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sábado, 8 de agosto de 2020

O artista potiguar durante a pandemia e o isolamento: Geraldo Carvalho - Por: CEFAS CARVALHO

Cantor, compositor e músico, Geraldo Carvalho é um potiguar que consolidado em terras potis, resolveu alçar voo e se estabeleceu em Brasília, onde há quase dez anos mantém carreira sólida e com shows em outros estados e também na Europa. Em bate papo com o Portal PN, Geraldo falou sobre sua experiência de confinamento, lives, pós-pandemia e apoio a artistas em dificuldades. Confira

Você é um músico que viaja muito e faz muitos shows. Como está sendo essa mudança no seu ritmo e agenda com a pandemia e o necessário distanciamento social?
 
Tem sido de muita reflexão criativa! Eu já tinha me programado para algumas viagens pelo Brasil e depois Europa, mas vou ter que me reprogramar, enquanto isso procuro, de alguma forma, dar continuidade ao meu trabalho. Tenho feito algumas lives solidárias, para ajudar pessoas necessitadas e em situação de rua, entrevistas online e bate-papos culturais com diversas entidades e colegas de profissão. A situação não está fácil pra maioria das pessoas, em especial para quem trabalha com música, e isso engloba não só os músicos, mas todo pessoal envolvido como roadies, iluminadores, maquiadores, bilheteiros, assessores de imprensa, produtores culturais e muitos outros. Mas não temos muita opção, o jeito é esperar uma vacina ou um milagre! Enquanto isso vamos trabalhando com muita esperança.
 
Está conseguindo produzir durante esta quarentena?
 
Sim, tenho lido, visto muito documentário de arte, me aprimorado nas redes sociais, para uma melhor interação com o meu público e escutado muita música e, o mais importante, a inspiração vem batendo forte, com novas composições e parcerias muito ricas e criativas. 
 
Esta situação de pandemia e confinamento pode ou vai mudar algo em sua música, em sua arte?
 
Acredito que quando acontece uma situação como essa temos que tirar o melhor proveito, a vida já é uma eterna mudança e em um advento como esse, temos que procurar repensar nossos conceitos e aprimorar aquilo com o que trabalhamos. Acredito que sairemos fortalecidos, cheios de novas ideias!!
 
Como acha que será a dinâmica de show e eventos musicais no pós-pandemia?
 
Acho que nada substitui uma apresentação presencial, mas acredito que as lives vão se somar às apresentações físicas, de forma mais significativa. Hoje, com a tecnologia ao alcance de todos, nada impede que um artista faça seu show e ao mesmo tempo o transmita ao vivo  para quem não conseguiu ir e possa colaborar como puder!
 
Percebe-se muitos músicos que viviam de shows ao vivo em dificuldades neste momento. Como fazer para apoiá-los?
 
Verdade, tenho pensado muito sobre isso. Tenho visto movimentos de músicos para ajudar outros músicos, isso é muito legal. Temos que buscar cada vez mais alternativas de nos ajudar no meio musical. Mas o poder público precisa se sensibilizar e fazer a sua parte, como também a iniciativa privada, afinal, a arte além de um bom negócio, tem sido um alento nesses tempos de pandemia!

Fonte: Potiguar Notícias

OPINIÃO - Racismo impede que crianças e jovens negros concluam os estudos

FOTO: MARCELO SANTANNA/ FOTOS PÚBLICAS

FOTO: MARCELO SANTANNA/ FOTOS PÚBLICAS

A reprovação tem sido um instrumento eficaz de manutenção do racismo nos espaços escolares

Confesso. Tenho certa dificuldade de guardar o nome dos meus alunos e alunas. Contudo, do rosto de cada um, jamais me esqueço. Ainda que passe anos sem vê-los, quando os encontro, lembro sempre. Nessas ocasiões, costumo ser interpelada por palavras que me tocam profundamente: “Oi, professora Luana! Tudo bem com a senhora?” Me derreto. Me acabo. Ser chamada de professora é motivo de muito orgulho pra mim. Me sinto realizada. 

Pouco antes do início da quarentena, encontrei um ex-aluno. Pedi desculpas por não lembrar o nome dele. “É Renato, professora! Meu nome é Renato!” – ele disse. Sabia que havia sido professora dele no 6º Ano. Como sempre faço, perguntei pelos estudos:

– Tudo bem com você? Já formou?

– Formei nada, professora! Parei de estudar…

– Uai?! Parou por quê? Não acredito! 

