
Está na coluna da Mônica Bergamo desta 5ª feira, 8:
"O caso emblemático
de uma vítima de atentados guerrilheiros na época da ditadura militar pode ter
uma reviravolta na Justiça. Orlando Lovecchio Filho, 72, pede uma indenização
equivalente às que foram pagas a militantes das organizações armadas que foram
anistiados. Mas só acumulava derrotas até agora.
O caso está sendo reapreciado pelo
Tribunal Regional Federal da 3ª Região, que já tinha negado o pleito mas hoje
analisa embargos apresentados por Lovecchio. Um dos juízes votou contra ele. O
desembargador Fábio Prieto pediu vista. E pode mudar o entendimento.
Lovecchio era um cidadão 'apolítico,
que curtia iê-iê-iê, carros e aviões', como se definiu numa entrevista àFolha.
Em março de 1968, estacionava seu carro no Conjunto Nacional, na av. Paulista,
em SP, quando uma bomba colocada no local pela Aliança Libertadora Nacional
explodiu. Ele teve a perna amputada, interrompendo o sonho de ser piloto.
Lovecchio recebe hoje pensão
vitalícia de R$ 571 e não conseguiu indenização na Comissão de Anistia. Há
casos de ex-militantes de organizações armadas que receberam indenizações de R$
400 mil e pensão vitalícia mais alta que a dele".
Estes não foram vítimas de um acaso
infeliz: assumiram o risco de morrer por seus ideais.
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E
esta foi a mensagem que lhe enviei, na esperança de que nas próximas edições
da Folha de S. Paulo ela complemente a informação que deu:
Prezada Mônica,
há um outro lado no episódio do sr.
Orlando Lovecchio Filho que certamente o favoreceria em termos jurídicos, mas
ele vem omitindo durante todo esse tempo (o atentado completará 50 anos no
próximo dia 19). A bem da verdade, seus leitores têm direito de o
conhecer.
Inscrição que restou numa cela do antigo Dops de SP |
As horas que os torturadores levaram
para se convencerem do contrário, até decidirem devolvê-lo aos médicos, foram
decisivas para que a gangrena se estabelecesse irremediavelmente, forçando a
amputação.
Isto ficou estabelecido quando
Lovecchio processou o único dos quatro militantes da ALN que sobreviveu aos anos de chumbo, não obtendo êxito
exatamente por haver sido apresentada em juízo uma prova documental da
interrupção do atendimento médico e suas consequências.
Ele não perdeu a perna apenas porque
quatro militantes da ALN deixaram um carro-bomba para explodir em plena
madrugada no estacionamento do Conjunto Nacional, ao lado da sede do consulado
estadunidense em São Paulo.
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O motivo principal foi que, quando estava sendo atendido pelos médicos, a repressão ditatorial o arrancou do hospital para interrogá-lo, na suposição de que se tratasse de um autor do atentado ferido pela própria bomba.
Quando optou por passar o resto da vida
inculpando os resistentes e passando uma borracha no fato de que agentes do
Estado o privaram de socorro médico, ele fez escolhas erradas tanto do ponto de
vista moral quanto do jurídico: se contasse a história inteira, ficaria
caracterizada uma responsabilidade bem mais grave do Estado no seu infortúnio.
Mas, como algo assim só poderia ter
ocorrido em meio ao arbítrio de um regime de exceção, ele merece mesmo uma
reparação à altura da perda que sofreu. Só não merece nossa simpatia. (
Celso Lungaretti, jornalista, escritor e anistiado
político)