Cultura significa todo aquele complexo que inclui o conhecimento, a arte, as crenças, a lei, a moral, os costumes e todos os hábitos e aptidões adquiridos pelo ser humano não somente em família, como também por fazer parte de uma sociedade da qual é membros,. ativistas, poetas, escritores, produtores culturais, grupos culturais, violeiros, pensantes e os que admiram e lutam pela cultura potiguar. Cultura! A Cultura, VIVE e Resiste! "Blog do CPC/RN, notícias variadas na BASE DA CULTURA!
Ela está internada desde o dia 8 de janeiro, no Hospital Pró-Cardíaco, no Rio de Janeiro.
Internada desde o dia 8 de janeiro, a cantora Beth Carvalho, 72, ganhou uma roda de samba no quarto que ocupa, no Hospital Pró-Cardíaco, no Rio de Janeiro, na última terça-feira (15), da dupla Os Prettos, formada pelos irmãos Magnu Sousá e Maurílio de Oliveira.
Os dois cantaram junto com ela o samba “Dia Seguinte”. Deitada de lado por conta do problema que apresenta na coluna, Beth bateu palmas e cantarolou trechos do samba.
Beth sofre de problemas na coluna desde 2009, quando ela precisou fazer uma pausa no trabalho por causa de uma fissura na região do osso sacro, na base da coluna vertebral.
Mesmo com dificuldades, a cantora voltou a se apresentar em cadeira de rodas.
Em setembro do ano passado, a sambista chegou a fazer um show deitada. Ela se apresentou ao lado do Fundo de Quintal no KM de Vantagens Hall, no Rio, para comemorar os 40 anos do álbum “De Pé no Chão”, que lançou o grupo.
Beth Carvalho é ativista e foi uma das primeiras artistas do país a se manifestar contra a prisão do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. No dia 26 de abril de 2018, semanas após a prisão de Lula, ela gravou o samba “Lula Livre!”, do compositor Claudinho Guimarães, que diz no refrão: “O povo quer, O povo decide, O povo diz, Nós queremos Lula Andando livre no país”. Assista ao vídeo aqui.
A cantora Luana Carvalho, filha da sambista, afirmou, em publicação feita em uma rede social, que as visitas à sua mãe no hospital foram reduzidas. “[…] O repouso é seu melhor benefício neste momento”, escreveu.
No fim da vida, acometido por um enfisema pulmonar, Adoniran Barbosa se viu forçado a frequentar menos a boemia. O compositor de sucessos como Saudosa Maloca e Trem das Onze começou então a desenvolver uma habilidade que já tinha desde criança, mas que havia deixado de lado por décadas: construir brinquedos. Passou a fabricar trenzinhos de madeira, bicicletas de arame, carrosséis de latas velhas.
Era tudo feito em sua casa na Cidade Ademar, zona sul de São Paulo, lugar em que se refugiou nos últimos anos de vida.
“Adoniran gostava de brincar e era extremamente habilidoso com as mãos. Com mais tempo para ficar em casa, construiu uma oficina e deu para inventar brinquedos”, a firmam os biógrafos Juliana Lins e André Diniz.
Pouco tempo depois, porém, deixou a atividade de lado. Em uma entrevista de 1981, confessou que não tinha mais ânimo para fazer brinquedos. Em sua peculiar mistura de melancolia e bom humor, a firmou: “Dizem que aquilo é higiene mental. Eu chamo de higiene de débil mental”
Helena Theodoro e Martinho da Vila (Foto: Tulio Thome/MS Fotos)
Martinho da Vila chegou com seu jeito devagar, devagarinho no lançamento de sua biografia ocorreu em 12/12/2018 na Livraria da Travessa – Ipanema, no Rio. O livro ‘Martinho da Vila – Reflexos no Espelho’ foi escrito pela pesquisadora Helena Theodoro e publicado pela Pallas Editora, no ano em que o compositor está completando 80 anos. Um dos méritos da obra é situar o compositor não apenas como um artista, mas também como intelectual.
“Estou me sentindo numa posição desconfortável. Gosto de receber homenagens, mas quando estou presente não sei o que fazer”, confessou Martinho. Ele disse ainda que estava muito feliz: “não apenas por mim, ‘por estar dentro do livro’, mas também pela Helena. Há 30 anos ela disse que queria escrever um livro que falasse sobre mim, confessou o compositor”.
Ao longo de décadas Helena e Martinho se encontraram em inúmeras conversas e entrevistas para falar sobre os mais variados temas. As ideias e revelações desse expoente da cultura brasileira formaram um rico acervo oral que fundamenta o livro e provoca as reflexões sobre sua vida e obra.
“A obra do Martinho nos permite mergulhar profundamente na realidade brasileira. Por outro lado, ele foi sempre uma pessoa amorosa e alegre”, disse a autora.
Antes de começarem os autógrafos, Helena e Martinho participaram de um bate-papo com a jornalista Flávia Oliveira, que escreveu a apresentação do livro, e Ricardo Cravo Albim, que assina o prefácio. Amigos e familiares prestigiaram o lançamento.
Livro “Martinho da Vila – Reflexos no Espelho” (Foto: Tulio Thome/MS Fotos)
Martinho da Vila, reflexões sobre um artista e intelectual
Helena Theodoro lança a biografia “Martinho da Vila – Reflexos no Espelho”, publicada pela Editora Pallas.
