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segunda-feira, 4 de março de 2019

“Vocês sabem muito bem o que estão fazendo e são assassinos”, diz antropólogo

Antropólogo brasileiro Eduardo Viveiros de Castro. Foto: Reprodução/YouTube
Publicado originalmente no Público.pt
POR ALEXANDRA PRADO COELHO
“Os gangsters tomaram o poder no Brasil”, diz o antropólogo brasileiro Eduardo Viveiros de Castro. E isso tem, naturalmente, consequências graves para as comunidades indígenas. “É uma situação tipo 1984 do [George] Orwell, você coloca o maior inimigo do meio ambiente como ministro do meio ambiente, o maior inimigo dos direitos dos indígenas como responsável pela Funai [Fundação Nacional do Índio. O Governo inteiro é montado nesse princípio: quem é a pior pessoa possível para este lugar?”.
Viveiros de Castro era já muito crítico dos governos anteriores do Partido Trabalhista de Lula da Silva e Dilma Rousseff também na forma como encaravam a questão indígena, mas agora vê uma diferença substancial. “Perto do actual Governo [de Jair Bolsonaro], aqueles eram o paraíso – e eu já os achava muito ruins pela total incapacidade de imaginar uma outra via de desenvolvimento que não fosse a do crescimento económico às custas da natureza, das terras públicas, dos modos de vida que não estão alinhados com a sociedade de consumo e com esse ideal de classe média para todos.”.
O antropólogo vê uma diferença básica na postura de uns e dos outros. “Se os anteriores eram ruins na área ambiental e dos direitos dos indígenas, era mais por omissão, por incompreensão, por uma certa tacanhez ideológica, uma certa miopia, os actuais são pessoas que têm como objectivo acabar com os índios. Acabar mesmo, rever as demarcações, privatizar as terras, catequizar os índios.”.
A crítica que se pode fazer ao PT, diz Viveiros de Castro, é a de que não entendem – “não entendem a questão indígena, o que a Amazónia vale, não entendem que esse modelo de desenvolvimento é uma cópia grotesca do dos Estados Unidos e que não é para funcionar aqui”. Já com o actual Executivo, a situação é outra: “Vocês sabem muito bem o que estão fazendo e são assassinos.”.
Se Bolsonaro e a sua equipa terão ou não meios para levar até ao fim essa agenda, não sabe ainda responder. “Esperamos que não mas até agora estão fazendo exactamente tudo o que disseram que iam fazer, ou pior. Cada dia aparece uma notícia mais sinistra, parece que você está num filme de terror – querem privatizar 100% das terras, acabar com os índios, com os quilombolas, retirar direitos à população mais pobre.”
Identifica neste Governo duas pernas, “de um lado o neoliberalismo mais extremo, mais radical, e do outro o obscurantismo ideológico do fundamentalismo evangélico pentecostal que vê os índios como pecadores, acha que xamã é coisa do diabo, e é ele quem manda missionários para todas as áreas indígenas.”.
Apesar disso, mantém um certo optimismo. “O líder indígena Ailton Krenak falou uma coisa bastante sensata. [Disse que] este Governo é terrível mas a gente está preocupada com vocês, brancos, porque nós, índios, estamos vivendo isso há 500 anos, estamos acostumados, vocês é que não estavam, coitados. Estamos solidários com vocês, com pena dos brancos bons, mas a gente vai escapar desta, passámos 500 anos escapando disso.”.
No centro de tudo está a questão da posse da terra. “Os índios não são mais importantes como mão-de-obra. O que importa é a terra e no Brasil as terras indígenas são da União, são públicas, e existe hoje, absolutamente explícito, o projecto de privatizar 100%, se possível, todas as terras públicas do Brasil para poderem ser comercializadas para o agro-negócio, para plantar soja, criar gado, explorar minério.”.
Claro que a relação dos índios com a terra é fundamental mas, lembra Viveiros de Castro, “a maior parte das terras indígenas estão na Amazónia e 60% da população indígena está fora da Amazónia, tem mais índios fora das terras indígenas do que dentro”. Na Amazónia “tem terras grandes com populações mais isoladas, mas acossadas por hidroeléctricas, por mineradoras, por garimpeiros, fazendeiros de soja, de gado, e essas vão sendo, a pouco e pouco, comprimidas.”
Ligada a esta surge a questão do estatuto do índio. “A Constituição brasileira de 1988 reconheceu pela primeira vez aos índios o direito de permanecerem índios.”. Isso foi uma conquista porque “toda a concepção da nacionalidade é que índio é um estado transitório, que eles vão deixar de ser índios. Havia estádios de integração: índio isolado, em contacto intermitente, em contacto permanente e integrado”.
Mas, afirma, “de 88 para cá há uma campanha concertada da direita para reverter todos os ganhos da Constituição, entre os quais o carácter permanente da condição indígena e o carácter colectivo dos direitos às terras indígenas.”. O que existe hoje no Brasil, na perspectiva de Viveiros de Castro, é “um projecto de reforma não explícita da Constituição para fazer a situação voltar ao statu quo anterior a 88”. E, conclui, “antes de 88 é, mais coisa menos coisa, a ditadura”.
 
