Postagem em destaque

Secretária em test-drive, Regina Duarte já defendeu cortes na cultura e atacou indíos

No ano passado, por exemplo, em entrevista ao jornalista Pedro Bial, da TV Globo, a atriz chegou a defender os cortes de verbas do govern...

domingo, 20 de outubro de 2019

Filosofia Nordestina (Poetiza Mírian Monte) - "POESIA DE UMA NORDESTINA ARRETADA!" - Eduardo Vasconcelos - CPC/RN


A imagem pode conter: 1 pessoa, sorrindo, bebida e área interna
Imagem do Facebook - Mirian Monte

Perdoem-me a intromissão,
Mas tem razão o Ministério da Educação.
Se o nordestino continuar filosofando,
Será um disparate, será desumano!
Imagine se surgisse outro Graciliano,
Uma nova Raquel de Queiroz...
O que seria de nós?!
O Brasil perderia as estribeiras!
Já pensou se resgatarem a Nise da Silveira?
Ah, meu pai amado, meu Jorge Amado!
Nem cravo e canela resolvem a querela!
“Parem o mundo que quero descer”,
Quero consignar essa queixa,
Parafraseando Raul Seixas.
E se os estudantes falarem versos
Contarem prosas,
Ou citarem Rui Barbosa?
Ariano Suassuna que assuma essa ciranda,
Porque nem Pontes de Miranda
Conseguiria solucionar!
E nem se fale em José de Alencar:
Imagine se “O Guarani” fosse uma trilogia!
Teríamos versos em tupi, na poesia!
Vou encerrar com Tobias Barreto,
Eu prometo!
Ou melhor seria com Castro Alves?
Que os anjos nos salvem!
Esse povo do Nordeste
É povo de muita sabedoria...
Imagina se nas escolas
Ensinarem filosofia?

Isabel (Mírian Monte)
Vai, anda, Isabel!
Deixa a senzala pálida,
Teu palácio de cristal,
Arrisca a pele cálida
Vive o mundo real

Num pedaço de papel,
Faz tua lei, Isabel,
Sim, liberta-te a ti
Para voltares a sentir

