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quinta-feira, 1 de março de 2018

Dilma, no último dia: charutos e calhordas

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Todas as ilustrações do livro foram confeccionadas pelo próprio jornalista (Créditos: Olímpio Cruz Neto/Divulgação)
Olímpio Cruz prepara livro com relatos do Golpe
Do Correio Braziliense:

Jornalista publica livro com a história por trás de clássicos da música


Qual é a playlist de sua vida? Quais obras você incluiria na lista de canções que marcaram sua existência e poderiam ser consideradas a trilha sonora da sua história? Essas perguntas são o ponto de partida de Playlist — Crônicas sentimentais de canções inesquecíveis, primeiro livro do jornalista Olímpio Cruz Neto, recém-lançado e disponível na plataforma digital Amazon.

Playlist é, claro, o conjunto de algumas das canções preferidas de Olímpio, apresentadas em 27 textos. (...) A cada texto, fica claro esse poder da música de invocar memórias e emoções. E a ideia do autor era deixar mesmo que as lembranças surgissem, para dividi-las, especialmente, com os filhos: o recém-nascido Antônio e a jovem Clara. “Eu queria compartilhar as lembranças e os prazeres dessas canções com meus filhos. Um jeito de contar um pouco a própria vida e de mostrar a eles um pouco de quem eu sou e como cresci. É quase uma terapia. Eu acho que todos temos uma espécie de trilha sonora da existência. Escrever é certamente uma maneira de ver e sentir novamente aqueles momentos”, diz Olímpio (...)

As lembranças fazem com que o escritor vá de Charles Chaplin, com sua belíssima Smile, de 1936, à banda independente brasiliense The Johnny Nit Circus e a canção Killing Words, de 2012. O passeio inclui ainda David Bowie (Space Odity), Os Novos Baianos (Mistério do planeta), Gilberto Gil (Tatá engenho novo) e tantos outros. (...)

Entrevista com Olímpio Cruz Neto


Como você chegou a esse conjunto de canções? Por que essas?
Os textos sobre essas canções foram publicados, entre 2008 e 2014, no blog que eu tinha. Eram crônicas em cima de fatos e episódios correntes, como a morte de Michael Jackson, o aniversário de John Lennon ou de George Harrison. Não havia uma seleção prévia. O que une essas canções é a ligação emotiva ou afetiva que tenho com elas. No processo de seleção dos textos, acabei reescrevendo trechos, incluí informações e alterei algumas partes, porque precisei tirar as referências às datas específicas — o anúncio do show do Paul Weller no Brasil, a participação do Suede em um evento em São Paulo... As canções estão entre as minhas favoritas, mas ainda tenho material para um segundo volume. Quem sabe consigo editar mais para frente?

Na crônica sobre Música urbana e Música urbana 2, você conta uma passagem capaz de deixar muitos fãs do rock nacional invejosos: uma visita ao quarto do jovem Renato Russo com dois terços dos Paralamas. Como é que você foi parar lá, e ainda por cima acompanhado de figuras tão fundamentais da música brasileira?
Eu estudava no Colégio Objetivo em 1983. E, lá, tinha muitos amigos da chamada Turma da Colina. Um deles era Pedro Ribeiro, irmão do Bi, dos Paralamas. Éramos muito próximos e, por conta disso, acabei conhecendo muitos dos talentosos caras que estavam à frente das principais bandas de Brasília naquele momento: Legião, Plebe, Capital e Escola de Escândalos. Vi muitos shows. Um deles foi a primeira apresentação dos Paralamas em Brasília, num festival que rolou no Ginásio de Esportes, o Rock Way 2. Nesse dia, como tinha o carro do meu pai disponível, fui com Pedro ao hotel e, de lá, convidado a acompanhar os dois terços dos Paralamas, junto com o Fê, do Capital. Meu pai tinha uma Belina. O Fê tinha uma Caravan laranja. Daí que fui parar na casa do Renato, na 303 Sul. Eu fiquei impressionado com ele. Sabia quem era, mas não o conhecia. De perto, fiquei fascinado porque era um cara articulado e muito inteligente. Fiquei fã imediatamente e nunca mais o trabalho dele saiu do meu radar. Eu tenho em casa pelo menos umas 20 fitas k7, que digitalizei, com muitas canções dessas e outras bandas daqui de Brasília dos anos 80. Inclusive ensaios e as famosas demos que abriram as portas para as gravadoras. Isso deve ganhar a forma de um livro nos próximos meses. 

