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terça-feira, 12 de janeiro de 2021

COM O PAÍS DESMANCHANDO, BOLSONARO TRABALHA PARA FACILITAR ACESSO A ARMAS DE FOGO - Fonte: DCM

 

Bolsonaro assinando decreto que facilita o porte de armas

Em conversa com apoiadores nesta segunda (11), o presidente Jair Bolsonaro afirmou que prepara três decretos para facilitar o acesso a armas de fogo a grupos de Colecionadores, Atiradores e Caçadores (CACs).

“Nós batemos recorde o ano passado, em relação a 2019. Mais de 90% na venda de armas. Está pouco ainda, tem que aumentar mais. O cidadão de bem, há muito tempo, foi desarmado”, disse ele.

Segundo a Polícia Federal, 179.771 novas armas foram registradas no País no ano passado, ou seja, um aumento de 91% com relação ao número de 2019.

Fonte: Diário do Centro do Mundo - DCM

LEIA TAMBÉM: Desmentido por Honda, Loreal e MWM, Bolsonaro passa vergonha após fuga da Ford para a Argentina

MIGUEL ARROYO || ESCOLAS MILITARIZADAS CRIMINALIZAM INFÂNCIAS POPULARES Fonte: CARTA CAPITAL E SINPRO-DF

MIGUEL ARROYO

JORNALISTA: RIBAMAR MARTINS 

Fonte: SINPRO-DF

O anúncio do Programa Nacional das Escolas Cívico-Militares apresentado pelo governo Bolsonaro no início do mês se apoia em duas narrativas principais: a de que, sob gestão dos militares, as escolas conseguirão resolver a questão da violência – motivo pelo qual o plano considera aplicar a militarização em territórios mais vulneráveis – e ainda produzir melhores resultados educacionais, a partir de mais regras e disciplinas no ambiente escolar.

As justificativas não convencem o sociólogo e educador espanhol Miguel Arroyo, que vê o modelo com preocupação. Para ele, há perguntas anteriores que devem ser feitas antes de substituir educadores e gestores educacionais por militares e levar a lógica da militarização a esses espaços. “Por que há violência nas escolas e qual ideal de educação temos?”, questiona.

Em entrevista a CartaCapital, o educador explica o modelo de escolas militarizadas como parte integrante de uma política  vigent de “criminalização dos mais pobres”, que questiona as estruturas democráticas, sobretudo as escolas, a partir de um discurso de medo, exceção e ameaça.

CartaCapital: Como o senhor avalia a narrativa de que a militarização das escolas resolverá  a questão da violência dos territórios mais vulneráveis?

Miguel Arroyo: Em relação à violência, eu destacaria o seguinte: quais escolas serão militarizadas? Não serão as privadas, mas as públicas, locais que recebem as infâncias populares das favelas, dos campos. Digo isso para que pensemos: que infâncias estão sendo pensadas como violentas? Estamos em um momento no qual se busca a criminalização das infâncias e adolescências populares, bem como dos movimentos sociais de luta por terra, teto, transporte, o que eu chamo de política criminalizante dos pobres. E isso me soa de uma brutalidade assustadora. Portanto, o que ao meu ver legitima a criação das escolas militarizadas é o discurso de que as infâncias são criminosas, mas não todas, só as populares, ou se criminaliza quem está nas escolas  na escolas privadas? Esse é um alerta político muito sério, mas que não acontece de agora.

Nós já vínhamos há uns dois, três anos, pressionando pelo rebaixamento da idade penal. E a ideia que sustenta essa tese é a mesma, a de que as infâncias e as adolescências são violentas. Então, em vez de entregá-las às escolas públicas, aos educadores e educadoras, se defendia encaminhá-las à justiça penal, um jeito de tirar esses estudantes da escola e colocá-los na prisão.

A novidade agora é que não vamos mais tirá-los das escolas, mas colocar as próprias unidades sob o controle da justiça penal, sob a lógica policial, militar, o que eu vejo com extrema gravidade. A ideia da militarização representa a condenação da infância e seu controle pela polícia. Preferem isso a colocar uma questão fundamental: por que há violência nas escolas? 

Não são as infâncias que são violentas. Elas são sim violentadas pela sociedade, pela pobreza, pelas favelas, pelas desigualdades sociais, de raça, gênero e isso chega às escolas. Mas preferem ocultar isso, a olhar com seriedade. As infâncias  são vítimas de violência e respondem da mesma maneira às violações que sofrem.