Pega a tua pena,
Escreve um poema,
Faz duma simples poesia
Tua carta de alforria

A PERSEGUIÇÃO A CARLOS MARIGHELLA CONTINUA: AGORA À SUA MEMÓRIA

Nascido em 1911, em Salvador, BA, Carlos Marighella herdou do pai e da mãe a combatividade – um imigrante italiano operário metalúrgico e uma negra, filha de escravos trazidos do Sudão, os haussás; casal conhecido por participar de sublevações nas ladeiras do Pelourinho em Salvador contra a escravidão e exploração dos trabalhadores. Muito afeito aos estudos e leituras, Marighella entrou para a faculdade aos 18 anos no curso de Engenharia Civil, na Escola Politécnica da Bahia.
Foi preso, pela primeira vez, aos 23 anos por publicar um poema que fazia críticas a um interventor opressor na Bahia, indicado por Getúlio Vargas durante o denominado “Governo Provisório” (MAGALHÃES, 2012).  Escrevia ainda versos libertários, líricos e satíricos, sob forte influência dos conterrâneos Gregório de Matos (considerado um dos melhores poetas barrocos do período colonial brasileiro) e Castro Alves (poeta humanista e abolicionista dos oitocentos).
“Não tive tempo de ter medo” (Carlos Marighella)
Camarada de Jorge Amado, o também professor, escritor e poeta Carlos Marighella foi líder e militante do Partido Comunista do Brasil (PCB), tendo sido encarcerado e torturado ao longo de seis anos durante a ditadura imposta pelo Estado Novo (1937- 1945).
Não ficarei tão só no campo da arte,
e anônimo e firme sobranceiro e forte,
tudo farei por ti para exaltar-te,
serenamente, alheio a própria sorte”.
Trecho do poema “Liberdade” de Carlos Marighella.
São Paulo, Presídio Especial, em 1939.
Após ser anistiado, Carlos Marighella foi eleito deputado federal, devido ao seu prestígio e alta capacidade de organização popular e sensibilidade social, juntamente com Luiz Carlos Prestes e outros militantes do seu partido. Apesar de minoritária, a bancada comunista fazia duras intervenções e críticas à elaboração da Constituição de 1946, sendo que um dos principais pontos de atrito no parlamento predominantemente conservador era a necessidade da reforma agrária, a supressão da censura e o fortalecimento dos direitos trabalhistas no campo e na cidade.
A reação política autoritária no bojo do governo do general Eurico Gaspar Dutra culminou com a cassação sumária do PCB em maio de 1947, bem como dos mandatos de seus parlamentares comunistas ocorrida em janeiro de 1948, perseguição aos sindicatos, movimentos organizados e aos militantes de oposição.
O inquieto e aguerrido Carlos Marighella aceitou o convite do Comitê Central do Partido Comunista e viajou para a China com o intuito de estudar e acompanhar de perto a situação política daquele país, onde ficou por dois anos. Retornou ao Brasil, assumindo várias funções na direção de seu partido, na clandestinidade, quando produziu inúmeros manuais, textos e poemas que entraram para a história documental da organização dos movimentos de resistência popular e de luta de classes de sua época, boa parte divulgados nos idiomas espanhol, francês e inglês, mas que no Brasil só foram publicados oficialmente após dez anos da sua morte, tais como: “Se fores preso, camarada”; “Por que resisti à prisão”; “Ecletismo e Marxismo”; “Chamamento ao Povo Brasileiro”. 
“A Crise Brasileira”, escrito em 1966 (portanto, após o golpe militar/civil/empresarial de 1964), tem sido considerada a melhor produção teórica de Carlos Marighella, onde tece contundente crítica à política de alianças com a burguesia por parte da esquerda, reforçando a importância do fortalecimento e da autonomia dos movimentos operários e camponeses em busca de um governo popular revolucionário (MARIGHELLA, 1979).
Enfrentando conflitos e divergências estruturais em seu partido, Marighella descumpriu as ordens do PCB e foi participar em 1967 em Cuba da “Primeira Conferência  da Organização Latino Americana de Solidariedade (OLAS)”, motivo da sua expulsão do partido. Fora do PCB Carlos Marighella, ainda em Havana (dias após a morte do líder revolucionário Che Guevara na Bolívia), escreve o opúsculo: “Algumas Questões Sobre a Guerrilha no Brasil”, publicado no ano seguinte pelo Jornal do Brasil, chamando a atenção dos repressores para a sua produção intelectual e revolucionária posição política. No Brasil, Carlos Marighella e Câmara Ferreira anunciaram a criação de uma organização de esquerda que ficou conhecida como Aliança Libertadora Nacional (ALN), que propunha a utilização de armas para resistir à ditadura e à tirania, dando início às primeiras operações de guerrilhas urbanas.
De algum lugar do Brasil me dirijo à opinião pública, 
especialmente aos operários, agricultores pobres, estudantes, professores, jornalistas e intelectuais, padres e bispos, aos jovens e à mulher brasileira”.
Trecho do texto: “Chamamento ao Povo Brasileiro”, de CarlosMarighella, em 1968.
Em 1969 Marighella escreve o “Manual do Guerrilheiro Urbano” (MARIGHELLA, 2003) visando estabelecer diretrizes e táticas de resistência do movimento popular armado em contexto urbano frente à ditadura militar/civil/empresarial e às perseguições de suas lideranças.   Considerado o “inimigo número um” e “terrorista” pelo regime ditatorial de 1964, Marighella foi implacavelmente perseguido pelo serviço de inteligência, provavelmente com a ajuda da CIA (Central Intelligence Agency, dos Estados Unidos), sendo brutalmente assassinado em uma emboscada composta por agentes fortemente armados do Departamento de Ordem Política e Social (DOPS), na Alameda Casa Branca, na capital de São Paulo.
Seu assassinato completa 50 anos no dia 04 de novembro de 2019. Seu túmulo em Salvador, no cemitério Quinta dos Lázaros, para onde foi transladado dez anos depois, é uma obra prima do também comunista Oscar Niemeyer.  Mas nota-se ainda um grande preconceito das alas conservadoras e retrógradas do país com relação à memória deste pujante líder revolucionário brasileiro. 