O evento de lançamento será na quarta-feira (12/12), na Livraria da Travessa – Ipanema, às 19h, com a presença de Martinho da Vila
Há mais de 30 anos a escritora Helena Theodoro pesquisa a vida e a obra de Martinho José Ferreira, o Martinho da Vila. Ao longo desse tempo, os dois se encontraram em inúmeras conversas e entrevistas para falar sobre os mais variados temas. As ideias e revelações de Martinho formaram um rico acervo oral que fundamenta “Martinho da Vila – Reflexos no Espelho”, uma biografia que está sendo lançada pela Editora Pallas.
Um dos grandes méritos do livro é situar Martinho da Vila como artista e intelectual. Helena Theodoro explica que o fio condutor da obra são as profundas reflexões inerentes à vida e à obra do personagem, com sua trajetória rica em sabedoria, cultura, vitórias e resistência, em seus 80 anos de vida e 50 como artista. O livro tem sete capítulos que refletem sobre as origens do compositor, poeta, escritor e sambista; o sucesso (construção, reflexões e 1980/1989); os anos 1990 (samba e religiosidade); a família; e o novo século (reflexos de sua obra).
Para a autora, é necessário que Martinho seja muito valorizado não apenas no meio artístico, mas também nos meios intelectuais. “Sua obra nos permite mergulhar profundamente na realidade brasileira, em seu imaginário social, principalmente ao que tange às nossas bases africanas e à sua capacidade de transformar, criar e valorizar a cultura do povo brasileiro”, explica Helena Theodoro.
A autora destaca ainda a relação de Martinho com a territorialidade: o Martinho da Vila Isabel e o Martinho de Duas Barras, onde ele nasceu. Para ela, a relação que ele mantém com sua própria história preservou sua identidade. “A ligação dele com as raízes africanas trouxe o encontro com a Kizomba e todo um conhecimento das relações do Rio de Janeiro com Angola”, afirma.
“Martinho da Vila – Reflexos no Espelho” narra também situações que mostram a simplicidade do compositor. Por exemplo, quando se inspirou na primeira menstruação de uma de suas filhas para compor o samba “Salgueiro na avenida”, usando o nome da escola que tem o vermelho como cor predominante. No trecho do livro: “Cabe salientar que traduzir o cotidiano em suas músicas marca cada vez mais a obra do Martinho. Em 1982 a filha Juliana, a caçula na época e terceira filha mulher, tivera sua primeira menarca. Martinho registrou de forma poética e criativa, em seu disco de 1983, Novas palavras, no qual temos uma visão mais política e informações mais precisas do som africano e de palavras em quimbundo. A delicadeza e o senso de oportunidade, relacionados às cores das escolas, fazem de “Salgueiro na avenida” a grande homenagem de um pai para a filha que se tornou mocinha.”
Em outro trecho, Martinho comenta a parceria com João Donato, na época em que este era abstêmio e recém-convertido à religião, quando nasceu a letra “Muita luz”. O livro também traz assuntos polêmicos, como o casamento com Cleo, sua atual mulher e mãe de dois de seus filhos. Quando o romance começou, ela tinha 15 anos e Martinho48. Em 2018 fizeram 25 anos de casados.
“A simplicidade do viver é constante em Martinho, que entende o sucesso como algo que acontece sem que se precise correr atrás dele. Considero Martinho uma pessoa sensível, inteligente e doce. Ele é um brasileiro consciente de suas possibilidades culturais como afro-descendente e como ser humano universal”, conclui a autora.
A AUTORA
Helena Theodoro (Foto: Tulio Thome/MS Fotos)
Helena Theodoro é graduada em Ciências Jurídicas e Sociais (UFRJ) e Pedagogia (UERJ). É mestre em Educação (FRJ) e doutora em Filosofia (Universidade Gama Filho). Faz Pós-doutorado no IFCS/UFRJ /PPGHC (Programa de Pós Graduação em História Comparada). É Conselheira do Fundo Elas. Foi Coordenadora do Comitê Pró-equidade de Gênero, Raça e Etnia da Casa da Moeda do Brasil até junho de 2016. Atuou como coordenadora da Pós-graduação de Figurino e Carnaval da Universidade Veiga de Almeida (UVA). Foi Vice-presidente do Conselho Estadual dos Direitos do Negro – Cedine. É autora dos livros: Mito e Espiritualidade: Mulheres Negras (1996); Os Ibéjis e o Carnaval (2009); Caderno de Cultura Afrobrasileira(2009); Iansã, rainha dos ventos e tempestades (2010); e, Martinho da Vila – Reflexos no Espelho (2018). Atua principalmente nos temas: identidade, valores, religião, comunidade, ritos, sexualidade, educação, processos culturais, comportamento, comunidade e cidadania, direitos humanos e comportamento sexual.
PALLAS EDITORA
Referência em cultura afro-brasileira
A Pallas Editora dedica grande parte de seu catálogo a temas afrodescendentes e à cultura popular. A casa editorial, fundada em 1975, busca recuperar e registrar tradições religiosas, linguísticas e filosóficas dos vários povos africanos trazidos para o Brasil durante o regime escravista. Em 1992 a editora Cristina Fernandes Warth lançou um trabalho pioneiro de articulação sobre a cultura afro-brasileira, dando início à publicação de livros que são referências em antropologia, sociologia e etnologia.