CC: Do ponto de vista da política educacional e do direito à educação, o que a militarização das escolas representa?

MA: Está se decretando a falência da escola pública e não só dela enquanto instituição, mas também dos educadores e dos gestores educacionais formados para atuar na área. Ao substituí-los por militares, damos um recado claro: vocês fracassaram. E isso é muito sério. A tentativa é de desconstruir toda a luta por uma educação pública de qualidade, tal como podemos ver com os ataques direcionado às universidades federais, às Ciências Humanas. Na visão dos conservadores, a escola pública foi longe demais e precisa ser combatida. E quando se destrói a ideia da escola pública, rui juntamente a ideia do Estado público, de direitos, de cidadanias. É uma radicalidade terrível.

Outra questão que destaco ainda sobre o direito à educação é a tentativa de validar a chamada educação familiar, no bojo da destruição do Estado. Veja, o que se diz é que quem deve educar é a é a família ou que, caso ela não tenha condições, que seja o Estado militar. Nesse contexto, a criança não é pensada como cidadã, como um sujeito de direitos que tem, entre eles, a garantia a uma educação pública de qualidade fornecida pelo Estado.

E essa lógica será perpetrada pela escola militarizada, porque lá as crianças não são cidadãs. O militar não é símbolo do Estado cidadão, mas da soberania da pátria, da regra, da disciplina, do controle, da ordem. Todo Estado militarizado é anti cidadania, ou seja, não se afirma enquanto símbolo dos direitos cidadãos.

CC: O senhor acredita que esse modelo, baseado em regras rígidas, pode impactar no desenvolvimento das crianças e adolescentes?

MA: Uma das formas das infâncias e adolescências se afirmarem é por meio de seus corpos. Eu costumo dizer que não temos corpos, somos corpos. Trazemos nele a marca do nosso tempo, o corpo é a marca de cada tempo, da identidade. O que eu quero dizer com isso é que quando o menino usa boné, ou quando meninos e meninas optam por usar adereços ou até por um tipo de corte de cabelo eles estão simbolizando suas identidades, os corpos passam a ser afirmação de identidade, entende? E aí vem a escola militar e diz: basta! Não existe cabelo, corpo, nada. Isso é terrível, porque não reconhece as mudanças e as lutas que se acumulam na infância, adolescência e juventude. Até o século passado, tínhamos uma visão limitada sobre essas etapas da vida, agindo com crianças, adolescentes  e jovens como se não tivessem direito à fala. A palavra infância, aliás, no seu sentido etimológico denota um sentido negativo, não-falante. A adolescência chamávamos de ‘aborrescência’ e a juventude era vista como uma fase preparatória para a vida adulta. Mas isso mudou radicalmente. Hoje a infância tem voz, a adolescência é o tempo da afirmação, da orientação sexual, das experiências que culminam, por exemplo, em tantos movimentos organizados pela juventude. E se estamos diante de novos tempos para esses indivíduos, a educação também deve ser outra. Ao tentar destruir identidades de corpos, raça, gênero, se destrói a identidade humana e isso não é pedagógico.

CC: Ainda assim, há famílias que endossam o modelo da militarização, justamente por acreditarem na solução da violência. Como o senhor vê esse movimento?

MA: Essa alternativa é validada à medida em que se cria e se fortalece a política de estado de  medo, exceção e ameaça. Imagine só uma mãe que precisa trabalhar e deixar o filho na escola, claro que ela vai querer segurança. A questão é que se criou um clima de que a escola não dá conta de seu papel e isso é totalmente intencional e político, faz com que essas mulheres não confiem mais nas escolas e cedam à proposta da militarização. Veja, o caminho democrático é sempre melhor, mas quando se cria a ideia de que na democracia não há segurança, acabamos flertando com as regras, com as posturas ditatoriais e isso também chega às escolas.

CC: Outro ponto defendido pelo governo é a possibilidade das escolas militarizadas produzirem melhores resultados. Qual a análise do senhor?

MA: Quais resultados? As escolas militares têm bons resultados para formar militares, mas não são os melhores exemplos para formar cidadãos com valores de democracia, de igualdade, valores políticos. Eu me formei em uma escola militar na Espanha, na época do general Francisco Franco, e eu não aprendi nada disso, mas sim a marchar, bater continência, a ter meu corpo militarizado. Essa é a boa educação que queremos? Temos que nos colocar essa pergunta. Os resultados serão bons de acordo com o que temos como ideal, entende? E o que vejo é uma luta por por uma educação para a cidadania, pautada em valores, em respeito aos outros, fraterna e participativa.