Em 2014, por exemplo, causou grande consternação aos profissionais da área de história, intelectuais e militantes de esquerda quando houve negação do pedido de tombamento em âmbito estadual por parte do Instituto do Patrimônio Artístico e Cultural (IPAC) da Bahia da casa de Carlos Marighella, situada na Baixa dos Sapateiros, em Salvador. Grandes conhecedores da biografia de Marighella, Márcio Ferraz e Mário Magalhães, este último, autor da célebre obra: “Marighella – O guerrilheiro que incendiou o mundo”, entraram com o justo pedido de tombamento do bem imóvel.
Saber que nele o emblemático revolucionário Carlos Marighella passou parte de sua infância e juventude com sua família, e que este mesmo sítio histórico e seu logradouro teria inspirado e sido palco de múltiplos significados da luta popular baiana. A reação foi firme com relação a esta negativa de proteção patrimonial, tanto, que em 2016 após a cobrança e pressão de grupos que defendem a memória das Comunidades Tradicionais Afrodescendentes ou que denunciam os perseguidos pela ditadura, como o Movimento “Tortura Nunca Mais”, foi informado aos familiares de Marighella o interesse por parte do governo em fazer desta casa, finalmente, um ponto cultural e imaterial, componente de um roteiro relativo à memória de resistência do povo baiano.     
Segundo reportagem do jornal BBC, ainda há muito preconceito à pedra monumental, com os seguintes dizeres: “Aqui tombou Carlos Marighella, em 4/11/1969. Assassinado pela ditadura militar“, instalada em 1999 a pedido de intelectuais brasileiros que indicaram o local do assassinato de Marighella, na Alameda Casa Branca, na região do Jardim Paulista, zona nobre de São Paulo. Todos os anos, grupos de estudantes e admiradores desse revolucionário se reúnem no local para gritar o nome de Marighella e bater palmas.
Em 2013, a Comissão da Verdade do Estado de São Paulo e a viúva do guerrilheiro, Clara Charf, fizeram um grande ato junto ao marco. Com menos regularidade, outras pessoas aparecem para vandalizar e menosprezar a importância do monumento. Clara Charf, companheira de Marighela por 21 anos, até a sua execução pelos militares, conta em suas entrevistas que ele era um homem sábio, à frente de seu tempo, pois era extremamente “anti-racista e feminista“, “quando ainda não se usava essa palavra“. O sociólogo e crítico literário Antônio Candido comenta o seguinte sobre Carlos Marighella: “Ele pagou o tributo mais alto e mais nobre que um homem pode pagar, que é dar a própria vida por seus ideais. De maneira, que é justo que ele tenha se tornado um grande símbolo coletivo“.
Em tempos também obscuros, tenebrosos e destoantes, já em 2019, um filme ou cinebiografia que conta a história deste comunista marxista-leninista vem sofrendo severas retaliações por parte deste desgoverno Bolsonaro, que dificulta a sua divulgação no Brasil e no exterior. Esse filme destinado a relatar o contexto em que viveu o deputado Marighella explicita que o Brasil sofreu um golpe militar/civil/empresarial em 1964, com a tomada de poder pelos militares, ajudados pelo governo norte-americano, sob pretexto de “prevenir” o avanço do comunismo. Os militares, como se sabe, ficaram durante 21 anos no poder, tendo perseguido e assassinado inúmeros estudantes, operários, camponeses, artistas, pesquisadores, intelectuais e militantes em geral, dentre eles, Carlos Marighella, que foi um mártir revolucionário de seu tempo. Figura histórica marcante e inconteste.
O roteirista Rogério Faria possui um projeto ilustrativo muito instigante, que conta com os desenhos de Ricardo Sousa e arte da capa de Phill Zr, sobre a história de Marighella e de seus companheiros, não obstante, em entrevista recente ao site “Quadrinheiros” ele relata que o seu quadrinho sequer foi lançado e que já estaria causando uma alta polarização (mensagens elogiosas e outras, com insultos e agressões) nas redes digitais, somente com a divulgação do financiamento da obra no coletivo “Catarse”.  A publicação aborda ainda a fibra de Marighella, que, mesmo sob tortura, jamais delatou seus companheiros, surpreendendo até mesmo os seus captores e algozes, tendo se tornado desde então o maior guerrilheiro brasileiro do século XX. De fato, Carlos Marighella não teve tempo de ter medo, nos deixando um legado imprescindível.
Alenice Baeta1
Doutora em Arqueologia pelo MAE/USP; Pós-Doutorado Arqueologia/Antropologia-FAFICH/UFMG; Mestre em Educação pela FAE/UFMG; Historiadora e Membro do CEDEFES (Centro de Documentação Eloy Ferreira da Silva – www.cedefes.org.br – : e-mail: alenicebaeta@yahoo.com.br
Fontes Consultadas
Publicações:
MARIGHELLA, Carlos. Escritos de Carlos Marighela. São Paulo: Ed. Livramento, 1979.
MARIGHELLA, Carlos. Manual do Guerrilheiro Urbano. São Paulo: Ed. Sabotagem, 2003.
MAGALHÃES, Mário. Marighella – O guerrilheiro que incendiou o mundo. São Paulo: Companhia das Letras, 2012.
MAGALHÃES, Mário.  Estado da Bahia se nega a tombar casa onde Carlos Marighella cresceu, em 11 de setembro de 2014.
Sites:
http://g1.globo.com/bahia/noticia/2015/08/casa-de-marighella-sera-tombada-e-fara-parte-de-roteiro-sobre-ditadura.html
https://www.catarse.me/marighella?ref=ctrse_explore_pgsearch&project_id=101784&project_user_id=212146
http://bahia/noticia/2012/12/lapide-de-marighella-e-praca-em-terreiro-sao-obras-de-niemeyer-na-ba.html
https://www.bbc.com/portuguese/brasil-47423625
http://www.tre-ba.jus.br/o-tre/biblioteca/memoria-e-cultura
Filmes:
-“Batismo de Sangue” – filme brasileiro lançado em 2007, dirigido pelo cineasta Helvécio Ratton. Baseado no livro homônimo de Frei Betto, que foi lançado originalmente no ano de 1983; vencedor do prêmio Jabuti.
-“Marighella” – filme brasileiro lançado em 2019, dirigido por Wagner Moura, produtora O2.