– Tomei três bombas no 6° ano. Aí saí da escola…

– Vou torcer para que você possa voltar!

– Tá bom, professora…Ele respondeu sem muito entusiasmo.

Nosso diálogo ocorreu enquanto o Renato esperava o sinal fechar para vender pipocas. Alguns segundos depois da nossa breve conversa, os carros pararam. Não quis atrapalhá-lo. Nos despedimos. Acho que foi melhor assim. Fiquei sem palavras. Pergunto: O que justifica a permanência de um estudante por três, quatro, cinco anos na mesma série? Respondo: Em grande medida, o racismo.

A reprovação tem sido um instrumento eficaz de manutenção do racismo nos espaços escolares. No ano de 2009, ao empreender um estudo em escolas municipais da cidade de São Paulo, Marília Pinto Carvalho constatou que crianças negras apresentavam maior frequência nas salas de reforço escolar, e, consequentemente, os maiores índices de repetência.

Os dados levantados pela pesquisadora corroboram com a recente pesquisa feita pela Fundação Tide Setubal. Tendo como objeto de análise as notas dos educandos matriculados em classes do 5º Ano de escolas públicas da capital paulista, concluiu-se que os meninos negros ficaram em último lugar no que diz respeito ao êxito escolar. Em penúltimo, estavam as meninas da mesma cor. 

Recentemente, o IBGE apresentou o resultado de uma pesquisa que não deixam dúvidas quanto o impacto da discriminação e da pobreza no que diz respeito à permanência e ao sucesso da juventude negra nas escolas. Somente em 2019, mais de 10 milhões de jovens com idade entre 14 e 29 anos não concluíram o Ensino Médio. Desse total, 70% eram negros.

Renato se junta a essas estatísticas. Renato é negro. Renato teve o percurso escolar interrompido. Antes do início da pandemia, Renato, que deveria estar no 2º Ano do Ensino Médio, vendia pipocas no sinal de trânsito. Se naquele momento ele estava exposto a abusos e ao risco de ser atropelado, fico imaginando se agora ele está ameaçado também pelo coronavírus. Nesse enredo marcado pela exclusão e pela negação de direitos, perdemos todos: o Renato, a família, a escola, a sociedade e eu.

“Expulsar” a comunidade negra dos bancos escolares vem sendo uma escolha, que contribui para a manutenção das desigualdades que marcam o nosso país. Basta ver os postos de trabalho ocupados pela maioria dos afro-brasileiros. Um olhar atento permite enxergar qual a cor predominante dos vendedores de pipoca, dos flanelinhas, dos engraxates, dos garis, das empregadas domésticas, profissões que exigem menor escolaridade e colocam os indivíduos negros em condição de subalternidade.

A reversão desse quadro perverso, que deveria ser motivo de revolta e de vergonha, exige o compromisso de todos. Deve ser entendido como um compromisso ético e moral. Governos, universidades, organizações da sociedade civil, comunidade escolar e toda sociedade devem se empenhar no combate ao racismo que permeia as instituições de ensino. Racismo que castra sonhos, que interrompe trajetórias, que fomenta o regime de apartheid no qual estamos inseridos.

Nós, enquanto educadores, não podemos silenciar diante da perversidade a que têm sido expostos os estudantes negros. Já disse a pesquisadora Eliane Cavalleiro: “o silêncio escolar sobre o racismo cotidiano não só impede o florescimento do potencial intelectual de milhares de mentes nas escolas brasileiras, tanto de alunos negros quanto de brancos, como também nos embrutece ao longo de nossas vidas, impedindo-nos de sermos seres realmente livres ‘para ser o que for e ser tudo’ – livres dos preconceitos, dos estereótipos, dos estigmas, entre outros males”.  

Além de exigir melhores condições de trabalhos e a valorização da nossa profissão, precisamos reivindicar a oferta de cursos de formação inicial e continuada que nos capacitem para a promoção de uma educação antirracista, comprometida com o reconhecimento e com o respeito da diversidade racial que marca o nosso país. Conforme apontou a educadora afro-americana Bell Hooks, o compromisso com a autoatualização deve ser uma prerrogativa em nossa caminhada. Mais do que isso: precisamos ter a coragem de olhar para dentro e perceber o racismo que habita em nós, afinal de contas, fomos educados em uma sociedade extremamente racista, que molda nossa maneira de agir, de pensar, que orienta nossas escolhas, que reverbera em nossas práticas pedagógicas. 

