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terça-feira, 5 de março de 2019

SOCIEDADE - Partido de Bolsonaro quer mudar ECA para liberar apreensão de menores

O STF está prestes a julgar antiga ação do PSL para liberar a apreensão de crianças e adolescentes em situação de rua para “averiguação”

Passado o Carnaval, o Supremo Tribunal Federal vai debruçar-se sobre uma peculiar ação movida pelo PSL, o partido do presidente Jair Bolsonaro, contra dispositivos do Estatuto da Criança e do Adolescente, conhecido pela sigla ECA. Apresentada em 2005, a petição solicita que a Corte declare inconstitucionais os artigos 16 e 230 da Lei nº 8.069/90, justamente aqueles que impedem a detenção de menores para averiguação ou por motivo de perambulação nas ruas. Numerosas entidades de defesa dos direitos humanos, como Conectas e Fundação Abrinq, pediram para participar do julgamento na condição de amicus curiae. À época, tal mobilização talvez fosse desnecessária. Desde o nascedouro a ação parecia fadada ao fracasso, uma vez que as prisões para averiguação, tão comuns na ditadura, não são admitidas pela Constituição de 1988 nem mesmo para enquadrar os adultos, que só podem ser detidos em flagrante de crime ou por expressa ordem judicial.
O tempora, o mores! Diante dos recorrentes ataques ao Estado Democrático de Direito no Brasil, é preciso pôr as barbas de molho. Quem se levantaria contra a legalização de uma nova arbitrariedade? Na Justiça paulista, felizmente, dois promotores e uma juíza desempenharam esse papel após o Shopping Pátio Higienópolis, reduto de paulistanos endinheirados, pleitear o direito de apreender crianças e adolescentes desacompanhados dos pais para entregá-los ao Conselho Tutelar ou à Polícia Militar. Não que os estudantes dos colégios particulares da região estivessem a perigo. Os alvos eram bem definidos: menores em situação de rua, que pediam esmola ou praticavam atos de vandalismo, furtos e “intimidação aos frequentadores”.
Recentemente, o Shopping Pátio Higienópolis fez pleito semelhante à Justiça paulista, e levou uma lição da magistrada
Em seu despacho, a promotora Maria Fernandes de Lima Esteves, da Vara da Infância e da Juventude, manifestou-se pela extinção da ação. Segundo ela, a apreensão de crianças e adolescentes é competência da polícia, não pode ser delegada a terceiros. Se constatada a prática de um ato infracional, bastaria chamar a autoridade policial para tomar as providências. Ao analisar o caso, a juíza Monica Gonzaga Arnoni acrescentou:
“Considerando que o pedido de autorização para apreensão também engloba os menores que não estejam na companhia de seus pais ou responsáveis e que estejam se colocando em situação de risco, bem como os frequentadores ou, ainda, esmolando nas dependências do empreendimento, objetiva o autor, em verdade, um salvo-conduto para efetivar no estabelecimento uma genuína higiene social”.
RAPHAEL ALVES/AFP
A magistrada tem razão. Nenhuma autoridade judicial se arriscaria a ordenar a apreensão de um menor por mendicância, que não é crime, muito menos ato infracional. Se o fizesse, estaria desrespeitando o direito constitucional de ir e vir, além de cometer um delito previsto no artigo 230 do ECA, transcrito a seguir na íntegra: “Privar a criança ou o adolescente de sua liberdade, procedendo à sua apreensão sem estar em flagrante de ato infracional ou inexistindo ordem escrita de autoridade judiciária competente. Pena: detenção de seis meses a dois anos. Parágrafo único: Incide na mesma pena aquele que procede à apreensão sem observância das formalidades legais”.
