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quinta-feira, 24 de janeiro de 2019

Crescimento do turismo mundial pode chegar a 4% em 2019






29 de Dezembro de 2016 -Cenas embarque Aeroporto de Brasília .Foto: Roberto Castro/Ascom/MTur
O turismo mundial vai crescer entre 3% e 4% em 2019. Essa é a previsão da Organização Mundial do Turismo (OMT), segundo relatório recém divulgado. Além disso, de acordo com o último levantamento da entidade, o setor registrou, em 2018, o segundo melhor resultado dos últimos 10 anos, atingindo a marca de 1,4 bilhão de chegadas internacionais no mundo todo, um aumento de 6% sobre 2017.

Apesar do resultado positivo, as Américas estão na lanterna do crescimento, com 3% de alta no período 2017/2018. O número segue tendência histórica do continente (2% a 3%). Entre 2017/2018 a América do Sul registrou aumento de 3,2%, enquanto no período anterior – 2016/2017 – o crescimento foi de 9%.

O diagnóstico relata que a alta se deve a fatores como ambiente econômico favorável, forte demanda dos principais mercados emissores, consolidação da recuperação em destinos anteriormente em crise, melhor conectividade aérea e maior facilitação de vistos.

Para o ministro do Turismo, Marcelo Álvaro Antônio, o Brasil está na rota do crescimento do setor em 2019. “Nosso trabalho a partir de agora é criar recursos para o incremento da competitividade e incentivo à inovação em todas as atividades da cadeia produtiva. Com um novo ambiente de negócios, teremos um mercado de viagens mais acessível, gerando empregos, renda e desenvolvimento”, prevê.

O titular do Turismo no Brasil destacou medidas prioritárias para obter resultados importantes da atividade no país: “a isenção de visto para países considerados estratégicos, a criação de Áreas Especiais de Interesse Turístico (AEITs) e a ampliação da conectividade aérea no país para expandir os mercados doméstico e internacional estão entre as nossas metas. É urgente repensar e reorganizar o setor para fazer o Brasil crescer”, defende.

Em comunicado, o secretário-geral da OMT, Zurab Pololikashvili, afirmou que “o crescimento do turismo nos últimos anos confirma que o setor é hoje um dos motores mais poderosos de crescimento e desenvolvimento econômico a nível global. Temos a responsabilidade de geri-lo de maneira sustentável para converter essa expansão em benefícios reais para todos os países, e em particular para todas as comunidades locais, criando oportunidades de emprego e empreendimento”.

A expectativa da OMT é que em 2030, as chegadas internacionais cheguem a 1,8 bilhão.

quarta-feira, 23 de janeiro de 2019

Ensino ameaçado Governo Bolsonaro ameaça fechar escolas do MST que atendem 200 mil alunos

Escola José Martí (PR)
 por Cláudia Motta, da RBA

Nos 35 anos de existência do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra, a educação é esteio da organização e qualifica para produção que se tornou uma das principais em alimentos orgânicos no mundo.

Antes um barracão, a escola estadual José Martí, reerguida em Jardim Alegre, recebe mais de 600 alunos da região.

São Paulo – Há 35 anos, em 21 de janeiro de 1984, era oficialmente fundado o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), durante seu primeiro encontro nacional. Quem não conhece de perto o trabalho do MST e se informa pela imprensa comercial ou pelas redes sociais do presidente Jair Bolsonaro e seus seguidores, pode até considerá-lo uma ameaça ao país. A realidade, no entanto, é diferente.

O MST tem hoje um foco de atuação na defesa da agroecologia, do manejo sustentável da terra e no consumo consciente como parte da segurança alimentar. Abrange a instalação de 96 agroindústrias, 1.900 associações de trabalhadores rurais e mais de 350 mil famílias assentadas, produzindo toneladas de alimentos provenientes de localidades onde antes só havia terra improdutiva.

Essa comida, quase toda, é produzida sem veneno, os agrotóxicos que representam ameaças à saúde da população e enriquecem a indústria farmacêutica e os chamados "defensivos agrícolas". Na base desse conhecimento que passa de acampamento em acampamento, de assentamento em assentamento, está a educação, pilar na organização e no fortalecimento do MST.

 “A vida no assentamento garante às famílias direitos sociais que não são garantidos a todo o povo brasileiro, como casa, escola e comida”, afirma o movimento em seu site.

A necessidade de fazer com que os filhos dos assentados e acampados pudessem ter acesso à educação de qualidade levou à criação de cerca de 1.500 escolas para jovens de 7 a 14 anos – 1.100 delas já reconhecidas pelos conselhos estaduais de educação e cultura. Elas abrigam em torno de 200 mil alunos e 4 mil professores, além dos 250 educadores que trabalham nas Cirandas Infantis – educação de crianças até seis anos ou na faixa da alfabetização. O MST mantém ainda 320 cursos divididos em 40 instituições de nível fundamental, médio, técnico, superior e educação de jovens e adultos (EJA).
“Todo o esforço do MST em levar educação de qualidade aos acampados e assentados rendeu bons frutos ao longo dos anos”, afirma a organização, em nota. “Segundo o Índice de Desenvolvimento na Educação Básica (IDEB), duas escolas do MST no Piauí obtiveram em 2018 os maiores índices na educação básica.”

