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segunda-feira, 27 de julho de 2020

A miséria de uma certa filosofia – resposta a Paulo Ghiraldelli

Em texto publicado em seu blog (1), o professor de filosofia Paulo Ghiraldelli Júnior questiona nosso artigo publicado na última quinta-feira (16) no caderno “Ilustríssima” da Folha de S. Paulo. Cabe registrar, primeiramente, nossa satisfação por ter motivado réplica em assunto tão importante. Também ficamos felizes em perceber que, em boa parte de seu texto, ele corrobora nossa argumentação, já que não enfrenta a questão central. O destaque negativo surge quando Ghiraldelli aponta supostos “erros”. Nesse caso quem se equivoca é ele — em vários pontos. Passamos, então, a uma discussão pormenorizada desses equívocos.
Antes, porém, de entrar no mérito propriamente dito da questão — e vejam que o “propriamente dito” não está aí à toa —, cabe registrar o jeito estabanado como Ghiraldelli acessa a esfera pública. Ele adentra o debate usando tom claramente professoral e desrespeitoso. Sua argumentação exala forte odor ad hominem desde o início, quando sugere que seus interlocutores, por serem “um estudante” e “um jornalista”, não estariam aptos a discutir os temas filosóficos que se propõem abordar.
O mínimo que se espera de alguém disposto a falar de ética é que saiba se conduzir no debate público. Este tem sua etiqueta — palavra que, aliás, deriva de ética. Tal etiqueta inclui coisas como ao menos saber o nome correto de seus interlocutores e não omitir de maneira desonesta seus currículos e qualificações. Chama atenção, em especial, a forma desmerecedora com que o senhor Ghiraldelli usa o termo “estudante”. Do alto de sua presunção, é compreensível que ele jamais tenha aprendido qualquer coisa com um aluno. Mostraremos, aqui, que isso é perfeitamente possível.
O senhor Ghiraldelli proclama que “erramos”. Repete isso de forma exaltada, ao longo de todo o texto, quando dizê-lo uma única vez seria suficiente — se ele de fato tivesse razão. Ele, em nenhum momento, se atreve a atacar diretamente o argumento principal de nosso texto. E que argumento é este?
A questão central de nosso pequeno ensaio sempre foi a recusa de que possa haver consequências boas ou más em si mesmas, isto é, consequências cujo caráter “bom ou “mau” possa ser avaliado de forma fática. Essa avaliação depende do arcabouço axiológico de quem julga. Vejam bem: não se trata de afirmar que não possamos atribuir bondade ou maldade aos atos éticos ou que não se possa atribuir verdade ou falsidade ao conhecimento deles. Trata-se, antes, de propor o abandono de um modelo cognitivo ingênuo e aceitar que há condições pressupostas de julgamentos éticos e cognoscentes, condições que os definem.
Na esfera moral nunca haverá um “cálculo” preciso e objetivo a partir do qual possamos prever factualmente e de uma vez por todas que um ato particular trará consequências majoritariamente benéficas. Quem pensa ser viável tal “contabilidade” revela-se tocado por uma antiga aspiração: conceber as questões morais sob a ótica de uma racionalidade matemática, de vez que todo caso concreto exigiria uma “calculadora felicínea” portátil para mensurar as consequências de cada ação. Este é o centro da nossa argumentação.
Procuramos mostrar que os pressupostos que se supõem fora do cálculo são eles mesmos condições que propiciam o cálculo. Como decorrência desse ponto central, tratamos das condições formais que atuam nas operações consequencialistas. Hélio Schwartsman ilustra sua argumentação com o exemplo: “A morte do presidente torna-se filosoficamente defensável, se estivermos seguros de que acarretará um número maior de vidas preservadas” (2). Nosso contraexemplo foi: a morte de todos os ‘comunistas’ pode ser filosoficamente defensável, se estivermos seguros de que assegurará o progresso da nação e, portanto, a felicidade da maioria. Do ponto de vista formal teríamos:
Exemplo: se um indivíduo que causa a dor de muitos for eliminado, então o sofrimento de muitos atribuído a ele também será.
Contraexemplo: se um grupo de indivíduos que causa dor a um grupo ainda maior for eliminado, então o sofrimento dos muitos desse último grupo também será.
Vemos que para cada efeito esperado é preciso o concurso das condições anteriores ao evento; é evidente que a eliminação da causa principal fará o evento não ocorrer. Do ponto de vista do cálculo formal, os dois raciocínios se equivalem. Ou seja: o mesmo raciocínio consequencialista que justifica a morte de Bolsonaro poderia ser usado pelo presidente para justificar a morte de seus adversários. Só à luz dessa argumentação faz sentido completo o contraexemplo que apresentamos.
O que faz Ghiraldelli? De maneira ardilosa, baseia-se no contraexemplo para apontar nossos “erros”. Qual seu argumento? Ele afirma que, enquanto o exemplo de Schwartsman pode ser objeto de uma “constatação empírica fundamentada”, nosso contraexemplo não pode, pois não passa de “mentira” e de “tolice”. Ora, o ponto de vista empírico-factual que deveria sustentar o raciocínio consequencialista já foi abandonado por nós desde o argumento principal, justamente por ser um modelo ingênuo de julgamento. Isso não foi contestado nenhuma vez!
Em outras palavras, a tentativa desesperada do senhor Ghiraldelli, de apelar mais uma vez para uma “constatação empírica fundamentada” no campo ético, já está descartada desde o início. A verdade é que os fatos “em si” de Ghiraldelli são por nós transformados em condições do julgamento dele, isto é, em componentes de suas próprias escolhas. Ao elevar a discussão ao lugar da filosofia, isto é, às condições pressupostas de qualquer julgamento, haverá sempre um debate envolvendo pontos de vista opostos, uns mais bem embasados, outros com menos justificativas, porém nenhum deles inteiramente empírico.
