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domingo, 9 de junho de 2019

Desenvolvimento com sustentabilidade é o foco dos povos indígenas para o Acre

Joel Puyawanawa
Por Arison Jardim
A partir de Cruzeiro do Sul, está sendo formado um consórcio envolvendo oito prefeituras das regiões do Juruá e Tarauacá/Envira. A iniciativa é um mecanismo de buscar investimentos para desenvolvimento e um dos eixos principais é a população indígena. Os outros municípios inseridos são Porto Walter, Marechal Thaumaturgo, Mâncio Lima, Rodrigues Alves, Tarauacá, Feijó e Jordão.
Nas duas regiões existem 28 terras indígenas (TI), concentrando a maior parte dos 19 mil indígenas do Acre. Esse grupo reivindica dialogar com todas as instâncias públicas e estar presente na construção dos projetos de desenvolvimento. Parte deste processo com o consórcio já iniciou, nesta semana, ocorreram diversas reuniões entre os prefeitos e lideranças indígenas, em Cruzeiro do Sul.
As duas primeiras pautas mais urgentes, que foram tratadas, são a construção de uma via de ligação entre a cidade de Mâncio Lima e a cidade peruana de Pucallpa e a construção de um projeto de desenvolvimento para ser apresentado ao programa federal Fundo Amazônia.

Grande obra ao Peru

O Ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, cancelou sua agenda que faria no Juruá entre os dias 4 e 5 de maio. Mas as discussões para a abertura de uma rodovia, ou ferrovia, ligando o Brasil ao Peru ocorreram com as lideranças indígenas da região. O consenso é que antes mesmo da suspeita de início da obra, tem que se seguir todo e qualquer processo de análise do impacto e as consultas públicas com os afetados.
O impacto é uma realidade, a via iria afetar pelo menos três terras indígenas e um parque nacional, que é a Serra do Divisor, diretamente, mas também afeta todas as outras terras indígenas da região. O primeiro território com maior impacto seria do povo povo puyanawa, em Mâncio Lima, que já sofre as consequências de ações desordenadas no seu entorno, como abertura de ramais e invasão de sua área.
Joel Puyanawa, cacique da Aldeia Barão, já relata as mudanças nos regimes de seca e cheia dos cursos d’água de sua terra nos últimos anos.
“Esta foi a primeira vez que o rio secou antes de o capim florar. O piau sumiu, deu um desequilíbrio total. Comprei minha canoa e ainda está lá em casa”, conta.
Essas mudanças não ocorrem por causa da estrada ou ferrovia, porém trazem o alerta para o que pode ocorrer caso a grande obra prossiga sem atenção para seus impactos. Ele afirma ainda que seu povo não abre mão de nenhum direito para manter sua terra protegida.
“Pelos impactos que já sofremos por aqui, nós já temos posicionamento. Para essa rodovia ou ferrovia acontecer, nossa área de amortecimento em primeiro lugar. Queremos ter uma área segura, onde está nosso sítio sagrado, que por direito, a gente acredita que vai ser respeitado. É nesse sítio que está nossas energias, nossa história”, declara Joel. A zona de amortecimento compreende a 10 km depois do limite da TI.
A Funai também está presente nesta discussão, ela trabalha para a garantia de que os indígenas tenham direito a consulta, neste caso de empreendimento. Luiz Valdenir, coordenador regional da Funai no Juruá, explica: “Está previsto grandes projetos para essa região do Juruá e agora esta possível BR nos traz atenção, enquanto instituição. Nos compete acompanhar os procedimentos oficiais que estão estabelecidos na legislação, como consulta às populações. A Funai segue acompanhando, garantindo a consulta aos povos indígenas”, afirma.
Uma das grandes preocupações é que esta estrada abra caminho para ações de grande impacto, que tanto prejudicam a floresta em outras regiões do Brasil e do Peru, como a mineração, extração de petróleo e extração ilegal de madeira. Joel explica que alguns impactos já são sentidos, com a invasão de seu território e pequenas estradas no entorno.