Mariana Warth integrou a equipe da Pallas em 2002 e tem se dedicado, entre outros projetos, à edição de literatura infantil, com a mesma temática africana, posicionando mais uma vez a editora na vanguarda editorial. O espectro do catálogo da Pallas é amplo: da religiosidade — com o registro escrito das tradições orais africanas em nosso país — à literatura, passando por antropologia, filosofia e sociologia e livros de referência. A Editora é reconhecida, inclusive internacionalmente, por seu trabalho sobre o patrimônio africano e a cultura popular brasileira.
** Este artigo é de autoria de colaboradores ou articulistas do PORTAL GELEDÉS e não representa ideias ou opiniões do veículo. Portal Geledés oferece espaço para vozes diversas da esfera pública, garantindo assim a pluralidade do debate na sociedade.
A União de Negros pela Igualdade (UNEGRO) é uma entidade nacional suprapartidária, fundada em 14 de julho de 1988, em Salvador, na Bahia. E completa 30 anos de articulação na luta contra o racismo, sexismo, homofobia, intolerância e racismo religioso, e todas as suas formas correlatas de manifestação, pela luta de classes.
Seu principal objetivo é de construir consciência de classe, identidade, pertencimento de valores históricos da população negra e do povo brasileiro, bem como a defesa de direitos em acesso e oportunidade, e assim poder transformar um povo escravizado em construtores de uma nova nação, essa que se constitui a segunda maior população negra do mundo, o Brasil.
A Unegro nasce em um momento histórico de nosso país – abertura, redemocratização e Constituinte. Momento do fim da bipolaridade, de resgate do equilíbrio político, econômico, militar e da hegemonia do avanço técnico-científico global. A queda do Muro de Berlim simbolizou a vitória triunfante do capitalismo no mundo, o fortalecimento da ideologia neoliberal e o avanço do imperialismo. E com todo esse cenário, ainda assim a UNEGRO, com a integridade de uma entidade fundada por comunistas, construiu com amplitude e radicalidade um programa altamente avançado, de cunho classista e abertamente marxista.
As consequências do golpe militar, somadas às ações neoliberais impostas inicialmente por Collor, no início dos anos 1990, aprofundou e recrudesceu as relações sociais e de trabalho, com elevação do desemprego, aumentando singularmente a marginalização da população negra. E com fortes resquícios da ditadura, o genocídio da juventude e das crianças negras virou pauta de luta e enfrentamento no Estado de São Paulo. Com a atitude e o protagonismo da UNEGRO, e de outras entidades dos movimentos social e negro, foi lançada a campanha: “Não matem as nossas crianças”.
Compreendendo a necessidade da amplitude nas relações políticas, a entidade participou da criação e da estruturação da Coordenação Nacional de Entidades Negras (Conen), fundada em São Paulo, tendo como composição política estruturalmente o Soweto (PT) e a UNEGRO (PCdoB). Um outro passo importante em direção aos movimentos sociais foi a construção da primeira comissão de combate ao racismo na estrutura sindical, em 1993, quando da composição da CNCDR/CUT. No movimento sindical, os membros da UNEGRO se portavam como CSC/CUT.
A UNEGRO também teve papel de grande relevância na construção dos 300 anos de imortalidade de Zumbi, em 1995, a Marcha Zumbi Pela Vida, bem como na organização e realização do Congresso Continental dos Povos Negros da América, no Parlatino em São Paulo. Na ocasião, tivemos a oportunidade de ter como palestrante, nada mais, nada menos que o escritor marxista Clóvis Moura e o prêmio Nobel em Geografia, Milton Santos, um dos maiores críticos da globalização neoliberal.
Também fomos de fundamental importância na construção, realização e materialização do II ENEN, realizado no Rio de Janeiro, na UERJ, de onde tiramos o cimento político das ações de resistência ao neoliberalismo de FHC. Em 2000 iniciamos o milênio nos posicionando contra a campanha do Governo Federal, Brasil 500 anos, onde construíamos a campanha Brasil outros 500. A partir daí o movimento social negro e organizado iniciava a pavimentação de suas ações, com o papel de desenvolver e executar sua própria agenda e pauta de reivindicação.
Nos mobilizamos politicamente para as contribuições nos estados, onde se estruturavam os documentos norteadores para a Conferência Nacional e para a III Conferência Mundial Contra o Racismo, a Discriminação Racial, a Xenofobia e Formas Correlatas de Intolerância, realizada em Durban, na África do Sul, em setembro de 2001.
Viramos o ano com a agenda institucional do país, as eleições gerais. E com ela a perspectiva de um novo Projeto Nacional de Desenvolvimento e Inclusão Social. Início da pavimentação que os movimentos sociais construíram, durante décadas, e que se iniciou a partir do resultado eleitoral de 2002, com a vitória nas urnas de Lula e do campo democrático, popular e progressista. No lastro desta vitória, deu-se a construção de ministérios com a cara e a identidade do povo brasileiro, atendendo às reivindicações pautadas em Políticas Públicas, baseadas em Ações Afirmativas, com objetivo de Reparações. É neste contexto que, em março de 2003, a SEPPIR se apresenta.
