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sábado, 5 de agosto de 2017

Depois de 15 anos e muita pressão, FLIP finalmente abre espaço para mulheres e negros na programação

 
Para mudar, para buscar alternativas dentro de um mercado que está sempre discutindo a própria crise, é preciso querer e insistir.

Ana Maria Gonçalves

São muitas as expectativas em relação à 15ª FLIP (Festa Literária Internacional de Paraty) que, nesta edição homenageia Lima Barreto e acontece de 26 a 30 de julho, no litoral do Rio de Janeiro. Já estive em cinco edições anteriores e acompanhei com grande interesse a primeira delas, em 2003, quando estava começando a escrever. Até então, nenhuma outra feira literária tinha recebido tanta atenção da imprensa, dando visibilidade a escritores e escritoras nacionais e trazendo nomes de destaque no cenário internacional, comoDon DeLillo e o historiador Eric Hobsbawn. De lá pra cá, muito coisa mudou – principalmente o fato de ter partido de uma edição em que, entre os 25 convidados, nenhum era negro e apenas três eram mulheres.
 
Eu poderia estar não prestando atenção, mas não me lembro de grandes manifestações apontando para isso à época. É bom saber que a FLIP se repensou, ao mesmo tempo em que é triste que tenha levado 15 anos e apenas depois da pressões de ações como a do Leia Mulheres, que questionou o número de escritoras na FLIP 2014, e o evento “Vista nossa palavra, Flip 2016, do Grupo de Estudos e Pesquisas Intelectuais Negras-UFRJ, que lançou a carta da professora e pesquisadora Giovana Xavier, apontando a ausência de escritoras negras na FLIP 2016.
 
Grande parte da mudança deve ser creditada à nova curadora, a jornalista Josélia Aguiar, que assumiu reconhecendo a importância de, sendo o evento de referência, a FLIP ter a responsabilidade de acompanhar os debates e as pautas que são, não apenas brasileiras, mas mundiais. Resultado: a FLIP 2017 terá 46 convidados: 24 são mulheres e 30% são negros/as.
 
Uma das principais justificativas, quando apontamos a ausência de mulheres, negros e indígenas em eventos literários é a meritocracia, como se não houvesse qualidade fora das esferas mais visíveis em que recaem as escolhas fáceis e midiáticas: “não olhamos cor, nem gênero, mas apenas a qualidade da obra dos convidados”.
 
Não é esse o questionamento, e meritocracia é palavra que, em tempos de lava-jatos e afins, deveria ser banida da cena brasileira, contaminada pelas relações de apadrinhamento e de negociatas com a finalidade de se manter o status quo.
 
Curadoria que se vale do conceito de meritocracia para justificar a ignorância frente ao novo, que na maioria das vezes nem novo é, mas apenas algo que esteve fora de seu radar, reconhece a própria incapacidade de acompanhar o mercado (e o mundo) como um todo.
 
Lembro-me, por exemplo, da curadoria da FLIP 2016 solicitando, em mesa realizada no Espaço Itaú Cultural de Literatura, “esta bibliografia de vocês”, como se a literatura produzida por escritores e escritoras negras fosse algo em separado da literatura brasileira, como se tivéssemos a obrigação de realizar um trabalho para o qual ele estava sendo pago para fazer.
 
Infelizmente, esta é uma situação bastante comum no mercado literário. Assim como uma outra ideia também bastante equivocada, também manifesta pela curadoria da FLIP 2016: “O país ainda está democratizando seu universo de leitura. A universidade brasileira, há pouco tempo, começou a ter uma nova cara, e acho que esse movimento vai chegar na Flip – na plateia da Flip. Mas é um processo em que temos de trabalhar juntos para que seja superado.”
 
