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segunda-feira, 26 de março de 2018

Jornada de Lutas por Edson e Marielle: não nos calarão!


No dia 28 de março, secundaristas relembram 50 anos do assassinato de estudante. Grande ato acontece no Rio de Janeiro;

Quando Edson Luís foi assassinado por um policial militar, dia 28 de abril de 1968, apenas reivindicava com colegas para que a comida do restaurante universitário Calabouço fosse mais barata. Por isso em sua memória, há 50 anos o dia de sua morte é data para estudantes do Brasil todo se manifestarem. Por melhores condições na educação pública, pelo direito de se mobilizar.
“Este ano, unimos nossa luta pela educação à luta por Marielle Franco. Assim como Edson Luís, ela morreu por causa de um sistema opressor que não permite ser questionado. E queremos mostrar que, ainda assim, não podem matar a voz de Edson e a voz de Marielle”, explica Willamy Macedo, diretor de Relações Institucionais da UBES.

Rio de Janeiro, 50 anos depois

O grande ato “Por Marielle e Edson Luís!” sai da Igreja da Candelária até a Cinelândia. Para quem não sabe, no mesmo local foi velado o estudante Edson Luís, em 29 de março de 1968. Na última terça (20/03), o ato interreligioso por Marielle também foi partiu da Candelária em direção à Cinelândia.
Leia também:

“Por Edson Luís, Por Marielle”. O ato histórico chamado por secundas e outros movimentos nos 50 anos de morte do … Continue lendo

Brasil

Além do Rio de Janeiro, estudantes estão se mobilizando pelo Brasil todo, dos menores municípios às maiores capitais, para atos em defesa da educação pública e da democracia. Acompanhe pelas redes sociais da UBES!
Estudantes se mobilizam pela Jornada de Luta Edson Luís em Camaçari, interior da Bahia

Quem foi Edson Luís

Tudo que Edson Luis de Lima Souto queria era terminar o Ensino Médio no Rio de Janeiro e conseguir uma vida melhor do que sua família, que ficou em Belém do Pará. Ele fazia bicos de faxina e tentava se manter como podia. Por isso reivindicava pelo preço da comida com outros jovens da Frente Unida dos Estudantes do Calabouço (FUEC).
A morte do jovem aos 17 anos comoveu o Rio de Janeiro e enfureceu os estudantes mais rebeldes. Depois deste episódio, a ditadura passou para sua fase mais cruel e autoritária. Com o Ato Institucional número 5 (AI-5), meses depois, ficou proibido se reunir com outras pessoas em locais públicos, clubes, sindicatos e até nos lares. Além disso, mandaram os deputados para casa e encerraram as atividades do Congresso.
Fonte: UBES

