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sexta-feira, 29 de maio de 2020

Jaminawa-Arara que estava em aldeia testa positivo em município isolado do Acre

Foto: Sérgio Vale
Por Fábio Pontes para Mídia NINJA
Após ficar concentrado no perímetro urbano de Marechal Thaumaturgo, o coronavírus já afeta as comunidades indígenas do município isolado do Vale do Juruá, no extremo oeste do Acre. Nesta terça-feira, 26, foi confirmado o primeiro caso da Covid-19 entre os Jaminawa-Arara que moram nas aldeias da Terra Indígena Jaminawa/Arara do Rio Bajé.
O indígena apresentava os sintomas da doença ainda enquanto estava em sua comunidade e foi para a cidade em busca de auxílio médico acompanhado de outras três pessoas. Ao ser examinado, testou positivo para a doença. Os demais companheiros também passam por avaliação clínica.
“Segundo as informações, na comunidade já tinha várias pessoas [com sintomas] e trouxeram uma pessoa para fazer o exame e deu positivo. A situação agora é o que fazer com esse pessoal lá na aldeia”, diz o prefeito de Marechal Thaumaturgo, Isaac Piyãko (PSD), da etnia Ashaninka.
De acordo com ele, a chefia do Distrito Sanitário Especial Indígena (Dsei) do Alto Juruá, sediada em Cruzeiro do Sul, já foi informada sobre a situação. A perspectiva é que um médico seja enviado até a aldeia para uma avaliação mais completa. “Com casos dentro de uma aldeia a gente sempre fica mais preocupado porque eles são mais vulneráveis, têm a imunidade baixa”, avalia o prefeito.
Acessível apenas por avião ou barco, Marechal Thaumaturgo tem uma situação preocupante por não contar com uma estrutura de saúde capaz de atender a população em caso de surto da Covid-19, como a falta de leitos de UTI. Segundo dados da Secretaria de Saúde, o município tem 42 casos confirmados da doença, com 35 descartados.
Os primeiros testes positivos para a doença ocorreram no dia 11 de maio, de três pessoas que foram a Cruzeiro do Sul fazer compras para abastecer seus comércios e contrariam o vírus na principal cidade do Vale do Juruá. Diante da resistência de parte dos moradores de seguir as medidas de isolamento social, o vírus tem se espalhado de forma rápida pela pequena cidade.
Uma das preocupações com a chegada do vírus ao município se dá justamente com os povos indígenas, por representarem parcela significativa dos 18 mil moradores; eles integram o chamado grupo de risco por apresentarem imunidade baixa e ter um modo de vida comunitário.
Indígenas da região
Entre os indígenas, o povo Ashaninka é maioria. Os outros povos que moram pelas aldeias espalhadas pelo município são os Jaminawa, Jaminawa-Arara, os Arara e os Huni Kuin.
Os Jaminawa do rio Bajé estão divididos em quatro aldeias: Buritizal, São Sebastião, Bom Futuro e Fazenda Siqueira. Elas estão distante entre uma hora e meia a três horas da sede urbana de Marechal Thaumaturgo.
Os povos que nelas habitam formam uma verdadeira união – ou mesmo casamento – de distintas etnias. Os Jaminawa-Arara formam a união de duas etnias: Jaminawa e os Arara (Shawãdawa). Os primeiros são originários das cabeceiras dos rio Acre, enquanto os Shawãdawa têm suas raízes no Alto Rio Juruá. Até hoje eles ainda ocupam terras em suas regiões de origem.
Essas uniões ocorreram durante as invasões da Amazônia pelos donos de seringais que chegavam à região para obter lucros por meio da extração do látex. “Devido à situação de escravização, mudança forçada e tudo mais a que os indígenas do Acre ficaram sujeitos durante o período das correrias, da exploração da borracha. Houve circunstâncias em que esses povos se viram tão diminuídos numericamente que, para não desaparecer, acabaram se juntando, realizando casamentos, E os Jaminawa-Arara são considerados o resultado do casamento destes dois povos”, explica a antropóloga Andréia Baia, que estuda as populações indígenas do Juruá e Purus.
Apesar desta união, ambos os povos fazem questão de manter as características de suas origens. Em alguns casos há aqueles que preferiram não recorrer a essa junção. “Existem algumas famílias que não se misturaram, que permaneceram sendo só Jaminawa ou só Shawãdawa. Elas formam os mesmos grupos, moram nas mesmas terras indígenas mas mantêm essa distinção”, completa a antropóloga.
Na região do Juruá estas populações vivem na Terra Indígena Jaminawa/Arara do Rio Bajé. Segundo dados do Dsei Alto Juruá, em Marechal Thaumaturgo elas somam 221 pessoas (dados de janeiro de 2020). Os Jaminawa-Arara também vivem em duas aldeias no município de Cruzeiro do Sul, na região do Igarapé Preto.
Por conta de seu elevado grau de mobilidade entre as aldeias e os centros urbanos, os Jaminawa estão entre os povos indígenas do Acre mais expostos à contaminação pelo novo coronavírus. Na semana passada, uma Jaminawa de Assis Brasil – na região do Alto Acre – foi detectada com a Covid-19. Segundo apurou o repórter, desde o começo do ano ela vinha morando na cidade.
Em Assis Brasil, os Jaminawa vivem em aldeias das terras indígenas Cabeceira do Rio Acre e Mamoadate. Em abril, a Mídia NINJA mostrou o desafio dos Jaminawa que moram no perímetro urbano de Sena Madureira para regressar às suas aldeias ao longo dos rios Iaco e Purus para ficar em autoisolamento, longe da cidade. Grande parte destas aldeias não estão em terras indígenas demarcadas, o que os impede de contar com atendimento médico da Secretaria Especial de Saúde Indígena (SesaI), do Ministério da Saúde.
No Acre há muita confusão sobre os números oficiais da Covid-19, já que a secretaria federal leva em conta apenas os casos dos índios aldeados, ou seja, aqueles que moram nas aldeias. Levantamento feito pelo repórter indica que ao menos cinco índios já foram testados positivos, a maioria moradores da cidade.
A Covid-19 e os povos indígenas
Oficialmente, a Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai) não apresenta casos de contaminações ou mortes no Acre. A realidade não é a mesma em toda a Amazônia. Os casos mais graves são registrados entre os povos indígenas do Amazonas. Segundo dados da Sesai, até esta terça (26) havia o registro de 905 indígenas testados positivos para a Covid-19, com 42 mortes. Há em análise 321 notificações.
Para a Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib) estes dados estão subnotificados, pois a secretaria não leva em conta os índios que moram nas cidades, mais expostos ao contágio. Nas contas da entidade, até a última quinta-feira, 149 indígenas já perderam a vida para o vírus e outros 1.471 estão contaminados. Ao todo, 75 diferentes povos foram atingidos pelo novo coronavírus.
As principais vítimas são os Kokama, moradores da região do Alto Solimões, no Amazonas. Oficialmente, o Distrito Sanitário Especial Indígena (Dsei) do Alto Solimões registra a morte de 19 indígenas. Segundo as lideranças do povo, este número é muito maior pois muitos estão morrendo sem atendimento adequado nas cidades, em especial em Tabatinga, na tríplice fronteira entre Brasil, Colômbia e Peru.