Em defesa dos povos indígenas: demarcação já! "Retrospectiva: A LUTA CONTINUA!" - CPC/RN

Antes da invasão
Quando os portugueses pisaram as terras que depois seriam conhecidas como Brasil, os povos nativos viviam em regime de comunidade primitiva. Estima-se, por falta de registro, a existência de dois a seis milhões de pessoas. Não existia propriedade privada. A terra pertencia a todos; dela se extraía o sustento, por isso, era chamada de Mãe. Todos trabalhavam, com tarefas definidas por gênero, sem que isso significasse superioridade de uns sobre outros. Os produtos eram repartidos entre todos os membros da Comunidade, de acordo com a necessidade. Descreve o historiador francês Jean Léry: “prezam de tal forma essa virtude que morreriam de vergonha se vissem o vizinho sofrer a falta do que possuem”.
Apenas trabalhavam o necessário em cada dia, visto que não havia interesse em acumular, expectativa de enriquecer. O tempo livre era dedicado às danças, aos jogos, ao banho, às artes. Não se tratava de preguiça, como acusaram os invasores, e sim de um modo de vida completamente diferente. Trabalhavam apenas o necessário para viver. Todos eram iguais na Comunidade, moravam em habitações coletivas, as ocas, onde se formavam grupos de famílias, mas não se isolavam. As crianças eram tratadas com muito carinho, vistas como o futuro da Comunidade. Os idosos também eram respeitados e valorizados, por sua experiência, pelo que já haviam contribuído para o coletivo.  As lideranças não eram autoridades, mas pessoas que se destacavam pela experiência, pela dedicação, pela bravura
Depois da invasão europeia
Aqui aportando em 1500, os portugueses foram bem recebidos e até reverenciados como enviados dos deuses. Na primeira fase, que vai até 1530, travou-se uma relação amistosa, sendo que a amizade por parte dos invasores era interesseira. Utilizaram-se da mão de obra voluntária dos indígenas para extrair madeira, especialmente o pau-brasil e encher as embarcações que levaram as riquezas naturais para comercializar na Europa. Tudo muda a partir de 1530, quando Portugal decide colonizar o Brasil, implantando grandes engenhos para produzir açúcar, produto mais demandado na Europa. A colonização trouxe como consequência a decisão de utilizar os índios como escravos.
Trabalho escravo era algo incompatível com a cultura indígena. A regra foi a resistência, derrotada devido à imensa diferença das armas utilizadas: arcos e flechas, mais escudos de couro de capivara para atacar e se defender de balas de espingardas, trabucos, fuzis e canhões. Outra tática foi a utilização dos missionários jesuítas, que, à exceção da experiência dos Guaranis do Rio Grande do Sul, convenciam os índios a vir para suas reduções (comunidades), convertiam-nos ao catolicismo e eles eram utilizados como mão de obra barata, sendo que o pagamento beneficiava os padres e não os indígenas.
Privados dos seus costumes, morriam de doença ou de tristeza logo cedo. Por isso, os proprietários recorreram ao tráfico e escravização dos povos africanos. Entretanto, mesmo com a escravização dos negros, eles não foram deixados em paz. A perseguição aos povos indígenas deixou de ser uma questão de mão de obra e passou para a posse das terras para exploração de minérios, criação de gado e agricultura, como acontece até hoje. Foi um genocídio. Dos dois a seis milhões de indígenas, restavam no início da República Velha (1889), cerca de 150 mil.
República dos Guaranis
O grupo de missionários jesuítas que se dispôs a evangelizar os guaranis pensava em construir realmente comunidades combinando a cultura indígena com a prática dos primeiros cristãos. Mesmo correndo risco de ataques – e isso ocorreu em várias ocasiões, os padres, que hoje seriam considerados adeptos da Teologia da Libertação, nunca aceitaram ou solicitaram a proteção de soldados. Adentravam a mata e chamavam os índios para se juntarem a eles em comunidades onde estariam protegidos dos brancos invasores. Este era o apelo que mais atraía os índios, que vinham sendo dizimados sem dó nem piedade.
Chegando no local das comunidades, os jesuítas não organizavam cultos nem se isolavam para estudos e leituras. Lançavam-se ao trabalho pesado, dando o exemplo aos indígenas, e, em pouco tempo, o local estava adequado, as moradias levantadas. Consideravam pecado vários costumes guaranis, como a poligamia, mas não batiam de frente, condenando essas práticas. Acreditavam no convencimento, com o tempo, o que realmente aconteceu. Viviam com os índios como peixe dentro da água.
Os primeiros ataques às comunidades guaranis partiram dos famigerados “bandeirantes”, a tropa de choque dos fazendeiros paulistas que ocupou territórios e massacrou indígenas e quilombolas por todo o país (inclusive, o Quilombo dos Palmares). Os ataques começaram em 1618. Em 1630, estava destruída a maioria das reduções (comunidades).
Jesuítas e indígenas decidiram reconstruir as comunidades em regiões mais distantes, que não despertassem a cobiça dos colonizadores. Conseguiram das autoridades espanholas a revogação do decreto que proibia armas de fogo entre os índios e foram à luta.  Foi a primeira Longa Marcha de nossa História, somente superada em distância percorrida pela Coluna Prestes na década de 1920, mas não superada em adesão de massa. Até as comunidades que ainda não haviam sido destruídas deixaram tudo para trás em busca de um lugar mais seguro.
Após dez anos de migrações, em 1640, 50 mil índios, aproximadamente, estavam reunidos num território situado entre os rios Paraná e Uruguai, onde hoje está o Estado do Rio Grande do Sul. Embora com poucas armas, formaram o Exército Guarani, com quatro mil homens, que derrotou os mamelucos (paulistas) em várias ocasiões nas quais tentaram deter a marcha. Em 1651, os guaranis aniquilaram a última grande tentativa dos paulistas de dominar o seu território e o próprio Paraguai.
Em 130 anos, os guaranis haviam perdido um milhão de pessoas entre mortos e escravizados. Os membros das comunidades haviam diminuído pela metade, mas sobreviveria e viveria uma experiência comunitária, de construção coletiva, que jamais será esquecida. Isso foi possível durante um século de paz.
A organização da República Guarani
Eram 30 comunidades distribuídas da seguinte forma, considerando a conformação atual: 15 em território argentino, oito no atual Paraguai e sete no Brasil (Rio Grande do Sul): Santa Maria, São João, São Nicolau, São Lourenço, São Miguel, São Borja e Santo Ângelo. “Não há distinção entre classes e é a única sociedade sobre a Terra onde os homens desfrutam dessa igualdade”. (Raynard, História Filosófica de deux indes)
Era uma economia planejada com a estratégia de conseguir autonomia econômica, para não depender da Coroa Espanhola, pois somente assim seria possível manter a independência política. Para evitar intervenções, era pago o imposto à Coroa.
A Economia se organizava de modo a não permitir enriquecimento pessoal. Tudo era feito em vista do interesse comum, da prosperidade coletiva.  Isso, em vez de entravar o desenvolvimento, como argumentam os defensores da propriedade privada, permitiu um progresso rápido do povo guarani. Havia os serviços comunais de armazenagem e distribuição dos produtos, feita de forma equitativa, sem pagamento (não havia circulação de dinheiro). A distribuição era feita em razão da quantidade de membros da família. Não conheciam a figura do comerciante.
