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sexta-feira, 1 de setembro de 2017

UNEGRO RUMO AOS 30 ANOS DE LUTA PELA POPULAÇÃO NEGRA


Movimento de lutas e conquistas
Entretanto, ao contrário dos países que adotaram sistemas explícitos de segregação racial, como a África do Sul na época do apartheid e algumas regiões dos Estados Unidos; o Brasil, por uma série de motivos históricos e sociais, tem um racismo camuflado, subterrâneo e dissimulado, além de, em geral, ser negado pela maior parte da sua população. O racismo age como um agente invisível que vai determinando futuros de jovens, perspectivas de ascensão social para trabalhadores, longevidade para adultos e graus de dificuldade para projetos pessoais. De acordo com origens étnicas, pessoas têm chances diferentes e graus de dificuldades distintos nas construções de suas vidas. Por esta razão, a estratificação social do país interage diretamente com a questão étnica. 

'As trajetórias dos movimentos sociais negros brasileiros têm sido marcadas por um processo histórico de resistências e de lutas em defesa do direito à diferença étnica e, ainda, pela implementação de políticas públicas voltadas à garantia dos princípios da reparação, do reconhecimento e da valorização do população negra brasileira". 


O debate da necessidade de pensar a luta de classe e a luta anti-racismo influenciou a formação do pensamento das lideranças negras brasileiras na pensar de uma entidade ainda na década de 1970, que na resistência e na luta vem contribuindo para desconstruir os mitos fundantes do racismo: mito da inferioridade, do embranquecimento e da discriminação racial sentida pelos negr@s das décadas de 1970 e 1980, ao colocarem em suas agendas as denúncias de racismo institucional, de racismo à moda brasileira e da farsa da democracia racial, demarcaram um campo de força política imprescindível na conquista por direitos civis, políticos e materiais. Apesar do período de repressão militar, principalmente contra os comunistas "principalmente os negr@s" surgiu em todo pais contra o Racismo – uma reação à ideologia dos militares que apregoavam e sustentavam a existência da democracia racial no Brasil...Recuperando a nossa noção histórica de que o racismo foi construído historicamente no Brasil pela forma predatória que as classes dominantes acumularam suas riquezas e construíram o sistema capitalista, percebemos que a população excluída socialmente da sociedade brasileira é originária do contingente de negros que, no processo de abolição gradual e controlada da escravidão no século XIX, passou da condição de escravo para cidadão marginalizado. Toda esta população, independente da tonalidade da cor da pele, é vítima direta ou indiretamente do racismo.

A identidade da elite...

. Na verdade, esta identidade que a elite constituiu continha, na sua essência, um certo grau de frustração com o fato de estarem em um país formado majoritariamente por pessoas não brancas. Por isto, em quase toda a curta história do capitalismo brasileiro, as classes dominantes brasileiras funcionaram como gerenciadoras de negócios lucrativos para a burguesia transnacional, não se importando de ocupar, neste projeto de desenvolvimento associado, um lugar não hegemônico.Mas deixemos de lado a identidade da elite. E a identidade da população excluída, originária dos escravos libertos em 1888? Primeiramente,
a identidade desta população foi construída pelo seu opressor: era um grupo diferenciado pela classe dominante por ser negro, bárbaro, não civilizado, não cristão. Diante disto, a estratégia de luta pela emancipação deste segmento pode variar desde uma construção de identidade dentro dos referenciais oferecidos pelas classes dominantes, ou seja, dentro dos marcos de um grupo diferenciado, ou então a partir de um pressuposto novo, de reconstrução da sua identidade enquanto classe explorada e com perspectiva de superar a condição de explorado, o que significa atuar como um grupo específico. Não consideramos estas duas perspectivas estratégicas como estanques, mas dialeticamente como processos de construção de uma identidade. É evidente que, historicamente, percebemos que o movimento negro transita entre uma e outra posição, porém o que nos interessa aqui é apontar perspectivas de superação do racismo.

 União de Negros Pela Igualdade - "entidade politica racial".

Este corte político é importante para definirmos os parceiros estratégicos na luta contra o racismo brasileiro: os movimentos sociais de um modo geral, que representem o conjunto de proletários que sejam direta ou indiretamente vitimados pelo projeto neoliberal. Para tal, entendemos que é necessário a construção de formações simbólicas que retomem os ideais de espaço público, universalidade de direitos, respeito às diferenças, igualdade social hoje relativizados com o predomínio da ideologia da sociedade de consumo.

O DNA da UNEGRO.

O projeto Negro Cidadão, de luta se desenvolveu o caldeirão onde foi fundado a UNEGROparticipou ativamente de várias ações do Movimento Negro Brasileiro e do Movimento Popular, "desde sua fundação, em julho de 1988", na cidade de Salvador / Ba, em pleno processo de redemocratização do país, depois de três longos anos de intensos debates e tem por objetivo precípuo o combate ao racismo e toda forma de discriminação e opressão social e sua luta esta marcada pela defesa da vida, cidadania e igualdade de oportunidades para a maioria da população brasileira. sua intensa participação e formulação de propostas que contribuiu para que hoje surgia uma nova perspectiva na condução da luta antirracista no Brasil. Sob influência do professor Clóvis Moura, respeitado e pioneiro pesquisador do tema, a entidade rompeu com o entendimento predominante de que racismo era um fenômeno isolado de separação de entre negros e brancos sejam assumidos como algo importante a serem superados pelo Estado Brasileiro.Ao contestar a visão reducionista do movimento negro – e também da esquerda -, a Unegro propôs entrelaçar às questões de raça uma concepção de classe. Formou, assim, a base que conduziria a atuação da entidade dali pra frente – depois, foi incluída também a questão de gênero. O momento da criação foi propício, dadas as condições favoráveis do novo cenário político, marcado pelo fim da ditadura militar 

(1964-1985) e pelo início do processo de redemocratização do país. Ainda assim, a criação da Unegro não se deu sem resistências.O primeiro desafio da entidade foi interno. O rompimento com a lógica proposta pelo movimento negro da Bahia, até então muito caracterizado pelas atividades culturais, com a atuação dos blocos afros de carnaval, não foi de todo pacífico. A Unegro defendia um enfrentamento mais ‘rebelde’ do racismo. “O negro não quer só tocar tambor”era uma das frases apresentadas pela nova corrente. Em relação à esquerda, a entidade contrariou o entendimento de que era preciso esperar as transformações sociais acontecerem para se conquistar a igualdade racial. Propunha uma luta concomitante.

