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domingo, 25 de julho de 2021

A luta das mulheres negras latino-americanas, caribenhas e africanas contra a opressão racista e machista

 

O mês de julho traz duas datas simbólicas da luta das mulheres negras contra o racismo e o machismo. O dia 25 é reconhecido como Dia Internacional das Mulheres Negras Latino-Americanas e Caribenhas. No Brasil, também comemorado como dia de Tereza de Benguela, líder do quilombo do Quariterê. Já o dia 31 marca o Dia da Mulher Africana.

 

São datas que reafirmam a importância de resgatarmos a ancestralidade da luta e resistência das mulheres negras e, acima de tudo, para denunciar e combater a opressão racista e machista existentes na sociedade capitalista.

 

Ao longo da história, para as mulheres negras a combinação do machismo com o racismo sempre representou mais exploração e opressão, que se expressaram em estupros, mortes, maior desigualdade social e violência contra nossos corpos. No contexto da pandemia, seguem sendo as mais afetadas.

 

Ainda hoje as mulheres negras precisam atravessar a cidade, das periferias aos centros, para ganhar o pão de cada dia, enfrentando transportes públicos superlotados, onde enfrentam o grande risco de contaminação em plena pandemia e, ainda, sofrem diversos tipos de assédio.

 

A maioria ocupa precários postos de trabalho, que não permitem fazer trabalhos em home office, recebe baixos irrisórios, insuficientes para garantir um teto, comida à mesa e pagamento das contas básicas.

 

Fome e pandemia

 

De acordo com o IBGE, o número de mulheres responsáveis financeiramente pelos domicílios vem crescendo a cada ano e já chega a 34,4 milhões. Quando falamos em fome, é inegável que as mulheres negras e seus filhos são maioria nesta desoladora situação. É o que concluímos ao analisarmos o relatório da Rede Penssan (Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional).

 

Segundo pesquisa realizada, em dezembro de 2020, 116,8 milhões de pessoas estão em situação de insegurança alimentar ou passando fome no Brasil. Em 11,1% dos domicílios chefiados por mulheres, os habitantes estavam passando fome. Das residências habitadas por pessoas pretas e pardas, a fome esteve em 10,7%. Entre pessoas de cor/raça branca, esse percentual foi de 7,5%.

 

Outra crueldade pode ser constatada pelo levantamento da Campanha Despejo Zero. Desde março de 2020, com o início da pandemia de coronavírus no Brasil, mais de 14 mil famílias de 20 estados do país sofreram despejos e reintegrações de posse. Outras 84 mil famílias, de 25 unidades da Federação, dormem e acordam todos os dias sob a ameaça de remoção. E quem são as principais vitimas dessa perversidade do capitalismo? As mulheres, em especial, as negras.

 

Além da violação ao direito à moradia, as mulheres negras e suas famílias foram severamente afetadas pela pandemia. Dados oficiais do Ministério da Saúde mostram que, tanto para os casos de síndrome respiratória aguda grave (SARS) provocada pela Covid-19, quanto para os óbitos em decorrência da doença, as pessoas negras são as mais atingidas. Na cidade de São Paulo, os negros têm 62% mais chances de morrer de COVID-19 quando comparados aos não negros.

 

Desemprego

 

De acordo a Pnadc (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio), de 2020, a taxa de desemprego das mulheres negras cresceu 3,2%, atingindo a alarmante taxa de 19,8%, enquanto a de mulheres não negras aumentou 2,9%, chegando a 13,5%.  As trabalhadoras domésticas, que em sua grande maioria são negras, sentiram o forte efeito da pandemia em suas ocupações, uma vez que 1,6 milhões perderam seus trabalhos.

 

Esses números resultaram no agravamento da situação de pobreza e de exclusão social das mulheres negras. Assim, muitas precisaram sair de casa para buscar uma inserção, ou seja, escolher entre algum trabalho e renda ou a proteção de sua vida e da família. A redução, ou suspensão, do auxílio emergencial piorou a situação de penúria de muitas famílias que sofrem com o desemprego e falta de renda.

 

O trabalho não remunerado também é ocupado preponderantemente pelas mulheres negras. De acordo com o estudo “Outras Formas de Trabalho” – IBGE/2019, as mulheres negras dedicam mais horas ao trabalho doméstico não remunerado. Em 2019, 94,1% das mulheres pretas e 92,3% das pardas relataram fazer tarefas domésticas. A taxa vem crescendo desde 2016, quando foi de 91,7% para as pretas e 91,2% para as pardas. Entre as mulheres brancas, a taxa foi de 91,5%. Comparado aos homens, a diferença é ainda maior.

