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domingo, 7 de julho de 2019

10 CURIOSIDADES SOBRE O PRIMEIRO FOTOGRAFO NEGRO DO SERTÃO DO RIO GRANDE DO NORTE


Por Henrique Araújo - Curiozzzo
O nome dele era José Ezelino da Costa. Um homem negro de origem humilde que viveu entre 1889 e 1952. Ezelino nasceu no sítio Umbuzeiro, sertão do Rio Grande do Norte, nos arredores da cidade de Caicó, sociedade predominantemente branca, e foi lá onde ficou famoso como fotógrafo “freelancer”.

1. Ele morou a vida inteira com a mãe, uma ex-escrava

2. Sua primeira câmera foi um presente de um vizinho


Um vizinho da família, um irmão do Dr. Luciano Nóbrega que, voltando de uma viagem a Recife, trouxe a câmera e um álbum de fotografia. A partir de então aprendeu a fotografar sozinho e nunca mais largou a arte da fotografia.

3. Ele chamou atenção pelo modo como fotografava sua família


Um dos fatores que chama atenção no trabalho do fotógrafo foi o modo como ele retratou os membros da família, quando não era comum encontrar imagens de negros que não estivessem em trabalhos subalternos, no campo, ou nas grandes capitais, em fábricas ou indústrias. Ezelino levou familiares para dentro do estúdio e os fotografou com roupas sociais na moda da época, com o pioneirismo de experimentar a estética aristocrática na pele negra.
“Não podemos afirmar que José Ezelino quisesse revelar alguma espécie de racismo sobre sua condição de negro ou sobre a sociedade que vivia. Entretanto, podemos perceber que ele provocou por meio de sua fotografia, uma imagem forte de identidade social”, disse a pesquisadora potiguar Ângela Almeida – que escreveu um livro sobre Ezelino – contrapondo-se à tendência do Seridó em exaltar suas ascendências européias, e ignorar as demais.

4. Ele tinha uma técnica peculiar

“A primeira impressão que tive quando observei as fotografias de José Ezelino foi a potência de uma linguagem autoral. Ele não só construía seus cenários como tinha uma luz suave em contraste com a luz dura do sertão”, disse Ângela, sugerindo que ele foi o primeiro fotógrafo sertanejo portador de uma linguagem que se diferenciou de outros fotógrafos.

5. Seu aprimoramento do olhar veio a partir da leitura de livros

Ele obteve o seu aprimoramento do olhar a partir de leituras de livros. Os familiares relatavam que ele lia muito e quando passou a ganhar melhor fazia anualmente viagens para Recife e Rio de Janeiro, tanto no intuito de comprar novos livros, como equipamentos e produtos químicos para se atualizar.

6. Não existe acervo dele


“Os originais não existem mais. Algumas pessoas é que têm algumas fotografias impressas. Fiz a impressão da foto em papel e pintei. Depois disso, fotografo e faço a edição”, detalhou a pesquisadora. Ezelino tem ainda uma série de autorretratos.
Uma das principais fontes de informação sobre ele é uma sobrinha-neta de José Ezelino, a arquiteta, socióloga e doutoranda em Educação Ana Zélia Maria Moreira. Ela é neta de Mathilde Maria da Conceição, que era irmã do fotógrafo.

8. Ele também foi músico

José Ezelino. Foto: https://www.saibamais.jor.br
Além de exímio fotógrafo, Ezelino também foi músico autodidata, e tocava violino e saxofone. Ele criou uma banda de jazz e participava de recitais de música sacra.

9. A vida dele virou livro

Publicado em 2017, o livro “Quando a pele incendeia a memória” da pesquisadora potiguar Ângela Almeida se divide entre o histórico do fotógrafo e um trabalho autoral, feito a partir das imagens resgatadas do biografado. “Realizei uma interferência, que é quando o artista se apropria de uma obra que não é dele e intervém sobre aquela imagem”, explicou a pesquisadora, que é jornalista doutora em Ciências Sociais.
O projeto gráfico é de Rafael Sordi Campos, com ilustrações de Michelle Holanda. O livro teve o patrocínio do Morada da Paz para a sua impressão por meio da lei de incentivo Djalma Maranhão.