100 frases selecionadas de Nelson Rodrigues

Nosso Rochefoucauld
Dos nossos arquivos:
Nelson Rodrigues foi o maior frasista brasileiro, o nosso Rochefoucauld. Com a contribuição milionária de Erika Nakanura, o DCM selecionou 100 máximas que provam isso.
  • A adúltera é a mais pura porque está salva do desejo que apodrecia nela.
  • A beleza interessa nos primeiros quinze dias; e morre, em seguida, num insuportável tédio visual.
  • A dúvida é autora das insônias mais cruéis. Ao passo que, inversamente, uma boa e sólida certeza vale como um barbitúrico irresistível.
  • A grande vaia é mil vezes mais forte, mais poderosa, mais nobre do que a grande apoteose. Os admiradores corrompem.
  • A liberdade é mais importante do que o pão.
  • A maioria das pessoas imagina que o importante, no diálogo, é a palavra. Engano, e repito: – o importante é a pausa. É na pausa que duas pessoas se entendem e entram em comunhão.
  • A pior forma de solidão é a companhia de um paulista.
  • A platéia só é respeitosa quando não está a entender nada.
  • A prostituta só enlouquece excepcionalmente. A mulher honesta, sim, é que, devorada pelos próprios escrúpulos, está sempre no limite, na implacável fronteira.
  • A televisão matou a janela.
  • A verdadeira grã-fina tem a aridez de três desertos.
  • Acho a velocidade um prazer de cretinos. Ainda conservo o deleite dos bondes que não chegam nunca.
  • Amar é dar razão a quem não tem.
  • Amar é ser fiel a quem nos trai.
  • Antigamente, o silêncio era dos imbecis; hoje, são os melhores que emudecem. O grito, a ênfase, o gesto, o punho cerrado, estão com os idiotas de ambos os sexos.
  • As grandes convivências estão a um milímetro do tédio.
  • Com sorte vc atravessa o mundo, sem sorte vc não atravessa a rua.
  • Começava a ter medo dos outros. Aprendia que a nossa solidão nasce da convivência humana.
  • Copacabana vive, por semana, sete domingos.
  • D. Helder só olha o céu para saber se leva ou não o guarda-chuva.
  • Desconfie da esposa amável, da esposa cordial, gentil. A virtude é triste, azeda e neurastênica.
  • Desconfio muito dos veementes. Via de regra, o sujeito que esbraveja está a um milímetro do erro e da obtusidade.
  • Deus está nas coincidências.
  • Dinheiro compra tudo, até amor verdadeiro.
  • É preciso ir ao fundo do ser humano. Ele tem uma face linda e outra hedionda. O ser humano só se salvará se, ao passar a mão no rosto, reconhecer a própria hediondez.
  • É preciso trair para não ser traído.
  • Em muitos casos, a raiva contra o subdesenvolvimento é profissional. Uns morrem de fome, outros vivem dela, com generosa abundância.
  • Entre o psicanalista e o doente, o mais perigoso é o psicanalista.
  • Está se deteriorando a bondade brasileira. De quinze em quinze minutos, aumenta o desgaste da nossa delicadeza.
  • Eu me nego a acreditar que um político, mesmo o mais doce político, tenha senso moral.
  • Existem situações em que até os idiotas perdem a modéstia.
  • Falta ao virtuoso a feérica, a irisada, a multicolorida variedade do vigarista.
  • Hoje é muito difícil não ser canalha. Todas as pressões trabalham para o nosso aviltamento pessoal e coletivo.
  • Hoje, o sujeito prefere que lhe xinguem a mãe e não o chamem de reacionário.
  • Invejo a burrice, porque é eterna.
  • Jovens: envelheçam rapidamente!.
  • Muitas vezes é a falta de caráter que decide uma partida. Não se faz literatura, política e futebol com bons sentimentos…
  • Na mulher, certas idades constituem, digamos assim, um afrodisíaco eficacíssimo. Por exemplo:- 14 anos!
  • Nada nos humilha mais do que a coragem alheia.
  • Não acredito em honestidade sem acidez, sem dieta e sem úlcera.
  • Não admito censura nem de Jesus Cristo.
  • Não damos importância ao beijo na boca. E, no entanto, o verdadeiro defloramento é o primeiro beijo na boca. A verdadeira posse é o beijo na boca, e repito: – é o beijo na boca que faz do casal o ser único, definitivo. Tudo mais é tão secundário, tão frágil, tão irreal.
  • Não existe família sem adúltera.
  • Não há nada que fazer pelo ser humano:o homem já fracassou.
  • Não se apresse em perdoar. A misericórdia também corrompe.
  • Nem toda mulher gosta de apanhar. Só as normais.
  • Nossa ficção é cega para o cio nacional. Por exemplo: não há, na obra do Guimarães Rosa, uma só curra.
  • Num casamento, o importante não é a esposa, é a sogra. Uma esposa limita-se a repetir as qualidades e os defeitos da própria mãe.
  • Nunca a mulher foi menos amada do que em nossos dias.
  • O adulto não existe. O homem é um menino perene.
  • O amor entre marido e mulher é uma grossa bandalheira. É abjeto que um homem deseje a mãe de seus próprios filhos.
  • O artista tem que ser gênio para alguns e imbecil para outros. Se puder ser imbecil para todos, melhor ainda.
  • O asmático é o único que não trai.
  • O biquíni é uma nudez pior do que a nudez.
  • O boteco é ressoante como uma concha marinha. Todas as vozes brasileiras passam por ele.
  • O Brasil é muito impopular no Brasil.
  • O brasileiro é um feriado.
  • O brasileiro, quando não é canalha na véspera, é canalha no dia seguinte.
  • O cardiologista não tem, como o analista, dez anos para curar o doente. Ou melhor: – dez anos para não curar. Não há no enfarte a paciência das neuroses.
  • O casamento é o máximo da solidão com a mínima privacidade.
  • O grande acontecimento do século foi a ascensão espantosa e fulminante do idiota.
  • O homem começa a morrer na sua primeira experiência sexual.
  • O homem não nasceu para ser grande. Um mínimo de grandeza já o desumaniza. Por exemplo: — um ministro. Não é nada, dirão. Mas o fato de ser ministro já o empalha. É como se ele tivesse algodão por dentro, e não entranhas vivas.
  • O jovem tem todos os defeitos do adulto e mais um: o da imaturidade.
  • O morto esquecido é o único que repousa em paz.
  • O marido não deve ser o último a saber. O marido não deve saber nunca.
  • O Natal já foi festa, já foi um profundo gesto de amor. Hoje, o Natal é um orçamento.
  • O ônibus apinhado é o túmulo do pudor.
  • O pudor é a mais afrodisíaca das virtudes.
  • O puro é capaz de abjeções inesperadas e totais e o obsceno, de incoerências deslumbrantes. Somos aquela pureza e somos aquela miséria. Ora aparecemos varados de luz, como um santo de vitral, ora surgimos como faunos de tapete.
  • O sábado é uma ilusão.
  • O Ser Humano, tal como imaginamos, não existe.
  • Os homens mentiriam menos se as mulheres fizessem menos perguntas.
  • Outrora, os melhores pensavam pelos idiotas; hoje, os idiotas pensam pelos melhores. Criou-se uma situação realmente trágica: — ou o sujeito se submete ao idiota ou o idiota o extermina.
  • Perfeição é coisa de menininha tocadora de piano.
  • Qualquer menino parece, hoje, um experimentado e perverso anão de 47 anos.
  • Quem nunca desejou morrer com o ser amado nunca amou, nem sabe o que é amar.
  • Se Euclides da Cunha fosse vivo teria preferido o Flamengo a Canudos para contar a história do povo brasileiro.
  • Se os fatos são contra mim, pior para os fatos.
  • Se todos conhecessem a intimidade sexual uns dos outros, ninguém cumprimentaria ninguém.
  • Sem paixão não dá nem para chupar picolé.
  • Sexta feira é o dia em que a virtude prevarica.
  • Só acredito nas pessoas que ainda se ruborizam.
  • Só não estamos de quatro, urrando no bosque, porque o sentimento de culpa nos salva.
  • Só o cinismo redime um casamento. É preciso muito cinismo para que um casal chegue às bodas de prata.
  • Só o rosto é indecente. Do pescoço para baixo podia-se andar nu.
  • Sou reacionário. Minha reação é contra tudo que não presta.
  • Subdesenvolvimento não se improvisa; é obra de séculos.
  • Tarado é toda pessoa normal pega em flagrante.
  • Toda coerência é, no mínimo, suspeita.
  • Toda mulher bonita leva em si, como uma lesão da alma, o ressentimento. É uma ressentida contra si mesma.
  • Toda mulher bonita tem um pouco de namorada lésbica em si mesmo.
  • Toda mulher gosta de apanhar. Só as neuróticas reagem.
  • Toda unanimidade é burra.
  • Todas as mulheres deviam ter catorze anos.
  • Todo amor é eterno. Se não é eterno, não era amor.
  • Todo desejo é vil.
  • Todo tímido é candidato a um crime sexual.
  • Tudo passa, menos a adúltera. Nos botecos e nos velórios, na esquina e nas farmácias, há sempre alguém falando nas senhoras que traem. O amor bem-sucedido não interessa a ninguém.
100. Um filho, numa mulher, é uma transformação. Até uma cretina, quando tem um filho, melhora.
Fonte: Diário do Centro do Mundo - DCM