 

Violência

 

Outro elemento fundamental que impacta a vida das mulheres negras é a violência doméstica e o feminicídio.  Segundo pesquisa do Instituto Datafolha encomendada pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), divulgada no início de junho deste ano, jovens, negras e separadas são maior parte das vitimas de violência doméstica.

 

Alguns números sofreram uma redução falaciosa, como é o caso dos registros que dependiam da presença da mulher na delegacia, pois muitas vezes as vitimas estão confinadas em suas casas com seus agressores e com ainda mais dificuldade para fazer a denúncia. Mesmo assim, de acordo com dados publicados pelo Monitor da Violência, cerca de 75% das mulheres assassinadas no primeiro semestre de 2020 no Brasil são negras.

 

Aquilombar as lutas contra a exploração capitalista, o racismo e o machismo!

 

Se por um lado temos esses dados trágicos que revelam o peso da opressão e exploração machista e racista no capitalismo sobre as mulheres negras, de outro, também podemos verificar a enorme resistência de nossa classe.

 

Temos visto que as lutas que se espalharam pelo mundo nos últimos anos – dos EUA ao Haiti, passando pela África, Europa e América Latina -, têm cara negra, feminina e LGBTQIA+.

 

Nas greves operárias e na Educação, nas lutas quilombolas, ocupações de escola, na cidade ou no campo, contra a lgbtfobia, contra a cultura do estupro, contra a violência machista e policial, as mulheres estão na vanguarda, especialmente as negras.

 

Resistimos também contra os governos e suas duras medidas de ajuste fiscal, de ataques aos direitos, à aposentadoria, às liberdades democráticas, com criminalização das lutas e com mais machismo, racismo e LGBTQIfobia.

 

Seguiremos em luta e resistência!

 

Aquilombar as lutas contra o capitalismo, o racismo, o machismo e a LGBTQIfobia!

 

  • Reparações históricas já e políticas afirmativas contra o racismo!
  • Basta de feminicídio, violência machista e lgbtfóbica!  Não à cultura do estupro! Punição a todos os agressores!
  • Vacina para todas e todos, já! Testagem em massa contra a Covid-19! Investimentos no SUS! Não à privatização!
  • Auxílio emergencial de pelo menos R$ 600!
  • Congelamento dos preços dos alimentos e isenção das tarifas públicas!
  • Por empregos, direitos e renda. Trabalho igual, salário igual!
  • Moradia digna e transporte de qualidade!
  • Fim do genocídio da população negra, da violência policial e do encarceramento em massa de negros!
  • Não à reforma administrativa que pretende sucatear e privatizar os serviços públicos! Valorização dos servidores e serviços públicos!
  • Não à reabertura das escolas em meio à pandemia!
  • Pela titulação das terras quilombolas e demarcação dos territórios indígenas!
  • Fora Bolsonaro, Mourão e todos os genocidas, já!

Fonte: http://cspconlutas.org.br

 

Hoje na História, 25 de julho, Dia Internacional da Mulher Negra Latino Americana e Caribenha

Apesar de corresponder a 53% dos brasileiros, a população negra ainda luta para eliminar desigualdades e discriminações. São cerca de 97 milhões de pessoas e, mesmo sendo a maioria, está sub-representada no Legislativo, Executivo, Judiciário, na mídia e em outras esferas. Em se tratando do gênero, o abismo é ainda maior. Apesar da baixa representatividade de Mulheres Negras na política e em cargos de Poder e de decisão, cada ascensão deve ser comemorada como reconhecimento.

por Fabiana Yuka no Palmares

Para a presidenta da Fundação Cultural Palmares (FCP-MinC), Cida Abreu, o Brasil ainda se revela racista. As demandas do movimento social negro passaram a fazer parte da agenda política, a partir do governo ex-presidente Lula. O Estatuto da Igualdade Racial (Lei 12.288/2010), serviu de base para a elaboração do PPA. Tem sido a referência para as cotas nos concursos públicos e nas universidades, como um dos caminhos, a se percorrer para reduzir e reparar essas desigualdades, reforçou.

Feminismo Negro – A partir de 1992, em Santo Domingo, na República Dominicana, com a realização do 1º Encontro de Mulheres Afro-latino-americanas e Afro-caribenhas, criação da Rede de Mulheres Afro-latino-americanas e Afro-caribenhas e a definição do 25 de julho como Dia da Mulher Afro-latino-americana e Caribenha.

