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PRESIDENTE DO CPC/RN REUNIU-SE COM AS/OS CANTORES/AS JULIANA GOMES E DIEGO RAMOS - ASSUNTO: GRAVAÇÃO DE UM FUTURO CD!

Eduardo Vasconcelos - centro, entre os/as cantores/as, Juliana Gomes e Diego Ramos Hoje (17) a tarde no alpendre da Casa de Cultura &...

domingo, 31 de março de 2019

Antes do exílio, educador alfabetizou de 300 adultos no interior do Rio Grande do Norte em curso que, ironicamente, foi financiado pelos EUA



Por Marcelle Souza, da Repórter Brasil
Um povoado desconhecido no sertão brasileiro, com alta taxa de pobreza e uma multidão de trabalhadores analfabetos, viveu uma revolução: em apenas 40 horas, um grupo de professores liderados pelo educador Paulo Freire ensinou 300 adultos a ler e a escrever. Mais do que criar novos leitores, a primeira experiência de alfabetização em massa do país, realizada em 1963, em Angicos, no Rio Grande do Norte, gerou novas possibilidades de emprego, deu aos trabalhadores o tão sonhado poder do voto e os ensinou sobre seus direitos – especialmente os trabalhistas.
O resultado deu tão certo que inspirou o Plano Nacional de Alfabetização, que nunca chegou a sair do papel por causa do golpe militar de 1964. Alguns dos principais articuladores da ideia, entre eles o próprio Paulo Freire, terminaram exilados.
Mais de cinco décadas depois, o ódio ao educador voltou à cena e guia a atual política educacional no país. O presidente Jair Bolsonaro afirmou, enquanto candidato, que entraria com um “lança-chamas no MEC para expulsar Paulo Freire lá de dentro”.
O EX-ALUNO PAULO ALVES DE SOUSA DIZ QUE NÃO GUARDOU NADA DA ÉPOCA DO CURSO DE ALFABETIZAÇÃO: “SE A POLÍCIA PEGASSE, A GENTE IA PRESO” (FOTO: CAIO CASTOR/REPÓRTER BRASIL)
Ironicamente, o projeto executado em Angicos foi financiado pela Aliança para o Progresso, do governo dos Estados Unidos, que via na alfabetização dos brasileiros uma das armas na luta contra o avanço do comunismo na América Latina.
Enquanto o método Paulo Freire virou uma bandeira a ser combatida, 13 milhões de jovens e adultos com mais de 15 anos ainda não sabem ler nem escrever, dado que coloca o Brasil entre os dez países com mais analfabetos no mundo, segundo a Unesco (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura).
“O projeto de Angicos custava 36 dólares por aluno e o prazo de aprendizagem era curto. Se até hoje não foi retomado, é por intenção de não gerar condições de aprendizagem para uma parte da população, que termina por não desenvolver o seu potencial”, diz o advogado Marcos Guerra, que foi o coordenador da experiência na cidade. Ele explica que a cidade foi escolhida por ter, na década de 1960, o maior índice de analfabetismo do Rio Grande do Norte.

A palavra é TRABALHO

Para angariar os alunos em Angicos, professores percorreram a cidade anunciando porta-a-porta a nova escola. Como a cidade não tinha escolas suficientes, salas de aulas foram improvisadas em casas de moradores e até na delegacia, onde tinham presos e policiais analfabetos. Na década de 1960, 40% dos brasileiros eram analfabetos e só um terço das crianças frequentavam a escola.
CERCA DE 300 MORADORES DE ANGICOS PARTICIPARAM DO CURSO DE ALFABETIZAÇÃO DE ADULTOS E GANHARAM O DIREITO AO VOTO (FOTO: ARQUIVO)
Considerada subversiva pelos militares, a metodologia consistia, primeiro, em levantar palavras que faziam parte do cotidiano dos alunos. “Por exemplo, ‘tijolo’. A professora perguntava quem sabia fazer tijolo, quanto vendia, quem comprava, de quem era o lucro maior — se do proprietário ou do trabalhador que o fabrica. Chamavam isso de aula de politização”, lembra a ex-aluna Maria Eneide de Araújo Melo, 62, que hoje é professora aposentada.
Naquela época, as condições de trabalho na região eram precárias, havia muita desigualdade social, e a maior discussão se deu quando os professores projetaram para os alunos a palavra ‘trabalho’. A partir desse momento, foram incentivados a ler em sala artigos da CLT (Consolidação das Leis do Trabalho).
“Eles passaram a reivindicar direitos, como repouso semanal remunerado e jornada de trabalho, que era intensiva e ultrapassava as horas estabelecidas pela lei. A carteira assinada os entusiasmava”, conta a juíza aposentada Valquíria Félix da Silva, 78, que foi uma das professoras do curso na cidade.
Depois do curso, uma greve na cidade parou a construção de uma obra. Acredita-se que eles teriam sido inspirados pelo ensino dos direitos trabalhistas em sala de aula, com a metodologia freiriana. “Os trabalhadores disseram ao dono da empresa que sabiam que tinham direitos. Eles pediam carteira assinada, repouso semanal remunerado e férias. E o patrão disse: ‘eu não dou isso não, ninguém dá’”, lembra Guerra.
O EDUCADOR PAULO FREIRE FAZ FORMAÇÃO DE PROFESSORES PARA REPLICAREM SUA METODOLOGIA (FOTO: ARQUIVO)