Livro de receitas típicas paranaenses está disponível para download


A Secretaria de Estado da Cultura (SEEC) disponibiliza para download gratuito o livro Delícias do Paraná – tradições e sabores da nossa terra, publicação que reúne 81 receitas enviadas por 51 municípios paranaenses com o objetivo de preservar e divulgar a gastronomia paranaense. Lançado em dezembro de 2017, o livro pode ser acessado AQUI.

O secretário de Estado da Cultura, João Luiz Fiani, explica que um dos patrimônios culturais do Paraná mais significativos e de maior riqueza é a culinária. “Este projeto possibilita o contato com a pluralidade da gastronomia paranaense, fruto de uma colonização diversificada. Por meio dele identificamos a mistura de várias culturas, de influências trazidas pelos imigrantes que ajudaram a construir o nosso Estado somadas aos costumes dos povos que já viviam aqui”, comenta.
O livro “Delícias do Paraná-Tradições e Sabores da Nossa Terra” da Secretaria de Estado da Cultura do Paraná(SEEC).
Curitiba, 19 de março de 2018.
Foto: Kraw Penas/SEEC
Para realizar o projeto, a SEEC convidou dirigentes culturais de cada um dos 399 municípios do Estado a enviarem receitas que representassem a identidade cultural da cidade e que representassem a culinária local.
A secretaria fez toda a produção da edição, com organização das receitas recebidas, produção de fotos, elaboração do design gráfico e revisão. O chef Flávio Frenkel, do MON Café, foi convidado para elaborar a releitura de alguns 
Fonte: BRASIL CULTURA

domingo, 25 de março de 2018

Capoeirista ,filósofo popular:Vicente Ferreira mais pode me chamar de Mestre Pastinha

VICENTE FERREIRA PASTINHA

Em 5 de abril de 1889, nascia Vicente Ferreira Pastinha, responsável
pela difusão da Capoeira.

Angola, bem como pela reunião e organização dos princípios e fundamentos de um dos maiores símbolos da cultura brasileira.

Filho do espanhol José Señor Pastinha e da baiana Eugênia Maria de Carvalho, nasceu na Rua do Tijolo em Salvador, Bahia.

Na virada do século XIX para o século XX, Pastinha foi apresentado à capoeira, segundo ele próprio, por pura sorte. Quando tinha em torno de 10 anos, em consequência de um arenga de garotos, da qual sempre saía perdendo, conheceu Benedito, preto africano que se tornaria seu mestre.

“A minha vida de criança foi um pouquinho amarga. Encontrei um rival, um menino que era rival meu. Então, nós entrávamos em luta. E, na janela de uma casa, tinha um africano apreciando a minha luta com esse menino. Então quando acabava de brigar, que eu passava, o velho me chamava: ‘Meu filho, vem cá!’ Eu cheguei na janela e ele, então, me disse: ‘Você não pode brigar com aquele menino. Aquele menino é mais ativo do que você. Aquele menino é malandro! Você quer brigar com o menino na raça, mas não pode. O tempo que você vai pra casa empinar raia, você vem aqui pro meu cazuá.’ Então, aceitei o convite do velho, que pegava a me ensinar capoeira. Ginga pr’aqui, ginga pra lá, ginga pr’aqui, ginga pra lá, cai, levanta. Quando ele viu que eu já estava em condições pra corresponder com o menino, ele disse: ‘Você já pode brigar com o menino’. Então, eu saí. Quando eu vinha, a mãe dele via que eu ia passar, gritava: ‘Honorato, aí vem seu, camarada.’ O menino puca. De dentro de casa o menino pulava no meio da rua com o satanás. Aí, pegou a insistir e na hora que eu insisti, pum, passou a mão. Eu saí debaixo. Ele tornou a passar a mão em mim, eu tornei a sair debaixo. Ele disse: ‘Ah, você tá vivo, hein?!’ Ele insistiu a terceira vez, eu aqui rebati a mão dele e sentei-lhe os pés. Ele recebeu, caiu. Tornei a sentar o pé nele, ele tornou a cair. A mãe dele foi e disse: ‘Vê se não vai apanhar!’ Aí eu disse: ‘Vai ver ele apanhar agora!’.”

"Quando eu tinha uns dez anos - eu era franzininho - um outro menino mais taludo do que eu tornou-se meu rival. Era só eu sair para a rua - ir na venda fazer compra, por exemplo - e a gente se pegava em briga.

Tornou-se discípulo de Benedito e passou a frequentar sua casa todos os dias dado o grande interesse que a capoeira tinha conseguido despertar nele. Pastinha aprendeu além das técnicas, a mandinga. Benedito ensinou-lhe tudo o que sabia.

Durante esse período, o menino Pastinha também frequentava o Liceu de Artes e Ofício, onde aprendeu entre outras coisas a arte da pintura. Em 1902, Pastinha entrou para e escola de aprendizes marinheiros, onde passaria oito anos de sua vida. Na Marinha, praticou esgrima (treinou com espada e florete) e estudou música (violão), ao mesmo tempo em que ensinava capoeira a seus companheiros.