A data – A Lei nº 12.987/2014, foi sancionado pela presidenta Dilma Rousseff, como o Dia Nacional de Tereza de Benguela e da Mulher Negra. Tereza de Benguela foi uma líder quilombola, viveu durante o século 18. Com a morte do companheiro, Tereza se tornou a rainha do quilombo, e, sob sua liderança, a comunidade negra e indígena resistiu à escravidão por duas décadas, sobrevivendo até 1770, quando o quilombo foi destruído pelas forças de Luiz Pinto de Souza Coutinho e a população (79 negros e 30 índios), morta ou aprisionada.

Homenageadas – Assim como Tereza, outras mulheres foram e são importantes para a nossa história. Com trabalhos impecáveis e perseverança, elas deixaram um legado, que cabe a nós reverenciarmos e visibilizarmos a emancipação das mulheres negras, como forma de homenagear; Antonieta de Barros, Aqualtune, Theodosina Rosário Ribeiro, Benedita da Silva, Jurema Batista, Leci Brandão, Chiquinha Gonzaga, Ruth de Souza, Elisa Lucinda, Conceição Evaristo, Maria Filipa, Maria Conceição Nazaré (Mãe Menininha de Gantois), Luiza Mahin, Lélia Gonzalez, Dandara, Carolina Maria de Jesus, Elza Soares, Mãe Stella de Oxóssi, entre tantas outras

Fonte: https://www.geledes.org.br

Gastos do governo com pandemia caem de R$ 218 bi para R$ 49 bi no primeiro semestre

 

​​Foto: Rovena Rosa/ Agência Brasil​​​​​

Nos seis primeiros meses deste ano, enquantoa pandemia atingia seu maior pico no Brasil, o governo executou apenas o equivalente a 22% do orçamento destinado ao combate à Covid-19 no mesmo período em 2020.

Entre janeiro e junho do ano passado, a despesa do governo federal para este fim foi de R$ 217,7 bilhões, enquanto nos mesmos meses de 2021 este valor foi de apenas R$ 49,3 bilhões, conforme o Siga Brasil - sistema de informações sobre orçamento público federal.

Vale lembrar que, em 2020, a pandemia teve início apenas em março e ao final do semestre contabilizava 60 mil óbitos. No entanto, no mesmo período de 2021, a Covid-19 vitimou 306 mil pessoas.

O aumento do número de casos e de óbitos no final de 2020 e a aproximação da temporada de férias e festas de fim de ano já anunciavam que a situação em 2021 não seria muito distinta daquela de 2020. Ainda assim, o governo cortou os investimentos relativos ao enfrentamento da pandemia.

Auxílio emergencial 4 vezes menor
Dos cerca de R$ 100 bilhões liberados para 2021 para o combate à Covid-19 , 43% destinaram-se à extensão do auxílio emergencial, neste primeiro semestre. O montante é cerca de quatro vezes menor do que foi autorizado no ano passado, sendo que os níveis da fome e do desemprego recentes atingiram patamares ainda mais alarmantes.

Os números fazem parte do balanço que o Instituto de Estudos Socioeconômicos (Inesc) fez sobre os gastos do Orçamento Geral da União de janeiro a junho de 2021. O levantamento monitorou o uso da verba federal em dez diferentes áreas: enfrentamento da pandemia, saúde, educação, direito à cidade, meio ambiente com ênfase no Ibama, crianças e adolescentes, igualdade racial, quilombolas, mulheres e povos indígenas.

Considerando todo o ano de 2021, o montante orçado para conter as crises sanitária, econômica e social provocadas pela pandemia ficou em R$ 98 bilhões, valor quatro vezes menor do que a União alocou no ano passado (cerca de R$ 400 bilhões) por meio de seis iniciativas: o Auxilio Emergencial, o Benefício Emergencial de Manutenção do Emprego e da Renda, o Pronampe, o Programa Emergencial de Suporte a Empregos, o Auxílio a Estados e Municípios e recursos para à Saúde.

Cleo Manhas, assessora política do Inesc, afirma que o governo federal impediu o Ministério da Saúde de realizar amplas campanhas de esclarecimento e de informação e sabotou a aquisição de vacinas. “Sem prorrogar o estado de calamidade pública em 2021, o governo encaminhou para o Congresso uma proposta orçamentária que ignorava a pandemia”, afirma.

