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quarta-feira, 8 de maio de 2019

Seminário de Arte e Cultura da UFRN recebe inscrições

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Cartaz do último seminário - Google
por Agecom UFRN
A Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) abre inscrições para o 7º Seminário de Arte e Cultura da UFRN, promovido nos dias 22 e 23 de maio, no campus central. Com tema Políticas culturais sob abordagens públicas: trajetos, desafios e perspectivas, o evento tem o intuito de traçar um panorama dos avanços e desafios das políticas públicas para a cultura, assim como evidenciar reflexões e ações acerca das artes e das culturas como campos de produção de conhecimento e de desenvolvimento socioeconômico.
A programação conta com painéis, lançamento de livros, cirandas de saberes e apresentação de trabalhos, além da instalação do Conselho da Política de Cultura da UFRN. As atividades acontecem na Biblioteca Central Zila Mamede (BCZM) e no prédio novo do Núcleo de Arte e Cultura (NAC), localizado no térreo da BCZM. As discussões abordam o tema central do seminário, a regulamentação dos grupos consolidados e ações de pesquisa e extensão na UFRN voltadas à inclusão e acessibilidade cultural. Já as cirandas abrangem os saberes étnicos e tradicionais, arte e direitos sociais.

As inscrições podem ser realizadas até 20 de maio. Outras informações estão disponíveis no endereço www.nac.ufrn.br ou pelo telefone (84) 3215-3237.
Fonte: UFRN

A arte drag no Met Gala 2019

Lena Waithe
Na última segunda-feira (6) a noite aconteceu o Met Gala, baile que levanta fundos para o The Metropolitan Museum of Art, em Nova York, um dos eventos mais importantes e elitistas do mundo da moda. O tema deste ano foi “Camp: notas sobre a moda”, relembrando o ensaio escrito pela filosofa Susan Sontag. Entre suas muitas formas de tradução, o Camp é uma linha “incontestavelmente moderna”, que aprecia o exagero, o não natural e ironia. “Muitos exemplos de Camp são coisas que, de um ponto de vista ‘sério’, são arte arte ruim ou kitsch”, escreveu Sontag.
O tema abria para muitas possibilidades, inclusive para o questionamento sobre de onde surge o estilo. Lena Waithe, roteirista, produtora e atriz norte americana, uma das poucas mulheres lésbicas negras a circular nesse meio, levou esse questionamento na sua indumentária, ostentando um “DRAG QUEEN NEGRAS INVENTARAM O CAMP”. Aproveite a provocação e veja os looks de outros artistas negros a cruzar o pink carpet:
Billy Porter
Janelle Monae
Lupita Nyong’o
Rupaul
Danai Gurira
Zendaya
Winnie Harlow
Lavern Cox
Fotos: Arquivo Pessoal / Getty Images

Fonte: Mídia Ninja

Designers UX ativistas convocados para reunião em São Paulo

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Pra nós o design é uma ferramenta importante demais para ficar somente na mãos dos poderosos, por isso apoiamos diversos projetos open source e acreditamos profundamente no design como fonte primária do pensamento estratégico, seja para nossa própria organização ou no fortalecimento do ativismo e dos movimentos.
Idea Fixa e a Midia NINJA convocam pela primeira vez um encontro focado em UX (Experiência de Usuário), que irá apresentar a rede, projetos e desafios para o próximo ciclo. Vai acontecer em São Paulo, dia 8/5, à partir das 19h30. Quem nos recebe para esse encontro com muito carinho é a escola Mergo User Experience, na Av. Brigadeiro Luís Antônio, 2504 – Sala 31 (Metrô Brigadeiro).
Confira mais informações no evento.