É justamente esse ponto que o PSL deseja suprimir do ECA, uma espécie de salvaguarda para os seguranças de estabelecimentos comerciais que precisam lidar com os “ameaçadores” garotos. “Se o shopping quisesse tratar a questão com seriedade, poderia fazer parcerias com organizações sociais para que educadores realizassem a abordagem dessas crianças e encaminhamentos em conjunto com os Conselhos Tutelares, Varas da Infância e Juventude, Secretaria Municipal de Assistência Social, visando o estabelecimento dos vínculos familiares, frequência escolar e em programas de educação por tempo integral, para que saiam da situação de risco, de exclusão social e de trabalho infantil”, detalha o advogado Ariel de Castro Alves, integrante do Conselho Estadual de Direitos Humanos de São Paulo. “Da forma como desejam atuar, o objetivo parece ser mesmo o de marginalizar e excluir esses garotos, o de ‘limpar’ o shopping. A juíza deu uma aula de Estatuto da Criança e do Adolescente.”
Após o episódio, o Ministério Público de São Paulo instaurou um inquérito civil para verificar a formação dos seguranças de empresas privadas de vigilância, com vistas à efetivação dos direitos das crianças e dos adolescentes. “Temos relatos de abusos praticados contra menores em outros shoppings. Não podemos permitir a repetição da tragédia que aconteceu no Rio de Janeiro”, afirma o promotor Eduardo Dias de Souza Ferreira, em alusão à morte de um jovem por um segurança da rede de supermercados Extra. Ele também abriu um inquérito para apurar a efetividade da política municipal de assistência social direcionada para as crianças e adolescentes em situação de rua, mas não consegue conceber a legalização da prática de apreender menores para averiguação ou por motivo de perambulação. “Desde 1988, ninguém pode ser detido para averiguação porque a Constituição, em seu artigo 5º, veda tal prática. O problema da população infantil em situação de rua é sério, mas fruto da absoluta ineficiência dos órgãos de proteção e acompanhamento.”
Letra morta? Pela Constituição, um cidadão, adulto ou criança, só pode ser preso em flagrante ou por ordem judicial
Ao se manifestar sobre o assunto, o Pátio Higienópolis pediu “sinceras desculpas por gerar qualquer tipo de interpretação contrária à intenção de proteger os menores desacompanhados”. O shopping, vale relembrar, já foi acusado de racismo há dois anos, quando o jornalista Enio Squeff, branco, tomava chá com o filho Raul, de 7 anos e negro, e foi interpelado por uma funcionária, que lhe perguntou se o garoto “estava incomodando”. À época, o estabelecimento lamentou o ocorrido e disse que “reorientou a colaboradora envolvida”.
O PSL, por sua vez, mantém firme a determinação de facilitar a apreensão de menores por meio da Ação Direta de Inconstitucionalidade (Adin) interposta há 14 anos. “Entendemos que toda criança precisa ser repreendida quando faz algo errado”, justificou o partido, em recente nota enviada ao jornal O Globo. Um erro como pedir esmola ou vagar pelas ruas? Embora Bolsonaro não estivesse filiado ao partido em 2005 e não tenha defendido publicamente a iniciativa, seria uma grande surpresa se ele se manifestasse contra. Em plena campanha presidencial, ele chegou a dizer que o ECA deveria “ser rasgado e jogado na latrina”. “É um estímulo à vagabundagem e à malandragem infantil”, acrescentou o então candidato, defensor da redução da maioridade penal para 14 anos. Conforme a agenda proposta pelo ministro Dias Toffoli, o julgamento da Adin está previsto para 13 de março.