Na avaliação da pesquisadora, o Poder Legislativo também é culpado pelo grave impacto social da pandemia na população brasileira. “Demorou três meses para o orçamento deste ano ser aprovado na Câmara e no Senado e, entre barganhas e negociatas, restaram pífios recursos para a pandemia, aumentando a dependência de créditos extraordinários. Os gastos extra-orçamentários ocorrem por meio de medidas provisórias (MPs) e ficam de fora do cálculo estabelecido pelo Teto de Gastos. No fim, o dinheiro é gasto da mesma maneira, mas seu uso não é contabilizado na meta do déficit primário”, explica.

O primeiro semestre de 2021:

- Foram registradas 3 mil mortes por dia, em dias de pico;

- 306 mil mortes por Covid-19 durante o período

- 70% mais óbitos do que os registrados em todo o ano de 2020;

- 4 vezes menos recursos para enfrentar a pandemia e suas consequências do que em 2020;

- R$98 bilhões autorizados, versus R$ 398,7 bilhões em 2020;

- Zero centavo para apoiar estados e municípios;

- Apenas 14% da população foi totalmente imunizada;

- 4 meses de dinheiro represado, devido ao atraso na aprovação da LOA.

Fonte: Inesc, com edição do ANDES-SN

Cartilha: Direito dos Docentes – PROIFES-Federação - "Vale a pena LÊ DE NOVO!" - CPC-RN

O PROIFES-Federação lançou uma cartilha para informar aos docentes das Instituições Federais de Ensino do Brasil um resumo dos seus direitos e breves orientações do que fazer caso sejam vítimas de assédio, invasão de sala de aula, gravação e exposição indevida de vídeos, ofensas, ameaças e violências.

O docente tem o direito constitucional de liberdade de ensinar, que consiste em não sujeição a censura em respeito aos princípios da liberdade de aprender, ensinar, pesquisar e divulgar o pensamento, a arte e o saber e o pluralismo de ideias e de concepções pedagógicas (arts. 205 e 206 da Constituição Federal).

Acesse AQUI a cartiha completa do PROIFES:

Fonte: PROIFES

sábado, 24 de julho de 2021

“Transespécie mitológica”, com Thia Sguoti

 Imagem: “Sereia-me”

Por Amanda Olbel / @planetafoda

Thia Sguoti  é artista plástica e performer, não-binarista, e possui uma conexão fortíssima com o elemento água e o universo fantástico. Isso se reflete em seu trabalho, onde representa as imagens hibridas entre os mundos do real e do imaginário mitológico, fazendo alusões com sentimentos de pertencimento social e as dificuldades de um corpo LGBTQIAP+, através de autorretratos.

A artista se considera alguém que gosta de buscar soluções a partir de suas próprias criações, isso desde criança. Se não tinha o dinheiro para investir em um estojo, um brinquedo, uma roupa, ela mesma inventava uma forma de materializar aquilo. O mesmo foi com sua primeira cauda de sereia, feita em látex, que a princípio eram encontradas somente em sites estrangeiros para comprar por preços exorbitantes.

“Eu pensava, ‘nunca vou conseguir comprar uma para mim, então eu mesma vou fazer’. E assim eu executei, num dos meus maiores trabalhos que me rende muito até hoje. […] Me considero uma pessoa meio multifacetada, quero fazer um pouco de tudo, então não me contento só com o corpo: quero fazer desenho, pintura, vídeo… e gosto de explorar todas as possibilidades do meio artístico”

A Sereia, como qualquer pessoa que tiver acesso ao trabalho de Sguoti, pode perceber que é protagonista em suas obras, e diz se sentir até “doente” quando tenta fazer algo sem a presença dessas figuras fantásticas. Já investigou o porquê de ter essa ligação espiritual afetiva, cheia de fascinação, e acredita em ser pelo fato de também se apresentarem como metáfora – e símbolo -, para uma questão de identidade, transgeneridade, e até possivelmente como uma transespécie, como podemos ver em sua série de fotografias “Transições”.

Imagem: Arquivo pessoal

Faz citações ao conto da “Pequena sereia”, em que a personagem deseja conhecer um outro mundo, mas tem medo de descobrirem a verdade sobre ela, e de acordo com a artista, isso conversa muito com as identidades trangeneras, até por essas lendas serem contadas de forma pejorativa.

