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sábado, 14 de julho de 2018

Sessão solene promovida pela Assembleia Legislativa alusiva aos 50 anos de criação da instituição de ensino superior.

Crédito das Fotos: Eduardo Maia


A importância do papel da Universidade do Rio Grande do Norte (UERN) para o desenvolvimento social e econômico do Estado foi destacada nesta quinta-feira (12), no município de Mossoró, em sessão solene promovida pela Assembleia Legislativa alusiva aos 50 anos de criação da instituição de ensino superior.

Na solenidade, realizada no auditório do Campus Central, foram homenageadas  24 pessoas, cinco in memoriam, dentre eles o Reitor Milton Marques, que contribuíram e contribuem com a trajetória da universidade. Em nome dos homenageados, falou o ex-reitor da UERN, Walter da Fonseca.

"Essa homenagem do Legislativo Estadual tem grande importância, porque chega num momento em que a UERN sofre críticas injustas. É um reconhecimento da sua relevância para o Estado. A UERN precisa deixar de ser tratada como filha abastada. Precisa ser respeitada pelo que representa para a educação do Rio Grande do Norte", destacou o professor Walter Fonseca.

A instituição foi criada em 28 de setembro de 1968 como Universidade Regional do Rio Grande do Norte e foi estadualizada em 1987. Em 93 foi reconhecida pelo Ministério da Educação (MEC). A UERN oferece 67 cursos de graduação, 20 de mestrado e dois de doutorado. Conta atualmente com 1.500 professores, 500 servidores e 12 mil alunos.

Racismo: Homem é expulso da piscina de seu próprio condomínio nos EUA

O caso viralizou nas redes: um homem registrou toda a cena, em vídeo, de quando uma policial de folga o abordou na piscina de seu condomínio em Indianápolis (EUA) para perguntar se ele morava lá. Somente os negros foram abordados e, mesmo mostrando a chave do apartamento, acabou sendo expulso. Assista
Mais um caso envolvendo possível ato de racismo nos Estados Unidos viralizou nas redes sociais. Na última quinta-feira (5), Shayne Holland postou em seu Twitter o vídeo que gravou de uma situação ocorrida na piscina de seu condomínio em Keystone, Indianápolis (EUA).
De acordo com o site local IndyStar, ele estava relaxando na piscina de seu condomínio após fazer exercícios quando foi abordado por uma policial de folga, que não teve o nome divulgado. Segundo a reportagem, ela perguntou a Holland se ele era morador do complexo de apartamentos. Ao responder que sim, a policial teria, então, perguntado em qual apartamento. “Eu não te conheço e você não se identificou, eu não preciso dar o meu endereço para uma pessoa que eu não conheço”, teria respondido. Ainda assim, ele teria mostrado a chave do seu apartamento e que dá acesso à área da piscina.
A policial de folga, então, teria contatado a administração do condomínio, e foi aí que Holland começou a filmar com o celular.
Instantes depois aparece na piscina a síndica do prédio, que cumprimenta Holland pelo nome. Quando o morador achou que a perturbação havia acabado, eis que a síndica endossa a ordem da policial para que ele se retirasse da piscina. De acordo com o morador, a síndica teria justificado sua ordem pelo fato de ele não ter respondido a pergunta da policial. Holland enfatizou ainda, em suas postagens, que ele e seus amigos não estavam fazendo barulho e que nenhuma pessoa branca da piscina recebeu a mesma abordagem.
O caso viralizou e já tem mais de 30 mil compartilhamentos no Twitter. Após a repercussão, a empresa que administra o condomínio, Barrett & Stokely, informou à imprensa local que demitiu a síndica que proibiu o morador de permanecer na piscina.
Confira.
So yesterday at River Crossing at Keystone at the crossing we were kicked out of the pool and our Bbq was shutdown for no apparent reason as this lady who said she was “property manager” preceded to let every white person that was there stay and only kicked out all black ppl
*Com IndyStar
Fonte: REVISTA FÓRUM

“Para você não romper o silêncio e manter as relações saudáveis, você tem que negar a sua cor”


A psicóloga Jesus Moura em seu consultório no Recife.
A psicóloga Jesus Moura em seu consultório no Recife.
Marina Rossi
Por 

Especialista no atendimento de mulheres negras, psicóloga Maria Jesus Moura fala sobre a importância de se levar em conta o racismo sofrido por suas pacientes e não negá-lo.