Nesse exercício de olhar para dentro é imprescindível interrogar se “Renatos” não passaram por nossas salas de aula. Se estiveram conosco, devemos perguntar qual foi nossa atitude. Sabemos que não é possível mudar o passado, mas é inegável que podemos fazer diferente no presente. Por nós, pelos “Renatos”, pelos meninos e meninas negras, pela sociedade que queremos ajudar a construir.

Este texto não reflete necessariamente a opinião de CartaCapital.

Fonte: https://www.cartacapital.com.br

Estação Sabiá - Entrevista com o cineasta Silvio Tendler



Fonte: Brasil 247

Silvio Tendler lança movimento para recriar ministério da Cultura: “temos que sair dessa letargia nacional”

Silvio Tendler

Silvio Tendler (Foto: Reprodução | Tomaz Silva/Agência Brasil).

A ideia do cineasta é criar uma espécie de ministério da Cultura paralelo para discutir, criar ações e reerguer o setor cultural com artistas brasileiros e militantes das artes.

Por Regina Zappa - O cineasta Silvio Tendler lançou recentemente um movimento para unir artistas brasileiros e militantes das artes em torno da recriação do Ministério da Cultura. Com um encontro virtual realizado em 2 de agosto, Tendler exortou os convidados a organizar um Estado Geral da Cultura e das Artes a fim de debater coletivamente a retomada dos trabalhos culturais. A ideia seria criar uma espécie de ministério da Cultura paralelo para discutir, criar ações e reerguer o campo da Cultura.

Em entrevista à Regina Zappa, na Estação Sabiá, da TV 247, Silvio afirmou: “Precisamos enfrentar os abusos, a intimidação aos funcionários dos organismos e a censura econômica imposta pelo atual governo. Há algum tempo vem me incomodando o estado de catatonia em que nos encontramos. O primeiro passo é sairmos dessa letargia nacional em que somos apenas reativos. Precisamos nos mobilizar para a ideia de criar um movimento que aglutine todas as áreas das artes e da cultura".

Outro encontro está sendo preparado para continuar os debates. Será no dia 9/8, domingo, e a inscrição para participação pode ser feita no email filmedoc@gmail.com.  Tendler pediu ainda que as pessoas se cuidem: “Salvem suas vidas. Vamos lutar contra a morte e esse governo da necropolítica. Vivamos sobreviver a esse vírus maldito para continuar lutando por uma sociedade mais justa".

Fonte: Brasil 247

sexta-feira, 7 de agosto de 2020

Finalmente, nesta sexta, a live de Caetano Veloso; ele completa 78 anos

Caetano Veloso (Foto: Reprodução)

Um dos maiores nomes da MPB, o cantor Caetano Veloso fará uma apresentação pela internet apelidada de Live, a Lenda, nesta sexta-feira (7), dia em que o artista completa 78 anos.

247 - Um dos maiores nomes da Música Popular Brasileira (MPB), o cantor Caetano Veloso fará uma apresentação pela internet apelidada de Live, a Lenda, nesta sexta-feira (7), dia em que o artista completa 78 anos. O compositor tocará ao lado dos filhos Moreno, Zeca e Tom (com os quais veio dividindo o show "Ofertório" nos últimos anos), na sala de sua casa, em Ipanema, zona sul da cidade do Rio de Janeiro. A transmissão acontecerá às 21h30, exclusivamente no Globoplay (não é necessário ser assinante para assistir).

"No começo, eu nem via possibilidade de fazer live. Não achava que o que me era proposto fosse do meu feitio. Mas eu queria fazer. Acho graça de o assunto ter ficado tão falado. O fundamental, que é cantar, estar na companhia dos meus filhos e escolher canções, me dá prazer", afirmou Caetano em entrevista distribuída à imprensa. 

"Falei logo com eles que queria que eles participassem. Não tem quase nada do 'Ofertório'. Eles vão tocar comigo muitas das músicas escolhidas para a live e eu vou cantar ao menos uma com cada um deles", acrescentou. Os relatos foram publicados no jornal O Globo.

 artista afirmou que não deixaria a canção "Tigresa" de fora da live. Outras duas músicas novas farão parte da apresentação: "Talvez" (composição de Tom Veloso com Cezar Mendes, que foi gravada por Caetano e o filho e lançada hoje nas plataformas de streaming, como single) e "Pardo", canção de Caetano registrada pela cantora Céu em seu último álbum, "APKÁ!" (2019), mas agora terá a interpretação do autor.