Esse não é, porém, o único indicativo de como o atual governo pretende lidar com os indesejáveis. No início de fevereiro, o Ministério da Saúde publicou uma nota técnica que abre brechas para o retorno dos manicômios e seus medievais procedimentos terapêuticos. Com novas diretrizes para as políticas de saúde mental, o documento prioriza as internações psiquiátricas em detrimento dos serviços ambulatoriais de base comunitária, além de permitir a volta do eletrochoque. Libera ainda a internação de crianças e adolescentes nos mesmos espaços destinados aos adultos.
O governo também quer endurecer as penas dos adultos e permitir a volta dos manicômios. É a sua forma de lidar com os “indesejáveis”
HOSPÍCIO CHEGOU A TER 5.000 PESSOAS AO MESMO TEMPO, ENQUANTO QUE A CAPACIDADE ERA PARA 200 PACIENTES. (FOTO: DIVULGAÇÃO/LUIZ ALFREDO/REVISTA O CRUZEIRO)
Na prática, esse novo documento aprofunda as diretrizes lançadas em 2017 pelo governo Temer. Já naquela época, o ex-ministro da Saúde José Gomes Temporão juntou-se a outros colegas para divulgar um manifesto contra a reformulação. “Por trás desse pensamento, bastante disseminado na sociedade, há uma visão distorcida, da loucura como ameaça. Quem sofre algum distúrbio psíquico é visto como um desvio da norma, alguém que precisa ser afastado do convívio social”, disse à CartaCapital, lembrando que os hospitais psiquiátricos funcionavam como verdadeiros depósitos humanos até serem desativados pela política antimanicomial. “Ainda prevalece uma visão bastante preconceituosa, semelhante àquela que vemos contra pacientes com hanseníase ou tuberculose. Mas a solução não é encarcerar os indesejáveis.”
Não bastasse, o “pacote anticrime” apresentado por Sérgio Moro, ministro da Justiça de Bolsonaro, propõe o recrudescimento das penas e cria obstáculos para a progressão penal. O projeto estabelece que, se o condenado por qualquer crime for reincidente, o regime inicial da pena será o fechado. Isso também valerá para os sentenciados por crimes como peculato, corrupção e roubo. Os sentenciados por crimes hediondos também não têm direito a saídas temporárias, salvo para tratamento médico ou em caso de morte de parente – direito recentemente negado em duas instâncias ao ex-presidente Lula, vale registrar.
O Supremo, no entanto, já declarou inconstitucionais regras semelhantes previstas na Lei de Crimes Hediondos, aprovada em 1990. Um dos parágrafos desta lei estabelecia que a pena para condenados por crimes graves deveria ser cumprida integralmente em regime fechado. Relator de um habeas corpus sobre o tema, o ministro Marco Aurélio Mello apontou que a obrigatoriedade do regime fechado conflita com a garantia da individualização da pena, prevista no artigo 5º, XLVI, da Constituição. Desde 2006, a regra não tem mais validade.
FOTO: ANDRESSA ANHOLETE/AFP
Pesquisas do Instituto Sou da Paz demonstram que cerca de 40% dos projetos apresentados a cada ano pelos deputados federais com o objetivo de melhorar a segurança pública buscam tipificar um novo crime ou aumentar a pena de um já existente. “O resultado observado não é a diminuição da violência, mas sim a superlotação e a perda de controle dos presídios de todo o País”, diz a ONG. De fato, se cadeia resolvesse, o Brasil seria uma das nações mais seguras do mundo. O número de detentos passou de pouco mais de 90 mil, em 1990, para 726,7 mil em junho de 2016, segundo o último levantamento divulgado pelo Departamento Penitenciário Nacional. Trata-se da terceira maior população carcerária do mundo, atrás apenas dos Estados Unidos e da China.
Efeito colateral. O encarceramento em massa permitiu a ascensão das facções nos presídios e toda sorte de violações nos antigos hospitais psiquiátricos