O que se está tentando dizer aqui é que não há mercado para escritores e escritoras negras (novamente, considerando-o um mercado em separado) e que negros ainda não se interessam por literatura, e por isso, não frequentavam a FLIP. Ou que, pior ainda, leitores brancos não se interessariam pela literatura produzida por escritores ou escritoras negros/as. Me parece óbvio que essa é uma explicação bastante simplista, que desconsidera, por exemplo, o fator econômico, que impede muitos de frequentar Paraty na época do evento, com seus restaurantes e suas pousadas a preços quase proibitivos. Mas é ignorar também que o público negro, ao se sentir representado, ao ver reconhecido a trabalho e a produção de escritoras e escritores nos quais se sentem representados, comparecerão; não o contrário. Para mudar, para buscar alternativas dentro de um mercado que está sempre discutindo a própria crise, é preciso querer e insistir.
 
Outra justificativa simplista sempre usada por curadorias literárias Brasil afora é que convites foram feitos, mas não foram aceitos. É preciso saber que mulheres, em algumas situações, precisam pensar em algo mais do que apenas se prepararem para a uma viagem visando participar de um evento literário. Dizem que existe, embora eu não conheça, escritores homens que, antes de aceitarem um convite para viajar a trabalho, ausentando-se de casa por vários dias, consultem esposas para saber se elas podem ficar responsáveis, sozinhas, pelo cuidado com a casa e os filhos que pertencem a ambos. Conheço várias escritoras que, antes de poderem confirmar uma viagem, precisam pensar em arranjos e negociações com companheiros, ex-companheiros, familiares e empregadores e, muitas vezes, a possibilidade de aceitação não depende apenas delas.
 
Diante de uma recusa, o que a grande maioria das curadorias faz é substituí-las por convidados homens. Como a participação em eventos é completar ao trabalho da escrita, tanto em termos financeiros quanto de divulgação, o que fazem é contribuir para a perpetuação da situação de desigualdade das condições de trabalho oferecidas a uns e outras.

A justificativa de que escritores e escritoras negras também recusam certas participações também devem ser analisadas com mais atenção. Estamos cansados de sermos convidados apenas para aquelas mesas nas quais são tratados assuntos de “militância negra”, nas quais raramente temos a oportunidade de falar sobre o nosso trabalho, nas quais somos perguntados apenas sobre assuntos considerados “assuntos de negros”, como se tais assuntos não fizessem parte do que é simplesmente humano, sendo, portanto, parte do que deveria ser matéria de uma literatura universal.
 
Muitas vezes recusamos certos convites porque sabemos que estaremos uma mesa “à parte” da programação, sub-aproveitados e usados para que curadores e organizadores se protejam da acusação de não convidar negros ou mulheres. Queremos também que pensem em nós como entrevistadores, mediadores, curadores e afins, porque acreditamos que podemos colocar em debate assuntos e pontos de vista que, com certeza, enriqueceriam os eventos.
 
Portanto, minhas expectativas não são somente para um evento mais plural e interessante quanto aos convidados e ao público, mas também para que, como aconteceu logo no seu início, esta FLIP sirva de modelo e inspiração para os vários outros eventos literários Brasil afora. Que venham, cada vez mais, boas leituras, boas conversas, bons encontros e boas descobertas para todos nós! Axé!

Carta Maior

O mito da apatia e a urgência dos nossos dias

O vapor político que se acumula na fornalha da incerteza, das privações e do asco aguarda um sinal crível para se traduzir em ação política.
por: Saul Leblon
A apatia da sociedade diante do martelete conservador que esfarela seus direitos e esperanças pode ser só aparente.

O vapor político que se acumula na fornalha da incerteza, das privações, da humilhação, do asco e da revolta não é negligenciável.

Pior que o presente de perdas avassaladoras é a perspectiva do futuro sonegado.

Em cada ciclo e em diferentes dimensões da vida, da infância à velhice, do emprego à saúde, a trajetória que se esboça faz prender a respiração e perscrutar o vazio: brasileiros humildes e amplos segmentos de classe média (mesmo que ainda não saibam disso) foram enganchados em um frágil bote à deriva.

O Brasil que se desenha no horizonte é um país de vidas ordinárias, presas num círculo de ferro de direitos mitigados, de retrocessos geracionais e de oportunidades asfixiadas no moedor de uma desigualdade irredutível.

Trabalhar duro para morrer pobre é a oferta conservadora à vasta maioria da nação.

