Cultura significa todo aquele complexo que inclui o conhecimento, a arte, as crenças, a lei, a moral, os costumes e todos os hábitos e aptidões adquiridos pelo ser humano não somente em família, como também por fazer parte de uma sociedade da qual é membros,. ativistas, poetas, escritores, produtores culturais, grupos culturais, violeiros, pensantes e os que admiram e lutam pela cultura potiguar. Cultura! A Cultura, VIVE e Resiste! "Blog do CPC/RN, notícias variadas na BASE DA CULTURA!
Novo ato nacional convocado pelos estudantes defenderá a Amazônia e a educação
por Renata Bars.
Os estudantes brasileiros vêm marcando forte posição contra os desmandos do governo Bolsonaro. Foi assim no mês de maio e no último mês de agosto quando cidades de todo o país foram ocupadas por milhares de jovens no ‘’tsunami da educação’’. No próximo 7 de setembro, dia em que é comemorada a independência do Brasil, o movimento vai às ruas novamente para mostrar que a luta não esmorece.
Se ainda te restam dúvidas, o site da UNE preparou 7 motivos especiais para você vir somar com a gente. Confira:
1-AUTONOMIA UNIVERSITÁRIA É COISA SÉRIA
Bolsonaro tem tomado decisões contrárias aos Conselhos Universitários. A escolha de reitores que não foram eleitos pela comunidade acadêmica, composta de representantes discentes e docentes, fere a democracia e coloca em xeque o futuro da educação pública.
2 – FUTURE-SE OU VIRE-SE?
O projeto lançado pelo MEC ignora o problema imediato das universidades que permanecem sem recursos e podem ter suas gestões terceirizadas para Organizações Sociais. É a universidade pública nas mãos do mercado!
3 – FANTASMA DA PRIVATIZAÇÃO
Sucatear as universidades é um dos passos para privatizar a educação pública. Ao passo que recursos são retirados, empresas aparecem como solução para o financiamento. A educação deve ser de todos.
4 – ATAQUES À CIÊNCIA
O presidente Jair Bolsonaro segue questionando dados científicos produzidos por institutos de pesquisa federal. “Tenho a convicção que os dados são mentirosos” foi uma das inúmeras das frases usadas por ele para desmerecer as informações fornecidas pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) sobre o desmatamento da Amazônia.
5 – DEVOLVAM NOSSAS BOLSAS
O Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) suspendeu no último mês de julho a divulgação dos selecionados para a segunda fase de um edital de concessão de bolsas de pesquisa científica. A entidade afirmou que está sem recursos financeiros e que a suspensão vai até o dia 30 de setembro.
6 – PROTEGER A AMAZÔNIA
Embora incêndios possam ser habituais em épocas de seca, a flexibilização dos controles ambientais no atual Governo vem acelerando a perda de vegetação na Amazônia. Segundo a revista científica Nature Sustainability a Amazônia brasileira perdeu mais de uma Alemanha em área de floresta entre 2000 e 2017 se o projeto de Bolsonaro continuar, até quando a floresta irá sobreviver?
7 – DEFENDER A DEMOCRACIA
Em 11 de junho, o presidente Jair Bolsonaro decidiu exonerar 11 peritos que integravam o Mecanismo Nacional de Prevenção e Combate à Tortura (MNPCT). No final de julho, Bolsonaro direcionou um de seus ataques ao presidente da OAB Felipe Santa Cruz, ao falar com desdém sobre o desaparecimento de seu pai, Fernando Santa Cruz, na ditadura. “Um dia, se o presidente da OAB quiser saber como é que o pai dele desapareceu no período militar, conto pra ele. Ele não vai querer ouvir a verdade”, disse Bolsonaro.
Os estudantes prezam pela memória e pela justiça. Exaltar a tortura é matar a democracia.
Em entrevista, membro do MPF explica que Justiça livrou fazendeiro e empresa que pulverizaram pesticida sobre índios Guyra Kambi’y no MS, apesar de um vídeo comprovar o ataque.