O que pretendemos demonstrar através do nosso contraexemplo é que, na pura formalidade dos argumentos, todos os desejos e preferências subjetivas são candidatos dignos de serem satisfeitos, uma vez que o resultado empírico do cálculo consequencialista é pura ilusão. Como, do ponto de vista empírico-factual, absolutamente nada pode garantir que um ato trará consequências majoritariamente benéficas, então o que fazem os adeptos do consequencialismo, no final das contas, é apresentar como “cálculo” suas próprias pretensões subjetivas. Mesmo se preenchermos o raciocínio formal com “fatos”, isso não modificará a realidade profunda de que o cálculo das consequências da ação continuará indeterminado. Senão vejamos.
Na hipótese de aceitarmos como verdadeiro o raciocínio de Schwartsman, aonde chegaríamos? Se Jair Bolsonaro desaparecesse cessaria o sofrimento causado pela covid-19? Ou o vice-presidente Hamilton Mourão assumiria o cargo e conduziria a mesma política pública? Nesse caso teríamos que torcer também pela eliminação de Mourão? Quantos mais teríamos de eliminar para fazer valer as supostas consequências positivas desse cálculo de resultados? No final, não estaríamos agindo de maneira tão delirante — embora empiricamente “justificada” — quanto aqueles que pedem a eliminação dos “comunistas”? E a exploração política da comoção gerada pela morte do presidente, não entra no “cálculo”? Ora, fica claro que essa avaliação de resultados expressa muito mais um desejo subjetivo do que qualquer “objetividade” irrecusável.
Nossa apreciação sobre o consequencialismo é que tanto sua força quanto sua fraqueza se baseiam no entendimento – bastante próximo do senso comum — segundo o qual é possível avaliar completamente o conhecimento a partir de dados da experiência. Ressaltamos que todo conhecimento é impregnado de teoria, inclusive nossas mais elementares observações. Nossos sentidos já selecionam teoricamente o que nos interessa através de uma estrutura de pressupostos histórico-sociais interiorizados. Ao contrário do que pensa o empirioutilitarismo, não há nenhuma faculdade racional ou órgão de sentido em que se achem incorporadas capacidades antecipadoras que, no campo prático, possam garantir um resultado benéfico a partir de ações particulares.
Ao obscurecer essa realidade, o objetivismo abstrato do senhor Ghiraldelli abre, paradoxalmente, uma avenida para o relativismo. Pois a ilusão positivista de uma “constatação” puramente  “empírica” pode servir de cobertura para os mais variados tipos de interesses – inclusive para os desvarios anarcoides de quem, sonhando abalar o statu quo, termina por reforçá-lo.
Na verdade, o que o senhor Ghiraldelli chama de “constatação empírica fundamentada” não passa de uma orientação pressuposta e subjetiva que elege uma preferência fática. Ou seja: estamos diante de uma crença justificada que, para tentar refutar argumentos rivais, elege uns “fatos” em detrimento de outros, umas “consequências” em detrimento de outras possíveis. Nessa perspectiva, a suposição de que Bolsonaro — vejam bem, Bolsonaro, a pessoa, não o bolsonarismo — é “algoz” de muitos é um “fato” comprovado metricamente. “Até a revista científica The Lancet chegou a publicar editorial”, diz Ghiraldelli, sem se atentar para o fato de que um editorial, por sua própria natureza — um texto opinativo —, não é o melhor exemplo para a tese que pretende provar.
Ainda assim, com o intuito de desbastar nosso “erro”, ele parte para um truque argumentativo: fixa-se num corolário da tese principal, argumentando ad hoc para, a partir daí, arrotar sua “refutação” com ar professoral. O leitor intelectualmente honesto poderá verificar, ao ler os dois textos, que a resposta do filósofo contorna o argumento central do nosso artigo para girar em torno de uma conjectura utilizada como contraexemplo da hipótese aventada por Schwartsman. Ao arrastar suas objeções para um aspecto secundário da nossa argumentação apenas porque isso serve aos seus interesses, o senhor Ghiraldelli é intelectualmente desleal.
Por ser a única alternativa que permitiria a ele abrir contestação, esquivando-se da questão central que não aborda em nenhum momento, sua única chance era esta: desviar o debate para uma vereda, armar para seus contendores um ardil. Dizer que, desde o início, o que estava em jogo era apenas o pensamento consequencialista de Mill, o qual (supostamente) não se coaduna com nosso contraexemplo. Reside aqui o “abracadabra” do senhor Ghiraldelli. Engenhoso? Talvez para o filósofo uspiano. Quem é da terra de João do Vale não se enrosca com esse tipo de artimanha.
Era necessário desviar todo o debate para o pensamento de Stuart Mill, pois, como ele expõe, o consequencialismo de Mill não seria qualquer um: “Trata-se de uma perspectiva utilitarista ligada ao hedonismo moderno. O que se deseja é que se tome o mais útil para a coletividade, para a sociedade, e o mais útil para a sociedade é o que a deixa mais feliz”. Voltemos a esse tópico, ainda que ele nunca tenha sido verdadeiramente relevante para a coluna vertebral de nossa argumentação.
A exposição de Ghiraldelli sobre o consequencialismo de Mill nem sequer pode ser tomada como parâmetro universal para toda a família das éticas utilitaristas, nem mesmo para todas as éticas hedonistas modernas. Na verdade, quando ele afirma que “para o hedonismo moderno ser mais feliz é evitar maximamente a dor”, incorre em grave imprecisão, já que “ser mais feliz” não significa necessariamente “evitar maximamente a dor”. Não há consenso entre os próprios utilitaristas sobre a equivalência entre prazer e sofrimento (3). Defender a maximização da felicidade não é a mesma coisa que sustentar a minimização do sofrimento.