Novos caminhos

Maria Eneide nem tinha completado os 7 anos necessários para iniciar a alfabetização, quando tratou de convencer a mãe e o pai analfabetos de que precisavam aproveitar a nova escola que chegava na cidade. “Meu pai trabalhava na agricultura, saía de manhã e só voltava à noite. Às vezes, ele estava cansado, pensava em faltar, mas a professora ia lá em casa buscá-lo para a escola”, lembra ela, que acompanhou os pais no curso.
Depois da formatura, o pai deixou o trabalho no campo para ser pedreiro e, por fim, virou comerciante na cidade. A mãe, por sua vez, decidiu realizar o sonho de entrar para a aula de corte e costura, porque agora já sabia anotar as medidas.
FRANCISCA DE BRITO, EX-ALUNA, FREQUENTOU O CURSO DE ALFABETIZAÇÃO MESMO SOB AMEAÇAS DA MÃE (FOTO: CAIO CASTOR/REPÓRTER BRASIL)
Mas a pequena Maria Eneide queria ser professora como “a dona Valquíria”, com quem aprendeu a ler na turma de adultos. “Fui alfabetizada no curso de Paulo Freire. Daí, quando eu entrei para o primeiro ano do fundamental, eu já falava de reforma agrária, das leis da Constituição. As professoras não gostavam, diziam que eu estava mentindo. As pessoas não eram esclarecidas naquela época”, diz ela, que acabou estudando pedagogia e hoje é professora na cidade.

Novos leitores e eleitores

A revolução em Angicos aconteceu também pela realização de um desejo antigo de muita gente: o poder do voto. Naquela época, analfabetos não podiam votar. Antes do curso, havia cerca de 800 eleitores cadastrados na cidade. Depois da formatura, o município ganhou 300 novas inscrições.
“A gente que era pobre não era nem bem visto, ninguém podia nem entrar no meio da sociedade, em festa desse povo, porque era pobre, era da cor morena. Mas daí a professora começou a explicar que a gente ia aprender a ler para conhecer os nossos direitos, e eu tinha vontade de aprender, fazer meu nome que era pra votar. E eu aprendi”, lembra Luzia de Andrade, 88.
A CIDADE DE ANGICOS FOI ESCOLHIDA POR TER, NA DÉCADA DE 1960, O MAIOR ÍNDICE DE ANALFABETISMO DO RIO GRANDE DO NORTE (FOTO: CAIO CASTOR/REPÓRTER BRASIL)
Apesar do entusiasmo de todos, o clima em 1963 já era tenso no país. Logo após o golpe militar, Paulo Freire foi demitido da então Universidade do Recife, permaneceu 70 dias preso e, em seguida, teve que deixar o país, assim como outros educadores do projeto, como Marcos Guerra.
Em Angicos, estabeleceu-se um silêncio que durou quase 30 anos. Estava proibido falar e lembrar das 40 horas que haviam mudado a cidade. “Quando chegou essa notícia de que o homem [Paulo Freire] tinha sido exilado, que tinha sido preso, muita gente, com medo, escondeu caderno, escondeu livro, queimou”, conta Francisca de Brito, 74. “A gente não tem nada guardado dessa época porque se a polícia pegasse, a gente ia preso”, diz Paulo Alves de Sousa, 77, outro ex-aluno.

A massa virou povo

Antes do golpe de 1964, a experiência era tão importante para o país que o último dia de aulas em Angicos contou com a presença do então o presidente João Goulart, do presidente da Sudene (Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste) Celso Furtado e de governadores de estados do Nordeste.
MARCOS GUERRA, COORDENADOR DO CURSO EM ANGICOS, FOI EXILADO APÓS O GOLPE DE 1964 (FOTO: CAIO CASTOR/REPÓRTER BRASIL)
Em meio às autoridades, um aluno pediu a palavra e improvisou um discurso sobre a experiência na cerimônia de formatura. “Em outra hora, nós era massa, hoje já não somos massa, estamos sendo povo”, disse o agricultor Antônio Ferreira.
O presidente João Goulart ainda ficou curioso ao saber que uma criança tinha aprendido a ler com a metodologia voltada para os adultos. Era Maria Eneide, chamada à frente para testar as novas habilidades para o público ilustre.



“Ele disse: ‘lê aqui’. E eu li. Depois me perguntou: ‘você quer ganhar o que?’ E respondi que queria uma bolsa para levar o material para a escola”. Trinta anos depois, em visita a Angicos, Paulo Freire decidiu refazer a pergunta para a ex-aluna: “se o presidente hoje perguntasse o que você queria de presente, o que você diria?”. “Eu queria salário digno a todos os professores”.
Fonte: CARTA CAPITAL

COMEMORAR O GOLPE/DITADURA? TÔ FORA! AS IMAGENS ABAIXO RETRATA A VERDADEIRA HISTÓRIA!