Por Pedro Grigori, Agência Pública/Repórter Brasil
No sexto dia do ano de 2015, a comunidade indígena de Guyra Kambi’y, na região de Dourados, no Mato Grosso do Sul, amanheceu com o barulho de um avião agrícola que voava baixo pelo céu. “Olha o veneno, tá passando até em cima de nós agora”, diz uma indígena em vídeo gravado no momento da pulverização. A comunidade, de cerca de 150 pessoas, fica ao lado de uma lavoura de soja, separada apenas por uma estrada de terra com menos de 15 metros de largura.
“Olha lá as criançadas”, repete a mulher diversas vezes. No fundo, crianças brincam sem entender o risco que corriam. Horas depois, elas e os adultos da comunidade apresentaram dores de cabeça e garganta, diarreia, febre e irritação na pele e nos olhos. O Ministério Público Federal (MPF) do Mato Grosso do Sul ajuizou uma ação por danos morais coletivos pela pulverização de agrotóxico no valor de R$ 286.582,00 contra o piloto, o proprietário rural da lavoura em frente a comunidade indígena e a empresa de aviação agrícola.
Quatro anos e meio depois, a 1ª Vara da Justiça Federal de Dourados considerou improcedente a acusação. “Há atividades que não podem ser suprimidas sem grave prejuízo à coletividade. O próprio combate à dengue, por exemplo, exige, muitas vezes, aplicação por pulverização de inseticida pelas ruas da cidade, para matar o mosquito”, declarou o juiz.
O procurador do caso, Marco Antônio Delfino de Almeida, atua em diversas ações de defesa de comunidades indígena em Dourados. Em entrevista à Agência Pública e a Repórter Brasil, ele relata episódios na região onde agrotóxicos são utilizados como armas químicas. “É uma espécie de terrorismo. Uma agressão química, uma versão moderna do agente laranja, utilizado na Guerra do Vietnã”, diz. Indígenas da comunidade alegam que há aplicações de nas mesmas circunstâncias desde 2013, tanto de avião quanto de trator.
Porém, para o magistrado que julgou o processo, uma única aplicação de agrotóxico sobre a aldeia indígena não é considerada irregularidade. Para causar dano à saúde, a aplicação de agrotóxico “deveria ser de forma não ocasional nem intermitente”.
A indenização seria revertida para programas de saúde e de educação na região da comunidade indígena, além do acompanhamento da saúde e monitoramento mensal da qualidade do solo e da água utilizada pelos Guyra Kambi’y, durante 10 anos.
Quer uma sugestão de destino para programar a sua próxima viagem, com conforto e segurança? A Cris Marques, do blog ‘Raízes do Mundo’, foi explorar o Piauí e conheceu o Delta do Parnaíba, o único que deságua em mar aberto nas Américas, sendo ainda o terceiro maior delta do mundo. O fenômeno ocorre também no Rio Nilo, na África, e em Mekong, no Vietnã. Confira essa experiência e conheça uma das mais belas paisagens do mundo. E o melhor de tudo: está aqui no Brasil, nas riquezas da região Nordeste.
Faltava um mês para o Carnaval quando Sebastiana ganhou o mundo. Ela veio prematura, já que a previsão do seu lançamento era apenas depois da festa mais esperada no Rio de Janeiro. No improviso, o rei do ritmo apresentou a moça para quem quisesse ver e ouvir, durante a estreia da revista A Pisada é Essa!. Hoje com 66 anos de história, Jackson do Pandeiro transformou Sebastiana em um grande sucesso.
Por Dani Fechine
<i>Sebastiana</i>, a música que marcou a carreira do rei do ritmo, fez parte também da vida de músicos paraibanos que têm em Jackson a inspiração e o espelho da MPB Sebastiana, a música que marcou a carreira do rei do ritmo, fez parte também da vida de músicos paraibanos que têm em Jackson a inspiração e o espelho da MPB
A música que marcou a carreira do rei do ritmo fez parte também da vida de músicos paraibanos que têm em Jackson a inspiração e o espelho da música popular brasileira. Segundo o historiador Fernando Moura, autor do livro Jackson do Pandeiro – O Rei do Ritmo, Sebastiana, convidada para dançar e xaxar na Paraíba, é a primeira música de maior sucesso de Jackson.