“A Unegro levou para setores vastos a importância de lutar contra o racismo hoje e não esperar as transformações da sociedade. Antes, achava-se que o racismo era uma questão a ser resolvida com a questão de classe. Existiu uma certa discriminação, mas, à medida que a Unegro começou a desenvolver suas lutas e estar ao lado das entidades do movimento, foi conseguindo espaço. Mas foi um processo longo”, contou Antônio Carmo, fundador e 1º Coordenador geral da entidade.

O segundo desafio foi externo e estava relacionado à disseminação, naquele período de abertura política, da ideia de que havia uma democracia racial no Brasil. A defesa da Unegro é de que o racismo era muito mais profundo do que se supunha e que estava enraizado na sociedade brasileira. Mirou-se na acadêmica, antro de brancos, para deixar um recado: o negro não quer mais ser apenas o objeto de estudo; o negro quer produzir estudo. Nivaldino Félix, também um dos fundadores, explicou que os anseios por uma ‘rebelião’ no modo do negro estar na sociedade já eram latentes muito antes de 1988, ano da criação da 
Unegro. Lembrou de uma atividade considerada fundamental em que ele, Valdir Estrela e Leo Ornellas (também fundadores da Unegro), que formavam um grupo informal de negros no bairro de Nordeste de Amaralina, participaram no município de Uberaba (MG), em 1985. Era um encontro proposto pelo prefeito da cidade, Wagner Nascimento, que era negro, com lideranças negras e o então presidente da República, José Sarney.

Em Minas, os três baianos participaram de discussões sobre a importância da ascensão da população negra e da inserção nos espaços de Poder, como forma de garantir um olhar mais sensível para a luta contra a desigualdade. Wagner Nascimento era uma das grandes referências, pois entrou para a História como o segundo prefeito negro do Brasil. Na volta, o trio estava embebido pelo desejo de transformação social e encontrou novos parceiros para a organização de um grupo mais sólido e formal, como Antônio Carmo.


A escolha do nome foi feita democraticamente e traduz, segundo Antônio Carmo, as bases que compõem a entidade. A ‘União de Negros’ está relacionado à luta racial e ‘pela Igualdade’ se refere ao ideal socialista. Nivaldino lembra que a primeira atividade, 

após a criação, aconteceu também na Biblioteca Pública dos Barris e se tratava de um debate sobre o negro e as crianças abandonadas nas periferias. Disse que foi um sucesso. “Foi muita gente ouvir as nossas propostas”, contou.

As primeiras tarefas, ainda de acordo com Nivaldino, estavam concentradas no esforço de 
ampliar os debates sobre o racismo, principalmente, nos bairros populares de Salvador. Foram criados núcleos nas comunidades da Liberdade, Nordeste de Amaralina e Cosme de Farias. “Nós construímos a entidade dentro das comunidades. A gente precisava fazer uma discussão diferenciada e levar para a negrada”, acrescentou Nivaldino.

Antônio Carmo explicou que o objetivo, naquele primeiro momento, era atuar em conjunto e de maneira mais ampla. “O grande esforço foi tirar o movimento negro do gueto, pois ficava preso em estereótipos e dogmas que atrasavam muito a luta da discriminação”. Ao analisar a história da Unegro, disse que muitas vitórias foram alcançadas em relação a esse objetivo, mas que ainda muito é preciso fazer pela mobilização do povo negro.

Pouco mais de um ano após a criação, em setembro de 1989, a Unegro apresentou, em parceria com o Olodum e com a APLB-Sindicato, uma emenda popular à Assembleia Estadual Constituinte, que propunha incluir no documento um capítulo relacionado à discriminação racial. Dos quatro artigos sugeridos, três foram aprovados pelos constituintes. Uma vitória significativa para a entidade recém-criada, que consegue, de fato, o respeito entre o movimento negro e a esquerda.

A organização completa 29 anos em 2017, forjados na batalha incessante contra o racismo, as desigualdades de gênero e de classe social. É uma organização cuja trajetória não se perde um instante na defesa do exercício pleno da cidadania pela população negra brasileira, compromisso firmemente concatenado com o fortalecimento da democracia e o desenvolvimento econômico e social do Brasil.

Esta convicção política sustenta as raízes do nosso crescimento, respeitabilidade e aliança com amplos setores progressistas da sociedade, com o firme propósito de construção de uma sociedade, livre, justa e solidária .

São Objetivos da UNEGRO:

Lutar contra o racismo em todas as suas formas de expressão;
Empenhar-se na preservação e desenvolvimento da cultura negra;
Defender o livre direito de escolha da orientação sexual dos homens e mulheres negras;
Defender os direitos culturais da população negra;
Externar solidariedade e apoio à luta dos povos africanos e povos oprimidos de todo o mundo;
Lutar pelo exercício da cidadania em todos os setores da vida social do país;
Defender de uma sociedade justa, fraterna, sem exploração de classe, de raça ou baseada na exploração entre os sexos.

Para a UNEGRO que, ao lado de outras organizações, lutou pela aprovação da Lei 10.639/03, pela aprovação do Estatuto da Igualdade Racial e acompanhou todas as etapas do julgamento das cotas no STF, conquistando o veredicto de aprovação unanime do Sistema de Cotas, promover palestras, seminários, debates, em universidades, escolas públicas e particulares, bairros populares e outros espaços em que seus representantes venham a ser convidados para desenvolver a luta contra o racismo é contribuir com a formação de novas consciências antirracistas.”

Por hora a unegro conclui-se que os negros brasileiros ainda têm muitas lutas pela frente. São muitas reivindicações a serem conquistadas e movimento negro por se unir cada dia mais
vem assegurando seus direitos. A igualdade de oportunidades iguais é garantir as políticas públicas como cotas por exemplo e as ações afirmativas públicas e privadas. 
A luta contra a discriminação é constante e a população negra deve sempre se manter unida na luta para continuar a ampliar gradativamente e perpetuar nossos direitos deixando de ser cidadão de segunda classe.

A UNEGRO-RJ Realizou o seu  VI Congresso do estado do Rio de Janeiro, nos dias 19 e 20 de Agosto de 2017 na cidade do Rio de Janeiro , onde foi debatido os eixos das bandeiras e trincheiras do próximo quadriênio da entidade no estado...

REBELE-SE CONTRA O RACISMO!
Um afro abraço.
Claudia Vitalino.

