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Carlos Heitor Cony morreu no final da noite desta 6ª
feira (5), aos 91 nos, em decorrência da falência de múltiplos órgãos.
Cony-vente com Adolpho Bloch na Manchete |
Se eu seguisse a norma geralmente adotada nos
círculos dos intelectuais e das celebridades, resumida numa conhecida máxima
latina de Quilão (De mortuis nil nisi bene, algo como Não se deve falar dos
mortos senão benevolamente), esqueceria que cheguei a admirar muito a obra de
Cony mas depois me decepcionei na mesma medida com certas posturas por ele
adotadas a partir da década de 1970.
Pensei, pensei e não consegui me inspirar para
escrever algo mais benevolente, confesso. Ele, para mim, já não passava ultimamente
de mais um afeto que se encerrou; e, como tal, uma página virada.
Então,
decidi apenas reproduzir o artigo no qual fiz em 2009 um balanço nada
benevolente, mas sincero, da trajetória do Cony: O ato: Cony sepultou os ideais. O fato: agora apóia
até censura!
Na
verdade, tal texto já equivaleu a uma espécie de necrológio precoce. Nada de
muito importante sucedeu, desde ele, que me fizesse reconsiderar os juízos que
emiti então. [E até a fonte de seus escritos mais ambiciosos secou, pois, daí
em diante, Cony se limitou a escrever as crônicas publicadas na imprensa,
algumas inspiradas, a maioria repetitiva.]
Infelizmente,
a chama que o inflamou um dia foi consumida pelos desencantos que se sucedem na
vida dos brasileiros mais sensíveis e idealistas. Foi guerreiro um dia, mas
morreu como um idoso melancólico, disfarçando o amargor com o brilho
intelectual.
Foi,
claro, um dos melhores escritores brasileiros de todos os tempos. E, como ser
humano, merece respeito principalmente pelos anos que viveu perigosamente, assumindo os riscos de navegar contra a
corrente.
Constatou,
no entendo, que não possuía a têmpera dos imprescindíveis a que aludiu Brecht. Então, conformou-se em
ser apenas outro privilegiado desfrutando seus privilégios, a ponto de envergar
sem pudor o fardão da torre
de marfim, com a atenuante de haver
conquistado sua posição graças a real talento e não por herança ou velhacarias.
...decerto se envergonharia deste aqui... |
O ATO: CONY SEPULTOU OS IDEAIS. O FATO: AGORA APÓIA
ATÉ CENSURA!
Pete Townshend, o
guitarrista e compositor das músicas do The Who, produziu em 1965
uma canção-manifesto, My Generation, que trazia um verso
fortíssimo: "Prefiro morrer antes de envelhecer".
Só que ele não morreu, envelheceu. E
se tornou o oposto dos jovens rebeldes de outrora, capaz de proferir
verdadeiras catilinárias contra os downloads gratuitos do MP3 e até de rasgar
seda para o então presidente George W. Bush: "Bush se esforça para dar uma
vida digna ao povo dos Estados Unidos, e não tenho o direito de dizer como ele
deve dirigir o país".
Daí o sarcástico cala-boca que levou
de Kurt Cobain, do Nirvana: "Prefiro morrer antes de virar Pete
Townshend".
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...e respectiva turma. |
Como tenho duas filha que amo demais
e quero ver crescerem, não irei ao ponto de afirmar que prefiro morrer antes de
virar Carlos Heitor Cony. Não se brinca com essas coisas.
Mas, a minha decepção com Cony deve
equivaler à de Cobain com Townshend.
Antes mesmo de aderir ao marxismo, eu
já o admirava. Tive uma fase existencialista, lá pelos 14 anos, e o Cony era o
escritor que, no Brasil, seguia os passos de meus ídolos Jean-Paul Sartre e
Albert Camus.
Li muita coisa da sua fase
despolitizada e gostei, principalmente, de Antes, o Verão e Informação
ao Crucificado.
E ele mudou de postura a partir do
golpe de 1964.
Até então sua matéria-prima era a
impossibilidade de realização plena dos indivíduos de classe média na sociedade
burguesa, focada no plano pessoal.
A partir daí ele tomou lugar na
trincheira dos que lutavam diretamente contra a burguesia e seus cães de
guarda, os militares.
Mas, não foi uma opção tão ideológica
assim, pelo menos de acordo com o que ele mesmo afirmou.
Antonio Calhado: Outra decepção |
Disse que,
como benjamim de uma extraordinária redação do Correio da Manhã (RJ),
na qual pontificavam grandes jornalistas de esquerda como Otto Maria Carpeaux,
Paulo Francis, Antonio Callado, Jânio de Freitas, Sérgio Augusto, Márcio
Moreira Alves e Hermano Alves, sentia-se desobrigado de abordar temas
políticos, pois havia quem o fizesse melhor do que ele.
Com a quartelada, entretanto,
essas figurinhas carimbadas não puderam dar
sequência ao seu trabalho costumeiro, pois se tornaram alvos prioritários de prisões,
intimidações e todo tipo de cerceamento.
Cony teria entrado nesse vácuo,
substituindo-as na missão de denunciar a nudez do rei. Como tinha prestígio
literário (seu livro de estréia, O Ventre, foi sucesso de crítica e
de vendas) e reputação de apolítico, os milicos acabaram engolindo seus
arroubos de indignação. Devem ter pensado que a fase seria passageira.