Com composição de Rosil Cavalcanti, a canção envolvente e coreográfica balança corpos desde o dia do seu lançamento. Um coco que não impede de ser dançado como forró. Como tudo que Jackson fez na música, Sebastiana marca a mistura de ritmos protagonizada por ele.
Era lançamento da revista A Pisada é Essa!. Jackson, miúdo e de bom humor, vestia terno, chapéu, sapato e cinto brancos. Apenas a gravata dava cor ao seu figurino. Ele mesmo conta. “Tava eu e Zé Pilintra”, disse, relembrando uma entidade da umbanda que é representada com vestimentas semelhantes às que o baixinho usava.
Minutos antes da apresentação de Jackson, uma conversa com o produtor da revista, Amarílio Nicéas, mudou tudo. Ele pediu ao cantor que substituísse o repertório já ensaiado por um coco. Jackson, no entanto, havia previsto um samba e uma marcha.
– Você vai cantar aquele negócio que ‘cê’ canta, aqueles ‘coquinho’, do tempo da sua mãe – disse Nicéas.
– Você vai me botar pra cantar coquinhos e tal, aqui? Agora que é uma revista de carnaval? Todo mundo vai contar com uma grande orquestra e tá tá tá! e eu com regional, rapaz… – argumentou Jackson.
Não houve argumento. Parece que Nicéas previa o sucesso que Sebastiana traria para o Brasil. Jackson do Pandeiro então não mais rebateu. Passou a música rapidamente com os músicos e ensinou o coro à radioatriz Luiza de Oliveira. “Eu vou cantar isso ‘assim, assim, assim’. E a senhora lá, a senhora faz assim: ‘a, e, i, o, u, ypsilone’, tá?”, explicou Jackson.
No momento da música que tinha participação de Luiza, a atriz deu uma “umbigada” em Jackson e a plateia ficou em um misto de aplauso e gargalhada. Jackson não ficou inerte com a brincadeira e entrou no mesmo clima. “Eu digo: ‘Deixa ela vim de vorta agora que eu vou lascar ela na umbigada’. De quando ela veio de lá, eu me preparei de cá, bati no pé no chão, castiguei a mulher na umbigada!”, conta Jackson.
O momento foi marcante para Jackson. Ele conta que, no momento da apresentação, se lembrou do tempo que via a mãe, Flora Mourão, batendo coco. Naquele instante, o rei do ritmo fazia uma conexão com toda a tradição cultural que foi recebida e partilhada pela família.
“Sebastiana é uma música icônica que traz o DNA da sua mãe, Flora Mourão, com quem aprendeu a cantar o ritmo do coco e também de quem ganhou o instrumento que se tornaria sua marca maior. Acredito que essa ligação de Jackson com a sua origem trouxe uma força grande pra música e fez com que ela se tornasse o seu maior sucesso, ainda na década de 30, o tornando conhecido no Brasil inteiro. Jackson era um cronista da realidade e suas músicas são repletas de histórias e personagens”, declara Arthur Pessoa, vocalista do grupo Cabruêra.
Na mistura de ritmos que criou, Jackson e a umbigada marcaram ali a trajetória artística do cantor. A grande visibilidade e o sucesso repentino do público foram primordiais. Mas o que Sebastiana trouxe para a música brasileira, junto à forma com que foi apresentada, está diretamente ligado ao redirecionamento do repertório de Jackson e o restabelecimento da sua identidade cultural. Em apenas uma semana, a revista carnavalesca foi rebatizada como A, E, I, O, U, Ypsilone.
“Escola de canto e de músicas”
De acordo com Fernando Moura, a primeira grande regravação de Sebastiana foi realizada por Gal Costa, em 1969, com participação de Gilberto Gil na parte mais famosa da letra. A música fez parte do primeiro disco gravado por Gal. A música também já passou pelas vozes de Lenine, Luiz Gonzaga, Luan Estilizado, Genival Lacerda e pelo grupo Clã Brasil.
Com Lucy entre os destaques do grupo composto por pessoas da mesma família, o Clã foi indicado ao Grammy Latino, em 2017, na categoria de melhor álbum de músicas de raízes brasileiras, com um disco exclusivo de regravações de Rosil Cavalcanti, cujas músicas ficaram eternizadas na voz do rei do ritmo. O álbum em cheque era No Forró do Seu Rosil, uma grande homenagem a um dos principais compositores de Jackson do Pandeiro.