Fonte: Mídia Ninja

Morre no Rio de Janeiro, aos 91 anos, o Acadêmico Murilo Melo Filho


O Acadêmico e jornalista Murilo Melo Filho faleceu na manhã do dia 27 de maio, no Hospital Pró-Cardíaco, vítima de falência múltipla de órgãos. O sepultamento foi feito no mausoléu da Academia Brasileira de Letras. Diante da recomendação de se evitar reuniões e aglomerações por conta do coronavírus, não houve velório.
“Murilo Melo Filho foi um dos grandes jornalistas brasileiros da segunda metade do século XX. Acompanhou de perto a política nacional, a construção de Brasília e a guerra do Vietnã. Conheceu inúmeros chefes de Estado, a quem dedicou páginas antológicas, dos mais variados espectros políticos.  Foi também um acadêmico exemplar, assíduo, com a disposição de emprestar seu talento aos mais diversos cargos e serviços na Academia. Guardo a imagem de um homem bom, de uma alta sensibilidade humana, voltada sobretudo para os mais vulneráveis e desprovidos. Um momento de tristeza.”, afirmou o Presidente da ABL, Acadêmico Marco Lucchesi
“Murilo sempre foi aquele homem de caráter primoroso, amigo de seus amigos. Chamava aqueles que trabalhavam com eles de "coleguinhas", e assim ele era correspondido, sempre com muita admiração e sempre com muito carinho. Ele entrou para a Academia Brasileira de Letras na Cadeira nº20 e eu tive o privilégio de saudá-lo. Isso foi para mim uma das honras maiores da minha vida acadêmica. Murilo partiu, mas deixou uma obra extraordinária; na minha opinião foi o maior repórter político do Brasil durante todos os anos em que trabalhou ativamente na imprensa. Ele deixou um estilo cristalino, um estilo direto, formidável. Esse é o Murilo que nós saudamos.”, comentou Arnaldo Niskier, acadêmico ocupante da Cadeira nº18.
"Foi um jornalista atento, incansável, tinha fontes excelentes entre os políticos, era absolutamente sério na sua produção e fez escola no jornalismo político com o seu estilo sintético, informativo e analítico. Como companheiro na Academia Brasileira foi também sempre presente e ativo. Não havia livro de confrades ou confreiras lançados que ele não tivesse a oportunidade de dissertar. Foi uma presença ativa na Academia, foi diretor da Biblioteca, jamais faltou a uma sessão enquanto pôde. infelizmente, passou por uma fase muito dificil da doença e agora perdemos um companheiro, vamos lamentar muito e vai nos deixar muitas saudades”, declarou o Acadêmico Cicero Sandroni.
“Eu sempre fui amigo dele e de sua adorável mulher companheira, colaboradora, e que deve estar começando a sentir profundas saudades dele. E eu a entendo. Murilo vai fazer falta para nós. Ele ficou me devendo uma informação: Desapareceu da casa do embaixador brasileiro em Cuba, numa visita de Fidel Castro, o revólver do Fidel. Ele tirou e o botou em cima da mesa. Ele [Murilo] me prometeu que um dia diria, nunca disse quem roubou, mas agora que não vou saber. Saudades de Murilinho, como a gente chamava.” lembrou o Acadêmico Marcos Vinicios Rodrigues Vilaça.