Uma apresentação às lições sobre o fascismo e antifascismo

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O professor Marcos Aurélio da Silva apresenta o livro ‘Nas trincheiras do ocidente: lições sobre o fascismo e antifascismo’, escrito por Gianni Fresu. A obra, que se utiliza das contribuições teóricas e políticas de Gramsci e Togliatti, “nos conduz a um amplo e ao mesmo tempo rigoroso panorama não só da história do fascismo e do maior partido comunista do Ocidente (o PCI), mas também do próprio movimento comunista internacional”, segundo o apresentador.
Desvendado o fascismo e o antifascismo italiano na Itália (1)
O livro que Gianni Fresu dedica ao estudo do fascismo representa enorme contribuição para o aprofundamento dos conhecimentos sobre o tema em pelo menos dois domínios. São eles o da historiografia sobre o fascismo, que o autor percorre com apurado senso critico, fazendo ver os avanços e problemas de diferentes interpretações, e aqueles dos estudos gramscianos, especialmente favorecidos pela capacidade que demonstra o autor em relacionar o tema ao contexto histórico em que Gramsci forjou seu rico cabedal conceitual. Na verdade é mesmo a abordagem gramsciana que permite organizar as diferentes interpretações historiográficas, no mais das vezes de corte liberal, operando nelas uma espécie de superação dialética. Como realça Fresu, as interpretações liberais, inclinando-se a uma leitura fortemente reacionária, buscavam apresentar o fascismo como um simples parêntese da história européia (tese de Benedetto Croce, mas com muitos ecos fora da Itália), sempre insistindo na perda de consciência e na crise moral provocada pela Guerra, ou ainda nas mobilizações de massa e na vitória do bolchevismo (tese sustentada na historiografia alemã por Ernest Nolte). Já Gramsci, sem desprezar os elementos ideológicos revelados pela crise moral da burguesia européia, uma vez apoiado no materialismo histórico, ressalta em primeiro lugar as relações destes elementos com aqueles de fundo econômico e social. Caberia, pois, dar atenção a engenhos institucionais como o Estatuto Albertino, expressão mais acabada de uma revolução passiva e dos problemas de transformismo – vale dizer, das debilidades da classe dirigente italiana –, tão bem estudados por Gramsci nos Cadernos. Por este engenho, forjou-se um ordenamento parlamentar que, resultando em uma forte união entre o rei e o legislativo, terminou por conceder ao primeiro amplos poderes, como no exemplo da nomeação de ministros e até a dissolução do parlamento. Recorde-se que, após a encenação da marcha sobre Roma, foi Vitor Emanuel III quem nomeou Benito Mussolini chefe de governo.
Sempre em confronto com as teses de Gramsci, é ainda a leitura liberal de Croce que é alvejada para destacar outro elemento central do fascismo. Enquanto o filósofo italiano sustenta que o regime de Mussolini não é expressão de uma única classe, aparecendo, antes, em todas as classes, Fresu recupera a ênfase de Gramsci nas camadas médias – um ponto, cabe observar, a ligar o regime italiano àquele conduzido por Hitler. Aliás, é aqui que o autor abre espaço para explorar a grande contribuição do comunista sardo, a saber, a interpretação do fascismo não apenas como um regime de coerção, mas simultaneamente apoiado no consenso, os dois núcleos centrais do conceito de hegemonia. Por este ângulo é que se pode compreender os esforços do fascismo para absorver toda uma camada de estudantes inadaptados, de oficiais de guerra sem função social, de pequenos burgueses em vias de proletarização – geralmente utilizando-se do mito da “vitória mutilada”, enunciado pelo poeta Grabriele D’Annunzio, ele que explorava a recusa dos EUA às aspirações italianas na península balcânica e na África após o fim da I Guerra. Verdadeiro chefe inicial do intervencionismo, ressalta Fresu, é de D’Annunzio que o Duce toma a retórica, as poses teatrais, as liturgias funerais e militares, a iconografia e enfim as palavras de ordem, todos meios para mobilizar e disciplinar a base de consenso do regime. E eis as relações entre consenso e militarismo, o último o eixo central do fascismo e da existência do próprio partido, mas também o seu verdadeiro ponto de chegada, a saber, uma geopolítica agressiva, inscrita em uma política externa de corte abertamente imperialista.