Reprodução: Carta Capital

Fonte: SINPRO-DF

Adnet ironiza Pazuello após fala de "dia D" e "hora H" para início da vacinação no Brasil - Por Brasil 247

Marcelo Adnet (Foto: Reprodução/Twitter)

247 - O humorista Marcelo Adnet usou o Twitter nesta segunda-feira (11) para, em vídeo, ironizar o ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, após declaração de que a vacinação contra Covid-19 no Brasil terá início no "dia D" e na "hora H".

“A vacina vai começar no dia D, na hora H no Brasil. No primeiro dia que chegar a vacina, ou que a autorização for feita [pela Anvisa], a partir do terceiro ou quarto dia já estará nos estados e municípios para começar a vacinação no Brasil", disse Pazuello.

Luis Fernando Verissimo: Americanamente

Das tantas cenas do Capitólio ocupado que vimos as mais impressionantes eram as de confronto entre os guardas do prédio e os invasores, muito mais numerosos.

Não foi, assim, uma queda da Bastilha, muito menos a invasão do Palácio de Inverno do tzar pelos bolcheviques. Mas foi histórico, americanamente histórico. A maioria dos que entraram à força no Capitólio, onde o poder legislativo se reunia para oficializar a vitória do Biden e a derrota do Trump, era formada por uma mistura de trumpistas iludidos, trumpistas inocentes carregando os filhos, garotada a fim de quebrar tudo e o que lá eles chamam de “red necks”, pescoços vermelhos, uma categoria de caipiras de bunda grande. Trump tinha instruído seus seguidores a marchar pela Avenida Pennsylvania, que vai da Casa Branca até o Capitólio, mas não se lembrara de avisar a multidão a não entrar no Capitólio, o que a multidão fez com grande facilidade.

O Capitólio era surpreendentemente aberto e vulnerável. Qualquer um podia entrar, qualquer um podia assistir a sessões do senado e da câmara ou andar pelos seus corredores. História pessoal: eu cursava um “high school” em Washington e (crianças, tapem os ouvidos) odiava estudar. Decidi, por minha conta, que aprenderia mais fora da escola do que na escola. Passei a frequentar o Congresso, principalmente seu departamento de revistas estrangeiras, e muito andei pelo seu interior sem que me interpelassem. Também frequentava o centro de Washington, onde um dia, por fatalidade, encontrei minha mãe e a Clarice Lispector. Até hoje não sei como expliquei o que eu estava fazendo tão longe da escola.

Das tantas cenas do Capitólio ocupado que vimos as mais impressionantes eram as de confronto entre os guardas do prédio e os invasores, muito mais numerosos. A Segurança do Capitólio por certo mudou desde a minha adolescência, quando a nação temia um ataque nuclear da União Soviética, mas ninguém sonhava com uma cena como a de uma multidão americana acuando guardas americanos. O que o episódio tem de histórico, além do ineditismo – mas as tomadas da Bastilha e do Palácio de Inverno também foram inéditas – é essa reversão de civilidade, a volta de uma incivilidade, ausente desde a guerra da secessão.

Fonte: Portal BRASIL CULTURA

Hinos estaduais propagam racismo contra negros e índios

Algumas letras exaltam as figuras de bandeirantes e escravocratas, além de terem versos racistas

A nefasta exaltação a bandeirantes e escravocratas não se resume a estátuas espalhadas Brasil afora. Algumas letras de hinos estaduais elogiam essas figuras e também têm versos racistas. Basta ouvir o hino do Rio Grande do Sul, que detonou esse debate no primeiro dia do ano. Cinco vereadores de Porto Alegre (RS), todos em primeiro mandato e negros, permaneceram sentados quando o hino tocou durante a cerimônia de posse como um protesto contra os versos racistas.

“Mas não basta, para ser livre / Ser forte, aguerrido e bravo / Povo que não tem virtude / Acaba por ser escravo”, diz o trecho que motivou o protesto. Para Luiz Alberto Grijó, professor do núcleo de História na Universidade Federal do Rio Grande do Sul, a denúncia de racismo é pertinente. “As pessoas que advogam que isso tem um conteúdo racista – com as quais eu concordo – dizem que esse escravo estaria associado a uma pessoa sem virtude, quase seria uma não pessoa pela falta da virtude”, afirma Grijó.