"Recebo muitos recados e e-mails pedindo canções e até orientando se vou para o lado do material ultraconhecido ou se canto coisas que quase nunca cantei. Meu critério deveria ser exclusivamente este: o que eu posso fazer melhor?", explicou o artista. "Mas tanto os sucessos consagrados quanto as coisas que tratam de temas mais adequados à situação de quarentena abalam esse critério. Assim, o público pode esperar um misto dessas coisas todas".

Fonte: Brasil 247

Abertas inscrições para o Programa Especial de Apoio ao Pequeno Exibidor

A Agência Nacional do Cinema (ANCINE), autarquia vinculada ao Ministério do Turismo, e o Banco Regional de Desenvolvimento do Extremo Sul (BRDE) lançaram o Programa Especial de Apoio ao Pequeno Exibidor (PEAPE). A iniciativa prevê um auxilio emergencial de R$ 8,5 milhões do Fundo Setorial do Audiovisual (FSA), destinado aos pequenos exibidores do País, um dos segmentos mais afetados economicamente pela situação da Covid-19. A expectativa é de que mais de 700 salas de exibição, em 325 complexos, de 185 empresas diferentes sejam beneficiadas com o montante.

De acordo com o ministro do Turismo, Marcelo Álvaro Antônio, o socorro à esses empreendimentos tem sido uma das prioridades empenhadas por esta gestão. “Esse programa mostra que nós, do governo federal, temos trabalhado para manter o setor, desde o pequeno até o macro empreendimento, sem deixar ninguém para trás. Tenho certeza que esse recurso dará um respiro a esses pequenos exibidores e manterá o emprego de milhares de brasileiros, que tem na Cultura o seu ganha pão. Vamos juntos transformar o setor cultural do nosso Brasil”, destacou

O secretário Especial da Cultura, Mário Frias, ressaltou a importância desse recurso não só para esses empresário, mas para os brasileiros que veem no cinema uma forma de lazer. “Muitas vezes, esses estabelecimentos são o único entretenimento em pequenos municípios. Com esse apoio, estamos fazendo com que esses recursos cheguem a todos os cantos do Brasil, e que não só os empregos se mantenham, mas que a cultura se mantenha viva. Continuaremos trabalhando firme para que o setor continue o crescimento que vinha conquistando”, disse.

Os recursos podem ser utilizados em folha de pagamento de funcionários, serviços terceirizados, fornecedores de equipamentos e despesas correntes relativas ao funcionamento das salas de cinema, como custos de aluguel de equipamento e imóvel, contas de luz, de água e de telecomunicações, além de serviços de limpeza, higienização e de dedetização.

“O apoio foi pensado para preservar empregos, atender às pequenas empresas locais, e para manter o parque exibidor brasileiro. A ANCINE, a Secretaria Especial da Cultura e o Ministério do Turismo acreditam na força do setor, que vai seguir prosperando quando a reabertura das salas se iniciar”, diz o diretor-presidente substituto da ANCINE, Alex Braga.

COMO PARTICIPAR – Desenvolvido na modalidade de apoio financeiro não reembolsável, o PEAPE é destinado a empresas brasileiras que pertençam a grupos de exibidores com até 30 salas de cinema. Podem participar da Chamada Pública somente empresas, registradas na ANCINE, que estiveram em funcionamento, integral ou parcialmente, durante o período de 01 de janeiro de 2019 a 29 de fevereiro de 2020. Os complexos exibidores com cinco ou mais salas poderão receber o apoio, mas o valor por complexo será limitado a quatro salas.

As empresas e complexos exibidores geridos ou financiados pelo poder público, que tenham algum tipo de subvenção, ajuda ou apoio de ente governamental, de qualquer unidade da federação, não poderão ser enquadradas nessa linha de apoio.

Serão adotados os seguintes parâmetros e limites máximos para a concessão do apoio:

a) Para complexos de uma sala, o peso será de 1,0, com limite do apoio no valor máximo de R$50.000,00 (cinquenta mil reais);
b) Para complexos de duas salas, o peso será de 1,6, com limite de apoio no valor máximo de R$ 80.000,00 (oitenta mil reais);
c) Para complexos de três salas, o peso será de 2,0, com limite de apoio no valor máximo de R$100.000,00 (cem mil reais) por complexo;
d) Para complexos de quatro salas, o peso será de 2,2, com limite de apoio no valor máximo de R$110.000,00 (cento e dez mil reais).