Em 1910, aos 21 anos, pede baixa da corporação. De lá já sai como professor de capoeira, atividade a qual decide se dedicar. Nesse período, tinha que ministrar suas aulas às escondidas na sua própria casa, pois a capoeira figurava no Código Penal como atividade proibida, com sujeição a pena de prisão de dois a seis meses, sendo esse período dobrado no caso dos “chefes ou cabeças”.

Foi exatamente o endurecimento da repressão à capoeira que levou Mestre Pastinha a interromper suas aulas. Entre os 1913 e 1934, teve que trabalhar de pintor, pedreiro, entregador de jornais e até tomou conta 
de casa de jogos.

Em 1941, Pastinha foi convidado por seu antigo aluno, Raimundo Aberrê, a assisti-lo na roda de capoeira da Jinjibirra (Gengibirra). Lá, de acordo com o próprio Pastinha, lhe aguardava uma surpresa:

“No Jinjibirra, tinha um grupo de capoeirista, só tinha mestre, os maiores mestres daqui da Bahia. O Aberrê me convidou pra eu ir assistir a ele jogar, num dia de domingo. Quando eu cheguei lá, ele procurou o dono da capoeira, que era o Amorzinho, que era um guarda civil. Chamou o Amorzinho, o Amorzinho no aperto da minha mão foi e entregou a capoeira pra eu tomar conta, dizendo:‘Há muito que o esperava para lhe entregar esta capoeira para o senhor mestrar’. Eu ainda tentei me esquivar, me desculpando, porém, tomando a palavra o Sr. Antônio Maré disse-me: ‘Não há jeito, não, Pastinha, é você mesmo quem vai mestrar isto aqui’. Como os camaradas deram-me o seu apoio, aceitei.”

Assumindo a missão de organizar a Capoeira Angola e de devolver a ela seu valor e visibilidade, enfraquecidas pela emergência e popularização da Capoeira Regional, Mestre Pastinha funda o Centro Esportivo Capoeira Angola (CECA), localizado no Largo do Cruzeiro de São Francisco, a primeira escola de Capoeira Angola. Em sua academia, Pastinha adotou um uniforme com as cores de seu time do coração, onde treinou quando rapaz, o preto e o amarelo do Esporte Clube Ypiranga.

Em 1952, o CECA foi oficializado e três anos depois sua sede muda para seu endereço mais famoso: o casarão da Praça do Pelourinho, nº 19. Neste período, Pastinha já estava com 66 anos de idade.

Neste endereço, reuniam-se capoeiristas consagrados como Valdemar da Paixão, Noronha, Maré, Divino, Traíra. O CECA era uma escola de mestres, que transmitia a tradição dos angoleiros. Lá formaram-se outros grandes nomes da capoeira, como Curió, Albertino, Gildo Alfinete, Valdomiro, João Grande e João Pequeno.

Mestre Pastinha sempre prezou pela cordialidade entre seus alunos e pregava que os capoeiristas não deveriam apelar para a violência quando estivessem vadiando (jogando). Ao contrário, sustentava que a calma era a maior aliada do capoeira.

“É o controle do jogo que protege aqueles que o praticam para que não descambe no excesso do vale tudo. Note bem, estou falando em sentido de demonstração, e não de desafio, porque sempre traz consequências às vezes desastrosas. Tira toda a beleza e o brilho da capoeira […]”

Para o Mestre, as pessoas costumam se admirar com a capoeira ao percebem que se trata de uma luta em que “dois camaradas jogam sem egoísmo, sem vaidade. É maravilhosa e educada.”

Mestre João Pequeno, aluno que recebeu do próprio Pastinha a missão de dar continuidade ao CECA e ao seu trabalho, resumiu bem os ensinamentos do maior de todos os angoleiros:

“O capoeirista para bater não precisa encostar o pé. Ele deve ter seu corpo freado, manejado para quando ele levar o pé e vir que o adversário não se defendeu, ele frear antes do pé encostar. Porque quem tá de parte vê que não bateu porque ele não quis. Então para bater não precisa dar pancada no adversário.”

Como reconhecimento por sua contribuição à cultura afro-brasileira, em 1966, Mestre Pastinha realizou o 
seu sonho de conhecer a África ao representar o Brasil por meio da Capoeira Angola, no 1º Festival Mundial das Artes Negras, em Dacar/Senegal. Como ele já não estava enxergando bem, consequência de uma trombose que atingiu sua visão, não chegou a vadiar em terras africanas.

Apesar desse raro momento de reconhecimento do Estado brasileiro da importância de Pastinha, o Velho Mestre trabalhou e empenhou-se pelo crescimento da Capoeira Angola quase sempre sem qualquer apoio ou incentivo dos órgãos públicos. Ao contrário disso, em 1971, foi vítima do processo de gentrificação (higienização social) que se deu no Pelourinho, local que começava a ser visado pela especulação imobiliária dado o forte apelo turístico do lugar.

Obrigado pela Prefeitura de Salvador a se retirar do casarão, que entraria em processo de restauração, sob a promessa de retornar ao fim desse, Pastinha viu-se forçado a se mudar e nunca mais pôde voltar à famosa sede do CECA, que deu lugar a um restaurante do SENAC.

Segundo Mestre Curió, aluno de Pastinha, com muita resistência deram um espaço para a academia na Ladeira do Ferrão, conhecida comoLadeira do Mijo.

Com esse ato de destrato e desconsideração, Mestre Pastinha entrou em depressão e teve uma forte piora de sua saúde física. Pastinha viveu seus últimos dias morando num quarto escuro e úmido, na Rua Alfredo Brito n° 14, no Pelourinho. Além da terceira esposa, Maria Romélia, poucos foram os que ajudaram o Mestre.

