sobre a Guerra de Secessão (1861 — 1865).
Tanto que não é de hoje que o filme tem gerado polêmica. Sua exibição tem sido cancelada em diversos cinemas do sul dos Estados Unidos desde pelo menos 2017, quando começou o movimento #OscarSoWhite, que criticava a ausência de artistas negros entre os indicados aos prêmios da Academia. Naquele ano, um cinema de Memphis, Tennessee, que sempre exibia o filme anualmente, cancelou a sessão por considerá-lo “insensível”.
As verdadeiras vítimas
Sua insensibilidade reside no fato de que o filme mostra o sul americano como uma vítima da Guerra de Secessão, a guerra civil americana, quando na verdade foram os sulistas, motivados pelo racismo e por seu suposto “direito” a comercializar pessoas, além de torturá-las e obrigá-las a trabalhos forçados. As vítimas dessa época, portanto, eram os negros, que são praticamente apagados do filme ou retratados de forma cômica e servil.

A Guerra Civil Americana começa em 1861 quando Abraham Lincoln é eleito presidente pelo Partido Republicano. Sua principal plataforma era acabar com a escravidão nos Estados Unidos. Lincoln não era de família escravocrata, mas desde criança aprendeu a odiar a escravidão — diferentemente da maioria dos Pais Fundadores da América (John Adams, Benjamin Franklin, Alexander Hamilton, John Jay, Thomas Jefferson, James Madison, and George Washington). Destes, apenas o advogado John Adams, que depois da independência se tornaria o segundo presidente americano, e Benjamin Franklin não tinham escravos.

Thomas Jefferson, que foi o terceiro presidente, que escreveu a Declaração de Independência e cujo memorial em Washington, D.C., mostra um texto seu chamando o tráfico negreiro de crueldade, tinha 607 escravos, além de pelo menos cinco filhos bastardos com uma escrava chamada Sally Hemings. Seus filhos com ela eram seus escravos, não tiveram direito a herança depois de sua morte, e Sally começou seu “romance” com Jefferson quando tinha apenas 14 anos.

Pelos padrões de hoje, o terceiro presidente americano, responsável pela primeira grande expansão americana em direção ao oeste, era um pedófilo. Fora isso, investigações genealógicas sobre os herdeiros negros dele mostram que alguns dos filhos de Sally poderiam ser, na verdade, filhos do irmão mais novo de Jefferson.
Ou seja, ela era estuprada em família. Há quem diga que o que houve entre eles não foi abuso sexual, mas um romance. Outra mentira histórica, afinal, quando uma pessoa é propriedade de outra, que detém poder de vida e morte sobre ela, a psicologia chama de síndrome de Estocolmo, não de amor.

Essa história está documentada não apenas no Museu Nacional de História e Cultura Afro-Americana inaugurado em Washington DC, em 2016, pelo presidente Barack Obama, mas até o museu de Monticello, Virgínia, que foi a propriedade onde Jefferson viveu, cansou de esconder a história de Sally Hemings com o presidente e tem um espaço dedicado a ela.

Enfim, quando Lincoln chegou ao poder, a escravidão e o tráfico negreiro já tinham entrado em declínio. Em 1804, o Haiti declarou independência da França e se tornou o primeiro país a abolir a escravidão. A Inglaterra, que havia começado uma revolução, a industrial, faria o mesmo em 1833.
Lincoln era republicano e os republicanos eram abolicionistas porque queriam trazer para os Estados Unidos a revolução industrial inglesa. Sociedades industriais não utilizam mão de obra escrava, mas assalariada, porque o escravo, embora não receba salário, é muito caro ao senhor, que tem que lhe dar de comer, beber, roupa e abrigo, além de pagar pelo escravo, que naquelas condições de trabalho e tortura não passavam dos 30 anos de vida. Ou seja, embora a narrativa sobre a abolição nos EUA e no Brasil seja romantizada e sempre mostrada como produto de um humanismo que se impôs, não foi nada disso. Ela acaba porque passou a não ser mais lucrativa.