Fonte: Portal BRASIL CULTURA

Área de anexos

LIVE - *14 anos da Lei Maria da Penha*

 

A Lei Maria da Penha é um marco conta a violência, ela protege as mulheres em situação de violência, salva vidas, pune os agressores, fortalece a autonomia das mulheres, educa a sociedade e cria mecanismos de assistência e atendimento humanizado.

quinta-feira, 6 de agosto de 2020

Ressentimento é a palavra-chave para compreender o mundo atual e a extrema-direita, diz Maria Rita Kehl, em seu novo livro

Psicanalista Maria Rita Kehl.

Psicanalista Maria Rita Kehl. (Foto: Editora Boitempo / Divulgação)

"Maria Rita Kehl traça um vasto panorama que pode nos ajudar a compreender nossa posição diante de conflitos religiosos ou políticos, desde a ascensão do nazismo até a da extrema direita atual", aponta a psicanalista Maria Homem, na resenha da obra.

Por Maria Homem, no blog da Boitempo – Ressentimento é palavra-chave para ousar compreender o mundo hoje. Para escutar as camadas subterrâneas do contínuo (res)sentir de uma mágoa e um lamento que parecem infinitos e exigem desforra e vingança. Como se a culpa do que não somos ou não pudemos ser fosse sempre de um outro, esse bode expiatório que escolhemos quando não podemos nos haver com nossos próprios limites. E assim engendramos sociedades que se acreditam polarizadas e cujas eleições podem ser decididas a partir do ódio e do anseio por erradicar aqueles que são “fonte de todo o mal”. Como viver em um mundo em que os outros são um bando de bandidos e de ignorantes, diante dos quais não temos alternativa lógica sem ser o desejo de eliminação? O livro Ressentimento é urgente pois nos ajuda a desvendar esses mecanismos.

Maria Rita Kehl traça um vasto panorama que pode nos ajudar a compreender nossa posição diante de conflitos religiosos ou políticos, desde a ascensão do nazismo até a da extrema direita atual, do hemisfério Norte ao Brasil de Bolsonaro. A autora trabalha com uma ampla rede de autores para mapear o campo complexo do ressentimento, este afeto que Espinosa chamou de “paixão triste”. Retoma as fundadoras análises de Friedrich Nietzsche, Max Scheler e Sigmund Freud, passando por olhares mais contemporâneos como os de Hannah Arendt, Giorgio Agamben e Slavoj Žižek, que buscam o insondável de nossas vãs repetições. Ganhamos ainda, nesta reedição do livro de 2004, uma importante abordagem no novo (e atualíssimo) posfácio.

Não nos esqueçamos. O ressentimento não se confunde com a revolta ou com a luta por justiça e reconhecimento. Ressentimento não é ação que busca transformar. Ele é o canto queixoso do sujeito da modernidade e de todo aquele que projeta para fora de si, em determinado momento histórico, a fonte de seus males, como um mecanismo de defesa e escudo de proteção para preservar seu narcisismo. Como teremos a sabedoria de escapar do que Freud chamava de “covardia moral”? Quem sabe tenhamos a coragem e as ferramentas para atravessar um dos maiores desafios atuais que é justamente poder se colocar além do ressentimento. Talvez possamos um dia (trans)sentir e assim criar um novo modo de estar com o outro.

Com edição de Carolina Mercês, Ressentimento, de Maria Rita Kehl, conta com capa e diagramação de Antonio Kehl, e vem acrescido de um novo texto de posfácio da autora. Trata-se do quinto livro da psicanalista pela Boitempo: depois do premiado O tempo e o cão: a atualidade das depressões, publicamos também 18 crônicas e mais algumas, Deslocamentos do feminino: a mulher freudiana na passagem para a modernidade e, pela coleção Estado de Sítio, Videologias: ensaios sobre televisão, escrito em conjunto com Eugênio Bucci.

Maria Homem é psicanalista, pesquisadora do Núcleo Diversitas FFLCH/USP e professora nas áreas de Psicanálise, Cinema, Literatura e Comunicação da FAAP. Tem pós-graduação em Psicanálise e Estética pela Universidade de Paris VIII/Collège International de Philosophie e doutorado pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP. Pela Boitempo, publicou No limiar do silêncio e da letra: traços da autoria em Clarice Lispector (2012).

Fonte: Brasil 247

A morte de um bravo. Por Ulisses Capozzoli

Imagem: Renato Soares, meu parceiro no Xingu no centenário da reserva.