Congressos
Ainda em meados 2003, realizamos o 2º Congresso da Unegro, em Itaparica, na Bahia. Neste momento a entidade passava por dificuldades e diante da crise e do refluxo nos impostos o caminho foi a luta pelo fortalecimento da entidade em nível nacional, a proposição de sairmos dos 7 estados representativos e ampliarmos substancialmente a nossa representação.
3º Congresso – Movimento Negro: um passo além da proposta
Realizado no Rio de Janeiro, em 2007, com uma de suas maiores delegações, este congresso construiu a virada. A resolução do 2º Congresso foi a mola propulsora. A atitude de construção de uma entidade, grande, forte e de massa foi o parâmetro decisivo para a condição de sermos a maior força política nacional negra.
4º Congresso – Negros e Negras Compartilhando o Poder
Tendo como sede o Distrito Federal, em 2011, este congresso confirma a decisão acertada das resoluções anteriores e a capilaridade impressa na militância nos estados e materializada na política organizativa, estrutural, e orientadora de nossas ações. Esta proposta de um passo adiante constitui um signo daquilo que chamamos de igualdade de oportunidade e de condição. Aqui abrimos espaço efetivamente para as mulheres e reconhecemos o real valor e participação das mulheres dentro da organização.
5º Congresso – Negros e Negras no Poder e em Defesa da Vida.
Este encontro realizado no Maranhão, em 2016, teve como principal objetivo analisar os impactos e manifestações contemporâneas do racismo. Além disso, ele visa traçar estratégias de enfrentamento à sub-representação de negras e negros nos espaços de poder e decisão e estabelecer uma plataforma política e um plano de luta para os próximos quatro anos. É esta conjuntura histórica de golpe e retrocessos de direitos individuais e coletivos que servirá de cenário para o nosso congresso.
Em um Estado social, cultural e historicamente negro, onde a luta contra o coronelismo simboliza nossa luta de classes atual, onde aqueles que derrotamos em 2014 nos impõem um Golpe contra o país e toda a classe trabalhadora. Em um país de terra arrasada, em que dois anos de desgoverno representam 14 anos de retrocesso. Ainda assim, realizamos nosso grandioso congresso, e dele saímos ainda mais fortes, preparadas(os) para o bom combate. Tendo como referência uma jovem negra no comando, Ângela Guimarães, que representa essa entidade com cara de mulher preta, jovem, inteligente, descolada e bonita.
Vida longa à União de Negros Pela Igualdade – UNEGRO
Sob o lema “Negras e Negros no Poder e em Defesa da Vida” o 5º congresso da União de Negros pela Igualdade (Unegro) elegeu a jovem Ângela Guimarães para presidir a entidade nos próximos quatro anos. O fórum, ocorrido entre a sexta-feira (10) e domingo (13), em São Luís, no Maranhão, reuniu mais de 1000 participantes, que refletiram sobre a atual situação política do país, reforçando o combate ao golpe em curso e elencando as prioridades de sua ação política ao longo do próximo período.
O congresso aprovou 39 propostas e quatro moções que guiarão a ação política da entidade nos próximos quatro anos, entre as quais: Os direitos das comunidades quilombolas, de religiosas de matriz africana, a luta das mulheres negras, o combate ao racismo no mundo do trabalho, participação política e combate à subrepresentação de homens e mulheres negras nos espaços de poder e gestão, direitos da população LGBT, juventude negra em defesa da vida, entre outros temas.
Ângela, que é ex-presidenta do Conselho Nacional de Juventude e também coordenou a Secretária Adjunta Nacional de Juventude do governo Dilma, considera fundamental a participação das mulheres nos espaços de poder. “É um enorme desafio estar à frente de uma grande e respeitada entidade do movimento social como a Unegro. A minha ascensão na entidade se deve à aposta coletiva no empoderamento das mulheres negras e da juventude, que são segmentos protagonistas da luta política no último período”, afirma.
Ela defende que a tarefa imediata da Unegro deva ser o fortalecimento da luta contra o golpe em curso no país e contra os ataques aos direitos conquistados pelas mulheres, população negra, LGBT e juventude participando das mobilizações das Frentes Brasil Popular e Povo Sem Medo, assim como da Convergência Negra, que reúne entidades do movimento negro brasileiro.
O presidente da gestão que se encerrou, Edson França, fez um balanço positivo do crescimento e consolidação da entidade nos últimos quatro anos, salientando a importância de promover uma mulher, jovem e negra à presidência da Unegro para o próximo período.
Ângela convoca toda a população negra, classe trabalhadora, mulheres, povo da cultura, movimento estudantil, hip hop a somar na construção do próximo grande ato “1 milhão de negras e negros nas ruas contra o golpe e por nenhum direito a menos” que acorrerá em 30 cidades brasileiras no próximo dia 26 de agosto.
“É fundamental somar forças na luta contra o golpe e impedir qualquer retrocesso nos direitos da população negra; Incentivar e apoiar candidaturas negras e com plataforma antirracismo nas eleições 2016, fortalecendo a luta contra o genocídio da juventude negra”, conclui Ângela.