No ano passado, você divulgou um capítulo de seu livro sobre o impeachment de Dilma. Como está esse projeto?
Eu tenho outros quatro livros no prelo, que espero publicar até o fim do ano. Um é sobre o impeachment, que se chama Diário da resistência — Os 128 dias do impeachment de Dilma Rousseff. Eu fui secretário de imprensa dela entre 2014 e 2015 e, em 2016, fui trabalhar diretamente com ela como seu assessor de imprensa, justamente no período de afastamento. O livro trata dos bastidores e acompanha por dentro o processo do impeachment, de 12 de abril, data da aprovação do afastamento pelo Senado, a 6 de setembro, quando ela embarcou para Porto Alegre, depois de ser tirada em definitivo da Presidência da República. É um livro sobre a história política recente do país sob a perspectiva de quem viu de perto esse período. (...)
Leia também no Conversa Afiada:


Em tempo
: em maio de 2017, o Conversa Afiada publicou o primeiro capítulo de "Diário da resistência", projeto de Olímpio Cruz Neto sobre o processo de impeachment da presidenta Dilma:

Dilma, no último dia: charutos e calhordas

Olímpio Cruz abre o livro sobre quem assessorou

Conversa Afiada reproduz da piauí o capítulo inicial do livro de Olímpio Cruz Neto, que foi e é assessor de imprensa da Presidenta Dilma Rousseff:

HÁ UM ANO


Livro inédito de assessor relata as primeiras horas de Dilma Rousseff depois de saber de seu afastamento da Presidência da República

POR OLÍMPIO CRUZ NETO

Entre janeiro de 2014 e julho de 2015, o jornalista brasiliense Olímpio Cruz Neto, de 50 anos, foi o secretário de imprensa da presidente Dilma Rousseff. No Palácio do Planalto, seu trabalho era conduzir a política de relacionamento da chefe de Estado com a imprensa nacional e estrangeira, fazendo o contato diário com repórteres credenciados, além de produzir notas, briefings e acompanhar Dilma em viagens nacionais e internacionais. Nesse período, construiu uma ligação forte com a presidente, que lhe tratava pelo apelido de Olicruz, o acrônimo usado em seu endereço de e-mail.

Do dia 12 de maio, quando o Senado autorizou o afastamento dela do cargo até ela deixar o Palácio do Alvorada, em 6 de setembro, passaram-se 128 dias. É esse o foco de seu relato. Nesse período, Cruz Neto passou a descrever em detalhes o que se passava nos últimos dias da rotina presidencial. O material já soma 225 páginas.

Nesse extrato do texto – que deve ser o primeiro capítulo de um livro a ser publicado em breve –, ele foca a narrativa na relação pessoal com Dilma, que usava um robe de seda e fumava charuto descalça na residência oficial, quando se viram logo depois da votação do afastamento. Foi quando também ela fez um comentário sobre o novo ministério de seu sucessor. “Só tem CCC: canalhas, calhordas e corruptos” e depois lhe recomendou um livro – que ela tinha lido com atenção – sobre impeachment e instabilidade na América Latina.

Atualmente, Cruz Neto é assessor do senador Jorge Vianna, do PT do Acre.

Será o nono livro escrito sobre o processo de impeachment da ex-presidente em menos de um ano.


CAPÍTULO 1QUINTA-FEIRA, 12 DE MAIO DE 2016

Eram 15h40 quando cheguei ao Palácio da Alvorada, naquela tarde com gosto amargo na boca. Angústia de quem estava enojado até o peito. Poucas horas antes, havia acompanhado pela tevê o pronunciamento de Dilma Rousseff, após ela ser notificada de seu afastamento da Presidência da República por até 180 dias.