Quando a psicóloga Maria Jesus Moura, ou somente Jesus Moura como é chamada, decidiu estudar os espaços de atendimento de mulheres vítimas de violência doméstica, descobriu que algo importante estava faltando. “Encontrei a subnotificação das demandas raciais, e inclusive a desconsideração dos profissionais em notificar”, conta. Ou seja, o tipo de violência de gênero, e principalmente de raça, não eram levados em conta. “Em muitos relatos estava escrito ‘agrediu a mulher com palavras’. Quais palavras?”, pergunta ela. “Se você não registra o que foi dito, não tem como perceber e identificar o quanto isso é caro, doloroso e violento para essa mulher. A desconsideração do ‘o quê’ também é um tipo de violência”.

Para Jesus, esse silêncio em relação às demandas dessas mulheres está na raiz do racismo vivido ainda hoje no Brasil. “Vivemos um racismo institucional. Seja nos serviços públicos, como os centros de referências de atendimento, nas delegacias, ou nas instituições privadas, não há a definição de uma pauta de especificidade”, diz. “Isso cria uma invisibilidade às demandas especificas”. O resultado está estampado no cotidiano das estatísticas brasileiras: As mulheres negras são mais assassinadas que as brancas (71% a mais, segundo o Atlas da Violência 2018), concluem em menor quantidade o ensino superior (somente 10% terminam a faculdade, enquanto 23,5% das mulheres brancas o fazem, segundo o IBGE) e estão na base da pirâmide quando o assunto é salário - ganham, em média, 40% a menos que um homem branco, enquanto a média das mulheres é de 30% a menos, segundo o IBGE.
Por consequência, essas mulheres trazem para o divã demandas muito específicas. E esse é o foco do trabalho de Jesus, dentro e fora do consultório. Mestre em psicologia com foco social pela Universidade Federal de Pernambuco, ela é especialista no atendimento de mulheres negras - mas não só. Recebeu a reportagem em seu consultório, na zona norte do Recife.
Pergunta. Claro que cada indivíduo tem suas particularidades. Mas é possível dizer quais são as diferenças no atendimento de uma mulher negra para uma mulher branca?
Resposta. Boa parte do que as mulheres me trazem é algum sofrimento diante de relações sociais. Ou afetivas ou no trabalho, onde a autoestima é um dos elementos mais frequentes. Há uma baixa autoestima e um sentimento de inferioridade, de menos valia. O psicanalista e escritor Jurandir Freire Costa diz que o racismo tem a tendência de destruir a identidade da pessoa negra. É uma estratégia para destruir, criar pessoas controladas, sem autonomia, que não consigam ter um discernimento.
P. Criar criados.
R. Criar criados. Ou a escravidão psíquica. Mesmo no caso das pessoas empoderadas, que vêm da militância. Isso acontece com as feministas também. Tem uma coisa que amarra, porque ficou na história. E às vezes é o ponto cego, a pessoa não vê. Eu já atendi militantes do movimento negro e convivi com um grupo de militantes cujas fragilidades da autoestima em algum momento aparecem de forma fortíssima.
P. Mas existe um problema de autoestima nas mulheres de maneira geral, não?
R. Existe, porque as mulheres em geral ou estão sofrendo por uma pressão social na sua constituição do machismo e ou do racismo.
P. Então no caso das mulheres negras o problema de autoestima pode ser acumulativo.
R. Exatamente. Machismo e racismo. E se ela for lésbica então... Tem pessoas que são extremamente empoderadas, de não deixar ninguém passar por cima, mas adoecem, têm crise do pânico, se deprimem. Não é uma coisa só de ficar com medo, se fechar e não enfrentar. Não, elas enfrentam. Mas é com sofrimento. E aí o elo de ligação é esse: essas mulheres se questionam como elas conseguiram ser chefes hoje? Como chegaram nesse lugar? Por mais que eu tenha almejado, investido, por mais que eu tenha consciência de que eu sou capaz, eu não consigo ainda assim viver nesse lugar. É um processo que vem alinhavado por dentro.