Acionar o catalisador dessa caldeira, para gerar a transformação social e política do país a que fomos reduzidos, para o Brasil que queremos ser – em direção ao qual já havíamos caminhado antes, como na uma década em meia de avanços --  é o desafio histórico das forças progressistas em 2018.

Um requisito indispensável é compreender o novo protagonista e  o novo locus envolvidos nessa travessia.

Um ciclo do desenvolvimento brasileiro se esgotou.

Outro terá que ser reinventado em um mundo marcado por transformações políticas e estruturais que condicionam o tabuleiro dessa transição.

A participação da indústria brasileira no PIB, por exemplo, que já foi de 21,6% em 1985, despencou mais de 10 pontos percentuais nos últimos 30 anos.


Hoje ela oscila em torno de 11,5%, mesmo patamar de 1947.

Uma parte desse recuo deve-se a equívocos acumulados ao longo dos últimos 30 anos .

Câmbio valorizado e juros siderais facilitaram a captura de um pedaço da demanda interna  pela manufatura chinesa, ao mesmo tempo em que lubrificaram a mutação rentista do capital fabril.

Isso ajuda a entender o forte apoio do setor industrial ao golpe, ao lado do menor uso de capacidade instalada em vinte anos. 

É vital corrigir os erros das últimas décadas, mas há fatores estruturais que vieram para ficar.

Eles refletem a acelerada transformação do papel e da organização da indústria em sua nova morfologia global, e o consequente recuo de suas dimensões locais em contraposição ao avanço de atividades e ocupações que agregam menor valor ao PIB, ligadas ao setor de serviços.

Aqui e no resto do mundo, a indústria continuará a exercer seu papel decisivo e singular de adição e irradiação de produtividade, tecnologia e eficiência à engrenagem econômica do desenvolvimento.

Sem ela não haverá excedente para democratizar e disseminar a renda e a cidadania em uma sociedade com as dimensões e desafios da brasileira.

O fortalecimento industrial no país terá que ser feito em sintonia com a quarta revolução industrial --a da informatização de processos e robotização de tarefas--  prioritariamente concentrado em áreas nas quais o país detém o estado das artes, com é o caso da agricultura, da exploração de petróleo, entre outros.

A disseminação dos ganhos se dará pelas cadeias da demanda de insumos, com conteúdo nacional assegurado, bem como pela interação da pesquisa em suas múltiplas aplicações.

O emprego industrial, porém, como em todo o mundo,  será cada vez mais especializado e menos numeroso.

A consequência é que o trabalho característico do século XX centralizado e organizado pela fábrica não vai mais ordenar a sociedade do século XXI.

Isso envolve uma mudança de perspectiva social e política que não pode ser subestimada.

Ela terá que ser incorporada desde já como uma das balizas das iniciativas e propostas destinadas a reunir a ampla frente de forças da sociedade brasileira determinada a retomar o processo de distribuição de renda e de direitos interrompido pelo golpe de 2016.

A costura imediata desse tecido político estendido é um requisito para se reverter a escalada conservadora em marcha em todos os setores da vida nacional.

Se quisermos derrota-la amanhã, não podemos adiar a arregimentação orgânica, popular e programática para as vésperas do horário eleitoral de 2018.

É forçoso traduzi-la desde já em uma escalada de manifestações de amplos segmentos, o que só ocorrerá –nos moldes da Campanha das Diretas Já, como se exige--  se o catalisador do processo for um palanque presidencial progressista igualmente amplo e ecumênico.

Que seja, a exemplo daquele dos anos 80,  fraternalmente compartilhado por candidatos potenciais de vários campos, mas unidos por um mesmo compromisso: a sedimentação de um projeto comum para o Brasil.

Essa sedimentação passa pelo desafio de provar que suas diretrizes pertencem ao mundo das novas condições impostas pela produção capitalista e respondem às aspirações, urgências e transformações que ela suscita na vida brasileira.

O mundo novo do trabalho é o da dispersão dos serviços, da volatilidade até espacial das tarefas, da precariedade dos salários e dos vínculos informais impostos pela fragmentação dos mercados e atividades típicas do setor de serviços.

