Cultura significa todo aquele complexo que inclui o conhecimento, a arte, as crenças, a lei, a moral, os costumes e todos os hábitos e aptidões adquiridos pelo ser humano não somente em família, como também por fazer parte de uma sociedade da qual é membros,. ativistas, poetas, escritores, produtores culturais, grupos culturais, violeiros, pensantes e os que admiram e lutam pela cultura potiguar. Cultura! A Cultura, VIVE e Resiste! "Blog do CPC/RN, notícias variadas na BASE DA CULTURA!
O presidente do Centro Potiguar de Cultura - CPC/RN, Eduardo Vasconcelos retoma o calendário de viagens aos interiores do Estado,dando sequência a divulgação do Manifesto em Defesa da Cultura Potiguar, Coletando dados e propostas dos artistas locais e convidando artistas para ingressarem na entidade, fortalecendo ainda mais a instituição em seus princípios e fins.
Eduardo na segunda-feira (12) estará em Natal no SINTE, SINDIPETRO, SENALBA, entre outros e a tarde viaja para Touros, litoral sul, onde terá reunião com artistas locais, na terça segue para o Seridó, onde terá reunião em Parelhas e Currais Novos, na quarta-feira volta a Natal e participa de Audiência Pública na Assembléia Legislativa, cujo tema será "AUTONOMIA FINANCEIRA DA UERN", só lembrando: Eduardo é coordenador da Comissão em Defesa dos Campus da UERN na Região do Agreste Potiguar.
Na outra semana, Eduardo Vasconcelos irá a Santa Cruz na Região Trairi, Tangará, Passa e Fica no Agreste Potiguar e em seguida irá a Baía Formosa e Tibau do Sul, com os mesmos propósitos.
A dor, na tela de Caravaggio | Crédito: divulgação
Tratar dos dentes já foi um show de horrores
Marcus Lopes
Antes de existirem os cirurgiões-dentistas, a humanidade passou por poucas e boas para tratar a dor de dente. Médicos, monges religiosos e até barbeiros exerciam o ofício, que, durante muito tempo, praticamente se resumia à mera extração – com muita dor, claro.
Em 2012, foi encontrado na Eslovênia, no Leste Europeu, um dos vestígios mais antigos da existência de um dentista. Um dente de aproximadamente 6,5 mil anos de idade foi achado com um preenchimento de cera de abelha na coroa. Os estudos mostraram que o material foi aplicado na época da morte do indivíduo, mas não se sabe se foi antes ou depois. Caso tenha sido antes, provavelmente era para diminuir a dor provocada por uma rachadura nas camadas de esmalte.
Documentos sumérios feitos em tabletes de argila dão conta que, em 2750 a.C., já havia procedimentos cirúrgicos em mandíbulas. Na mesma época foram encontrados, na região da Mesopotâmia, peças para limpeza dentária, como palitos de metal. Na Idade Média, os primeiros a exercer a odontologia foram os monges católicos, que também davam seus pitacos na medicina, realizando tratamentos e cirurgias, já que tinham maior acesso ao conhecimento do que a população em geral. Após a Igreja proibir essa prática, quem herdou a função foram os barbeiros, que teriam aprendido a prática com os religiosos.
Por mais difícil que seja acreditar, durante muito tempo quem tinha dor de dente podia resolver o problema no mercado público. Sim, a profissão de dentista também foi exercida de maneira bastante rudimentar por curiosos que iam às feiras e mercados oferecer serviços de extração e tratamento de dentes, como quem oferece um produto.
A odontologia começou a evoluir de fato por volta de 1700, quando surgiram novos instrumentos, como boticões mais eficientes, e profissionais especializados. Em 1728, o francês Pierre Fauchard escreveu um tratado chamado O Cirurgião-Dentista. Em 1746, Claude Mouton publicou o primeiro trabalho relacionado a prótese dentária e, em 1756, Philip Pfaff lançou a obra Odontologia Alemã. Dois anos antes, em 1754, havia sido criado um boticão especial para a extração dos terceiros molares. O temido motorzinho, que causa tanta aflição nos pacientes, surgiu no fim do século 19, mas só chegou ao que conhecemos hoje no século 20.
TIRADENTES
O dentista prático mais famoso do Brasil foi, sem dúvida, o alferes Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes, isso antes de a odontologia ser uma profissão regulamentada. No registro do seu depoimento prestado em 1789, após ser preso no episódio da Inconfidência Mineira, está registrado que o réu “não tinha nesta cidade pessoas de particular amizade, porém conhecia muita gente em razão da prenda de pôr e tirar dentes”. Ou seja, o mineiro não apenas extraía dentes dos seus pacientes mas também repunha os que faltavam, numa espécie de tratamento de prótese. Registros da época apontam ainda que ele exercia muito bem sua profissão no interior de Minas Gerais e tinha, inclusive, conhecimentos básicos de medicina. Entre os bens confiscados do mártir da Inconfidência após a prisão pela Conjuração Mineira constavam um espelho pequeno e um conjunto de ferros de extrair dentes, que foram arrematados pelo dentista prático Francisco Xavier da Silveira. Ele deixou também navalhas de barbear e instrumentos de farmácia.
