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quarta-feira, 5 de junho de 2019

A EDUCAÇÃO SOB UMA PERSPECTIVA MARXISTA

Por Clara Freitas, militante da UJS SP e estudante de Políticas Públicas da UFABC
A bandeira da educação pública, gratuita e de qualidade sempre foi uma bandeira levantada pelo projeto político e militância da UJS, entretanto cabe a nós, quanto jovens socialistas, compreender qual seria a perspectiva comunista dentro de um projeto educacional. Compreender que a  educação não é um negócio, mas uma criação, ou seja, não se deve conceber a educação como simplesmente uma oportunidade para o mercado de trabalho, mas principalmente como uma contribuição para o desenvolvimento de um indivíduo social. Educação é pensar para além do limite, para além de uma sociedade do capital, para além de uma sociedade das coisas. Educar é superar o estado de alienação global e isto exige uma revolução cultural radical, que vá às raízes do que nos aliena e neste curso da mercantilização a educação acompanha o trabalho. Conforme afirma Marx:
“Toda luta de classes é uma luta política […]. A burguesia mesma, portanto, fornece ao proletariado os elementos de sua própria educação, isto é, armas contra si mesma […]. Com o progresso da indústria frações inteiras da classe dominante são lançadas no proletariado […] também elas fornecem ao proletariado uma massa de elementos de educação” (MARX, 1993, p. 08).
O tema da educação não ocupou um lugar central na obra de Marx. Não há explicitamente uma teoria ou sistematização do que deveria ser a educação, muito menos princípios metodológicos e diretrizes para o processo de ensino-aprendizagem. Sua principal preocupação foi o estudo das relações socioeconômicas e políticas e seu desenvolvimento no processo histórico. Apesar disso, encontramos inevitavelmente enredada em sua obra e em sua filosofia, uma considerável preocupação com a questão educacional, onde a educação é colocada como parte da dinâmica política e está alinhada a uma proposta político pedagógica que reconhece que o papel mais importante da educação não é o de desenvolvimento individual e sim, o de colaborar para as transformações da sociedade em suas dimensões política e econômica.
Na perspectiva marxista a educação tem duas grandes tarefas:
  1. Fazer denúncia, crítica e diagnóstico das várias formas de alienação impostas pelas ideologias vigentes. Cabe a educação, quanto mediadora do conhecimento, esclarecer, elucidar e, consequentemente denunciar.
Destaca-se aqui que para fazer um trabalho de esclarecimento da sociedade são necessárias as chamadas ciências críticas, tais como a história, economia, filosofia e a política. Assim como acontecia no projeto iluminista da modernidade, o marxismo privilegia a razão como instrumento de esclarecimento da sociedade. Assim, podemos facilmente compreender o ataque do governo Bolsonaro as ciências sociais, uma vez que ao as atacar, configura-se um ataque a um instrumento e ferramenta de razão e esclarecimento.
  1. Anunciar e propor uma nova realidade social e cobrar respectivos responsáveis uma nova práxis organizativa, não só da sociedade, mas também na condução da vida social, atribuindo a todas as pessoas a suas responsabilidades, mas também os seus direitos. Desenvolvimento de uma educação emancipatória.
Outro ponto importante é relembrarmos que Marx considera o trabalho a atividade pela qual o homem se mostra e através da qual o homem consegue criar, entretanto o trabalho do sistema capitalista anula essa criatividade do homem porque retira dele a possibilidade de se reconhecer dentro daquilo que está produzindo, e a isso ele dá o nome de alienação- o trabalhador está tão preocupado com outras questões ligada a suas condições sociais de existência que ele não consegue identificar que aquela atividade que ele está exercendo é uma atividade que não está dotada de  autonomia, criatividade e potencial criatividade. O homem concebe o espaço do trabalho como esfera da necessidade, quando no entanto, argumenta Marx, nós deveríamos caminhar para chegar até a esfera da liberdade, algo alcançado por exemplo com a redução da jornada de trabalho, pois a esfera da liberdade só seria possível com o fim do expediente de trabalho, pois ali no seu campo de trabalho ele é um indivíduo explorado e sem autonomia para exercer nenhum tipo de criação.