Garantiam sua manutenção e exportavam o excedente para a Argentina, Espanha e outros países da Europa. A renda das mercadorias exportadas era utilizada para pagar o tributo à Coroa e a sobra se destinava à manutenção e conservação das igrejas e das escolas, investimentos em ferramentas e na infraestrutura das comunidades.
Bombardeados com as acusações de comunismo, alguns padres chegaram a incentivar o trabalho individual, mas foi em vão. O padre Sepp, um dos defensores da propriedade privada, testemunha: “O trabalho comum era mais animado, mais alegre, melhor executado. No dia de trabalho nos lotes individuais, os bravos e honestos guaranis ficavam estendidos o dia inteiro nas suas redes”.
A condução se dava com base na cultura indígena e no princípio de vida das primeiras comunidades cristãs: “Tudo era colocado em comum e não havia necessitados entre eles”. Esse espírito de coletividade se disseminava em todos os aspectos da vida: nas artes, nas relações entre as famílias, na educação, na religião e na organização militar. Os guerreiros não formavam um corpo separado da população. Charlevoix, em História do Paraguai, relata: “Não se distingue o soldado do simples habitante; eles constituem exemplo de humildade e devoção”. Em vez de escravizar os prisioneiros, como faziam com os indígenas, o Exército Guarani tratava dos vencidos, libertava-os e até colocava guias à disposição para deixá-los num lugar onde pudessem tomar seu rumo.
Quando a República Guarani estava em seu esplendor, no dia 13 de janeiro de 1750, Espanha e Portugal assinam o Tratado de Madri para resolver uma velha pendência. Os portugueses reivindicavam há muito tempo a posse do rico território das Missões, em troca da Colônia de Sacramento, na Argentina, ocupada pelos espanhóis, que a queriam de volta. Portugal pediu em troca o território situado à margem esquerda do rio Uruguai, onde se situavam parte das reduções (comunidades) integrantes da República Guarani.  A Espanha concordou.
Com os jesuítas acuados diante da ordem de retirada emanada dos seus superiores, os indígenas tomaram em suas mãos a defesa do território, de sua república comunista cristã, chefiados pelo jovem corregedor da Redução de São Miguel, Sepé Tiaraju (sobre Sepé, leiam A Verdade, nº 5).  Os corregedores (governantes) indígenas das sete reduções ameaçadas assinaram uma Carta Aberta na qual proclamam que tudo que existe ali foi construído com seu esforço, nada pertencendo ao rei para que ele pudesse entregar a quem quer que fosse e conclamam a que se unam todas as 30 reduções em defesa de sua República.
Infelizmente, não foi o que aconteceu. Provavelmente, a união de todas as comunidades teria possibilitado a derrota dos exércitos coloniais. Entretanto, a maioria dos padres vacilou ante as pressões dos superiores. Não incentivaram e até desestimularam a adesão das demais repúblicas, argumentando que naquela conjuntura seria melhor abrir mão das sete para garantir a grande maioria, o que foi, no mínimo, uma demonstração de ingenuidade.
A maioria dos padres das sete comunidades desobedeceu aos superiores e permaneceu junto aos indígenas, organizando heroicamente a resistência. Essa desobediência foi a gota d’água para o Marquês de Pombal determinar a expulsão dos jesuítas de todos os domínios da Coroa Portuguesa, em 1759.
Apesar das batalhas heroicas, a junção dos exércitos português e espanhol contra sete comunidades, apenas, levou à derrota, mas não à morte daquela experiência. As belas igrejas, as escolas, as bibliotecas, tudo foi se transformando em ruína. Diante da desordem instaurada pelo capitalismo, muitos indígenas voltaram para as matas.
Cerca de 10 mil guaranis se reencontraram nas matas em território paraguaio e restabeleceram o regime comunitário, que foi destruído pelo governo de Carlos Antônio López. em 1848. Em 1891, final do século 19, exploradores encontraram nas margens do rio Paraná 300 famílias procedentes das antigas comunidades guaranis, que ainda mantinham o regime comunitário, vivendo exclusivamente da agricultura.
É que as plantações foram destruídas, mas sementes restaram e brotam de vez em quando aqui e ali, até encontrarem o terreno fértil no qual crescerão, darão frutos, se multiplicarão e serão milhões, resistindo às pragas e a todas as intempéries. Elas até brotam espontaneamente, mas, para florescer, impedindo a destruição da Humanidade pelo capitalismo desumano e construindo o Reino do Bem-Viver, precisam de mãos que se dediquem a cultivá-las e desenvolvê-las, mãos revolucionárias como as dos indígenas e dos padres das missões guaranis.
 “Proteção” aos índios na República
Apenas em 1910, cria-se o Serviço de Proteção ao Índio (SPI), cuja missão era “civilizar” os indígenas, incorporando seus territórios e suas populações à sociedade brasileira. Essa política, cujo principal mentor foi o Marechal Rondon, implicou a subordinação dos índios ao mercado capitalista, com sua aniquilação cultural e física. Aqueles que não aceitassem tal incorporação, não recebiam proteção alguma, ficando à mercê dos novos invasores interessados em mineração, extração da borracha (seringais), projetos agropecuários.
Embora integrantes do grupo de Rondon, os irmãos Villas Boas (Orlando, Cláudio e Leonardo), desenvolveram uma visão diferenciada no sentido de realmente preservar os indígenas e sua cultura, mantendo relações com a economia de mercado, mas de forma gradual, sem permitir contatos indiscriminados e aculturação. Pela sua seriedade, conseguiram a criação do Parque Nacional do Xingu, primeira reserva indígena brasileira, de grande dimensão, no ano de 1961.
A política indigenista dos Villas Boas é revertida pela ditadura militar, que, em 1967, extingue o Serviço de Proteção ao Índio e cria a Fundação Nacional do Índio (Funai), mas adota a política inicial do SPI de integração rápida, cabendo aos índios transformar-se em mão de obra das empresas ou produtores de bens para o mercado. Neste sentido, quando decide implantar grandes projetos na Amazônia – colonização, construção da Transamazônica, projetos agropecuários nacionais e estrangeiros, as tribos resistentes são desalojadas, e os bravos, que resistem, são torturados e mortos.
Massacre da ditadura militar
A Comissão Nacional da Verdade (CNV) estima em pelo menos 8.350 o número de indígenas mortos por ação ou omissão do Estado no período do regime militar, em geral, mortes relacionadas à implantação de obras de infraestrutura (rodovias, ferrovias, hidrelétricas), extração de minérios e madeira, esbulho de suas terras. Vários povos indígenas foram removidos à força para a construção da Transamazônica, que cortou terras de 29 etnias, da hidrelétrica de Tucuruí e da estrada de ferro Carajás. Também a hidrelétrica de Itaipu, inaugurada em 1984, foi responsável pela remoção de dezenas de guaranis das suas terras, provocando sofrimento e mortes.