Barrado na altura do Palácio do Jaburu por um esquema de segurança instalado havia quase um mês, depois que a Câmara dos Deputados aprovara em 17 de abril o início do impeachment da presidenta, dei meu nome ao segurança. Liberado em cinco minutos, deslizei com o carro para dentro do Alvorada. Atrás da barreira, uma repórter da Globo gravava uma passagem.

Chaguinhas estava na porta de entrada dos funcionários, dentro do palácio. Espécie de gerente do Alvorada, encaminhou-me ao salão de jogos, instalado logo depois da sala de cinema. Passei pelo umbral recheado de poltronas Charles Eames e meus passos me levaram em seguida à mesa de Roberto Stuckert Filho. Fotógrafo oficial da presidenta há mais de cinco anos, Tuca me deu um abraço depois de brincar:

– Veio trabalhar, gordinho?

Ri alto.

Cumprimentei Glauber e Rafael, assistentes do fotógrafo. E acenei com a cabeça para a loura Elisa Smeniotto, assistente de Giles Azevedo, o poderoso ex-chefe de gabinete pessoal da presidenta. Na outrora sala de jogos, mesas haviam sido recém-instaladas, com computadores e outros equipamentos. No chão, caixas com documentos e material pessoal de Sandra Brandão – a “Google da Dilma” – e de Giles estavam espalhadas. Os dois não estavam presentes.

Tuca me direcionou a uma mesa com computador e telefone. O celular explodia com incessantes mensagens de WhatsApp e chamadas no celular pessoal. Perguntei ao fotógrafo, com quem trabalhara na redação d’O Globo ainda nos anos 90, onde estava a presidenta da República.

– Lá em cima, fumando um charuto. Foda, velho.

– Ela está bem? – indaguei.

– Cara, ela almoçou com uma galera. Lula, Berzoini e um monte de ministros. Onde você estava que não veio antes?

– Ô, Tuca, fui cortar o cabelo – respondi, mentindo. (Tinha ficado em casa aguardando um telefonema para ir ao Alvorada). – E o Lula? Como ele estava?

– Abatido. Nem falei com ele quando saiu daqui.

Puxei a cadeira e olhei os funcionários instalando mesas e empurrando caixas. Aquela sala, com oito mesas de madeira escura – típicas do Planalto e de Brasília dos anos 60 – seria o ambiente de trabalho pelos próximos meses, a depender do andamento do processo de impeachment conduzido no Senado da República. O local seria apelidado mais tarde de “Bunker da Resistência”.

A tevê ligada na Globonews cintilava com a reprise do discurso de Dilma, mais cedo, ainda no Planalto. Na sequência, a narrativa implacável das inusitadas comentaristas: Cristiana Lôbo e Eliane Cantanhede. As veteranas jornalistas se revezavam, com comentários ácidos sobre o ocaso do governo Dilma. Em intervalos, sucediam-se para falar a todo instante da importância daquele “dia histórico”. Ainda tive tempo de ouvir a apresentadora chamando Andrea Sadi, com os “bastidores do novo governo”.

Sorrindo, a repórter recita então os nomes dos novos ministros, puxando uma fieira sucessiva de velhas caras pálidas da política nacional. Algumas conhecidas do noticiário de escândalos do governo Fernando Henrique. Como o Quinteto Violado de Temer – Moreira, Geddel, Jucá, Padilha e Henrique Eduardo Alves… Aquilo soava mal na tevê. Eu ri e pisquei pra Tuca:

– É o Ministério Benjamin Button… Nasceu velho.

O WhatsApp segue explodindo com novas perguntas de jornalistas. Querem detalhes da agenda do dia, pedem entrevistas ou comentários de Dilma. Ignoro a maioria. Não tenho o que dizer. Ainda. Aproveito o aplicativo aberto e mando mensagem para Maria da Solidade de Oliveira Costa, a Suli, uma das assessoras especiais da presidenta, explicando que já estava no Alvorada porque havia sido chamado a falar com a Dilma. Em instantes, recebo a autorização para subir.