A título de exemplo (4), uma pessoa rica poderia se colocar a seguinte questão: devo dividir minha fortuna com mil pessoas moderadamente felizes, aumentando assim suas felicidades ou com um pobre doente, vítima de um extremo sofrimento? Se o rico for um utilitarista convencional calcularia qual das ações produziria maior felicidade do que infelicidade para o maior número de pessoas e, obviamente, escolheria dividir o dinheiro para as mil pessoas, maximizando suas felicidades. Já o utilitarista negativo procuraria minimizar o sofrimento mesmo que de apenas uma pessoa, pois ponto chave é que nenhuma quantidade, ainda que massiva, de felicidade pode justificar qualquer sofrimento; seja qual for a presença de sofrimento ela é moralmente indesejada, o que determinaria a doação do dinheiro ao doente.
É por isso que as correntes do chamado utilitarismo negativo (UN) — focadas na eliminação do sofrimento — negam a equivalência entre prazer e dor, considerando-os assimétricos. Para essas correntes não se pode reduzir o sofrimento simplesmente maximizando a felicidade; apenas agindo sobre o primeiro é que se terá uma redução da dor. A assimetria entre dor e prazer passa a ser relevante inclusive na análise das consequências dos atos. Embora o UN não negue o valor de aumentar a felicidade daqueles que já são felizes, prioriza moralmente ações que minimizem ou eliminem o sofrimento (5).
Ao desconsiderar esses detalhes acerca da assimetria entre prazer e dor dentro do hedonismo utilitarista, Ghiraldelli simplifica a questão — resta saber se por ignorância ou para atender a seu interesse utilitário. Ele grita que erramos por não fazer a distinção entre Mill e o resto do consequencialismo — como se isso importasse para nossa argumentação —, mas peca por uma indistinção esta sim grave. Não se pode confundir a luta pela maior felicidade com a busca do menor prejuízo. Não se pode tratar hedonismo negativo e positivo como se fossem a mesma coisa, confusão que — vale notar — não é cometida por Schwartsman em seus textos sobre o tema.
Por fim, não poderíamos deixar de abordar um tema que o senhor Ghiraldelli introduz furtivamente em sua réplica. Ele afirma que “a ética consequencialista se vincula a preceitos do liberalismo humanista que […] até deram para os britânicos um tipo de pensamento socialista”. É verdade. Mas essa verdade precisa ser matizada. O campo do humanismo é muito vasto, e o de Stuart Mill não é daqueles de maior consequência (com o perdão do trocadilho). Vejamos o que ele diz em seu ensaio On Liberty, referindo-se aos povos das colônias inglesas:
“As dificuldades que inicialmente se opõem ao progresso espontâneo são tão grandes que raramente se pode escolher entre vários meios para superá-las e um governante animado por intenções progressistas pode usar qualquer meio que permita conseguir uma finalidade em outros casos impossível. O despotismo é uma forma legítima de governo quando se lida com bárbaros, desde que o objetivo seja o progresso deles e os meios se justifiquem pela eficiência, no presente, para atingir esse resultado. O princípio da liberdade não se aplica a nenhuma situação anterior ao momento em que os homens se tornaram capazes de melhorar através da discussão livre e entre iguais.” (6)
Em outras palavras, Stuart Mill não fundamentou apenas um “liberalismo humanista” que resultaria em um tipo de socialismo pré-marxista. Ele fundamentou, também, o colonialismo britânico. Seu humanismo burguês é débil e incoerente: vale apenas para os povos “civilizados”. A liberdade não é para qualquer um, mas apenas para aqueles que superaram a barbárie. Para todos os outros se pode “usar qualquer meio” que “permita conseguir” a nobre “finalidade” de removê-los do estado de natureza. Qualquer meio, repito, inclusive o despotismo, “forma legítima quando se lida com bárbaros”. Ele é válido desde que “os meios se justifiquem pela eficiência, no presente, para atingir”… Para atingir o quê mesmo, senhor Mill? Para atingir o quê mesmo, senhor Ghiraldelli? Certamente, para atingir a melhor das intenções “civilizatórias”.
Ghiraldelli também tem a melhor das intenções. Ele as considera tão justas que poderia prová-las irrevogavelmente, através de uma “constatação empírica fundamentada”. Vá em frente, senhor Ghiraldelli, mas estaremos aqui quantas vezes for necessário para lembrar que seus “cálculos” não possuem a objetividade crua das pedras de calcário. Eles se fundamentam em pressupostos axiológicos, em toda uma visão de mundo.
A mundividência do senhor Ghiraldelli inclui, pelo visto, o mesmo sentimento de superioridade que Stuart Mill ostentava em relação aos “bárbaros” das colônias. Mas Mill, ao menos, era Mill, e a história só se repete como farsa. Com seu ar professoral, Ghiraldelli mais se assemelha a um coach que amplifica um falso problema para vender uma receita pronta. Não é de admirar em alguém que emprega seu tempo postando no YouTube comentários políticos rasos, do mais absoluto senso comum, típicos de um “tio do pavê” sem experiência política real.
O problema é que — agora o constatamos — a miséria não era só no YouTube.
Notas
(1) GHIRALDELLI Jr., Paulo. Estudante e jornalista erram ao avaliar consequencialismo de Schwartsman. Paulo Ghiraldelli Jr. — Filosofia como crítica cultural [on-line]. São Paulo, 16 jul. 2020. Disponível em: https://ghiraldelli.pro.br/2020/07/16/estudante-e-jornalista-erram-ao-avaliar-consequencialismo-de-schwartsman/.
(2) SCHWARTSMAN, Hélio. Por que torço para que Bolsonaro morra. Folha de S.Paulo, São Paulo, 8 jul. 2020. p. A2.
(3) Os termos “felicidade” e “prazer” são tomados aqui como sinônimos, assim como “dor” e “sofrimento”.
(4) Exemplo extraído de: WARBURTON, Nigel. Elementos Básicos de Filosofia. Lisboa: Tipografia Guerra/Viseu. 1998, p. 39.
(5) Sobre a assimetria entre dor e prazer, cf. POPPER, Karl R. A sociedade aberta e seus inimigos. Tomo I. Belo Horizonte: Itatiaia, 1987;  PEARCE, D. The Pinprick Argument. Negative Utilitarianism, broken symmetry and the fate of the world. 2005. Disponível em: < https://www.utilitarianism.com/pinprick-argument.html >. Acessado em 19 julho de 2020.
(6) apud LOSURDO, Domenico. Liberalismo : Entre civilização e barbárie. São Paulo: Anita Garibaldi, 2006. p. 105-106.
AUTORES