A sociedade capitalista não vive apenas das suas bases materiais (infraestrutura), mas ela vive também de toda ideia que institui essas bases materiais, que justifica a existência dessas bases materiais. Para Marx então, a educação não é um negócio, mas uma criação, que alimenta a superestrutura ligada ao plano de ideias que por sua vez, cria valores e condições onde o capitalismo se apresenta como única realidade possível. Dialogando com Hegel, isto está basicamente ligado ao conceito de dialética, onde toda realidade existente está passível de mudança. Marx argumenta que em toda tese (realidade estabelecida) há uma unidade de contrário, uma antítese, e do contato constante entre tese e antítese surge uma nova realidade a qual ele chama de síntese, que se configuraria então como uma nova tese, isso geraria um ciclo intermitente que nos leva a ideia de movimento e a concluir que nenhuma realidade é definitiva, e todas são passíveis de transformação. Em suma, Marx defende que apesar da alienação e de uma ideologia que alicerça a lógica capitalista, todo trabalho é potencialmente uma atividade consciente e criadora, daí surge a ideia de práxis pra mostrar justamente que a práxis é toda escolha consciente e que a mesma está disponível a todos os trabalhadores.
A educação vista sob uma perspectiva marxista parte também do principio de que o trabalho do educador também é trabalho, e se é trabalho, também potencialmente é uma atividade criadora e que pode a partir desse conceito de práxis, gerar uma série de transformações e pequenas revoluções sociais. Marx não vai ser tão otimista em relação a escola, nem dar a ela o papel de protagonista da revolução, uma vez que a escola é formada dentro do sistema capitalista e o educador antes de educar, também foi educado, e dentro do sistema capitalista. Mas se reconhecermos o trabalho do educador como trabalho com possibilidade de exercimento de criatividade, autonomia e práxis, podemos visualizar uma ponte que alcance as duas grandes tarefas que Marx coloca para a educação: diagnosticar e criticar a alienação imposta e propor uma nova realidade social.
O que nós podemos interpretar com base na perspectiva marxista é justamente que o educador é aquele que precisa passar conhecimento e também convicções para os seus alunos, só que uma vez fazendo isso ele precisa mostrar ao aluno que aquela é a sua leitura e interpretação e que ela pode estar profundamente influenciada, e ensinar a esses alunos a duvidar daquilo que ele próprio está colocando. Apenas a dúvida constante sob aquilo que é construído socialmente dentro do capitalismo seria capaz de fazer com que o conhecimento se libertasse, em alguma medida, da ideologia, fazendo com que os indivíduos saiam do estado de alienação e tomem consciência, a partir daí a escola passa a ser um lugar interessante e propício para essa tomada de consciência, desde que ela se constitua como espaço legítimo de troca de informação, experiências e, sobretudo de reconhecimento das classes sociais e desigualdades. Além da localização do conhecimento, pensando que o conhecimento não é neutro e está sempre ligado a um conjunto de ideias. Essa uma das maiores contribuições de Marx na perspectiva educacional: o reconhecimento de que nosso discurso está socialmente ligado e socialmente comprometido. Nesse sentido, se faz necessário que se faça defesa de uma escola com pluralidade de pensamentos e porque não, de partidos.
A filosofia marxista também valorizava a gratuidade da educação, mas não o atrelamento a políticas de Estado, o que equivaleria a subordinar o ensino à religião. Marx via na instrução das fábricas, criada pelo capitalismo, qualidades a serem aproveitadas para um ensino transformador – principalmente o rigor com que encarava o aprendizado para o trabalho. O mais importante, no entanto, seria ir contra a tendência “profissionalizante”, que levava as escolas industriais a ensinar apenas o estritamente necessário para o exercício de determinada função. Marx entendia que a educação deveria ser ao mesmo tempo intelectual, física e técnica.
Um dos objetivos da revolução prevista por Marx é recuperar em todos os homens o pleno desenvolvimento intelectual, físico e técnico. É nesse sentido que a educação ganha ênfase no pensamento marxista. Combater a alienação e a desumanização era, para Marx, a função social da educação e para isso seria necessário aprender competências que são indispensáveis para a compreensão do mundo físico e social, e que para além disso, o próprio educador precisaria ser educado para que pudesse ofertar uma educação emancipatória. Se faz urgente reinventar a educação urgente além de que é preciso dessacralizá-la para se crer nela e acreditar ainda que, diferentes tipos de homem criam diferentes tipos de educação. Mais do que poder, a educação atribui compromissos entre as pessoas, a educação da comunidade, da escola, a oposição entre a “educação de educar” e a “educação de instruir”, a passagem da aprendizagem coletiva para o ensino particular e desperta e faz diagnóstico acerca do controle do Estado. Em todas as classes se cria e recria uma cultura de classe e formas de educação do povo.
Fonte: UJS NACIONAL