Comemorar o Golpe de 64 é não ter memória e nem tão respeitar as centenas de famílias que até hoje querem descobrir onde estão os restos mortais de seus filhos, que lutaram por um Brasil melhor e muitos destes foram mortos, desapareceram do nada!  Os que ainda estão vivos, muitos destes tem traumas grave!

Defender ou mesmo comemorar o golpe de 64 é ser puramente cruel, deveriam sim, esclarecer de uma vez por toda o desaparecimentos de milhares de pessoas eliminadas por não concordar a realidade cruel daquela época e por isso muitos desapareceram, outros foram assassinados, milhares com traumas e outros graças a Deus ainda vivo para contar os crimes cometidos por um regime autoritário e fascista!

Brasil mostra a tua garra!

O BRASIL É DOS BRASILEIROS! DITADURA NUNCA MAIS!

“Coisa mais linda” é uma série sobre mulheres que se libertam, música e felicidade

Foto: Aline Arruda/Divulgação/Netflix

Ambientada em plena era da Bossa Nova, a série resgata um ambiente onde tudo em volta era moderno, menos o mundo feminino, que continuava a ser aquele trancado pela moral, a casa, o forno e o fogão.

As primeiras imagens da série brasileira “Coisa mais linda”, de Giuliano Cedroni e Heather Roth, em cartaz no Netflix, são deslumbrantes. A trilha sonora, idem. Afinal, trata-se do Rio de Janeiro do final da década de 50, ou seja, o período áureo do surgimento da Bossa Nova. As reconstruções em computação gráfica, misturadas às cenas reais são excelentes.
O roteiro, no entanto, engasga em clichês. Logo no primeiro capítulo, ouvimos explicações didáticas sobre a nova música que surge, uma mistura do jazz com o samba. A um dado momento, um dos personagens fala pro músico protagonista: “vai, toma ai o seu cachorro engarrafado”, repetindo a gasta frase do poetinha Vinícius de Moraes a respeito do uísque.
O que parecia ser, no entanto, mais uma dessas séries baseadas nos desenhos do Zé Carioca, mostrando um Rio de Janeiro idílico, com um baticum meio gringo no samba (sim, há algumas variações da trilha que nos remetem a isso), vai se desdobrando em uma história bem estruturada sobre mulheres.
Sobretudo sobre a árdua libertação das mulheres, em um ambiente onde tudo em volta era moderno, a música, roupas, arquitetura (Brasília estava prestes a ser inaugurada), menos o mundo feminino, que continuava a ser aquele trancado pela moral, a casa, o forno e o fogão.
Foto: Aline Arruda/Netflix
A protagonista principal é Maria Luiza, vivida pela talentosa atriz Maria Casadevall. Ela é paulista e, ao chegar no Rio para encontrar o marido, descobre que ele se mandou com outra e com a grana da família. Após um breve abatimento, ela percebe o Rio à sua volta explodindo em amores, sorrisos e flores. E embarca nele, contra tudo e todos.
Resolve então ficar e realizar um velho e intangível sonho: montar uma casa noturna com música. Exatamente aquela música brasileira que encantou o mundo por todos os anos seguintes: a Bossa Nova.
O universo feminino em todas as suas vozes, crenças e etnias explode na série a partir de Maria Luiza e outras três amigas: Adélia (Pathy Dejesus), negra, empregada doméstica, mãe solteira e favelada; Lígia (Fernanda Vasconcellos), cantora frustrada e oprimida pelo marido agressivo; e Thereza (Mel Lisboa), cunhada de Lígia e uma jornalista completamente independente, bissexual que luta pela presença feminina na revista em que trabalha.
Foto: Aline Arruda/Netflix
Thereza aponta para um outro traço marcante do Rio na época. A importância esmagadora dos colunistas dos jornais e revistas, que funcionavam como uma espécie de oráculo para tudo o que se vivia, lia, ouvia e assistia.
A série se desenrola, em um primeiro momento, com vários pontos de tensão. O espectador quase não relaxa. Ao contrário do ambiente idílico, a música suave e, o que parece ser alegria e encanto espalhado por todos os lados, permanecem os problemas, que explodem de maneira surpreendente quase a todos os momentos.
O resultado deixa o espectador preso, eletrizado. Aos mais novos, a série cumpre bem o papel de mostrar o tanto que a vida não era fácil para as suas mamães e avós, a despeito da classe social a que pertenciam.
Foto: Aline Arruda/Netflix
Em um dos pontos de tensão, no entanto, as personagens de Maria Luiza e Adélia se contrapõe, numa das melhores cenas da primeira temporada. Depois de ouvir os choramingos da amiga branca, Adélia responde que trabalha desde os oito anos e nunca teve escolha.
Ao que tudo indica, em breve teremos a segunda temporada de “Coisa mais linda”, pois o final da primeira teve o grande defeito que toda boa série apresenta. Nos deixar loucos pra saber como continua.
Fonte: REVISTA FÓRUM

Podcast - Líder do Mackenzie: protesto vai se espalhar!