10. Do menino pobre ao fotógrafo surpreendente e bem sucedido


Negro e pobre, Ezelino já parecia ter um destino traçado, mas sua destreza e genialidade manipulando a câmera fotográfica levou à sua ascensão social e boas condições de vida, de modo que não lhe faltavam clientes e novos trabalhos.
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Vi no Saiba Mais . Com imagens de Brechando.com
Fonte: Curiozzzo

Estamos caminhando para a volta da ditadura militar? 10 passos preocupantes

#1 Primeiro, grupos conservadores da elite saíram às ruas batendo panelas e exigindo o fim de um governo de esquerda, (re)eleito por maioria de votos, acusado de corrupção.
#2 Depois, houve um impeachment baseado num motivo no mínimo frágil (alguém se lembra das pedaladas?), questionado por entidades internacionais de peso.
#3 Em seguida, um vice assumiu contestadamente o poder, promovendo várias medidas que representaram grande retrocesso para o país.
#4 Vários direitos dos trabalhadores, garantidos desde os tempos de Vargas, foram estraçalhados por esse grupo no poder.
#5 O país foi ficando cada vez mais polarizado, dando margem ao fortalecimento de figuras patéticas como Jair Bolsonaro, fã confesso do coronel Ustra, único militar brasileiro declarado torturador pela Justiça até o momento.
#6 Foi ganhando força, também, discursos reacionários que pregam censura a expressões artísticas, que já se tornaram inclusive projetos de lei.
#7 Um ex-presidente foi julgado e condenado até em segunda instância em tempo recorde, com base em provas também frágeis e, de novo, contestadas por seu caráter político (que, muitas vezes, fez lembrar processo quase idêntico sofrido por JK nas mãos dos militares).
#8 Agora, um general do Exército é nomeado interventor de segurança no Estado do Rio de Janeiro, ganhando “poderes de governo“, nas palavras do ministro da Defesa, pelo menos até o dia 31 de dezembro de 2018. Por meio de um decreto já questionado por juristas, e também por políticos à esquerda e à direita.
#9 Esse general poderá tomar decisões apenas referentes à segurança pública, mas segurança pública pode significar muito mais que tanques andando pelas ruas do Rio: pode resvalar nas escolas e na saúde pública, como bem desenhou Renato Rovai.
#10 Pior: podemos nos preparar para, nos próximos meses, assistir a notícias incríveismostrando como o Rio se tornou um Estado pacífico e maravilhoso depois da intervenção do Exército sob batuta de Temer. Isso deve ser tão martelado que, daqui a pouco, outros Estados que estiveram recentemente embebidos em violência urbana, como Espírito Santo e vários do Nordeste, poderão, quem sabe, ganhar uma ajudinha de um interventor do Exército. E, se essa moda pega, logo teremos um chefe do Exército em cada uma das 27 unidades da Federação.
Leia também:

Teoria da conspiração? Neste momento, prefiro pensar que é uma pequena lição da História recente do Brasil. Mostrando que o que aconteceu na década de 60 e levou a uma ditadura militar de 21 anos poderá, sim, se repetir. Afinal a polarização do país, que existiu no governo de Jango, já se repetiu agora, a marcha da família já se repetiu também, a censura voltou a mostrar suas garrinhas, parte dos direitos trabalhistas foi cassada, agora até o Exército volta a receber um poder no Executivo que nunca tinha tido, desde 1988, quando o país ganhou sua Constituição democrática.
O que pode vir no futuro? Segundo nos lembra o passado, coisas como: restrição do direito de voto, fim dos partidos políticos, suspensão dos direitos políticos dos cidadãos, cassação de mandatos parlamentares, eleições indiretas para governadores, proibição das greves, ampliação da repressão policial-militar, exílios, prisões, torturas e desaparecimentos de cidadãos, restrições a todas as formas de manifestações artísticas e culturais etc.
Pode não acontecer nada disso também. Pode ser que a intervenção do Exército tenha sido só uma manobra do Temer para não passar vexame na votação da reforma da Previdência, como dizem alguns analistas com bola de cristal. Pode ser que o interventor consiga o milagre de acabar com a banda podre da polícia fluminense e de conter o organizadíssimo tráfico do Rio. Pode ser que as eleições deste ano transcorram sem turbulências que mereçam menção e os últimos dois anos de instabilidade política do Brasil fiquem para trás.
Mas está mais fácil — bem mais — ser pessimista do que otimista no Brasil de hoje.
Por isso, ponho minhas barbas de molho, ao som de Cazuza (eu vejo o futuro repetir o passado), e sigo no aguardo de dias melhores para todos…