No hino de Alagoas, os escravos também aparecem com uma conotação racista. A canção diz que o estado “não procria escravos / vence ou morre! / mas sempre de pé!”. Segundo Amailton Magno Azevedo, professor de História da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), “a construção desses símbolos no Brasil sempre expressou a ideologia de classes letradas e, em um certo sentido, dos detentores de poder. Os hinos, as bandeiras, a construção de heróis no Brasil teve uma participação popular nula”.

É por essa falta de participação popular, segundo Azevedo, que aparecem com tanta frequência expressões preconceituosas e racistas nos signos que constroem a ideia de nação. Ele dá como exemplo o caso da bandeira da cidade mineira de Ouro Preto, que dizia “precioso ainda que preto” e foi alterada em 2005.

Outros hinos estaduais também exaltam os bandeirantes, igualmente homenageados em estátuas que foram alvo de críticas em 2020. No hino paulista – que evoca uma “São Paulo das bandeiras” –, ele “avança e investe” de norte a sul, de leste a oeste e então “doma os índios bravios”. No Piauí, foi a aventura de dois deles que “a semente da pátria nos traz”. O hino rondoniense diz: “Nós, os bandeirantes de Rondônia / nos orgulhamos de tanta beleza”.

“Esses homens pertencem todos a nossa elite”, afirma diz o historiador Euzébio Assumpção. “Por consequência disso é que se formam hinos de louvor aos bandeirantes e aos farrapos [no caso do Rio Grande do Sul].” Assumpção provoca: “É o imaginário de um pensamento da época que passa por décadas e décadas e vem até os dias de hoje. O que eles representam de fato? O pensamento dominante de uma elite”. O historiador lembra que desde a década de 1970 se discute o racismo nos versos do hino gaúcho.

Para Azevedo, a discussão lembra o debate sobre a retirada de estátuas que aconteceu com força no ano passado. Em sua opinião, ter uma figura como a do bandeirante Borba Gato homenageada em São Paulo, por exemplo, obrigou a população a lidar “com a evocação dessa memória única, exultante, orgulhosa, do bandeirante paulista, em detrimento de outras memórias que também habitaram e continuam habitando a cidade de São Paulo, como as memórias indígenas, negras, como parte fundamental”.

Em raras contrapartidas às letras que homenageiam escravocratas, há trechos antiescravistas em hinos de alguns estados do País. “Fluminenses, eia! Alerta! / Ódio eterno à escravidão! / Que na pátria enfim liberta / brilha a luz da redenção!”, diz o hino do Rio de Janeiro.

No hino de Santa Catarina, a intenção aparece em mais de uma estrofe: “cai por terra o preconceito / levanta-se uma nação”, “quebrou-se a algema do escravo / e nesta grande nação / é cada homem um bravo / cada bravo um cidadão” e “não mais diferenças de sangues e raças / não mais regalias sem termos fatais / a força está toda do povo nas massas / irmãos somos todos e todos iguais”.

De acordo com Cristina Scheibe Wolff, professora da Universidade Federal de Santa Catarina, a diferença entre os hinos se dá pelo contexto histórico em que foram feitos. No caso catarinense, a letra é resultado de um momento abolicionista que o local vivia.

Os protestos contra os hinos considerados racistas vêm acompanhados de pedidos de mudança dos versos, assim como aconteceu na bandeira de Ouro Preto. “O hino é uma coisa viva, foi trabalhado ao longo desse tempo todo, recebeu arranjos – coisas foram suprimidas, provavelmente coisas foram colocadas. Nesse sentido, essa parte realmente tem uma conotação racista, é inegável”, diz Grijó sobre a canção gaúcha. “Estamos vivendo a emergência de uma intelectualidade que está levando para a arena da discussão pública a sua leitura desses elementos da cultura – e isso é fundamental.”

Segundo Amailton Magno Azevedo, o protesto no Rio Grande do Sul acontece num momento propício para essa discussão disparar no Brasil. “O debate que está posto em torno das questões do racismo, do machismo, das questões da sexualidade, não permite mais aceitar ou compactuar com antigos pactos de construção de nação que foram exigidos no passado”, diz Azevedo. “Esse debate sobre estátuas, que está correndo o mundo todo, questiona esses signos.”

Com informações da Folha de S.Paulo

Fonte: Portal BRASIL CULTURA

segunda-feira, 11 de janeiro de 2021

Missão da OMS vai à China investigar origem do coronavírus - Revista Fórum

Em comunicado, a Comissão diz que os técnicos da OMS vão cooperar com cientistas locais na investigação.