O cartaz diz: “Quatro crianças à venda – Informe-se aqui”. A mercadoria está exposta na escada: no degrau mais alto, Lana, 6 anos, e Rae, 5; embaixo, Milton, 4, e Sue Ellen, 2. A mãe, Lucille Chalifoux, que chora escondendo o rosto do fotógrafo, estava grávida de David.
Tirada em 4 de agosto de 1948, em Chicago (EUA), a foto foi publicada O anúncio chocante: sem arrependimento em vários jornais, causando comoção e fazendo surgir ofertas de ajuda de leitores comovidos. Mas uma reportagem no jornal The Times, de Indiana, mostrou, no ano passado, que a foto marcava o começo de uma impressionante história de falta de amor e maus-tratos às crianças. Vendidas ou adotadas, os irmãos se dispersaram para só voltarem a se encontrar adultos. “Fui vendida por 2 dólares, e como meu irmão, Milton, estava perto de mim chorando, o casal resolveu levá-lo também”, conta Rae. Aos 21 anos, ela reencontrou a mãe biológica. “Ela não tinha remorso, nunca nos amou”, diz. Aos 70, reviu os irmãos. David parece ter tido a experiência mais parecida com a de um lar feliz.
Lavadeiras em quadro de artista colombiano, 1923 | Crédito: Eugenio Zerda
Incomodada ficava sua vó.... ficava mesmo!
Redação AH
Dizia o comercial de TV que incomodadas ficavam as nossas avós. Ele tinha razão. Antes da invenção do absorvente descartável, a mulherada sofria. E improvisava.
De acordo com dados do Museu da Menstruação e da Saúde Feminina, na Antiguidade, em Roma, as mulheres enfiavam pequenos chumaços de lã no interior da vagina para conter o fluxo menstrual. Em algumas tribos da África, usavam rolinhos de grama. As gregas revestiam ripas de madeira com várias camadas de retalho. Já as japonesas se viravam confeccionando canudinhos de papel. Na Indonésia, fibras vegetais eram usadas na tentativa de absorver o fluxo, ao passo que, no Egito, canutilhos de papiro faziam as vezes de absorvente higiênico. Todas essas invenções eram intravaginais – por isso, era melhor deixar um pedacinho para fora, para facilitar a retirada.
Registros arqueológicos mostram que, desde o século 15 a.C, as mulheres já pensavam em alguma espécie de proteção para aqueles dias. Mas uma das referências mais conhecidas acerca do assunto é encontrada nos escritos deixados pelo grego Hipócrates, mencionando expressamente a utilização de protetores intravaginais entre suas contemporâneas – ele viveu de 460 a 370 a.C.
Durante toda a Idade Média uma opção eram as toalhinhas higiênicas, feitas de qualquer resto de tecido – não raro, elas levavam ao surgimento de coceiras, assaduras e irritações no corpo. De todo modo, qualquer coisa devia ser melhor do que o isolamento a que as mulheres de diversas tribos indígenas eram submetidas: elas ficavam longe dos olhos dos outros, sentadas numa espécie de ninho, que absorvia o sangue.
Soluções para higiene feminina em anúncio dos anos 1930
Só no século 19 têm início pesquisas voltadas ao desenvolvimento de apetrechos mais funcionais. Em 1933 o absorvente interno foi patenteado, mas a novidade só chegou ao Brasil 40 anos depois. Por outro lado, toalhas descartáveis já ocupavam as prateleiras desde o fim da Primeira Guerra. Algumas tinham o formato de uma calcinha, ficando presas à cintura, enquanto outras eram presas com alfinetes – os absorventes com fita adesiva chegaram em 1970.
Um alívio sem precedentes, que livrou as mulheres de preocupações, como a de o que fazer para que ninguém visse o varal coalhado de retalhos suspeitos – afinal, as moças de boa família não podiam expor suas intimidades.
A infância e a juventude do mais odiado ditador da História
Luis Pereira
No filme A Queda, de Bernd Eichinger, o famoso ator Bruno Ganz interpreta Adolf Hitler em seus últimos dias, acuado no bunker da Chancelaria do Reich, em pleno processo de negação e declínio psicológico. A atuação magistral de Ganz fez com que muitos se perguntassem: “Podemos retratar Hitler como um ser humano?”. O historiador alemão Volker Ullrich defende que não só podemos como devemos. Ullrich é o autor de uma nova biografia do ditador nazista, Adolf Hitler Vol. 1 – Os Anos de Ascensão, 1889-1939 (Amarilys, 2016). O trabalho, aclamado pela crítica e best-seller instantâneo na Alemanha e na Inglaterra, é o primeiro tomo de uma obra em dois volumes que se propõe a preencher lacunas na bibliografia já existente e, principalmente, tratar do ser humano por trás da persona pública.
O simples processo de demonização, segundo o autor, é um erro perigoso, pois distorce a avaliação da verdadeira personalidade de Hitler, com suas contradições e antagonismos, deixando de lado os traços empáticos que fizeram dele um líder palatável às massas populares e às elites política e econômica da Alemanha. O objetivo é desconstruir o mito Hitler, presente de variadas maneiras na literatura e no debate público após 1945 como uma “fascinação (negativa) pelo monstro”. Na nova obra, Hitler é “normalizado”, mas isso não o torna “mais normal”; pelo contrário, ele parece ainda mais indecifrável. Sua imagem torna-se mais complexa, um homem de muitas faces, sempre adaptadas a diferentes públicos.