Ex-ministros da educação avaliam que efeitos dos cortes podem ser fatais para universidades

Ex-ministros da Educação: José Goldemberg, Murilo Hingel, Cristovam Buarque, Fernando Haddad, Aloizio Mercadante e Renato Janine Ribeiro.
Seis ex-ministros da Educação, de quatro presidentes diferentes, se reuniram hoje para um encontro histórico na Universidade de São Paulo. Eles assinaram uma carta em defesa das políticas públicas da área, pedindo a garantia de recursos, maior autonomia universitária e igualdade de acesso. Também foi anunciada a construção de um observatório da educação, composto pelo grupo para orientar gestores municipais, estaduais e políticos a respeito das necessidades e demandas da educação para a população.
A carta foi assinada por José Goldemberg, Murilo Hingel, Cristovam Buarque, Fernando Haddad, Aloizio Mercadante e Renato Janine Ribeiro.

Leia a íntegra da carta dos ex-ministros:

Nós, ex-ministros da Educação que servimos o Brasil em diferentes governos, externamos nossa grande preocupação com as políticas para a educação adotadas na atual administração. Nas últimas décadas, construiu-se um consenso razoável sobre a educação, que se resume numa ideia: ela é a grande prioridade nacional.
Contingenciamentos ocorrem, mas em áreas como educação e saúde, na magnitude que estão sendo apresentados, podem ter efeitos irreversíveis e até fatais. Uma criança que não tenha a escolaridade necessária pode nunca mais se recuperar do que perdeu. A morte de uma pessoa por falta de atendimento médico é irreparável. Por isso, educação e saúde devem ser preservadas e priorizadas, em qualquer governo.
Uma educação pública básica de qualidade forma bem a pessoa, o profissional e o cidadão para desenvolverem, com independência e sem imposições, suas potencialidades singulares.
A educação é, ainda, crucial para o desenvolvimento social e estratégico da economia do Brasil. A economia não avança sem a educação, que é a chave para nosso país atender às exigências da sociedade do conhecimento.
O consenso pela educação como política de Estado foi constituído por diferentes partidos, por governos nas três instâncias de poder, fundações e institutos de pesquisa, universidades e movimentos sociais ou sindicais. Em que pesem as saudáveis divergências que restaram, foi uma conquista única, que permitiu avançar no fortalecimento da educação infantil, na universalização do ensino fundamental, na retomada da educação técnica e profissional, no esforço pela alfabetização e educação de adultos, na avaliação da educação em todos os seus níveis, na ampliação dos anos de escolaridade obrigatória com aumento expressivo das matrículas em todos os níveis de ensino, na expansão da pós-graduação, mestrado e doutorado e, consequentemente, na qualidade da pesquisa e produção científica realizada no Brasil.
É impressionante que, diante de um assunto como a educação que conta com especialistas e estudiosos bem formados, o governo atue de forma sectária, sem se preocupar com a melhoria da qualidade e da equidade do sistema, para assegurar a igualdade de oportunidade.
Em nenhuma área se conseguiu um acordo nacional tão forte quanto na da educação. A sociedade brasileira tomou consciência da importância dela no mundo contemporâneo.
Numa palavra, a educação se tornou a grande esperança, a grande promessa da nacionalidade e da democracia. Com espanto, porém, vemos que, no atual governo, ela é apresentada como ameaça.
Concordamos todos que a educação básica pública deve ser a grande prioridade nacional, contribuindo para superar os flagelos da desigualdade social gritante, da falta de oportunidades para os mais pobres e do atraso econômico e social. Ela implica o aprimoramento da formação dos professores, do material didático, a constante atenção à Base Nacional Curricular Comum, a valorização das profissões da educação, inclusive no plano salarial, a reforma do ensino médio, o aperfeiçoamento da gestão educacional, a construção de diretrizes nacionais de carreira de professores e diretores do ensino público. Requer a constante inovação nos métodos, deslocando-se a ênfase no ensino para a aprendizagem, que deve ser o centro de todos os nossos esforços.