Para Andressa Pellanda, coordenadora de políticas educacionais da Campanha Nacional pelo Direito à Educação, as escolas do MST não só são importantes porque atendem uma quantidade imensa de estudantes, como também atingem uma população de crianças, adolescentes, jovens e adultos em situação de vulnerabilidade, que muitas vezes o poder público não alcança e até criminaliza.
“Além disso, o trabalho pedagógico desenvolvido nas escolas do MST é um trabalho de qualidade ímpar: há preocupação sensível com a inclusão, com as diversidades e com uma pedagogia de qualidade”, avalia.

Aluna de assentamento é ouro na Olimpíada da Língua Portuguesa
Assentamento 8 de abril
Reforma agrária em bom português. Uma história premiada
 
Prêmio recebido por estudante do Assentamento 8 de Abril, em Jardim Alegre (PR), mostra importância da formação e integração da comunidade

Governo ataca e ameaça

Apesar da qualidade reconhecida, as escolas do MST correm risco. O secretário especial de Assuntos Fundiários do governo de Jair Bolsonaro, Luiz Antônio Nabhan Garcia, afirmou que vai trabalhar para fechar as escolas chamadas por ele de “fabriquinhas de ditadores”.

Contraditoriamente à sua preocupação com posturas ditatoriais, defendeu o direito de o fazendeiro reagir a bala quando tem sua propriedade "invadida". O presidente eleito também já disse que não tem diálogo com o movimento e ameaçou colocar fim aos processos de reforma agrária – medida entre as tantas das quais teve de recuar.

“Não dá para o Brasil admitir em pleno século 21 fabriquinhas de ditadores. Não dá para admitir escolas de marxistas, de leninistas, de bolivarianos, que ensinam crianças a invadir e cometer crimes. Vamos fechar as escolas e punir os responsáveis pela doutrinação. Aliás, isso tem de ser qualificado como crime. Crime de lesa pátria”, disse Nabhan que é presidente licenciado da União Democrática Ruralista (UDR), representante dos latifundiários brasileiros. 

O movimento afirma que não "doutrina" crianças e que todas as escolas de assentamentos são públicas e cumprem as diretrizes aprovadas pelo Ministério da Educação.

“A educação do MST é um trabalho estrutural para uma transformação das zonas rurais do país em busca da justiça social e ambiental. Isso certamente é alvo dos grandes interesses ruralistas”, avalia Andressa. 

Essa transformação foi vivida pela jovem Débora Makoski Francelino, que dá aulas numa das escolas do MST, no assentamento Dom Tomás Balduíno, na região de Quedas do Iguaçu, no Rio Grande do Sul. Durante a passagem da Caravana Lula pelo Brasil relatou à reportagem da RBA seu orgulho por fazer parte do movimento. “É algo que a gente está conquistando para nós, para o Brasil, para estar melhorando tanto na alimentação, quanto na educação”, disse a professora, defensora da agroecologia e do manejo sustentável da terra.
“A educação tem impacto positivo imenso na vida daquelas crianças, que valorizam a terra, a sustentabilidade e a residência no campo, diminuindo inclusive os êxodos rurais.” (Andressa Pellanda, da da Campanha Nacional pelo Direito à Educação
Débora lembra do tempo em que também tinha preconceito em relação ao MST, até seu pai decidir abandonar a vida de “viver para trabalhar e não trabalhar para viver, sem tempo nem para a família” e decidir seguir ao lado do movimento. “Eu tinha 16 anos e não queria vir. Todo mundo falava mal dos sem-terra e eu não sabia o que era. Tinha esse preconceito que têm os que não têm tempo ou dedicação para pesquisar o que é de fato.”

Quando chegou, viu uma realidade toda diferente. “Aqui não existe uma pessoa só para comandar o movimento, todos nós comandamos.”

Educação que semeia futuro

Para Andressa Pellanda, o trabalho de educação no campo, nas escolas do MST, é realizado por educadores que compreendem profundamente as realidades locais e têm senso de transformação social.
“Isso gera um impacto positivo imenso na educação daquelas crianças, que valorizam a terra, a sustentabilidade e a residência no campo, diminuindo inclusive os êxodos rurais.”

Pós-graduada em Ciência Política e mestranda em Relações Internacionais, Andressa considera que essas são perspectivas absolutamente alinhadas com o que tem de mais avançado nos debates globais para o desenvolvimento sustentável. “Os estudantes das escolas do MST aprendem não só os conteúdos curriculares, como também senso de comunidade, do trabalho com a terra, dos direitos humanos.”

O Viveiro de Mudas Silvino Gouveia é uma mostra disso. Localizado no assentamento Liberdade, em Periquito, Vale do Rio Doce (MG) proporciona aos agricultores um aprendizado por meio do qual o MST pretende reflorestar assentamentos da reforma agrária: o projeto Semeando Agroflorestas.

A proposta, como explicou o jovem assentado Davy Pereira Paixão, é fazer um trabalho de recuperação das áreas que estão muito degradadas. “Seja em função da atividade anterior, do fazendeiro que explorou muito, seja pelo pastoreio e pelo mau uso da terra.” A técnica alia o plantio de árvores à produção de alimentos. “Pelas histórias contadas pelos mais velhos, a gente se sente muito triste. Estão acabando com tudo e a monocultura aumentando”, lamenta.