Lucy Alves, claro, coloca Jackson na bagagem musical e também pessoal. “É uma escola de canto e de música para todos nós”, revela. Ela fez do artista fonte de inspiração e hoje segue os caminhos do rei também na mistura dos ritmos. “Jackson foi muito importante para mim como paraibano, como musicista, pela obra e representatividade dele, tudo que ele criou em cima de ritmo, de músicas e da poesia, atrelado ao instrumento que o tornou rei”, declarou Lucy.
Jackson levou para Lucy e para o Clã Brasil a coragem de encarar as músicas rápidas e os trava-línguas. Trouxe presença para um grupo que sabia estar presente por onde passava. “Jackson era muito representativo. Meu avô materno era muito fã, dizia que ele era o maior artista do país. Então ele, junto com Luiz Gonzaga, sempre foram dois ícones que tiveram muitos representantes e estiveram de forma muito direta na minha casa”, relata Lucy.
Jackson e os Afrobatuques
A música de Jackson do Pandeiro ultrapassou gerações. Hoje, os jovens das bandas paraibanas Os Fulano e Cabruêra, se reúnem para homenagear o rei do ritmo com um projeto chamado Jackson e os Afrobatuques. Os meninos já fizeram mais de 30 shows desde o início do projeto disparando para várias cidades a música e a memória de Jackson.
O projeto nasceu em 2017, em um encontro de Jader Finamore, que toca cavaquinho no grupo Os Fulano, com Arthur Pessoa, vocalista de Cabruêra. “Nós lembramos que dali a dois anos era o centenário de Jackson e pensamos em montar o projeto”, conta Jader. A primeira reunião foi em julho do mesmo ano, a segunda em agosto e, em setembro, o repertório já estava definido.
Para os meninos, a influência que Jackson do Pandeiro trouxe para a Paraíba reflete diretamente nos trabalhos musicais. “De forma geral, a maneira de fazer música de Jackson e a forma de pensar a música nos inspira bastante. Ele pensava a música de forma muito livre. O que ele fazia era samba, mas não era samba, era forró, mas não era forró, era coco, mas não era coco. Ele saía misturando tudo”, comenta Jader. “Essa forma livre que Jackson tem de fazer música nos faz tentar alcançar esse lugar de liberdade na hora de compor ou de produzir”, completa.
A maneira de Jackson fazer as divisões dos ritmos e de misturar a forma como as frases vão ser ditas, dão uma característica única de brincar com o ritmo e as palavras. “Jackson também sempre traz uma alegria pras canções explorando os ritmos brasileiros como o samba, o forró, o coco e o rojão. Então, essa fonte rítmica inesgotável da música brasileira e, em especial, da nordestina, continua sendo um lugar onde todos buscam dessa água ‘jacksoniana’”, relata Arthur.
Para Jader, a própria comemoração do centenário de Jackson comprova sua obra e o seu legado. “Quantas pessoas nasceram há cem anos e a gente não faz nem ideia? Eu acho que uma pessoa que consegue fazer sua memória durar por cem anos é um ser muito iluminado, muito especial, é um ser grandioso. É uma obra fincada em uma verdade, em uma cultura, é uma obra que tem raiz, e que cresce, é uma árvore que cresce muito dessa raiz. E a gente está aqui se alimentando e usufruindo da sombra desse grande artista que é Jackson do Pandeiro”, enfatiza Jader.
Com potencial para se tornar a quinta maior mineração de ouro do Brasil, o “Projeto Borborema” na Fazenda São Francisco, zona rural de Currais Novos, será um dos maiores investimentos do setor de mineração do país nos próximos anos após o início da extração do minério, confirmação esta dada pelo Diretor do grupo australiano no Brasil, Robert Smakman, ao prefeito Odon Jr e Vice-Prefeito Anderson Alves, durante a visita dos representantes do executivo municipal à mina na tarde desta sexta-feira (17/03/2017).
Aguardando a emissão da licença prévia ambiental do IDEMA para o início dos trabalhos de extração, o empreendimento tem em seu protocolo de intenções uma vasta preocupação com a sustentabilidade e com os recursos ambientais da região. Para o prefeito Odon Jr, o investimento será de grande importância para o desenvolvimento da economia de Currais Novos.