Fonte:Jeronimo(ex diretor da unegro)\Edson França (vice presidente da unegro)claudia Vitalino(secretaria geral da unegro)

O mito da preguiça baiana, trabalho e racismo

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Certos baianos, quando são chamados de preguiçosos, tomam até como elogio. Dorival Caymmi e Gilberto Gil, por exemplo, assumiram com galhardia a malemolência que lhes é atribuída. A proverbial preguiça, argumentam, é um traço de identidade cultural da Bahia, expressão de um modo de vida em que o trabalho não precisa opor-se ao lazer. Segundo a tese O mito da preguiça baiana, defendida na Universidade de São Paulo (USP) em 1998 pela antropóloga Elisete Zanlorenzi, a origem desse estereótipo nada tem de benigno. Foi engendrado pela elite da Bahia com o objetivo de depreciar os negros, a maioria esmagadora da população local. Isso remonta aos tempos da escravidão e ganhou fôlego em reação à Lei Áurea. Defendida em 1998, a tese teve repercussão dentro e fora do ambiente acadêmico, mas só agora será publicada na forma de livro, com lançamento programado para o final do ano.
A obra sustenta que a vida tranqüila e a famosa aversão ao trabalho atribuídas aos baianos não têm base na realidade. Elisete foi pesquisar, por exemplo, a relação entre o calendário de festas na Bahia e o comparecimento ao trabalho. Fez descobertas curiosas. Uma empresa com sede no Pólo Petroquímico de Camaçari, a 41 quilômetros de Salvador, registrou menos faltas de funcionários durante o Carnaval de 1994 do que sua filial de São Paulo. Outro dado eloqüente: no final dos anos 1980, entre as pessoas ocupadas na Região Metropolitana de Salvador, 50,4% trabalhavam mais de 48 horas semanais e 35,8% de 38 a 47 horas por semana. Não trabalham mais provavelmente porque não há mais trabalho. Entre as seis maiores regiões metropolitanas do país, Salvador é recordista em desemprego e em trabalho informal, fenômeno que atinge, com vigor especial, os 80% da população que são afro-descendentes.
De acordo com a antropóloga, a ladeira da Preguiça, no centro de Salvador, é símbolo do preconceito. Nos tempos da escravidão, e também depois dela, quem reclamava da íngreme travessia, carregando nas costas as mercadorias desembarcadas no porto, eram os negros – “preguiçosos” na visão desdenhosa dos brancos que, das janelas de seus sobrados, gritavam: “Sobe, preguiça!”. A intensa imigração nordestina nos últimos 50 anos fez o racismo vicejar no Sul e no Sudeste. Fora da Bahia, o termo “baiano”, segundo o Dicionário Houaiss, significa tolo, negro, mulato, ignorante e fanfarrão. E se refere a trabalhadores desqualificados oriundos de todos os estados do Nordeste. Como a estrada que conduziu o êxodo foi a Rio-Bahia, os imigrantes nordestinos foram em São Paulo e na região Sul indistintamente chamados de “baianos” – assim como muitos norte-americanos, desinteressados sobre o que acontece ao sul do Equador, confundem a capital do Brasil com Buenos Aires. “Depreciar os imigrantes nordestinos como preguiçosos era uma forma de excluí-los”, diz Elisete. Ela aponta dois grandes motores do preconceito: o descaso do governo com a capacitação dessa força de trabalho e a intolerância dos imigrantes europeus, que não queriam ser equiparados aos brasileiros pobres com quem disputavam o mercado de trabalho e o espaço urbano.
A tese de Elisete Zanlorenzi, professora da Pontifícia Universidade Católica de Campinas, é mais festejada do que conhecida – daí a importância de sua publicação. Ela repercutiu bastante no final dos anos 1990. Até hoje resumos circulam em correntes na Internet, propagadas provavelmente por baianos briosos. Os textos de alguns e-mails foram reforçados com dados que nem sequer constam da tese, numa curiosa anônima colaboração com a pesquisa. “Há dados e até declarações entre aspas que não são minhas”, diz Elisete. “Todos os meses recebo e-mails de pesquisadores interessados em estudar o tema, por isso decidi cuidar da publicação”, diz. O sociólogo Octavio Ianni (1925-2004) – que participou da banca examinadora em 1998 – apontou, à época, a principal contribuição do trabalho: sugerir a atribuição de preguiça como uma forma sutil e escamoteada – porque risível e folclorizada – de racismo.
Descendente de italianos e alemães, a paulista Elisete mudou-se para o Nordeste no final dos anos 1970 e viveu em Salvador entre os anos de 1980 e 1984. Na capital baiana desenvolveu sua dissertação de mestrado, sobre o movimento popular do bairro do Calabar, uma antiga invasão de 8 mil habitantes que a especulação imobiliária tentava, em vão, banir de uma região nobre da cidade. Foi nessa época que o preconceito embutido na questão da preguiça lhe chamou a atenção pela primeira vez. Numa tarde de domingo, ficou impressionada com o que viu numa festa freqüentada por gente da elite de Salvador, políticos, advogados e empresários. “Eles começaram a reclamar da preguiça dos empregados negros, enquanto eram servidos por eles. Os negros eram os únicos que estavam trabalhando ali”, lembra.
Candomblé
Ela foi levantar as razões históricas do fenômeno. “Nem a Abolição da escravatura nem a industrialização foram capazes de inserir grandes contingentes afro-descendentes de Salvador no mercado de trabalho formal”, diz a antropóloga. Até recentemente, os negros permaneceram alijados dos melhores empregos e das atividades mais bem remuneradas da Bahia. Trabalhavam, em sua maioria, no mercado informal, a exemplo do pequeno comércio, da prestação de serviços, de atividades desqualificadas. “Salvador vivia mergulhada em relações tradicionais e muitos de seus bairros tinham vida quase independente”, afirma. Isso só começou a mudar a partir dos anos 1960, com a instalação do Centro Industrial de Aratu e, mais acentuadamente, nos anos 1970 com a instalação do Pólo Petroquímico de Camaçari, que absorveu a mão-de-obra local, ajudando a forjar uma pioneira classe média afro-brasileira. “Mas a visão capitalista sobre o valor do tempo e o significado do trabalho, estampada na imagem do tempo é dinheiro, não conseguiu modificar as relações cotidianas nem retirar dos espaços das relações de trabalho uma dosagem de afetividade”, afirma a antropóloga.
Paralelamente, tomou corpo a face simpática da preguiça. Ary Barroso e Dorival Caymmi, ao descreverem uma Salvador das primeiras décadas do século 20, ajudaram a construir uma imagem exótica e paradisíaca, que ganhou o mundo no filme Você já foi à Bahia? (1945), de Walt Disney. Não era uma imagem inventada. O valor que o tempo e o trabalho têm para os baianos, diz a tese, é fortemente influenciado pelo candomblé. “As obrigações, na filosofia do candomblé, são algo que se escolhe, que não se faz forçado”, afirma Elisete. “No fundo, vem da tradição africana o conceito de que o trabalho não é o foco principal da vida, que trabalho e lazer não se opõem. O que não significa que as pessoas não trabalhem. Ao contrário, trabalham muito, mas sem colocarem o trabalho como objetivo central da existência e cuidando muito das relações que ocorrem fora da esfera do trabalho”, comenta.
A tese se debruça sobre o conceito de tempo na Bahia. Afirma que, embora as relações formais sejam pautadas pelo relógio, ou seja, respondam à lógica capitalista do tempo, as relações informais seguem um tempo maleável. “Muitas pessoas em Salvador não usam relógio”, observa Elisete. “Esse fato poderia ser justificado pelo baixo poder aquisitivo da população, mas a questão vai além desse aspecto, porque não é um bem que custe caro. Se fosse imprescindível, o relógio certamente seria mais usado.” Entre um encontro e outro, observa a tese, pode ocorrer um terceiro, e as pessoas que marcaram o encontro sabem que a rigidez dos horários está exposta ao imprevisto. “O que a mentalidade utilitária e rígida concebe como atraso, na visão afro-descendente baiana aparece como uma possibilidade de ocorrência”, afirma a antropóloga.
A cigarra e a formiga
O estudo é pontilhado por entrevistas com personagens da Bahia, como João Jorge, diretor do grupo Olodum, Vovô, diretor do Ilê-Ayê, Normando, diretor do Centro de Cultura Popular, e Júlio Braga, antropólogo da Universidade Federal da Bahia. “Todos afirmaram que o trabalho é uma esfera importante da vida, mas que a vida não se resume ao trabalho, já que o lazer, a família e os amigos são importantes”, lembra Elisete. “Normando disse que a fábula da cigarra e da formiga é uma invenção da mentalidade ocidental, sem nenhum vínculo com a matriz africana.”
Como ninguém, o compositor Dorival Caymmi encarnou a imagem do baiano malemolente. Não há dúvidas de que seu temperamento tranqüilo e maroto condiz com a imagem – daí a chamá-lo de preguiçoso vai uma distância imensa. “Ele sempre acordou cedo e, mesmo quando trabalhava à noite, fazia questão de sentar-se à mesa do café da manhã com os filhos”, diz a biógrafa e neta do compositor, Stella Caymmi. Forjou mais de uma centena de canções, foi um batalhador pela legislação dos direitos autorais, mas gostava de cultivar a fama de preguiçoso. Para recusar compromissos que não tinha tempo para prestigiar, respondia simplesmente que não podia ir porque era preguiçoso. Numa das primeiras propagandas de que fez, de um rum, em 1957, Caymmi já aparecia tocando violão aboletado numa rede. Nada mais falso. Caymmi, conta a neta Stella, nunca gostou de redes. Apreciava, isso sim, cadeiras de balanço.
Especiaria
Os tropicalistas Gal Costa, Caetano Veloso, Maria Bethânia e Gilberto Gil incorporariam, mais tarde, a imagem da preguiça baiana. “Era um jeito de dizer que eram diferentes, que não pertenciam àquele mundo urbano aonde estavam chegando”, diz Elisete. Entrevistado pela pesquisadora, Gilberto Gil explicou: “A preguiça é uma especiaria que a Bahia oferece ao Brasil. A preguiça produz de forma inusitada, ela produz benefícios inimagináveis. Ela vence os obstáculos pela capacidade de contorná-los e não de atravessá-los diretamente… é a água, é o feminino, é o obscuro. Eu sou adepto dessa visão, porque isso é a salvação do mundo”. Gilberto Gil, diga-se, nunca teve vida mansa. Quando se mudou para São Paulo, no início dos anos 1960, trabalhava numa empresa de dia e cantava à noite. Hoje, aos 62 anos, concilia os compromissos de ministro com a agenda de shows.
A indústria do turismo aprendeu a explorar esse filão para atrair multidões de estressados de todos os cantos do país. Quer descansar, vá à Bahia, a terra onde a festa nunca termina e ninguém se preocupa com o relógio. Isso começou nos anos 1960. Foi nessa época que a capital baiana passou por uma grande cirurgia urbana, com o objetivo de incrementar o turismo – e se descobriu que o mito da preguiça tinha apelo delicioso para os forasteiros. Desde então os baianos trabalham duro para criar uma ilusão capaz de entreter milhares de incautos. A ilusão de que, naquelas paragens, ninguém gosta de trabalhar.
Esta matéria foi publicada na revista Revista Fapesp nº 103