O próprio Ministro da Justiça da ditadura Médici, Jarbas Passarinho, reconhece, dizendo: “... Não foi só nessa tribo, mas em várias outras. Os garimpeiros poluíram rios com mercúrio, afastaram a caça, provocaram fome e desnutrição dos índios, enquanto contra nós (o governo) avolumava-se a acusação de que praticávamos o genocídio. Não era exagerada a denúncia”.
O Estatuto do Índio, promulgado em 1973, apenas legalizou uma situação já existente. De avanço, apenas a determinação de que os índios receberiam uma renda pela exploração de minérios em suas terras. Esta renda, na verdade, serviu para manter a Funai, que ficava com 80% do que os exploradores pagavam.  O Estatuto prevê a possibilidade de remoção de índios por motivos de segurança nacional ou para realização de obras que interessem ao desenvolvimento nacional, inclusive mineração. O argumento de defesa da segurança nacional foi utilizado nas décadas seguintes para impedir a demarcação de terras próximas à fronteira.
Maurício Rangel Reis, Ministro do Interior do governo do General Ernesto Geisel (1974-1979), declarou com todas as letras: “Os índios não podem impedir a passagem do progresso. Dentro de 10 a 20 anos, não haverá mais índios no Brasil”.
 Avanço com a Constituição de 1988
Os bravos, entretanto, não se rendem.  No seu processo de resistência, contam com um aliado que surgiu em plena ditadura (1972) – o Conselho Indigenista Missionário (CIMI), órgão vinculado à Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB). Contrário à política de integração promovida pelo regime, o CIMI buscou articular aldeias, tribos e nações, estimulando a realização de encontros, assembleias e um trabalho educativo no sentido do resgate, preservação e continuidade da cultura original.
Com esse apoio, o Movimento Indígena decidiu participar da Constituição de 1988, encaminhando suas reivindicações, aprovadas em grande parte. Foram inseridas na Constituição Federal medidas que asseguram a demarcação das terras indígenas (TI), preservação de sua cultura, crenças e línguas.
Os índios não ficaram parados esperando que o Estado executasse o decidido. Ao contrário, a vitória intensificou a mobilização, fortaleceu a organização, o resgate da cultura, a identificação, a aparição de comunidades que viviam completamente isoladas (muitas ainda estão). Logo começou a retomada dos territórios em todo o país.
A resistência da burguesia à demarcação do território indígena também cresceu e não se dá apenas por meios legais. São inúmeros os conflitos que têm resultado no assassinato de índios, vítimas da violência de pistoleiros e jagunços contratados pelos que se consideram proprietários das terras e das próprias forças policiais que deveriam protegê-los. No capitalismo, assim como o Executivo, o Legislativo e o Judiciário, o braço armado do Estado também não existe para defender o povo, e sim as classes dominantes, isto é, aqueles que detêm o poder econômico.
No campo da legalidade, em 2003, o Movimento Indígena conseguiu mais uma vitória, quando o Governo do Brasil assinou a Convenção nº 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT), que assegura a proteção dos territórios indígenas. Daí em diante, entretanto, com a formação de um Congresso altamente conservador, a ofensiva do Agronegócio se dá também no campo Legislativo com a apresentação de Projetos de Emendas à Constituição que possibilitam a anulação das conquistas da Constituição, especialmente a PEC-215, que retira da Presidência da República e passa para o Congresso Nacional a última palavra sobre a homologação de terras indígenas; a PEC-237, que permite à União a concessão de terras indígenas aos produtores para cultivo, produção e extração de minérios. Na mesma linha, o Supremo Tribunal Federal (STF) estabeleceu um marco temporário para reconhecimento dos territórios indígenas e realização das demarcações: a data da promulgação da Constituição de 1988, decisão absurda, pois anula todas as retomadas ocorridas daquela data até hoje.  Por outro lado, não se tratam apenas de normas jurídicas. O fato é que os projetos agropecuários continuam avançando sobre os territórios indígenas, assim como projetos governamentais que atendem aos interesses da burguesia, como a hidrelétrica de Belo Monte, no Pará, que afetou 12 territórios indígenas e foi inaugurada no governo de Dilma Rousseff (PT).
A burguesia brasileira quer a extinção pura e simples dos índios, como, aliás, aconteceu nos Estados Unidos da América do Norte, país que lhe serve de referência. O genocídio dos indígenas norte-americanos está descrito brilhantemente no livro Enterrem meu Coração na Curva do Rio, do historiador estadunidense Dee Brown.
A luta hoje      
 No Censo de 2000, eram 350 mil indígenas no país. Dez anos depois, o censo de 2010 registra a existência de 900 mil índios no Brasil; provavelmente, já passam de um milhão, apesar de tudo. São 305 povos, 174 línguas; 40% vivem nas cidades, mas o autorreconhecimento indica que a cultura não foi extinta; algo resta na consciência.
O 14º Acampamento Terra Livre (ATL), realizado em Brasília, de 24 a 28 de abril, foi o maior da nossa história. Com cerca de quatro mil representantes dos povos indígenas do Brasil, denunciaram a política de destruição adotada pelo Estado brasileiro e reafirmaram sua disposição de lutar até o fim para defender seu território e seu Bem-Viver e chamaram a todo o povo para se unir a eles nessa luta, como segue no trecho do documento, que também foi entregue nos órgãos centrais do Poder Executivo, Legislativo e Judiciário:  “Soma-se a essa grave onda de ataques aos nossos direitos o aumento exponencial do racismo institucional e a criminalização promovidos em todo o País contra nossas lideranças, organizações, comunidades e entidades parceiras. Diante desse drástico cenário, reafirmamos que não admitiremos as violências, retrocessos e ameaças perpetrados pelo Estado brasileiro e pelas oligarquias econômicas contra nossas vidas e nossos direitos, assim como conclamamos toda a sociedade brasileira e a comunidade internacional a se unir à luta dos povos originários pela defesa dos territórios tradicionais e da mãe natureza, pelo bem-estar de todas as formas de vida…”.
Dos indígenas, temos a aprender a vida comunitária pela qual lutamos: sem propriedade privada (a terra não era propriedade de ninguém; estava ali, como mãe, para dela se tirar o sustento). Este sustento (o trabalho) era feito de forma coletiva e não havia exploração de uns por outros; os bens adquiridos da natureza eram repartidos. A natureza e os animais eram utilizados para a sobrevivência com cuidado e respeito.
Por isso, a luta dos indígenas é de todo o povo brasileiro. Até porque isoladamente nenhum dos setores e classes que compõem o povo conseguirá derrotar o poder da burguesia e transformar a sociedade brasileira.
É como dizem Chico César e Carlos Rennó, na música “Demarcação Já”, lançada no último Acampamento Terra Livre na voz de 25 artistas comprometidos com a causa:
“Pois guaranis e makuxis e pataxós
Estão em nós, e somos nós, pois índio é nós;
É quem dentro de nós a gente traz, aliás,
De kaiapós e kaiowás somos xarás,
Xará.
Demarcação já!