É esse dilaceramento que  a ‘reforma trabalhista’ do golpe toma como referência de virtude para generalizar e suprimir direitos instituídos e preservados pela Constituição Cidadã de 1988.

 Mesmo que essa supressão de conquistas seja revertida, a precoce dominância do setor de serviços na economia brasileira não vai regredir. A tendência é se ampliar.

A sorte da massa pulverizada de trabalhadores aí reunidos, desprovida frequentemente de direitos elementares, com ganhos rebaixados, carente de organização, identidade  e até mesmo de local fixo de atividade, decidirá em boa parte o destino do país no século XXI.

Melhorar as condições trabalhistas nesse universo é indispensável.

Mas não será suficiente para sua transformação em uma nova alavanca da cidadania.

O projeto para 2018 precisa dialogar desde agora com esse protagonista coletivo difuso, universalizando suas demandas em um projeto de vida melhor para toda a sociedade.

Se a esquerda não o fizer através de uma proposta capaz de resgatar o sonho em um Brasil renovado pelo guarda-chuva do bem comum, o populismo de extrema direita o fará.

E o fará como sabe fazer:  pelo canal do preconceito, do ódio, do obscurantismo, da violência política contra qualquer dissonância, de qualquer natureza e gênero.

A macroeconomia pós-golpe impõe mudanças inarredáveis para se governar um país em ambiente democrático com as novas características de inserção social predominantes na realidade do trabalho em nosso tempo.

A reforma tributária, por exemplo, é inexorável para se revogar a PEC do arrocho e permitir a construção de um sólido contraponto de serviços público condizentes com a dignidade da vida  no século XXI.

 Até o golpe já cogita taxar lucros e dividendos.

A única previdência social viável nas novas condições desse mercado, por sua vez, será aquela cotizada via imposto progressivo pago por toda a sociedade.

Por uma razão imperativa: o emprego mitigado do setor de serviços não vai gerar o salário capaz de prover a poupança futura de todos.

Ou ricos e pobres pagam em escala progressiva para um caixa único tributado pelo Estado, ou a maioria dos idosos morrerá em depósitos humanos de solidão e barbárie.

Se essas mudanças –como outras, caso da representação e da expressão da sociedade em uma reforma política --  virão por plebiscito ou constituinte específica é uma questão a ser decidida pela correlação de forças expressa nas urnas de 2018.

Uma coisa é certa: sem elas será impossível tirar o país do trilho do arrocho.

Arrebatar o sonho que leva multidões a dar o endosso a essas mudanças, porém, exige mais que descrever equações de contabilidade fiscal.

Exige a prefiguração crível de um  Brasil onde caibam  todos os seus segmentos sociais em convivência digna e isonômica no acesso às conquistas básicas da civilização.

Isso não acontecerá a partir da convergência de ganhos incrementais por categorias isoladas.

Será nas esfera pública da vida social, nos espaços comuns a todos, de trabalhadores especializados a motoqueiros delivery,  da classe média a assalariados pobres, que a democracia social será ancorada e construída.

Esse espaço ecumênico generoso será constituído  de bens e equipamentos públicos, de serviços republicanos de alta qualidade, bem como de direitos universais bancados por receita fiscal justa e competente, a partir de  avanços progressivos pactuados por eleições e plebiscitos.

A cidade da cidadania, com espaços, equipamentos e atividades de refinada qualidade e acesso universalizado será a ‘Brasília’ da nossa geração.

Nesse guarda-chuva de uma democracia revitalizada devem caber todos os cidadãos em todos os seus ciclos de vida: da criança em idade de creche, ao jovem ávido por experiências e oportunidades, passando pelo idoso merecedor de dignidade e desfrute social.

Dar forma crível a essa travessia é a esfinge de cuja decifração dependem as linhas de passagem para uma verdadeira e duradoura vitória contra o conservadorismo que empurra o Brasil para a lógica oposta.

O vapor político que se acumula na fornalha da incerteza, das privações e do asco aguarda esse sinal crível para se traduzir em ação política vigorosa e renovadora.

Fonte: Carta Maior