FCC seleciona pareceristas para a área do audiovisual

Producao Audiovisual
A Fundação Cultural de Curitiba está realizando chamamento público para seleção de cinco pareceristas que farão a análise técnica de projetos do Edital Produção Audiovisual FCC/FSA. As inscrições devem ser feitas até às 12h do dia 19 de setembro de 2017, exclusivamente pelo Sisprofice. Mais informações estão no site da Fundação Cultural de Curitiba/Lei de Incentivo.
De acordo com a diretora de Incentivo à Cultura da Fundação Cultural de Curitiba, Loismary Pache, a contratação de especialistas para análise dos projetos inscritos em editais do Fundo Municipal da Cultura é um novo procedimento, adotado por decisão da própria Comissão do Fundo Municipal, a fim de tornar ainda mais democrático e transparente o processo de seleção.
Dois editais de pareceristas estão com inscrições abertas. Além do chamamento para a área do audiovisual, estão abertas as inscrições até 11 de setembro para especialistas da área de música, que serão contratados para análise de projetos do edital Paiol Musical.
Serviço:
Edital de Chamamento Público para Pareceristas para o Edital Produção Audiovisual FCC/FSA
Inscrições até às 12h do dia 19 de setembro de 2017
As informações estão disponíveis no site da Fundação Cultural de Curitiba: http://www.fundacaoculturaldecuritiba.com.br/leideincentivo/ed44-17/

quarta-feira, 30 de agosto de 2017

História nossa gente: Patrice Lumumba


Foi o primeiro chefe de governo da República Democrática do Congo. Buscou a descolonização de seu país das mãos da Bélgica, destruir totalmente o poder colonialista europeu presente na África, erradicar o ultraje e o espólio que durante séculos sofreu o continente. Em 1958, se orientou decididamente para a luta pela descolonização do Congo por conta das escassas possibilidades de ação social que permitiam as autoridades coloniais belgas e, assim, fundou o Movimento Nacional Congolês, partidário de criar um Estado independente e laico, cujas estruturas políticas unitárias ajudaram a superar as diferenças tribais, criando um sentimento nacional.