Na semana passada, Tedros Adhanom, diretor da OMS, disse estar “muito decepcionado” com os obstáculos colocados pelo governo chinês na investigação.

Por Plinio Teodoro

Jornalista, editor de Política da Fórum, especialista em comunicação e relações humanas.

Articulações negras importam

Manifestantes invadem prédio do Congresso americano  em Washington  - Foto: Win Macnamee.6/jan/2021/AFP

Fonte: Por Flávio Thales Ribeiro Francisco, Enviado para o Portal Geledés

Em um cenário marcado por uma crise de caráter econômico, político e social causada pela pandemia, a disputa eleitoral nos Estados Unidos aprofundou ainda mais as tensões criadas pela administração do presidente Donald Trump. Enquanto um fenômeno multidimensional da política estadunidense que envolve dinâmicas de classe, gênero e raça, o trumpismo revelou diferentes faces, que na maioria das vezes se materializou em manifestações públicas de homens brancos da classe trabalhadora. Desde as primárias republicanas, Donald Trump flertava com supremacistas brancos que já tinham um canal aberto no Partido Republicano. É sempre bom lembrar que alguns republicanos estimularam a aproximação com o Tea Party, uma organização que construiu uma agenda libertária em 2009, mas, sob a presidência de Barack Obama, logo se metamorfoseou em um grupo de feição racista. Nesse sentido, Trump apenas cumpriu a função de reconduzir supremacistas brancos à política mainstream dos Estados Unidos, inflamando o debate racial que sempre esteve presente entre os temas mais discutidos na esfera pública. Entre discursos sobre o perigo dos imigrantes legais, as trapaças dos chineses e as badernas do Black Lives Matter, o presidente de forma direta ou codificada foi reforçando a associação entre cidadania de primeira classe e as experiências de branquitude.

A América Grande Novamente, embora apoiada por figuras como o rapper Kanye West, não apresentava uma natureza inclusiva, nas entrelinhas o Trump falava do retorno a uma época não exata, provavelmente a década de 1950, em que a ideia de Sonho Americano foi sinônimo de prosperidade branca. Nesse quadro, em uma trajetória de levantes contra a violência institucional da polícia estadunidense que se iniciou no final da era Obama, a militância do Black Lives Matter se transformou em um dos movimentos sociais que mobilizaram a oposição ao governo de Trump. Desde 2013, o movimento vinha pautando o debate sobre a questão racial e as políticas públicas, que ganhou uma dimensão muito maior com o assassinato de George Floyd pela polícia e as manifestações que se espalharam pelas cidades dos Estados Unidos. Donald Trump se esforçou para enquadrar os levantes como insurreições antidemocráticas, mas a força das mobilizações negras contribuiu para o avanço das narrativas sobre racismos institucionais e sistemáticos que prevaleceram nas interpretações sobre as causas das tensões raciais.

Entretanto, os termos levantes e insurreições para se referir aos protestos liderados pelo Black Lives Matter são limitados para dimensionar os esforços dos ativistas negros de diferentes localidades que ao longo dos anos articularam as suas bases e constituíram agendas que englobavam temas além da violência policial, como a precarização do trabalho e o acesso à saúde entre as comunidades negras. No momento em que a crise pandêmica e o assassinato de Floyd deflagraram as manifestações nas cidades estadunidenses, o impulso agressivo das comunidades negras foi conduzido por lideranças que já tinham experiências com as táticas de manifestações de ruas e, por outro lado, já haviam construído o debate sobre o financiamento das polícias. O que num primeiro momento apareceu ser um movimento espontâneo na imprensa era, na verdade, consequência do trabalho de lideranças negras. Essas mesmas articulações seriam retomadas em vários distritos eleitorais para mobilizar o voto negro, incitado pelos discursos racistas do presidente Donald Trump.

Os eleitores negros desde a década de 1940 votavam predominantemente no Partido Democrata, entretanto, apesar de porcentagens entre 85 e 90 por cento para o partido, o comparecimento era menor em comparação aos demais eleitores. O primeiro teste do Black Lives Matters, e tão importante quanto a eleição presidencial, aconteceu no final de junho, quando as lideranças do movimento registraram eleitores negros para apoiar os candidatos ao congresso nas primárias democratas que estavam alinhados com a sua agenda. Jamaal Bowman, da cidade de Nova Iorque, foi um dos mais bem sucedidos e se elegeu para compor “o esquadrão” – grupo de congressistas democratas de esquerda. Para algumas lideranças do Black Lives Matter, a moderação de Joe Biden e de grande parte do partido não poderiam contemplar as demandas das ruas, a estratégia era eleger congressistas mais progressistas e radicais para pautar a agenda do movimento. Entretanto, todo o esforço nessa etapa foi fundamental para impulsionar e ampliar o voto negro, favorecendo Biden na disputa com Donald Trump.