"A negritude da criança não muda quando ela sai da escola. Ela leva para onde for. E os pais precisam entender isso"
P. Não significa que, porque chegou a uma posição desejada, a questão está resolvida.
R. Não. Esse registro na psique não sai com o conhecimento. Não é assim: “Ah, o racismo é isso? Então eu estou livre dele”. O registro é mais profundo. Por exemplo, aqui no consultório não temos recepcionista. Na semana passada, eu estava na sala da recepção e a cliente de uma colega, que atende aqui também, me perguntou se ela pagava a mim ou à psicóloga dela. Eu entendi. Disse “Olha, aqui nós não temos recepcionista. Então acho melhor você pagar diretamente à sua psicóloga”. Outra pessoa diria “por que ela perguntou a mim?”. Veja, eu não estava sentada atrás do balcão da recepção. Eu não estava em nenhum lugar específico que pudesse ser confundido com recepcionista. Mas ao mesmo tempo ela captou a minha imagem....
P. Como é o trabalho com as crianças com esse recorte de raça?
R. Hoje eu não atendo mais criança, mas já atendi muitas e trabalho com orientação e supervisão. E aí o trabalho é primeiro a construção do profissional conseguir entender porque isso é importante, e depois trazer isso para a família. Mas com muito tato, porque não se sabe como as pessoas veem essa questão. Por exemplo, eu pergunto “por que você acha que falam isso do teu filho na escola? Por que aquela criança não quis pegar na mão do teu filho?”. Eu não posso dizer diretamente que isso acontece porque ela é negra. Eu preciso sensibilizar esse pai ou essa mãe a entender que existe essa possibilidade. E aí explicar como isso funciona e como eles podem lidar com isso. Mas, se a demanda já chega nominada, já é mais fácil. Eu sempre oriento a não mudar de escola, porque o bullying foi criado para denominar as diversas violências que as crianças sofrem na escola, e uma delas é o racismo. Esse elemento é importante para a criança, porque ela precisa se empoderar para enfrentar o racismo na escola. Não adianta ela sair de lá. A negritude dela não muda quando ela sai da escola. Ela leva para onde for. E os pais precisam entender isso. Não adianta dizer que a escola é racista. Se é racista, o que podemos fazer? De que maneira podemos contribuir? Para qual escola você vai levar seu filho, que vai ser uma escola totalmente anti-racista, anti-homofóbica? Não existe.
P. Porque a sociedade não é.
R. Sim, está em todo o canto. O que a gente precisa é fazer o nosso trabalho com as pessoas para que elas possam perceber isso e entender que não é a cor da pele que faz com que elas sejam piores que os outros. As próprias crianças já estão fazendo isso.
P. De que maneira?
R. Muitas crianças hoje já dizem, por exemplo, que não vão desenhar a mãe com tal lápis de cor porque essa não é a cor da mãe delas. Isso é fruto de um trabalho que vem de casa. E aí a escola, de alguma forma, ou se molda, ou violenta a criança. E esse questionamento, infelizmente, vem através da militância.
P. Por que infelizmente?
R. Porque todas as pessoas negras deveriam ter acesso a esse entendimento. Porque no Brasil, para brigar contra o racismo, você precisa fazer um investimento intelectual. Você tem que ler, estudar, pesquisar. E aí você começa a compreender. Não é uma coisa natural, de você crescer já sabendo dessas coisas e ir se preparando cada vez mais para enfrentar isso na vida. Não, a gente cresce escondendo essas questões. Desde a maternidade, quando entram no seu quarto, olham para a sua filha e dizem assim “e esse narizinho? Como vai ser? Vai colocar um pregador?” E aí você ri, diz que vai botar um pregador, e as vezes bota mesmo.
"No Brasil, para brigar contra o racismo, você precisa fazer um investimento intelectual"
P. Pregador? No nariz?
R. Sim. Para afilar o nariz. Ou dizem para a mãe ficar fazendo assim [e coloca o polegar e o indicador no nariz, em forma de pinça e faz movimento de cima para baixo]. “Faz assim que isso vai afilando o nariz do seu bebê”. A criança acabou de nascer....