O encarceramento em massa não foi capaz, porém, de trazer pacificação social. Apenas em 2017, o País registrou 63.880 mortes violentas, segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública. O número é quase 17 vezes superior aos 3.804 civis mortos no Afeganistão no ano passado, segundo um balanço recém-divulgado pelas Nações Unidas. Os talebans e insurgentes do Estado Islâmico precisariam de uma década para produzir o mesmo número de cadáveres contabilizados no Brasil em apenas um ano.
Fonte: CARTA CAPITAL

ENREDO Samba da Mangueira 2019 traz Marielle, Dandara e a história que a história não conta

Mangueira
'Conta-se uma história na qual as páginas escolhidas o ninam na infância para que, quando gente grande, você continue em sono profundo'.
"Desde 1500 tem mais invasão do que descobrimento (...) Eu quero um país que não está no retrato", diz enredo da Estação Primeira, esperada para 2h40 desta madrugada. Tuiuti volta com mensagem social, à 1h35.
São Paulo – O samba-enredo da Estação Primeira de Mangueira no carnaval 2019 leva de volta à Marquês de Sapucaí uma leitura crítica da história do Brasil. Com História pra Ninar Gente Grande, a tradicional escola reconta o processo de ocupação do país desde o descobrimento.
"Desde 1500 tem mais invasão do que descobrimento", diz o samba composto por Tomaz Miranda, em entrevista recente à RBA. Para ele,  manifestações culturais como as que têm sido vistas no carnaval 2019 "vão ter papel fundamental para poder driblar todo autoritarismo e o conservadorismo que a gente vai enfrentar nesses próximos anos".
Brasil, meu nego
Deixa eu te contar
A história que a história não conta
O avesso do mesmo lugar
Na luta é que a gente se encontra

O argumento do enredo é contundente: "Ao dizer que o Brasil foi descoberto e não dominado e saqueado; ao dar contorno heroico aos feitos que, na realidade, roubaram o protagonismo do povo brasileiro; ao selecionar heróis 'dignos' de serem eternizados em forma de estátuas; ao propagar o mito do povo pacífico, ensinando que as conquistas são fruto da concessão de uma 'princesa' e não do resultado de muitas lutas, conta-se uma história na qual as páginas escolhidas o ninam na infância para que, quando gente grande, você continue em sono profundo". 
A Mangueira repete a ousadia da Paraíso do Tuiuti, vice-campeã de 2018 com o enredo Meu Deus, Meu Deus, Está extinta a Escravidão? No ano passado, a escola do bairro de São Cristóvão surpreendeu a avenida e cativou o público com um histórico samba de protesto contra o racismo e as sequelas da escravidão até hoje sofridas pela população negra do país. Uma das alas trazia "manifestoches", ironizando o papel manipulador da mídia e das redes sociais na formação de manifestantes que foram às ruas contra tudo e contra todos e contribuíram para que o poder e a política permaneçam sob o controle dos mesmos grupos econômicos de sempre.
"Meu Deus! Meu Deus!/ Se eu chorar, não leve a mal/ Pela luz do candeeiro/ Liberte o cativeiro social", dizia a letra da Tuiuti, que ficou apenas um décimo de ponto atrás da campeã Beija Flor no carnaval de 2018.
Este ano, a escola do carnavalesco Jack Vasconcelos volta ao samba com crítica social, em um enredo que expõe conflito de classes e embate social. Diz trecho da letra de O Salvador da Pátria, cuja referência tem sido atribuída à história do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
Do nada um bode vindo lá do interior
Destino pobre, nordestino sonhador
Vazou da fome, retirante ao Deus dará
Soprou as chamas do dragão do mar
(...)
Ora meu patrão!
Vida de gado desse povo tão marcado
Não precisa de dotô
Quando clareou o resultado
Tava o bode ali sentado
Aclamado o vencedor

A Tuiuti está prevista para entrar na Sapucaí a partir de 1h35, pode ser mais tarde, e a Mangueira entra na sequência, a partir de 2h40. Também desfilam, a partir das 21h15 desta segunida-feira (4): São Clemente, Unidos de Vila Isabel (22h20), Portela (23h25), União da Ilha (00h30), Mocidade Independente de Padre Miguel (3h35). 