Ednardo vai processar organizadores dos atos pro-Sérgio Moro por uso indevido de Pavão Mysterios

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Cantor EDNARD - Foto Google
por Rafael Duarte.

Por Inácio França I Marco Zero Conteúdo 

Após saber que a gravação original, com a sua voz, foi tocada nos trios elétricos neste domingo, dia 30, no Recife, Rio de Janeiro e Porto Alegre, o músico cearense decidiu processar os responsáveis pelas contratações dos caminhões de som e convocação dos atos de rua bolsonaristas.

O cantor e compositor Ednardo, autor da música Pavão Mysteriozo, perdeu a paciência com os organizadores das manifestações em defesa de Sérgio Moro. Após saber que a gravação original, com a sua voz, foi tocada nos trios elétricos nesse domingo, dia 30, no Recife, Rio de Janeiro e Porto Alegre, o músico cearense decidiu processar os responsáveis pelas contratações dos caminhões de som e convocação dos atos de rua bolsonaristas.

A música é uma referência à conta fake de Twitter que, logo após o começo da Vaza Jato, foi usada para divulgar boatos e notícias falsas contra o jornalista Glenn Greenwald e seu marido, o deputado federal David Miranda (PSOL-RJ). A conta com o nome da canção foi deletada logo após a disseminação do boato, mas a família Bolsonaro e o apresentador Ratinho ajudaram a espalhar a fake news.

Logo depois da manifestação de domingo na praia de Boa Viagem, a equipe da Marco Zero procurou Ednardo, que não escondeu sua irritação: “Fiz esta música no tempo da ditadura militar, e seus versos caem como luva crítica contra este atual desgoverno. Será que os caras não perceberam que ao insistir na sua utilização indevida numa manifestação grotesca, estão dando um tiro nos seus próprios pés?”, questionou o compositor.

Inicialmente, Ednardo disse que não pretendia tomar nenhuma medida judicial, pois estava passando muitas horas em estúdio, gravando seu próximo álbum: “Já me pronunciei publicamente contrário à utilização da música de minha autoria nestas manifestações pró-coisa ruim. Mas não posso impedir que as pessoas cantem. Aliás, os caras são tapados mesmo, sequer prestam atenção na letra!”

Até aquele momento, Ednardo imaginava que a música tinha sido cantada pelos militantes. Na tarde de segunda-feira, quando a Marco Zero publicou em seu instagram o vídeo com a gravação original, com a sua própria voz, sendo reproduzida nos carros de som, ele mudou de ideia.

“É mais grave porque colocaram uma gravação com minha voz, pensava que eram os próprios integrantes do trio do caminhão de som tocando e cantando. No link da Marco Zero tem o nome de um dos responsáveis, vou solicitar minha produção para juntar as provas de uso indevido e sem permissão”.

Em seu perfil no facebook, Ednardo também desabafou: “Na recente manifestação em desapreço à democracia brasileira, foram às raias da insanidade, gritando pelo fechamento do congresso, volta de regime militar, prisões no STF e outras demonstrações de ódio extremista, e subserviência de nosso país a outros governos. Seria de se esperar em evento deste tipo. Mas então colocaram a música Pavão Mysteriozo, gravada de meu disco e com minha voz, em um dos caminhões de som para o público cantar, como se eu tivesse dando um aval.”