A CENA não podia ser mais chique. Em 2010, Lord Lea de Crondall tomava chá com a baronesa Park de Monmouth e comentou um trecho de um livro que discutia o envolvimento do serviço secreto britânico no assassinato do primeiro-ministro congolês Patrice Lumumba, em 1961. O mistério completaria meio século. Lumumba tinha 35 anos e parecia um Fidel Castro (versão 1.0) africano. Vencera uma eleição e mal completara três meses como primeiro-ministro quando foi deposto e preso. Fugiu e foi capturado. Seu assassinato foi um crime que superou, de longe, a execução do Che Guevara. Primeiro, porque estava no seu país. Ademais, porque foi filmado apanhando, até mesmo quando soldados tentavam fazê-lo comer um documento que assinara. A imagem de sua altaneira resignação, com as mãos amarradas, está no YouTube (http://youtu.be/HtzfCMHX1Yg). Tropas da ONU que policiavam o Congo poderiam tê-lo libertado. Lumumba foi martirizado durante duas semanas. Apanhou de soldados, generais e até mesmo do presidente de uma província rebelada. Finalmente, no dia 17 de janeiro de 1961, militares congoleses e mercenários europeus encostaram-no numa arvore e fuzilaram-no.

A execução foi uma espécie de Assassinato no Expresso Oriente da Guerra Fria. Os americanos tentaram envenená-lo, os belgas tratavam-no pelo codinome de Satan e planejaram seu assassinato. O primeiro-ministro inglês discutira sua “eliminação” com o presidente americano Eisenhower, mas o dedo de Londres só apareceu durante o chá dos lordes.

Faltava uma peça: quem armou a cena final?
“Fomos nós. Eu organizei a coisa”, disse a octogenária baronesa de Monmouth. Aos 39 anos ela era
Daphne Park e chefiava a estação da inteligência inglesa no Congo. Para quem se habituou com a cenografia de James Bond, Park encarnava o anticlímax. Com jeitão de missionária gorda, dirigia um Citroën velho. 

Até chegar à Câmara dos Lordes, passaria por Moscou, Zâmbia e Hanói. Nunca falou de sua carreira, ria do Bond de Ian Fleming e não gostava das tramas de John Le Carré. Daphne morreu aos 88 anos, poucos meses depois de seu breve comentário com Lord Crondall. Ele narrou a conversa numa carta recente ao London Review of Books.
Recompondo-se os fatos de janeiro de 1961, é possível que Daphne tenha organizado e instruído a ida de um ex-assessor de Lumumba à prisão onde ele estava, transferindo-o para a capital de uma província rebelada, onde seu fim estaria selado. Semanas antes, ela salvara a vida desse novo colaborador escondendo-o na porta-malas de seu carro.

Passados mais de 5o anos do assassinato de Lumumba, ficou o saldo. De 1961 a 1997, o Congo foi governado por Joseph Mobutu, um policial transformado em coronel, queridinho da Central Intelligence Agency americana. O embaixador inglês achava-o incapaz de se tornar ditador. Foi um arquétipo dos cleptocratas africanos, intitulando-se Messias, Supremo Combatente e O Grande Leopardo. Juntou algo como US$ 5 bilhões, mais um castelo na França. Desde então o Congo viveu meio século de guerras civis (numa das quais se meteu Che Guevara) e nelas morreram milhões de pessoas. País de imensos recursos
naturais, o Congo é um dos mais pobres e corruptos do mundo.

"O pensamento de Patrice Lumumba constituiu um perigo para as potências ocidentais exploradoras dos povos africanos. Meio século depois, as autoridades estadunidenses reconheceram sua implicação na derrubada e assassinato do líder congolês".

Um afro abraço.
Claudia Vitalino

Fonte:https://pt.wikipedia.org/
C/ http://unegroriodejaneiro.blogspot.com.br/

Filmes candidatos ao Oscar 2018 devem ser inscritos até amanhã

cinemarasileiro
Cineastas podem se inscrever, até às 18h de quinta-feira (31), para participar da escolha do longa-metragem brasileiro que disputará uma das vagas entre os indicados ao Prêmio de Melhores Filme em Língua Estrangeira do Oscar 2018.
De acordo com o Ministério da Cultura, interessados em registrar sua produção no processo seletivo devem acessar osistema desenvolvido pela pasta, onde será feita a armazenagem do longa-metragem, que deverá conter até 20 GB.
Com o sistema, o processo ganha em agilidade e sustentabilidade, já que será a primeira vez que a inscrição para o prestigiado prêmio será totalmente eletrônica. “O novo método serve como uma alternativa mais sustentável e célere, ao dispensar a tramitação de papéis e mídias via Correios”, informou o ministério, em nota.
Não haverá limite de quantos filmes podem ser inscritos por produtora ou distribuidora. Porém, só podem concorrer os filmes lançados e exibidos inicialmente no Brasil, em sala de cinema comercial, por no mínimo sete dias consecutivos, entre 1º de outubro de 2016 e 30 de setembro de 2017.
O anúncio do resultado da seleção será feito pela Comissão Especial de Seleção do Oscar 2018 no dia 15 de setembro.
Fonte: Portal Brasil, com informações do Ministério da Cultura

terça-feira, 29 de agosto de 2017

Documentário revisita trajetória da "inconclusa" anistia brasileira

Memórias Reveladas/Arquivo Nacional
Vitor Nuzzi - Rede Brasil Atual

Filme será lançado nesta segunda, quando se completam 38 anos da lei, e discute importância de sua revisão

Em Olhares Anistia, o diretor do documentário, o cineasta e historiador pernambucano Cleonildo Cruz, diz que busca "decodificar e revisitar a luta pela anistia" no Brasil. Enquanto narra o processo político que resultou na Lei 6.683, de 28 de agosto de 1979, o autor quer estimular o debate sobre a necessidade de revisão da norma, algo que o Supremo Tribunal Federal (STF) não permitiu, em 2010, mas que segue na pauta da Corte. O filme, afirma Cleonildo, termina "expondo a multiplicidade de opiniões" sobre o tema e o caminho para buscar uma justiça de transição "que ainda hoje torna a anistia inconclusa".
 