PM detém pessoas aleatoriamente na Paulista. Major diz a repórter da Ponte que abordagens são feitas por 'fundada suspeita'
Concentração na Praça do Ciclista é marcada pela atuação da PM, que tenta dificultar o trabalho da imprensa e realiza detenções para intimidar os manifestantes.
São Paulo – A repressão policial está tentando impedir a concentração dos manifestantes no segundoatocontra o aumento das passagens de ônibus em São Paulo, de R$ 4 para R$ 4,30, na Praça do Ciclista, região da Avenida Paulista, na tarde desta quarta-feira (16). A reportagem do Jornalistas Livres mostrou há pouco uma detenção com truculência de um ativista, e a explosão de uma bomba que foi lançada na direção de repórteres.
Um grande número de policiais cerca a manifestação desde o início da concentração, às 17h, na Praça do Ciclista. Após quase duas horas de intimidação, o ato desce a Rua da Consolação no sentido do centro da capital. Os militares, por diversas vezes, deixavam sua formação para agarrar algum manifestante ou jornalista. Após revista, eles eram liberados.
No primeiro ato, realizado na quinta-feira (10), com concentração no centro velho da cidade, os manifestantes foram proibidos de chegar até a Praça do Ciclista, onde seria o final da manifestação.
Uma representante do Movimento Passe Livre (MPL), chamada Sofia, afirmou aos Jornalistas Livres que o contingente policial evidencia a posição política do governador João Doria e do prefeito Bruno Covas: “Mostra qual é o foco... Tratar o aumento como questão de polícia diz muito, isso deveria ser um direito”.
De acordo com informação da Ponte Jornalismono Twitter, a PM deteve pessoas aleatoriamente. Questionado pela reportagem, o major Marcelo afirmou que as abordagens são feitas por "fundada suspeita".
Protesto contra obra de transposição do rio Itapanhaú, em Bertioga, que trará impactos ambientais a diversos municípios da região. População defende investimento em projetos sustentáveis
Governador une Meio Ambiente e Infraestrutura, removendo "dificuldades" para prosseguir com obras que enfrentam resistência popular: "o órgão que licencia a obra está subordinado à mesma secretaria que a promove".
São Paulo – A
iniciativa do governador de São Paulo João Doria (PSDB) de
fundir temas tão antagônicos como meio ambiente e infraestrutura,
que resultou na criação da Secretaria Estadual da Infraestrutura e Meio
Ambiente, não surpreendeu os movimentos socioambientais no estado. Mais que
isso, a política já esperada de privilegiar obras, em detrimento da preservação
ambiental, com o desmonte dos órgãos responsáveis pelo licenciamento de
projetos de empreendimentos e pela fiscalização de crimes ambientais, não
deverá ser implementada com facilidade. Os ativistas prometem ao secretário da
nova pasta, Marcos Penido, organização e resistência.
Na avaliação do
coletivo que luta contra a instalação da cava subaquática –
um imenso buraco cavado próximo a Cubatão que está recebendo sedimentos
contaminados, retirados de um dos canais do canal Piaçaguera, próximo ao Porto
de Santos, que será alargado –, a extinta pasta do meio ambiente não exercia
protagonismo na preservação ambiental. "Ninguém lembra de um projeto, ação
ou programa do governo do Estado de São Paulo na área ambiental. As poucas
conquistas são resultado de muita pressão da sociedade civil e dos
ambientalistas", afirma Leandro Silva de Araújo, um dos coordenadores
do movimento contra a obra com potencial de contaminação de peixes e prejuízos
à saúde de moradores da região.
Para o ativista,
Doria demonstrou maior traquejo político que o presidente Jair Bolsonaro (PSL),
que chegou a anunciar a fusão do Ministério do Meio Ambiente com
o da Agricultura,dominada por ruralistas, e por isso foi criticado pela opinião
pública internacional. "O governador promove uma fusão e assim minimiza a
reação popular, subjugando a temática ambiental à da infraestrutura. A frase
‘os lucros são privados e os prejuízos são socializados’ nunca foi tão significativa".
O coletivo entende que a cava
subaquática, por si só, é uma prova de que o interesse privado tem se
sobressaído aos interesses coletivos e do meio ambiente, na medida em que
prejudica um ecossistema tão sensível quanto o manguezal e as comunidades
caiçaras de pescadores artesanais.
Cíntia Prado, da
coordenação do movimento, destaca que a abertura da cava subaquática,
paralisada em alguns momentos pela Justiça, "teve aval da Companhia Ambiental do Estado de São Paulo(Cetesb)
e coloca abaixo da linha d'água e a metros de distância do canal de navegação
do porto de Cubatão resíduos altamente tóxicos, sem nenhum tratamento". E
que uma tentativa de instalação de CPI para investigar os posicionamentos minimamente
contraditórios da instituição não contou com apoio de parte dos deputados
estaduais da última gestão, "especialmente os de centro direita".
No entanto, "frente aos ataques
que deverão ser mais evidentes, constantes e agressivos", segundo ele,
"haverá ainda mais luta e engajamento. Mas a história nos mostra que, nada
como uma crise para nos fazer descobrir a força e união que precisamos
ter".