Cruzo as escadas até o Salão Dourado e vejo mais funcionários instalando novas mesas e armários nas salas viradas para a frente do Alvorada. Tuca me acompanha. Entramos numa das salas e deparamo-nos com Bullouwer, um dos ajudantes de ordens de Dilma. Ele sorri e cumprimenta-nos de pé. Abraçamo-nos e digo que estava ali porque havia sido chamado. Major do Exército brasileiro, o oficial me leva até a escada e Suli brinca comigo do alto:

– Vai emagrecer rapidinho nos próximos meses.

Eu a abraço e dou um beijo em sua bochecha. Saudamo-nos no momento difícil. Cruzo a porta até a antessala do escritório. No corredor, uma parede abriga a gravura de Vito Corleone, o grande personagem de Marlon Brando. O desenho é meu. Foi feito em 2014 e dado de presente a Dilma no dia do seu aniversário, em 14 de dezembro do ano seguinte. Estou surpreso. Não imaginava ver meu “Poderoso Chefão” ali.

Da suíte presidencial, uma voz familiar ressoa. É Dilma quem se aproxima. Está com um robe claro, descalça e de óculos de fundo de garrafa. Parece tranquila. Sorrindo, ela me anuncia:

– Olímpio Cruz, ôce tá bem, meu filho?

– Bom vê-la assim, sorridente, presidenta. Está animada.

Dois beijos e seu abraço apertado me deixam acanhado.

– Sabe que eles não vão me deixar deprimida. Não dou esse gostinho a eles. Senta, Olímpio.

O garçom entra e serve à presidenta uma limonada. Ela faz o movimento de pinça com os dedos. É a deixa para o adoçante. Em seguida, o rapaz serve água e café. Ela retoma a conversa:

– E aí, Olímpio?

– Eu é que pergunto, presidenta.

– Vamos trabalhar, né?

A seguir, repete um mantra que aprendi a ouvir nas viagens ao exterior e nas minhas idas ao Alvorada:

– Maaaarliiiii… Maaaarliiiii… Maaaarliiiii… – diz, elevando o tom de voz.

Sua assistente sai do quarto e a presidenta pede para ligar o ar-condicionado e fechar as cortinas.

– Tá muito quente aqui.

Em seguida, volta-se para mim.

– Vamos trabalhar muito – diz, anunciando que está disposta e cheia de energia para seguir adiante, percorrendo o país e o mundo para denunciar o golpe que sofrera naquele dia. Diz que chegou a hora de fazer barulho.

– Quero fazer um blog, diário. Todo dia colocar uma coisa.

– Isso é ótimo. Temos de usar os recursos da internet para fazer barulho, presidenta… Facebook, Twitter e o blog. Combinamos com o Stuckert e a Paulinha [Zagotta, jornalista, uma das responsáveis pela administração dos perfis de Dilma nas redes sociais].

– Isso, isso… No blog, vou colocar fotos, textos e vídeos. Vamos dar recados.

Dilma está tranquila. As unhas dos pés, pintadas impecavelmente de vermelho, fazem um contraste com a sua pele clara. Os pés são pequenos, claros e delicados. Ela calça 35. Nem parece, porque não é uma mulher de baixa estatura. As mãos são de sinhazinha, com dedos finos estendidos a partir das mãos pequeninas, o que sempre me chamou atenção. Mãos delicadas.

A presidenta está vestida com um chambre branco, longo e uma estampa colorida na altura do peito. É inusitado vê-la tão à vontade, com os pés à vista, descalça. Eu já a vira usando aquela mesma roupa, mas de sandália, durante a campanha da reeleição em 2014, nos preparativos de um debate televisivo, em pleno Alvorada, rodeada por João Santana, Franklin Martins e outros colaboradores do chamado núcleo duro. Eram dias de concentração extrema e forte tensão, porque a disputa era ferrenha.