José Levino é historiador

Estudantes da UFMT se mobilizam contra corte de bolsas. "VOCÊ ESTUDANTE DAS UNIVERSIDADES UFRN - UERN E IFRN, VAI FICAR AI PARADO? - MOVA-SE!!! - Eduardo Vasconcelos - CPC/RN

Sem qualquer aviso prévio, assessora da reitoria enviou despachos sexta e segunda suspendendo todas as bolsas de tutoria, monitoria e extensão da universidade.

Os ataques à educação superior no Brasil seguem cada vez mais intensivos. Mas alguns alvos parecem ser preferenciais. Um exemplo é a Universidade Federal de Mato Grosso, cuja comunidade mais uma vez foi surpreendida com uma medida drástica, sem precedentes e sem qualquer aviso prévio: o corte de TODAS as bolsas tutoria, monitoria e extensão a partir do último dia 11 de outubro, sendo que os programas de extensão foram avisados apenas na segunda 14. Centenas de alunos, estima-se entre 800 e 900, necessitam desse auxílio, entre R$ 400 e R$ 900, para permanecerem na universidade. E muitas atividades, especialmente na extensão, que é a prestação de serviços para a comunidade fora da universidade, precisam dos bolsistas para seguirem funcionando.
Assim como aconteceu em 16 de julho, quando a Energisa simplesmente cortou a luz de cinco campi, ninguém foi avisado com antecedência, nem mesmo os gestores da Pró-Reitoria de Cultura, Extensão e Vivência – PROCEV e da Coordenação de Extensão – CODEX. Assim, esses departamentos acabaram de chamar uma reunião com os coordenadores, bolsistas e voluntários de projetos de extensão para o próximo dia 23, às 10:00 no teatro da universidade para discutir a suspensão das bolsas e também o possível cancelamento da X Mostra de Extensão da UFMT, programada para os dias 29 de outubro a 1º de novembro.
Desde segunda, 14, alunos, professores e coordenadores buscam, sem sucesso, entender quem é o responsável pela suspensão e sob quais critérios o corte foi definido. O despacho 1895053 do processo SEI 23108.083943/2019-85 foi assinado por uma assessora da reitoria, a ordenadora de despesas Cendyi Prado, que aparentemente ninguém conhece. A reitora, Myrian Serra, atacada pessoalmente como má gestora pelo ministro da educação em julho, quando houve o corte de luz, e novamente em setembro quando Abraham Weintraub esteve em Cuiabá para lançar o programa de escolas militares no estado e foi flagrado tramando um golpe para a troca da reitoria, está de férias. O vice-reitor, Evandro Aparecido Soares da Silva, que ocupa em exercício nesse momento o maior cargo da universidade, ainda não esclareceu os motivos do corte e nem se foi dada, e por quem, à ordenadora autoridade para isso.
Enquanto isso, professores e alunos se articulam para barrar as suspensões. Nessa sexta, 18, houve uma reunião de emergência na Faculdade de Comunicação e Artes que deliberou por questionar formalmente as instâncias superiores da UFMT e exigir transparência na decisão. Uma nota oficial deve ser divulgada em breve. Já os estudantes de Comunicação Social, via Diretório Acadêmico, divulgaram hoje uma nota exigindo que os editais de bolsas sejam honrados pela instituição e se colocando à disposição para, se for o caso, debater sobre cortes que não prejudiquem os alunos mais necessitados e não destruam dois dos pilares da missão da universidade, junto com o ensino: a pesquisa e a extensão. Veja abaixo a íntegra da nota:

Cuiabá, 18 de outubro de 2019.
NOTA
O Diretório Acadêmico de Comunicação Social vem por meio desta se manifestar sobre as últimas medidas tomadas pela Administração Superior da Universidade Federal de Mato Grosso. Consideramos totalmente errados os cortes das bolsas de tutoria, monitoria e extensão. Muitos estudantes necessitam de tais recursos como complemento de suas rendas e, em muitos casos, a bolsa acaba sendo o único meio de renda que possibilita a continuidade de estudos e participação integral dentro da universidade. Do mesmo modo, é uma irresponsabilidade da Instituição para com a sua comunidade o não cumprimento de editais elaborados pela mesma. Outro ponto importante a se destacar é que a extensão é um dos pilares da Universidade, juntamente com o ensino e a pesquisa. Nela atende-se diretamente o público externo através de trabalhos realizados, principalmente, por estudantes. Destacamos, ainda, que tais medidas apontam para um projeto de universidade que não é inclusivo por executar medidas que excluem parte significativa do corpo que forma a Universidade Federal de Mato Grosso.
Por fim, solicitamos aos conselheiros do Conselho de Ensino, Pesquisa e Extensão (Consepe) que considerem nossas reivindicações na próxima Reunião Extraordinária, marcada para o dia 22/10, e colaborem na busca de alternativas de redução de gastos em meios que não afetem diretamente na manutenção do corpo estudantil dentro da UFMT.
Pedimos que nossas considerações sejam atendidas e esperamos que a reunião do Consepe possa reverter tal medida.
Atenciosamente,
Diretório Acadêmico de Comunicação Social (DACOS – UFMT).
UNIVERSIDADE FEDERAL DE MATO GROSSO
ENDEREÇO: Av. Fernando Corrêa da Costa, nº 2367 – Bairro Boa Esperança. Cuiabá – MT – 78060-900 FACULDADE DE COMUNICAÇÃO E ARTES
DIRETÓRIO ACADÊMICO DE COMUNICAÇÃO SOCIAL