Novas armas
O desmonte dos órgãos
ambientais responsáveis por licenciar empreendimentos e fiscalizar crimes
ambientais também não pegou de surpresa Plínio Melo, presidente da ONG Mongue, de Peruíbe, no litoral sul. O que
causa espanto, segundo ele, é a fusão não estar sendo questionada por grandes
ONGs e por institutos que atuam no setor.
Os moradores do município convivem
permanentemente com o fantasma da construção de uma mega usina termelétrica na
região que tem a maior parte de seu território dentro de área de preservação e
terra indígena. O projeto ilegal, no centro de uma disputa jurídica sem fim,
trará impactos ambientais ao oceano, à fauna e à vegetação. Um dos produtos da
queima de gás para geração de eletricidade é a chuva ácida.
"Marcos Penido,
o novo secretário, presidiu a CDHU (Companhia de Desenvolvimento Habitacional e
Urbano) entre 2011 e 2016. Foi nesta época que o BID (Banco Interamericano)
injetou muitos milhões de dólares para ação conjunta com a Secretaria de Meio
Ambiente para retirada de moradores dos bairros Cota, na Serra do Mar, e
regularização fundiária de Unidades de Conservação. Mesmo com muito
dinheiro, a CDHU e a então Secretaria Estadual de Meio Ambiente desenvolveram a
política do "cobertor curto". Isto é, moradores retirados do Bairro
Cota foram levados para conjuntos habitacionais de outros municípios, sem
nenhuma perspectiva de renda, favorecendo novas ocupações. Assim, já sabemos
como será a 'nova' política".
Melo afirma que o
"mesmo inimigo, com suas 'novas' armas", continuará sendo
combatido. No entanto, ele acredita que o projeto da Termelétricaprevisto
para Peruíbe deverá ser retomado quando for conveniente. A questão ambiental é
secundária para muitos. Falo isso com a constatação de que muitos que lutaram
contra a termoelétrica, apesar das ameaças de Bolsonaro de reduzir a atuação e
até extinguir o MMA votaram a favor desta política ao elegê-lo".
Projeto de megausina termelétrica para Peruíbe prevê porto para
recebimento do gás que será queimado. Chuva ácida está entre os impactos
previstos
"São órgãos
incompatíveis. Certamente, os licenciamentos ambientais estarão profundamente
comprometidos, já que o órgão que licencia a obra está subordinado à mesma
secretaria que a promove. Entendemos que o governo do estado pretende facilitar
os licenciamentos de forma completamente irresponsável",
afirma Carlos Eduardo de Castro, o Kadu, que integra o movimento.
Na avaliação do
coletivo, colocar a pasta do Meio Ambiente, a companhia ambiental Cetesb,
a Cesp e a Sabesp na mesma secretaria é tragédia anunciada. "Como gerir
órgãos licenciadores e fiscalizadores na mesma pasta daqueles que solicitam as
licenças e são fiscalizados? Que ética é essa que permeia as ações do governo?
Como ficará a Cetesb? Usando uma expressão popular, é colocar a raposa para
tomar conta do galinheiro".
Para os ativistas, a
fusão das secretarias em si não deverá acelerar o andamento de obras como a
transposição do Itapanhaú. E sim políticas de âmbito federal. Kadu lembra que
a MP do Saneamento, que foi reeditada no apagar das luzes do
governo de Michel Temer, deve embasar um plano nacional de segurança hídrica
que o Ministério do Desenvolvimento Regional anunciou lançar até março.
"Serão 114 obras de R$ 25 bilhões,
que irá contemplar obras já previstas pelos estados. Talvez esta notícia seja
ainda mais relevante para a aceleração dessas obras que a própria fusão. No
entanto, se entendermos tudo como um grande pacote, e se considerarmos a falta
de sensibilidade dos governos e estes novos setores sobre a conservação do meio
ambiente e a preservação dos direitos das comunidades envolvidas, entendemos
que deva haver uma aceleração nesses processos. Além disso, a Cetesb sempre foi
subserviente às demandas da Sabesp. Agora ficará mais fácil o articular os
processos".
Na boca da baleia
O secretário de Meio
Ambiente de Guarujá, na Baixada Santista, Sidnei Aranha,
classifica como "balaio de gatos" as duas secretarias juntas, porque
ambas que disputam interesses diferentes. Para dar um exemplo, ele cita os
diferentes posicionamentos da Cetesb e da Sabesp para a questão dos emissários
submarinos.
"A Cetesb
entende que os emissários do litoral como um todo não atendem resoluções
mínimas para tratamento de esgoto ao tratar de maneira parcial
e inadequada. É colocar cocô na boca da baleia. Já a Sabesp diz que o
tratamento que dá é adequado. Com a fusão, as duas empresas estão vinculadas à
mesma secretaria. Qual será o posicionamento do secretário? O de que botar
emissário submarino é coisa pré-histórica, que contamina o estuário como tem
comprovado pesquisas da Unifesp em Santos? Esse super secretário terá de
responder a várias questões", diz Aranha.
Outro questionamento do gestor é
referente ao licenciamento de grandes obras, autorizado pelos conselhos
estaduais do Meio Ambiente (Consema) e o de Saneamento e Recursos Hídricos, que
ainda julgam em último recurso multas ambientais.
"Dentro do
saneamento ambiental há questões como o lixo, esgoto, drenagem de água pluvial.