 

Confira a programação do 2º dia do desfile das escolas do Rio

As últimas sete agremiações que se apresentam são: São Clemente, Vila Isabel, Portela, União da Ilha, Paraíso do Tuiuti, Mangueira e Mocidade
O segundo dia do desfile das escolas no Sambódromo vai até a madrugada de terça-feira
As últimas sete escolas das 14 que compõem o Grupo Especial no Rio de Janeiro desfilam entre a noite desta segunda-feira (4) e a madrugada de terça-feira (5). A abertura do segundo e último dia de desfiles ficará por conta da São Clemente, que entra no Sambódromo com horário marcado para as 21h15.
A escola amarela e preta, que se originou em Botafogo e hoje tem sede no centro da cidade, levará para a Marquês de Sapucaí uma reflexão sobre o mundo do samba e uma homenagem aos antigos carnavais.
Assim como a Império Serrano, em vez de trazer uma composição original, decidiu trazer uma reedição de um samba da agremiação, de 1990, ano em que a escola conquistou um sexto lugar, sua melhor colocação até hoje.
A tricampeã Unidos de Vila Isabel (1988, 2006 e 2013) é a segunda a entrar na Passarela do Samba, às 22h20. A azul e branco da Vila homenageia Petrópolis, a Cidade Imperial.
Às 23h25 entra na avenida a maior campeã do carnaval carioca, a Portela, que tem nada menos do que 22 títulos, sendo o último conquistado em 2017. A azul e branco de Madureira levará para o Sambódromo uma homenagem à cantora Clara Nunes e sua relação com o bairro de origem da escola de samba.
A União da Ilha do Governador, que assim como a São Clemente e a Acadêmicos do Grande Rio nunca levou um título do grupo especial para casa, será a quarta escola a desfilar, a partir de 0h30 de terça-feira. A tricolor (azul, vermelha e branco) da Ilha vai usar os escritores Rachel de Queiroz e José de Alencar para homenagear o Ceará.
A atual vice-campeã, Paraíso do Tuiuti, que tem as cores azul e amarelo e que também nunca ganhou um título no Grupo Especial, entra na avenida à 1h35. A agremiação de São Cristóvão vai usar a figura cearense do bode Ioiô para protestar contra a política brasileira.
A sexta escola a pisar na avenida, às 2h40, será a multicampeã Estação Primeira de Mangueira, que tem 19 títulos – o último deles de 2016. O enredo da verde e rosa vai falar sobre os heróis populares que não aparecem nos livros de história brasileira.
A segunda noite de Carnaval no Sambódromo termina com o desfile da Mocidade Independente de Padre Miguel, que entra na Sapucaí às 3h45, com um enredo sobre o tempo. A escola da zona oeste busca repetir o feito de 2017 e conquistar seu sétimo título.

