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quarta-feira, 5 de setembro de 2018

Com a PEC 241, incêndio do Museu Nacional foi tragédia anunciada

O incêndio do Museu Nacional é uma tragédia cultural, de enormes proporções, para o Brasil e para a humanidade. Comparável ao incêndio da Biblioteca de Alexandria, à destruição da cidade de Pompéia, à explosão dos Budas de Mianmar pelos Talibãs no Afeganistão.
Por Jandira Feghali e Alexandre Santini*
Tania Rego / Agência Brasil “O Brasil, como uma fênix, precisará renascer das cinzas” “O Brasil, como uma fênix, precisará renascer das cinzas”
Mais que um Museu, é parte da história brasileira, do império à república, que se esvai ardendo em chamas. Além da história do Brasil, foram destruídos patrimônios que remontam à história do mundo, antes mesmo da própria existência do ser humano. A coleção de paleontologia, com os Dinossauros que permearam a imaginação de gerações de crianças. As múmias egípcias, o acervo de arte africana doado pelo Rei do Daomé, todo o acervo de arte indígena, o fóssil de Luzia, nossa ancestral de 12 mil anos, são apenas alguns exemplos desta perda irreparável, desta ferida profunda que se abre em nossa história e em nossa memória com este trágico acontecimento de proporções irreparáveis.
Devemos lembrar que no Museu Nacional funcionava parte importante do trabalho de ensino e pesquisa da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Ali até ontem eram formados e trabalhavam antropólogos, museólogos, restauradores, arquivistas, pesquisadores. Não é só o passado, portanto, que se perde. O futuro também fica seriamente comprometido, em um momento que o país atravessa uma profunda crise, com o sucateamento do Estado, e dos serviços públicos essenciais. Não há como não associar esta tragédia ao golpe em curso contra o povo brasileiro. Trata-se de um incêndio criminoso, e como tal cabe apurar responsabilidades, apontando seus mandantes, co-autores e cúmplices.
Em todo o mundo, instituições como o Museu Nacional não só são sustentáveis, como também lucrativos. O Museu de História Natural de Nova York, os Museus do Ouro da Colômbia e do Peru, o Louvre, o Hermitage, o complexo museológico do Vaticano, são parte do “soft power” e das estratégias de desenvolvimento de seus países, fomentam a economia, o turismo, formam profissionais, empregam mão de obra especializada, geram trabalho e renda, são parte do orgulho nacional. É vergonhoso constatar que, até abril deste ano, um Museu dessa importância tenha recebido irrisórios 54 mil reais para o desenvolvimento de suas atividades, e que seus funcionários tinham que fazer vaquinha para comprar café e produtos de limpeza.
Assistimos, estarrecidos, à entrevista do Ministro da Cultura do governo golpista de Michel Temer, que ao vivo em rede nacional, diante da imagem do museu em chamas, tentou politizar a tragédia, e ainda se eximir de responsabilidade, declarando que o Museu Nacional era gerido pela UFRJ, e não pelo MinC. Ora, a quem cabe a gestão da política nacional de patrimônio artístico e histórico do Brasil, se não ao Ministério da Cultura?
Sabemos que o problema da falta de investimentos em nossa cultura e patrimônio não é de hoje. Há tempos temos chamado atenção para a necessidade de colocar as políticas culturais na centralidade de um projeto de desenvolvimento para o país. Mas é necessário reconhecer que, no governo Lula, junto a toda uma nova concepção de política cultural construída a partir da gestão de Gilberto Gil, a política de patrimônio museal ganhou novo impulso com a criação do Instituto Brasileiro de Museus (IBRAM), da Política Nacional de Museus, do Estatuto dos Museus e de 14 novos cursos de Museologia nas universidades públicas.
Trata-se de tragédia anunciada, em um governo que aprova a PEC do teto de gastos, que cortou mais de 60% do orçamento de manutenção nas universidades públicas, que eliminou qualquer investimento em educação, ciência e cultura. O Museu Nacional em chamas é o símbolo da dilapidação do país, de seu patrimônio, memória, e inteligência. Não é fato isolado. A destruição do Museu Nacional é expressão de um projeto orientado para a destruição do Brasil, que se reflete na precarização dos serviços públicos, da explosão do desemprego e da fome, da volta de doenças já erradicadas, da explosão do desemprego e da violência. As chamas são uma trágica evocação das consequências sombrias do golpe para o futuro do Brasil.
O cenário da manhã desta segunda-feira de cinzas, em frente ao Museu Nacional, era a visão de um velório. O choro, a tristeza e a revolta dos servidores públicos, estudantes, técnico-administrativos, funcionários terceirizados da segurança e da limpeza, pessoas que dedicaram anos de sua vida àquele lugar. O Museu Nacional é aquele que boa parte toda a população fluminense visitou em sua infância, ou levou seus filhos para visitar, pela facilidade do acesso, pela localização privilegiada em um dos nossos maiores e melhores parques públicos, pela proximidade com o Jardim Zoológico. Aos trabalhadores e trabalhadoras do Museu Nacional e da UFRJ, todo o nosso apoio e solidariedade.
O Brasil, como uma fênix, precisará renascer das cinzas. Essa é a batalha diária que precisaremos enfrentar, a partir de agora, todas as horas do dia, para interromper a destruição de nosso país. O Brasil, que na última década se afirmava como uma esperança para o mundo, hoje emite sinais diários de degradação política e institucional. “Nem os mortos estarão em segurança se o inimigo vencer” dizia o filósofo alemão Walter Benjamin, em seu célebre ensaio “Sobre o conceito de história”. O Museu Nacional em chamas é o alerta máximo de que é preciso salvar o Brasil, devolvendo ao povo nosso passado e nosso futuro, hoje sequestrados por um consórcio de oportunistas, bandoleiros e saqueadores do patrimônio público.
*Jandira Feghali é deputada federal pelo PCdoB-RJ e Alexandre Santini é diretor do Teatro Popular de Niterói Oscar Niemeyer