Rarikan e os estudantes do Mackenzie nesta quarta-feira, 27/III: não vamos receber um Presidente que defende a Ditadura! (Reprodução/Facebook)

Líder do Mackenzie: protesto vai se espalhar!

PHA: Eu converso com Rarikan Araújo, diretor do Centro Acadêmico João Mendes Jr., da faculdade de Direito do Mackenzie. Rarikan, como vocês montaram a manifestação ontem, contra o presidente Jair Bolsonaro?
Rarikan: Estava programada uma reunião das entidades do Mackenzie pra construir uma passeata, uma mobilização convocada pela UNE e pela UBES, que era a Jornada de Lutas da Juventude. E aí, no meio desse processo que a gente estava construindo na Universidade, vimos pelo Twitter do Bolsonaro a visita dele no Mackenzie.
A partir disso nós convocamos todos os CAs, todos os coletivos que existem na Universidade, Diretório Central dos Estudantes e organizamos uma plenária dentro do Mackenzie dessas entidades, onde a gente deliberou de, durante todo o dia - como a gente não tinha notícias de qual seria o horário em que ele estaria no Mackenzie -, de organizar uma vigília.
Então, nós convocamos a mobilização nas redes sociais, fizemos um abaixo-assinado que colheu mais de mil assinaturas dos estudantes do Mackenzie, assinado pelos Centros Acadêmicos, pelos coletivos, pelo DCE, e marcamos o ato.
A galera pró-Bolsonaro também marcou seu ato, mas teve pouca aderência dentro da Universidade.
Desde o ano passado, nas eleições, o Mackenzie já teve grandes mobilizações contra o Bolsonaro. Realizamos, inclusive, um ato no ano passado - estudantes do Mackenzie junto com estudantes da USP - em memória dos 50 anos da Batalha da Maria Antônia, contra a volta da ditadura militar... Esse rescaldo da mobilização resultou no nosso ato ontem.
"Ditadura nunca mais": a frase mais vista no protesto desta quarta-feira, 27/III, no Mackenzie (Crédito: Brasil de Fato)
PHA: Quando foi a reunião em que vocês deliberaram fazer o ato especificamente contra o Bolsonaro?
Rarikan: Foi na quarta-feira da semana passada.
PHA: E quando foi que vocês obtiveram o apoio de todos os diretórios da Mackenzie?
Rarikan: Então, na própria reunião, os Centros Acadêmicos já se posicionaram que eram favoráveis à realização do ato. Aí nós construímos uma carta puxada pelo DCE, que é o Diretório Central dos Estudantes, que representa todos os cursos... E com essa carta a gente resolveu construir uma carta de reivindicações e de por que nós éramos contra a visita dele no Mackenzie.
PHA: E por que vocês são contra a visita dele ao Mackenzie?
Rarikan: Porque o Bolsonaro, desde antes de assumir a presidência, enquanto candidato, ele já atacava a educação brasileira. Atacava os centros acadêmicos... A própria política, no ano passado, de defesa do congelamento de investimentos na educação. A proposta da CPI da educação que, na nossa opinião, é uma medida para poder atacar o ProUni, atacar medidas que foram importantes pra nós...
Foram várias. Então, na nossa avaliação, não dava pra gente receber, na nossa universidade, um Presidente da República que defendia a Ditadura Militar, que dizia que os centros acadêmicos são ninhos de ratos e que a universidade não é para todos. O Mackenzie, hoje, ela é uma universidade onde centenas de estudantes são bolsistas - fruto do ProUni e das bolsas filantrópicas que a universidade tem. Então, isso é muito importante para mudar, para essa nova cara que o Mackenzie tem. O Mackenzie era uma das universidades mais...
Estudantes do Mackenzie colocaram o Capitão para correr na quarta-feira, 27/III (Crédito: Brasil de Fato)
PHA: Pois é, isso que eu gostaria, Rarikan... Eu gostaria que você desse uma dimensão de como o Mackenzie deixou de ser uma escola de elite. Por quê? O que aconteceu aí?
Rarikan: O Mackenzie, tradicionalmente, é uma universidade da elite paulistana, da elite brasileira. Fruto dos programas de acesso à universidade, iniciados pelos Governos Lula e Dilma, como o ProUni, o FIES... As próprias bolsas filantrópicas que a universidade disponibiliza... Isso mudou o caráter do Mackenzie.