Exige também o empenho na educação infantil e na alfabetização na idade certa, a melhora das escolas e dos laboratórios e bibliotecas e, mais que tudo, o respeito à profissão docente, que não pode ser submetida a nenhuma perseguição ideológica. A liberdade de cátedra e o livre exercício do magistério são valores fundamentais e inegociáveis do processo de aprendizagem e da relação entre alunos e professores. Convidar os alunos a filmarem os professores, para puni-los, é uma medida que apenas piora a educação, submetendo-a a uma censura inaceitável. Tratar a educação como ocasião para punições é exatamente o contrário do que deve ser feito. Cortar recursos da educação básica e do ensino superior, no volume anunciado, deixará feridas que demorarão a ser curadas.
Não menos importante é o fortalecimento da cooperação e da colaboração entre União, Estados, Municípios e o Distrito Federal e o respeito à autonomia das redes, como determinam a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional e a própria Constituição Cidadã de 1988. Não podemos ignorar o Plano Nacional de Educação, aprovado por unanimidade pelo Congresso Nacional, os Planos Estaduais e os Planos Municipais de Educação, já pactuados entre a sociedade, os governos e a própria comunidade escolar. Ele decorre de iniciativas que já vinham de longe, como o Plano Decenal de Educação para Todos (1993/2003), elaborado pelo MEC com apoio dos estados, dos municípios, do Distrito Federal, de entidades representativas da área educacional e que atendia a compromisso internacional assumido pelo Brasil na Conferência realizada em 1990 em Jomtien (Tailândia), de que o Brasil participou, promovida pela UNESCO, pelo UNICEF, pelo PNUD e pelo Banco Mundial.
Enfim, e para somar esforços em vez de dividi-los, é indispensável que se constitua e se organize um efetivo Sistema Nacional de Educação.
Ademais, a prioridade à educação básica demanda que cresçam os repasses do governo federal para os estados e municípios, responsáveis pelo ensino infantil, fundamental e médio, sendo prioridade a renovação e, se possível, ampliação do FUNDEB – Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica e de Valorização dos Profissionais da Educação, que expira em 2020. Sem ele, a situação do ensino nos municípios e estados mais pobres, que já é inadequada, se tornará desesperadora.
No tocante à expansão do ensino superior, é fundamental se assegurar o ingresso e permanência dos estudantes, especialmente dos egressos das escolas públicas e das famílias de baixa renda. O ensino superior necessita ter qualidade, o que requer tanto constantes avaliações quanto recursos, garantindo seu papel insubstituível na formação de profissionais qualificados para um mercado de trabalho cada vez mais exigente, impactado pelos desafios das inovações e das novas tecnologias. A autonomia universitária é uma conquista que deve ser mantida para garantir a liberdade e qualidade na pesquisa, formação e extensão.
O Brasil dispõe, hoje, de uma lista de políticas devidamente estudadas e estruturadas, de medidas e instrumentos que permitem progredir significativamente na educação. Nada disso é ou será fácil, mas o consenso obtido e o aprimoramento das medidas clamam pela junção de esforços em prol de uma educação que se equipare, em qualidade, à dos países mais desenvolvidos.
Muito tem de ser feito, tudo pode ser aprimorado, mas a educação depende da continuidade ao que já foi conseguido ou planejado. Educação é política de Estado: nada se fará se a ênfase for na destruição das conquistas, no desmonte das políticas públicas implementadas e no abandono dos planos construídos pela cooperação entre os entes eleitos e a sociedade.
Vimos a público defender esta causa estratégica para as futuras gerações e propomos a formação de uma ampla frente em defesa da educação. Nós, neste momento, estamos constituindo o Observatório da Educação Brasileira dos ex-ministros da Educação, que se coloca à disposição para dialogar com a comunidade acadêmica e científica, sociedade e entidades representativas da educação, com parlamentares e gestores, sempre na perspectiva de aprimorar a qualidade da política educacional.