sábado, 25 de julho de 2020

Os efeitos da ivermectina, por Dirce Waltrick do Amarante

Sol LeWitt, 1964
Tudo não passa de especulação, mas o fato é que muitos integrantes do governo desapareceram, entre eles, o secretário de Cultura, o ministro da Saúde e o ministro da...
Tudo não passa de especulação, mas o fato é que muitos integrantes do governo desapareceram, entre eles, o secretário de Cultura, o ministro da Saúde e o ministro da Educação. O próprio presidente aos poucos está desaparecendo (ultimamente só é visto nos finais de semana ou no gramado entre as emas). Têm-se atribuído esses sumiços aos efeitos do uso da ivermectina, que, como se sabe, elimina vermes e parasitas. Se o presidente ainda não sumiu de vez é porque, presume-se, sua dose diária do vermífugo ainda é baixa, uma vez que ele tem priorizado o uso da cloroquina que, como todos sabem, até as emas, não tem efeito nenhum.
*Dirce Waltrick do Amarante é escritora, ensaísta e tradutora.
Fonte: Jornalistas Livres

Dia Internacional da Mulher Negra Latino Americana e Caribenha

Desde 1992 o dia 25 de julho se transformou em um marco internacional da luta e da resistência da mulher negra. A data foi criada a partir do primeiro Encontro de Mulheres Afro-Latino-Americanas e Afro-Caribenhas, em Santo Domingos, República Dominicana.
Este dia busca dar visibilidade às situações de desigualdade racial e de gênero, ao mesmo tempo em que viabiliza o fortalecimento das muitas lutas das mulheres negras seja contra o racismo, o sexismo, a discriminação de classe, o preconceito ou mobilizando ações que fortalecem e resgatam organizações e grupos de resistência.
Festa e luta
Para a militante dos movimentos sociais e fundadora do Movimento Nacional dos Quilombos, Givânia Silva, é necessário pensar no dia 25 de julho como um marco referencial e transformador para as mulheres negras. “Existe um enorme déficit entre as demais populações e as mulheres negras, existe um acúmulo de prejuízos causados por um mal que ainda não vencemos, o mal do racismo que se fortalece muito com as ações do machismo. É importante dizer que o racismo é estruturador, ele avassala, elimina, mata, e nós mulheres negras somos o alvo principal dessa ação nefasta. Por isso celebramos o dia de hoje não apenas como festa, mas como reflexão do que tem sido a vida das mulheres não só no Brasil, mas no mundo, principalmente nos países que foram colonizados e sofrem os efeitos dessa ação que ainda se faz muito presente”, constata.
Machismo e violência
Ao falar sobre as urgências que se apresentam como lutas para as mulheres negras no Brasil, Givânia Silva destaca a questão da violência. “Aqui no Brasil nós mulheres negras atuamos em várias frentes, minha atuação tem sido junto às mulheres quilombolas, mas reconheço que existe uma questão que une todas nós mulheres negras que é a questão do machismo e da violência que vem matando mulheres todos os dias, não é possível aceitar que todos os dias morram tantas mulheres em cada lugar desse nosso país vítimas das ações do machismo ou do racismo. A maior parte desses crimes ficam em pune, então mais do que qualquer outra bandeira, que também são importantes para a vida das mulheres, nós precisamos pensar o quanto elas estão sendo vítimas do feminicídio”.
O Mapa da Violência 2015  mostra que a taxa de assassinatos de mulheres negras aumentou 54% em dez anos, passando de 1.864, em 2003, para 2.875, em 2013.
Processo histórico
Ao longo do processo histórico não é difícil constatar que as mulheres negras sofrem de forma mais severa os impactos da cultura machista e da ordem global econômica injusta que continua tratando mulheres negras com discriminação à medida que não discute e não aplica critérios justos no âmbito salarial, nas oportunidades de emprego ou no acesso à educação de qualidade.
No contexto atual que revela a situação de violência que as mulheres, e de modo especial, as mulheres negras enfrentam, grupos, instituições e coletivos seguem trabalhando em um conjunto de ações para divulgar e denunciar essa dura realidade que persiste no decorrer dos séculos em toda América Latina e Caribe, como lembra Givânia Silva: “Nos últimos anos o Brasil, por exemplo, conseguiu diminuir alguns indicadores importantes como os da fome e da miséria, que agora se encontram novamente ameaçados, mas não conseguiu diminuir os indicadores alarmantes do número de mulheres que morrem vítimas da violência doméstica, principalmente”.
Uma mulher que tornou-se símbolo de liderança, força e luta pela liberdade. Apesar de sua história ter sido pouco divulgada durante um longo período, hoje seu legado é cada vez mais reconhecido. Tereza de Benguela é um ícone da resistência ... Mulheres Importantes Na Historia, Mulheres Na Historia, Teresa De Benguela, Dandara Zumbi, Rainha Negra, Zumbi Dos Palmares, Herois Negros, Quilombo, Evandro
Imagem do Google - (https://br.pinterest.com/) - 