O documentário será lançado nesta segunda-feira (28), quando se completam 38 anos da lei, em Recife, seguido de debate com o ex-preso Gilney Viana, o ex-exilado Anacleto Julião e o advogado Fernando Coelho, presidente da Comissão Estadual da Memória e da Verdade Dom Helder Câmara. Tem previsão de exibição na última semana de setembro em Minas Gerais e em novembro no Rio Grande do Sul. Em dezembro, será exibido no Museu da Memória e dos Direitos Humanos de Santiago, Chile. Cleonildo também é autor de filme sobre a Operação Condor, sobre a união entre ditaduras sul-americanas nos anos 1970 para perseguir militantes de esquerda.
 
Aprovada sob protestos pelo Congresso em 22 de agosto e sancionada uma semana depois, a lei teve a peculiaridade de ser discutida e votada ainda durante a ditadura. Em 1979, assumia aquele que seria o último dos generais-presidentes, João Figueiredo. Seria a anistia "possível", em meio a ofensivas da linha dura contra o tímido processo de abertura política, com atentados a bomba em bancas de jornal e os que aconteceram na seção fluminense da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), que matou a secretária Lyda Monteiro, em 1980, e no Riocentro, em 1981, que terminou com a morte de um militar envolvido na frustrada operação.
 
Militares como o coronel reformado Carlos Alberto Brilhante Ustra, apontado como chefe do Doi-Codi paulista e torturador, são ouvidos no documentário. "Não poderia me furtar de ouvir os militares. Pretendo revelar as perspectivas de ambos os lados, extrair de cada fato o contraditório", diz Cleonildo, que falou com Ustra durante um encontro de militares em Brasília. 
 
A Lei de Anistia segue sendo usada como argumento jurídico para barrar pedidos de punição de agentes do Estado envolvidos com tortura, morte e desaparecimento de militantes políticos durante a ditadura civil-militar (1964-1985). Ainda hoje, o país resiste a investigar crimes cometidos durante aquele período.
 
Ustra repete uma palavra: esquecimento, esquecer. O passado deve ficar para trás. 
 
Esquecer como?, pergunta-se Criméia Schmidt de Almeida, militante e sobrevivente da Guerrilha do Araguaia. "Ele foi responsável pela tortura de toda a minha família."
 
Para o jurista Fábio Konder Comparato, a anistia brasileira foi um "atestado de impunidade para todos os militares e agentes policiais que partiram da repressão".
 
Além de Crimeia, Comparato e Ustra, o documentário traz depoimentos da ex-presidenta Dilma Rousseff, do ex-deputado e preso político Adriano Diogo, o também ex-preso Theodomiro dos Santos, o  jurista Ives Gandra da Silva Martins e os procuradores da República Eugênia Gonzaga e Marlon Weichert, entre outros. Com duração de 70 minutos, o filme começa com imagens do julgamento do STF em 2010.
 
Com produção da Tempus Comunicação, o roteiro é assinado pela jornalista Micheline Américo, que ressalta o conteúdo polêmico do trabalho na atual conjuntura "polarizada" da política. Assim, acredita, as reações do público "podem variar da náusea à empatia".


Cinco dos 11 juízes que compunham o Supremo naquele 29 de abril saíram: Eros Grau (relator), Ellen Gracie, Cezar Peluso, Ayres Britto e Joaquim Barbosa, que não votou por estar de licença médica. Dias Toffoli declarou-se impedido, porque era advogado-geral da União. Muitos ainda esperam que a Corte reveja a sua decisão – sete votos contra a revisão da anistia e dois favoráveis (Ayres Britto e Ricardo Lewandowski). A Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental (ADPF) 153 segue à espera, em mais um capítulo incompleto da história recente brasileira.

Carta Maior

Projeto dá visibilidade a mulheres negras e indígenas na área tecnológica

Divulgação/Olabi MakerSpace
Projeto possibilita o mapeamento e a participação de mulheres negras e indígenas na área de tecnologia

Empoderar e dar visibilidade às mulheres negras e indígenas nas áreas tecnológicas. Este é o objetivo da Pretalab, uma iniciativa que utiliza a tecnologia como ferramenta de transformação social, buscando mudar o que está culturalmente associado às mulheres negras e indígenas, no Rio de Janeiro. De acordo com Silvana Bahia, comunicadora social e diretora de projetos do Olabi, depois de perceber a baixa representação de mulheres negras e indígenas na tecnologia, as fundadoras da organização social sentiram a necessidade de alterar essa realidade. Isso porque, das 19 mulheres citadas na história científica no Brasil, nenhuma é negra; apenas 10 mulheres negras se formaram na Escola Politécnica da USP em 120 anos; e 4% é o percentual de negras entre as fundadoras de startups de tecnologia comandadas por mulheres nos EUA. O projeto PretaLab possibilita o mapeamento e a participação de mulheres negras e indígenas na área de tecnologia, fazendo uma rede de colaboração, além de oferta de oficinas como o WordPretas, em parceria com "minasqueprogramam".

Como surgiu a Pretalab?

A Pretalab é uma iniciativa do Olabi - organização social com foco na promoção da diversidade na produção de novas tecnologias. Nós nascemos em 2014 com a missão de democratizar o acesso às ferramentas e às máquinas de fabricação digital, partindo da ideia de que a inovação está na mão de quem tem as ideias, e não apenas nos grandes centros de pesquisa. Em 2016, já tínhamos a ideia de criar um hub [centro] para mulheres negras trocarem saberes em tecnologia. Só que não conhecíamos mais do que dez meninas negras no Rio de Janeiro que trabalhassem no campo da inovação e tecnologia, considerando os limites da nossa bolha. Decidimos mudar de estratégia, porque, quando começamos a pesquisar dados sobre gênero e raça nas tecnologias, vimos que esse recorte interseccional não é feito nas pesquisas, geralmente. Hoje, temos muitos dados sobre mulheres nas tecnologias (o que é muito bom), mas é complicado olhar para essa questão sem a interseccionalidade que ela demanda, sobretudo quando falamos de Brasil - o último país a abolir a escravidão. A gente olha para os dados do levantamento feito pelo grupo Poligen da USP que diz que em 120 anos a Escola Politécnica da USP não formou nem 10 mulheres negras, mas quando a gente pensa que esse ano completou 130 anos da abolição, a gente entende por que é impossível a USP formar mais mulheres negras em 120 anos.