Cultura e resistência

O carioca Tomaz Miranda, um dos autores do samba da Mangueira História pra Ninar Gente Grande (ao lado de Deivid Domênico, Mama, Márcio Bola, Ronie Oliveira e Danilo Firmino), vê um processo de resistência se impondo ao Brasil desde a ascensão do bolsonarismo. O samba lembra, entre outros momentos da história recente, a vereadora do Psol-RJ Marielle Franco, morta a tiros, em março passado, junto com Anderson Gomes, que dirigia o carro em que foram emboscados, no centro do Rio. 
"Acho que vai ficar mais aguda a tentativa de apagamento, de desconstrução da cultura popular, principalmente ligada às origens africanas, às manifestações culturais, religiosas e sociais verdadeiramente populares do Brasil", disse Tomaz.
"Acho que ao mesmo tempo essas manifestações vão ter papel fundamental para poder driblar todo autoritarismo e o conservadorismo que a gente vai enfrentar nesses próximos anos", pondera, admitindo que o carnaval tem seu lado conservador: "As escolas de samba não são uma coisa só. E a gente vai tentando jogar dentro desses espaços de contradição".
A jornalista Hildegard Angel, colunista do Jornal do Brasil, comemorou o convite para desfilar na Mangueira, na frente do carro dos "verdadeiros heróis de nossa História". Segundo ela, a alegoria traz, sobre livros da história do Brasil, um tributo fortíssimo aos heróis do tempo da ditadura. "Eu quis declinar, não tenho mérito pra isso. Mas o carnavalesco disse que eu passei a representar a denúncia daquele tempo. Estou comovida", disse. "Os carros estão todos lindos e trazendo mensagens contundentes, desde a Abolição, com heroína fake. Me vejam na TV, se é que a Globo vai me mostrar."
Hildegard é filha de Zuzu Angel e irmã de Stuart Angel. Zuzu foi morta pela ditadura por acuar, com sua busca obstinada, o governo militar em razão do desaparecimento e assassinato de Stuart Angel. 

Confira o samba da Mangueira 2019

História pra Ninar Gente Grande
Mangueira, tira a poeira dos porões
Ô, abre alas pros teus heróis de barracões
Dos Brasis que se faz um país de Lecis, jamelões
São verde e rosa, as multidões

Mangueira, tira a poeira dos porões
Ô, abre alas pros teus heróis de barracões
Dos Brasis que se faz um país de Lecis, jamelões
São verde e rosa, as multidões

Brasil, meu nego
Deixa eu te contar
A história que a história não conta
O avesso do mesmo lugar
Na luta é que a gente se encontra

Brasil, meu dengo
A Mangueira chegou
Com versos que o livro apagou
Desde 1500 tem mais invasão do que descobrimento
Tem sangue retinto pisado
Atrás do herói emoldurado
Mulheres, tamoios, mulatos
Eu quero um país que não está no retrato

Brasil, o teu nome é Dandara
E a tua cara é de cariri
Não veio do céu
Nem das mãos de Isabel
A liberdade é um dragão no mar de Aracati

Salve os caboclos de julho
Quem foi de aço nos anos de chumbo
Brasil, chegou a vez
De ouvir as Marias, Mahins, Marielles, malês

Confira o samba da Paraíso da Tuiuti 2019 

O Salvador da Pátria
O meu bode tem cabelo na venta
O Tuiuti me representa
Meu Paraíso escolheu o Ceará
Vou bodejar lá iá lá iá

Vendeu-se o Brasil num palanque da praça
E ao homem serviu ferro, lodo e mordaça
Vendeu-se o Brasil do sertão até o mangue
E o homem servil verteu lágrimas de sangue

Do nada um bode vindo lá do interior
Destino pobre, nordestino sonhador
Vazou da fome, retirante ao Deus dará
Soprou as chamas do dragão do mar

Passava o dia ruminando poesia
Batendo cascos no calor dos mafuás
Bafo de bode perfumando a boemia
Levou no colo Iracema até o cais
Com luxo não! Chão de capim!
Nasceu muderna Fortaleza pro bichim

Pega na viola, diz um verso pra iô iô
O salvador! O salvador! (da pátria)

Ora meu patrão!
Vida de gado desse povo tão marcado
Não precisa de dotô
Quando clareou o resultado
Tava o bode ali sentado
Aclamado o vencedor