O Acadêmico

Sexto ocupante da Cadeira nº 20, foi eleito em 25 de março de 1999, na sucessão de Aurélio de Lyra Tavares e recebido em 7 de junho de 1999 pelo Acadêmico Arnaldo Niskier.
Murilo Melo Filho nasceu em Natal no dia 13 de outubro de 1928. Filho de Murilo Melo e de Hermínia de Freitas Melo, é o mais velho de uma irmandade de sete. Fez o curso primário no Colégio Marista e o colegial no Ateneu Norte-Riograndense. Aos 12 anos, ainda de calças curtas, começou a trabalhar no Diário de Natal, com Djalma Maranhão, escrevendo um comentário esportivo e ganhando o salário de 50 mil réis por mês. Trabalhou, a seguir, em A Ordem, com Otto Guerra, Ulysses de Góes e José Nazareno de Aguiar, e em A República, com Valdemar de Araújo, Rivaldo Pinheiro, Aderbal de França, Luís Maranhão e Luís da Câmara Cascudo; na Rádio Educadora de Natal, com Carlos Lamas, Carlos Farache e Genar Wanderley; e na Rádio Poti, com Edilson Varela e Meira Filho.
Aos 18 anos, veio para o Rio, onde estudou no Colégio Melo e Souza e foi aprovado em concursos públicos para datilógrafo do IBGE e do Ministério da Marinha, ingressando a seguir no Correio da Noite, como repórter de polícia.
Trabalhou seguidamente na Tribuna da Imprensa, com Carlos Lacerda; no Jornal do Commercio, com Elmano Cardim, San Thiago Dantas e Assis Chateaubriand; no Estado de S. Paulo, com Júlio de Mesquita Filho e Prudente de Moraes Neto; e na Manchete, com Adolpho Bloch.
Estudou na Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro e na Universidade do Rio de Janeiro, pela qual se formou em Direito. Chegou a advogar durante sete anos. Costumava dizer que quem se forma em Direito pode até advogar.
Como repórter free-lancer, entrou para a Manchete, criando a seção "Posto de Escuta", que escreveu durante 40 anos. Nessa mesma época, dirigiu e apresentou na TV-Rio, com Bony, Walter Clark e Péricles do Amaral, o programa político Congresso em Revista, que ficou no ar ininterruptamente durante sete anos, sendo a princípio produzido e apresentado no Rio e, depois, em Brasília.
Viveu na Nova Capital durante o atribulado qüinqüênio de 1960 a 1965, que testemunhou em centenas de reportagens. Construiu ali a sede de Bloch Editores e da Manchete e foi, a convite de Darcy Ribeiro e de Pompeu de Souza, professor de Técnica de Jornalismo na Universidade de Brasília.
Sempre em missões jornalísticas, acompanhou os ex-presidentes Juscelino Kubitschek a Portugal; Jânio Quadros a Cuba; João Goulart aos Estados Unidos, ao México e Chile; Ernesto Geisel à Inglaterra e à França; e José Sarney a Portugal e aos Estados Unidos.
Cobriu a Guerra do Vietnã, com o fotógrafo Gervásio Baptista, em 1967, e foi o primeiro jornalista brasileiro a cobrir a Guerra do Camboja, com o fotógrafo Antônio Rudge, em 1973, tendo chegado a Saigon e Phnom-Penh, via Tóquio.

Depoimento do Acadêmico Marco Lucchesi

Depoimento do Acadêmico Arnaldo Niksier

Depoimento do Acadêmico Cicero Sandroni

Depoimento do Acadêmico Marco Vinicios Vilaça

Fonte: http://www.academia.org.br/academicos/murilo-melo-filho

Repórter negro da CNN é preso ao vivo, ao cobrir protestos em Minneapolis (Vídeo)

Reporter Omar Jimenez é preso ao vivo
Reporter Omar Jimenez é preso ao vivo (Foto: Reprodução)

Os integrantes da equipe de reportagem de Jimenez, incluindo um produtor e um operador de câmera, também foram algemados.

247 –O repórter negro Omar Jimenez estava cobrindo uma transmissão ao vivo no local onde aconteceram os protestos de Minneapolis, cidade grande no Minnesota, quando foi detido pela polícia dos Estados Unidos, mesmo após se identificar claramente com os oficiais. A informação é da CNN.
Os integrantes da equipe de reportagem de Jimenez, incluindo um produtor e um operador de câmera, também foram algemados.
A câmera da CNN também foi presa, mas continuou gravando enquanto Omar Jimenez e sua equipe estavam sendo algemados. A polícia aparentemente não percebeu que a câmera ainda estava ligada no momento da ação.
Confira o vídeo: 
Fonte: Brasil 247

Secretaria Municipal de Cultura de abre inscrições para projeto Conexão Casas de Cultura

A Prefeitura de São Paulo, por meio da Secretaria Municipal de Cultura, abre chamada para interessados em participar do Conexão Casas de Cultura 2020. O projeto dá continuidade às ações de incentivo à cultura e ao setor artístico durante o período de restrições a aglomerações devido ao combate à Covid-19. Até o dia 1º de setembro, os artistas interessados podem enviar as suas propostas nas modalidades: apresentações artísticas, vivências, Intervenções artísticas e livro, leitura e literatura, nas condições determinadas pelo chamamento abaixo.
OBS: Minuta com atualização dos itens 8.6 e 8.7.
Confira os habilitados
Dos resultados publicados para a habilitação, os interessados poderão recorrer no prazo de três dias, sem efeito suspensivo para o prosseguimento das contratações. Os recursos deverão ser encaminhados via e-mail para conexao.cc.smc@gmail.com
Informamos ainda, que de acordo com o chamado, as listas de habilitados serão divulgadas quinzenalmente até o encerramento do projeto.

Fonte: Portal BRASIL CULTURA

quinta-feira, 28 de maio de 2020

"DIÁLOGOS FORMATIVOS - CURSO DE CAPACITAÇÃO VIRTUAL PROMOVIDO PELA FJA FOI DEZ!

 Dezenas de Agentes de Cultura do RN participaram da vídeo conferência




 Professor Aécio Cândido - primeiro palestrante
 Participação do Diretor Adjunto da FJA, Fábio Lima
Segundo palestrante Adler Barros
Terceiro palestrante, Gilmary Cordeiro.