Obra-prima de Lima Barreto contra o racismo era lançada há 110 anos

Publicado pela primeira vez em 1909, 20 anos após a abolição da escravatura, Recordações do Escrivão Isaías Caminha, primeiro livro de Lima Barreto (1881-1922), foi um marco na disputa de espaço por negros na sociedade brasileira. A obra-prima do escritor carioca retratou, de modo até então inédito, o racismo presente nas instituições e nas instâncias de poder.
O escritor Lima Barreto (1881-1922), autor de <i>Recordações do Escrivão Isaías Caminha</i>O escritor Lima Barreto (1881-1922), autor de Recordações do Escrivão Isaías Caminha
O enredo acompanha a história de Isaías Caminha, um jovem negro e pobre do interior, que tinha a ambição de se tornar “doutor”, para melhorar de vida. Munido de uma carta de recomendação, ele se muda para o Rio de Janeiro e corre atrás de seu sonho. É quando encontra diversas dificuldades decorrentes de sua cor e condição social, mostrando a incapacidade do País de incorporar pessoas negras à sociedade, mesmo depois da abolição.
Isaías não consegue iniciar os estudos para ser doutor, não consegue emprego e passa a viver nas ruas. Já não tem mais nenhuma esperança, quando um homem que conheceu na chegada ao Rio o leva para trabalhar na redação de um grande jornal. A partir daí, a história traça um retrato demolidor da imprensa, denunciando jogos de interesse, parcialidade e sensacionalismo, além da falta de preparo dos jornalistas.
Para Tiago Coutinho, professor do curso de Jornalismo na Universidade Federal do Cariri (UFCA), o livro ajuda a compreender o Brasil contemporâneo. “Temos um amplo debate no Brasil em torno das cotas raciais, e esse debate ainda está em disputa”, afirma Tiago, que é responsável pela reedição do livro pela Editora Expressão Popular. “Ler Recordações de Isaías Caminha ajuda a compreender o período político que estamos vivendo e o racismo estrutural na sociedade.”
A reedição do livro tem prefácio de Irenísia Torres de Oliveira, pesquisadora da obra de Lima Barreto. Ela destaca a importância de bolsas de estudo e políticas de permanência estudantil para que negros e negras com sonhos como o de Isaías não sejam obrigados a deixar de estudar. “Numa universidade a serviço do mercado, como quer o lamentável ministro Weintraub, de novo não haveria lugar para jovens como Isaías”, afirma, referindo-se ao ministro da Educação, Abraham Weintraub.
Na opinião de Irenísia, é preciso lutar para que os currículos nas universidades não sejam pensados para estudantes em boas condições de vida – um dos motivos que teriam levado Lima Barreto a abandonar o curso na Escola Politécnica na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).
Lima Barreto nasceu no Rio de Janeiro em 13 de maio de 1881 e morreu aos 41 anos em 1º de novembro de 1922. Foi jornalista e escritor, publicando em jornais e revistas. Entre romances, contos e sátiras, escreveu 19 obras. Teve problemas com alcoolismo, o que deixou sua saúde bastante debilitada, e passou por diversas internações. É considerado um dos maiores escritores brasileiros.
Com informações do Brasil de Fato

Prêmio Culturas Populares: confira o resultado preliminar de classificação

No total, foram avaliadas 909 iniciativas de mestres e 185 de pessoas jurídicas sem fins lucrativos. Candidatos desclassificados têm cinco dias para pedir reconsideração
O Ministério da Cidadania divulgou nesta quinta-feira (17) o resultado preliminar da fase de classificação do Prêmio Culturas Populares – Edição Teixeirinha. Este ano, serão destinados R$ 5 milhões a 250 iniciativas que contribuam para fortalecer e dar visibilidade a atividades da cultura popular e tradicional de todo o Brasil. Cada um dos premiados vai receber R$ 20 mil.
No total, foram avaliadas 909 iniciativas de mestres e mestras, com 672 classificados e 237 desclassificados. No caso de pessoas jurídicas sem fins lucrativos com finalidade ou natureza cultural, foram apreciados 185 projetos, dos quais 178 foram classificados e 07, desclassificados.
Os candidatos desclassificados podem enviar pedido de reconsideração da fase de classificação, no prazo de cinco dias corridos a partir desta quinta-feira (17), de acordo com os seguintes passos:
  1. Acesse a endereço http://cidadania.gov.br e escolha a opção “Fale Conosco”
  2. Acesse a Central de Relacionamento e clique no campo Formulário Eletrônico e registe aqui sua manifestação.
  3. Acesse o campo: Solicitação e selecione o assunto: Recurso-Edital PCP 2019 – Teixeirinha.
  4. E no campo “Informe o assunto” escreva: Recurso-Edital PCP 2019 – Teixeirinha.
  5. Informe o seu perfil: Não beneficiário em seguida preencha o formulário.
  6. Anexe o formulário próprio do pedido de reconsideração que deverá estar devidamente assinado de próprio punho.
  7. Clique em ENVIAR.
  8. Anote o seu número de protocolo e aguarde o e-mail de confirmação.

Sobre o Prêmio Culturas Populares

Na edição de 2019, os prêmios estão divididos em 150 iniciativas de mestres e mestras (pessoas físicas); 90 iniciativas de pessoas jurídicas sem fins lucrativos com finalidade ou natureza cultural expressa em seu estatuto, já reconhecidas como Pontos de Cultura ou cadastradas na Plataforma Rede Cultura Viva; e 10 iniciativas de pessoas jurídicas sem fins lucrativos com finalidade ou natureza cultural expressa em seu estatuto, já reconhecidas como Pontos de Cultura ou cadastradas na Plataforma Rede Cultura Viva e que comprovem ações em acessibilidade cultural.
A cada ano, o Prêmio Culturas Populares homenageia um expoente da cultura popular brasileira. Este ano, o homenageado é o cantor, compositor e ator gaúcho Vitor Mateus Teixeira, o Teixeirinha, falecido em 1985, aos 58 anos. Natural de Rolante (RS), Teixeirinha nasceu em 1927, ficou órgão aos nove anos e foi morar com parentes que não tinham condições de sustentá-lo. Para sobreviver, fez um pouco de tudo antes de se revelar grande artista. Ainda menino, carregou malas em portas de pensões, entregou marmitas e vendeu jornais e doces como ambulante.
A carreira de cantor teve início nas rádios das cidades do interior do Rio Grande do Sul, como Lajeado, Estrela e Rio Pardo. Apesar de nunca ter cursado aulas de música ou canto, contava com seus dons naturais – a bela voz e a improvisação – que fizeram com que se tornasse um exímio repentista. Carismático, escrevia canções simples que tocavam o público. Seu acervo, que reúne mais de 1.200 canções lançadas em cerca de 70 discos, atualmente é preservado pela Fundação Vitor Mateus Teixeira.
Portal Brasil Cultura