Para além do entusiasmo anti-trump, havia iniciativas financiadas por jogadores da NBA, que incorporaram o protesto do Black Lives Matter aos jogos da liga de basquete. Esse cenário de “levantes negros” foi obviamente capturado pelos democratas que eletrizaram a suas redes tradicionais conectadas com as igrejas, que são espaços tradicionais da política afro-americana. Entretanto, como acima observado, antes das manifestações, os democratas já promoviam o registro de eleitores negros para primárias que envolveram grupos associados ao Bernie Sanders, que contou com o apoio de algumas figuras do Black Lives Matter, e a construção da base de Joe Biden, que contou com as redes mais tradicionais do ativismo afro-americano. Na Carolina do Sul, o congressista negro Jim Clyburn organizou o eleitorado negro que foi o grande responsável pela primeira vitória de Biden em uma das rodadas das primárias democratas. O triunfo no estado viabilizou a candidatura de Biden, considerada até então natimorta, mesmo com o apoio do ex-presidente Barack Obama.

Ao confirmar sua candidatura para as eleições presidenciais, Biden selou o seu compromisso com a agenda negra, escolhendo a senadora negra Kamala Harris para compor a chapa. Obama, que havia participado pouco do processo, começou a fazer discursos mais contundentes e importantes do que os de Biden, explorando a má condução da crise de Donald Trump durante a pandemia. Enquanto os candidatos à presidência se digladiavam, em diferentes partes do território, onde havia a possibilidade de vitória do democrata, as bases negras foram acionadas. Um dos destaques das eleições de 2020 foi o desempenho dos democratas no estado da Geórgia, que tradicionalmente elegia os candidatos republicanos. A vitória foi alcançada graças ao trabalho de Stacey Abrams, que desde 2013 coordenava um projeto de registro de votos de eleitores negros e latinos. Em sua trajetória política, Abrams foi eleita para a Câmara dos Representantes da Geórgia e depois se tornou a primeira mulher negra a disputar as eleições para o governo em 2018, perdendo por uma pequena margem de 55 mil votos. Em 2020, Stacey Abrams assumiu a responsabilidade de “virar o voto” a favor de Joe Biden, retomando a sua experiência de registro de votos e confirmando a vitória no estado.

Essa mesma base mobilizada por Abrams para a eleição presidencial ajudou a eleger os dois senadores democratas: Jon Ossof, o senador eleito mais jovem desde a década de 1970, e Raphael Warnock, o primeiro negro eleito para o Senado no estado. Warnock, durante o processo eleitoral, explorou as suas conexões com a igreja batista em Atlanta e reforçou em sua agenda as desigualdades de raça e classe, recuperando elementos do evangelho social de Martin Luther King, figura histórica do Movimento pelos Direitos Civis que também atuou como liderança religiosa na cidade. Essas disputas eleitorais ganharam destaque da imprensa porque definiram uma maioria favorável aos democratas no Senado, mas também porque, nesse momento de desfecho, reforçaram o simbolismo da mobilização do eleitorado negro que derrotou um presidente que passou quatro anos flertando com supremacistas brancos e elegeu uma chapa democrata moderada que trouxe a reboque figuras negras progressistas.

Os democratas, no entanto, não puderam celebrar a segunda vitória na Geórgia da maneira como desejavam. Antes de se encerrar a transição governamental, Trump foi protagonista de um evento que interrompeu as formalidades para a oficialização da eleição de Joe Biden. Mais uma vez, veio à tona a questão racial, dessa vez não a partir do envolvimento de negros, mas do fracasso de uma turba de brancos que invadiu o Capitólio estimulada pela narrativa de fraude eleitoral sem evidências do presidente. Os indivíduos presentes na manifestação ostentavam símbolos associados à supremacia branca, como bandeiras confederadas, cartazes associados a milícias e camisetas que estampavam frases antissemitas. Um dos pontos mais debatidos foi a condescendência da segurança com os manifestantes, que não enfrentaram o rigor de ações que são comuns contra grupos e movimentos sociais de outras orientações ideológicas, principalmente as organizações negras. Um outro aspecto, comum tanto na cobertura da imprensa estadunidense quanto brasileira, foi o caráter anômalo atribuído ao evento, supostamente sem precedentes históricos.