Baseando-se em pistas conhecidas e documentos revelados apenas recentemente, Ullrich discute que, se não fosse pela Primeira Guerra Mundial e as revoluções sociais que ela provocou na Europa, talvez Hitler permanecesse uma figura desconhecida às margens da História. Suas origens são, para dizer o mínimo, nebulosas. “Não sei de nada sobre a história da minha família. Nessa questão, sou uma pessoa muito mal informada (...) sou completamente desprovido de sentimentos familiares e não tenho nenhuma ligação com um clã. Isso não é de minha natureza. Eu pertenço à minha comunidade étnica”, confessou Hitler em 1942, num de seus muitos monólogos.
Talvez ele visse boas razões para ocultar sua ascendência.
O bebê Adolf Hitler
O pai de Hitler, Alois Schicklgruber, era um filho ilegítimo adotado por um tio postiço, Johann Nepomuk Hiedler (irmão mais novo do marido da mãe de Alois), numa história enrolada que sugere algum escândalo familiar abafado. Somente aos 19 anos Alois foi registrado como filho legítimo de Johann Georg, o irmão de Johann Nepomuk. Nessa ocasião, o notário alterou o sobrenome Hiedler para Hitler. Alois Hitler viria a ser um funcionário-modelo na alfândega de Braunau. Em 1885, após ficar viúvo pela segunda vez (as taxas de mortalidade na época eram altíssimas), Alois casou-se com Klara Pölz. Klara era neta do tio postiço de Alois. Portanto, se de fato Alois era filho de Johann Georg, os dois seriam primos em segundo grau. Se, como se suspeita, fosse filho de Nepomuk, o parentesco seria ainda mais próximo, o de tio e sobrinha. Em 1889, nascia Adolf Hitler, o quarto filho do casal (os três primeiros morreram cedo). Boatos sobre uma possível origem judaica de Hitler (que circulavam desde a década de 1920) não se confirmaram. Ainda assim, é irônico que o ditador que exigia um certificado de “ascendência ariana” de cada cidadão alemão não fosse capaz de demonstrar a própria.
Existem poucos testemunhos sobre os primeiros anos de vida de Adolf Hitler. As informações publicadas por ele sobre o ambiente familiar no primeiro capítulo de Minha Luta certamente são uma mistura de meias-verdades e invenções, com as quais tentou angariar simpatias e tornar crível sua vocação política como líder de um novo Reich alemão. Sabe-se que Alois fora um pai severo, adepto de castigos físicos. A experiência da violência doméstica foi interpretada como uma das causas para a política assassina do ditador. No entanto, Ullrich adverte que se deve tomar cuidado ao tirar conclusões: naquela época, castigos físicos eram comumente usados com finalidade educativa. Um pai repressor e uma mãe amorosa não eram uma combinação rara entre as famílias de classe média por volta da virada do século. Hitler, portanto, teve uma infância bastante normal.
Juventude incerta
Nos anos escolares
Adolf Hitler fora um excelente aluno nos primeiros anos escolares. Como todos os garotos de sua idade, era leitor dos romances de aventura do escritor alemão Karl May (dizem que durante a guerra, principalmente nas situações mais difíceis, Hitler citava um dos heróis de May, o índio apache Winnetou, como um “paradigma de comandante militar”). Entretanto, quando fez a transição para a escola secundária em Linz, Hitler passou a ser mais um entre muitos. Terminou por abandonar a escola, após reprovações e resultados medíocres.
O fracasso em terminar o grau secundário custou caro, quando ele se inscreveu para o exame de admissão na Academia de Belas-Artes de Viena, já que o diploma era um requisito básico. Hitler (mais livre após a morte do pai, em 1903) passara a fazer visitas frequentes à capital, em que se deleitava com as paisagens da metrópole austríaca, com seus museus, a ópera, o Parlamento e a magnífica Ringstrasse. O fracasso acadêmico, que ele não contara à família ou aos amigos, foi difícil de aceitar. Muitos atribuem a perseguição aos intelectuais e seu desprezo pela intelligentsia alemã como resultado dessa rejeição.
O ano de 1907 foi marcado pela morte da mãe, em consequência de um câncer de mama. “Em meus quase 40 anos de atividade, nunca vi um jovem tão indescritivelmente triste e arrasado como o jovem Adolf Hitler”, escreveu o médico judeu que tratara Klara Hitler, doutor Eduard Bloch, em uma anotação de 1938. Não há indícios de que o tratamento médico feito por Bloch tenha sido a causa do patológico ódio antissemita de futuro Führer. No próprio dia do funeral, Hitler foi até o consultório dele para agradecer pelos cuidados com a mãe. Em 1938, quando o líder fez sua entrada triunfal na “cidade natal” Linz, após ter anexado a Áustria, dizem que perguntou imediatamente pela saúde do “bom e velho doutor Bloch”. Dentre todos os judeus de Linz, Hitler colocou o médico sob a proteção da Gestapo. No final de 1940, a família Bloch conseguiu emigrar em segurança para os Estados Unidos.