Publicado originalmente no perfil do autor

Por Ulisses Capozzoli

Aritana Yawalapiti, filho de Kanato, desde a manhã de hoje (5/8) não respira mais sobre a Terra, onde esteve ao longo dos últimos 71 anos. Líder mais respeitado do Alto Xingu, dividindo prestígio com o primo, Kotok, líder dos kamaiurá, morreu vítima da epidemia de Covid-19 depois de uma longa e difícil batalha em que saiu derrotado. Aritana era uma espécie de esteio cultural de seu povo e, por extensão de todo o Alto Xingu, ainda que sua atuação se estendesse por todo o parque, com seus 26.420 km², o dobro da Irlanda do Norte, mais de duas vezes e meia o Líbano e o triplo de Porto Rico.

A morte de Aritana, com sua liderança natural, firme e pacífica, identificada por Claudio Villas-Bôas (um dos célebres irmãos Villas-Bôas os criadores da reserva do Xingu para a proteção e sobrevivência de 16 etnias do Brasil Central) pode ser debitada à estúpida e criminosa recusa do governo em oferecer às populações indígenas, os primeiros donos do que agora é o território brasileiro, um mínimo de garantia fitossanitária contra a contaminação que varre o planeta como um demônio enlouquecido. As duas últimas semanas de vida Aritana passou confinado em uma unidade de terapia intensiva (UTI) num hospital de Goiânia. Até chegar lá, no entanto, despendeu a energia que teria feito a diferença, caso tivesse tido atendimento pronto, negado sob a forma de veto pelo presidente da república a um plano de atendimento às populações indígenas contra as ameaças da pandemia.

Há três semanas ele estava em sua aldeia, junto ao rio Kurisevo, um do formadores do Xingu, quando teve um forte crise respiratória, diagnosticada em seguida como Covid-19. Inicialmente ficou em Canarana, um dos portões de entrada da reserva indígena pelo Sul, mas sua saúde piorou sem que os médicos do parque tenham podido contar com socorro aéreo. Chegou a Goiania ao final de uma viagem de dez horas a partir de Canarana, no interior de uma ambulância, respirando com ajuda precária de um cilindro de oxigênio. Quando deixou o Xingu, segundo o depoimento de uma sobrinha, Ana Paula Xavante, mais de 50% de seu pulmão já estava comprometido.

A morte de Aritana, uma das memórias de seu povo, é mais uma nódoa na imagem internacional do Brasil, ao menos em relação às populações sensíveis à proteção que culturas mais ameaçadas devem merecer antes que se transformem em imagem apagada do passado. Aritana falava, além da língua de seu povo, do tronco Aruak, outras quatro, como a dos seus parentes próximos, os Kamaiurá, do tronco Tupi-Guarani. Desde a infância, foi preparado pelo pai, Kanato Tepori, para o resgate de sua gente e essa é mais que figura de linguagem. Quando os Villas-Bôas chegaram ao Xingu, comandando a Expedição Roncador-Xingu (para desbravar o Brasil Central como uma das consequências geopolíticas da Segunda Guerra Mundial) os Yawalapiti estavam reduzidos a sete sobreviventes. Orlando Villas-Bôas, e isso ouvi muitas vezes da boca dele mesmo, estimulou casamentos com os kamaiurá e assim os Yawalapiti renasceram. Aritana passou cinco anos recluso em casa, recebendo ensinamentos do pai, tios e avós numa preparação para a tarefa que tinha pela frente. Sua gente havia minguado a partir dos anos 30 e só a miscigenação, que também incluiu os Kuikuro, do tronco Karib, permitiu essa dramática recuperação. Ouvi isso mais de uma vez de Aritana, em especial em um depoimento que me concedeu em 2011 para uma edição especial de “Scientific American Brasil” comemorativa dos 50 anos da reserva.

O Brasil é cada vez mais associado à destruição, incêndio e morte no interior da maior floresta tropical da Terra, a Amazônia, majoritariamente concentrada aqui, e a morte de Aritana divulgada por agências internacionais de notícia já aparecem nas páginas dos jornais e mídia social de todo o mundo. Há um fascínio e um profundo temor pelo que acontece por aqui e também isso não é mero acaso. O Brasil ainda tem sertanistas, gente especializada no contato com povos isolados, no sentido de estarem separados da sociedade exterior, que parte da mídia chama de “civilização”. Como se as culturas originais, que permitiram a sobrevivência de nações inteiras no interior da floresta, e ainda hoje assegurem isso a pequenos grupos, não tivesse consistência e valor legitimados. Certamente é o caso de acrescentar que os “povos isolados” são gente que não teve qualquer contato com a sociedade exterior desde que Cabral desembarcou por aqui. Ao contrário. Eles tiveram e, traumatizados pelo que viram e sofreram, decidiram recuar e procurar abrigo na floresta profunda que agora é vítima do desmatamento, do fogo e de hordas de garimpeiros, também eles resultado de uma social desigual e marginalizadora.