– “É um projeto que irá contribuir no desenvolvimento e na geração de emprego e renda em nosso município”, comentou o Prefeito. Ao lado dos representantes da empresa, Odon Jr e Anderson visitaram os locais onde foram identificados a presença do minério após algumas pesquisas realizadas.
O aniversário do Estado foi instituído pelo lei 8.731 de 2000.
Bem, como achamos que nosso Estado tem uma série de paisagens incríveis interior a fora, muitos pouco conhecidos pela própria população e turistas, selecionamos 19 fotos de João Maria Alves que mostra um pouco dessa beleza.
Aproveite 🙂
1 – Ponta do Mel, Areia Branca
2 – Carnaubais
3 – Dunas do Rosado
4 – Pedra da Boca
5 – Estação Papari, Nísia Floresta
Imagem do Google - Estação Papary - Nísia Floresta
“Aqui houve grandeza destruída pela bárbara invasão/Aqui reside o útero da vida e o umbigo do mundo/Aqui é o berço da História/Do Cabo ao Cairo o vento geme como quem ri e chora”. Os versos do poema Deixo-te a maior missão: a reconstrução de África, da escritora moçambicana Paulina Chiziane, apresentam o sentimento de quem sabe reconhecer o quão grandiosa é a terra que abriga o seu povo e entende a responsabilidade de resgatar a própria trajetória a partir de suas narrativas.
Apesar de todo o tipo de revisionismo que se tem tornado moda atualmente, África, africanos e seus descendentes não deixam que a História seja negada. Da barbárie promovida no continente pelos invasores colonialistas às execuções em periferias de grandes cidades brasileiras, o negro sofre na pele e por causa da cor da pele as consequências do racismo, seja velado ou institucionalmente declarado, além de diversos outros preconceitos que matam, discriminam, tolhem o direito à voz e inferiorizam sua cultura ao longo dos séculos.
Certamente esse é um povo que tem muita história para contar, mas quão atentos estão os leitores? Potencialmente, a capacidade africana de transformar um papel em branco em escrito poético ou suas tradições, lendas e cotidianos em literatura é a mesma de trovadores portugueses, formalistas russos, modernistas brasileiros e tantos outros integrantes de escolas literárias ao redor do mundo. Por que, então, autores daquele continente não são tão populares e lidos no Brasil?
Para a professora de Literatura e Linguística Espanhola da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), Izabel Nascimento, a questão passa necessariamente pelo mercado editorial. “Poucas editoras têm cardápio de literatura africana. Publica-se, como nos demais casos, apenas autores consagrados, e estes normalmente não são africanos. Há nomes poderosíssimos, mas ainda sem capilaridade entre o público não especializado. É preciso divulgar que esses autores são excelentes para criar demanda”, explica a docente.
Além de excelentes, como diz Izabel, são laureados. Ainda que algumas controvérsias envolvam premiações como o Nobel e o Camões, especialmente em relação ao júri e aos critérios de escolha, nomes importantes da literatura de África já receberam esses reconhecimentos. Entre os vencedores do Nobel, estão Wole Soyinka (1986), Naguib Mahfouz (1988), Nadine Gordimer (1991) e J. M. Coetzee (2003). Já o Camões, exclusivo para a produção literária de língua portuguesa, tem em sua galeria de honra Jorge Craveirinha (1991), Pepetela (1997), Luandino Vieira (2006), Armênio Vieira (2009), Mia Couto (2013) e Germano Almeida (2018).
Se por um lado, com algumas raríssimas exceções, as editoras negligenciam esses autores, as universidades também precisam mudar algumas posturas nesse aspecto. Na opinião do diretor geral da Associação Internacional de Estudos Culturais e Literários Africanos (Afrolic), professor Sávio Fonseca de Freitas, muitas universidades têm optado por um conservadorismo teórico, privilegiando o estudo mais tradicional da literatura.