André Pereira da Paixão trabalha como coletor de sementes no viveiro de mudas Silvino Gouveia. Depois leva mudas para outros assentamentos. Técnico em administração de cooperativas, estudou na escola do MST. “Desde sempre gostei de estudar a questão da agroecologia. Pra gente que conhece outras regiões, é triste voltar aqui e ver esses morros todos pelados, essa degradação. O trabalho do viveiro rejuvenesce a gente. Quando chegamos nos assentamentos somos recebidos com muito carinho e as pessoas entendem a importância que tem isso.”

São quatro viveiros no estado e mais de 600 famílias assentadas e mais de 300 acampadas. “Cada assentamento tem um núcleo que contribui com o trabalho no viveiro, a tarefa de coleta de sementes, e estuda essa questão do SAF, como fazer para recuperar as áreas, as nascentes. Tem muita gente envolvida.”

Rede Brasil Atual

Lobato cai em domínio público e ganha releitura politicamente correta


 
Desde o dia 1.º de janeiro, a obra de Monteiro Lobato, um dos maiores escritores do país, está em domínio público, ou seja, os direitos autorais não mais pertencem exclusivamente aos descendentes. Para divulgar Lobato, preservando o melhor de sua obra, o escritor Pedro Bandeira atualiza a produção do escritor nascido em Taubaté e elimina algumas expressões que foram consideradas racistas
 
José Bento Renato Monteiro Lobato nasceu em Taubaté, então Província de São Paulo, em 18 de abril de 1882 e faleceu na cidade de São Paulo em 4 de julho de 1948
Desde o dia 1.º de janeiro, a obra de Monteiro Lobato está em domínio público, ou seja, os direitos autorais não mais pertencem exclusivamente aos descendentes. Isso acontece porque a proteção aos direitos é válida por 70 anos e termina a partir do primeiro dia do ano seguinte – como Lobato morreu em 1948, aos 66 anos, os direitos terminaram agora. Assim, é permitida a publicação da obra por qualquer editora, o que já resultou em um plano diversificado de edições (veja no quadro). Dentre todos os projetos, o mais ambicioso foi assumido pelo também escritor Pedro Bandeira, exímio conhecedor da obra lobatiana e que está ambientando para o século 21 as brincadeiras e ensinamentos da turma do Sítio do Picapau Amarelo.
 
“Minha adaptação protege o talento de Lobato”, assegura. “Autores geniais como Perrault, Andersen, Dumas ou Shakespeare têm sido adaptados sem parar. No caso de Lobato, quase toda sua linguagem e humor devem ser preservados e foi o que fiz. Mas tenho de mexer um pouquinho em detalhes como os xingamentos da Emília. Na época de Lobato, isso poderia parecer engraçado; hoje, porém, é um absurdo. Sua obra não perderá a qualidade se tirarmos, aqui e ali, xingamentos acachapantes como ‘sua negra beiçuda’.”

Acusações de racismo, aliás, vêm figurando em diversas discussões sobre o texto de Lobato, especialmente o direcionado ao público infantil. Bandeira faz uma contextualização. “Em muitos de seus artigos para jornais e em suas cartas, ele demonstrou-se um ardoroso racista, um eugenista de marca maior, um cultor da superioridade dos eurodescendentes. Logo ele, que era baixinho, franzino e feio como a mãe da peste”, diverte-se Pedro Bandeira. “Na primeira metade do século 20, quem negasse diferenças entre africanos, chineses e europeus seria chamado de maluco. Todo mundo acreditava em diferenças raciais, em ‘superioridades’ e ‘inferioridades’, até a ciência. A magia de Lobato, sem seus pequenos deslizes racistas, é imensa e é isso que sonho preservar para as próximas gerações, para que se encantem como eu.”

Pedro Bandeira faz questão de citar um detalhe que passa despercebido: Narizinho tinha a pele negra. Afinal, Lobato a descrevia como “uma menina de 7 anos, com a pele da cor do jambo”. “O jambo é vermelho-escuro, mais escuro que uma ameixa”, observa ele, irritado com a imagem disseminada a partir dos desenhos de Voltolino que, na capa de A Menina do Narizinho Arrebitado, de 1920, cria uma Narizinho “como uma inglesinha gorducha e loura feito uma espiga de trigo”.

É essa personagem, aliás, que, aos 7 anos, fascina Bandeira, justamente por não ser mais uma criança tampouco uma pré-adolescente. “É uma idade de transição, em que o ser humano é solitário e se alimenta de sua prodigiosa imaginação. Nessa idade, as meninas falam com suas bonecas e elas respondem.” Por outro lado, o escritor não esconde sua antipatia por Pedrinho, o menino que vivia na cidade grande e que passava férias no sítio.

“Acho que Lobato não gostava dos meninos”, comenta Bandeira. “Pedrinho nada traz da vida urbana, nada acrescenta, não fala de tecnologias, de progressos que não existiriam no sítio. Aliás, ele se porta como se sempre tivesse vivido no campo – sabe construir arapucas para passarinhos e vive com seu bodoque a dar ‘botocadas’ a torto e a direito.” Bandeira nota que a postura do personagem é a de um “machinho agressivo”. “Ele chega no sítio e mergulha direto nos sonhos da prima. Nenhuma das aventuras proveem de sua imaginação. Em O Saci, ele é apenas um ouvinte das narrativas folclóricas do menino de uma perna só. Em Caçadas de Pedrinho, o protagonismo o tempo todo é de Emília. Aliás, esse é um livro que eu não ofereceria às crianças.”