Aritana, por formação cultural e característica pessoal, era um líder conservador, no sentido literal da expressão. Na longa conversa de 2011, comprimida em duas páginas da edição especial de “Scientific American Brasil”, ele falou do temor pelo turismo desenfreado, invasão de pescadores, represas de menor e grande porte, como Belo Monte, além do encantamento de jovens indígenas por motocicletas, pela vida na cidade que ele acreditava ameaçada por alcoolismo e drogas em geral e também da dificuldade de seduzi-los para uma função estratégica da cultural indígena, a pajelança. Apenas essa última referência espaço ilimitado de reflexão e interpretação do que os “brancos” chamam de “realidade”. Aritana não disse, mas deixou claro, a diferença entre uma sociedade mágica, espiritualizada e ritualística e uma sociedade, digamos, cartesiana, mas esvaziada até mesmo dessa possibilidade, pelo consumismo, alienação e competição que um índios é incapaz de imaginar como estilo de vida.

A morte de Aritana, em uma idade em que poderia fazer muito por seu povo e por todo o Brasil, ainda que muitos sejam incapazes de perceber essa possibilidade, é tanto um lamento quanto um alerta. Mais um. Cada dia mais evidente e dramático em uma sociedade submetida a um brutal processo de aniquilação. Quem tiver interesse em conhecer os cenários possíveis por aqui, talvez possa encontrar resposta em um clássico: o livro “Enterrem meu coração na curva do rio”, de Dorris Alexander Brown, Dee Brown, escritor e historiador sobre a sanguinária aniquilação de populações indígenas nos Estados Unidos, mostradas em faroestes vivenciados por atores reacionários como John Wayne. Ah! Sim. Essa é a fonte da expressão “brancos” para se referir a não indígenas. Injustificada para um pais com perfil como o do Brasil. Aritana, o corajoso e sábio conciliar, no sentido mais nobre dessa expressão, fará falta imensa. E ela já começa a se fazer sentir.

Fonte: DCM - Diário do Centro do Mundo

quarta-feira, 5 de agosto de 2020

INFORMES DA COORDENAÇÃO DAS CASAS DE CULTURA POPULAR DO RIO GRANDE DO NORTE

Boa tarde a todas e todos, passando hoje (05) com o objetivo principal de parabenizar a nossa equipe pelo belíssimo trabalho efetuado no que diz respeito ao cadastro do Estado referente a Lei Emergêncial Cultural Aldir Blanc. 

Ficou claro o crescimento em uma semana dos cadastros nos 27  entre os 167 município do estado onde temos Casas de Cultura, vale salientar que em algumas dos nossos 27 municípios o referido crescimento foi até de 100%. 

Isso mostra a importância de termos um gestor do Governo do Estado, que através da Fundação José Augusto, atuando efetivamente na Coordenação das Casas de Cultura Popular em cada um desses 27 municípios está contribuindo de forma efetiva para o fortalecimento e o crescimento cultural do Rio Grande do Norte.

Por Messias Domingos, Jefferson Tavares e Equipe.

"Nós que agradecemos a todos vocês (Crispiniano Neto, Messias Domingos, Jefferson Tavares, Fábiro, Gerson Pessoa, enfim a todos e a todas que movem a CULTURA POTIGUAR,a través das ações da FJA (Fundação José Augusto), uma das Âncoras da Cultura Potiguar!Parabéns pelo profissionalismo e dedicação.

Os artistas de modo geral agradecem as ações e os esforços que a FJA vem fazendo em defesa da cultura.

Saudações culturais",

Eduardo Vasconcelos
Agente de Cultura de Nova Cruz e presidente do Centro Potiguar de Cultura - CPC/RN

O PROBLEMA CONCRETO CONTINUA SENDO O DE MUDARMOS O MUNDO. MORDAÇA NOS QUE PENSAM DIFERENTE NÃO É A RESPOSTA

joão pereira coutinho

CANCELAMENTO ESTÁ MAIS PRÓXIMO

DO FASCISMO QUE DA DEMOCRACIA

1. Cultura do cancelamento: será que existe? E será que, existindo, é uma ameaça para a liberdade de expressão?

Estou confuso. Sobretudo depois de ler o texto confuso que Milly Lacombe escreveu para a Folha de S. Paulo. Que nos diz a autora?