"Sob o seu comando, o Quilombo do Quariterê resistiu por duas décadas, ganhando um parlamento, parceiros comerciais e uma eficiente força de defesa." - (https://br.pinterest.com/) 

Tereza de Benguela: Uma mulher que tornou-se símbolo de liderança, força e luta pela liberdade.
A partir da lei  Lei nº 12.987/2014, no Brasil celebramos também em 25 de julho o Dia Nacional de Tereza de Benguela e da Mulher Negra. Tereza de Benguela foi uma importante líder quilombola que viveu durante o século 18. Casada com José Piolho, negro que chefiava o quilombo do Piolho ou Quariterê, nos arredores de Vila Bela da Santíssima Trindade, no Mato Grosso, assumiu o comando da comunidade revelando-se uma grande  líder após a morte do marido.
Por Jucelene Rocha / Assessoria de Comunicação Cáritas Brasileira
Fonte: Portal BRASIL CULTURA

Recursos da lei “Aldir Blanc” serão transferidos para estados e municípios pela Plataforma +Brasil

A partir de hoje (25.07), os estados e municípios do país deverão enviar as informações solicitadas pelo governo federal para o recebimento do recurso previsto pela lei “Aldir Blanc” – auxílio emergencial destinado ao setor cultural. A transferência do montante será operacionalizada pela Plataforma +Brasil, do Ministério da Economia. Ao todo, serão encaminhados R$ 3 bilhões via fundo cultural ou CNPJ, conforme definido pelo ente da federação.
Segundo o ministro do Turismo, Marcelo Álvaro Antônio, esse é um passo primordial para apoiar o setor que foi fortemente afetado pela pandemia do novo coronavírus. “Daremos aos artistas, contadores de histórias, produtores, técnicos e demais trabalhadores do setor, contemplados pela lei, um respiro para que possam atravessar esse momento tão difícil e para que possam continuar a levar cultura a todos os brasileiros. Contamos com a ajuda dos estados e municípios para agilizar esse processo e fazer com que estes profissionais possam logo ter esse recurso em mãos”, destacou.
O secretário Especial da Cultura, Mário Frias, declarou que essa ação se soma a outras medidas estão sendo desenvolvidas para dar sobrevida ao setor cultural. “Estamos trabalhando em alguns planos para que possamos proteger e desenvolver a cultura do nosso país. Tenho certeza que este recurso chegará em boa hora para que os que mais precisam e aliado as demais medidas ajudará os mais diversos artistas nacionais à sobreviverem”, disse.
Para auxiliar o cadastro na Plataforma +Brasil, o Ministério da Economia disponibilizou dois tutoriais: o primeiro, com informações para a validação do cadastro dos gestores locais e um segundo com um passo-a-passo para o cadastramento do respectivo fundo cultural, para aqueles que optarem por indicar esse meio como executor dos recursos. Além disso, a Pasta irá tirar dúvidas por meio do canal de teleatendimento, no número 0800 978 9008.

CRITÉRIOS – Podem solicitar o auxílio, pessoas com atividades interrompidas e que comprovem atuação no segmento nos 24 meses anteriores à publicação da lei, como artistas, produtores e técnicos. Elas também não podem possuir emprego formal ativo e nem receber benefício previdenciário ou assistencial, à exceção do Bolsa Família, além de ter renda familiar mensal per capita de até meio salário mínimo ou renda familiar mensal total de até três salários mínimos – o que for maior.
Os beneficiários não poderão, ainda, ter acumulado rendimentos tributáveis acima de R$ 28.559,70 em 2018. O pagamento será limitado a dois membros da mesma família, sendo que a mulher chefe de família receberá duas cotas. A lei também estabelece um subsídio mensal à manutenção de espaços, micro e pequenas empresas, cooperativas, instituições e organizações comunitárias da área que tiveram atividades suspensas por medidas de isolamento social.
Fonte: Portal BRASIL CULTURA

sexta-feira, 24 de julho de 2020

O que de fato importa? As vidas negras ou as mortes negras?

Construção imagética da violência produz narrativas que podem reduzir povo preto às violências sofridas...

Porque os corpos negros só se tornam relevantes quando alguma tragédia acontece?

A imagem consegue por si só contar inúmeras histórias, que nos ensinam e nos forjam dentro de uma estrutura social. Pensar o modo que temos vivido se dá em uma busca constante por conteúdos visuais, somados a uma defasagem educacional gigante e proposital em nosso país. Desde o fim de maio, circulam por todo o mundo imagens do assassinato de George Floyd, causando uma grande onda de denúncias de violência policial e ações de promoção de causas ligadas ao assunto. A questão que se levanta com tal movimento é o que de fato importa: as vidas ou as mortes negras?