Desenvolvimento regional

Francisco Piyãko, coordenador da Organização dos Povos Indígenas do Rio Juruá (Opirj), é um dos grandes defensores de políticas sustentáveis para o desenvolvimento socioambiental Da Amazônia. Para ele, com sustentabilidade e estratégia é possível criar meios para o crescimento da região, sem aumentar o desmatamento e aproveitando os recursos naturais.
“Nós, povos indígenas, escolhemos viver a partir das tradições, a partir de nossos valores e identidade. Temos uma forma de fazer o uso do que a natureza oferece, olhando os rios e as relações da floresta de uma forma profunda”, explica.
Piyãko traz a experiência de projetos bem desenvolvidos na terra de seu povo, Ashaninka, em Marechal Thaumaturgo.
Com planejamento, conseguiram construir um modelo de cooperativa para a produção de artesanato e comércio de produtos da comunidade para todo o Brasil. Os ashaninka conseguiram também realizar o manejo da caça e pesca, juntamente com os roçados de verduras e raízes, de uma maneira que garante a alimentação para uma população crescente.
Recentemente, a associação Apiwtxa, do povo ashaninka, foi a primeira comunidade indígena a desenvolver e executar um projeto pelo Fundo Amazônia de forma direta com o BNDEs. Este trabalho se tornou exemplo por levar para a aldeia e para a Reserva Extrativista Alto Rio Juruá, ações de produção sustentável, fortalecimento institucional e gestão territorial.
“O natureza é nossa casa e o meio ambiente é nossa proteção”, afirma Piyãko.
O líder ashaninka relata que teve várias conversas com o prefeito de Cruzeiro do Sul, Ilderlei Cordeiro, principal idealizador deste consórcio e incentivador dos projetos de forma sustentável e com diálogo. Ele afirma que Ilderlei visualiza esta união como uma oportunidade de trazer investimentos para a região, principalmente na área de turismo, produção agrícola, fortalecimento institucional e cultura.
“Além disso, o prefeito explicou que deseja que o diálogo seja constante e que todas ações sempre serão feitas ouvindo os povos indígenas, principalmente em uma possível construção da rodovia”, relata.
Para Piyãko, a defesa é para que qualquer empreendimento nesta região sirva ao povo e à sociedade que está aqui. “Não podemos criar uma atividade que vai contribuir, que vai levar a população da floresta e os agricultores familiares a se transformarem em mão de obra barata. Não podemos, em nome do desenvolvimento, criar áreas de pobreza e uma guerra por espaço, queremos garantir que a sociedade seja a principal beneficiada de qualquer atividade”, declara.