Há relatos de que Hitler também manteve relações cordiais com judeus nos abrigos e pensionatos vienenses em que morou entre 1908 e 1913. Viena era na época a grande metrópole europeia, centro de uma vida econômica e cultural efervescente, com uma enorme comunidade de intelectuais e artistas de vanguarda. Naquela cidade, os problemas do Estado multinacional austro-húngaro podiam ser observados como numa lente de aumento. Nenhuma outra apresentava uma taxa de imigrantes tão elevada. A reação dos habitantes locais ao “perigo” de uma “infiltração estrangeira” produzira desde o final do século 19 a criação de associações e partidos que estampavam o nacionalismo radical entre as suas bandeiras. A imigração maciça, principalmente de judeus orientais, despertou temores de uma “judaização” de Viena; o sucesso dos imigrantes judeus, bem-educados e orientados a subir na vida, despertou inveja e amargura nos habitantes nativos.
Hitler escreve em Minha Luta que os anos em Viena foram de miséria e pobreza. Outra meia-verdade, pois, enquanto durou a herança materna, a pensão de órfão e a ajuda que recebia de uma tia, Hitler teve condições de manter seu estilo de vida habitual: não fazer nada. Quando a tia que o socorria também faleceu, ele então teve de buscar o próprio sustento.
Artista sem futuro
No outono de 1909, Hitler chegou a viver num abrigo para moradores de rua, onde conheceu Reinhold Hanisch. De manhã cedo, os ocupantes do abrigo tinham de deixar o lugar, retornando somente à noite. Durante o dia, Hanisch e Hitler tentavam ganhar alguns trocados fazendo bicos. Ao saber da inclinação artística do colega de abrigo, Hanisch sugeriu que Hitler pintasse os cartões-postais da cidade para que ele os vendesse em bares e restaurantes, dividindo a receita. O sucesso da empreitada foi maior que o esperado e em 9 de fevereiro de 1910 ambos conseguiram trocar o abrigo por um pensionato masculino. Hitler viria a morar ali pelos três anos seguintes.
A parceria com Hanisch durou pouco.
Para que o negócio fosse rentável, era preciso pintar um quadro por dia, como cobrava o colega. Mas Hitler argumentava que se tratava de um trabalho artístico, para o qual era necessário estar inspirado; quando não estava, passava o dia lendo jornais ou participando de discussões políticas na sala de leitura do pensionato. Em agosto de 1910, Hitler acusou Hanisch de tê-lo enganado e deixado de pagar por algumas telas vendidas. Passou então a vender suas obras por meio de Jacob Altenberg e Samuel Morgenstern, dois judeus proprietários de uma loja de artes. Ambos pagavam a Hitler muito bem, permitindo-lhe independência financeira. Além de preferir fazer negócios com comerciantes judeus, Hitler mantinha boa convivência com outros moradores do pensionato que eram de origem judaica. O ex-sócio Hanisch viria a afirmar que “naquela época, Hitler não odiava os judeus. Isso só aconteceu mais tarde”.
O contraste entre o pintor de telas parceiro de marchands, colega de quarto de judeus e o futuro ditador genocida é desconcertante. Para Ullrich, uma coisa é certa: mesmo que quisesse, Hitler não teria conseguido evitar contato com correntes antissemitas naquela Viena da virada do século. Políticos vienenses que Hitler admirava batiam constantemente na tecla do inimigo externo judeu: Georg von Schörener, o líder do pangermanismo austríaco a quem Hitler cita como influência fundamental em Minha Luta, associou sua campanha pelo “germanismo” com um antissemitismo até então desconhecido na Áustria; o prefeito Karl Lueger não media palavras ao dizer que “a Grande Viena não deve se transformar numa Grande Jerusalém”, além de acusar a “imprensa judaica” de compor uma imagem estereotipada de judeus abastados, intelectualmente refinados e arrogantes. Seria uma surpresa se o jovem Hitler não tivesse sido influenciado por isso.
Um outro aspecto desses anos que alimenta a curiosidade de historiadores é a suposta homossexualidade de Hitler. Na contramão de diversas obras que veem nas ações do ditador indícios de uma orientação sexual frustrada e reprimida, Ullrich não se convence de que Hitler pudesse ter tido relações homoafetivas no período em que morou nos pensionatos masculinos. No entanto, inúmeras fontes dão conta de um comportamento celibatário do futuro Führer. Numa metrópole vanguardista e de costumes em ebulição como era Viena, em que peças teatrais de Arhtur Schnitzler e quadros permissivos de Gustav Klimt causavam escândalo, o jovem Hitler vivia um ascetismo quase monástico.
Ao que tudo indica, ele também não recorria a prostitutas. Segundo um amigo da época, isso se dava principalmente pelo medo de contrair uma doença sexualmente transmissível bastante comum na época: a sífilis. Mas talvez a ideologia pangermanista de Schörener também tenha desempenhado um papel nisso. Além de defender a superioridade cultural dos alemães, a dissolução do império multinacional Habsburgo e a formação de um Império Alemão único, Schörener defendia também o celibato até os 25 anos, a fim de tonificar a força física e intelectual. Se Hitler se manteve fiel a esse mandamento de castidade, ele ainda não tinha dormido com nenhuma mulher ao deixar Viena, aos 24 anos de idade.
Hitler já pensava em emigrar para a Alemanha havia algum tempo. Munique era a cidade que mais o atraía. Ali, ele frequentou o meio boêmio de Schwabing e seguiu ganhando a vida pintando paisagens. Sua senhoria o descreveu como um jovem retraído, que se fechava no quarto como um eremita. Para Ullrich, a falta de contatos era apenas um sinal externo de sua profunda insegurança interna. Após um ano na cidade, Hitler teve de admitir que sua carreira artística não lhe oferecia futuro. Somente o início da Primeira Guerra Mundial, no começo de 1914, o libertaria daquele estado frustrante e sem perspectivas.