Certamente o consenso servia também à absorção do operariado no Estado burguês, especialmente por meio da assimilação dos organismos da sociedade civil por ele forjados, a exemplo das instituições corporativas – estruturas de associação econômica e social desenvolvidas já na década de 1920. E é aqui que Fresu nos convida a refletir criticamente acerca das interpretações sectárias predominantes na Internacional Comunista (IC) no período de 1928-34 – elas que tinham origem nas teses do Partido Comunista Alemão, então sob liderança de Ernst Thälmann. Estas interpretações se inclinavam a apresentar o fascismo como simples reação anti-proletária e, por este caminho, condenavam a socialdemocracia como mero social-fascismo. Com efeito, a leitura do texto de Fresu permite concluir que o fascismo encerrava antes um quadro bem mais complexo. Ele se apresentava como uma “ideologia sem ideologia” e, nesse sentido, não surpreende que recolhesse as mais diferentes doutrinas. Não apenas D’Annunzio e a disposição para a Guerra, mas também os economistas nacionalistas e sua ênfase nas corporações como forma de superar o conflito social; o irracionalismo e o futurismo de Marinetti, com seu niilismo de aparência inovadora, fautor de um débil programa liberal; e ainda o nacionalismo de Enrico Corradini e tese da luta entre nações proletárias e capitalistas, premissa para o emprego da trágica teoria do Lebensraum, ou “espaço vital”. (Uma teoria, como se sabe, maturada pela pena do geógrafo Friedrich Ratzel na Alemanha bismarkiana, o mesmo Ratzel que serviu de inspiração seja para o marxismo vulgarizado da II Internacional – capaz de sustentar a guerra e o colonialismo –, quanto para a escola de geopolítica alemã, expansionista e racista) (2)
Se antes dissemos que é no desenvolvimento do fascismo que ganham sentido muitas das categorias gramscianas, é preciso dizer que também a luta antifascista não pode ser bem compreendida sem o conhecimento dos textos do comunista sardo. Sem dúvida, como bem o demonstra Fresu, toda a luta de libertação e o próprio papel que aí cumpriu o Partido Comunista Italiano (PCI) se desenvolveram em estreita relação com as reflexões de Gramsci. Um fato, aliás, a pôr em questão as teses que buscam estabelecer uma descontinuidade entre as fases pré e pós-carcerária de Gramsci, e isto despeito da universalidade do seu aporte categorial – sempre a ser lido pelo critério da tradutibilidade, vale dizer, de modo a evitar os “abstracionismos mecanicistas” (3).
É ilustrativa, nesse sentido, a demonstração dos desenvolvimentos que se seguiram ao caso do deputado Giacomo Matteoti, dirigente do Partido Socialista que, ao denunciar as fraudes e a violência que envolveu a vitória de Mussolini nas eleições de 1924, fora pelo regime barbaramente assassinado. Diante da ampla reação das camadas médias e até mesmo das direções do mundo industrial e bancário, o PCI lança a proposta de uma greve geral e de um parlamento alternativo, todavia não aceita pelo conjunto dos liberais e católicos, que desejavam uma oposição apenas moral ao fascismo. A desmobilização das massas daí resultante, permitiu que Mussolini abrisse uma segunda fase do regime, instalando, a partir de outubro de 1926, uma aberta ditadura, que pôs na ilegalidade todos os seus adversários, incluindo Gramsci e diversos comunistas, conduzidos à prisão.
E é no clima de crescente tensão sucessivo ao assassinato de Matteoti que se realiza, no PCI, o famoso Congresso de Lyon (ainda em janeiro de 1926), opondo as linhas de Bordiga e Gramsci, como sabemos com desfecho vitorioso para a segunda. Como demonstra Fresu, a corrente bordiguiana nada tinha a oferecer à Resistência que se organiza a partir dos anos 30. Prendendo-se às teses dominantes na IC, ela se inclinava a apontar o reformismo, e não o fascismo, como o inimigo a derrotar, incluindo o que chamava de “fascismo intermediário”, um agrupamento de constitucionalistas, democratas e também socialdemocratas. Já a corrente de Gramsci, valorizando o debate em torno das Frentes Únicas, realizado no III (1921) e IV (1922) Congressos da IC, abria-se para a ideia leniniana vitoriosa nos anos da NEP, verbi gratia a ideia das alianças e da questão camponesa como uma questão estratégica. Ao fim e ao cabo, uma forma de evitar a negligência das diferenças entre quadro democrático e reacionário (ou