Como um único secretário vai decidir sobre a transposição das águas do
Itapanhaú, de interesse da Sabesp, que trará um impacto ambiental
enorme a unidades de conservação do Guarujá e Bertioga? Em última análise, quem
licenciaria é a extinta secretaria, por meio de sua agência ambiental, a
Cetesb. É tão antagônico o secretário ser o mesmo que faz a obra e que vai
licenciar e fiscalizar, exercendo o controle ambiental. Via de regra estamos
voltando ao direito penal medieval. Reformulado pelo Marquês Beccaria em 1782,
o acusador era quem fazia prova e julgava".
Para Aranha, o sistema ambiental vive
"um retrocesso danado". Havia uma discussão para a divisão na
Secretaria do Meio Ambiente para atender as especificidades das demandas de
cada município. Tanto que foi criado um fórum permanente de secretários de meio
ambiente no litoral.
"Fundir as secretárias com
argumento de economia é uma tolice sem tamanho, porque a secretaria do meio
ambiente é porta de entrada de recursos com compensações ambientais, todas as
multas podem virar compensações ambientais, para o processamento de
licenciamento há cobranças de taxas. Um retrocesso achar que um único
secretário vai cuidar de assuntos totalmente conflitantes. Questões ambientais
não são de interesse de governo, mas da humanidade".
Ele critica ainda "um sistema de
desconstrução das políticas públicas de proteção ambiental" sob o
argumento do desenvolvimento do país. A China, conforme aponta, elegeu a
questão ambiental como preponderante. E grandes mercados, como a União
Europeia, não compram produtos que não tenham origem adequada. "Tanto que
o presidente Bolsonaro teve de voltar atrás de sua decisão de fundir o
ministério do Meio Ambiente. Houve pressão internacional. É um erro crasso do
atual governador para atender empresas que ainda não se adaptaram".
No entanto, o
secretário não acredita que a fusão trará facilidades para empreendimentos de
grande impacto ambiental. "Apesar da vontade dos governantes, há um
movimento ambientalista muito forte no Brasil. Penso que em um momento de crise
como agora, de retrocessos, os movimentos serão protagonistas, contando com
o Ministério Público, que tem a maioria de seus quadros
comprometida com os interesses da sociedade. Não vai ter essa coisa de direita
e esquerda. As pessoas sabem que, quando o assunto é saúde e bem estar,
inclusive para os animais, proteção da flora, as pessoas vão se unir. E a
defesa ambiental será o fio condutor para o fim dessa polaridade."
SNI alertou para os aplausos de 30 mil pessoas no Maracanãzinho: risco de "politização e conscientização"
Documentos comprovam que artista foi levado ao Dops no mesmo dia em que voltou ao Brasil, em 1973, quatro anos depois de sair do país. Ele declarou que nunca teve filiação e sentia saudade da pátria.
Em 5 de setembro de 1969, a Comissão de Investigação Sumária do Exército (Cisex) aprovou parecer que pedia suspensão dos direitos políticos por 10 anos e demissão do emprego público do servidor Geraldo Pedrosa de Araújo Dias, mais conhecido como Geraldo Vandré, "em virtude de suas atividades nocivas aos princípios moralizadores consagrados pela Revolução de 1964".
O parecer foi sucintamente aprovado pelo ministro do Exército, Lyra Tavares, que o remeteu ao Ministério da Justiça. Seria mais um funcionário público exonerado depois do Ato Institucional número 5, editado em 13 de dezembro de 1968, abrindo a fase mais dura do regime.
Coincidentemente, nesse mesmo dia Vandré e seu grupo, o Quarteto Livre, faziam em Anápolis (GO) aquele que seria o último show do cantor como artista profissional no Brasil. A apresentação marcada para o dia 14, no Iate Clube de Brasília, não aconteceu. O quarteto era formado simplesmente por Franklin da Flauta, Geraldo Azevedo, Naná Vasconcelos e Nelson Ângelo.
Uma pesquisa no Arquivo Nacional mostra, além da decisão do Cisex, que o misterioso retorno de Geraldo Vandré ao Brasil incluiu um interrogatório no exato dia em que ele tornou a pôr os pés em sua pátria, 16 de julho de 1973. Durante muito tempo, acreditou-se que ele havia voltado em agosto, por causa de uma entrevista exibida pela TV Globo no Jornal Nacional, mostrando o artista como se ele tivesse acabado de desembarcar. Uma entrevista "montada", com a presença de agentes policiais.
Vandré havia deixado o Brasil durante o carnaval de 1969, depois de um tempo escondido. Seu crime? Compor e cantar Pra não Dizer que não Falei das Flores (Caminhando), consagrada em setembro do ano anterior no Festival Internacional da Canção (FIC), da Globo.
Uma composição cuja letra "é injuriosa às Forças Armadas", segundo exposição de motivos do Conselho de Segurança Nacional, em documento assinado pelo secretário-geral do órgão, o general João Baptista de Oliveira Figueiredo, que em 1979 se tornaria o último presidente da ditadura civil-militar brasileira.
REPRODUÇÃO/ARTE RBA
Insegurança
Naquele 16 de julho de 1973, uma segunda-feira, vindo do Chile, um abatido Vandré mal chegou ao Galeão, no Rio de Janeiro, e já foi interpelado por agentes. Por tempos, especulou-se para onde teria sido levado.