Na manhã desta quinta-feira 28, a coordenação das Casas de Cultura Popular, mediou mais uma vídeo conferência semanal dentro do projeto "Diálogos Formativos" promovido pela Fundação José Augusto para os agentes de cultura. Na oportunidade além da presença do coordenador das Casas de Cultura, Messias Domingos contamos mais uma vez com participação de Fábio Lima, Diretor adjunto da FJA. Palestrantes convidados de hoje, professor Aécio Cândido, Adler Barros e Gilmary Cordeiro.

Por Jefferson Tavares, coordenador adjunto das Casas de Cultura do Rio Grande do Norte.

Reconhecimento:

"Em nome do Centro Potiguar de Cultura - CPC-RN parabenizamos a mais uma conferência - Curso de Capacitação Virtual com Agentes de Cultura,  promovido pela Fundação José Augusto - FJA, através  Coordenação Geral das Casas de Cultura, coordenada por Messias Domingos e Jefferson Tavares, cujo tema foi "Diálogos Formativos"

Debates como esse se faz necessário, principalmente com palestrantes de alto nível como,Aécio Cândido, Adler Barros e Gilmary Cordeiro. com orientações, informações importantes, tirando assim todas as dúvidas dos agentes.

Outro ponto importante foi as EMENDAS PARLAMENTARES, uma conquista dos agentes.

Atividades como essa é sempre salutar! Que venha mais debates para que os agentes possam cada mais se capacitarem e obterem plantio cultura em suas cidades.
Entrevista exclusiva com Crispiniano Neto, novo gestor da FJA ...
Não poderíamos deixar também de PARABENIZAR o presidente da FJA, o poeta, CRISPINIANO NETO pela sua garra, vontade, energia e amor pelo que faz: Cultura! Dorme pensando na cultura, amanhece pensando na cultura e tem fome de cultura, este é o CRISPINIANO NETO! Parabéns nobre presidente!"

Reacendo a Cultura Potiguar!

Abraço,

EDUARDO VASCONCELOS
Presidente

ISOLDA DANTAS DEFENDE DIRECIONAMENTO DE RECURSOS DO NOTA POTIGUAR PARA A CULTURA


Imagem da Assessoria de Comunicação da RN
Imagem do Waltssap
A deputada Isolda Dantas (PT) solicitou, na Sessão Ordinária por Sistema de Deliberação Remota (SDR) desta quinta-feira (28), a aprovação, pelos demais parlamentares, do Projeto de Lei de sua autoria que visa direcionar recursos do Programa Nota Potiguar para o Fundo Estadual de Cultura.

“Considero esse projeto muito importante e, inclusive, nós iremos votar hoje nesta Casa. É uma solicitação que o nosso mandato fez ao Governo do Estado e ele encaminhou. No documento nós pedimos o direcionamento dos recursos do Programa Nota Potiguar para o setor artístico. Nós precisamos olhar para os profissionais que estão sendo mais afetados pela pandemia. E os artistas potiguares são uns dos mais atingidos, já que foram os primeiros a parar, porque necessitam de público”, disse.

Segundo Isolda, as pessoas que sobrevivem da arte e precisaram suspender suas atividades estão passando por dificuldades. “Os grandes artistas ainda conseguem dar um jeito, mas os pequenos, principalmente os do interior, estão numa situação muito difícil”, argumentou.

De acordo com a parlamentar, o projeto determina que recursos do Nota Potiguar sejam destinados ao Fundo Estadual de Cultura, para serem distribuídos de forma democrática e transparente, através de editais, onde todos possam participar de forma igual. “Então fica aqui a nossa solicitação aos demais deputados para a aprovação deste projeto. É um recurso de R$ 170 mil que vai contribuir muito com a classe artística do Estado”, pediu.

Isolda Dantas informou ainda que a Câmara dos Deputados aprovou, esta semana, um auxílio emergencial que será enviado pelo Fundo Nacional de Cultura para os setores culturais de estados e municípios. “Isso é muito importante, afinal, o que seria da nossa vida sem arte e cultura? O que seria da gente nesse tempo de pandemia sem poder ver filme, escutar música, ler poesias ou livros? É um setor que a gente muitas vezes não percebe, mas que dá sintonia às nossas vidas”, concluiu a deputada.


Entrevista: Júnia Botelho e o seu trabalho cultural frente ao Instituto Ruth Guimarães

 - Imagem do Portal Literafro


Por Renisse Ordine

Ruth Guimarães Botelho foi uma escritora, poetisa, contista, pesquisadora. Uma das importantes escritoras regionalistas abordava em suas obras o folclore brasileiro e a cultura caipira. Após o seu falecimento, sua família prosseguiu com o seu desejo de divulgar a cultura tornando-a cada vez mais próxima do povo. Para isso, eles fundaram o Instituto Ruth Guimarães, em Cachoeira Paulista /SP, sua cidade natal, vindo a converte-se em um forte símbolo para os movimentos culturais e um local de encontro entre os antigos e novos admiradores da autora de Água Funda. 
 
Para sabermos mais sobre os trabalhos que estão sendo desenvolvidos no Instituto Ruth Guimarães, convidamos a sua filha, Júnia Botelho, que atualmente coordena os projetos para falar sobre as atividades desenvolvidas no Instituto e os planejamentos futuros. Como também, nessa entrevista ela nos conta sobre a amizade de Ruth Guimarães com o escritor potiguar Câmara Cascudo. 
 
1- Quem é Júnia Botelho?
 
Eu sou uma ativista cultural, herança de família.
 
2- A sua família é uma das mais culturalmente expressivas da região valeparaibana, sua mãe é uma das principais escritoras do país e o seu pai foi um importante artista na área da fotografia. Tanto que quando se fala de Ruth Guimarães, o nome de Zizinho Botelho vem em seguida, devido à cumplicidade dos dois, na vida familiar e cultural.  Como é ter agora a responsabilidade dessa missão de perpetuar a memória deles?
 