Primeira Guerra Mundial
Cabo Hitler
A escalada de hostilidades que se seguiu ao assassinato do arquiduque Francisco Ferdinando produziu na Alemanha um estado de euforia patriótica a favor da guerra. O escritor Stefan Zweig viria a descrever esse momento “arrebatador” como “algo de que era difícil escapar”. Com o início do conflito, Hitler afirma ter obtido uma autorização do rei Ludwig III da Baviera para servir em um regimento bávaro apesar de sua nacionalidade austríaca. O mais provável é que naqueles dias tumultuados ninguém checasse com afinco a nacionalidade dos recrutas voluntários; do contrário, Hitler não poderia ter servido.
Em meados de outubro de 1914, o recruta Hitler enfrentou seu “batismo de fogo”. Seu regimento lutou em violentas batalhas homem a homem no front ocidental, tendo perdas imensas (de 3 500 oficiais, restaram 600). Em novembro, Hitler seria promovido a cabo, encarregado de levar mensagens e ordens dos comandantes de regimento até a linha de frente. Segundo Hitler, esse trabalho colocava todos os dias sua vida em risco. Para os soldados de trincheira, os mensageiros militares não passavam de oficiais de caserna. De uma forma ou de outra, Hitler escreveu em Minha Luta: “O horror assumiu o lugar do romantismo da guerra. O entusiasmo arrefeceu gradualmente e o júbilo excessivo foi sufocado pelo medo da morte”. Antes mesmo do final da guerra, a direita radical e os pangermanistas já haviam eleito bodes expiatórios para os revezes da Alemanha: as “atividades subversivas” de sociais-democratas e esquerdistas em geral, e a suposta falta de engajamento dos judeus no esforço de guerra. A despeito dos milhares de judeus que morreram nas trincheiras, foi convocada em 1916 uma “contagem de judeus” a fim de verificar a situação do serviço militar de judeus alemães (um primeiro passo para os registros que viriam a ocorrer nos anos seguintes). Em 1918, diante da derrota iminente da Alemanha, esses grupos intensificaram sua propaganda antissemita.
O rapaz tímido ainda estava para descobrir seus dons extraordinários de oratória, mas a Revolucão Alemã, que derrubou o kaiser e instaurou uma república parlamentarista de inspiração esquerdista, provocou em Hitler tal comoção que o convenceu a abdicar de suas ambições artísticas e entrar na política. Junte-se a esse político aspirante com patronos influentes no meio militar a reação das elites econômicas ao novo governo, a fobia contra a esquerda e o ressentimento contra os judeus, e temos montado o cenário para a ascensão de Hitler e do nazismo. O Hitler pós-guerra se reinventou completamente, para prejuízo de milhões de vítimas que ele viria a fazer em sua ascensão sanguinolenta ao poder. Uma ascensão que, como Ullrich defende, merece ser mais bem compreendida.
Você já teve que tomar algum medicamento ou soro e foi aquele sofrimento porque o enfermeiro não encontrava a veia? OVein Viewer é uma tecnologia criada pela empresa estadunidense Christie Medical Holdings, que torna essa árdua tarefa bem mais simples. Apesar de não trazer riscos consideráveis à saúde, é desconfortável receber tantas “agulhadas” desnecessárias.
O funcionamento do aparelho ocorre por meio da emissão de luz infravermelha que, quando colocada sobre a pele do paciente, facilita a visualização da veia, inclusive de fluidos que passem por ela.
A Cultura Brasileira é o resultado da miscigenação de diversos grupos étnicos que participaram da formação da população brasileira.
A diversidade cultural predominante no Brasil é consequência também da grande extensão territorial e das características geradas em cada região do país.
O indivíduo branco, que participou da formação da cultura brasileira fazia parte de vários grupos, que chegou ao país durante a época colonial.
Além dos portugueses, vieram os espanhóis, de 1580 a 1640, durante a União Ibérica (período sob o qual Portugal ficou sob o domínio da Espanha).
Durante a ocupação holandesa no nordeste, de 1630 a 1654, vieram flamengos ou holandeses, que ficaram no país, mesmo depois da retomada da área pelos portugueses. Na colônia, aportaram ainda os franceses, ingleses e italianos.
Entretanto, foi dos portugueses que recebemos a herança cultural fundamental, onde a história da imigração portuguesa no Brasil confunde-se com nossa própria história.
Foram eles, os colonizadores, os responsáveis pela formação inicial da população brasileira, através do processo de miscigenação com índios e negros africanos, de 1500 a 1808, portanto por três séculos, eram os únicos europeus que podiam entrar livremente no Brasil.
A formação da cultura brasileira, em seus vários aspectos, resultou da integração de elementos das culturas: indígena, do português colonizador, do negro africano, como também dos diversos imigrantes.
Cultura Indígena
Foram muitas as contribuições dos índios brasileiros para a nossa formação cultural e social. Do ponto de vista étnico, contribuíram para o surgimento de um indivíduo tipicamente brasileiro: o caboclo (mestiço de branco e índio).