P. As pessoas já chegam com essa consciência de racismo institucionalizado aqui no seu consultório?
R. Quando esse sentimento do racismo começa a ser falado conscientemente, já é um passo. Mas a maioria chega sem conseguir dizer. E inclusive sem conseguir identificar que aquele sofrimento que ela tem, tem uma relação com o racismo. Esse é o problema. Nomear o racismo não é uma coisa simples num país que sempre camuflou o racismo, sempre tentou esconder o racismo nas relações sociais. As pessoas negras foram educadas, muitas vezes por suas mães e pais negros, a repetir aquilo que eles aprenderam. Ou seja, a criar uma relação saudável no silêncio. Para essa relação ser saudável, é preciso silenciar qualquer coisa que fale da minha insatisfação, do meu tratamento pela minha cor da pele e pelo meu cabelo. Essa coisa de eu ter que alisar o meu cabelo para não ser ridicularizada... O alisamento necessariamente não é a saída de um gosto, existe uma coisa por trás que move isso. Aquele cabelo crespo não é um cabelo que é aceito com tanta naturalidade. Talvez hoje a gente viva uma cultura do empoderamento de mulheres principalmente, em relação aos seus cabelos crespos, e crianças desde já crescendo assim. Mas as crianças cresciam querendo alisar o cabelo.
P. Você passou por isso?
R. Eu vi recentemente no YouTube um vídeo que parecia que fazia parte de uma história minha. Quando eu entrei na adolescência, meu maior desejo era alisar o cabelo e fazer franja. Eu vivia em um grupo social branco, na escola onde eu estudava eu era a única negra. E a franja era tudo o que que queria, porque as minhas amigas tinham franja. E na primeira oportunidade que eu tive, eu alisei o cabelo e cortei a franja. Foi ridículo, foi horrível... Não aconteceu comigo o que aconteceu com a menina do YouTube, que foi fazer um tutorial de como fazer franja, e foi um desastre. Quando ela cortava, o cabelo levantava, não ficava com franja. E ela não entendia, e ia cortando, cortando, até restar quase um dedo de cabelo só. O sofrimento dela era por não entender por que não deu certo. Por que nos outros tutoriais que ela viu davam certo? O cabelo então acaba sendo uma grande marca na questão da relação social, porque como eu já disse, para você não romper o silêncio e manter as relações saudáveis você tem que negar a cor, o cabelo, as características, roupas, adereços, acessórios. Chegar com turbante não é para todo mundo, porque o turbante tem uma marca religiosa. Então acaba que já fazem uma leitura da mulher negra a partir dos adereços, da vestimenta, de um conjunto de coisas.
"Nomear o racismo não é uma coisa simples num país que sempre camuflou o racismo, sempre tentou esconder o racismo nas relações sociais"
P. Sobre o turbante. Foi o símbolo de uma discussão no ano passado sobre apropriação cultural. O que acha disso?
R. O turbante tem uma representatividade nessa luta e nessa resistência negra no nosso país. Não se usava turbante até um tempo atrás, a não ser pelas mulheres de terreiro. Quando o turbante vem embelezar um corpo, ele vem com essa carga política cultural. Essa discussão parte desse lugar. Por que quando a gente usa isso, isso passa a ser de todo mundo? Por que todo mundo pode agora? Antes, ninguém podia, porque existia uma certa resistência e proibição. Aí quando se quebra essa barreira e entra nesse aspecto de “agora eu posso”, todo mundo quer usar. Eu, particularmente, acho que é importante, como tudo na militância negra, a gente demarcar espaços. Mas eu não acho interessante esse embate que existe por alguém que não é negro estar usando turbante, porque ele não produz o que a gente tanto quer na militância, que é a preservação dos direitos e a igualdade. Para uma mulher branca usar um turbante, ela precisa saber que esse turbante tem uma representação. Não é qualquer adereço.
Fonte: EL PAÍS BRASIL