Jurados e quesitos

Trinta e seis jurados avaliarão as escolas em nove quesitos: mestre-sala e porta-bandeira, bateria, samba-enredo, harmonia, evolução, enredo, alegorias e adereços, fantasias e comissão de frente. Cada quesito receberá uma nota de 9,0 a 10, com variação de casa decimal (como 9,1 ou 9,8, por exemplo).
As duas últimas colocadas serão rebaixadas para o Grupo de Acesso, enquanto a campeã do Grupo de Acesso desfilará no Grupo Especial em 2020. As seis primeiras colocadas voltam a desfilar no sábado (9).

Para entender o desfile

Cada escola de samba tem no mínimo 65 minutos e no máximo 75 minutos para desfilar; pelo menos 200 ritmistas na bateria; pelo menos 70 baianas; de 5 a 6 alegorias; de 10 a 15 pessoas na comissão de frente; máximo de 200 diretores e de 2,5 mil a 3,5 mil componentes

Confira a ordem do desfile:

– São Clemente
– Vila Isabel
– Portela
– União da Ilha do Governador
Paraíso do Tuiuti
– Mangueira
– Mocidade Independente de Padre Miguel

Saia justa na Globo: Paraíso do Tuiuti levará Lula para a Sapucaí esta noite

Jack Vasconcelos e Lula, quando esteve na Bahia e dançou a sarrada

 
O carnavelsco Jack Vasconcelos vai provocar uma nova saia justa de novo aos apresentadores da TV Globo, logo mais, no desfile da Sapucaí.
No ano passado, o carnavalesco colocou na rua um enredo que denunciava o golpe e a manipulação midiática que criou os “manifestoches”, termo criado por ele.
Com a beleza do espetáculo e sua repercussão, a Paraíso do Tuiuti conquistou o vice-campeonato, embora muitos achassem que merecia o título, que ficou com a Beija-Flor, preferida de muitos na Globo.
Desta vez, Jack Vasconcelos tratará de Lula, sem citá-lo nominalmente.
Se ainda houver jornalismo na Globo, os apresentadores e os repórteres da emissora terão que explicar o enredo e, obviamente, mencionar a palavra proibida: Lula.
Divulgado ontem, o enredo da Paraíso do Tuiuti trata de um bode que ficou muito famoso na década de 20  em Fortaleza, Ioiô, e hoje, empalhado, pode ser visto em museu.
O bode era tão popular que bebia com pessoas na rua, e foi eleito vereador, mas não pode assumir.
Lula entra na história por não poder assumir, mas naturalmente sua eleição não seria um ato de protesto, mas o resultado do curso natural da política.
Num trecho do enredo, Jack Vasconcelos explica:
“Vocês que fazem parte dessa massa irão conhecer um mito de verdade: nordestino, barbudo, baixinho, de origem pobre, amado pelos humildes e por intelectuais, incomodou a elite e foi condenado a virar símbolo da identidade de um povo. Um herói da resistência!”.
O texto que explica o enredo também cutuca a Lava Jato de Sergio Moro, ao tratar da forma como Lula foi  condenado:
“Não posso provar, mas tenho total convicção da autenticidade de tudo o que a ele atribuíram…”.
Quem ler a sentença de Sergio Moro não encontrará a descrição de conduta criminosa nem a apresentação de provas de crime.
Fatos indeterminados…, que o carnavalesco e tantos outros não engolem.
Jack Vasconcelos é formado em Belas Artes pela Universidade Federal do Rio de Janeiro.
Passou por algumas escolas do Grupo Especial e do Grupo de Acesso até se consagrar, no ano passado, com o enredo: “Meu Deus, meu Deus, está extinta a escravidão?”
É um intelectual, que retira suas ideias de textos densos de história e sociologia. No ano passado, admitiu que o livro “A Elite do Atraso – Da Escravidão à Lava Jato”, de Jessé Sousa, foi uma de suas referências.
Desta vez, foi buscar a história de um bode popular para, metaforicamente, passar a mensagem que o Brasil precisa entender.
Fonte: Diário do Centro do Mundo - DCM