fascismo). Vitoriosa em Lyon, a nova posição do PCI fora crucial para a mudança de avaliação na própria IC a partir de 1934, tendo desempenhado aí um papel importante Palmiro Togliatti – embora mesmo ele tivesse se apegado a uma espécie de impaciência revolucionária no início dos anos 30, aceitando a tese do fim da fase de estabilização relativa do capitalismo, posição quiçá compreensível à luz do contexto de isolamento dos comunistas e da própria URSS (4). De fato, reaproximando-se da linha sustentada por outros dirigentes (Angelo Tasca, Umberto Terracini, o próprio Gramsci), Togliatti que irá abrir críticas à IC no que respeita à ausência de uma política para atrair a pequena burguesia rural e urbana, e ainda da negligência quanto à importância de defender as liberdades democráticas nas nações livres e nos países fascistizados. E é nesse sentido, ressalta Fresu, que na Itália ainda dominada por Mussolini, o mesmo Togliatti irá sustentar a inserção nos sindicatos fascistas como meio de fazer avançar a luta de massas, pondo-se mesmo a tarefa de investigar a nova política econômica do regime, encaminhada em 1927 com a “Carta del Lavoro” e o corporativismo – elementos, dadas as suas exigências de uma base de massas e de consenso passivo, a distingui-lo dos tradicionais regimes autoritários, ressalta Fresu.
Estão aí descritas as raízes da política de Frente Única, capaz de reunir comunistas, socialistas e republicanos. Ela mesma experimentada nas mais de 500 formações partigianas que, ao fim da Guerra, e diante da lentidão das forças aliadas, tomaram em suas próprias mãos a tarefa de liquidar os restos do nazifascismo, conformando uma estrutura unitária que correspondia ao “grande bloco democrata e nacional dos partidos antifascistas”, ao qual deveria integrar-se o PCI, segundo sustentava Togliatti. E, note-se, a rigor o mesmo bloco que esteve na base da construção da democracia social italiana do pós 1948, uma democracia que, enraizada na luta popular da Resistência, encaminha a superação das limitações do Estatuto Albertino por meio de uma síntese pós-liberal entre as concepções formal e substancial de justiça – respectivamente fundadas na igualdade dos cidadãos perante a lei e na superação das diferenças econômicas e sociais.
Como se vê, o livro de Gianni Fresu nos conduz a um amplo e ao mesmo tempo rigoroso panorama não só da história do fascismo e do maior partido comunista do Ocidente, mas também do próprio movimento comunista internacional e do duro contexto em que se formaram amplas legiões de militantes. Quando, no Brasil de hoje, e a despeito das particularidades do tempo, socialistas e comunistas voltam a ser alvo de movimentos obscurantistas; quando, nesta mesma formação sócio-territorial, o pouco de Estado social que se ensaiava organizar, é alvejado por um amplo arco de políticas regressivas nos mais diferentes campos da vida social, nada melhor que a publicação de uma obra como esta que o leitor agora tem em mãos, dotada de elevado rigor teórico e historiográfico, mas também, como não poderia deixar de ser, de um superior compromisso social e histórico.
Notas
  1. O título da apresentação foi dado pela redação do Portal Grabois.
  1. Sobre Ratzel e a teoria do Lebensraum pode-se ler Lacoste, Y. A Geografia – isso serve, em primeiro lugar, para fazer a guerra Trad. Ma C. França. São Paulo: Papiros, 1988, p. 128; e também Losurdo, D. Il revisionismo storico: problemi e miti. Roma-Bari: Laterza, 2015, pp. 301-2. Para a influência de Ratzel no marxismo da II Internacional ver Moraes, A. C. R. A antropogeografia de Ratzel. In: Ratzel – Geografia. Moraes, A. C. R. (org.) São Paulo: Ática, p. 11 (Coleção Grandes Cientistas Sociais – Coord. de Florestan Fernandes).
  1. Gramsci, A. Quaderni del Carcere. Edizione critica dell’Istituto Gramsci. Torino: Einaudi, 1977, p. 1469.
  1. Sobre o isolamento geopolítico da URSS pode-se ler Losurdo, D. Stalin: história crítica de uma lenda negra. Rio de Janeiro: Revan, 2010, pp. 135-6.
Serviço:
Lançamento do livro ‘Nas trincheiras do ocidente: lições sobre o fascismo e antifascismo’, escrito por Gianni Fresu
Local: Sede da Fundação Maurício Grabois ( Rua Rego Freitas,192 – São Paulo)
Data: Sexta-feira (10.05), às 19 horas
*Marcos Aurélio da Silva é Professor da Universidade Federal de Santa Catarina.
Fonte: Portal Grabois