Na formação cultural, os índios contribuíram com o vocabulário, o qual possui inúmeros termos de origem indígena, como pindorama, anhanguera, ibirapitanga, Itamaracá, entre outros. Com o folclore, permaneceram as lenda como o curupira, o saci-pererê, o boitatá, a iara, dentre outros.
A influência na culinária se fez mais presente em certas regiões do país onde alguns grupos indígenas conseguiram se enraizar, como na região norte, onde os pratos típicos estão presentes, entre eles, o tucupi, o tacacá e a maniçoba.
Raízes como a mandioca é usada para preparar a farinha, a tapioca e o beiju. Diversos utensílios de caça e pesca, como a arapuca e o puçá. Por fim, diversos utensílios domésticos, foram deixados como herança, entre eles, a rede, a cabaça e a gamela.
Portugal foi o país europeu que exerceu mais influência na formação da cultura brasileira. Os portugueses realizaram uma transplantação cultural para a colônia, destacando-se a língua portuguesa, falada em todo o país e a religião católica, crença de grande parte da população, com extenso calendário religioso, com suas festas e procissões.
As instituições administrativas, o tipo de construções dos povoados, vilas e cidades e a agricultura fazem parte da herança portuguesa.
No folclore brasileiro é evidente o grande número de festa e danças portuguesas que foram incorporadas ao país, entre elas, a cavalhada, o fandango, as festas juninas (uma das principais festas da cultura do nordeste) e a farra do boi.
As lendas do folclore (a cuca e o bicho papão), as cantigas de roda (peixe vivo, o cravo e a rosa, roda pião etc.) permanecem vivas na cultura brasileira.
O negro africano foi trazido para o Brasil para ser empregado como mão de obra escrava. Conforme as culturas que representavam (ritos religiosos, dialetos, usos e costumes, características físicas etc.) formavam três grupos principais, os quais apresentavam diferenças acentuadas: os sudaneses, os bantos e o malês. (sudaneses islamizados).
Salvador, no nordeste do Brasil, foi a cidade que recebeu o maior número de negros e onde sobrevivem vários elementos culturais como o “traje de baiana” (com turbante, saias rendadas, braceletes, colares), a capoeira, os instrumentos de música como o tambor, atabaque, cuíca, berimbau e afoxé.
De modo geral, a contribuição cultural dos negros foi grande: na alimentação (vatapá, acarajé, acaçá, cocada, pé de moleque etc.); nas danças (quilombos, maracatus e aspectos do bumba meu boi); nas manifestações religiosas (o candomblé na Bahia, a macumba no Rio de Janeiro e o xangô em alguns estados do nordeste).
Os imigrantes deixaram contribuições importantes na cultura brasileira. A história da imigração no Brasil começou em 1808, com a abertura dos portos às nações amigas, feita por D. João.
Assim, para povoar o território vieram famílias portuguesas, açorianas, suíças, prussianas, espanholas, sírias, libanesas, polonesas, ucranianas e japonesas que se estabeleceram no Rio Grande do Sul.
O grande destaque foram os italianos e os alemães, que chegaram em grande quantidade. Eles se concentraram na região sul e sudeste do país, deixando importantes marcas de suas culturas para o país, principalmente na arquitetura, na língua, na culinária, nas festas regionais e folclóricas.
A cultura vinícola do sul do Brasil se concentra principalmente na região da serra gaúcha e de campanha, onde predomina descendentes de italianos e alemães.
Na cidade de São Paulo, em virtude do grande fluxo de italianos, fez surgir bairros como o Bom Retiro, Brás, Bexiga e Barra Funda, onde é marcante a presença de italianos, e com eles vieram as massas típicas como a macarronada, a pizza, a lasanha, o canelone, entre outras.
Inscrições podem ser feitas de 12 de junho a 7 de julho.
O Diretor-geral em exercício do Campus Nova Cruz torna público o Edital nº 27/2017-DG/NC/IFRN para seleção de logotipo da III Semana de Arte, Desporto e Cultura (SEMADEC).
As inscrições podem ser realizadas de 12 de junho a 7 de julho a partir do envio da arte e formulário de inscrição para o e-mail cocosev.nc@ifrn.edu.br.
Haverá premiação de certificado, kit de livros e menção honrosa durante o evento.
Há exatos 40 anos, estudantes tentavam reconstruir a UNE em Belo Horizonte
por Felipe Canêdo, especial para o site da UNE / Edição: Rafael Minoro e Artênius Daniel.
Dando sequência ao especial sobre a relação do movimento estudantil com a cidade de Belo Horizonte, o site da UNE apresenta hoje a reportagem sobre o III Encontro Nacional dos Estudantes, que sofreu repressão e foi impedido de acontecer na capital mineira; o encontro tinha o objetivo de iniciar um movimento pela reconstrução da entidade, o que só foi acontecer dois anos depois, em 1979, durante Congresso realizado em Salvador, na Bahia
A madrugada do dia quatro de junho de 1977, sábado, foi agitada no interior do Diretório Acadêmico Alfredo Balena, no Campus de Medicina da Universidade Federal de Minas Gerais, na Região Central de Belo Horizonte. Cerca de 400 jovens – mineiros em sua maioria, mas havia também paulistas, cariocas, baianos e gaúchos – se reuniram ali desde o início da tarde de sexta-feira para garantir a realização do III Encontro Nacional de Estudantes no dia seguinte.