Mas agora era diferente. Dilma está tranquila. Bem mais magra do que antes, mas um pouco encurvada. Está ferida, mas muito altiva e viva. Seus olhos estão alertas e saltitantes. Os pés permanecem estendidos à minha frente em cima de um pufe do designer americano Charles Eames, enquanto ela se estica no sofá, tendo uma almofada nas mãos.

Então, puxa o telefone e pede à telefonista uma ligação, enquanto aguarda, encarando-me. Depois de alguns segundos calada, fala ao interlocutor:

– Ô, Alexandre. Segura mais uns dias o Olímpio no banco, viu? Espera um pouco até eu acertar a vida dele aqui. Tá bom? Ok?… Ok… Obrigada. Abraço.

Sorrindo para mim, ela pisca.

– O Alexandre é joia. Cê vem pra cá depois.

O personagem de quem ela fala é Alexandre Abreu, presidente do Banco do Brasil. Não por acaso, era meu assessorado desde que saíra do Palácio do Planalto, em agosto de 2015, depois de uma conversa queixosa que tive com ela, na mesma tarde em que Dilma foi saudada por índios numa cerimônia dos Jogos Indígenas. A solenidade do famoso discurso da mandioca. Foi quando decidi deixar a Secretaria de Imprensa.

É preciso dizer que foi a própria presidenta quem me indicou para a assessoria de Abreu, um capixaba de 50 anos, simpático e falante, com quem trabalhei nos últimos nove meses desde que acertara com ela o meu desligamento da Presidência da República. Fechando este preâmbulo, confesso que gostei de retomar o contato direto.

Digo, meio sem graça, que estava ali para conversar porque tinha sido surpreendido por jornalistas naquela manhã, bem cedo, perguntando a mim sobre a nomeação como seu assessor especial, justamente no período do afastamento. O despacho havia sido publicado no Diário Oficial da União. Ela me interrompe.

– Ué? Já saiu? Então, tem de vir logo, porque não dá para ser nomeado aqui e continuar no banco.

Eu disse à presidenta que estaria disponível na semana que vem. Ela fala para eu ficar tranquilo, que vai dar tudo certo. Mas já me dá as primeiras instruções:

– Ocê vai preparar aquelas análises de mídia, diárias, dos jornais e dos blogs (sujos!). Isso pra começar. E já pode ser na semana que vem. Eu viajo amanhã para Porto Alegre e volto segunda de manhã. Ou domingo, não sei ainda…

Digo que tenho muitos pedidos de entrevistas.

– Quem? – ela questiona.

Dou início às indicações que marquei numa lista:

– Tania (Monteiro, repórter do Estadão)…

– Agora, não.

– [Luís] Nassif…

– Faço.

– Paulo Henrique [Amorim]…

– Faço.

– Acho que a senhora deveria falar também com Glenn Greenwald.

Relato que o jornalista americano – mundialmente famoso por revelar a espionagem dos Estados Unidos e o jogo pesado da Agência Nacional de Segurança (NSA) graças a documentos repassados por Edward Snowden –, publicara naquele mesmo dia um artigo “A democracia brasileira sofrerá um duro revés com a posse de um inelegível e corrupto neoliberal” e que ela precisava ler na íntegra. O texto havia saído horas antes no site The Intercept.

– A senhora chegou a ler?

– Não. Mande pra mim. Faz o contato com ele e traga-o aqui. Vamos fazer muitas coisas aqui, Olímpio.

Por 35 minutos, Dilma me fala de seus planos imediatos – entrevista para jornalistas estrangeiros na manhã seguinte, viagens pelo Nordeste, agendas no Alvorada, compromissos em universidades e sindicatos pelo Brasil. Sugiro um artigo, a ser publicado em veículo estrangeiro, nos próximos dias, tendo como base o discurso de resistência do Planalto. Ela concorda.

– Você lê bem inglês, né Olímpio?

Confirmo e ela grita o nome de Deise.

– Ô Deise, traga o meu Kindle. Olímpio, você precisa ler o livro do argentino sobre impeachment.