Hoje, a Pretalab é uma iniciativa com dois objetivos gerais: levantar dados sobre mulheres negras e indígenas nas tecnologias a partir de um mapeamento colaborativo na rede e uma ação de comunicação: estamos fazendo dez vídeos para a internet com meninas e mulheres que consideramos referência nesses campos para inspirar outras meninas e para que elas possam considerar esse universo para elas também.

Como você avalia a participação de mulheres negras e indígenas na produção de ciência e tecnologia?

Sabemos que somos poucas, mas sabemos que existimos. Porém quando a gente não tem informação ou dados é difícil até dizer que existimos. No final do dia, o que a gente quer é levantar essa pauta e influenciar políticas de acesso e permanência dessas mulheres, no mercado de trabalho ou em instituições de ensino formal. Acreditamos no protagonismo de negras e indígenas nesses campos, porque sabemos que existem muitas de nós produzindo e usando tecnologias para diferentes fins.

Temos uma teoria de que essa ausência está ligada diretamente a dois fatores: falta de acesso e referência. Acesso porque estudar no Brasil é privilégio e aqui classe tem cor. Dentro do guarda-chuva “acesso” também estão questões econômicas e de língua. A maioria desses conteúdos é em inglês e sabemos que poucos são os pobres que falam outro idioma em nosso país. É muito difícil você imaginar algo ou atuar em algum campo que você não vê ninguém parecido contigo. Normalmente, esses lugares techs estão destinados aos filhos e às filhas dos patrões. Para nós, negras e indígenas, ter a profissão de empregada doméstica é um destino quase certo. Minha avó era empregada doméstica, minha mãe é empregada doméstica. Costumo dizer que contrariei as estatísticas quando não me tornei uma.

As mulheres ainda são minoria nessas áreas ainda predominantemente masculinas. Que iniciativas podem contribuir para a inclusão?

A primeira iniciativa é olhar para essa questão e discutir muito, tanto no campo profissional como no campo da educação. Não é possível a sociedade achar normal só ver homens brancos ocupando esses espaços. É só a gente olhar para esses eventos de tecnologia e inovação, normalmente quem discute nas mesas são homens, brancos e de classe média alta. De alguma forma isso hoje está mudando, embora precisemos avançar muito. Mas também acho que, mesmo entre as mulheres brancas, tem que existir uma solidariedade para que as mulheres negras estejam lá também e isso se passa primeiramente por olhar essas questões. Nós, negras, somos a base da pirâmide social, lideramos os piores índices quando o assunto é mercado de trabalho, saúde e educação. Somos as mais desempregadas, as que mais morrem em situação de partos, feminicídio, entre outros índices que são tão tristes e me deixam angustiada. Isso significa que ser mulher é um guarda-chuva mais amplo do que parece e dentro dele existem muitas camadas. Mulheres negras não são todas iguais, precisamos reconhecer a diversidade que existe quando usamos essas categorias.

Qual a importância da apropriação das tecnologias?

Hoje, o mundo é cada vez mais digital. Não voltaremos ao analógico. E se a gente não entender minimamente os processos em que estamos inseridas, isso nos deixa com muita desvantagem. Essas desvantagens são fruto de um processo histórico e precisamos olhar para elas. Não é uma ou duas iniciativas que vão dar conta de resolver o todo, mas podemos influenciar esse olhar e as pessoas para que pensem “fora das caixinhas”. Mesmo quando a gente não se considera alguém das tecnologias é preciso entender que na contemporaneidade estamos o tempo todo lidando com elas, seja na rede social ou na nota fiscal de uma compra na farmácia. Estamos gerando dados e informações sobre nossas vidas a todo tempo, mas a quem servem esses dados?


Além disso, todas as tecnologias que usamos, desde os aplicativos às redes sociais, são desenvolvidas por pessoas que carregam visões de mundo, culturas. Todas as tecnologias são dotadas da visão de mundo e cultura de quem as cria. Então, não existe neutralidade. Se só usamos coisas feitas por homens, brancos e de classe média como poderemos ser entendidas nas nossas completudes? O que pode mudar quando as tecnologias são desenvolvidas por pessoas negras, trans, deficientes? É essa pergunta que norteia boa parte do que fazemos no Olabi, mas ainda estamos numa fase de mais perguntas do que respostas.

Fonte: Carta Maior

Desigualdades raciais e de gênero se mantêm no país, segundo estudo

 

As desigualdades raciais, de gênero e sociais continuam altas no país. A constatação é do relatório do Instituto de Estudos Sociais e Políticos da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (IESP/UERJ), divulgado esta segunda-feira (28). Os dados indicam que as mulheres negras estão em desvantagem em relação a outros grupos.

Carla Lima é a primeira da família a concluir o ensino superior. Ela, assim como muitas mulheres negras, considera que ainda tem que trabalhar a mais para provar a competência e se manter na profissão que escolheu."Esse acúmulo de trabalho, essa [necessidade] de mostrar eficiência, e dizer: 'eu cheguei lá por mérito', isso é muito dolorido", afirma a advogada. "Tem o quanto abandonamos de nossa vida pessoal, social e afetiva", destacou, sugerindo que nem todas as pessoas tem oportunidades iguais.


O relatório elaborado pelo Grupo de Estudos Disciplinar da Ação Afirmativa (GEMAA), do IESP, mostra que, apesar do desenvolvimento econômico dos últimos anos, as desigualdades não diminuíram e dificultam a vida dos brasileiros. O documento analisou os números de 2011 a 2015 da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio (PNAD), elaborada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Segundo a pesquisa, pessoas pretas e pardas (chamadas negras pelo próprio IBGE), quando somadas, são maioria entre os brasileiros, 55% da população. No entanto, em relação aos rendimentos desse grupo, à escolaridade e às classes sociais, estão em desvantagem quando comparadas às pessoas brancas, no topo dos indicadores.

As mulheres negras, em geral, estão sempre nos mais baixos patamares. O rendimento delas era o menor da pesquisa, R$ 800, enquanto as mulheres brancas obtinham, por mês, R$ 1.496. Já homens brancos alcançaram quase o dobro do rendimento médio das pretas e pardas, R$ 1.559.

No quesito educação, as desigualdades permanecem, mostrando que o caso da advogada Carla Lima é exceção. O estudo do GEMAA afirma que entre as raças, não há mobilidade social. Ou seja, é muito difícil para uma pessoa negra ascender socialmente e melhorar de vida ou se manter lá.