Durante os meses de junho e julho, vários veículos de mídia expandiram os debates sobre as questões raciais em seus editoriais, capas e artigos, na busca de suprir violências de mais de 400 anos de extermínio. Fato que tem sua importância no contexto histórico, porém se dá mais uma vez após momentos de violência, repetindo uma estrutura de banalização do mal, pois os casos seguintes se tornaram apenas virais na internet, como na cidade de São Paulo, o caso da comerciante de 51 anos que teve seu pescoço pisoteado pelo soldado da Polícia Militar João Paulo Servato, durante uma abordagem.
Sabemos que uma das bases da nossa educação é a imagem. Partindo disso, essa construção imagética da violência produz narrativas que por muitas vezes reduzem as ações do povo preto às violências sofridas, enquanto processo de documentação. A pesquisadora norte americana bell hooks, em seu livro “Olhares Negros, Raça e Representação”, faz uma síntese de como essas imagens reforçam a violência, pois não criam outras possibilidades concretas para esse povo e o condicionam à violência, fato que a repercussão da imagem no Brasil, causa um efeito reverso, reproduzindo as ações praticadas. Pensar que a imagem de um policial sufocando um homem negro nos EUA fora reproduzida quase que integralmente por um outro policial no Brasil, nos deixa com a reflexão de que isso pode ser uma demonstração de identidade com a violência praticada contra corpos negros. 
Foto: Matheus Alves / Jornalistas Livres
Compreender a importância da valorização das vidas negras se faz necessário não apenas quando uma delas é perdida ou colocada em situação de vulnerabilidade. É algo que precisa ser construído cotidianamente através da promoção da cultura e da diversidade do povo, da inserção destes em espaços de criação de narrativas e decisão política e editorial. A construção da documentação do povo preto precisa considerar os mais diversos pontos de vista, inclusive sua própria história, como nos provoca a filósofa Sueli Carneiro sobre essa urgente tarefa de manter o pensamento negro vivo. 
Foto: Matheus Alves / Jornalistas Livres
Há de lembrar que as imagens desde o período colonial têm um papel de manutenção da supremacia branca no Brasil, que apesar de sempre ter existido, agora demonstra sua faceta de forma mais explícita através de ações de extermínio. Ao olharmos toda a história brasileira nos museus e galerias, as únicas formas de representação negra ainda reproduzem essas violências estruturais. Se fazem necessárias alternativas que ultrapassem este lugar de denúncia, mas que construa também narrativas de futuro para as pessoas pretas, vide o trabalho e esforço que tem sido levantado pelos movimentos negros, como o MNU e o Ilê Aiyê, nos anos 70, com a apropriação e ressignificação de termos e figuras para a promoção da autoestima negra nos mais diversos segmentos da sociedade, como na arte e na política.

Mortes negras: quantas mais?

Façamos memória das potências negras que já nos deixaram, e que seguem construindo narrativas de transformação, como a própria vereadora Marielle Franco nos alertou pouco antes de ser assassinada: “Quantos mais têm que morrer pra essa guerra acabar?”. Esta frase não fala apenas sobre contar corpos, mas sobre a construção de um projeto de manutenção das vidas negras, onde a necropolítica que a supremacia branca nos determina não seja condicionante da forma que vivemos.
Foto: Matheus Alves / Jornalistas Livres
É necessário um processo de ruptura com a normalização dessas mortes, que não partam apenas do lugar momentâneo, mas da construção efetiva de processos de reestruturação social, que sejam interseccionais, como tem sido a Lei Federal de nº 10.639/2003 para a educação brasileira, em todos outros espaços de poder, uma derrubada das estruturas coloniais que ainda se mantém de pé.
A falácia da democracia racial é grande responsável por promover este sentimento de cooperação e exclui a necessidade de entender a importância dos olhares pretos estamparem de forma positiva os espaços de mídia e os imaginários da sociedade. Por isso, é essencial que haja investimento e reconhecimento, para que sejam efetivados os esforços promovidos por artistas, ativistas e tantas outras figuras negras. Onde possam ocupar espaços na sociedade durante suas vidas. Aqui podemos citar trabalhos como do jovem fotógrafo alagoano Marcelino Melo “Nenê”, 25, que tem documentado de outra forma territórios marcados pela violência na região do Campo Limpo, ou mesmo o do antropólogo Hélio Menezes, 34, através de suas curadorias em espaços das artes, buscando ressignificar as identidades negras em exposições de obras produzidas por artistas negros. Ou, como os dois jovens negros que assinam este artigo – que facilmente poderiam ser manchetes sobre mais um extermínio do estado.
Foto: Matheus Alves / Jornalistas Livres
Texto originalmente publicado pela coluna PerifaConnection, na Folha de S.Paulo.
Marcelo Rocha, 22, é fotógrafo, ativista em educação, negritude e mudanças climáticas, graduando em Ciências Sociais, foi curador das mostras “Humano Cidade: Olhares além da medida” e “QUEBRADA: São Paulo, na visão dos cria”. Cria da cidade de Mauá, São Paulo.
Matheus Alves, 22, é fotojornalista freelance baseado em Brasília (DF). Tem seu trabalho dedicado a documentar Movimentos Populares de luta pela terra e direito à cidade. Premiado pelo Concurso Fotográfico “Combater os Retrocessos: Existir e Resistir à Retirada de Direitos”, promovido pelo Fundo Brasil de Direitos Humanos em 2019. Colabora com a rede Jornalistas Livres.

JUSTIÇA Crise na Cinemateca: Justiça penhora dinheiro do Ministério do Turismo

Cinemateca está abandonada. Foto: Ronaldo Caldas/Divulgação/MinC

CINEMATECA ESTÁ ABANDONADA. FOTO: RONALDO CALDAS/DIVULGAÇÃO/MINC

A ação foi movida por uma ex-funcionária que diz não ter recebido verbas rescisórias, nem os salários atrasados.

A crise que envolve a Cinemateca Brasileira ganhou mais um capítulo. Nesta quarta-feira 22, o Tribunal Regional do Trabalho da 10ª Região determinou um bloqueio de até R$ 250 mil em valores que o Ministério do Turismo ou da Educação devem à Associação Roquette Pinto, mantenedora da Cinemateca.
A decisão foi dada pelo juiz do Trabalho Francisco Luciano de Azevedo Frota, numa ação apresentada por Daniela Pontes da Silveira, que trabalhou para a Roquette Pinto de 2009 até junho deste ano e acusa de não ter recebido verbas rescisórias nem os salários atrasados.
O juiz então decidiu que parte das quantias que os ministérios devem à Roquette Pinto não seria destinada à associação, mas ficaria bloqueada para garantir o pagamento da ex-funcionária.
O ministro do Turismo, Marcelo Álvaro Antônio,  diz que não existe amparo legal para que a Secretaria assuma uma dívida de um contrato não vigente há mais de seis meses.