Utilizar o banheiro tem se tornado uma luta para pessoas trans no Brasil, que aguardam decisão do Supremo sobre o tema

Alexandre Putti 

Juliana Perez, de 24 anos, é fluminense e veio para São Paulo aproveitar as férias da universidade. Nos dias em que esteve na capital paulista, a estudante de arquitetura foi conhecer um dos principais museus da cidade: o Masp.

Após realizar a visita, ela e suas duas amigas decidiram ir até o Mirante 9 de Julho, um café que fica atrás do museu e sobre uma das principais avenidas de São Paulo. Ao chegar no local, Juliana foi ao banheiro e se surpreendeu com o que viu. Não havia distinção entre masculino e feminino.
Dentro do Mirante 9 de Julho o banheiro é unissex, homens e mulheres dividem o mesmo espaço. “Essa foi a primeira vez que entrei em um banheiro assim. Achei diferente, mas não me incomodou. Acho que é uma tendência que deve ser adotada em outros lugares”, diz a estudante.
Juliana é moradora de Teresópolis, uma cidade no interior do Rio. Lá, ela conta, não existem banheiros assim. “Acho que o ideal seriam três banheiros, pois como mulher me sinto um pouco insegura. Ou talvez uma fiscalização dentro já resolvesse. Devemos nos adaptar”, defende.
JULIANA PEREZ SAINDO DA SUA PRIMEIRA EXPERIÊNCIA EM UM BANHEIRO UNISSEX. FOTO: WANEZZA SOARES
O que acontece no Mirante 9 de Julho não é um caso único. Desde que o debate sobre identidade de gênero começou a ganhar força na sociedade, bares e restaurantes da região central de São Paulo têm adaptado seus banheiros para que todos se sintam confortáveis. Alguns fazem banheiros unissex, outros constroem uma terceira cabine que ambos os gêneros podem utilizar ou apenas colocam uma sinalização dizendo que quem decide é o usuário.
O Mirante sobre a avenida 9 de Julho era um local histórico abandonado, que acabou virando um café e retomou uma das vistas mais lindas da cidade. Desde que foi inaugurado, quatro anos atrás, o local conta com um banheiro sem gênero definido. Uma das sócias, a produtora cultural Roberta Youssef, conta que desde o começo acreditava que não existia a necessidade de dividir os sanitários. “Estamos passando por uma nova maneira de entender a sociedade e suas diferenças, precisamos respeitar isso.”
A paulistana conta que nunca teve nenhum problema pelo banheiro ser unissex. Não houve queixa de clientes, apenas olhares assustados e espantados com algo novo. “Temos uma funcionária trans e, por incrível que pareça, a presença dela dentro do banheiro incomoda mais as pessoas do que o banheiro em si. É muito triste isso”, conta.
O banheiro do Mirante fica em um lugar amplo e aberto. Roberta explica que, por esse motivo, não vê preocupação sobre mulheres e homens utilizarem o mesmo espaço. Se fosse em um ambiente mais fechado e sozinho, porém, pensaria em investir em fiscalização para que pessoas como a fluminense Juliana se sintam mais seguras.
ROBERTA YOUSSEF NAS ESCADARIAS QUE LIGAM O MIRANTE 9 DE JULHO AO MASP. FOTO: WANEZZA SOARES