Ao receber o aparelho das mãos de Deise Ramos, outra de suas assessoras pessoais, a presidenta digita com os dedinhos o nome de Aníbal Pérez-Liñan. E dita a mim o nome do livro.

– Tem que ler esse livro. Chama-se Presidential Impeachment and the New Political Instability in Latin America. A edição eletrônica está disponível na Amazon.

– Eu vou comprar, presidenta.

– Ele tem muitos argumentos sobre como o impeachment está sendo usado na América Latina. Fala inclusive do papel dos meios de comunicação oligopolizados da região.

De pronto, indago se ela vai para fora do país, após ter falado do desejo de dar início à sua tour de resistência pelo Nordeste. Dilma confirma visitas a países da América Latina e eu sugiro pelo menos duas visitas que considero importantes: Rússia e China.

– A senhora tem de ir a esses países para falar sobre o golpe e apontar os riscos aos BRICS. Conversar com (Vladimir) Putin e o presidente Xi-Jinping.

Ela concorda, maneando a cabeça. Para emendar outro assunto, na sequência, sugiro aquilo que mais me empolgava, desde a primeira sondagem para voltarmos a trabalhar juntos: um livro.

– A senhora precisa contar a sua história e o legado do seu governo. Como chegamos a essa situação absurda. Isso é história. A senhora deve isso a si e ao país.

Dilma abre um sorriso e dá para ver uma fagulha se espalhando pelos olhos. A expressão de menina peralta se expande e seu rosto se ilumina.

– Claro. Vamos escrever. Ótima ideia – diz, esfregando os braços. Vai ser O Diário do Impeachment – diz, juntando em seguida as mãos e sorrindo com sinceridade.

– Presidenta, imagino que a gente podia fazer pelo menos três horas semanais de entrevistas como método inicial. Eu faço a gravação do material à medida que vamos trabalhando, trazendo suas memórias, relatos e opiniões. Revisamos o material, juntos, adequamos tudo e, sem pressa, deixamos para depois o tempo de organização do livro. Não precisa ser para já.

Ela concorda, acenando com a cabeça e sorri. Parece imensamente satisfeita com a modesta sugestão. Está tão empolgada com a ideia do livro que sorri estalando a língua, como se estivéssemos tratando de um passeio pela Disney. Nem parece a chefe de Estado que está vivendo há menos de cinco horas a condição inédita de ser a única presidente da República afastada do exercício do poder sem provas de crime de responsabilidade.

Penso que Dilma parece melhor preparada diante das situações de adversidade. Eu já a vira assim, quicando, em algumas situações durante a campanha de reeleição.

Era um contraste absurdo com a imagem do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, seu quase ministro-chefe da Casa Civil. Lula a abraçara há poucas horas, na porta da frente do Palácio do Planalto, completamente amuado e abatido, enquanto ela, estoicamente, seguia em direção a uma multidão, que a saudava com “Dilma, Guerreira da Pátria Brasileira”.

Em instantes, falaria ao microfone, num púlpito improvisado no pé da rampa do Planalto, onde encerraria o ato com seu segundo discurso de resistência e resignação.

Dilma parece a mesma doce guerrilheira dos anos 60, com ânimo para denunciar a injustiça munida apenas de sua voz e a justa indignação dos perseguidos.

Saio dos meus pensamentos quando ela me pergunta a seguir sobre os nomes dos ministros de Temer. Queria saber o que estava dando a imprensa. Sua curiosidade é para saber quem havia sido indicado para o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e para a pasta das Minas e Energia.

Informo que Marcos Pereira, presidente do PRB, evangélico ligado à Igreja Universal do Reino de Deus e ex-diretor da Rede Record, tinha sido convidado para o primeiro cargo. Um estranho personagem à frente de um ministério que tivera no comando o empresário e senador pernambucano Armando Monteiro Neto (PTB-PE).

– Incrível! – ela exclama. – Esse rapaz, o bispo, foi chamado primeiro para Agricultura, depois para Ciência e Tecnologia… Agora vai pro Desenvolvimento.