Cláudio Daniel: Paulo Leminski, 30 anos de saudades

Paulo Leminski, escritor, ensaísta, letrista de música popular, crítico literário, tradutor e um dos mais inventivos poetas de sua geração, faleceu há 30 anos, no dia 7 de junho de 1989, com apenas 45 anos de idade, vítima de cirrose hepática.
Por Cláudio Daniel*
O poeta curitibano Paulo Leminski  (1944-1989), que faleceu há 30 anos: sua obra ainda preserva extrema atualidade O poeta curitibano Paulo Leminski  (1944-1989), que faleceu há 30 anos: sua obra ainda preserva extrema atualidade
“Paulo Leminski virou uma legenda, uma espécie de ‘mito’ da poesia mais recente produzida no Brasil. Para isso contribuiu, sem dúvida, a sua morte prematura; nesse sentido, está ao lado de companheiros ilustres: Mário Faustino, Torquato Neto. Foi um tipo algo romântico e radical, que via (e vivia) a poesia em tudo”, conforme escreveu o poeta mineiro Carlos Ávila.
A vida irreverente e boêmia do poeta, sem dúvida, contribuiu para a construção do mito, que recorda a jornada de astros de rock como Jimmi Hendrix e Janis Joplin. Sua obra, porém, supera o encanto circunstancial da biografia pela densidade estética e referencial.
A poesia de Leminski descende do rigor formal do Concretismo, mas ele também incorporou influências da contracultura, da linguagem publicitária, da cultura japonesa, do zen-budismo, da música pop, das histórias em quadrinhos e escreveu sobre os mais variados temas, desde questões políticas (“en la lucha de clases / todas las armas son buenas / piedras, noches, poemas”) até existenciais (“apagar-me / diluir-me / desmanchar-me / até que depois / de mim / de nós / de tudo / não reste mais / que o charme”), quase sempre fazendo uso da ironia, do humor, da linguagem coloquial, dos trocadilhos e da musicalidade dos versos.
A gíria, o palavrão e a dicção urbana também são frequentes em sua obra, como neste poema: “o pauloleminski / é um cachorro louco / que deve ser morto / a pau a pedra / a fogo a pique / senão é bem capaz / o filhadaputa / de fazer chover / em nosso piquenique”, assim como elementos formais assimilados da vanguarda, como a eliminação da pontuação, o uso exclusivo de letras minúsculas, a disposição geométrica das palavras na página, o emprego de neologismos e de palavras-valise, que multiplicam as possibilidades de significação do texto. O artesanato poético de Leminski valoriza ainda recursos da poesia tradicional, como as rimas, que são essenciais para a estrutura rítmica de seus poemas.
O autor curitibano, “mestiço de polaco com negra”, como ele mesmo gostava de se apresentar, ingressou aos 12 anos no Mosteiro de São Bento, onde adquiriu conhecimentos de latim, teologia, filosofia e literatura clássica. Em 1963, abandonou a vocação religiosa. Viajou a Belo Horizonte para participar da Semana Nacional de Poesia de Vanguarda, onde conheceu Augusto de Campos, Décio Pignatari e Haroldo de Campos, criadores do movimento internacional da Poesia Concreta. No ano seguinte, publicou seus primeiros poemas na revista Invenção, editada pelos concretistas, e torna-se professor de História e Redação em cursos pré-vestibulares, experiência que motivou a criação de seu primeiro romance, Catatau (1976), ambientado em Recife, durante as Invasões Holandesas. Leminski também atuou como diretor de criação e redator em agências de publicidade, o que contribui com a sua atividade poética, pela convivência com profissionais de comunicação visual.
Fascinado pela cultura japonesa e pelo zen-budismo, Leminski foi faixa-preta e professor de judô, escreveu haicais e uma biografia de Matsuo Bashô. Colaborou em revistas de vanguarda, como Raposa, Muda, Qorpo Estranho e fez parcerias musicais com Caetano Veloso e Itamar Assumpção, entre outros. O interesse pelos mitos gregos, por sua vez, inspirou a prosa poética Metaformose.
Paulo Leminski exerceu atividade intensa como crítico literário e tradutor, vertendo para o português obras de James Joyce, Samuel Beckett, Yukio Mishima, Alfred Jarry, entre outros. Politicamente, foi de esquerda, integrou os quadros do Partido Comunista Brasileiro (PCB) e escreveu no jornal Voz da Unidade, embora nunca tenha sido um marxista-leninista ortodoxo. Seu temperamento, talvez, estivesse mais próximo ao anarquismo.