Personalidade de múltiplas facetas, movido por sonhos e utopias, Monteiro Lobato era um homem que tomava partido sobre todos os assuntos polêmicos de sua época, defendendo suas posições em cartas e artigos que publicava na imprensa, sobretudo no Estado. Assim, Bandeira engrossa o coro dos que criticam o prazo de 70 anos para o domínio público. “A obra de Lobato estaria tendo uma sobrevida muito melhor se já se pudesse estar mexendo nela há duas ou três décadas.”

LANÇAMENTOS: 

Vários lançamentos estão previstos para este ano.

Editora Moderna. Pedro Bandeira (foto) adapta obras do Sítio para o século 21 A Globo Livros, que detinha desde 2007 os direitos exclusivos sobre a obra do criador de Pedrinho, Dona Benta e Tia Nastácia, deve colocar no mercado edições especiais de A chave do tamanho e O Picapau Amarelo.

Companhia das Letras. Em fevereiro, deve lançar nova edição de Reinações de Narizinho, além da biografia juvenil de Monteiro Lobato preparada por Marisa Lajolo e a historiadora Lilia Schwarcz

‘Urupês’. Márcia Camargos prepara uma versão para o público jovem do livro de contos
Mauricio de Sousa. Desenhista vai lançar o livro Narizinho Arrebitado com a turma da Mônica e adaptação de Regina Zilberman

Fonte: O Estado de S. Paulo

terça-feira, 22 de janeiro de 2019

ARBITRARIEDADE - PM usa máscaras e esconde identificação em ato contra aumento do transporte

pm passe livre
Nas duas últimas manifestações, a Polícia Militar agiu de forma violenta, deixando detidos e feridos
por Redação RBA 
Manifestantes realizam terceiro ato contra tarifa de R$ 4,30 do ônibus e metrô em São Paulo, depois que o governador João Doria proibiu uso de máscaras por manifestantes, regra que não vale para a PM.
São Paulo – O Movimento Passe Livre (MPL) realiza nesta terça-feira (22) o terceiro ato contra o aumento das passagens dos ônibus e metrô em São Paulo. A concentração começou pouco depois das 17h, com um pequeno atraso em razão de uma forte chuva na capital paulista. Após as 18h30, o ato saiu em passeata do local de concentração, na Praça da Sé, região central, em direção à Avenida Paulista.
Após a manifestação acessar a Avenida Paulista, pela Avenida Brigadeiro Luis Antônio, a PM fez um bloqueio, impedindo o avanço por cerca de uma hora. Durante o cerco, os militares realizaram manobras com as tropas. Mais a frente, o ato MPL se uniu com um debate sobre a relação das armas de fogo com a violência urbana, que acontecia no vão-livre do Masp, com a presença do líder do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST) Guilherme Boulos. 
As passagens subiram, no início do ano, de R$ 4 para R$ 4,30. Os manifestantes consideram o aumento, que ficou acima da inflação, abusivo e cobram respostas do governador João Doria (PSDB) e do prefeito, também tucano, Bruno Covas. Nas duas últimas manifestações, em especial a última, que aconteceu no dia 16, a Polícia Militar agiu de forma violenta, deixando detidos e feridos, entre eles jornalistas. 
Após as cenas de violência, o governador ainda decretou a proibição do uso de máscaras por manifestantes, o que o MPL considera inconstitucional. Um fato chamou a atenção: todos os policiais militares que acompanharam as movimentações estavam usando máscaras. Soma-se a isso o fato deles não possuírem mais identificação com nome, apenas um código alfa-numérico extenso.
Para a jornalista Laura Capriglione, dos Jornalistas Livres, que acompanha o ato, a ausência de identificação dos policiais revela o arbítrio e a truculência da instituição. "Não querem proteger os bons policiais, mas os maus policiais que cometem excessos. Em uma situação de abuso, como a vítima vai decorar esse código enorme?! Ninguém sabe ao certo o que pode acontecer, os policiais podem ficar nervosos e agredirem a qualquer momento", disse.
Para a estudante Luna, do Diretório do Centro Acadêmico (DCE) da Universidade de São Paulo (USP), a ação policial do último ato foi um dos motivadores para seu ativismo. "Estamos aqui, principalmente para denunciar a repressão policial. No último ato teve uma repressão incrível e o Doria está fechando o cerco contra manifestações democráticas e legítimas. O principal é trazer o debate. Quando aumentamos a tarifa, excluímos parte da população mais pobre e todos que precisam andar pela cidade."
Já Dimitri Sales, do Conselho Estadual de Defesa da Pessoa Humana (Condepe), pede cautela aos manifestantes. "Acompanhamos as manifestações desde o começo. Direito de protestar é direito humano. Vemos desde a eleição de Bolsonaro que a tônica é impedir manifestação. Para isso estão utilizando de muita violência policial. Por isso, o Condepe está aqui para fiscalizar a Polícia Militar e exigir que os governantes atuem em razão do interesse do povo. Acompanhamos prisões na última manifestação e a orientação é tomar cuidado, evitar mochila, é provável que a polícia plante provas."
A próxima manifestação do MPL contra o aumento das passagens já tem data marcada. Acontecerá na quarta-feira da semana que vem (30), com concentração às 17h, no Largo da Batata, zona Oeste da capital.
Fonte: RBA