Basicamente, que a cultura do cancelamento existe (oba!, já é um progresso). Mas não é uma ameaça à liberdade de expressão porque o objetivo é cancelar ideias e atitudes, não pessoas.

Lamento, Milly, não é o que tenho visto. Quando falamos em cultura do cancelamento, não estamos apenas a cancelar ideias ou atitudes (apenas uma ova: se fosse só isso, já seria aberrante). Cancelamos pessoas, sim, destruindo reputações e carreiras. E por quê?

Porque os cancelados revelaram em público ideias ou atitudes que não agradam à fúria irracional das redes sociais. Eis como, partindo de ideias e atitudes, chegamos facilmente às pessoas.

Mas o texto de Milly Lacombe assenta num erro mais básico: na própria definição de liberdade de expressão. Diz a autora que liberdade de expressão exige prudência, disciplina, respeito pelo outro. Porque as palavras podem ferir ou até matar.

Não duvido. É por isso, aliás, que existem tribunais: para punir abusos da liberdade de expressão, de acordo com a lei. Eu sei disso, até na qualidade de ex-condenado.

O problema é que as redes sociais não são tribunais nem atuam de acordo com a lei; são hordas anônimas que destroem à margem da lei, sem garantir ao acusado nenhum direito de defesa.

Para usarmos a palavra fatal, a cultura do cancelamento está mais próxima do fascismo do que da democracia propriamente dita.

Claro que essa conversa sobre a lei e o estado de direito pode parecer trivial para quem participa dos linchamentos virtuais. Também era trivial para os fascistas.

Mas basta imaginar o mundo do avesso para valorizarmos imediatamente essas relíquias: o que diria Milly Lacombe se a cultura do cancelamento, que hoje cancela posições mais conservadoras, desatasse a cancelar com a mesma fúria qualquer posição progressista?



Afora a arma agora ter mudado, seremos tão diferentes?


Será que a autora diria, com a mesma leveza, que “o que foi hoje cancelado pode ser descancelado – porque a vida é movimento”?

Ou gostaria que a lei pudesse defender quem é atacado selvática e injustamente só porque tem ideias ou atitudes diferentes da norma?

Esse é o problema de aprisionarmos a liberdade de expressão a um imperativo do respeito. Todos temos concepções diferentes de respeito: o que para mim pode ser uma verdade necessária é para o meu parceiro a violação de um tabu.

Para respeitar todo mundo, a humanidade ainda estaria nas cavernas. Para evitar ofender, nenhum preconceito seria criticado; nenhuma concessão desumana seria banida; nenhum abuso seria corrigido.

Bem sei que a autora não deseja esse mundo, que no limite seria o suicídio da sua arte e até da sua vontade de contestar "um modo de vida que nos desautoriza e deslegitima enquanto sujeitos”.

Mas até para contestar esse modo de vida é preciso mais liberdade de expressão, não menos. O que significa mais discussão e menos cancelamento.

Wong  luta contra a ditadura chinesa desde os 12 anos

2. Sempre que alguém defende a cultura do cancelamento no Ocidente, penso em Joshua Wong. Quem é Wong?

Um dos rostos da luta pela democracia em Hong Kong e autor de Unfree Speech: The Threat to Global Democracy and Why We Must Act, Now, uma espécie de autobiografia política.

Parece piada escrever uma autobiografia aos 23 anos. Mas quando lutamos pela liberdade a partir dos 12; quando somos presos pela primeira vez aos 17; quando passamos uma longa temporada no cárcere aos 20; e quando, aos 23, somos impedidos de concorrer às eleições legislativas de Hong Kong porque a ditadura de Pequim nos considera inimigos do regime, percebemos que a idade é um pormenor.

O livro de Wong, que também inclui o seu diário na prisão, é uma defesa dramática de certos direitos ou princípios que as sociedades ocidentais dão por adquiridos –eleições livres, liberdade de expressão, Judiciário independente etc.–, mas que se tornaram artigos ainda mais raros depois de a China aprovar a nova lei de segurança nacional.

Eis um retrato do mundo: em Hong Kong, jovens como Wong sacrificam tudo pelas liberdades mais básicas. No Ocidente, o sacrifício do momento é mandar calar a boca de quem não pensa como nós. (por João Pereira Coutinho).

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Fonte: https://naufrago-da-utopia.blogspot.com