Ainda que a invasão pudesse ser considerada algo inédito, vários elementos que a compuseram faziam parte da tradição política estadunidense. O ataque a autoridades políticas é um deles, os Estados Unidos tiveram quatro presidentes assassinados: Abraham Lincoln (1865), James A. Garfield (1881), William McKinley (1901), e John F. Kennedy (1963), além de Theodore Roosevelt e Ronald Reagan que foram vítimas de atentados. A formação de turbas para invasão de espaços de autoridade foi recorrente, nos estados do Sul as populações brancas se reuniam em frente a delegacias ou tribunais para linchar negros acusados injustamente de cometerem crimes. Em muitas ocasiões, os policiais convocados para garantir a ordem faziam vistas grossas às movimentações dos linchadores, revelando uma fronteira sem definição entre repressão policial e supremacia branca. Não faltaram casos de cooperação entre policiais e supremacistas para conter manifestantes do Movimento pelos Direitos Civis na década de 1960, que em várias situações acabaram mortos em ataques violentos. Mas esse é um comportamento que não ficou no passado, em uma das manifestações do Black Lives Matter nas recentes jornadas, um adolescente branco de 17 anos armado atirou e matou dois manifestantes enquanto “cooperava” com as forças policiais.

As articulações negras que se traduziram em uma forte presença do eleitorado negro nessas eleições contribuíram para dar um fim ao governo de Donald Trump. Entretanto não há um consenso sobre o futuro dessa base extremista e supremacista que se transformou em um ativo eleitoral, garantindo uma votação contundente em alguns estados democratas, inclusive Nova Iorque, evitando uma onda pró-Biden. A invasão no Capitólio pode ter sido o início da retração dos supremacistas na política mainstream, ou o primeiro passo para a reconfiguração dessa base sob a liderança de outro republicano. O fato é que, assim como os demais elementos elencados acima, a supremacia branca tem o seu lugar cativo na sociedade. Esse fenômeno não pode ser tratado como uma anomalia, a não ser que se aceite o discurso do excepcionalismo da democracia estadunidense. Manifestações públicas de supremacistas ocorreram ao longo da história sem violar o sentimento de normalidade democrática de muitos cidadãos. Em 1939, por exemplo, o Madison Square Garden, um dos mais importantes palcos de eventos na cidade de Nova Iorque, recebeu um encontro de 20 mil nazistas em um ato pró-América. Já David Duke, que serviu como Wizard da Ku Klux Klan, foi membro dos dois partidos políticos nos Estados Unidos e eleito representante na câmara legislativa da Louisiana na década de 1980. O negacionismo e o conspiracionismo presentes nos discursos de Donald Trump foram reproduzidos por outros nomes do Partido Republicano e também sempre tiveram espaço na programação da Fox News.

Portanto, os Estados Unidos, em sua complexidade, produziram figuras como o Martin Luther King, que tinha uma ideia radical de democracia, e autoritários como George Wallace, que encarnou o espírito da supremacia branca nos anos 60. O simbolismo do engajamento negro nas últimas eleições por si só não é suficiente para assegurar iniciativas voltadas para a população negra, por isso as articulações negras que elegeram os democratas cumprirão um papel importante na reconfiguração da democracia estadunidense na era pós-Trump.

Flávio Thales Ribeiro Francisco. Professor dos Bacharelados de Ciências Humanas e Relações internacionais da UFABC.
** ESTE ARTIGO É DE AUTORIA DE COLABORADORES OU ARTICULISTAS DO PORTAL GELEDÉS E NÃO REPRESENTA IDEIAS OU OPINIÕES DO VEÍCULO. PORTAL GELEDÉS OFERECE ESPAÇO PARA VOZES DIVERSAS DA ESFERA PÚBLICA, GARANTINDO ASSIM A PLURALIDADE DO DEBATE NA SOCIEDADE. 
Fonte: https://www.geledes.org.br

Posicionamento das entidades estudantis: Por um Enem em segurança e sem desigualdade - POR UNE/UBES

Faltando apenas 09 dias para o Exame, não há respostas sobre as medidas de segurança sanitária que deveriam ser tomadas, nem sequer como os recursos destinados a esse fim teriam sido utilizados.