MILICIANOS - Operação policial no Rio prende suspeitos do assassinato de Marielle Franco

Marielle Franco
Ao menos seis testemunhas já citavam um policial, ex-capitão do Bope, como assassino da vereadora e do motorista
por Redação RBA
Indícios apontam que os presos comandem a milícia Escritório do Crime, especializada em assassinatos por encomenda. Alvos de operação foram homenageados por Flávio Bolsonaro em 2003 e 2004.
São Paulo – Uma operação policial no Rio de Janeiro realizou na manhã desta terça-feira (22) a prisão de ao menos cinco suspeitos de envolvimento no assassinato da vereadora Marielle Franco (Psol) e de Anderson Gomes, que dirigia o carro em que ambos foram emboscados, em março do ano passado. De acordo com o jornal O Globo, os presos são integrantes da milícia mais perigosa e antiga do estado, a chamada Escritório do Crime.
A Justiça expediu 13 mandados de prisão preventiva contra a organização criminosa. Os principais alvos da operação são o major da Polícia Militar Ronald Paulo Alves Pereira, o ex-capitão do Batalhão de Operações Especiais (Bope) Adriano Magalhães da Nóbrega, chefe da milícia de Rio das Pedras, e o subtenente reformado da PM Maurício Silvada Costa, o Maurição.
A ação foi desencadeada pelo Grupo de Atuação Especial no Combate ao Crime Organizado (Gaeco), do Ministério Público do Rio de Janeiro (MPRJ), com o apoio da Delegacia de Repressão às Ações Criminosas Organizadas (Draco) e da Coordenadoria de Recursos Especiais (Core) da Polícia Civil.
Apesar do objetivo da ação do MPRJ seja atacar a milícia que explora o ramo imobiliário ilega, em Rio das Pedras, com ações violentas e assassinatos, há indícios de que dois dos alvos de prisão comandem o Escritório do Crime, especializado em assassinatos por encomenda. O jornal afirma que os principais clientes do grupo de matadores profissionais são contraventores e políticos.
A Operação Os Intocáveis é resultado de seis meses de investigação conduzida pelo Gaeco e pela 23ª Promotoria de Justiça de Investigação Penal. A denúncia, com os pedidos de prisão, busca e apreensão, foi distribuída para o 4º Tribunal do Júri da Capital.

Testemunhas apontavam ex-Bope

O Intercept Brasil teve acesso ao inquérito que a Justiça proibiu que a Rede Globo divulgasse. Nele, ao menos seis testemunhas citam um policial, ex-capitão do Bope, como assassino da vereadora e do motorista. 
O grupo paramilitar, na qual o policial participa, tem ao menos outros dois ex-caveiras, homens altamente, que desvirtuaram o aprendizado em troca de dinheiro. Um deles é também ex-oficial, parceiro dos tempos de academia, conforme o inquérito da Polícia Civil. Ambos tiveram participação no assassinato de Marielle, de acordo com o inquérito.
Marielle e Anderson foram assassinados em 14 de março de 2018, e após nove meses o crime segue sem que sejam apontados os culpados.

Homenagem de Bolsonaro

Principais alvos da operação, Adriano Magalhães da Nóbrega e Ronald Paulo Alves Pereira, foram homenageados, em 2003 e 2004, na Assembleia Legislativa do Rio por indicação do deputado estadual Flávio Bolsonaro (PSL). O parlamentar sempre teve ligação estreita com policiais militares.
Adriano chegou a receber a medalha Tiradentes, a mais alta honraria do Legislativo fluminense. Já Ronald ganhou a moção honrosa quando já era investigado como um dos autores de uma chacina de cinco jovens na antiga boate Via Show, em 2003, na Baixada Fluminense. 
O texto da moção de número 2.650/2003 dizia que ele era homenageado "pelos inúmeros serviços prestados à sociedade". Flávio Bolsonaro justificou o ato: "no decorrer de sua carreira, atuou direta e indiretamente em ações promotoras de segurança e tranquilidade para a sociedade, recebendo vários elogios curriculares consignados em seus assentamentos funcionais. Imbuído de espírito comunitário, o que sempre pautou sua vida profissional, atua no cumprimento do seu dever de policial militar no atendimento ao cidadão. É com sentimento de orgulho e satisfação que presto esta homenagem".
Já em março de 2004, Ronald Paulo Alves Pereira também recebeu homenagem por meio de moção honrosa proposta por Flávio Bolsonaro. A moção de número 3.480 foi de louvor e congratulações pelos serviços prestados por Ronald, que na época estava no 22º BPM da Maré, na zona norte.
Fonte: REDE BRASIL ATUAL