Digo que a tragédia do ministério Temer podia ainda ser pior, ao citar o caso do deputado Newton Cardoso Jr. (PMDB-MG). Filho do ex-governador de Minas Gerais, ele se anunciou no Facebook no dia anterior como ministro da Defesa, após se encontrar com Temer no Jaburu. Horas depois, a repercussão na imprensa foi inabalavelmente ruim. Valdo Cruz, ainda na Folha, deu a grita dos militares. Newtinho acabou vetado pelos militares para comandar as Forças Armadas. Era apenas mais uma das indicações estranhas do novo governo velho.

– Não há um notável – aponto.

– Só há notórios. Um CCC – diz.

Antes mesmo que eu perguntasse o significado da sigla, ela lista: “canalhas, calhordas e corruptos”. Seu semblante muda. Fica séria e eu toco no assunto das traições.

– Veja você, aquele rapaz. Pediu demissão do ministério na sexta e no domingo estava liderando a bancada pelo impeachment. Isso mostra a questão do caráter das pessoas.

A referência velada é ao ex-prefeito de São Paulo e ex-ministro das Cidades, Gilberto Kassab, que seria confirmado por Michel Temer, naquele mesmo dia, pouco depois dessa conversa com Dilma, como o novo ministro da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações, na cerimônia que ocorreria em instantes no Palácio do Planalto.

Dilma foi apunhalada pelas costas não apenas por Kassab, mas também por muitos outros políticos. No início do governo Temer, havia pelo menos uma dezena de ex-ministros que serviram a ela. Alguns desses colaboradores, inclusive, muito próximos. Outros, nem tanto. Dilma cita os nomes de Moreira Franco e Eliseu Padilha, dois de seus ex-ministros que estiveram no centro da conspiração desde o começo. Mas a esses ela mesma nunca foi muito chegada. São apenas alguns dos políticos reconhecidamente sem votos. Dois dos conspiradores mais próximos de Temer.

O semblante dela fica mais carregado quando indago se tinha conhecimento de que Thomas Traumann vinha atuando como consultor de Moreira Franco, ex-governador do Rio adversário de Brizola nas eleições de 1982. O ex-porta-voz de Dilma e ex-ministro-chefe da Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República fora flagrado, semanas antes, visitando Temer em São Paulo, ao lado de Moreira Franco.

– Grande Thomas! Grande Thomas… Eu realmente fico pasma com a deslealdade e a traição – lamenta. – E, para não dizer, da falta de caráter.

Eu permaneço mudo. Dilma também, mas em seguida ela sorri novamente ao mencionar o nome de uma mulher de quem se afeiçoara.

– Mas também tive boas surpresas, como a Kátia Abreu.

Ela tem razão. A ex-ministra da Agricultura, que passou uma década fazendo oposição a Lula e aos governos do PT, veio a migrar do Democratas para a base de apoio ao governo Dilma depois da aprovação do Código Florestal, em 2012. No sábado, imediatamente anterior à Quinta-Feira da Traição, Dilma estivera com ela em Palmas, no Tocantins, inaugurando uma unidade da Embrapa. Um almoço na casa de Kátia, regado a vinho, marcou o último compromisso fora de Brasília de Dilma antes daquele fatídico “Dia D”, 12 de maio, o dia da consumação da grande conspirata. Kátia mostrou-se uma amiga leal até o fim daqueles dias.

Um colega da bancada do Tocantins da senadora fizera o papel de emissário das más notícias naquele 12 de maio. Cinco horas depois de receber a notificação das mãos do senador Vicentinho Alves (PR-TO), Dilma parecia leve, apesar do infortúnio que a afastou do cargo para o qual fora eleita em 2014 por 54,5 milhões de votos.

Começava, naquela estranha quinta-feira, mais uma etapa de resistência na vida da ex-guerrilheira e primeira presidenta da República, eleita por duas vezes pela maioria do povo brasileiro.

OLÍMPIO CRUZ NETO
Fonte: CONVERSA AFIADA - PAULO HENRIQUE AMORIM