O Brasil queimou – e não tinha água para apagar o fogo

O Brasil queimou – e não tinha água para apagar o fogo
Eu vim ao Rio para um evento no Museu do Amanhã.
Então descobri que não tinha mais passado.
Diante de mim, o Museu Nacional do Rio queimava.
Por Eliane Brum*
Francisco Proner O incêndio destruiu todo o acervo do Museu Nacional, mais antiga casa de pesquisa do Brasil  O incêndio destruiu todo o acervo do Museu Nacional, mais antiga casa de pesquisa do Brasil
O crânio de Luzia, a “primeira brasileira”, entre 12.500 e 13 mil anos, queimava. Uma das mais completas coleções de pterossauros do mundo queimava. Objetos que sobreviveram à destruição de Pompeia queimavam. A múmia do antigo Egito queimava. Milhares de artefatos dos povos indígenas do Brasil queimavam.
Vinte milhões de memória de alguma coisa tentando ser um país queimavam.
O Brasil perdeu a possibilidade da metáfora. Isso já sabíamos. O excesso de realidade nos joga no não tempo. No sem tempo. No fora do tempo.
O Museu Nacional em chamas. Um bombeiro esguichando água com uma mangueira um pouco maior do que a que eu tenho na minha casa. O Museu Nacional queimando. Sem água em parte dos hidrantes, depois de quatro horas de incêndio ainda chegavam caminhões-pipa com água potável. O Museu Nacional queimando. Uma equipe tentava tirar água do lago da Quinta da Boa Vista. O Museu Nacional queimando. A PM impedia as pessoas de avançar para tentar salvar alguma coisa. O Museu Nacional queimando. Outras pessoas tentavam furtar o celular e a carteira de quem tentava entrar para ajudar ou só estava imóvel diante dos portões tentando compreender como viver sem metáforas.
Brasil, é você. Não posso ser aquele que não é.
O Museu Nacional queimando.
O que há mais para dizer agora que as palavras já não dizem e a realidade se colocou além da interpretação?
Diante do Museu Nacional em chamas, de costas para o palácio, de frente para onde deveria estar o povo, Dom Pedro II em estátua. Sua família tinha tentado inventar um país e o fundaram sobre corpos humanos. Seu avô, Dom João VI, criou aquele museu no Palácio de São Cristóvão. Dom Pedro II está no centro, circunspecto, um homem feito de pedra, um imperador. Diante da parte esquerda do museu, indígenas de diferentes etnias observam as chamas como se mais uma vez fossem eles que estivessem queimando. Estão. É o maior acervo de línguas indígenas da América Latina, diz Urutau Guajajara. É a nossa memória que estão apagando. É o golpe, é o golpe. Poderiam ter salvo, e não salvaram, ele grita.
Nunca salvaram. Há 500 anos não salvam.
As costas de Pedro ferviam.
Quando soube que o museu queimava, eu dividi um táxi com um jornalista britânico e uma atriz brasileira com uma câmera na mão. “Não é só como se o British Museum estivesse queimando, é como se junto com ele estivesse também o Palácio de Buckingham”, disse Jonathan Watts. “Não há mais possibilidade de fazer documentário”, afirmou Gabriela Carneiro da Cunha. “A realidade é Science Fiction.”
Eu, que vivo com as palavras e das palavras, não consigo dizer. Sem passado, indo para o Museu do Amanhã, sou convertida em muda. Esvazio de memória como o Museu Nacional. Chamas dentro de todo ele, uma casca do lado de fora. Sou também eu. Uma casca que anda por um país sem país. Eu, sem Luzia, uma não mulher em lugar nenhum.
A frase ecoa em mim. E ecoa. Fere minhas paredes em carne viva.
“O Brasil é um construtor de ruínas. O Brasil constrói ruínas em dimensões continentais.”
A frase reverbera nos corredores vazios do meu corpo. Se a primeira brasileira incendiou-se, que brasileira posso ser eu?
O que poderia expressar melhor este momento? A história do Brasil queima. A matriz europeia que inventou um palácio e fez dele um museu. Os indígenas que choram do lado de fora porque suas línguas se incineram lá dentro. E eu preciso alcançar o Museu do Amanhã. Mas o Brasil já não é o país do futuro. O Brasil perdeu a possibilidade de imaginar um futuro. O Brasil está em chamas.
O Museu Nacional sem recursos do Governo federal. Os funcionários do Museu Nacional fazendo vaquinha na Internet para reabrir a sala principal. O Museu Nacional morrendo de abandono. O Museu Nacional sem manutenção. O Rio de Janeiro. Flagelado e roubado e arrancado Rio de Janeiro. Entre todos os Brasis, tinha que ser o Rio.
Ouço então um chefe de bombeiros dar uma coletiva diante do Museu Nacional, as labaredas lambem o cenário atrás dele. O bombeiro explica para as câmeras de TV que não tinha água, ele conta dos caminhões-pipa. E ele declara: “Está tudo sob controle”.
Eu quero gargalhar, me botar louca, queimar junto, ser aquela que ensandece para poder gritar para sempre a única frase lúcida que agora conheço: “O Museu Nacional está queimando! O Museu Nacional está queimando!”.
O Brasil está queimando.
E o meteorito estava dentro do museu.
*Eliane Brum é escritora, repórter e documentarista. Autora dos livros de não ficção Coluna Prestes – o Avesso da Lenda, A Vida Que Ninguém vê, O Olho da Rua, A Menina Quebrada, Meus Desacontecimentos, e do romance Uma Duas.
Fonte: BRASIL CULTURA