“A língua portuguesa deve ser pensada em suas mais diversas formas de manifestação artística e literária. Por isso não podemos omitir ou tornar invisível a literatura africana escrita nesse idioma, principalmente pelo fato de ser a literatura brasileira uma fonte de recorrência de leitura por parte de escritores africanos, que veem em nossa literatura um modelo estético e ideológico de sistema literário”, alerta Sávio, que é professor da Universidade Federal Rural de Pernambuco.
Entre autores da literatura africana há nomes premiados com o Nobel e o Camões – Foto: Anastácia Vaz
Desinteresse mercadológico de editoras e pouca atenção da academia podem ter, no entanto, um elemento mais amplo como pano de fundo. “No Brasil, foi preciso implantar uma lei para que fossem apresentadas nas escolas a cultura e a literatura africanas. Esse é o peso do racismo no país”, afirma a professora do Departamento de Letras da UFRN, Tania Lima, que também é vice-presidente da Afrolic.
Confira aqui áudio da entrevista com a professora Tania Lima
Sancionada em 2003, a lei em questão é a de n° 10629/2003. Ela inclui na Lei de Diretrizes e Bases da educação nacional a obrigatoriedade de que os currículos abordem o assunto História e Cultura Afro-Brasileira e Indígena, além de instituir o Dia da Consciência Negra, em 20 de novembro, como data oficial no calendário escolar. Mas mesmo 16 anos depois de entrar em vigor, ainda há muito a avançar na representatividade de negros na sociedade e no enfrentamento ao racismo.
Construção da Afrolic
Em meio a esse cenário de reconstrução da identidade africana no Brasil, por meio do combate ao racismo, da promoção da cultura afro e da educação, nasceu, em 2010, a Afrolic, uma associação de professores envolvidos com o estudo das Literaturas Africanas. A entidade está cadastrada no CNPq como um grupo de pesquisa que acolhe estudiosos de todo o mundo e tem como principal meta disseminar o conhecimento sobre o continente africano com base nas diversas áreas das Humanidades.
Desde a sua fundação, a Afrolic vem realizando a cada cada três anos um congresso internacional, em associação ao Encontro dos Professores de Literaturas Africanas, evento que acontece desde 1991 e originou a associação. Sediado anteriormente nas universidades federais do Rio Grande do Sul (2013) e de Pernambuco (2016), este ano o congresso aconteceu na UFRN durante os três últimos dias de julho e recebeu pesquisadores de diversos países.
Sob o tema Literatura, desigualdade e ensino, o evento debateu como a escola e as universidades têm lidado com a relação África-Brasil, o racismo e a contribuição da literatura africana na formação do sistema literário brasileiro. “Essa cultura precisa ser reconhecida, precisa ser lida. É interessante, os africanos nos leem”, ressalta a professora Tania.
Afrolic reuniu pesquisadores em literatura e cultura africanas – Foto: Thamise Cerqueira
Desconstrução do eurocentrismo
Uma das grandes questões que permeiam os debates sobre África atualmente e que foi suscitada no encontro é o eurocentrismo, com base em estudos do teórico camaronês Achille Mbembe. “Africanos vão para outras partes do mundo estudar. Vêm para o Brasil, vão para Alemanha, Portugal, França, Estados Unidos. Então, eles acabam bebendo direto na fonte eurocêntrica. Quando voltam, ficam na comparação entre Europa e África, entre o sistema colonizador e o colonizado, e não saem disso, o que aprisiona a própria construção do universo do negro”, explica.
Para reconstruir África é necessário desconstruir a visão europeia do continente, o que não parece uma tarefa tão simples diante de séculos de acreditação pouco contestada. Quando a poeta escolhe a palavra “missão” para definir a restauração africana, certamente tem em conta quão árdua ela pode ser. Afinal, menos de meio século atrás havia países cuja independência não era reconhecida ainda por colonizadores. A “grandeza destruída pela bárbara invasão” necessita da reavaliação de certos paradigmas teóricos.
Na opinião de Tania Lima, no Brasil, um desses casos é a obra Casa-Grande & Senzala, do sociólogo Gilberto Freyre, publicada em 1933. “Naquele momento foi importante porque ele diz que negro é uma categoria cultural, não biológica, que precisa ter a linguagem, a religiosidade entendidas, mas isso tem um limite. Da mesma forma que ele traz isso como algo positivo e insere o negro na cultura brasileira, tanto em Casa-Grande & Senzala como em Sobrados e Mucambos, por outro lado, nas entrelinhas dessas obras, percebe-se um racismo incutido, que vem da casa-grande. Isso se manifesta ao dizer, por exemplo, que o negro comia melhor quando estava na senzala”, pondera.