O 16º presidente americano encontrou resistência nos 13 Estados ao sul do Distrito de Columbia, onde está localizada a capital Washington. Estes Estados eram predominantemente agrícolas e não queriam mudar sua matriz econômica, a plantation (monocultura do algodão e do tabaco), cuja mão de obra era escrava.
O que o vento levou
Uma série do jornal The New York Times chamada 1619, que saiu no ano passado, mostra que a escravidão foi responsável pelo início da riqueza americana e que alguns de seus elementos ainda existem em nossa sociedade, como, por exemplo, as cotas de vendas no comércio. Isso vem da plantation, onde os escravos tinham cotas de algodão a colher.
Quem não atingisse a cota tomava o número de libras faltantes em chibatadas. E quem cumprisse a cota, no dia seguinte, receberia uma cota maior. Aliás, essa série do New York Times pretendia fazer um revisionismo histórico ao declarar que a fundação dos Estados Unidos acontecera, de fato, em 1619, quando aportou aqui o primeiro navio negreiro, não em 1776 com a Declaração de Independência.
Apesar da postura dos sulistas quanto à escravidão, Lincoln ofereceu a eles 7 anos para que se adaptassem à nova matriz econômica, mas eles se recusaram. Declararam guerra contra a União e passaram a se autointitular Estados Confederados da América, cheios de empáfia, nacionalismo e muito racismo, mesmo sendo militarmente inferiores. E isso originou um dos conflitos mais sanguinários da história americana, que matou mais de 600 mil americanos e que durou quatro anos — Lincoln estimava que a guerra não duraria mais de seis meses.
A história de “…E o Vento Levou” se passa no período desta guerra, mas mostra os confederados como patriotas que se negam a respeitar as imposições do norte. Isso e a ocultação dos horrores da escravidão no filme consistem, sim, em um revisionismo histórico desonesto, pois seu roteiro, desde a primeira cena, se propõe a mostrar essa “civilização que o vento levou”.
Por isso o pedido do diretor de “12 Anos de Escravidão” para que o filme seja apresentado no catálogo em um contexto mais amplo é importante, já que os efeitos desta guerra se refletem até hoje na vida e nos costumes, inclusive na violência policial contra cidadãos afro-americanos.
Ao fim desses quatro anos de guerra civil, Lincoln foi reeleito e conseguiu fazer lobby para que o Congresso aprovasse a 13ª emenda que proíbe a escravidão em território nacional. Logo depois do fim da guerra, no entanto, um filho de um proprietário de escravos, o ator John Wilkes Booth, assassinou Lincoln enquanto ele assistia a uma peça no Teatro Ford, em DC. Booth achava que, se matasse o presidente, a abolição seria cancelada, o que é uma estupidez, já que quem aboliu de fato a escravidão foi o Congresso. Mas a morte precoce de Lincoln impediu que ele cumprisse seu projeto de reunificação da nação. Ele reunificou o território, mas as perdas do sul na guerra apenas aprofundaram suas cicatrizes.
A nova segregação
Os Estados sulistas resolveram que, como não podiam cancelar uma emenda constitucional, iriam criar leis em seus parlamentos locais para manter a população negra segregada. Leis que impediam os negros de ir ao mesmo banheiro dos brancos, de ter propriedade, de votar, de estudar nas mesmas escolas dos brancos, de dividir espaço com brancos nos restaurantes, no transporte público.
Isso perdurou até 1965, quando foi assinado o ato dos direitos civis pelo presidente Lyndon Johnson, que acabava com a segregação institucional, ou seja, um século depois da abolição estava Martin Luther King Jr. lutando para que os negros tivessem cidadania plena, o que culminou em seu assassinato em 1968, na mesma Memphis que hoje se recusa a exibir o filme. MLK, aliás, aos 10 anos, fez parte de um coral que se apresentou durante a première de “…E o Vento Levou” em Atlanta.
Quando se visita a capital americana, vemos no patamar das escadarias em frente ao Lincoln memorial o exato local onde MLK proferiu seu famoso discurso “I have a dream” em 1963. A escolha do local obviamente não foi por acaso. Em 2010, Obama também inaugurou na mesma cidade o Memorial de Martin Luther King Jr., cuja estátua não tem parte das pernas nem os pés esculpidos. Segundo o artista que projetou o monumento, o chinês Lei Yixin, ele quis simbolizar que, apesar de os afro-americanos terem conquistado muitos direitos, ainda há trabalho a ser feito. De fato, quando se olha para os protestos anti-violência policial contra negros, conclui-se que Yixin estava certo.
A glorificação do passado vergonhoso
Por fim, é muito importante que “…E o Vento Levou” seja visto pelo que ele é e sob a luz do que foi e ainda é a história do racismo americano. E é importante também não esquecermos da pior história envolvendo esse filme, que é o Oscar de atriz coadjuvante para Hattie McDaniel, a Mammyque nem sequer pôde se sentar com o elenco do filme durante a premiação por causa das leis de segregação racial. Muitos negros, depois disso, a criticavam por aceitar interpretar papéis de empregada a vida toda. Uma vez, ela respondeu: “Prefiro interpretar uma empregada a ser uma.”