MEMÓRIA - Maria Thereza Goulart e a história brasileira: amor, perseguição, poder, justiça

Maria Thereza, feliz, com os filhos João Vicente e Denize. E causando polêmica ao entrar na igreja com Avelar, no dia do casamento do motorista de Jango. "Queria fazer justiça", diz biógrafo, que trabalhou 12 anos no livro

Biografia da viúva do presidente João Goulart mostra aspectos menos conhecidos de um período turbulento da história do país, do ponto de vista de uma mulher discreta e determinada.

por Vitor Nuzzi, da RBA

São Paulo – Maria Thereza era uma adolescente criada na fazenda quando, em 11 de dezembro de 1950, recebeu a missão de entregar um envelope a um dos mais conhecidos moradores de São Borja: João Goulart, mais conhecido como Jango, 17 anos mais velho. “Simpático, sorridente e bonito”, contou às amigas, que esperavam pelo relato. Em um diário, guardou para si a impressão de ter visto também um menino mimado. Começa assim a narrativa de Uma Mulher Vestida de Silêncio – A Biografia de Maria Thereza Goulart (Record), escrita pelo jornalista Wagner William. Obra de quase 650 páginas que narra a trajetória de uma mulher que viveu de perto o poder e a perseguição, o amor e a solidão, em um dos períodos políticos mais turbulentos da história brasileira.

João e Maria casaram-se em abril de 1955. Ficaram juntos até 6 de dezembro de 1976, data da morte do ex-presidente, no interior de Argentina. Nesse intervalo de duas décadas, um golpe tirou Jango do poder e desestruturou a família. Em 1964, o casal tinha dois filhos: João Vicente, nascido em 1956, e Denize, que veio no ano seguinte. Tiveram de sair às pressas do Brasil. Maria Thereza e as crianças, ainda sem o pai, chegaram ao Uruguai em 3 de abril. A menina queria saber se lá tinha banana e o garoto, de que cor era aquele país. “Não sei, filho. Acho que é azul.”

Em apenas dois dias, ela saíra com os filhos de Brasília para Porto Alegre, da capital gaúcha para São Borja e de lá para o Uruguai, tendo como primeiro destino uma casa isolada em Solymar, uma cidade litorânea. Maria Thereza chegou a apelar para uma vizinha, que não conhecia, para pedir comida, que entregou biscoitos, doces e leite. Trazia apenas uma mala – e não 19, como se chegou a dizer, em uma das várias maledicências de que foi alvo. Com pesquisa, Wagner William encontrou reportagem do jornal uruguaio La Mañana, em 4 de abril de 1964, mostrando a chegada da família em um pequeno avião, que jamais comportaria tamanha bagagem.

Outra “notícia”, esta bem mais grave, punha a primeira-dama em suspeita da morte do marido, com suposto uso do letal gás sarin. “Quem checa?”, questiona o autor, que na última quarta-feira (29) participou de debate na sede Sindicato dos Jornalistas de São Paulo, ao lado do psicanalista e escritor Jacob Pinheiro Goldberg, autor de um texto de apresentação do livro. Na plateia, Eugenia Zerbini, filha da advogada Therezinha, ativista de direitos humanos, e do general Euryale Zerbini, cassado por se opor ao golpe.