Nem berrar, berrou, sequer assumiu
Isso aqui iô iô é um pouquinho de Brasil

segunda-feira, 4 de março de 2019

“Vocês sabem muito bem o que estão fazendo e são assassinos”, diz antropólogo

Antropólogo brasileiro Eduardo Viveiros de Castro. Foto: Reprodução/YouTube
Publicado originalmente no Público.pt
POR ALEXANDRA PRADO COELHO
“Os gangsters tomaram o poder no Brasil”, diz o antropólogo brasileiro Eduardo Viveiros de Castro. E isso tem, naturalmente, consequências graves para as comunidades indígenas. “É uma situação tipo 1984 do [George] Orwell, você coloca o maior inimigo do meio ambiente como ministro do meio ambiente, o maior inimigo dos direitos dos indígenas como responsável pela Funai [Fundação Nacional do Índio. O Governo inteiro é montado nesse princípio: quem é a pior pessoa possível para este lugar?”.
Viveiros de Castro era já muito crítico dos governos anteriores do Partido Trabalhista de Lula da Silva e Dilma Rousseff também na forma como encaravam a questão indígena, mas agora vê uma diferença substancial. “Perto do actual Governo [de Jair Bolsonaro], aqueles eram o paraíso – e eu já os achava muito ruins pela total incapacidade de imaginar uma outra via de desenvolvimento que não fosse a do crescimento económico às custas da natureza, das terras públicas, dos modos de vida que não estão alinhados com a sociedade de consumo e com esse ideal de classe média para todos.”.
O antropólogo vê uma diferença básica na postura de uns e dos outros. “Se os anteriores eram ruins na área ambiental e dos direitos dos indígenas, era mais por omissão, por incompreensão, por uma certa tacanhez ideológica, uma certa miopia, os actuais são pessoas que têm como objectivo acabar com os índios. Acabar mesmo, rever as demarcações, privatizar as terras, catequizar os índios.”.
A crítica que se pode fazer ao PT, diz Viveiros de Castro, é a de que não entendem – “não entendem a questão indígena, o que a Amazónia vale, não entendem que esse modelo de desenvolvimento é uma cópia grotesca do dos Estados Unidos e que não é para funcionar aqui”. Já com o actual Executivo, a situação é outra: “Vocês sabem muito bem o que estão fazendo e são assassinos.”.
Se Bolsonaro e a sua equipa terão ou não meios para levar até ao fim essa agenda, não sabe ainda responder. “Esperamos que não mas até agora estão fazendo exactamente tudo o que disseram que iam fazer, ou pior. Cada dia aparece uma notícia mais sinistra, parece que você está num filme de terror – querem privatizar 100% das terras, acabar com os índios, com os quilombolas, retirar direitos à população mais pobre.”
Identifica neste Governo duas pernas, “de um lado o neoliberalismo mais extremo, mais radical, e do outro o obscurantismo ideológico do fundamentalismo evangélico pentecostal que vê os índios como pecadores, acha que xamã é coisa do diabo, e é ele quem manda missionários para todas as áreas indígenas.”.
Apesar disso, mantém um certo optimismo. “O líder indígena Ailton Krenak falou uma coisa bastante sensata. [Disse que] este Governo é terrível mas a gente está preocupada com vocês, brancos, porque nós, índios, estamos vivendo isso há 500 anos, estamos acostumados, vocês é que não estavam, coitados. Estamos solidários com vocês, com pena dos brancos bons, mas a gente vai escapar desta, passámos 500 anos escapando disso.”.
No centro de tudo está a questão da posse da terra. “Os índios não são mais importantes como mão-de-obra. O que importa é a terra e no Brasil as terras indígenas são da União, são públicas, e existe hoje, absolutamente explícito, o projecto de privatizar 100%, se possível, todas as terras públicas do Brasil para poderem ser comercializadas para o agro-negócio, para plantar soja, criar gado, explorar minério.”.
Claro que a relação dos índios com a terra é fundamental mas, lembra Viveiros de Castro, “a maior parte das terras indígenas estão na Amazónia e 60% da população indígena está fora da Amazónia, tem mais índios fora das terras indígenas do que dentro”. Na Amazónia “tem terras grandes com populações mais isoladas, mas acossadas por hidroeléctricas, por mineradoras, por garimpeiros, fazendeiros de soja, de gado, e essas vão sendo, a pouco e pouco, comprimidas.”
Ligada a esta surge a questão do estatuto do índio. “A Constituição brasileira de 1988 reconheceu pela primeira vez aos índios o direito de permanecerem índios.”. Isso foi uma conquista porque “toda a concepção da nacionalidade é que índio é um estado transitório, que eles vão deixar de ser índios. Havia estádios de integração: índio isolado, em contacto intermitente, em contacto permanente e integrado”.
Mas, afirma, “de 88 para cá há uma campanha concertada da direita para reverter todos os ganhos da Constituição, entre os quais o carácter permanente da condição indígena e o carácter colectivo dos direitos às terras indígenas.”. O que existe hoje no Brasil, na perspectiva de Viveiros de Castro, é “um projecto de reforma não explícita da Constituição para fazer a situação voltar ao statu quo anterior a 88”. E, conclui, “antes de 88 é, mais coisa menos coisa, a ditadura”.
 