Faculdade de Medicina/UFMG, durante tentativa de realização do III ENE. Local: Belo Horizonte. Data: junho de 1977. Acervo Projeto República/UFMG.
A vigília foi enchendo à medida que se ouviam notícias de pessoas presas em toda a cidade e de ônibus impedidos de chegar à capital mineira. “Prenderam grupos de vôlei, de basquete, jovens que desciam do ônibus ali perto da Medicina. Fizeram um trabalho muito grande nas estradas. Mandaram voltar ônibus que vinham do Sul, da Bahia, de São Paulo, do Rio. Transformaram a cidade de BH em uma praça de guerra”, afirma Samira Zaidan, então estudante de matemática e liderança estudantil.
“À época nós avaliávamos que tínhamos força para fazer um encontro com 800, 900 delegados de todo o país, para enfrentar a repressão e recriar a União Nacional dos Estudantes”, recorda Zaidan.
O Ministério da Educação e Cultura proibiu o evento dias antes de sua realização. Na véspera, o governador Aureliano Chaves determinou o bloqueio de todas as universidades de BH.
Durante toda a noite de sexta, com a escalada de tensão, os estudantes se revezavam em um microfone aberto em frente ao DA, que amplificava discursos inflamados, poemas e canções. Em dado momento, a Polícia Militar e o Exército cercaram o campus com arame de galinheiro, homens e viaturas.
“Nós viramos a noite, acabou tudo que tinha de comida, ficamos com fome, à míngua. Não tínhamos planejado ficar lá direto”, lembra Américo Antunes, então estudante de jornalismo, autor do romance “Nós, que amamos a revolução”, sobre o Movimento Estudantil da década de 1970.
“Policiais com cães, com metralhadoras, todo tipo de arma. Ficamos com elas apontadas para nós. O barulho lá fora era de muita bomba estourando, isso nos deixava tensos, e como era ditadura, ninguém sabia se de fato eles iam atirar ou não”, rememora o deputado estadual de Minas Gerais Rogério Correia (PT), à época um estudante recém-ingressado na universidade.
Sobre essas horas de tensão, Thomaz da Mata Machado, então estudante de medicina e liderança estudantil afirma: “O que eu me lembro mais foi da assembleia, quando a polícia cercou, para decidir se a gente topava ser preso ou se íamos enfrentar a polícia. Eu e Jânio Bragança (então presidente do Diretório Central dos Estudantes) defendemos que devíamos ser presos, porque senão seria um massacre.”
A rendição, no entanto, não era ponto pacífico, e militantes de algumas correntes do movimento estudantil suscitavam o enfrentamento. “Por decisão da maioria, optamos por sair de lá de mãos na cabeça”, lembra Correia.
PAIS E FILHOS
Faixa empunhada por estudantes no pátio da Faculdade de Medicina/UFMG durante a tentativa de realização do III ENE. Local: Belo Horizonte. Data: junho de 1977. Coleção Eduardo Osório Cisalpino/Acervo Projeto República/UFMG.
Do lado de fora do Campus, Samira Zaidan coordenou uma comissão emergencial que negociou com o reitor Eduardo Osório Cisalpino e acionou por telefone uma rede pais e amigos que providenciou cobertores e comida para quem estava lá dentro. Cisalpino não permitiu que os militares adentrassem o campus e violassem a autonomia universitária.
“O DA tinha um telefone, foi a nossa única comunicação com o lado de fora”, conta Américo Antunes.
“No meio da assembleia, de madrugada, alguém propôs pra ligar para as famílias pedindo comida, água e apoio. Fizemos uma fila, o reitor ameaçou cortar o telefone mas não o fez. O pessoal foi se aglomerando na rua, do lado de fora, e isso foi criando um clima”, narra Mata Machado.
Zaidan afirma que a presença dos pais foi muito importante. “Teve mãe que se recusou a ir, disse que o filho não deveria estar ali, mas 99 por cento dos pais entenderam que era uma questão fundamental sua presença lá”. Do lado de fora, cerca de 80 pessoas se aglomeraram durante a noite. “O reitor foi pra lá. Queriam registrar o nome das pessoas, na verdade eles queriam entrar, prender, matar. A PM queria entrar atirando”.
OLHOS NO OLHOS
Estudantes deixam o Campus da Saúde, após a tentativa de realização do III ENE, acompanhados do Reitor da UFMG, Eduardo Osório Cisalpino, do Secretário de Educação, José Fernandes Filho, e do Diretor do Instituto de Ciências Biológicas da UFMG, Marcello de Vasconcellos Coelho. Local: Belo Horizonte. Data: junho de 1977. Acervo Projeto República/UFMG.
Por volta das 5h da manhã, a polícia resolveu invadir o local, descumprindo a deliberação de Cizalpino.
“A PM entrou e entrou correndo, um monte de gente armada, e pararam na escada do DA. Aí nós fomos lá e aceitamos ser presos. O pessoal começou a sair abraçado, de 4 em 4, por entre um corredor polonês de policiais”, narra Mata Machado.
“Tinham parado mais ou menos uns 10 ônibus na Avenida Alfredo Balena, e foram saindo com os grupos e os colocando lá dentro”, afirma Zaidan.