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Sempre contextualizada, a obra é recheada de histórias íntimas do casal, mostrando, por exemplo, que Jango cochilou durante uma sessão do filme E o Vento Levou, para indignação de Maria Thereza, a quem alegou cansaço. Ou quando, já no Uruguai, ela se surpreendeu vendo o marido colocar terra na boca – ele procurava um lugar para plantar arroz e queria testar a acidez do terreno. No Vaticano, os pais ficaram constrangidos porque, em plena audiência com o Papa João XXIII, em 1959, o pequeno João Vicente precisou ir ao banheiro, levado com urgência pelo assessor de imprensa do então vice-presidente, Raul Ryff. Outra história saborosa é a do presente que Maria Thereza recebe de Frank Sinatra: uma carta e discos do cantor norte-americano. Ela não conteve o entusiasmo e acabou interrompendo uma reunião do presidente com alguns de seus ministros.

Renúncia e crises
Jango já tinha sido deputado, secretário estadual e ministro do Trabalho, sempre pelo PTB de Getúlio Vargas. Vice de Juscelino Kubitschek em 1955, foi reeleito vice em 1960, em uma época de votações separada para vice e para presidente – o eleito foi Jânio Quadros (PDC). Mas a relativa tranquilidade estava prestes a acabar. Em agosto de 1961, Jango cumpria visita oficial na China e Maria Thereza estava com as crianças na França, como hóspedes comuns. Até a manhã do dia 26, quando ela chegou para o café da manhã, de biquíni e saída de praia, e foi aplaudida ao entrar no restaurante. Só entendeu quando o dono do hotel a avisou que ela era a nova primeira-dama do Brasil. No dia anterior, Jânio havia renunciado. Mas Jango, mesmo sendo o vice constitucional, enfrentou um veto militar e só pôde assumir depois de uma improvisada “solução” parlamentarista.

O jornalista retrata vários momentos tensos do governo Jango, como o Comício da Central do Brasil, no Rio de Janeiro, em 13 de março, a menos de um mês do golpe. O cardiologista Euryclides de Jesus Zerbini pediu a Jango que adiasse o evento, por causa de suas condições de saúde. O presidente disse que era “questão de honra” comparecer. Ali, ele anunciaria várias das reformas de base. Havia também boatos sobre um atentado. Tamanho clima fez Maria Thereza esquecer seu pânico da multidão e decidir comparecer, para ficar ao lado do marido no palanque, em imagem que ficaria para a posteridade e está na capa do livro. Às pressas, ela comprou um vestido azul-turquesa na loja My Fair. Mas avisou o estilista Dener, precursor da moda no Brasil, de quem foi amiga próxima. Ele só ficou tranquilo quando soube que não era marrom e, sem saber da escolha da primeira-dama, sugeriu justamente a cor azul-turquesa.

Durante o debate, Wagner William chama a atenção para esse momento, que considera simbólico: pela primeira vez, uma mulher está presente no palanque de um grande comício no país. Maria Thereza era uma mulher discreta, mas decidida. Dirigia muito bem e sabia atirar. Ela também ocupou a presidência da Legião Brasileira de Assistência (LBA), mas deixou o cargo por não querer ser apenas um “ornamento”.

A beleza de Maria Thereza sempre foi um prato cheio para a mídia. O autor da biografia conta que ela foi um foi um dos primeiros alvos da “onda paparazzi” no Brasil, retratada no filme A Doce Vida, de Federico Fellini. Também estampou capas de revista. Recebeu elogios além da conta do príncipe Philip, marido da rainha Elizabeth, e principalmente do presidente da extinta Iugoslávia Josip Broz, o Tito.

Longe das câmeras, havia uma mulher zelosa com a família e pés no chão – ao contrário do Jango, nunca contou com o retorno ao Brasil. Viveu momentos felizes e amargos no exílio. Foi presa algumas vezes, e em uma dessas ocasiões foi obrigada a tirar a roupa. O jornalista revela poemas escritos por Maria Thereza, reveladores de seu estado de espírito: “Ando buscando el amigo/ Porque estoy sola/ Y tengo ganas de llorar“.