Conforme arquivo confidencial do Serviço Nacional de Informações (SNI), o destino foi o Dops do Rio, na sede da Coordenação Regional Policial do Departamento de Polícia Federal da Guanabara, na Praça Marechal Âncora, vizinha à Praça XV, centro da capital. Ali também funcionou um centro de tortura, mas não há qualquer registro ou evidência de que Vandré tenha sofrido violência física.
No início do termo de declaração ao Dops, Geraldo Vandré informa que deixou o país "possivelmente no mês de março" pela fronteira com o Uruguai, de automóvel, medida tomada "em face da insegurança existente no País contra a sua pessoa, uma vez que admitiam estar o declarante envolvido em política partidária, quando, na verdade, isso não ocorria".
Do Uruguai, ele foi para o Chile, onde permaneceu durante seis meses, rumando posteriormente para a Europa – também fez viagens à Argélia e aos Estados Unidos.
Vandré afirma aos policiais que em todos os países em que esteve "nunca fez qualquer comentário desairoso contra as autoridades governamentais do País, limitando-se, unicamente, ao exercício da sua profissão". Ele "sempre alimentou a esperança de retornar ao Brasil, isto porque, a nostalgia e a tristeza da falta de seus familiares, amigos e do convívio geral faziam com que o declarante sempre pensasse em retornar e, esse estado de ânimo ocasionou um descontrôlo nervoso no declarante". Na embaixada brasileira no Chile, foi informado que seu visto de retorno era negado.
A tristeza causada pela distância forçada de sua pátria o fez adoecer. Um outro documento sigiloso do SNI mostra que a mãe do cantor, dona Maria Martha, esteve na agência do órgão no Rio em dezembro de 1972 para informar que seu filho estava adoentado, com depressão, e em tratamento no Chile.
Ela manifestou o desejo de ver seu filho poder retornar ao Brasil e informou que em breve iria a Santiago com seu marido, José Vandregíselo – de cujo sobrenome vem o nome artístico do cantor –, para visitar o filho durante 10 dias e pleitear à representação diplomática "a concessão de documento que possibilite seu regresso, face o seu estado de saúde".
Crônica da realidade
Esse regresso levaria ainda sete meses. Vandré deixou o país por causa de uma canção, que conforme avaliação feita pela Quarta Zona Aérea, na véspera do AI-5, era uma "hábil síntese, na melhor forma estética, de postulados básicos da doutrina marxista".
Segundo o texto do Ministério da Aeronáutica, a apresentação das ideias na música Caminhando "é especialmente eficaz, pois atua por meio de inconsciente das pessoas, levando à lenta aceitação do que se diz nos versos, por um processo de repetição inadvertida". Para esses militares, a igualdade dos homens como seres sociais "(e não como seres morais, pois isto os marxistas não aceitam) é abundantemente fundamentada".
O documento chama ainda a atenção para o fato de a composição ter sido aplaudida durante 10 minutos por mais de 30 mil pessoas no ginásio do Maracanãzinho, no FIC de 1968, evidenciando alto grau de "politização e conscientização". Um risco.
Em junho de 1970, um inquérito policial militar instaurado no 1º Distrito Naval "para apurar atividades subversivas e/ou contra-revolucionárias" de Vandré foi arquivado. O IPM incluía o escritor e autor teatral Dias Gomes.
Ao longo dos anos, Vandré esforçou-se para demonstrar que sua obra mais famosa não era um hino contra os militares. Chegou a chamá-la de "crônica da realidade". De fato, ele nunca foi antimilitarista – nem filiado a partido ou ligado a qualquer grupo político.
Acabou sendo marcado por uma canção, que só voltaria a cantar em solo brasileiro em 22 e 23 março deste ano, em duas apresentações realizadas em João Pessoa, onde nasceu, em 1935. Tornou a fazê-lo em 24 de outubro, em Sorocaba, interior paulista, onde foi homenageado – ao lado da pianista Beatriz Malnic e do músico Sabiá, cantou Caminhando e recitou poemas.
Em 31 de maio de 1968, ele esteve naquela cidade para conversar com estudantes. Ainda nem havia composto Caminhando, que "nasceu" depois da Passeata dos 100 mil, em 26 de junho, último grande protesto de rua contra a ditadura.
Em seu depoimento no dia da volta, ele reafirma que "nunca foi filiado a qualquer agremiação político-partidária" e que "está de pleno acordo em observar a orientação traçada pelas autoridades constituídas". Insiste: o que o fez retornar "foi, na realidade, a saudade que sentia da sua Pátria". Ele diz não se conformar em viver fora do Brasil, "pois que se sente um patriota e que objetiva para o seu País um futuro promissor que possa nivelá-lo às grandes nações do mundo".
No segundo semestre de 1973, Geraldo Vandré lançou no Brasil Das Terras de Benvirá, quinto e último LP do cantor. Parte desse material havia sido lançada ainda na França, em 1970, no compacto La Passion Bresilienne. Ele se apresentou no Paraguai, na fronteira com o Brasil, nos anos 1980. Não retomou carreira como artista profissional, mas a obra permaneceu.