Ou seja, para a professora o ensino de literatura africana tem de pensar a partir do seguinte questionamento: como esse sujeito se percebe? Do ponto de vista europeu? “Eu vejo como Lévi Strauss, Gilberto Freyre ou de acordo com o pensamento indígena, do filósofo africano? Ainda prevalece um olhar dual; ou é casa-grande ou é senzala, mas e o quilombo? Quilombo é a revolta, a indignação, a não subserviência. Precisamos ver essa filosofia para nos emanciparmos”, afirma Tania.
Reconstrução de África no Rio Grande do Norte
Nos últimos nove meses, a UFRN sediou dois dos maiores congressos sobre estudos africanos do país. Além do encontro da Afrolic, a universidade recebeu, em novembro de 2018, o IV Congresso Internacional de Literaturas e Culturas Africanas (Griots), que teve como tema Literaturas e Direitos Humanos. Mas alguém pode questionar: existe essa ligação toda do Rio Grande do Norte com África? Fala-se muito sobre os holandeses do período colonial e dos estadunidenses durante a II Guerra Mundial, porém africanos nem sempre são lembrados.
“É preciso mostrar uma relação do estado com a África que é negligenciada. Temos leituras de Câmara Cascudo, que esteve em África e fez um livro sobre isso, Made in Africa. O congolês Kabengele Munanga, uma das maiores autoridades nos estudos africanos e que hoje é titular na Universidade de São Paulo, estabeleceu-se no Brasil como professor da UFRN nos anos 1980, quando deu aulas de antropologia. Há mapeados cerca de 60 quilombos em terras potiguares e muita gente esquece disso. Sim, nós temos muito de África aqui”, afirma contundentemente Tania.
“Não existe combate ao racismo sem investimento em educação”, afirma professora Tania Lima – Foto: Anastácia Vaz
Em 2015 foi criada uma especialização piloto no Rio Grande do Norte nesta área que envolvia, entre outros assuntos, o combate ao racismo nas escolas. Esse projeto teve a primeira perna quando foram capacitados mais de 200 professores de colégios públicos do Seridó, todo ele patrocinado pelo Ministério da Educação. A experiência deu certo e foi relatada no livro Tessitura de Vozes, lançado em 2018, mas diante das seguidas diminuições dos recursos federais destinados à área da educação, o curso ainda não teve uma segunda edição.
Enquanto esse projeto segue em compasso de espera, outros desafios permanecem na pauta diária de docentes, especialmente o de promover o conhecimento dessa literatura. “Vejo que entre os alunos existe uma demanda muito grande. Infelizmente ainda estamos no ponto de despertar a curiosidade, mas essa é uma briga contínua”, relata a professora Izabel Nascimento.
No mesmo sentido, dizendo que é uma batalha infinda, Tania Lima ressalta a importância da inclusão. “Não existe combate ao racismo sem investimento em educação. É necessário pensar em inclusão. A política da exclusão de negros, indígenas, crianças, mulheres só pode ser enfrentada a partir de um processo educacional sério”.
Aliás, não só leitores, mas autores negros também precisam ser incluídos. No Brasil, escritores consagrados como Machado de Assis e Lima Barreto são apresentados em ilustrações e fotos manipuladas com um tom de pele bem mais claro que o real. Em África, entre os laureados com os prêmios Nobel e Camões pouquíssimos são negros. Imagina-se que não seja por falta de opções, pois Sónia Sultuane, Paula Tavares, José Luis Mendonça e Paulina Chiziane são nomes que certamente merecem o reconhecimento dentro e fora da academia e do meio especializado.
E, nessa digressão entre construções, desconstruções e reconstruções, há muito mais poetas, romancistas, contistas e cronistas a serem descobertos. Do Cabo ao Cairo, existe literatura tão cheia de subjetividade e beleza como tantas outras distribuídas nos países que se podem encontrar nos mapas. “Nós que pensamos às margens temos de fazer essa leitura”, afirma Tania, que conclui: “o mundo precisa de leitores e nós temos de abrir a sociedade a partir do livro”.