Os capítulos do livro – resultado de um trabalho de 12 anos e mais de uma centena de entrevistas – fazem menção a canções da música popular brasileira. “Na época que Maria Thereza considera a mais feliz de sua vida, com dois filhos pequenos em Copacabana, a trilha sonora do Brasil era a Bossa Nova. Tom Jobim ‘ficava na minha orelha, cantando sem parar’ enquanto eu escrevia. Usei isso em um capítulo, conforme ia escrevendo e as épocas iam mudando, mudava também as ‘músicas que tocavam em minha cabeça’. Decidi então nomear quase todos os capítulos com trechos das dessas canções”, explica o autor. Um bom exercício é procurar trechos de música “escondidos” nas páginas de Uma Mulher Vestida de Silêncio, panorama da história do Brasil pela ótica de um mulher que, assim como seu marido, passou muito tempo excluída das narrativas oficiais.

Isso ajuda a entender a escolha de Wagner William, de 50 anos, por seus personagens – ele já havia publicado, em 2005, O Soldado Absoluto, sobre o marechal Henrique Teixeira Lott. “Eu queria fazer justiça ao Lott, queria fazer justiça à dona Maria Thereza. A principal motivação é fazer justiça.”

Você diz que um dos principais objetivos, com o livro, é fazer justiça. Maria Thereza, assim como Jango, ainda não têm seu devido lugar na História brasileira?
Acredito que eles estejam no lugar “errado” na História. Sobre Jango, repete-se a ladainha de presidente fraco e inepto. Mas qual foi o único presidente a assinar e seguir em frente com as reformas? É fácil explicar essa desvalorização do governo Jango: a ditadura precisava justificar sua chegada ao poder. Nada mais óbvio que desclassificar seu antecessor. Vinte anos depois, o que entregaram aos brasileiros?

Seu livro também faz críticas ao comportamento da imprensa, não apenas na ditadura. Há “fatos” que não resistiriam a uma checagem básica, como as tais 19 malas e o gás sarin. Por que isso não foi feito?

Não posso dizer exatamente por que essa checagem não foi feita, mas é  possível pensar numa “continuação” da tática da ditadura de desvalorizar o governo Jango. Quanto mais se atacar Jango ou pessoas ou políticos ligados a ele, melhor para o discurso histórico que se seguiu até recentemente, quando até grandes meios de comunicação do Brasil reconheceram que o apoio ao golpe foi um erro.

A introspecção parece ser uma característica de Maria Thereza. Você teve, pela informação contida no final do livro, 18 encontros com ela. Como foram esses contatos?

As entrevistas eram normais. Claro que, durante esse longo trajeto de 12 anos, houve alguns problemas e interrupções, algumas até propositais, quando, por exemplo, se fez o exame dos restos mortais do presidente. O resultado poderia mudar minha linha narrativa. (Em 2013, o corpo de Jango foi exumado e passou por análises para apurar um possível envenenamento por agentes a serviço da ditadura. O resultado da perícia foi inconclusivo. No mesmo ano, o Congresso anulou, simbolicamente, a sessão que depôs o então presidente em 1964.)

Ao decidir participar do comício da Central, em 13 de março de 1964, Maria Thereza rompeu paradigmas. Como você descreveu, era um local (o palanque) dominado por homens, assim como a política. Qual foi o peso simbólico desse momento?

Ali, pela primeira vez, há uma mulher no palanque de um grande comício no Brasil. Era o primeiro tabu quebrado. Por trás daquela foto histórica e daquele discurso que mudava o destino do país, havia um homem que sofrera um grave distúrbio cardíaco dias antes e uma esposa que estava preocupada, em primeiro lugar, com seu marido. Para acompanhá-lo, superou sua fobia de multidão e acompanhou todo discurso, tensa e com raros sorrisos, ao lado do presidente.

Maria Thereza teve de deixar o país às pressas, sem o marido e com dois filhos pequenos. Chegou ao Uruguai quase sem bagagem e na primeira noite pediu comida a uma vizinha para alimentar as crianças. Foi seu pior momento, entre tantos difíceis?