Uma batalha no Supremo Tribunal Federal

Utilizar o banheiro tem se tornado uma luta para pessoas trans no Brasil. No Supremo Tribunal Federal há um processo que questiona se transexuais podem usar o banheiro público designado para o gênero com o qual se identificam.  A ação começou a ser julgada em 2015 e, depois de Luiz Roberto Barroso e Edson Fachin votarem a favor, o ministro Luiz Fux pediu vista e o julgamento encontra-se parado.
Papa acredita que o STF deve tornar isso um entendimento para garantir o direito dos mais fracos. “Demos um passo importante e a partir de agora precisamos caminhar nessa direção. O MIS é uma instituição aberta e, para nós, o que importa é o ser humano”, diz. O diretor, que tem 66 anos e é avô, conclui: “O pensamento aqui é plural e sempre será”.
Além de instituições de artes, como o MIS e o Centro Cultural do Banco do Brasil, alguns festivais de músicas também têm adaptado seus banheiros, mesmo sem ter nenhuma legislação que obrigue a isso. É o caso do Coala.
Em sua sexta edição na cidade de São Paulo, que acontece em setembro deste ano,  o festival terá novamente banheiros unissex, para que todos os gêneros possam utilizar juntos. O fundador e curador Gabriel de Andrade conta que a organização do festival atentou que o banheiro dividido por gênero poderia gerar constrangimento na edição do ano passado. ”Fizemos uma adaptação simples. Em vez de termos sinalização de banheiro feminino e masculino, nós sinalizamos apenas com “Banheirx””, conta.
BANHEIRO DO FESTIVAL COALA 2018. FOTO: WESLEY ALLEN / I HATE FLASH
Além de ser inclusivo, e impedir que constrangimentos ocorram, um banheiro unissex, conta Andrade, auxilia na experiência das pessoas no festival. “O banheiro em conjunto impacta positivamente a logística do evento, reduzindo as filas. Nos outros anos, às vezes o banheiro masculino estava vazio e o feminino cheio. Ou vice-versa. Gerando um gargalo desnecessário, já que tinha cabines vazias.”
Fonte: CARTA CAPITAL

"O BRASIL E O MUNDO ESTÁ DE LUTO!" - EDUARDO VASCONCELOS - BIM BOM João Gilberto e o melhor show de sua vida. Não sai de mim, não sai

João Gilberto dizia ter feito o melhor show de sua vida no 3º Festival de Água Claras, em 1983.
 

Elo entre o "Antigo" e o "Novo Testamento" da música brasileira, o baião de João Gilberto foi só isso. Não tem mais nada não.

Aquela madrugada de domingo, 5 de junho de 1983, não foi uma madrugada qualquer. Ela marcou a transição de uma das noites mais ricas da história da música do Brasil, para o amanhecer mais inimaginável dessa mesma história. A chegada de João Gilberto àquela fazenda enlameada em Iacanga, no interior de São Paulo, parecia um detalhe pouco importante para a maioria dos acampados na Fazenda de Águas Claras.

Os mais barulhentos estavam ali em nome do rock. Pois, se ali era uma versão brasileira de Woodstock, ali era lugar de rock. Mas para os produtores, capitaneados por Antonio Cechin Júnior, o Leivinha, era muito mais do que isso. E João Gilberto até que mereceria a Limousine que reivindicou para chegar à fazenda. Mas acabou tendo de ir de trator mesmo.

O Brasil é um lugar especializado em assimilar o espírito da coisa, e dar-lhe um corpo peculiar. Os modernistas de 22, quase um século atrás, captaram esse talento antropofágico. Que o diga o samba que dormiu com o jazz e acordou com a Bossa Nova.

O ritmo de Woodstock era o rock, mas a atmosfera era de guerra do Vietnã. E ainda que a inspiração de Águas Claras fosse Woodstock – paz, amor, justiça e liberdade em tempos de Guerra Fria –, o ritmo por aqui, após duas décadas de ditadura e repressão cultural, era maior do que o rock. Maior do que a bossa, mas filho dela.

Foram quatro dias chuvosos naquele festival. Para chegar lá, aos 18 anos, desempregado, como não pouca gente naquele 1983, rifei um três-em-um da marca Grundig. Meia-boca. Toca-discos, toca-fitas e rádio. Deu para pagar o frete do ônibus que saiu de Santo André e para entrar na fazenda pela porta da frente, comprar os enlatados para comer e a garrafa de Domeq que duraria até o último acorde de João Gilberto.