Após esse período foi enviado para o abrigo para idosos Dom Pedro II, onde permaneceu até a sua morte. Mestre Pastinha morreu cego, quase paralítico e abandonado, no dia 13 de novembro de 1981, aos 92 anos. O Brasil perdia um dos seus maiores mestres. Não só o mestre da Capoeira Angola, mas o mestre da filosofia popular.

O grande escritor Jorge Amado, admirador de Mestre Pastinha e também um dos que lhe deram suporte em momentos difíceis de sua vida, dizia que ele não era apenas um praticante da capoeira, mas um teórico dela. Em seu livro Capoeira Angola (1965), Pastinha defendia a natureza não violenta do jogo e afirmava que a capoeira conferia dignidade, honradez e decência aos seus praticantes.

Em 1964 o Mestre publica o seu livro intitulado “Capoeira Angola”, onde o escritor Jorge Amado teve o prazer de escrever:

“... mestre da Capoeira de Angola e da cordialidade baiana, ser de alta civilização, homem do povo com toda a sua picardia, é um dos seus ilustres, um dos seus abas, de seus chefes. É o primeiro em sua arte. Senhor da agilidade e da coragem, da lealdade e da convivência fraternal. Em sua escola no pelourinho, Mestre Pastinha constrói cultura brasileira, da mais real e da melhor...” 

Além do livro, o mestre gravou também um disco com cinco faixas. O disco intitulado “Pastinha Eternamente”, conta com depoimentos na voz do próprio mestre e músicas de capoeira, cantadas por Mestre Traíra. Este disco é simplesmente uma raridade e está disponível para download na internet. No final do post disponibilizarei o link para o download. 

Em abril de 1966, integrou a delegação brasileira no 1° Festival de Artes Negras, no Senegal, Dakar na África, onde recebe várias homenagens e confirma que na África não existe qualquer coisa que se pareça com a nossa capoeira. Com todo esse destaque Mestre Pastinha começa a receber o apoio de várias 
instituições governamentais até que em 1971 o destino (ou o sistema) lhe pregaria uma grande peça.

Capoeira, patrimônio cultural- A história de vida e os ensinamentos de Mestre Pastinha, junto com a de outros mestres, que tenham sido seus alunos ou não, da Capoeira Angola ouRegional, motivou outras pessoas a praticar a capoeira, que se disseminou pelo país e pelo mundo, tornando-se um dos maiores símbolos da cultura brasileira.

A complexidade e expressividade da capoeira levaram o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) a registrar a Roda de Capoeira e o Ofício dos Mestres de Capoeira como patrimônios culturais imateriais brasileiros, em 2008, estando inscritos, no Livro de Registro das Formas de Expressão e no Livro de Registro dos Saberes, respectivamente.

Seis anos depois, a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) conferiu à Roda de Capoeira o título de Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade.

“Eu nasci pra capoeira, só deixo a capoeira quando eu morrer.
Eu amo o jogo da capoeira. E não há outra coisa melhor na minha vida do que a capoeira.”
Vicente Ferreira Pastinha

A censura absurda a um livro de cultura afro e o projeto de teocratização do Brasil. Por Cidinha da Silva

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O livro “Omo-Obá: histórias de princesas” (Mazza Edições, 2009) escrito por Kiusam de Oliveira e ilustrado por Josias Marinho, foi avaliado e adotado pela Gerência de Educação Básica do Sesi Volta Redonda, RJ.
A obra é recomendada pela Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil (FNLIJ) e foi uma das representantes do Brasil na Feira de Bologna, Itália (2010), maior do mundo no segmento. Foi ainda selecionada pelo PNBE 2011.
O fato de ser uma obra validada por diferentes especialistas, todavia, não impediu que “alguns pais”, segundo nota enviada pela coordenação pedagógica da escola a todos os pais e responsáveis, vetassem o livro e, pior de tudo, tivessem o pleito atendido por aquela coordenação. Dessa forma, o trabalho técnico dos colegas da Gerência de Educação Básica foi totalmente desconsiderado.
Uma mãe negra, Juliana Ferreira, cujo filho estuda no Sesi Volta Redonda indignou-se como o comunicado da escola dando conta da substituição do livro em resposta à reclamação de “alguns pais”. Juliana transformou a indignação em denúncia e uma rede de questionamentos ao Sesi e de apoio à obra se formou nas Web, pressionando a instituição a rever a decisão.
Entretanto, instituições de classe na defesa do livro, de editoras, da liberdade de expressão e do cumprimento da legislação que institui os conteúdos de história e cultura africana e afro-brasileiras nos currículos do ensino fundamental e médio premiram a mudança de postura do Sesi Volta Redonda.
A LIBRE – Liga Brasileira de Editoras encaminhou à FIRJAN – Federação das Indústrias do Rio de Janeiro, à qual a escola é filiada, nota em que argumentava: “A Mazza Edições, integrante da Libre e presente no mercado há mais de três décadas, é uma referência na publicação de obras literárias e científicas sobre cultura africana e afro-brasileira. Nesse sentido, a escolha da obra pelos professores da Escola Sesi indica um olhar atento para a diversidade étnica, para a bibliodiversidade e respeito à lei nº 11.645/2008 (referente à obrigatoriedade de estudo de História e Cultura Afro-Brasileira e Indígena nos diferentes níveis de ensino)”.
A Câmara Mineira do Livro foi mais incisiva e além da nota, da qual extraímos alguns trechos, telefonou para diretoria da FIRJAN cobrando mudança de posicionamento, nos seguintes termos: “Pelo que se depreende da leitura do restante da nota (da escola), o veto “de alguns pais” é de cunho religioso ou de intolerância étnica. Se, de fato, foi esta a motivação, é dever não só da escola, mas de todo o Sistema FIRJAN – cujo slogan é “Informa, Forma, Transforma” – esclarecer aos pais, à luz da Constituição Federal, que o art. 215, § 1°, dispõe: “O Estado protegerá as manifestações das culturas populares, indígenas e afro-brasileiras, e das de outros grupos participantes do processo civilizatório nacional”.
O que a escola não deve fazer é aceitar “questionamento de alguns pais” sem se dar ao trabalho de reuni-los, apresentar e mediar a obra, explicar a importância e a motivação pedagógica de sua adoção e esclarecer a firme posição (espera-se) da instituição em “informar, formar e transformar”. Para tanto, são importantes – deveria esclarecer a direção da escola – as escolhas literárias de boa qualidade; que não ofendem a lei nem crenças alheias e que apresentam a diversidade cultural dos povos fundadores da cultura brasileira.
Não menos grave é o fato de que a opinião de “alguns pais” se sobreponha ao trabalho de especialistas – pedagogos, professores, bibliotecários – qualificados ao longo de anos de estudos e pesquisas. Ao indicar um livro, esses especialistas levam em conta: adequação da obra à faixa etária a que se destina; compatibilidade com o projeto pedagógico; respeito à diversidade cultural; qualidade e diálogo entre texto e ilustração, entre outras características.”
O Brasil do golpe abre as porteiras para que as conquistas de espaço para a pluralidade de vozes e manifestações culturais nas escolas sejam violentamente atacadas por um projeto político de teocratização do Estado que demoniza as culturas negras, cuja abordagem a Lei 10.639/2003 (substituída pela 11.645/2008) convoca e protege.
Esse projeto prega que os africanos foram amaldiçoados, seus descendentes, sua história e cultura, também. Asseguram que isso está na Bíblia, baseando-se na certeza de um livro tido como incontestável.
No projeto de teocratização do Estado, existe um SNI das culturas negras, que trata de mapear educadoras e educadores comprometidos com a execução da Lei 10.639, perseguindo-os e dificultando-lhes o trabalho. Tudo passa a ser obra do demônio: as manifestações de culturas populares como a congada, a capoeira, o maculelê, o frevo, o maracatu, o jongo e tantas outras, esteio tradicional de música, canto, dança, medicina, culinária, artesanato, brincadeiras, encenações, festas e jogos. Todas são demonizadas junto com os saberes da Umbanda e do Candomblé.
Passam por cima da laicidade do Estado e promovem o racismo e a discriminação racial em nome de Deus e em detrimento dos direitos humanos e de cidadania. Em benefício da perpetuação do escárnio virulento à diversidade humana, verificado minuciosamente nas escolas e na educação brasileira.
Fonte: Diário do Centro do Mundo - DCM