Na verdade não é uma responsabilidade, é um verdadeiro prazer. Porque é um trabalho que merece ser divulgado, reconhecido. Foram dois estudiosos, que trabalharam muito para aprender. A cultura está muito jogada às traças, qualquer coisa que se fizer neste momento é bem-vindo, porque em algum momento, em algum lugar do mundo, alguém entenderá o quanto a arte é importante para o crescimento do homem. Mas é necessário que tenha vindo algo antes. Então faço. Primeiramente porque gosto de trabalhar com a cultura, segundo porque o meu mote é: “construa e eles virão”. 
 
3- Como pode ser descrita a importância do trabalho de Ruth Guimarães no cenário nacional?
 
Ruth Guimarães queria que o brasileiro tivesse personalidade, tivesse história e para isso fazia pesquisa de campo, pesquisa bibliográfica, era uma atenta observadora. Foi aluna de Mário de Andrade, colega de Câmara Cascudo, participou do Congresso Nacional de Folclore com Rossini Tavares de Lima. Ela concordava com Carlos Rodrigues Brandão que disse: “as pessoas parecem que estão se divertindo, mas elas fazem isso para saber quem são”. Ela queria ajudar a fornecer uma identidade ao povo brasileiro.
 
4- Como já citado, após o falecimento de Ruth Guimarães, a família Botelho teve a inciativa de criar o Instituto Ruth Guimarães a fim de preservar a memória da escritora. A partir disso, como foi o processo de abertura e os desafios que vocês enfrentam para a realização desse trabalho?
 
Para manter viva a memória dessa alegria pela arte, começou a nascer a ideia de criar uma entidade que reunisse não apenas o legado literário físico de Ruth Guimarães, mas que oferecesse oportunidade de discussão e aprendizado de artes em geral, mais especialmente a literatura. Os irmãos conversavam a respeito da ideia e aos poucos a decisão foi se firmando. A criação do Grupo de Estudos Ruth Guimarães, com reuniões mensais para estudo de sua obra, foi uma das atividades que encabecei, e à qual agreguei encontros musicais e artísticos. A semente do Instituto tomava corpo. Foi realizada assembleia para instalação do Instituto Ruth Guimarães, na mesma chácara onde funcionará a sede, no dia 18 de agosto de 2019. Comparecerem cerca de 100 pessoas, que se tornaram membros fundadores. 
 
O desafio é fazer tudo, por enquanto, com pouco pessoal, sem financiamento, sem grande marketing, a não ser pelas redes sociais. Aos poucos isso vai mudar, porque temos muitos admiradores de Ruth Guimarães e Botelho Netto que estão querendo colaborar. 
 
5- Ainda sobre o Instituto, quais são os projetos que vocês já desenvolveram e os que já estão sendo idealizados?
 
O instituto já promove a diversidade. Tivemos reuniões mensais para esclarecimentos sobre a umbanda e demonstração da gira, tivemos curso de mitologia hindu, danças circulares. Recebemos palestrantes. Recebemos visitas de escolas, fazemos palestras em escolas públicas e particulares, oficinas para professores. As atividades irão continuar assim que possível. 
 
6- Está sendo comemorado neste ano de 2020 o centenário da escritora, como a pandemia do COVID-19 veio a afetar essa importante festividade? Já está sendo planejada uma alternativa?
 
A ideia era fazer a primeira FLIQUIN – Feira Literária do Quintal – para comemorar o seu aniversário em junho. Seriam 3 dias de declamação, trabalhos apresentados pelas diversas academias que a tiveram como madrinha, como paraninfa, como visitante, palestras. Estamos a 27 de maio, não acreditamos que até dia 13 de junho possamos receber uma pequena aglomeração no Terreiro das Artes, como também é chamado o nosso quintal. Para agosto gostaríamos de fazer o festival 100 anos de Ruth Guimarães, com oito dias de festa: apresentação teatral, contadores de história, músicos, oficinas de fotografia, redação, pintura, circo, gastronomia. Estamos tentando manter, porque até agosto muita coisa pode mudar. Ou não. Por enquanto tudo fica, mesmo que seja somente para fazer a divulgação e mudarmos posteriormente os planos. 

O jornal O Lince está preparando uma edição especial 100 anos com a participação de vários escritores, cada um mostrando uma faceta de Ruth Guimarães: tradutora, escritora, folclorista, poeta, uns falam de Malazartes, outros sobre Água Funda, outros sobre Contos de Cidadezinha, eu falei sobre minha mãe. Acredito que ficará muito interessante e será uma homenagem bem simpática. Pretende-se fazer para o aniversário, dia 13 de junho. Ainda estamos nos finalmente, e agradecemos demais o apoio de Alexandre Barbosa.
 
7- Nessa semana está sendo celebrada, A semana Mundial do Brincar (A aliança pela infância), um trabalho simultâneo em favor da valorização e encantamento infantil. Conte-nos como foi à adesão do Instituto a esse movimento e como está sendo essa experiência.  
 
Conheci Lila Vanzella no grupo “Leia Mulheres – Guaratinguetá”, quando convidada para participar da discussão feita por Água Funda. Lila é uma trabalhadora incansável. Ela convidou o Instituto para participar da Semana e gostamos muito da ideia. Porque mostrar as brincadeiras que fazem parte da cultura brasileira é algo que tem muito a ver com a ideia de Ruth Guimarães sobre a identidade brasileira. E como já tínhamos começado a fazer algumas coisas relacionadas com o resgate das brincadeiras desde o dia das crianças de 2019, foi uma continuidade do planejamento. Estamos envolvendo crianças para “tocar” outras crianças, inclusive. Maria Clara Ribeiro canta desde os 14 anos, se não me engano, hoje tem quase 18. Uma voz suave, macia, canta como quem nina. Está empolgada, adorou o projeto. Precisamos de jovens querendo imprimir gestos bons, para continuar essa jornada. É interessantíssimo ver que essa onda negativa, de violência, de homofobia, de racismo, de misoginia, de “nem tô aí pra nada” para com o intuito de apreciar o lúdico, o bom e o belo. 
 