HOMERO - Encontrado na Grécia o trecho mais antigo que se conhece da ‘Odisseia’

La Odisea extracto

Placa de argila com o texto foi descoberta em Olímpia, berço dos Jogos Olímpicos da Antiguidade


Atenas / Madri
Uma equipe de pesquisadores descobriu na Grécia o que se acredita ser o fragmento mais antigo do poema épico de Homero, Odisseia. Os especialistas (de nacionalidades grega e alemã) encontraram o texto gravado em uma placa de barro no sítio arqueológico de Olímpia, berço dos Jogos Olímpicos, situado na península do Peloponeso, segundo informa o Ministério da Cultura da Grécia.

No trecho, com 13 versos, o herói Odisseu dirige-se ao amigo Eumeu. Estimativas preliminares indicam que a peça pode datar do período romano, provavelmente antes do século III d.C. “Trata-se uma descoberta arqueológica, epigráfica, literária e histórica”, declarou o ministério grego. O texto homérico mais antigo que se conhece é a versão de Aristarco da Samotrácia (século II a.C.).

Fonte EL PAÍS BRASIL

SANTA TERESA DE JESUS - As cartas de Santa Teresa para seu amor secreto no século XVI

Santa Teresa de Jesus

Duas cartas manuscritas de Santa Teresa de Jesus recuperadas pela Guarda Civil juntamente com outras 17 obras de arte.  EFE

Guarda Civil espanhola encontra parte de uma correspondência manuscrita da freira com frei Jerónimo Gracián durante uma operação para recuperar obras de arte.

Santa Teresa de Jesus teve outro amor, além de Deus. Um amor mais carnal e menos confessável: Jerónimo Gracián. Ela dirige a Gracián uma de suas duas cartas manuscritas inéditas descobertas durante uma operação da Guarda Civil espanhola, juntamente com outras 17 obras de arte. Santa Teresa já estava com quase 60 anos, mas isso não impediu que se apaixonasse por aquele frade jovem disposto a acompanhá-la na renovação de uma Igreja corroída pela depravação existente naquela época (1578), com freiras corrompidas e frades bêbados envolvidos com prostitutas. A esfera eclesiástica estava mergulhada em duras disputas de poder entre os dois grupos de carmelitas, os calçados e os descalços.
“Para meu padre e mestre, frei Jerónimo Gracián da mãe de Deus, em suas mãos...”, começa a missiva. Teresa de Jesus, também conhecida como Teresa de Ávila, e Gracián tiveram de suportar as fofocas que seu relacionamento provocava em sua comunidade religiosa. Principalmente Gracián: ele acabou fugindo de seus próprios irmãos, os carmelitas descalços, que conseguiram expulsá-lo da Espanha. “Foi perseguido por seguir as ideias de uma mulher, foi capturado por corsários e acabou sendo acolhido por aqueles que tinham sido seus adversários: os carmelitas calçados”, comentou o jornalista e escritor Fernando Delgado, que escreveu um romance baseado na relação entre os dois, Sus Ojos en Mí (“seus olhos em mim”).
“Em muita graça nos caiu o que respondeu aos calçados sobre o trabalho que eles realizam em Medina e como convencem as freiras a obedecer ao provincial”, escreve Teresa em 19 de agosto de 1578 em Ávila. “Ali está como vigário Valdemoro, que não obteve votos para prior e o provincial o deixou como vigário para que remediasse aquela casa; e ele, desde aquele episódio bem conhecido, está muito mal com a prioresa Alberta. Andam dizendo que terão de servi-lo e muita coisa. As outras morrem de medo dele. Já as dobrou”.
São muitas as preocupações da santa nesse momento. Gracián está em Madri, bem alojado, mas meio escondido e sem ousar apresentar-se ante o núncio Filippo Sega. O frei Juan de la Cruz fugiu da prisão. Ela não sabe disso e continua angustiada pelo destino desse santo. O chefe de sua ordem religiosa, que mantém silêncio absoluto com ela, escreveu uma carta desanimadora para uma freira. Teresa de Ávila tem de tranquilizar as carmelitas de Medina, aterrorizadas pela chegada de Valdemoro, um dos carcereiros de Juan de la Cruz.
As duas cartas foram encontradas quando o Serviço de Proteção da Natureza (Seprona) da Guarda Civil em Valladolid, como parte de suas operações destinadas a proteger o patrimônio histórico e arqueológico, recuperou 19 obras de arte que estavam no mercado ilegal. Entre elas, cinco peças cujo paradeiro era considerado desconhecido pelo arcebispado de Valladolid.