“O popular da sereia é conhecido pelo que se tornou popular delas dessa forma pejorativa, como acontece com qualquer LGBT, quando falam da gente sem ter propriedade. Vemos tanta coisa falando a respeito de nós, mas não são pessoas como nós falando da gente. Acho que é daí minha conexão com elas”.

A sua fascinação pela inversão da hibridez da sereia, é um tanto análoga a do artista Renè Magritte, um dos primeiros a representá-las com a cabeça de peixe e as pernas de mulher. Lógico que não tiveram esse contato, mas acredita que a sacada possa ter sido a mesma, como exemplo em sua pintura “Cara de Trans”. E quando ocorre essa mudança na figuração da quimera, surge o questionamento:  ela continua sendo uma sereia? Se a resposta for negativa, o porque disso? Por ter se tornado feia? Partindo desse pressuposto, o que é então Beleza? O que é Grotesco?

Imagem: “Cara de Trans”

Quando começou a fazer essas inversões, a artista também esbarrou em pesquisas sobre espécies de peixe e pássaros que nascem inteiramente fêmeas ou macho e passam por uma mudança de sexo. E o que é muito interessante do meio animal é que não tem o dimorfismo sexual, ou seja, externamente continuam sendo a mesma coisa. Não se vê tanta diferença. Precisa-se até de um especialista para conseguir designar e descobrir o sexo do animal.

“O que ilustra mais ainda de que o gênero não existe e é alguma coisa humana, ou pelo menos não precisa ser regrado do jeito que é:  o gênero também é arte. É uma ferramenta incrível de expressão de personalidade e corporação. E não tem que estar relacionado e associado ao seu sistema reprodutor. Os animais fazem essa dinâmica, mas nada relacionado a gênero, a cortejo ou coisas assim. Eles têm ouros métodos da maneira deles que vai além da nossa compreensão. Então foi uma maneira de fazer alusão às identidades e fluidez de expressão de gênero e corporeidade”.

Imagem: “Transições”

No começo de suas pesquisas sentia uma necessidade de falar sobre saúde mental, e inconsciente, com bases de pensamento freudiano. E de uns tempos para cá vem aderindo pensamentos mais exotéricos. Revela ter durante muito tempo, romantizado transtornos de personalidade que não tinha, mas foi levada a crer que sim. Somente após, foi entender que isso era um reflexo de sua identidade não binária sendo incompreendida, permitindo com que se olhasse de maneira muito mais cuidadosa para si mesma. Logo, seus trabalhos foram ressignificados a partir desse momento.

“Me senti como se tivesse sendo uma expectadora da minha própria obra, mesmo tendo eu mesma gerido ela. De qualquer forma me senti no lugar do público. Num espaço de público –autor.”

A poética de Thia permeia o que é presente no dia a dia; questões na pauta de gênero e identidade, como formas disruptivas de existir nesse mundo fora dos padrões de beleza. Passando um pouco pelo que é ou não considera belo, se deslocando do sistema hétero-cis-branco-normativo, que nos impossibilita de acessarmos a verdadeira essência de praticamente tudo.

“Não diria que ela mudou, mas foi se redescobrindo. Acredito que a poética de um artista caminha muito com a própria vida e biografia da pessoa. Quando comecei meus primeiros trabalhos autorais, usei minha maior fonte de inspiração e conhecimento, que seria minha própria vida. Acho que explorando esses caminhos posso ser mais fiel ao que eu quero passar; parece que se estou em cena fico muito mais satisfeita com meu trabalho. É uma coisa até meio Frida Kahlo”.

Essa ligação com os seres da água tem a ver com um inconsciente profundo e de todas as propriedades simbólicas que ela tem como um elemento que compõe quase 80% do nosso corpo.   E até a água salgada que limpa e energiza. A água pode ser esse lugar de encontro e intimidade. E a série do chuveiro, por gostar muito de se autor retratar, surgiu de forma intuitiva, por considerar essa relação do banho com a água um momento ritualístico, nesse espaço de dissolução de si mesmo, com a possibilidade de regeneração.

Imagem: MasQUEERada

Imagem: MasQUEERada

Percebemos também uma presença da cor vermelha com uma certa preferência nas pinturas e fotografias da artista. Seja na composição geral, em que ela ocupe o quadro todo, seja por um detalhe pequeno no batom.

[Pergunta]: Quais suas intenções ao fazer uso dessa paleta?