8- Entre todas as obras literárias de Ruth Guimarães, Água Funda é o de maior destaque da carreira de sua mãe. Atualmente você e o seu irmão, Joaquim Maria Botelho, são os que mantêm o instituto, no sentido de promoção e que estão à frente de toda a divulgação, vocês pretendem desenvolver um projeto específico para esse livro?
 
Os quatro divulgamos: Joaquim Maria, tem o acervo de seus livros, corre atrás de editoras para a publicação de seus livros, Olavo  digitalizou as mais de cinco mil fotos de Botelho Netto, alimenta o blog “retratos e crônicas (http://retratosecronicas.blogspot.com.br/), alimenta o face de Botelho Netto em preto e branco (https://www.facebook.com/botelhonetto/?hc_ref=SEARCH) ele e Marcos administram  o espaço Ruth Guimarães (https://www.facebook.com/groups/108863609318855/). Marcos e eu ficamos em Cachoeira Paulista e fazemos a manutenção da casa onde nasceram José e Ruth.
 
O projeto não é específico para o Água Funda, mas para a obra como um todo e inclusive para as fotografias de Botelho Netto. Mas existe o projeto, que está sendo realizado pela Rosângela Canuto e sua trupe, de uma adaptação dramatúrgica. Uma equipe extremamente competente. Teatro precisa de toque, de conjunto, portanto não será realizado este ano, mas será concretizado em breve.
 
9- O escritor Câmara Cascudo, importante figura literária no estado do Rio Grande do Norte, devido ao seu trabalho desenvolvido pela cultura brasileira. Ele também foi uma das célebres amizades de Ruth Guimarães. O que você pode nos contar sobre coleguismo entre eles? 
 
Eu sou a filha mais nova, a caçula de 9 filhos. Então muitas coisas eu só sei de ouvir contar. Ela se aconselhava com ele, mandava cartas, e no início ele respondia com um “a senhora está me pedindo conselhos? Mas a senhora é quem deveria me aconselhar” Não exatamente nestes termos, mas aproximadamente. E depois de algum tempo de toda essa formalidade, parece que a relação mudou bastante, para melhor, pois ela passou a chamá-lo de Cascudinho. Ruth gostava de observar. E estava sempre aprendendo. Essas pessoas foram para ela uma espécie de professores.
 
10- Ruth Guimarães foi uma mulher extremamente inteligente e igualmente simples. Cativante pela sua receptividade e pela prosa que quem a conheceu jamais esquece, deixando muitas saudades nesses fiéis amigos e leitores da escritora. E agora, após seis anos após sua partida, com você vê a chegada dos novos admiradores. O que os atrai e os motiva a conhecer a sua obra literária?
 
Aqui precisaríamos de muitas páginas para comentar o que os atrai, porque para cada novo leitor existe um motivo diferente. A regionalidade: o leitor se identifica e se reconhece na história contada, com as expressões idiomáticas ou até mesmo com alguns “causos” dentro da história. Outros com as vozes polifônicas dos personagens. Outros com a ética dos contos. Outros com as crônicas que são atuais apesar de serem datadas, às vezes, de 50 anos atrás. Outros com a sua sagacidade, profundidade, filosofia, erudição, mordacidade, ironia, alegria, e tantos outros motivos. É uma escritora que é também uma contadora de histórias e os leitores têm prazer em seguir até o fim. Sempre se ouve “como é bom ouvir Ruth Guimarães”
 
11- Para finalizar, como os interessados podem entrar em contato com vocês para obter mais informações sobre o trabalho desenvolvido pelo Instituto? 
 
Venham nos visitar (depois da “gripezinha”, por enquanto, por favor: FIQUEM EM CASA). Estamos na rua Carlos Pinto, 130, em Cachoeira Paulista. É uma chácara, muito bem arborizada, é o lugar onde ela viveu, onde escreveu a maioria de suas histórias, onde se casou, teve os filhos, envelheceu e morreu. 93 anos de vida, é muita coisa para contar. Nosso telefone: (12) 31034652. Temos uma página no facebook: https://www.facebook.com/institutoruthguimaraes/ (@institutoruthguimaraes) e uma no instagram: https://www.instagram.com/instituto_ruth_guimaraes/ (instituto_ruth_guimaraes) 