Invenção revolucionária, bicicleta empoderou mulheres e mais pobres

Em um dia de outono de 1865, dois homens chegavam a uma taverna em Connecticut, nos Estados Unidos, para acalmar os nervos com uma bebida. Eles conduziam uma carroça em uma colina próxima, quando um grito terrível os deixou arrepiados. O que parecia ser o próprio – com a cabeça de um homem e o corpo de uma criatura estranha – vinha “voando” colina abaixo em direção a eles, rente ao chão, até cair em um buraco.
Por Tim Harford, na BBC*
Imagine o terror que eles sentiram quando o diabo em questão se aproximou deles para se apresentar. O homem, um francês de cabelos escuros, estava encharcado e coberto de sangue. Seu nome era Pierre Lallement. O jovem mecânico estava nos EUA havia alguns meses e havia levado consigo uma máquina inventada por ele: uma construção de duas rodas com pedais chamada “velocípede”. Mais tarde, a chamaríamos de bicicleta.
Lallement patenteou sua invenção, que ainda não tinha marchas nem a corrente das bicicletas modernas. Tampouco freios. Seu modelo complexo foi rapidamente ultrapassado por outro, o chamado Penny Farthing, que tinha uma roda gigantesca na frente e uma bem pequena atrás – um veículo que não era tranquilo de guiar, mas que era duas vezes mais rápido que o velocípede. Eles eram conduzidos quase exclusivamente por jovens destemidos em cima da roda imensa que ameaçava jogá-los para frente diante do menor obstáculo.
A versão seguinte, a “bicicleta segura”, atraiu um grupo bem maior. Ela era muito parecida com as bicicletas modernas, com correia, rodas do mesmo tamanho e um quadro em forma de diamante. A velocidade era alcançada graças não a uma roda gigantesca, mas a engrenagens.
Era possível conduzir essas bicicletas até de vestido. Não que isso preocupasse Angeline Allen, por exemplo, que causou sensação em 1983 pedalando nos arredores de Nova York. “Ela usava calças!”, dizia a manchete de uma popular revista masculina, acrescentando que ela era jovem, bonita e divorciada.
A bicicleta foi uma força libertadora para as mulheres. Elas precisavam se livrar de espartilhos e de saias armadas com aros – e usar roupas mais confortáveis para pedalar com mais facilidade. Pedalar também significava se deslocar sem acompanhantes. Os mais conservadores ficaram alarmados, temendo que o que viam como “pedaladas obscenas”, pudesse levar à masturbação e até à prostituição. Temores que logo se mostraram ridículos.
Segundo a historiadora Margaret Guroff, no caso de Angeline Allen, ninguém parecia preocupado com o fato de ela estar andando de bicicleta – apenas com as roupas que ela usava enquanto fazia isso. Uma mulher vista sozinha de bicicleta, em público, não parecia um escândalo. Três anos depois, Susan B. Anthony, ativista dos direitos das mulheres no século 19, declarou que a bicicleta havia feito “mais pela emancipação das mulheres do que qualquer outra coisa no mundo”.
Hoje, a bicicleta continua empoderando as mulheres. Em 2006, o governo do Estado de Bihar, na Índia, começou a subsidiar fortemente a compra de bicicletas para meninas adolescentes que estavam começando o ensino médio – a ideia era que elas pudessem percorrer os vários quilômetros que precisam enfrentar para assistir aula. O programa parece ter funcionado, aumentando significativamente as chances de as meninas continuarem na escola.
Nos Estados Unidos, o astro do basquete LeBron James fundou uma escola em sua cidade natal em Ohio que fornece uma bicicleta para cada estudante. James relata que ele e os amigos se sentiam “extremamente felizes” quando andavam de bicicleta – que tem sido, há muito tempo, uma tecnologia libertadora para os economicamente oprimidos. Em seus primórdios, elas eram muito mais baratas que um cavalo, ainda que oferecessem o mesmo alcance e liberdade.