Com oito premiações, o filme “Pacarrete” foi o grande destaque da noite de premiações do 47º Festival de Cinema de Gramado, na serra gaúcha. O longa conquistou Kikitos nas categorias de melhor filme pelo júri oficial e popular, melhor atriz, melhor ator e atriz coadjuvantes, melhor direção, roteiro e desenho de som.
“Pacarrete foi meu primeiro roteiro de longa-metragem, resultado de muita troca, afetos, pesquisa e trabalho, mas também dúvidas e aperreios, como qualquer processo criativo. As oito premiações revelam o comprometimento de toda equipe em contar a história de uma bailarina tida como louca que ousou viver da sua arte”, declarou o roteirista André Araújo, egresso do curso de Comunicação Social – habilitação Rádio e TV, da Universidade do Estado do Rio Grande do Norte (UERN), em seu Instagram.
O filme é composto por profissionais nordestinos. O cearense Allan Deberton é diretor do longa e também assina o roteiro, juntamente com Samuel Brasileiro, Natalia Maia e André Araújo.
No elenco, estão a premiada atriz paraibana Marcélia Cartaxo, que dá vida a Pacarrete e conquistou o Kikito de melhor atriz; as atrizes paraibanas Zezita Matos (“Onde Nascem os Fortes”) e Soia Lira (“Tatuagem”), o ator baiano João Miguel (“3%”), os cearenses Débora Ingrid (“A História da Eternidade”), Samya de Lavor (“O último Trago”), Edneia Tutti e Rodger Rogério (Bacurau), além da participação de atores e atrizes de Russas (CE), cidade onde o filme foi gravado.
O filme conta a história de Maria Araújo Lima, uma icônica moradora de Russas (CE), que gostava de ser chamada de Pacarrete. “Ela é minha tia-avó. Assim como Pacarrete, eu também sou cearense de Russas. Cresci ouvindo histórias sobre ela, sobre o seu jeito afetado e afrontoso, muitas vezes incompreendido”, contou André Araújo. “Pacarrete” é uma jornada pela mente de sua protagonista e “estabelece um diálogo entre o presente e o passado, a realidade e a utopia. O tom biográfico é atravessado pelo universo fantasioso da personagem que mescla instantes de lucidez e loucura”, conta.
KIKITO
O Kikito é o símbolo e prêmio máximo concedido no Festival de Gramado. Este nome foi atribuído por Elisabeth Rosenfeld, artesã da cidade de Gramado, e responsável pela criação da estatueta com que são laureados os vencedores. Inicialmente, o Kikito era o símbolo da cidade e, mais tarde, tornou-se o troféu do festival. O Kikito é uma figura risonha, um “deus do bom-humor”, com 33 centímetros de altura.
O FILME
Pacarrete é um longa-metragem de ficção, inspirado na história de vida da bailarina Pacarrete. O filme foi gravado na cidade de Russas-CE e aborda questões como a loucura, a permanência do sonho e o drama da velhice de uma bailarina clássica. Registrada como Maria Araújo Lima, ela se autobatizou como Pacarrete, margarida em francês, e assim é lembrada até hoje por todos na cidade.
Nascida e criada em Russas, alimentou desde criança o sonho de ser artista e viver a vida na ponta da sapatilha, mesmo sendo de uma cidade conservadora onde mulher nasceu para casar e ter filhos. Mas é em Fortaleza que ela consegue estar no centro dos palcos como bailarina clássica e se tornar professora de ballet. Com a aposentadoria, a russana retorna a sua cidade natal, onde pretende dar continuidade ao seu trabalho artístico, mas só se depara com desrespeito à sua arte.
Pacarrete continua respirando ballet e traduzindo sua vida em sequências de pliés e demi-pliés, à guisa de ribalta, nas calçadas e praças da cidadezinha. Em vez de plateias de admiradores e aplausos, ela se defronta com a troça e o despeito daqueles que cruzam seu caminho. A bailarina de outrora, que acredita ainda ser, transformou-se, no imaginário popular, na “Louca da cidade”.