Fonte: Potiguar Noticias 

Mais sobre Ruth Botelho Guimarães - Biografia

Nascida em Cachoeira Paulista-SP, em 13 de junho de 1920, Ruth Botelho Guimarães, além de poeta, romancista, contista, cronista, jornalista e teatróloga, notabilizou-se como tradutora e pesquisadora da literatura oral no Brasil.1 Além disso, lecionou Língua Portuguesa por mais de 30 anos em escolas da rede pública de São Paulo.
Ainda menina, revelou-se poeta e, aos dez anos de idade, já publicava seus primeiros versos nos jornais A Região e A Notícia, ambos de circulação local. Aos dezoito anos, mudou-se para a capital paulista a fim de prosseguir seus estudos na USP, onde concluiu os cursos de Filosofia e, mais tarde, de Letras Clássicas. Cursou também Folclore e Estética.
Como jornalista, colaborou na imprensa paulista e carioca, mantendo também por vários anos uma seção permanente de literatura nas páginas da Revista do Globo, de Porto Alegre, em que resenhava livros, mantinha um concurso de contos, e onde publicou seus primeiros textos literários e traduções. Escreveu, também, crônicas e críticas literárias nas páginas de Correio Paulistano, A Gazeta, Diário de São Paulo, Folha de Manhã e Folha de São Paulo.
É como romancista que Guimarães consegue projeção nacional. Em 1946, publica Água funda, obra aplaudida por intelectuais de peso como Nelson Werneck Sodré e Antonio Candido, que assina o prefácio da segunda edição. Para o crítico, "Ruth Guimarães nos prende porque tem a capacidade de representar a vida por meio da ilusão literária, graças à insinuante voz narrativa que inventou." (2003, p. 11).
Já para o escritor e crítico Oswaldo de Camargo,
Com o romance Água funda, Ruth Guimarães oferece uma intensa e deliciosa viagem pelo universo caipira da fazenda Olhos D'água, localizada em uma cidadezinha do interior mineiro, aos pés da Serra da Mantiqueira. O mundo de atmosfera mágica por onde desfilam senhores e sinhás, contadores de casos, ou causos, e no qual a superstição e o sobrenatural muitas vezes orientam a vida cotidiana. (apresentação da autora durante debate no Museu Afro Brasil, em 2007).
Pode-se dizer que Ruth Guimarães foi uma das primeiras escritoras negras a ocupar espaço nacional no cenário da literatura brasileira. Estudiosa da cultura popular, principalmente do folclore, e autora de diversas obras que valorizam essa vertente da nossa cultura, Ruth teve como mestre ninguém menos que Mário de Andrade. Segundo a escritora e pesquisadora, Mário foi o grande responsável por apresentá-la melhor ao folclore brasileiro. Entre suas dezenas de publicações, destacam-se, além de Água Funda, Calidoscópio - A saga de Pedro Malazarte, Lendas e Fábulas do Brasil, Contos de Cidadezinha e o ensaio Os filhos do medo. Traduziu Balzac, Dostoievski, Daudet e Apuleio, além de ser autora de um importante dicionário da Mitologia Grega.
Em 2007, Ruth concedeu um depoimento no seminário “Encontro de Gerações”, promovido pelo Museu Afro Brasil, em São Paulo, em que aborda seu trabalho e a questão do negro em nosso país:
Minha formação é totalmente anônima, mergulhada na literatura brasileira, uma literatura sem escolha. Aliás, todos nós brasileiros estudamos literatura de uma maneira desorganizada; a gente lê o que quer, o que gosta, os professores dão um texto aqui, outro ali, nada sistematizado, com um sentido e programação. Quando nós chegamos ao fim, se é que a gente pode dizer ao fim, temos uma espécie de formação mista; assim como somos um povo mestiço, todo cheio de misturas de todo jeito, a nossa literatura também é toda feita de pedaços de textos, de arrumações aqui e ali. Não há nada que nos torne inteiriços, inteiros. Minha literatura é isso também. Eu conto a história da roça, de gente da roça, do caipira. Eu também sou caipira, modéstia à parte. Eu não me importei muito se havia uma tendência, ou se havia uma inclinação para contar a história do preto; como eu também sou misturada, o meu livro é misturado. Como eu sou brasileira, nesse sentido de brasileiro todo um pouco para lá, um pouco para cá, o meu livro também é assim, um pouco para lá, um pouco para cá. (...)
Nós precisamos saber da raiz negra de onde viemos. A história negra está por fazer, a literatura negra está por fazer, a poesia está por fazer. Eu, depois de velha, resolvi pesquisar e, para isso, eu estou contando e escrevendo histórias, tentando fazer um fabulário brasileiro, não só com pesquisa entre negros, mas entre o povo, todo o nosso povo e, ocasionalmente, quando se faz o estudo aí a gente separa: isso daqui para lá é dos pretos, isto de lá para cá é de todo mundo. Muita gente já fez esses estudos e até descobriram uma coisa muito bonita, muito gratificante para a gente: que todas aquelas qualidades do povo brasileiro, aquele povo igual, alegre, que aceita, que aguenta os trancos, que passa por tudo quanto é ruindade neste mundo, essa qualidade boa, excelente, que faz de nós um povo único no mundo, nós devemos aos negros. Os negros é que são assim, aguentaram e continuam aguentando; não sei se são muito pacientes. Se for medir por mim, porque o homem é a medida do homem, se for medir por mim, essa qualidade de paciência nós não temos. Eu não tenho paciência. Não sou uma criatura paciente, mas sou uma criatura alegre, graças aos meus ascendentes negros. E agora, depois de muito velha, estou fazendo pesquisa e procurando o rastro do negro na nossa literatura de povo e na nossa alegria de contar histórias.