"Pretos e pardos que nascem, ou melhor, que estão no alto, que têm os melhores empregos, têm mais dificuldade de manter esse status social, tendem a cair mais do que os brancos que nascem nessa condição", explicou o cientista político João Feres Júnior, que é coordenador do GEMAA e do levantamento com base na PNAD. Ele também afirmou que os negros que nascem pobres têm mais dificuldade de subir para as ocupações mais altas ou médias do que os brancos que nascem pobres.

A pesquisa alerta que, em tempos de crise, a tendência é que as desigualdades se aprofundem, como é o caso do desemprego. A falta de trabalho já atinge de maneira mais severa a população preta, depois a parda e, por fim, a branca. "A tendência histórica em sociedades marcadas pela desigualdade, como a nossa, é de as elites perderem menos em tempos de crise e ganharem mais em tempos de bonança", conclui o documento, defendendo a manutenção de políticas públicas específicas para negros. 


Fonte: Agência Brasil 

Taxa de feminicídios no Brasil é a quinta maior do mundo

Apenas na última semana do mês de agosto, foram registrados pelo menos cinco casos de mulheres assassinadas por seus companheiros ou ex-companheiros na cidade de São Paulo. O dado é alarmante, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), e reflete a realidade do Brasil, país com a quinta maior taxa de feminicídio do mundo.
O número de assassinatos é de 4,8 para cada 100 mil mulheres. O Mapa da Violência de 2015 aponta que, entre 1980 e 2013, 106.093 mulheres morreram no Brasil pela condição de gênero. As mulheres negras são o grupo mais vulnerável. Entre 2003 e 2013, houve aumento de 54% no registro de mortes, passando de 1.864 para 2.875 nesse período. Muitas vezes, são os próprios familiares (50,3%) ou parceiros/ex-parceiros (33,2%) os que cometem os assassinatos.
Com a Lei 13.140, aprovada em 2015, o feminicídio passou a constar no Código Penal como circunstância qualificadora do crime de homicídio. A regra também incluiu os assassinatos motivados pela condição de gênero da vítima no rol dos crimes hediondos, o que aumenta a pena de um terço (1/3) até a metade da imputada ao autor do crime. Para definir a motivação, considera-se que o crime deve envolver violência doméstica e familiar, e menosprezo ou discriminação à condição de mulher.
Lei do feminicídio é uma conquista
Na avaliação da promotora de Justiça e coordenadora do Grupo Especial de Enfrentamento à Violência Doméstica e Familiar contra a Mulher (GEVID) do Ministério Público do Estado de São Paulo, Silvia Chakian, a lei do feminicídio foi uma conquista e é um instrumento importante para dar visibilidade ao fenômeno social que é o assassinato de mulheres por circunstâncias de gênero. Antes desse reconhecimento, não havia sequer a coleta de dados que apontassem o número de mortes nesse contexto.
Silvia Chakian afirma que a lei é um ponto de partida, mas que sozinha será capaz de acabar com crimes de feminicídio. “Como um problema bem complexo de causas sociais que estão relacionadas a aspectos da nossa sociedade – ainda tão patriarcal, machista e conservadora – não existe uma fórmula mágica, é necessário um conjunto integrado de ações”.
Políticas de combate à violência contra a mulher
A implementação integral da Lei Maria da Penha é o primeiro ponto desse conjunto de medidas que podem ser tomadas pelo Estado para resolver o questão. Reconhecida mundialmente como uma das melhores legislações neste sentido, ainda é necessário intensificar a implementação da lei, segundo a promotora. Os principais desafios são: ações de prevenção e concretização de uma rede de apoio às mulheres vítimas de violência.
“A gente não vai avançar na desconstrução de uma cultura de discriminação contra a mulher, que está arraigada na sociedade, nas instituições e em nós mesmas, sem trabalhar a dimensão da educação”, argumenta Silvia Chakian. De acordo com a promotora, a rede de atendimento, de atenção e de proteção às mulheres que vivenciam situações de violência pode ser definidora do rompimento desse ciclo, porque forneceria apoio multidisciplinar, incluindo suporte psicológico e financeiro.
“Onde não há delegacia especializada, centro de referência, casa abrigo e outras instituições de apoio, essa mulher vai sofrer calada, dentro de casa, sem conseguir buscar ajuda”, afirma. O argumento da promotora é que o assassinato é, em geral, uma continuidade de violências perpetradas antes, e que a existência de mecanismos de auxílio pode interromper o ciclo de violações, antes que a morte aconteça. “Os feminicídios são tragédias anunciadas, por isso, essas são evitáveis”, alerta Chakian.
Outras formas de combater esse problema é melhorar as condutas dos profissionais envolvidos nos processos de investigação e julgamento de crimes de feminicídio. Nesse sentido, em 2016 o governo brasileiro, o Escritório do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos (ACNUDH) e a ONU Mulheres publicaram as Diretrizes Nacionais para Investigar, Processar e Julgar com Perspectiva de Gênero as Mortes Violentas de Mulheres – Feminicídios.
O documento detalha, por exemplo, quando e como a perspectiva de gênero deve ser aplicada na investigação, processo e julgamento de mortes violentas de mulheres, além de formas de abordagem das vítimas e informações sobre os direitos delas.
Fonte: Nocaute

Inscrição de filmes candidatos ao Prêmio Goya vai até sábado (2)

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O prazo para inscrição de filmes brasileiros para a seleção do representante nacional no Prêmio Goya foi prorrogado até o próximo sábado (2). A premiação é promovida pela Academia das Artes e Ciências Cinematográficas da Espanha.
A Agência Nacional do Cinema (Ancine) vai indicar uma produção de longa-metragem para concorrer à categoria de Melhor Filme Ibero-americano na 31ª edição do evento.
Para serem considerados aptos a participar, os filmes devem ter estreado nas salas de cinema do País entre 1º de novembro de 2016 e 31 de outubro de 2017 e terem permanecido em cartaz por pelo menos sete dias consecutivos.
As fichas de inscrição e link de acesso ao filme (com senha) devem ser encaminhados por e-mail ao endereço: premio.goya@ancine.gov.br. A confirmação da candidatura também será feita por correio eletrônico.
Desde 1987, a Academia das Artes e Ciências Cinematográficas da Espanha promove o Prêmio Goya, o mais importante do país, concedido aos destaques de cada ano.
Fonte: Portal Brasil, com informações da Ancine