Em 1968, casou-se com a poeta Alice Ruiz, com quem viveu durante 20 anos, e teve três filhos: Miguel Ângelo (morto aos 10 anos de idade), Áurea e Estrela. Em 7 de junho de 1989, o poeta faleceu no Hospital Nossa Senhora das Graças, vítima de cirrose hepática, e foi velado na Reitoria da Universidade Federal do Paraná.
Obra criativa, densa e plural
Os primeiros livros do autor, Não Fosse Isso e Era Menos / Não Fosse Tanto e Era Quase e Polonaises (1980, ed. do autor), foram reunidos, com o acréscimo de novos poemas, em Caprichos e Relaxos (1983), que desde a sua primeira edição exerceu notável influência nas gerações mais jovens. Em Distraídos Venceremos (1987), o poeta curitibano reuniu peças densas e reflexivas que discutem temas relacionados à história, à leitura, ao amor, à perda da fé religiosa, e sobretudo à própria poesia, como em M, de Memória: “Os livros sabem de tudo. / Já sabem deste dilema. / Só não sabem que, no fundo, / ler não passa de uma lenda”. No final do volume, Leminski incluiu um caderno chamado Kawa Cauim: Desarranjos Florais, uma seleção de 27 haicais irônicos e concisos como este: “alvorada / alvoroço / troco minha alma / por um almoço”. Após a morte do poeta, foram editados dois livros com poemas póstumos, La vie em close (1991) e O Ex-Estranho (1996), que reafirmam a posição Leminski como o nome mais destacado de sua geração.
A prosa de ficção de Leminski inclui os romances Catatau (1976), Agora É que São Elas (1984), Metaformose (1994) e o livro de contos O Gozo Fabuloso (2004). Classificar esses textos como “romances”, “novelas” ou “contos”, porém, é bastante arriscado, conforme escreveu Maria Esther Maciel, pois “Leminski experimentou e mesclou todos os gêneros, num movimento de abertura ao híbrido, ao mutante”, não respeitando as fronteiras entre poesia, ficção ou ensaio. O romance Catatau, por exemplo, embora tenha uma trama ficcional que se desenvolve a partir de uma visita imaginária do filósofo francês René Descartes ao Brasil, acompanhando a comitiva de Maurício de Nassau, no período das Invasões Holandesas, descarta a construção linear de tempo, espaço e personagem, própria do realismo, e se aproxima de textos experimentais como o Finnegans Wake, de James Joyce, do Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa, ou das Galáxias, de Haroldo de Campos. Como declarou o próprio Leminski “O Catatau não tem enredo. Tem apenas um contexto. No Catatau, quase nada acontece. No sentido da narrativa do século 19, claro. No plano da linguagem e do pensamento, acontece quase tudo”.
O texto inventivo de Catatau dissolve a distinção entre prosa e poesia e faz amplo uso da paródia e da sátira, incorpora neologismos, arcaísmos, palavras em línguas estrangeiras, citações eruditas e provérbios populares, sendo por isso considerado um exemplo de literatura neobarroca, gênero fundado na América Latina pelo cubano Lezama Lima, que tem como principal característica a mestiçagem de estilos.
O trabalho de Leminski como tradutor não foi menos notável. O poeta traduziu Satiricon, de Petrônio, diretamente do latim para o português; traduziu o relato Sol e Aço, de Yukio Mishima, e haicais de Bashô a partir dos textos originais japoneses; traduziu o Supermacho, de Alfred Jarry, escrito em francês, além de poemas, novelas e textos inventivos de James Joyce, Lawrence Ferlinghetti e John Lennon, escritos em inglês, entre outras obras.
Paulo Leminski deixou ainda um livro de literatura infantil, Guerra Dentro da Gente (1988); uma coletânea de ensaios, Anseios Crípticos (1986); e dezenas de parcerias musicais feitas com músicos como Caetano Veloso, Moraes Moreira, Arnaldo Antunes e Itamar Assumpção. Sua correspondência com Régis Bonvicino foi publicada no livro Envie Meu Dicionário (1998), que reúne ainda textos críticos de autores como Carlos Ávila e Boris Schnaiderman sobre o trabalho do poeta curitibano. Nos dias de hoje, Paulo Leminski é ainda um dos poetas que mais influenciam as gerações mais novas, o que só revela a extrema atualidade de sua poesia.
* Claudio Daniel, poeta, tradutor e ensaísta, é formado em Jornalismo pela Faculdade Cásper Líbero, com mestrado e doutorado em Literatura Portuguesa pela USP, além de pós-doutor em Teoria Literária pela UFMG. É colaborador do Prosa, Poesia e Arte.