No Mackenzie, você não via estudantes negros. Hoje, já tem uma série. Não tem muitos, mas já tem uma quantidade,  sim, de estudantes negros na universidade. Não existiam filhos da classe trabalhadora na universidade, que hoje só estão lá graças ao ProUni, graças ao FIES.
PHA: Como é que você entrou para a Faculdade de Direito?
Rarikan: Eu sou prounista.
PHA: Que idade você tem?
Rarikan: Vinte e sete.
PHA: Em que ano você está?
Rarikan: Estou no sexto semestre. Minha mãe é cabeleireira.
PHA: Sua mãe é cabeleireira?
Rarikan: Isso.
Alguns dos cartazes que os estudantes levaram para o protesto de quarta-feira, 27/III (Crédito: Brasil de Fato)
PHA: Você acredita que esse movimento do Mackenzie tem capilaridade? Ou ele é específico do Mackenzie? Outras faculdades e outras universidades vão se envolver em atividades como essa, contra o Bolsonaro?
Rarikan: Eu acho que tem muita capilaridade, porque na verdade, ano passado, nas eleições, as universidades já foram resistência à sua eleição, né... No ano passado, não só o Mackenzie, como centenas de universidades pelo Brasil organizaram mobilizações contra a eleição do Bolsonaro.
Então, na nossa avaliação, inclusive, o que o Mackenzie realizou ontem é algo que inspira também as outras universidades a se mobilizar e se levantar. Nós recebemos mensagens nas redes sociais do Mackenzie e das entidades de diversos estudantes, de várias universidades do Brasil, dizendo: "vocês nos inspiram, se o Bolsonaro vier à nossa universidade nós não vamos deixar ele entrar aqui também!"
Nós também recebemos muitas ameaças de apoiadores do Bolsonaro, ameaçando o DCE, ameaçando os CAs, ameaçando os alunos. Mas isso não nos intimida, porque o que nós fizemos ontem, na nossa avaliação, entra para a história: não deixar o Bolsonaro visitar nossa universidade.
PHA: Você teria condições de dar uma ideia, um percentual, de alunos do Mackenzie que sejam prounistas?
Rarikan: Não, eu não sei. Mas, se não me engano, é um a cada dez. É a proporção do MEC.
PHA: Você é ligado à UJS, que, por sua vez, é ligada ao PCdoB. Havia outros estudantes ligados e filiados a outros partidos na manifestação de ontem?
Rarikan: Sim. A grande maioria era de estudantes independentes. Eu faço parte da diretoria do CA, mas grande parte dos estudantes eram independentes, se mobilizam dentro da universidade. Mas tinham estudantes do PT, tinham estudantes, inclusive, do PSDB que estavam participando do ato, ontem.
PHA: Do PSDB?
Rarikan: Do PSDB aqui de São Paulo! Estavam participando do ato ontem. A galera do PSOL, tinha uma galera do PCB... Então, tinha tudo. Era bem plural. Para você ter ideia, até o próprio PSDB do Mackenzie estava participando do ato, ontem, contra a visita do Bolsonaro.
Cartazes em Inglês também apareceram no ato desta quarta-feira, 27/III: "Enough of toxic government" ("Chega de Governo tóxico", em tradução livre - Crédito: Brasil de Fato)
PHA: Como é que os bolsonários não conseguiram impedir vocês de fazer isso?
Rarikan: Na verdade, desde o ano passado, eles já não conseguem se mobilizar muito dentro da universidade. Eles tentaram, nas eleições, fazer mobilizações a favor do Bolsonaro lá dentro, mas não conseguiram.
Existe hoje um clima na universidade anti-Bolsonaro muito grande. No que a galera que apoia o Bolsonaro acaba sendo intimidada, acaba não conseguindo se manifestar. Ontem, por exemplo, tentaram criar um ato na porta do Mackenzie, convocado por estudantes do Mackenzie, a favor do Bolsonaro. Mas não tinham nem dez estudantes do Mackenzie lá. Tinham várias pessoas de idade, que não são estudantes, que não têm nada a ver com o Mackenzie, que foram pra lá. Agora, estudantes de verdade não tinham nem dez que foram lá pra porta defender o Bolsonaro.
PHA: Eu estou ouvindo um barulho aí ao fundo, de uma manifestação. O que que está acontecendo?
Rarikan: Hoje está acontecendo uma marcha, convocada pela UNE e pela UBES, pelas entidades daqui do estado de São Paulo, UMES e UEE, em defesa da Democracia nas escolas, pela paz e contra lei da mordaça.
PHA: Onde vocês estão?
Rarikan: Estamos descendo a Augusta, agora!
Fonte: conversaafiada.com.br