O abandono da Cinemateca

A briga entre o governo federal e a Roquette Pinto se dá pelo fato da empresa ter um contrato de gestão do museu até 2021.
O problema começou quando o ex-ministro da Educação Abraham Weintraub decidiu em dezembro de 2019 encerrar um contrato com a Roquette Pinto para gerir a TV Escola. Sem o contrato com o MEC, invalidou-se também o acordo para a gestão da Cinemateca.
Desde então, o governo abandonou o local e a administração foi feita com orçamento exclusivamente vindo da Roquette Pinto. No mês passado, a presidência da organização enviou uma carta ao Ministério cobrando o pagamento da dívida com a entidade. O valor que a união precisa repassar já passa dos R$ 13 milhões.
O conflito tem colocado a Cinemateca em risco.  Os funcionários estão em greve, pois não recebem os salários desde abril; a brigada de incêndio foi desativada por falta de pagamento; e o gerador quebrou e não houve manutenção.
Não há uma fiscalização necessária dentro do acervo, nos equipamentos, muito menos no prédio. Há um medo entre os funcionários que falaram com a reportagem de que aconteça o mesmo desastre do Museu Nacional, que pegou fogo em 2018.
Ouvido pela reportagem, funcionários temem que a volta da administração da Cinemateca para o governo federal seja uma manobra para encerrar suas atividades. “Um governo que está privatizando tudo quer reestatizar uma instituição? Isso é uma tentativa de encerrar as atividades da Cinemateca”, disse um dos funcionários que não quer se identificar.
A Cinemateca Brasileira é responsável pelo acervo de 250 mil rolos de filmes e mais de um milhão de documentos relacionados ao cinema nacional, sendo o órgão deste segmento mais importante da América Latina.
Fonte: CartaCapital

Cantor da banda Yahoo é cotado para secretaria de Mário Frias

Mário Frias e Zé Henrique
Mário Frias e Zé Henrique (Foto: Reprodução/Instagram)
Em suas redes sociais, Zé Henrique, da banda Yahoo, já dá a entender que participa de compromissos oficiais, mesmo sem ter vínculo com o governo federal.

247 - O cantor Zé Henrique, da banda Yahoo, que fez sucesso nos anos 80 e 90 com melodias de amor, está cotado para assumir a Secretaria de Direitos Autorais e Propriedade Intelectual, subpasta da Secretaria Especial da Cultura, informou a jornalista Monica Bergamo em sua coluna no jornal Folha de S.Paulo. 

Segundo a jornalista, ele esteve no prédio da pasta na terça (21), e postou foto ao lado do secretário Mário Frias. “Deus nos abençoe”, escreveu.
Em suas redes sociais, Zé Henrique dá a entender que já participa de compromissos oficiais, mesmo sem ter vínculo com o governo federal.
Fonte: Brasil 247

Psol defende interdição de Bolsonaro, após ele mostrar cloroquina para as emas do Alvorada

(Foto: REUTERS/Adriano Machado)
"Não está em seu juízo perfeito. Precisa ser interditado e afastado urgentemente", disse Juliano Medeiros, presidente do Psol.

247 – O Psol foi o primeiro partido a defender a interdição de Jair Bolsonaro, que já é alvo de 48 pedidos de impeachment, até agora engavetados pelo deputado Rodrigo Maia: (DEM-RJ). O motivo: demonstrando não estar no seu perfeito equilíbrio mental, Bolsonaro ontem posou para fotos oferecendo cloroquina para as emas do Palácio da Alvorada. "Não está em seu juízo perfeito. Precisa ser interditado e afastado urgentemente", disse Juliano Medeiros, presidente do Psol. 

Saiba mais sobre a relação de Bolsonaro com a covid-19:
BRASÍLIA (Reuters) - O presidente Jair Bolsonaro disse nesta quinta-feira que não é preciso ter pavor em relação ao novo coronavírus e voltou a defender que se repense a política de isolamento social, no dia em que o Brasil ultrapassou 84 mil mortos pela Covid-19 e registrou quase 60 mil novos casos da doença.
Em transmissão feita pelas redes sociais, Bolsonaro — que há duas semanas divulgou teste positivo para a doença causada pelo novo coronavírus— afirmou estar se sentindo bem, disse que está “praticamente preso” numa sala no Palácio da Alvorada e argumentou que se o isolamento social adotado por Estados e municípios para frear a disseminação da doença continuar o Brasil vai se tornar um país de miseráveis.
“Estou muito bem... Não precisa ter pavor no tocante ao vírus”, disse.
“Estou vendo já, assisto televisão o dia todo, está sempre ligado, acompanho aqui um pouco da nossa imprensa e estou vendo autoridades de dentro e de fora do Brasil dizendo que esta pandemia veio para ficar. Mas o povo tem que trabalhar, meu Deus do céu! As consequências de não trabalhar vão ser muito piores do que aquela proporcionada pelo próprio vírus”, completou.
O Brasil só está atrás dos Estados Unidos em número de infectados e mortos por Covid-19 e continua a registrar números elevados da doença.
Na transmissão, Bolsonaro defendeu que nas eleições municipais se pergunte aos candidatos a prefeito e a vereador sobre o que vão fazer em relação ao que chama de “política restritiva”, se vão ou não manter a “mesma linha” adotada pelos atuais governantes e legisladores.