LÁZARO RAMOS ESTREIA 13ª TEMPORADA DE “ESPELHO”

Nova leva de 26 episódios traz entrevistados que, por meio de uma pergunta, tentam encontrar soluções para suas relações pessoais e para o país
No dia 26 de março (segunda-feira), Lázaro Ramos estreia a nova temporada de “Espelho”. Idealizado e apresentado por ele há 13 anos, o programa semanal do Canal Brasil segue sua busca pela pluralidade, discutindo assuntos atuais e temas como democracia, cidadania e, claro, arte, educação e cultura. “O mote é buscar alternativas de relação, de convivência e na condução do país”, explica Lázaro, que fez a todos convidados a mesma pergunta: ‘O que você quer dizer de novo para o mundo?’. “Essa questão inspirou toda a temporada porque, na minha percepção, a gente tem que rever os contratos e não pensar apenas em diagnósticos, mas tentar encontrar soluções”, finaliza Lázaro.
Partindo do princípio de extrair novos diálogos e pensar fora da caixa, em 26 episódios Lázaro recebe para conversas intimistas e bem humoradas nomes como Caetano e Zeca Veloso, Fernanda Torres, Bela Gil, Djamila Ribeiro, Baby do Brasil, Tatiana Nascimento, Mônica Iozzi, Leda Nagle, Augusto Cury, Cacau Protásio, Ícaro Silva e Nilton Bonder, sendo a convidada de estreia Diva Guimarães, a professora de 78 anos que ficou conhecida na Flip do ano passado depois de dar a Lázaro um emocionante depoimento sobre preconceito. Agora, eles se reencontram para uma conversa sobre o papel libertador que a educação e a igualdade proporcionam ao mundo.
Paulo Mendonça, diretor-geral do Canal Brasil e grande parceiro do projeto desde o início, comemora o sucesso da atração. ”O olhar generoso de Lázaro para seus convidados proporciona ângulos sempre novos sobre os assuntos debatidos. Essa é uma virtude da maneira gentil dele ser”, diz.
Pela primeira vez dirigido por uma mulher, Juliana Vicente, “Espelho” joga luz também sobre a literatura. Além de ser pauta principal de muitos episódios, em cada edição, a doutora em literatura afro-americana e negro-brasileira, Fernanda Felisberto apresenta um livro infantil escrito para crianças negras no quadro chamado Okawé. Assim como faz desde quando surgiu, em 2005, Espelho sempre pretendeu levantar a autoestima negra e debatê-la e, em 2018, segue mais amplo e incansável em sua curadoria de convidados que nos ajudem refletir e abordar questões urgentes para a sociedade.
Além da estreia no canal linear, o Canal Brasil antecipou o lançamento de alguns episódios em plataformas digitais. Os 13 primeiros programas já estão disponíveis no NOW. No Canal Brasil Play, já é possível assistir a três episódios e, a partir do dia 23, e dois deles estarão disponíveis também no YouTube.
13 anos no ar
Em sua trajetória e com mais de 300 entrevistados, “Espelho” apresentou conversas memoráveis, como é o caso dos programas de Criolo, Tom Zé, Seu Jorge, Geneton Moraes Neto, Leandra Leal, Mart’nália, Jesuíta Barbosa, Marcius Melhem, entre muitos outros, além de nomes internacionais, como a cantora espanhola Concha Buíka. Isto tudo com conversas sempre pautadas pela espontaneidade e sem ficar preso a cenários fixos e formatos definidos.
Entre os programas históricos, houve um especial em 2009: Lázaro foi até Washington, nos Estados Unidos, para cobrir a posse do primeiro mandato do ex-presidente americano Barack Obama. Emocionado, o apresentador acompanhou a cerimônia e conversou com o povo que lá estava. Além disso, Lázaro já dirigiu algumas temporadas de “Espelho” e passou também a produzi-lo com seu selo, o Lata Filmes, uma sociedade com a empresária e produtora Tânia Rocha.
‘ESPELHO’ (2018) (26 x 25′), com Lázaro Ramos
– Estreia: segunda-feira, dia 26, às 21h30, reprises terças, às 13h, e domingos às 15h30
– Horário: segundas-feiras, às 21h30
– Horários alternativos: terças, às 13h, domingos, às 15h30
– Inédito e Exclusivo
– Classificação: Livre
FICHA TÉCNICA
Concepção: Lázaro Ramos
Direção: Juliana Vicente
Produção: Lata Filmes
Convidados 2018 em ordem de exibição: Diva Guimarães; Caetano e Zeca Veloso; Fernanda Torres; Djamila Ribeiro e Tatiana Nascimento; Gina Vieira; Rincon Sapiência; Fernanda Gentil; Di Melo; Cacau Protásio; Larissa Luz e Ícaro Silva; Débora Falabella; Nilza Barbosa; Leda Nagle; Silvio Guindane; Maria Rita; Cid Bento; Bela Gil; Robson Nunes; Cláudio Prado; Karol Conka; Mônica Iozzi; Aderbal Freire Filho; Baby do Brasil; Andréia Horta; Augusto Cury e Nilton Bonder; e Ana Maria Gonçalves.
Canal Brasil na rede:
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A cidade e a luta pela politica pública para cultura: Avancemos!