Portanto, essa retirada temporária do filme do catálogo da HBO Max é uma boa oportunidade para que se pare de glorificar o passado vergonhoso da humanidade, de lamentar pelas estátuas de senhores de escravos removidas de praças públicas. Esses monumentos são, em última instância, homenagens a esses homens. E qualquer pessoa que veja uma estátua de um escravagista não vai vê-lo pelo que ele foi, mas achar que, se ele está ali, é porque foi um grande homem.
E filmes não são apenas “obras de ficção”? Essa é outra interpretação rasa das artes cênicas. Quantas pessoas veem “…E o Vento Levou” e acham que tudo aquilo é verdade? Filmes históricos são interpretados como fatos por quem não tem as ferramentas intelectuais para analisá-los com profundidade.

Não nos esqueçamos que hoje 30% dos americanos (cerca de 107 milhões de pessoas) duvidam que 6 milhões de judeus tenham morrido no Holocausto, enquanto 3% da população dos Estados Unidos (cerca de 23 milhões de pessoas) acham que o leite achocolatado vem de vacas marrons, sem falar nos que insistem que a Terra seja plana.

Alguém poderia argumentar que grandes filmes fazem revisionismo histórico, como “Bastardos Inglórios” de Quentin Tarantino. A diferença é que, neste filme, o revisionismo histórico é o ponto de partida da narrativa e ele é apresentado ao espectador desde o lançamento. É uma sátira e é vendido como tal.

E outro apontamento importante sobre revisionismo histórico deve ser feito. Sempre vemos historiadores dizendo que a gente não pode julgar a escravidão com os valores de hoje. Não apenas podemos, como devemos. Mas vamos dar um salto em direção ao passado, mais especificamente à Idade Antiga.

Todo mundo que leu a Bíblia sabe por que aconteceu o Êxodo dos hebreus do Egito, certo? Os hebreus eram escravos dos egípcios e tratados com crueldade imensa, o que levou Deus a designar Moisés como seu libertador, certo? Considerando a  Bíblia como um código moral, não como um registro histórico, pode-se concluir que, pela moral do Velho Testamento, a escravidão já era algo intrinsecamente perverso e cruel.
Por que então, de repente, no fim da Idade Média e começo da Idade Moderna, essa prática se tornou algo moralmente aceito? Porque era uma atividade econômica lucrativa. Então essa lenda de que a escravidão acabou porque “o mundo evoluiu” é pura falácia. Se o mundo tivesse evoluído tanto, não teria incorrido em um erro que, segundo a Bíblia, foi punido com dez pragas. Portanto, podemos e devemos julgar a escravidão não apenas pelos valores de hoje, mas também pelos valores de antes de Cristo.

Quanto a “…E o Vento Levou”, não deixemos nossa memória afetiva confundir nosso julgamento. O filme não vai ser queimado em praça pública e merece, sim, ser visto por seus atributos artísticos. Mas a inserção do contexto histórico vai apenas enriquecer a experiência de assisti-lo, não pelo que acreditávamos que fosse, mas pelo que realmente é.

James Cimino é jornalista graduado pela Universidade Estadual de Londrina (PR). Mora nos EUA há cinco e escreve sobre filmes e séries paras diversos veículos de comunicação do Brasil, tendo entrevistado as personalidades mais emblemáticas do entretenimento mundial. No Facebook jamescimino, no Intagram @james_cimino e no Twitter @rei_da_selfie.

Fonte: JORNALISTAS LIVRES