A triste despedida de Marcelo Yuka da realidade brasileira

Principal compositor do grupo O Rappa e ativista político engajado, o músico sai de cena num momento político brasileiro avesso às suas utopias
por Alexandre Matias para o UOL
É triste a partida de Marcelo Yuka neste momento da história do Brasil. Embora sempre associado ao grupo O Rappa e ao incidente que o deixou preso a uma cadeira de rodas pelo resto da vida, o compositor e baterista, que morreu nesta sexta-feira (18), reconstruiu sua vida para além deste trecho de sua biografia. Foram sete anos com a banda e 18 depois de sua saída. E uma de suas maiores frustrações era ver a ascensão do fascismo à rotina de nosso país, normalizando a violência e tirando o ódio do armário dos brasileiros.
Ele é um dos personagens-chave na música pop do fim do século passado que ajudou o legado cultural brasileiro do período ir além das monoculturas industrializadas da axé music, do sertanejo e do pagode, puxando temas importantes para serem discutidos em canções que poderiam ser simples hits vazios. Sua presença no grupo O Rappa, que ajudou a fundar no início dos anos 90, era mais importante do que seu papel como músico ou compositor, cargo que dividia com seus companheiros de banda.
Yuka era um ativista da arte e sabia da importância da política nos pequenos atos do dia a dia. Pertencia a uma geração disposta a contar a história das ruas em canções que vão para os rádios, como a Nação Zumbi de Chico Science e os Racionais MC’s de Mano Brown. Juntos, os três delimitaram um território musical no imaginário musical brasileiro que via o levante cultural de uma nova periferia como o começo de um rascunho de um novo país.
“Da Lama ao Caos” (a estreia da Nação Zumbi em 1994), “Sobrevivendo no Inferno” (o disco-manifesto que os Racionais lançaram em 1997) e “Lado B Lado A” (o disco d’O Rappa de 1999 dirigido por Yuka) criaram, através da música, uma nova consciência de classe e uniram diferentes focos do público ouvinte brasileiro que não se identificava com o romantismo escapista do pop que tomava conta das rádios da época.
“Lado B Lado A” é um dos grandes discos de nossa música e a responsabilidade é toda de Yuka, que colocou em prática o que sabia em teoria: a música poderia ter um impacto na vida das pessoas para além da simples diversão. Nos discos anteriores (o homônimo álbum de estreia, de 1994, e “Rappa Mundi”, de 1996), o baterista já se destacava como o principal compositor da banda, assinando letras que sintetizavam sua consciência social, como “Todo Camburão tem um Pouco de Navio Negreiro”, “Fogo Cruzado”, “Brixton, Bronx ou Baixada”, “Catequeses do Medo”, “Pescador de Ilusões”, “A Feira”, “O Homem Bomba” e a versão da letra de “Hey Joe”, imortalizada por Jimi Hendrix.
Sem as canções de Yuka, O Rappa, que foi montado às pressas para acompanhar o cantor jamaicano Pato Banton em uma turnê em 1993, talvez nem existisse –ou se existisse seria menos relevante que outros grupos de reggae no Brasil, como Cidade Negra ou Tribo de Jah.
Com Yuka, O Rappa era um colosso. Em seu terceiro disco, Yuka ia além e afundava ainda mais o dedo na ferida brasileira, em canções imortais como “Minha Alma (A Paz que Eu Não Quero)”, “Cristo e Oxalá”, “Me Deixa”, “Tribunal de Rua” e “O Que Sobrou do Céu”, transformando O Rappa em uma potência musical de fortes matizes políticas, como alguns dos artistas que inspiraram o baterista, como Bob Marley, Public Enemy e The Clash.
Mas foi drasticamente interrompido quando, no dia 9 de novembro do ano 2000, ao tentar parar um assalto que testemunhara no bairro da Tijuca, no Rio de Janeiro, Yuka foi vítima de uma chuva de 15 tiros disparados contra seu carro. Um deles atingiu uma de suas vértebras, deixando-o paraplégico. Mas nem as balas foram o suficiente para pará-lo e o músico seguiu com a banda, mesmo sem poder tocar mais bateria.
Lembro de uma noite memorável no Recife, no primeiro dia do festival Abril Pro Rock de 2001, num dos últimos shows com o músico – já cadeirante – na banda, quando dividiram o palco com a Nação Zumbi e o grupo anglo-indiano Asian Dub Foundation e a tensão política atingia o mesmo clímax que a potência musical dos três grupos reunidos. Yuka deixou O Rappa naquele mesmo 2001, insatisfeito com o rumo que seus ex-companheiros queriam dar para a banda. Ele lamentava que o grupo, que encerrou suas atividades em 2017, mantinha-se como “a maior banda cover de si mesmo do Brasil”, sobrevivendo de um repertório que o baterista havia composto duas décadas antes.
A partir de então, ele passou a se dedicar a seu projeto solo, que logo virou um grupo. Resumido na sigla F.Ur.T.O. (Frente Urbana de Trabalhos Organizados), ele seguia a fusão de rap, rock, reggae e punk d’O Rappa acrescentando funk, dub e música eletrônica à mistura, ao lado do guitarrista carioca Maurício Pacheco (ex-Mulheres Q Dizem Sim e Stereo Maracanã) e dos pernambucanos Alexandre Garnizé (do grupo de rap Faces do Subúrbio) e Jamilson da Silva (da banda de DJ Dolores Orchestra Santa Massa). Seu único disco, “Sangueaudiência”, foi lançado em 2005.
O F.Ur.T.O. também o engajou definitivamente em causas sociais e ele era uma voz constante na periferia, sempre lutando pelo desarmamento e pelo diálogo junto aos mais desassistidos pelo estado. Sua luta política foi para a prática: além de filiado ao PSOL, Yuka também foi candidato a vice-prefeito na chapa liderada por Marcelo Freixo, em 2012. Antes disso, foi assunto do documentário “Marcelo Yuka no Caminho das Setas”, dirigido por Daniela Broitman, em 2011, quando tentou, sem sucesso, encontrar-se com os assaltantes que lhe fizeram vítima, e depois lançou sua versão para os fatos na biografia “Não Se Preocupe Comigo”, assinada ao lado do jornalista Bruno Levinson, em 2014.
Em 2017, Yuka lançou seu primeiro disco solo, “Canções para Depois do Ódio”, que contava com participações das cantoras Céu e Cibelle e lidava com o tema da depressão, que o atacou após o incidente de 2001. Sempre engajado, detectou o início da onda reacionária no Brasil quando o público vibrava ao ver os bandidos mortos no filme Tropa de Elite, de 2007, e numa entrevista na TV com um ator global que se gabava de não ler nem nunca ter feito teatro. “Ele só teve coragem (de falar isso) porque existe um pensamento burro no ar que o respalda”, disse em uma entrevista de 2014.
Por isso mesmo é triste saber que ele partiu deste plano sabendo que a lógica oposta à que sempre trabalhou chegou ao poder justamente por orgulhar-se de sua abjeção. Fica, no entanto, seu legado.
Fonte: UOL