Por Alexandre Lucas*
O país vivência uma série de retrocessos no campo das políticas públicas para a cultura. O governo golpista interrompeu a experiência que começava a tomar corpo no pais, no que diz respeito a democratização e descentralização de recursos públicos e ampliação da participação social, inclusão e escuta dos mais plurais e diversos segmentos da cultura. Estava sendo germinando solos férteis para experimentação e redescoberta das multiplicidades, peculiaridades, heranças e hibridismos que tecem as paisagens culturais do povo brasileiro. O que nos resta? Construir e reconfigurar as políticas públicas no país, a partir das cidades. O que indica a necessidade de organização, amplitude de dialogo e pressão popular.
Algumas bandeiras devem nortear uma plataforma que unifique e contemple os diversos segmentos da cultura e que ao mesmo tempo esteja sintonizada com as lutas mais gerais pela retomada das políticas públicas nacionais.
Pensar a cultura nos municípios exige mapeamento, planejamento e definição da narrativa política que se quer construir.
A democracia estética, artística e cultural é um desafio para ser superado no campo da política pública para a cultura que tenha viés popular e que aglutine os diversos segmentos que compõe essa diversidade, o que inclui as vozes invisibilizadas e silenciadas historicamente.
Neste sentido, a luta pela criação e consolidação dos Sistemas Municipais de Cultura, deve ser o eixo central da empreitada para retomada de uma política nacional de descentralização e desburocratização dos recursos públicos , participação e vetor para o desenvolvimento social e econômico do pais. O que não se dissocia da mesma luta ser empreendida em defesa dos sistemas estaduais.
A implantação dos Sistemas Municipais de Cultura representa para cada município, uma possibilidade concreta de transformar o pensar e o fazer da política pública para cultura, ultrapassando às gestões de governos . O aparato desses sistemas municipais envolvem aspectos jurídicos, políticos, planejamento e de recursos financeiros que favorecem o processo de consolidação, enquanto, política pública.
Concomitantemente, é urgente garantir um percentual para a cultura, nacionalmente é defendido no mínimo a aplicação de 1% da receita liquida do município para a cultura e 1,5% para os estados e 2% para a união. Essa é uma forma de responsabilizar judicialmente os gestores públicos que descumprirem a aplicação de recursos, como já é previsto em outras áreas, como é o caso, por exemplo, da saúde e educação.
Outra luta que merece destaque é o fomento as politicas públicas baseadas no “Cultura Viva” que possibilita fomentar e criar elos de ligação dos sujeitos e suas organizações como pontos de impulsão, resistência, produção, circulação e vitalidade estética, artística e cultural da cidade com o mundo. Em cada esquina existe um ponto de cultura desconhecido. É preciso dar vazão as experiências de base comunitária e interligar a outras dimensões do simbólico, como forma de desguetizar , potencializar e garantir a autonomia e protagonismo dos construtores da arquitetura de saberes e fazeres numa interligação entre o velho e o novo, e no que se pode surgir a partir destas conexões.
A cidade tem que criar, readequar, equipar, qualificar e garantir as condições de funcionamento dos equipamentos culturais, estabelecendo formas republicanas de ocupação e de protagonismo popular e ao mesmo aproximar o entendimento que a politica pública para a cultura deve está alinhada a politica pública para a educação, e neste sentido, é fundamental reconhecer os espaços escolares como os principais equipamentos cultuais do município que podem ser verdadeiros centros de democratização, vivência e experimentação dos saberes científicos, populares, estéticos, artísticos e culturais produzidos historicamente pela humanidade. Esses espaços também podem ser usados para reproduzir uma cultura opressora, conservadora e odiosa, por isso a necessidade de disputa de narrativas nestes equipamentos.
Por outro lado, a política pública para a cultura deve ser pensada como parte estruturante da cidade, conectando pontos , sujeitos, ocupação criativa dos lugares, memória, história, urbanização social e se constituindo num leque desenvolvimentista que possibilite a democratização do simbólico e a geração de renda para o povo. É possível se pensar nas cidades lúdicas, leitoras, educativas, sustentáveis e que impulsione novos olhares para o cuidado com o patrimônio material e imaterial na sua dimensão mais ampla que é a reação dos seus sujeitos com os espaços.
Encampar a luta no âmbito dos municípios , não será tarefa harmoniosa, mas é uma das estratégias para acumular forças para a retomada das politicas públicas no país. Precisamos inverter a logica do “selfie” das políticas institucionais direcionando para narrativas em os sujeitos e suas organizações possam protagonizar a redescoberta da diversidade do pais pelo seu povo.
*Alexandre Lucas é pedagogo, artista-educador e integrante do Coletivo Camaradas.