Um antiquário e uma casa de leilões

O dono de um antiquário e o administrador de uma casa de leilões foram os principais investigados por supostos crimes de fraude, receptação e venda ilícita de sete obras de arte do patrimônio histórico.
A Operação Camarim começou em março, quando os agentes do Seprona descobriram que tinha sido vendida em um leilão em Madri uma pintura que poderia corresponder a uma pertencente às Carmelitas Descalças do Convento de São José de Medina de Rioseco (Valladolid), com as quais tanto se preocupava Santa Teresa. A pintura estava incluída tanto no catálogo “Clausuras —O Patrimônio dos Conventos da Província de Valladolid” como no “Catálogo Monumental da Província de Valladolid”—.
Os agentes solicitaram a colaboração do serviço de proteção da Direção Geral de Patrimônio Cultural, do Serviço Territorial de Cultura e Turismo da Junta de Castela e Leão em Valladolid, do Museu Provincial de Valladolid Fabio Nelli, do Governo Provincial de Valladolid e da Delegação Diocesana de Patrimônio do Arcebispado de Valladolid. Houve numerosos contatos, reuniões e trocas de informações com o objetivo de descobrir os supostos delitos penais ou as infrações administrativas e recuperar as peças.
Com isso, foi possível comprovar que a tela leiloada pertencia a uma coleção composta por um total de 174 peças, das quais 28 se encontravam em paradeiro desconhecido desde 2005. As investigações conduziram as autoridades até um antiquário de Valladolid, aonde chegaram por meio de uma casa de leilões de Madri que havia analisado e avaliado a obra. Na ficha do catálogo do leilão foi ocultada a procedência da pintura e alterada sua data de criação. A tela foi localizada e recuperada em Madri, onde foi entregue voluntariamente pelo comprador de boa fé.
Os agentes descobriram, ao inspecionar o estabelecimento, que a obra leiloada tinha sido ocultada com outro nome nos registros. Além disso, durante as inspeções, os investigadores apreenderam sete obras procedentes da coleção, assim como outras sete peças catalogadas.
A análise das informações obtidas permitiu também a localização de outras cinco peças da mesma coleção em edifícios institucionais de Salamanca, Toledo, Viana de Cega e Medina de Rioseco (Valladolid). Estas obras, cujo paradeiro também era considerado desconhecido, são de origem lícita.
Finalmente, outras quatro peças da coleção citada foram entregues voluntariamente pelas freiras do Mosteiro do Coração de Jesus e São José das Carmelitas Descalças.
Na investigação também se descobriu que o antiquário tinha vendido ilegalmente outras sete obras da coleção a pessoas desconhecidas.

Do convento ao museu

Todos esses bens fazem parte do patrimônio histórico espanhol, assim como do patrimônio cultural de Castela e Leão, segundo a Lei 16/1985, de 25 de junho de 1985, do Patrimônio Histórico Espanhol e a Lei 12/2002, de 11 de julho de 2002, do Patrimônio Cultural de Castela e Leão.
As obras de arte recuperadas e as que foram cedidas voluntariamente pelas freiras carmelitas foram depositadas no Museu São Francisco de Medina de Rioseco. Esse museu abriga a maioria das obras da coleção da qual fazem parte, incluindo agora as duas cartas manuscritas, assinadas e inéditas de Santa Teresa de Jesus.
Fonte: https://brasil.elpais.com