[Resposta]: “O vermelho para mim, como boa aquariana, vem de um desejo de sempre tentar trazer uma versão alternativa de tudo, assim como nas sereias. E quando a gente pensa nelas, logo vem o mar azul, mas decidi que as minhas seriam de um mar vermelho. Acho que é uma cor muito dual, e acho que esse dualismo me interessa muito. Que é uma cor que pode remeter paixão e perigo, sensualidade ou tensão. Vida ou morte. Eu gosto muito dessa dualidade.

Em outros sentidos, como na moda por exemplo, o vermelho é um ponto que na composição da roupa, se torna uma liga. Engraçado como algo monocromático fica tão bem ao lado de um vermelho. E também trabalha bem com outras cores com uma paleta, como nos meus trabalhos, que é mais desbotada e terrosa, até um pouco mais clara. De qualquer forma, ele tem uma vibração que me interessa”.

A série da MasQueerada é um retrato artístico decorrente da pandemia, que muitos artistas compartilharam do sentimento urgente em falar sobre. Durante esse período, Sguoti começou a estudar mais sobre gênero e identidade e junto a isso, ter algumas experiências em relação aso uso obrigatório da máscara. Situações como ir ao mercado ou aos correios, o uso da máscara provocava uma leitura diferente a cada momento de sua identidade.

“Às vezes, que eu não estava afim de me arrumar e colocava um moletom que não sugere nada, a máscara (por obrigação e cuidado), e meus cabelos soltos, – que acredito que como estão grandes, tenha uma influência na leitura da minha identidade. Por esse elemento da máscara esconder praticamente 50% da nossa face, percebia as pessoas me chamando de “ela” com naturalidade.  E para uma pessoa trans não binaria, a gente pode estar com todos os artifícios que a gente espera que vá gerar a leitura certa da nossa identidade, no caso de uma feminina. Mas só pelo fato desse olhar escaneador da sociedade perceber um pelinho no nosso rosto que seria um resquício de barba, vai ignorar tudo para se direcionar a gente de acordo com o gênero que ela assimila a barba (que seria o masculino). Então percebi o como a máscara meio que até de certa foram estava protegendo a gente porque escondia essa parte do rosto”

Imagem de Fishy (vídeo/cor 4’35’’ 2019)

Por conta de no mesmo período estar estudando Buttler, Foucault e Lacan, nessas suas leituras esbarrou com o conceito de “Mascarada”, principalmente a versão lacaniana, bem literal nesse momento em que estamos usando máscaras em ordem mundial.

Logo, se sentiu inspirada para desenvolver aquarelas sobre o papel, com parte do rosto de pessoas de seu convívio, focado em trans masculinas, trans femininas e não binarias, que foram importantíssimas para o meu processo de descoberta.

Ressalva ainda que o projeto não se encontra finalizado, e no presente momento está em fase de estudo. As aquarelas serviram como protótipo, e agora está trazendo para a materialidade do objeto através de máscaras de pano, saindo assim do bidimensional da pintura e se transformando em objeto, que pode ser lido e ativado.

“O fato de ver um objeto de arte vai despertar a vontade de experimentar, ver como fica, e isso pode gerar reações cômicas, vestir um rosto que não é seu. E pruma pessoa que não teve acesso prévio ao conteúdo do tralho, vai se perguntar de quem é o rosto. Isso entranha nas questões de passibilidade com pessoas trans, e enfatiza o conceito de mascarada. Que seria essa performatividade que a gente tem que fazer: passar uma imagem e não sofrer uma retaliação. Desses rostos, alguns tem uma passibilidade grande, outros não. E eu quero que as pessoas pensem de quem são as pessoas que usam essas máscaras diariamente, mesmo antes da pandemia, para se proteger de uma lgbtfobia que nos mata há anos”.

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Thiago ‘Thia’ Sguoti vive e trabalha em São Paulo, e é formada em licenciatura em Artes Visuais pelas Faculdades Metropolitanas Unidas. Já participou de exposições coletivas e individuais como 69º Salão de Abril e o 25º SAV, e o MUTHA primeiro Museu Transgênero de História e Arte do Brasil. Há um ano faz parte de um dos grupos de acompanhamento de artistas do Ateliê397.

Para acompanhar seu trabalho siga o perfil @Sguoti, onde compartilha fotos pessoais e de suas obras. E para os próximos #ArtistasFOdAs, nosso perfil @planetafoda, frente de mobilização LGBTQIAP+ da Mídia NINJA.

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Fonte: Mídia Ninja