UFSCar reage a Bolsonaro com celebração à democracia




Atividades lembram dos mortos pela ditadura, incluindo o são-carlense Lauriberto José Reyes

A Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), por meio de coletivos e entidades lideradas pelo Arquivo Ana Lagôa – repórter da área militar no período da ditadura brasileira – preparou uma série de atividades para esta segunda-feira (01/04). “A ideia ocorreu depois de o presidente da república sugerir que se comemorasse o golpe de 1964”, explica a doutoranda em Ciências Política, Flávia Sanches de Carvalho, uma das organizadoras.
Diversas organizações e coletivos se organizaram em resposta ao presidente da República, Jair Bolsonaro, que determinou “comemorações devidas” os 55 anos do golpe militar. “O presidente não considera o 31 de março de 1964 golpe militar”, disse na segunda-feira (25), o porta-voz da presidência, general Otávio Rego Barros. A Justiça Federal de Brasília proibiu as comemorações na sexta (29), o governo recorreu e uma desembargadora cassou a proibição neste sábado (30). Bolsonaro já havia recuado ao dizer que a intenção era apenas “rememorar” a data nos quartéis.
Para Flávia Sanches, os organizadores do evento se recusam a comemorar o golpe de 1964 e a ditadura militar. “Comemorar nunca, esquecer jamais”, frisa. Em São Carlos, a programação começa às 12h com panfletagem, exibição de filmes, exposição de fotos, debates, rodas de conversa e a distribuição de cartazes que relembram a história de 12 mortos pela ditadura militar. As atividades se concentram nas dependências do Centro de Ciências Humanas (CECH), Área Sul.
Entre os casos relembrados, está o do são-carlense Lauriberto José Reyes, morto em 1972 pela ditadura aos 26 anos.  Militante político, Lauri, como era conhecido, ajudou a organizar o 30º Congresso da UNE na cidade de Ibiúna, onde foi preso, juntamente com outras lideranças estudantis.  Antes de ingressar na USP e se mudar para São Paulo, Lauri estudou na Escola Estadual Dr. Álvaro Guião e no Colégio Diocesano La Salle. Uma praça no Santa Marta e um Centro da Juventude no Cidade Aracy prestam homenagem a Lauriberto José Reyes.(http://bit.ly/2UhQ9tH). 
“A lembrança que tenho dele é de afeto, ele era tão doce, carinhoso, estava sempre nas festas de família, era poeta, compositor, tocava violão. Eu tinha admiração pela militância dele”, lembra Cláudia Reyes, prima de Lauri e professora de Teorias e Práticas Pedagógicas da UFSCar.
Já a professora de Letras da UFSCar, Flávia Bezerra de Menezes Hirata Vale, enfatiza a importância do evento para preservar a memória. “Quando meu tio foi morto eu nem tinha nascido, mas as marcas da sua morte se mantêm indeléveis na minha vida”, observa. Ela é sobrinha de Luiz Hirata, estudante de Agronomia da USP e metalúrgico, morto pela ditadura aos 27 anos, conforme revelou a Comissão Nacional da Verdade (http://bit.ly/2CNjXUS).
História – Na madrugada de 31 de março de 1964 teve início o período mais sangrento da história brasileira. De acordo com a Comissão Nacional da Verdade, foram mortos, ou estão desaparecidos, 8.434 pessoas, das quais 8 mil são indígenas. Estima-se que entre 30 e 50 mil pessoas foram barbaramente torturadas. Os 21 anos de ditadura militar (1964-1985) também foram marcados por suspensão de direitos, partidos políticos, sindicatos e censuras.
Programação
12h – Panfletagem e intervenção visual no Restaurante Universitário
14h – Abertura da exposição “Golpe e Ditadura: nada a comemorar”, na UEIM (Unidade Especial de Informação e Memória – Prédio do CECH, Área Sul).
15h – Vídeo-debate sobre Lauriberto José Reyes, no auditório da UEIM/CECH.
17h – Roda de conversa “Militância, luta e movimento estudantil na ditadura militar”, no auditório da UEIM/CECH
18h – Reexistir na Pracinha: uma conversa sobre o romance “Noite dentro da noite”, de Joca Reiners Terron. Pracinha do Departamento de Letras, Área Sul
19h – Roda de conversa: “Luta pela democracia na ditadura militar e a importância do Estado democrático de direito pleno”, no Palquinho.
20h – Ato-brinde simbólico “Pela democracia, ditadura nunca mais!”, no Palquinho.

Fonte REVISTA FÓRUM

Atos contra a celebração do golpe de 1964 acontecem em diversas cidades. Confira

Foto: Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil

Em resposta as declarações do atual presidente, movimentos populares convocam todos para ir às ruas neste domingo (31), em ato contra a celebração do golpe de 1964.