Da bicicleta ao carro
A bicicleta também impulsionou uma revolução na indústria, assim como uma revolução social. Na primeira metade do século 19, peças de precisão intercambiáveis eram usadas para fabricar armas de fogo para o Exército dos Estados Unidos, a um custo considerável. O processo era considerado muito caro para ser completamente reproduzido por “fábricas civis”.
A bicicleta, entretanto, conseguiu criar uma ponte entre a fabricação de produtos militares de ponta e a difusão da produção em série de produtos complexos. Os fabricantes de bicicletas desenvolveram técnicas simples e facilmente replicáveis – como estampar chapas de metal frio para criar mais formas – para manter os custos baixos sem sacrificar a qualidade. Eles também desenvolveram pneus, engrenagens diferenciais e freios. Tanto as técnicas de fabricação quanto esses componentes inovadores foram adotados depois por fabricantes de automóveis, como Henry Ford.
A primeira bicicleta segura, aliás, foi feita em 1885 na fábrica da Rover, em Coventry, na Inglaterra. Não por acaso, a Rover se tornou posteriormente um importante player na indústria automobilística. Sua transição do ramo de bicicletas para o de carros era óbvia.
A bicicleta também foi um impulso para a modernização da indústria no Japão. O primeiro passo para isso foi a importação de bicicletas do Ocidente para a capital, Tóquio, por volta do ano 1890. Depois, foram criadas oficinas para consertar bicicletas. O passo seguinte foi o início da produção local de peças de reposição. Apenas 10 anos depois, Tóquio dispunha de todos os ingredientes para produzir suas próprias bicicletas. Quando a 2ª Guerra Mundial eclodiu, o país já fabricava mais de meio milhão de bicicletas por ano.
Ver a bicicleta como uma tecnologia do passado pode ser tentador para algumas pessoas. Mas dados recentes mostram que essa não é a realidade. Há meio século, a produção mundial de bicicletas e carros era quase a mesma – 20 milhões, cada, por ano. A produção de carros triplicou desde então, mas a produção de bicicletas aumentou duas vezes mais rápido – para cerca de 120 milhões por ano. E não é absurdo pensar que as bicicletas estão criando tendências de novo.
Em um momento em que o uso de carros autônomos – ou seja, sem motoristas – já está sendo explorado, há quem acredite que o veículo do futuro não terá donos, mas será alugado por meio de aplicativos de celular. Se assim for, o veículo do futuro está aqui: já existem diversos esquemas de compartilhamento de bicicletas em todo o mundo. É um número que segue em expansão e um tipo de sistema que possibilita até o aluguel de algumas com motores elétricos.
O Uber já anunciou que planeja focar mais em seus negócios de patinetes elétricos e bicicletas, e menos em carros. Algumas empresas tiveram problemas iniciais com esse modelo de negócio – com bicicletas roubadas, danificadas ou abandonadas – e, por esse motivo, pararam de operar em algumas cidades. No entanto, este mercado parece estar crescendo, uma vez que a bicicleta ainda é o meio de transporte mais rápido para circular em áreas com trânsito mais pesado.
É verdade que ficar mais suscetível à poluição – como fumaça dos carros – e a possibilidade de acidentes são fatores que desencorajam alguns ciclistas. Mas, se a nova geração de carros é elétrica e não poluente, e conduzida por um robô atencioso e cauteloso, a popularidade da bicicleta só tende a aumentar.
* Tim Harford escreve a coluna “Undercover economist” no jornal britânico Financial Times e apresenta a série “50 coisas que fizeram a economia moderna”, transmitida pelo Serviço Mundial da BBC