Fui, ao lado de pessoas queridas, movido ao repertório. Adoro rock, mas “só” o rock não valeria o sacrifício. Iacanga prometia Dodô e Osmar. Oswaldinho do Acordeon. Premê. Língua de Trapo. Raul Seixas. Sá e Guarabira. Expresso Rural. Sivuca. Paulinho Boca de Cantor. Wanderléia e Erasmo Carlos (ela foi num dia, ele noutro, vai entender), Wagner Tiso. Arthur Moreira Lima. Paulinho da Viola. Fagner. Moraes Moreira. Sandra Sá (não era “de” Sá ainda). Jorge Mautner. Luli e Lucina. Tinha muito mais, não vou lembrar.

Dedico a Walter Franco, com sua espinha ereta, o grande momento de transição da impaciência do público com a falta de “Raul” e de “rock”, para uma noite sublime de música pura. Da noite do sábado para a manhã de domingo, depois dele, vi roqueiros alucinados trocando o “toca Raul” por um bis de Arthur Moreira Lima. Vi uma transição natural de Erasmo para Paulinho da Viola. Sempre com a obrigação do “mais um”.

E consegui ver João Gilberto entrar no palco sob céu ainda escuro. A paz geral da nação que estava começando ali a enterrar a ditadura esteve sob sério risco. É que a primeira saudação de João Gilberto foi acompanhada de uma microfonia. Suspense. O momento de tensão fez lembrar os violinos eternizados da cena do banho em Psicose. Mas, surpreendentemente, João Gilberto tocou em frente, e fez ali o melhor show de sua vida – segundo dizem que ele disse. E eu acredito.

Para quem deu o toque mágico que fez de Chega de Saudade um divisor histórico entre Antigo e Novo Testamento da música brasileira; para quem some por meses para reaparecer com Oba-Lá-lá (Quem ouvir o oba-lá-lá/ Terá feliz o coração/ O amor encontrará/ Ouvindo esta canção) e Bim Bom (É só isso o meu baião/ E não tem mais nada não/ O meu coração pediu assim, só); para quem fica exageradamente transtornado diante de uma tosse ou um pedido de música durante um show para grã-finos… aquilo tudo era inacreditável. Ou tudo o que ele sempre quis.

Era verdade. João Gilberto foi capaz de cantar para um público sedento por rock, entre 5h30 e 7h da manhã, por aí, todas as canções que caberiam em um álbum de greatest hits de sua bossa. Fez três noites de chuva, iniciadas numa quinta-feira cinza, culminarem num nascer de sol deslumbrante e inexplicável de uma manhã fria de domingo.

João Gilberto morreu neste sábado (6), aos 88 anos, no Rio de Janeiro. Foi um dos criadores da bossa nova, junto com Tom Jobim e Vinicius de Moraes. A informação da morte foi dada pelo filho João Marcelo, que mora nos Estados Unidos. “Meu pai morreu. Sua luta foi nobre, ele tentou manter a dignidade à luz da perda da independência” – Via Sputinik 

Não posso dizer que tiro de memória tudo que escrevo. Vi recentemente no festival É Tudo Verdade um documentário precioso dirigido por Thiago Mattar. O Barato de Iacanga. É um dos mais bem elaborados documentos sobre o que foram as três, quase quatro, edições do Festival de Águas Claras (1975, 1981, 1983 e 1984). Duvido que apareça algum inventário tão rico desses eventos como o reunido nesse filme do Thiago e companhia. Melhor do que isso, só estando lá. Eu estive. Nos dois baratos de Iacanga.

Talvez aquele amanhecer catártico possa explicar um pouco o significado de João Gilberto para a música do mundo. De cada três pessoas que ali estavam, duas pularam as cercas por falta de grana. E não era por mal, era um misto de aventura com não tem outro jeito. Do outro lado, tanta gente boa da música, que estava ali tocando e que não estava, deve a João Gilberto pelo menos dois terços de sua inspiração.

João fez de sua obra uma mina de ouro, material e imaterial, exposta a céu aberto. Seu tesouro não cabe num baú. No fim da vida, escondeu-se da pequenês humana em seu pijama. E numa melancolia que “não sai de mim, não sai”.

O Barato de Iacanga
Quem viu, viu. João Gilberto tocou até o amanhecer