De maneira indireta, podemos dizer que sim. Essa afirmação subjetiva baseia-se apenas em um fato. Entre vários momentos tensos que narrou, essa passagem foi a única em que ela reconheceu para mim que não guardava lembranças exatas dos acontecimentos.

 Jango sempre sonhou com o retorno ao seu país. E ela?

Nunca. Maria Thereza encarou o golpe como uma escolha do Brasil. E repetia isso a Jango: “Se o Brasil não nos quis, não temos motivos para querer voltar”. Esse foi o ponto que foi minando, devagar e dolorosamente, a relação do casal. Enquanto ela queria fazer uma nova vida no Uruguai, Jango sonhava com o retorno a qualquer momento.

Acredita que Maria Thereza se reconciliou com seu país?

Não sei. Será que o Brasil, que consumia revistas e revistas com a admirada primeira-dama na capa, reconciliou-se com Maria Thereza?

O clima vivido atualmente no país despertou nela “fantasmas” que pareciam definitivamente adormecidos?

Acredito que qualquer pessoa que tenha passado por momentos traumáticos e violentos durante a ditadura esteja com certas “ressalvas”. Há vários momentos descritos no livro em que Maria Thereza reconhece que não conseguiu superar o medo e que suas bruxas estavam soltas para aterrorizá-la.


Fonte: Rede Brasil Atual - RBA

Do MP3 ao streaming: a revolução que popularizou o acesso à música

Se você tem ao menos 30 e poucos anos e já tinha contato com a internet na transição do século 20 para o 21, certamente há de se lembrar do que significou o surgimento do MP3, do Napster e dos tocadores digitais de música. Por outro lado, se você é mais jovem e faz uso frequente de meios como o YouTube ou Spotify, talvez já tenha se perguntado como as pessoas mais velhas poderiam viver sem acesso ao conteúdo musical infinito oferecido por essas ferramentas.
Por Fernando Damasceno
Até meados dos anos 1990, o cidadão comum que quisesse ter contato com o disco de determinado artista ou banda precisava recorrer a algum tipo de mídia física (no formato de CD, LP ou K7). Numa era predominantemente analógica, a produção desse material era de responsabilidade das gravadoras, ramo mais lucrativo de uma cadeia produtiva bilionária que se convencionou chamar de indústria fonográfica. Hoje, como se sabe, tudo se digitalizou.
O processo de transição para o atual modelo de negócios da indústria fonográfica mundial é o que move o jornalista norte-americano Stephen Witt, autor de Como a Música se Tornou Grátis, publicado no Brasil pela Editora Intrínseca. Por meio de uma rigorosa investigação e de dezenas de entrevistas com personagens-chave dessa verdadeira revolução tecnológica e cultural, o autor faz um relato fundamental para a compreensão da contemporaneidade.
Entre esses personagens-chave, três merecem especial destaque: Doug Morris, principal executivo global da Universal Music (companhia que chegou a comercializar cerca de 50% dos discos de todo o Planeta); Dell Glover, trabalhador braçal de uma fábrica de CDs, responsável por piratear cerca de 2 mil obras inéditas e disponibilizá-las na internet; e Karlheinz Brandenburg, considerado o pai do MP3. Todos, em maior ou menor grau de importância, contribuíram para revolucionar a relação entre artistas, produtores musicais, empresários e consumidores.
Hoje, ao contrário do que se lê no título do livro, sabe-se que a música não se tornou exatamente grátis. CDs ainda são vendidos, ensaia-se um retorno nostálgico ao velho LP, a Apple Store movimenta mais de US$ 10 bilhões por ano, Spotify e YouTube oferecem versões gratuitas e pagas para disponibilizar seu acervo infinito e é possível até mesmo recorrer a bancos de MP3 para garimpar alguma relíquia a custo zero. A revolução se deu, sobretudo, na massificação de formatos digitais e na disponibilidade de obras disponíveis para download ou via streaming. Entender como chegamos até aqui em tão pouco tempo é ao mesmo tempo assustador e fascinante.
Portal BRASIL CULTURA