Água funda é um livro engraçado, livro da vida de todos os dias, é um livro de “acontecências”. Qualquer vida dá uma água funda, qualquer um de nós escreve um diário e conta aquelas coisas de todos os dias e vai sair uma água funda. Porque a verdade do livro, alegria, o que o livro tem de bom, de literário, é que ele é um livro de todos os dias, que acontece na vida de cada um. A gente procura o que tem na Água funda; nada, nem água. Claro, eu aprendi português em primeiro lugar, que é uma coisa que eu receito para os neo-escritores: que façam o favor de aprender português em primeiro lugar para depois escrever sua água funda. Estou sempre brigando por isso, aliás, eu sou professora, sou pela competência; se alguém vai escrever um livro, que leia os bons autores, que estude os bons autores, que assista aos bons filmes, que converse com gente que sabe falar, que viva a sua vida bastante e bem. Viva a vida completamente. Emocionalmente a pessoa tem que estar apta. (Depoimento concedido ao seminário "Encontro de Gerações", promovido pelo Museu Afro Brasil, em 2007. In: Ruth Guimarães assume vaga na Academia Paulista de Letras, aos 88 anos).
Em 18 de setembro de 2008, a escritora foi empossada na Academia Paulista de Letras, sendo eleita imortal em 5 de junho do mesmo ano, com 30 dos 34 votos válidos. Às vésperas de completar 89 anos, foi convidada pelo prefeito Fabiano Vieira para assumir a pasta da Cultura em Cachoeira Paulista, na sua cidade natal. Após aceitar a proposta, afirmou que estava ansiosa para trabalhar de forma efetiva pela sua cidade. Ruth Guimarães também integrou importantes entidades culturais, como o Centro de Pesquisas Folclóricas Mário de Andrade e a Sociedade Paulista de Escritores.
Com a saúde debilitada, faleceu, aos 93 anos, em 21 de maio de 2014.
Referências
ALMEIDA, Maria Inês de; QUEIROZ, Sônia. Na captura da voz: as edições da narrativa oral no Brasil. Belo Horizonte: FALE/UFMG; Autêntica, 2004.
Ruth Guimarães, discípula de Mario de Andrade, toma posse na APL. In: Folha Online/Iiustrada. [18 set. 2008]. Acesso em 27 jul. 2009.
Ruth Guimarães assume vaga na Academia Paulista de Letras, aos 88 anos. [22 set. 2008]. Disponível em: <http://cidinhadasilva.blogspot.com/2008/09/ruth-guimares-assume-vaga-na-academia.html>. Acesso em: 24 ago. 2009.
1 ALMEIDA; QUEIROZ. Na captura da voz: as edições da narrativa oral no Brasil, 2004.
PUBLICAÇÕES
Obra Individual
Água funda. Porto Alegre: Edição da Livraria do Globo, 1946; 2. ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2003, prefácio de Antonio Candido; 3. ed. São Paulo: Editora 34, 2018. (romance).
Os Filhos do medo. Porto Alegre: Editora Globo, 1950. (pesquisa folclórica sobre o diabo).
Crônicas valeparaibanas. São Paulo: Centro Educacional Objetivo/Fundação Nacional do Tropeirismo,1992. (pesquisa folclórica).
Contos de cidadezinha. Lorena: Centro Cultural “Teresa D’Ávila”, 1996. (ficção).
Não Ficção
Mulheres Célebres. São Paulo: Editora Cultrix, 1960. (biografia).
As Mães na Lenda e na História. São Paulo: Editora Cultrix,1960. (historiografia).
Líderes Religiosos. São Paulo: Editora Cultrix, 1961. (biografia).
Lendas e Fábulas do Brasil. São Paulo: Editora Cultrix, 1972. (pesquisa folclórica).
Dicionário de Mitologia Grega. São Paulo: Editora Cultrix, 1972.
O Mundo Caboclo de Valdomiro Silveira. Rio de Janeiro: Livraria José Olympio Editora/Secretaria de Cultura, Esportes e Turismo do Estado de São Paulo/Instituto Nacional do Livro,1974. (crítica literária).
Grandes Enigmas da História. São Paulo: Editora Cultrix,1975. (historiografia).
Medicina Mágica: as simpatias. São Paulo: Global Editora,1986. (pesquisa folclórica).
Lendas e Fábulas do Brasil. São Paulo: Círculo do Livro,1989.(pesquisa folclórica).
Calidoscópio – A Saga de Pedro Malazarte. São José dos Campos: JAC Editora, 2006. (pesquisa folclórica).
Histórias de Onça. São Bernardo do Campo: Usina de Idéias Editora, 2008. Volume I do Projeto Macunaíma. (pesquisa folclórica).
Histórias de Jabuti. São Bernardo do Campo: Usina de Idéias Editora, 2008. Volume II do Projeto Macunaíma. (pesquisa folclórica).
Traduções
Histórias Fascinantes, de Honoré de Balzac: seleção, tradução e prefácio – São Paulo: Editora Cultrix, 1960
O asno de ouro. Introdução e tradução direta do latim. São Paulo: Cultrix, 1963.
Os Mais Brilhantes Contos de Dostoievski, de Fiodor Dostoievski. Introdução, seleção e tradução. Rio de Janeiro: Edições de Ouro, 1966.
Contos de Dostoievski. Introdução, seleção e tradução. São Paulo: Editora Cultrix, 1985.
Contos de Alphonse Daudet. Seleção e prefácio. Tradução: Ruth Guimarães e Rolando Roque da Silva. São Paulo: Editora Cultrix, 1986.
Contos de Balzac. Seleção, tradução e prefácio. São Paulo: Editora Cultrix,1986.
Os Melhores Contos de Alphonse Daudet. Seleção e prefácio. Tradução: Ruth Guimarães e Rolando Roque da Silva. São Paulo: Círculo do Livro,1987.
Os Melhores Contos de F. Dostoievski. Tradução, seleção e introdução. São Paulo: Círculo do Livro, 1987.
Os Melhores Contos de Balzac. Seleção, tradução e prefácio. São Paulo: Círculo do Livro, 1988.
Buda e Jesus, diálogos. Tradução: Ruth Guimarães e Joaquim Maria. São Paulo: Cultrix, 1989.
Antologia
Literatura e afrodescendência no Brasil: antologia crítica. Organização de Eduardo de Assis Duarte. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2011, vol. 1, Precursores.
TEXTOS
CRÍTICA
FONTES DE CONSULTA
CRUZ, Adélcio de Souza. Ruth Guimarães. In: DUARTE, Eduardo de Assis (Org.). Literatura e afrodescendência no Brasil: antologia crítica. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2011, vol. 1, Precursores.
PAES, José Paulo. Uma contista do interior. In: O lugar do outro. Rio de Janeiro: Topbooks, 1999.
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