Zé Celso Martinez: ‘Esse governo não tem nem pé nem cabeça’

“É um governo imbecil, desde o primeiro momento, até a posse, antes da posse, tudo. Estão fazendo uma coisa fora de época, essa coisa de globalismo marxista. Não têm a menor ideia do que é Marx”
Por Eduardo Maretti, da RBA
“Eu digo menos pelas palavras e mais pela encenação. Tudo o que eu tenho a dizer está na encenação de Roda Viva”, diz o diretor, ator e dramaturgo José Celso Martinez Corrêa, resumindo o que tem a dizer sobre a atual conjuntura política do país. Ele se refere à peça em cartaz no Teatro Oficina até “antes do Carnaval”, como enfatiza. A montagem é baseada no célebre texto de Chico Buarque de Holanda de 1967.
Diretor da histórica montagem de O Rei da Vela (1967), a partir do original do modernista Oswald de Andrade, Zé Celso não se faz de rogado, como é de seu estilo, ao falar do governo de Jair Bolsonaro e a extinção do Ministério da Cultura, criado em 1985 pelo governo de José Sarney.
“Acho que não é uma questão de pedir a esse governo um ministro da Cultura, porque eles vão colocar um idiota qualquer. Porque eles são imbecis.” A opinião do diretor é semelhante à do próprio Chico Buarque, que, ao jornal El País, declarou: “Com esses ministros, é preferível que A Cultura não tenha ministério”.
Na opinião de Zé Celso, o governo de Jair Bolsonaro é, de fato, “imbecil”. “Não é um governo de direita moderna, mas de direita arcaica. Botar a embaixada em Jerusalém, esse alinhamento com Trump, que está para ter um impeachment… É um governo imbecil, desde o primeiro momento, até a posse, antes da posse, tudo. Eles estão fazendo uma coisa totalmente fora de época, essa coisa de globalismo marxista. Não têm a menor ideia do que é Marx”, diz o dramaturgo, em entrevista à RBA.
O que você tem a dizer sobre a extinção do Ministério da Cultura?
Só o Ministério da Cultura que foi extinto? Ele já declarou o fim da reforma agrária, entregou tudo nas mãos da ministra da Agricultura (Tereza Cristina). Se tivesse Ministério da Cultura, ele ia botar um desses caras, como o do Itamaraty (Ernesto Araújo), ou o da Educação (Ricardo Vélez Rodriguez). Eu sou a favor do Ministério da Cultura, sim. Mas não na mão desse cara.
Muitas pessoas da área artística e cultural estão pessimistas…
Eu não estou pessimista, não. Roda Viva é o maior sucesso de todos os tempos. A gente exprime tudo o que está acontecendo agora, é atualíssimo, maravilhoso. Eu acredito muito mais no teatro, no cinema, nas artes todas, na mídia… Os jornais estão ótimos. Acho que não é uma questão de pedir a esse governo um ministro da Cultura porque eles vão colocar um idiota qualquer. Porque eles são imbecis. A gente conseguiu apoio para ensaiar a peça, conseguiu o Sesc, que está correndo risco também, e o público está lotando, está bancando, está sendo o nosso Ministério da Cultura.
Mas não estou pessimista porque, num certo sentido, a cultura está muito forte, a imprensa está forte, a Globo não está compartilhando totalmente com ele (Bolsonaro). O próprio Faustão desmentiu, mas falou que ele é um imbecil. A gente quer o combate pela própria arte que a gente faz.
Acredita que a democracia está ameaçada?
Super ameaçada! Mas se você quiser entregar um ministério da Cultura a esses fascistas, vai ser um horror. Eles vão ter, aliás, uma secretaria de Cultura para substituir o ministério. Talvez até mantenham a Lei Rouanet. Mas eu acho que a atual situação está fascista mesmo, péssima. Quem não votou nele, que não foram só os que votaram no Haddad, mas também quem votou em branco, nulo, todo esse povo está insatisfeito. Mesmo as pessoas que votaram nele, talvez, estão vendo as loucuras que ele está fazendo. Está a maior confusão, esse governo.
O ministro das Relações Exteriores está em luta com o (Paulo) Guedes, que é o cara mais objetivo, na economia, porque com essa coisa de embaixada em Jerusalém vai fuder com a economia brasileira. Não está dando certo esse governo. A única esperança que eles têm é na economia, o neoliberalismo.
Minha posição é a seguinte: diante do movimento de oposição, dos jornalistas, dos artistas de teatro, de cinema, de música, da grande arte popular brasileira, tudo isso dá uma força enorme agora, porque a maioria do povo brasileiro, inclusive talvez os que votaram nele, agora estão vendo o que acontece.
O que é pior para a cultura, o regime militar ou agora?