 

Confira a programação do 2º dia do desfile das escolas do Rio

As últimas sete agremiações que se apresentam são: São Clemente, Vila Isabel, Portela, União da Ilha, Paraíso do Tuiuti, Mangueira e Mocidade
O segundo dia do desfile das escolas no Sambódromo vai até a madrugada de terça-feira
As últimas sete escolas das 14 que compõem o Grupo Especial no Rio de Janeiro desfilam entre a noite desta segunda-feira (4) e a madrugada de terça-feira (5). A abertura do segundo e último dia de desfiles ficará por conta da São Clemente, que entra no Sambódromo com horário marcado para as 21h15.
A escola amarela e preta, que se originou em Botafogo e hoje tem sede no centro da cidade, levará para a Marquês de Sapucaí uma reflexão sobre o mundo do samba e uma homenagem aos antigos carnavais.
Assim como a Império Serrano, em vez de trazer uma composição original, decidiu trazer uma reedição de um samba da agremiação, de 1990, ano em que a escola conquistou um sexto lugar, sua melhor colocação até hoje.
A tricampeã Unidos de Vila Isabel (1988, 2006 e 2013) é a segunda a entrar na Passarela do Samba, às 22h20. A azul e branco da Vila homenageia Petrópolis, a Cidade Imperial.
Às 23h25 entra na avenida a maior campeã do carnaval carioca, a Portela, que tem nada menos do que 22 títulos, sendo o último conquistado em 2017. A azul e branco de Madureira levará para o Sambódromo uma homenagem à cantora Clara Nunes e sua relação com o bairro de origem da escola de samba.
A União da Ilha do Governador, que assim como a São Clemente e a Acadêmicos do Grande Rio nunca levou um título do grupo especial para casa, será a quarta escola a desfilar, a partir de 0h30 de terça-feira. A tricolor (azul, vermelha e branco) da Ilha vai usar os escritores Rachel de Queiroz e José de Alencar para homenagear o Ceará.
A atual vice-campeã, Paraíso do Tuiuti, que tem as cores azul e amarelo e que também nunca ganhou um título no Grupo Especial, entra na avenida à 1h35. A agremiação de São Cristóvão vai usar a figura cearense do bode Ioiô para protestar contra a política brasileira.
A sexta escola a pisar na avenida, às 2h40, será a multicampeã Estação Primeira de Mangueira, que tem 19 títulos – o último deles de 2016. O enredo da verde e rosa vai falar sobre os heróis populares que não aparecem nos livros de história brasileira.
A segunda noite de Carnaval no Sambódromo termina com o desfile da Mocidade Independente de Padre Miguel, que entra na Sapucaí às 3h45, com um enredo sobre o tempo. A escola da zona oeste busca repetir o feito de 2017 e conquistar seu sétimo título.