OPÇÃO PELA LUTA ARMADA
Cony-vente com Adolpho Bloch na Machete
Mas Cony perseverou. Depois desses
artigos combativos que escreveu no pós-golpe e reuniu no livro O Ato e
o Fato, faria a opção pela luta armada.
Cheguei a vê-lo discursar numa
manifestação estudantil aqui em São Paulo, em meados de 1968, quando afirmou
que a vitória contra o arbítrio não seria conquistada nas cidades.
Apontava-nos, implicitamente, o caminho da guerrilha rural.
Esta guinada foi expressa em seu
livro de 1967, Pessach, a Travessia. O personagem principal é uma
óbvia projeção dele mesmo: um escritor de meia idade, em crise existencial, que
envolve-se casualmente com um grupo guerrilheiro.
O que ele quer mesmo é sair dessa fria. Mas, no final,
mortos os combatentes, ele tem a chance de transpor a fronteira e pôr-se a
salvo. Prefere empunhar a arma de um deles e permanecer no Brasil para dar
sequência à sua luta.
A travessia pessoal do Cony,
infelizmente, não foi tão altaneira. Algumas prisões (sem maus tratos, claro,
pois era vip) e o desemprego quebraram sua espinha.
Ainda fez um último grande romance, o
melhor de sua carreira: Pilatos (escrito em 1972 e publicado
dois anos depois). Mostra, com jeitão de pesadelo, um Brasil desumanizado, em
que as pessoas são movidas apenas por apetites e ambições, sem nenhum
sentimento nobre.
Era, claro, o Brasil do milagre econômico.
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Pilatos sinalizou o fim do bom combate de Cony CURVANDO-SE À EVIDÊNCIA DOS FATOS |
E Cony deixou evidenciados seus sentimentos ao derivar o título destes versos do Samba Erudito, de Paulo Vanzolini: "Aí me curvei/ Ante a força dos fatos/ Lavei minhas mãos/ Como Pôncio Pilatos".
Ou seja, se é nessa pocilga
que vocês optaram por viver, voltando as costas a quem combatia por um Brasil
melhor, então chafurdem à vontade. Não tenho nada a ver com isso.
O desencanto com o País e as mágoas
por não encontrar companheiros de esquerda que o socorressem quando ficou na rua da amargura tiveram, como
resultado, uma nova travessia, desta vez negativa, de Cony. Tornou-se, ele
próprio, um homem sem ideais.
Pediu emprego a Adolfo Bloch que,
talvez em nome da ascendência judaica comum, o acolheu muito bem em sua
editora.
De vez em quando, uma frase contundente Fogo fátuo? |
Mas, o diabo sempre exige algo de
quem lhe vende a alma: além de cuidar de uma revista, Cony era obrigado a
redigir, como ghost writer, os editoriais
arquirreacionários de Bloch, fazendo apologia da ditadura. Seus colegas de
redação, pelas costas, referiam-se a ele como Cony-vente.
No ano 2000 ingressou na Academia
Brasileira de Letras, que decerto lhe provocaria náuseas em 1958, quando
iniciou a carreira.
Em 2004, embora seja profissional
muito bem pago como jornalista e escritor, fez questão de obter reparação de
ex-preso político.
Pior: foi duplamente favorecido,
passando à frente de quem estava mofando há anos na fila e recebendo uma pensão
mensal (e respectiva indenização retroativa) extremamente exagerada, segundo os
próprios critérios do programa. Tratamento vip, de novo!
"CERTOS SETORES
DA IMPRENSA"
E chegamos aos dias de hoje, quando
não só defende fervorosamente seu colega de Academia, José Sarney, do clamor
público pela justa punição dos delitos em que foi flagrado, como chega a apoiar
a censura de jornais!
Isto mesmo, está na sua coluna desta
5ª feira [20/08/2009] na Folha de S. Paulo:
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Ele foi grande um dia, mas teve final melancólico |
"Acho exagerado o
fervor de certos setores da imprensa em reclamar de processos ou de sentenças
da Justiça, considerando violação de uma liberdade a qual todos têm direito,
desde que não fira direito de terceiros.
Afinal, a imprensa não é uma vestal inatacável, acima de qualquer valor da sociedade. Ela está sujeita ao Estado de Direito, que dá liberdade a qualquer cidadão, jornalista ou não. O fato de um juiz aceitar um processo não é uma violação"
Afinal, a imprensa não é uma vestal inatacável, acima de qualquer valor da sociedade. Ela está sujeita ao Estado de Direito, que dá liberdade a qualquer cidadão, jornalista ou não. O fato de um juiz aceitar um processo não é uma violação"
Ou seja, um juiz ligado a José Sarney proíbe um jornal de noticiar um inquérito envolvendo falcatruas da família Sarney e a única coisa que Cony encontrou para criticar foi... a solidariedade que O Estado de S. Paulo está recebendo de "certos setores da imprensa"! |
Pensando bem, eu não preciso mesmo
dizer que preferiria morrer antes de virar Carlos Heitor Cony. Por um motivo
simples: nem que viva 100 anos decairei tanto.
Fonte: naufrago-da-utopia.blogspot.com.br
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