Em resposta à determinação do presidente Jair Bolsonaro (PSL-RJ) de que fossem feitas as “devidas” comemorações do golpe militar de 1964, movimentos populares convocam todos para ir às ruas neste domingo (31), em ato contra a celebração do golpe e a sua consequente ditadura militar.
Veja abaixo o calendário dos atos em vários pontos do país.
O presidente eleito, Jair Bolsonaro (PSL), determinou na última segunda-feira (25), que o Ministério da Defesa deve fazer as comemorações ‘devidas’ do golpe militar de 1964, que no próximo dia 31 de março completa 55 anos.  Bolsonaro, que já havia declarado que a ditadura militar “matou pouco”, fez elogios aos ditadores latino-americanos, como o chileno Augusto Pinocht e o paraguaio Alfredo Strossner.
As comemorações do golpe – que integrantes das Forças Armadas insistem em chamar de revolução – haviam sido suspensas pelos militares brasileiros a pedido da então presidente Dilma Rousseff (PT), presa e torturada pelo regime autoritário que perseguiu e até matou opositores, e perdurou até 1985.
Confira: 
São Paulo: I Caminhada do Silêncio, 16h – Parque Ibirapuera
Brasília: Ato contra a celebração do golpe de 64, 9h – Eixão 108 Norte
Belo Horizonte: Ato contra o Golpe de 64 , 10h na Praça da Liberdade
Balneário Camboriú: Manifestação de Repúdio ao Golpe Militar de 64 , 16h –  Praça Almirante Tamandaré
Curitiba:Ato contra a celebração do golpe de 64, 14h – Praça 19 de Dezembro,
Maringá: Ato contra a celebração do golpe de 64 , 15h – Praça Deputado Renato Celidonio, 14h – Monumento Tortura Nunca Mais,
Recife: Ato contra a celebração do golpe de 64, 14h – Monumento Tortura Nunca Mais
Salvador: Ato contra a celebração do golpe de 64, 9h – Dique do Tororó , 9h – Dique do Tororó.
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Fonte: REVISTA FÓRUM

55 anos do Golpe: dois filmes para entender o legado de Jango - Hoje NÃO TEMOS NADA PARA COMEMORAR E SIM, SAUDADES DAQUELES QUE DERAM A VIDA PELA LIBERDADE DE EXPRESSÃO E POR UM BRASIL MELHOR!" - EDUARDO VASCONCELOS, Radialista e Ativista


Jango conta a trajetória política de João Belchior Marques Goulart, o 24° presidente brasileiro, deposto pelo golpe militar em 1º de abril de 1964. O documentário captura a efervescência da política brasileira durante a década de 1960 e narra os detalhes do golpe.
Produzido em 1984, último ano da ditadura militar, o documentário não conta com diversos fatos que foram descobertos desde então, sobretudo os que envolvem a misteriosa morte do ex-presidente. Gaúcho de São Borja (RS), nascido em 1º de março de 1919, filho de um estancieiro e coronel da Guarda Nacional e de uma dona-de-casa, Jango, como era conhecido, ingressou na carreira política em 1945, por influência de um ilustre amigo da família: Getúlio Vargas.
Dali para que ele se tornasse ministro do Trabalho foram oito anos. De orientação progressista, o nome de Goulart no Ministério ajudava Vargas a lidar com os trabalhadores que, desde a posse de Getúlio Vargas, em 1950, manifestavam-se contra o alto custo de vida.
Como ministro, Jango tomaria uma medida radical que custaria seu cargo: em janeiro de 1954 enfrentou a pressão dos trabalhadores por um reajuste salarial de 100%, e também a rejeição dos empresários. Como o desfecho foram os 100% pleiteados pela classe trabalhadora, Jango sofreu uma forte pressão dos empresários e da imprensa, o que o levou a renunciar ao cargo.
Em 1955 Goulart foi eleito vice-presidente do Brasil, na chapa PTB/PSD, tendo obtido mais votos que o presidente eleito, Juscelino Kubitschek (naquela época, as votações para presidente e vice eram separadas). Na eleição de 1960 ele foi novamente eleito vice-presidente, concorrendo pela chapa que fazia oposição ao eleito, Jânio Quadros.
Só que o Brasil não esperava que o excêntrico Jânio Quadros, pouco tempo depois de assumir a Presidência, renunciasse ao cargo, em agosto de 1961, o que abriu uma das maiores crises políticas de nossa história quando os ministros militares, contrariando a Constituição, vetaram a posse de Jango na Presidência. Diziam que ele encarnava a ameaça comunista.
Começou então, liderada por Leonel Brizola, então governador do Rio Grande do Sul, a Campanha da Legalidade. Brizola, que mobilizou uma cadeia de mais de cem emissoras de rádio para conclamar o povo a sair às ruas em defesa daquilo que estava previsto na Constituição: a posse de Jango.
A crise foi contornada pela adoção do parlamentarismo, com parte do poder presidencial deslocada para um primeiro-ministro. Desta forma Jango assumiu a Presidência em 8 de setembro de 1961, sendo Tancredo Neves seu primeiro-ministro.
Desde o início Jango teve uma atuação peculiar. Sua inclinação progressista acirrava a efervescência política e cultural vivida no Brasil nos primeiros anos da década de 1960.
No famoso Comício da Central do Brasil, no dia 13 de março de 1964, realizado em frente ao Edifício Central do Brasil, no Rio de Janeiro, cerca de 150 mil pessoas ouviram o presidente anunciar uma série de medidas, que instituiriam as reformas de base.
Mas, se por um lado os movimentos sociais e os partidos de esquerda se fortaleciam, por outro, a direita se organizava. E a ultraconservadora Marcha da Família com Deus pela Liberdade tomou as ruas, em 19 de março, manifestando-se contra o governo de Jango. Naqueles dias ocorreu também a revolta dos marinheiros e fuzileiros navais no Rio (28 de março de 1964). Incentivados pelo filme soviético O Encouraçado Potemkin, de Serguei Eisenstein (1925), aqueles trabalhadores lutaram contra os baixos salários e as más condições de trabalho, transformando tais reivindicações trabalhistas em um autêntico ato político.
A assembleia foi chefiada por José Anselmo dos Santos, mais conhecido como Cabo Anselmo, que era (descobriu-se depois) um agente policial infiltrado no movimento social. O fato de Goulart ter se recusado a punir os insubmissos, provocou a indignação dos oficiais da Marinha.
Em 30 de março, em discurso na festa promovida pela Associação dos Sargentos e Suboficiais da Polícia Militar, no Automóvel Clube do Brasil, Jango denunciou a existência de uma forte campanha contra seu governo.
Isto era um fato concreto. Na madrugada do dia seguinte, o general Olímpio Mourão Filho iniciou a movimentação de tropas de Juiz de Fora (Minas Gerais) em direção ao Rio de Janeiro. Foi o início do golpe que derrubou o governo de João Goulart. Leonel Brizola ainda sugeriu que Jango resistisse, mas ele não acatou, para evitar “derramamento de sangue” (uma guerra civil).
João Goulart teve seus direitos políticos cassados após a publicação do Ato Institucional Nº Um (AI-1). Exilado no Uruguai e, mais tarde, na Argentina, onde faleceu em 1976, Jango só voltou para o Brasil em seu funeral. Aclamado pelo povo, seu caixão foi carregado por milhares de pessoas já cansadas do regime repressivo submisso ao FMI dos ditadores.
O filme Jango relata, através de depoimentos e de documentos históricos, como vídeos, áudios e fotos, as atrocidades cometidas pela ditadura até o ano de 1976. Com as informações que poderiam ser obtidas naquela época, o filme é um primoroso e melancólico documento sobre a história do Brasil. Mas o tempo nos mostrou que a ditadura militar, além de anos de chumbo, representou anos de segredos de Estado. E ainda há muito a ser revelado sobre esta história.
II
DOSSIÊ JANGO