sábado, 24 de março de 2018

Que países são esses? Cineasta que filmou a caravana de Lula no Nordeste tenta entender o relho fascista no Sul

Manifestante anti Lula ataca com relho no RS
Por Kiko Nogueira
Querido Kiko,
Eu tô indignado, viu?! Essa violência no Rio Grande do Sul mexeu comigo. Depois dos últimos e trágicos acontecimentos no Rio de Janeiro com a vereadora e militante Marielle Franco e do visível crescimento da onda de ódio nas redes sociais, resolvi te mandar essa carta. É carta mesmo, é pra ser um desabafo sem pretensões intelectuais.
Quando estava filmando o documentário ‘O Povo Pode’ na caravana do Lula pelo Nordeste também vi ódio e hostilidade. Mas nada comparável com as milícias gaúchas. Vi gente contra.
Contra o Lula, contra o PT, contra o MST, até contra a democracia, mas não vi gente disposta a hostilizar mulheres petistas, jogar pedras na comitiva ou bloquear estradas para impedir atos democráticos. E mais importante, não vi gente fazendo algo perto disso com a certeza de impunidade e o sentimento de um “danem-se eles”, “que morram!”.
Em toda a caravana pelo Nordeste me lembro de apenas duas irrelevantes manifestações contra Lula. Numa delas, inflaram o tal do Pixuleco. Parei o carro da produção, desci e fui lá ver qual era o ânimo dos cidadãos. Vou te dizer, Kiko, que tinha no máximo umas trinta pessoas. Carregavam cartazes ofensivos e gritavam ao vento um monte de palavras de ordem vazias.
Eram protegidos pela polícia militar e estavam há uns dois ou três quarteirões de distância do ato da caravana. Vi o ódio no olhar daquela turma, mas eram o que o meu pai chamaria de “loucos mansos”, uma turma disposta a apresentar sua visão da realidade mesmo diante de uma multidão que vê o mundo de um jeito completamente diferente.
No Rio Grande do Sul foi diferente, né, Kiko? A turma queria sangue, desde Bagé. Partiram para o ataque. Pedrada e ovada foi só um aperitivo do que estavam dispostos. Nem vou perder tempo em citar as tantas militantes agredidas, nem o áudio que o DCM deu, revelando uma bravata (espero) de alguém disposto até a “derrubar” o hotel na cidade de Sarandi, aonde o Lula talvez fosse dormir.
Vou me concentrar naquela foto de um simpatizante de Lula sendo chicoteado em Santa Maria. O que foi aquilo, meu Deus?!! Um ser humano chicoteando outro ser humano em pleno século XXI é algo assustador. Chicotear um animal pra mim já seria assustador. E o pior é que a foto não é um ato isolado de um cara fora da razão.
Você acredita que vi posts nas redes sociais com aquela foto como exemplo de como se trata petista?!! Como dizia o Henfil, que diabo de país é esse? Que diabo de nação acha normal ou acha engraçado um homem chicoteando outro? Aquela foto, Kiko, é a expressão máxima da fala do Jessé Souza: a escravidão é nosso berço. E ela está em muitos de nós com toda força.
Lula disse no último discurso de sua passagem pelo Rio Grande do Sul que tinha notícias de um Estado tomado pelo conservadorismo. Vou arriscar dizer que atos como o da foto não revelam uma população conservadora, revelam a barbárie!
Desculpem-me os gaúchos. Não faço discursos totalizantes. Como qualquer Estado, o Rio Grande do Sul é feito de gente de todo tipo, mas em especial de boa gente. O que eu não posso aceitar é essa raiva, é esse ódio entre brasileiros. O Rio Grande do Sul também não pode aceitar.
Acompanho manifestações há muitos anos. Cobri várias para veículos jornalísticos e fui em várias como cidadão. Faço aqui meu testemunho de como movimentos populares e sindicatos organizam seus atos. Em toda manifestação há uma equipe responsável pela segurança dos manifestantes e da população que não quer se manifestar.
Vi muitas vezes essa equipe cumprir funções de polícia e evitar conflitos e depredações. Tenho certeza de que se não houve uma tragédia no Rio Grande do Sul foi porque as equipes de segurança do ex-presidente Lula e dos movimentos populares que o apoiam fizeram a sua parte.
As imagens do bloqueio à cidade de Passo Fundo mostram que a polícia militar do Estado não fez seu papel. Tenho visto isso se repetir muitas vezes. Não se trata de proteger representantes dessa ou daquela corrente política. Se trata de responsabilidade cívica, de proteger a cidadania. Se os órgãos de segurança do Estado fizessem seu trabalho, talvez tivéssemos evitado a imagem terrível da foto que hoje representa o ódio no Brasil. Mas parece que segurança continua sendo privilégio, né, Kiko?!!! É… a escravidão é mesmo o nosso berço.
Max Alvim é cineasta e diretor do filme O Povo Pode , sobre o outro país que Lula visitou com sua caravana.
Fonte: Diário do Centro do Mundo - DCM