Os cerca de 400 jovens foram levados para o Parque de Exposições da Gameleira, e divididos entre as baias que eram usadas para o confinamento de bovinos e equinos. Começaram a cantar canções brasileiras de protesto, uma delas era Olhos nos Olhos, de Chico Buarque.
“Nos colocaram sentados no chão. De vez em quando um levantava, fazia um discurso, a polícia vinha e pegava, levava lá pra dentro. Tinha um pessoal que mandava ficar sentado, ´não discursa, não discursa´, mas aí vinha um e não aguentava”, relembra Mata Machado.
Olhos nos olhos, quero ver o que você faz
Ao sentir que sem você eu passo bem demais
(Olhos nos Olhos – Chico Buarque)
“Houve tensão lá também. Cada um ia sendo fichado individualmente, cercado por três policiais do Exército, nos levavam em caminhos escuros, e só depois disso é que nos soltaram”, recorda o deputado Rogério Correia. “Criaram um critério de soltar quem não era dirigente de entidade”, explica Mata Machado.
Depois disso, 56 estudantes ainda permaneceram presos, seriam soltos ainda naquele dia, mas foram indiciados pela Lei de Segurança Nacional.
A PANELA DE PRESSÃO
Apesar das prisões e da violência, o movimento estudantil saiu motivado do episódio, e em setembro foi realizado um encontro nacional em São Paulo que criou comissões pró-UNE nas seguintes universidades: UFMG, UFBA, USP, UFRS, UFRJ. Em 1979, o processo resultaria na refundação da União Nacional dos Estudantes, em Salvador.
“Destampou-se a panela de pressão. A analogia é boa”, compara Américo, citando o documentário “O Apito da Panela de Pressão”, produzido pelos DCEs Livres da USP e da PUC-SP em 1977, em filme 16mm. A obra aborda o ascenso do movimento estudantil naquele momento. Para ele, a agitação dos estudantes a partir dali impulsionou movimentos sociais contrários à ditadura e a favor das liberdades democráticas.
> Assista ao documentário “O Apito da Panela de Pressão“:
“O III ENE foi um evento fundamental, porque foi um encontro nacional que teve repercussão extraordinária. O movimento estudantil de então estava localizado nas cidades, fazia-se encontros específicos de cursos, mas não se articulava nacionalmente como na UNE. E com a repressão violentíssima, houve um apoio generalizado da sociedade, isso colou no coração das pessoas, causou comoção”, afirma Mata Machado.
Ato de repressão policial nas imediações da Faculdade de Medicina/UFMG durante o cerco ao III ENE. Local: Belo Horizonte. Data: junho de 1977. Coleção Eduardo Osório Cisalpino/Acervo Projeto República/UFMG.
“A repressão foi descomunal, foi desnecessária, foi absurda. Foi um evento totalmente fora do padrão. E nós percebemos que a refundação da UNE era inaceitável para os militares”, avalia Zaidan.
“Até 1977 o medo geral era porque a polícia prendia, matava. Todo mundo tinha medo, então o III ENE foi um marco”, sustenta Américo. “Depois dele tem uma greve geral dos estudantes na UNB que dura mais de dois meses. Em seguida a criação do Movimento Feminino pela Aninstia, o Comitê Brasileiro pela Aninstia, e isso tudo vai culminar nas greves de 1978 contra o arrocho salarial no ABC Paulista”, afirma.
A RECONSTRUÇÃO DA UNE
Depois do Congresso de Ibiúna (SP), em 1968, onde cerca de mil estudantes foram presos, a União Nacional dos Estudantes passa por anos difíceis. Com o Ato Institucional número 5, em dezembro de 1968, o regime militar se torna mais agressivo e em 1969, o estudante carioca Jean Marc Von der Weid é eleito presidente da entidade através de seu conselho, derrotando o paulista José Dirceu por seis votos. Em 1971, o goiano Honestino Guimarães é eleito em um congresso clandestino realizado na Baixada Fluminense. Em 1973 ele é preso pelo Centro de Informações da Marinha (CENIMAR) e nunca mais é visto. A UNE só volta a ter um presidente em 1979, o baiano Ruy Cezar Costa Silva.
Em 1977, Belo Horizonte era um dos centros do movimento estudantil nacional, juntamente com São Paulo. Daí o motivo do III ENE ter sido planejado na capital mineira. “Nós éramos muito organizados na UFMG, na PUC também. Na UFMG era muito porque a reitoria não fechou o DCE e os DAs quando teve o AI5. Então nós tínhamos entidades estudantis, recursos financeiros, e um movimento de denuncias, era o movimento mais forte do Brasil, junto com a USP”, recorda Zaidan.
Após a reconstrução da UNE, em 1979, a entidade voltou a realizar seus congressos em clima de institucionalidade, escolher livremente os seus dirigentes e interferir de forma mais ativa na vida nacional. O movimento estudantil foi fundamental, durante o início da década de 1980, para o enfraquecimento do regime militar e a retomada da democracia.
ATUAL DIRETORIA VAI HOMENGEAR OS 40 ANOS DO III ENE
Os ex-estudantes que participaram do III ENE serão homenageados no 55º Congresso da UNE, em Belo Horizonte, com uma mesa de debates sobre a história da reconstrução da entidade, no dia 15 de junho, no campus Pampulha da UFMG. Além disso, será montada exposição no Congresso com fotos e documentos históricos que registraram a agitação política na capital mineira durante aquele período.