O presidente tem sido um dos grandes críticos da política de distanciamento social, tida por especialistas dentro e fora do país como uma das mais eficazes para combater o avanço do vírus.
Bolsonaro, no entanto, repetiu que não pretende se envolver nas eleições municipais.
“O Brasil tem problemas, tenho que estar preocupado com o desemprego que criaram, com essa política de todo mundo em casa, terror, pavor, ‘vou prender’, destruíram empregos no Brasil”, afirmou, justificando o motivo por não participar do pleito.
Bolsonaro disse que o governo federal tem feito a sua parte, citando o auxílio emergencial aos vulneráveis para amenizar o impacto da pandemia no país. Mas frisou que continuar na política restritiva levará o Brasil a se tornar um país de miseráveis, virando terreno fértil para o socialismo.
Para o presidente, o pânico foi espalhado pela sociedade e não tem cabimento a política de isolamento da forma que tem sido feita. Reiterou estar preocupado com a vida, mas ressaltou mais uma vez que o “efeito colateral” da política de “todo mundo em casa” é muito pior que o vírus em si.
Fonte: Brasil 247

Não é negacionismo científico. É pior!

O governo de Bolsonaro escolheu a estratégia científica eticamente repulsiva em relação à pandemia. Foi coerente com sua própria essência. Não podemos negar...


Rodrigo Perez Oliveira, professor de Teoria da História na Universidade Federal da Bahia
É muito comum associar o bolsonarismo ao negacionismo científico. O bolsonarismo seria eticamente repulsivo, entre outras coisas, porque nega os consensos científicos, porque rejeita os fundamentos da ciência cartesiana, porque desobedece a comunidade científica. Implícita está a ideia de que a ciência sempre é humanista, é sempre virtuosa. Como se não fosse possível ser, ao mesmo tempo, perverso e seguidor dos protocolos científicos.
Essa relação imediata entre entre ciência e virtude é algo ingênua e facilmente desmentida pela própria história da ciência. A ideia de que o bolsonarismo é necessariamente negacionista também não se sustenta na crônica política, especialmente no que se refere ao enfrentamento à pandemia da covid-19.
A forma como governo de Jair Bolsonaro está enfrentando a pandemia da covid-19 não tem nada, absolutamente nada, de negacionista, de anticientífica. Pelo contrário, é perfeitamente coerente com o pensamento científico. Está correta do ponto de vista técnico.
Desde o primeiro dia de pandemia, as autoridades sanitárias nacionais e internacionais recomendaram: o isolamento social é o único jeito de combater a pandemia. Fecha tudo, esvazia as ruas, dá um tapa na curva pra preservar o sistema de saúde, enquanto os cientistas trabalham num medicamento ou numa vacina.
Este é a solução científica eticamente adequada para combater a pandemia. Mas não é a única saída cientificamente possível. Como nem tudo são flores nesta vida, há também a solução científica eticamente repulsiva.
O científico eticamente adequado é tão científico quanto o científico eticamente repulsivo. Por isso, a discussão jamais, sob hipótese alguma, pode ser apenas científica. Tem que ser também políticamente normativa, um tantinho filosófica.
O governo de Bolsonaro escolheu a estratégia científica eticamente repulsiva. Foi coerente com sua própria essência. Não podemos negar.
Não é incompetência. Não é negacionismo científico. É pior!
Quando Bolsonaro boicotou as medidas de isolamento, fritou dois ministros da saúde, vetou a lei que decretava a obrigatoriedade do uso de máscaras e gastou apenas 1/3 do orçamento previsto para o combate à pandemia, estava escolhendo um método cientificamente autorizado para lidar com o problema.
Deixa o vírus correr, infectar as pessoas, até o momento em que a populacao estiver naturalmente imunizada, custe o que custar, morra quem morrer.
Num país de 210 milhões de habitantes, de proporções continentais, qual será o custo da estratégia? Quanto tempo leva?
0,1% de mortos? Parece pouco, né? Em números absolutos são 210 mil pessoas. Se for 0,2%? Ainda assim será pouco? 420 mil pessoas! E vamos somando, de 0,1 em 0,1%. Até onde vai? Será que chega em mim, no meu pai, na minha mãe? A cada, 0,1%, a chance aumenta. Vale pra você também, leitor e leitora. É uma bomba relógio. Tic, tac, tic, tac.
O governo brasileiro está disposto a pagar o preço, seja ele qual for. Estamos com quase 85 mil mortos. E contando. E o vírus circulando, e as pessoas morrendo. Em algum momento, virá a tal imunidade natural do rebanho. É o que a ciência diz.
Os que sobreviverem ficarão imunes. Os que morreram, em sua maioria pessoas mais frágeis, não voltam mais. Óbvio! A ciência também diz isso. Sobram os mais fortes, aptos e saudáveis. Na história da ciência, a estratégia bolsonarista tem nome: eugenia, darwinismo social. Na história politica tem nome também: genocídio!
Nomear as coisas com os nomes que elas têm é, antes de tudo, ato político desestabilizador, como percebemos na reação histérica dos generais à entrevista de Gilmar Mendes.
Dizer que o bolsonarismo é obscurantista, negacionista, ignorante, significa ser indulgente. Não se trata de nada disso. É pior. É muito pior.
Quando Osmar Terra participou do programa da Globo News, no começo de maio, e disse que as pessoas não deveriam ficar trancadas em casa, que tinham que ir mesmo pra rua se infectar, ele estava cientificamente correto, certinho.
A máxima “obedeçam a ciência”, tão ventilada no início da pandemia, pode ser muito perigosa. Não é tudo que a ciência manda que a gente tem que obedecer não. Carece de ter cautela, de selecionar repertórios, caso a caso, com lupa ampliada em cada situação.
Há no meio disso tudo apenas duas certezas, que podem ser provadas, cientificamente: 1°) Bolsonaro e seus cumplices são genocidas. 2°) A ciência não detém o monopólio da virtude.
Fonte: Jornalistas Livres