Debates e dúvidas sobre a História do Brasil
Dossiê Jango levanta as polêmicas envolvendo a morte do ex-presidente João Goulart e questiona a postura dos governos brasileiros – de 1985 a 2013 –, que não se preocuparam em reaver esta história e honrar o presidente morto ainda no exílio (impedido de voltar ao Brasil).
O filme passa rapidamente pela trajetória política do ex-presidente, mas não se debruça sobre ela como fez Jango, de Silvio Tendler. O foco de Dossiê Jango é o obscurantismo que cerca a morte de João Goulart, em 1976, na Argentina.
A sequência de mortes e perseguições políticas no Brasil, Argentina, Chile, Bolívia, Paraguai e Uruguai, no contexto da chamada Operação Condor, instituída pelas ditaduras do chamado Cone Sul (Argentina, Brasil, Chile e Uruguai), com apoio do governo dos Estados Unidos da América, confere a perspectiva internacional da história.
Nesta linha, o roteiro vai além do senso comum em termos de ditadura militar. Logo no início, a frase provocadora intriga o espectador: “Tudo que pensamos ser verdade um dia muda”. Ele mostra com argumentos lógicos e documentados a articulação entre as ditaduras latino-americanas, fortemente apoiadas e patrocinadas pelo governo estadunidense – que, no contexto da Guerra Fria, visava cooptar territórios políticos, mantendo-os nos arreios de sua ideologia capitalista.
Gravações em áudio do embaixador Lincoln Gordon e do ex-presidente americano John Kennedy, exibidas no filme, comprovam a preocupação dos Estados Unidos com o momento político do País. Em outra passagem, o também ex-presidente Lyndon Johnson revela que seria possível agir no Brasil para instituir a ditadura e assegurar o afastamento de Jango.
Mas o mais interessante é que Dossiê Jango defende que esta não é uma situação que ficou no passado, superada pelo fim da ordem mundial bipolar e pela redemocratização brasileira. Com a afirmação “àqueles que pensam que derrotaram Jango, nós estamos debatendo Jango até hoje”, João Vicente Goulart, o filho do ex-presidente, ilustra como esta é uma ferida aberta na nossa história.
Jango era temido pela elite e pelo regime militar devido às suas ideias progressistas e, sobretudo, à sua grande aceitação popular. Por isto, sua trajetória na política sempre foi marcada por boicotes e tentativas de golpes. Mas, mesmo morto, Jango incomodava. E, pelo visto, ainda incomoda.
Neste momento em que o governo brasileiro demonstrava uma disposição em “acertar contas com o passado” por meio da criação da Comissão Nacional da Verdade, o filme Dossiê Jango surge como um rico instrumento de debate. Um instrumento que, mais do que esclarecer questões, suscita dúvidas pertinentes e profundas sobre a história do Brasil.