Muito pior agora! Fui até torturado no regime militar, mas agora é muito pior. A cultura estava ótima, inclusive. Foi no período militar que surgiu a Tropicália, Rei da Vela, Terra em Transe, Hélio Oiticica, Caetano. A gente conseguiu trabalhar até um determinado momento, depois foi ficando pior, depois do AI-5. Mas a gente conseguiu trabalhar até fazer As Três Irmãs (1972), nosso último espetáculo. Depois a pressão era muito forte, não tinha mais condições de fazer. Mas a cultura não fica fraca nesses momentos. Ela fica forte, mas sem o patrocínio do governo.
E a Cultura hoje?
A cultura está ótima agora. Os teatros estão cheios, estão fazendo filmes ótimos, músicas ótimas, os artistas fazendo memes na internet, ridicularizando. O que a gente tem que fazer é ridicularizar ao máximo.
Seria como no poema de Carlos Drummond, “e o humor”?
Muito humor, cara! O festival de besteira do Stanislaw Ponte Preta. É um absurdo esse governo, não tem pé nem cabeça. O estadual também. Aqui em São Paulo nem sei ainda, mas no Rio de Janeiro aquele cara (Wilson Witzel) está fazendo loucura, a própria Globo está contra ele. O cara quer matar as pessoas. Hoje eu vi na própria Globo que o cara enlouqueceu.
Nesse contexto o que você espera para o futuro da nova geração?
A nova geração não vai embarcar muito nessa, não. Uma parte embarca, mas outra não, se a gente continuar trabalhando na cultura, fazendo o que estamos fazendo, de uma maneira mais satírica, mais paródica, como é o caso de Rei da Vela, de Roda Viva, no meu caso. Mas no caso de outras peças em cartaz, tá todo mundo mandando o pau, a não ser os grupos que são alienados mesmo. Mas a cultura está muito forte.
O que acha do fato de o povo ter elegido esse governo?
O povo não elegeu esse governo, porque além do Haddad ter tido 47 milhões de votos, somando tudo, com os votos brancos e nulos, é muito maior do que os votos no Bolsonaro. O povo elegeu porque foi feita uma campanha de WhatSapp. Além da esquerda, tem muita gente que nem é de esquerda que já tá curtindo na cara desse governo. Não é só esquerda. A esquerda não está sozinha. Acho que nesse momento a gente tem que continuar criando, provocando.
E o teatro é muito importante, porque é uma aglutinação de pessoas juntas, então passa a ter uma força muito grande nesses momentos de crise. Tem muitos teatros com coisas muito boas, cheios. Tem os que ficam ali fazendo teatrão, mas a maior parte dos melhores teatros está em combate, como o cinema também, as artes plásticas, a literatura, a música. É um momento forte no Brasil. Se você assistir Roda Viva você vai ficar pasmo.
Não tem pé nem cabeça, esse governo. Não é um governo de direita moderna, mas de direita arcaica. Botar a embaixada em Jerusalém, esse alinhamento com Trump, que está para ter um impeachment. É um governo imbecil, desde o primeiro momento, até a posse, antes da posse, tudo. Eles estão fazendo uma coisa totalmente fora de época, essa coisa de globalismo marxista. Não têm a menor ideia do que é Marx. É ignorância sobre o que é globalização, que é uma coisa do capitalismo. E aquele cara então, Olavo de Carvalho? Não é filósofo nem aqui nem em lugar nenhum. Ele diz palavrão de uma maneira tão nojenta. Ele xinga como se fosse uma criança analfabeta. Xinga grandes artistas, como xingou o Caetano, xinga todo mundo.
Estão dizendo agora até que a Terra é plana. Estão negando Galileu Galilei. Estão negando que a Terra é redonda. Os astronautas viram a Terra redonda. Então, é um regime que eu tenho a impressão de que não vai muito adiante, não. Ele é totalmente irracional, além de ser fascista, mas é um fascismo totalmente ignorante – acho que todo fascismo deve ser assim, não sei. Não tem fundamentação científica, filosófica, nada. É inacreditável. Eu não acredito no que eu tô vendo. É surreal. É um governo totalmente ideológico, abstrato – eu não tenho ideologia, acredito no aqui e agora. É um governo messiânico, acredita em messias. É um retrógrado que vai para a Idade Média. É uma coisa anticientífica, antitudo.
Eu digo menos pelas palavras e mais pela encenação. Tudo o que eu tenho a dizer está na encenação de Roda Viva.
Serviço:
Roda Viva
Teatro Oficina, Rua Jaceguai, 520, tel. (11) 3106-2818
Horários: sexta e sábado às 20h e domingo às 19h. Ingressos: de R$15 a R$ 60. Duração: 3h30. Classificação: 18 anos. Temporada: até 10 de fevereiro de 2019.