Desde o início da pandemia no Brasil, temos alertado ao governo e às autoridades dos enormes impactos que seriam causados à educação, situação que exigiu, e ainda exige, medidas firmes do poder público, de investimentos à coordenação de ações e estratégias, porém elas não estão acontecendo ou têm sido absolutamente insuficientes.

Assim tem sido também em relação ao ENEM 2020, uma prova de dimensão nacional, que envolve quase 6 milhões de estudantes na maior parte dos municípios do Brasil. Soma-se a isso, o fato de que a ausência de aulas presenciais e a falta de iniciativa do Ministério da Educação em dar condições para que os estudantes pudessem ter o mínimo em redução de impactos, o que prejudica especialmente os jovens mais pobres das escolas públicas e que têm dificuldades de acesso à internet ou piores condições de estudo em suas casas, envolvidos em diversos problemas sociais, econômicos e psicológicos.

Logo, o que se esperava, desde o início, era que o MEC estivesse na linha de frente, propondo e coordenando um Grupo de Trabalho com ações estratégicas e investimentos que buscassem reduzir as desigualdades aprofundadas pela pandemia, seja no decorrer do ano letivo ou na realização da prova do ENEM.

Tanto essas medidas não aconteceram, quanto os números de contaminações e mortes por Covid-19 voltaram a crescer exponencialmente recentemente, o que ocasionou por sua vez o endurecimento em restrições de contato social em diversos estados, com novamente fechamento de estabelecimentos.

Diante da situação atual, mais uma vez, o MEC não dialoga com entidades e com a sociedade sobre a situação do ENEM, e como ela poderá ser realizada em segurança, mesmo sendo cobrado diversas vezes pela UNE e pela UBES. Vale ressaltar ainda que diante da consulta pública feita pelo próprio MEC a escolha dos estudantes para realização da prova foi o mês de Maio, resultado que foi desconsiderado.

Portanto, faltando apenas 12 dias para o Exame, não há respostas sobre as medidas de segurança sanitária que deveriam ser tomadas, nem sequer como os recursos destinados a esse fim teriam sido utilizados.

Essa instabilidade gera não só um impacto emocional elevado aos milhões de jovens e adultos que se preparam para o ENEM, como também coloca em risco a segurança da vida das pessoas com a realização das provas em um ambiente de crescente contaminação (milhões de pessoas em salas de aulas fechadas distribuídas por todo o país e com poucas informações acerca da segurança necessária podem ocasionar em um verdadeiro desastre). Além do fato de que não há confiança por parte de muitos estudantes, seja pelo cuidado com a saúde, muitos em grupo de risco, ou mesmo pelas restrições impostas nos estados e municípios. Para nós, o ENEM e os demais programas de acesso à universidade, são importantes e não podem ser enfraquecidos, se utilizando dessa situação, porém, em um claro posicionamento pela segurança e em defesa da vida e para que não haja ainda mais desigualdade entre os candidatos, acreditamos que a necessidade de adiamento do ENEM é fruto da falta de organização e transparência do MEC, e serviria para a criação de uma estratégia efetiva de garantia da segurança sanitária para realização da prova, sem prejuízos para os instrumentos de seleção como o SISU, PROUNI e FIES.

7 de janeiro de 2021,

União Brasileira dos Estudantes Secundaristas
União Nacional dos Estudante

Adaptado em 11/01/2021 - CPC/RN

Morre o jornalista e produtor artístico Raphael Acioli, de apenas 36

Jornalista e produtor cultural Raphael Acioli (Foto: Reprodução - Instagram).

247 - O jornalista e produtor cultural Raphael Acioli morreu nesse domingo (10), aos 36 anos, no Recife, depois de ser internado há mais de um mês no hospital Memorial São José, na capital, por causa de complicações renais. Na UTI, foi infectado pela Covid-19.

O velório de Raphael será realizado, nesta segunda-feira (11), a partir das 8h, no cemitério Morada da Paz, no município de Paulista, região metropolitana. O sepultamento está marcado para as 14h.

De acordo com a jornalista Hígia Oliveira, amiga de Raphael, o produtor "foi internado, no fim de novembro, devido a complicações de um problema renal crônico". "Teve uma crise e foi para o Hospital Memorial São José. Fez o teste de covid-19 no início do internamento e deu negativo. Precisou fazer diálise. Depois, na UTI (unidade de terapia intensiva), realizou novamente o exame, que positivou. Ficou recuperado da covid-19 e foi para a UTI geral, mas não conseguiu restabelecer o quadro renal", disse.

Fonte: Brasil 247 - Cultura