Jurados e quesitos

Trinta e seis jurados avaliarão as escolas em nove quesitos: mestre-sala e porta-bandeira, bateria, samba-enredo, harmonia, evolução, enredo, alegorias e adereços, fantasias e comissão de frente. Cada quesito receberá uma nota de 9,0 a 10, com variação de casa decimal (como 9,1 ou 9,8, por exemplo).
As duas últimas colocadas serão rebaixadas para o Grupo de Acesso, enquanto a campeã do Grupo de Acesso desfilará no Grupo Especial em 2020. As seis primeiras colocadas voltam a desfilar no sábado (9).

Para entender o desfile

Cada escola de samba tem no mínimo 65 minutos e no máximo 75 minutos para desfilar; pelo menos 200 ritmistas na bateria; pelo menos 70 baianas; de 5 a 6 alegorias; de 10 a 15 pessoas na comissão de frente; máximo de 200 diretores e de 2,5 mil a 3,5 mil componentes

Confira a ordem do desfile:

– São Clemente
– Vila Isabel
– Portela
– União da Ilha do Governador
– Paraíso do Tuiuti
– Mangueira
– Mocidade Independente de Padre Miguel

Saia justa na Globo: Paraíso do Tuiuti levará Lula para a Sapucaí esta noite

Jack Vasconcelos e Lula, quando esteve na Bahia e dançou a sarrada

 
O carnavelsco Jack Vasconcelos vai provocar uma nova saia justa de novo aos apresentadores da TV Globo, logo mais, no desfile da Sapucaí.
No ano passado, o carnavalesco colocou na rua um enredo que denunciava o golpe e a manipulação midiática que criou os “manifestoches”, termo criado por ele.
Com a beleza do espetáculo e sua repercussão, a Paraíso do Tuiuti conquistou o vice-campeonato, embora muitos achassem que merecia o título, que ficou com a Beija-Flor, preferida de muitos na Globo.
Desta vez, Jack Vasconcelos tratará de Lula, sem citá-lo nominalmente.
Se ainda houver jornalismo na Globo, os apresentadores e os repórteres da emissora terão que explicar o enredo e, obviamente, mencionar a palavra proibida: Lula.
Divulgado ontem, o enredo da Paraíso do Tuiuti trata de um bode que ficou muito famoso na década de 20  em Fortaleza, Ioiô, e hoje, empalhado, pode ser visto em museu.
O bode era tão popular que bebia com pessoas na rua, e foi eleito vereador, mas não pode assumir.
Lula entra na história por não poder assumir, mas naturalmente sua eleição não seria um ato de protesto, mas o resultado do curso natural da política.
Num trecho do enredo, Jack Vasconcelos explica:
“Vocês que fazem parte dessa massa irão conhecer um mito de verdade: nordestino, barbudo, baixinho, de origem pobre, amado pelos humildes e por intelectuais, incomodou a elite e foi condenado a virar símbolo da identidade de um povo. Um herói da resistência!”.
O texto que explica o enredo também cutuca a Lava Jato de Sergio Moro, ao tratar da forma como Lula foi  condenado:
“Não posso provar, mas tenho total convicção da autenticidade de tudo o que a ele atribuíram…”.
Quem ler a sentença de Sergio Moro não encontrará a descrição de conduta criminosa nem a apresentação de provas de crime.
Fatos indeterminados…, que o carnavalesco e tantos outros não engolem.
Jack Vasconcelos é formado em Belas Artes pela Universidade Federal do Rio de Janeiro.
Passou por algumas escolas do Grupo Especial e do Grupo de Acesso até se consagrar, no ano passado, com o enredo: “Meu Deus, meu Deus, está extinta a escravidão?”
É um intelectual, que retira suas ideias de textos densos de história e sociologia. No ano passado, admitiu que o livro “A Elite do Atraso – Da Escravidão à Lava Jato”, de Jessé Sousa, foi uma de suas referências.
Desta vez, foi buscar a história de um bode popular para, metaforicamente, passar a mensagem que o Brasil precisa entender.
Fonte: Diário do Centro do Mundo - DCM