Postagem em destaque

Secretária em test-drive, Regina Duarte já defendeu cortes na cultura e atacou indíos

No ano passado, por exemplo, em entrevista ao jornalista Pedro Bial, da TV Globo, a atriz chegou a defender os cortes de verbas do govern...

domingo, 4 de março de 2018

Os estrangeiros do Oscar fogem do “clichê regional”

oscar
Por José Geraldo Couto*
Diferentemente do que costuma ocorrer, nenhum deles se baseia em exotismos, em “cor local”, interesse etnográfico ou algum grande evento histórico. Com a possível exceção do libanês O insulto, de Ziad Doueiri, que aborda em chave de drama judicial as tensões culturais e religiosas de sua região, todos os outros poderiam se ambientar virtualmente em qualquer lugar do mundo urbano contemporâneo.
O que acabei de dizer é verdade apenas em parte. Pois é claro que as constrições morais que cercam a protagonista transexual do chileno Uma mulher fantástica, de Sebastián Lelio, teriam outro tom e intensidade se a história se passasse, por exemplo, num país nórdico e não na América Latina. Inversamente, as questões culturais e políticas urdidas no sueco The square, de Ruben Östlund, dificilmente encontrariam uma expressão tão límpida fora da sociedade afluente e ultracivilizada da Escandinávia.
Amor e desamor

Nessa linha de raciocínio, pode ser interessante observar em conjunto, ou em cotejo, os dois representantes do leste europeu, o russo Sem amor, de Andrey Zvyagintsev, e o húngaro Corpo e alma, de Ildikó Enyedi, a única cineasta mulher concorrendo na categoria.

Ambos são dramas urbanos contemporâneos, centrados em afetos esquivos, abortados ou insuficientes entre personagens de classe média, sem grandes carências materiais.
Por coincidência, os dois começam com imagens quase idênticas: um bosque embranquecido sob a neve. No russo, porém, a imagem é de total desolação, em que o único sinal de vida é um quase imperceptível pato deslizando no lago no fundo do quadro; no húngaro, surgem e interagem dois cervos: um macho, de galhada frondosa, e uma fêmea. Aí está inscrita talvez a diferença essencial entre as duas obras: o húngaro é um filme de amor; o russo, de desamor.
“Os corpos se entendem, mas as almas não”, escreveu Manuel Bandeira num verso memorável. Sem amor e Corpo e alma podem ser vistos, se quisermos, como diferentes desdobramentos ou questionamentos dessa afirmação.
No filme russo, o menino Alyosha (Matvey Novikov), de 12 anos, vê-se rejeitado pelos pais recém-separados (Maryana Spivak e Aleksey Rozin). Imersos em novos relacionamentos e absorvidos por seus trabalhos, nenhum dos dois quer ficar com ele, que parece destinado a um internato. Até aí nada de novo, pelo menos desde o romance Pelos olhos de Maisie, de Henry James. A novidade é que aqui um belo dia o menino desaparece, e o restante do filme passa a ser a procura por ele.
Há uma construção narrativa enxuta e rigorosa, que de certo modo espelha a busca sistemática por Alyosha, empreendida por uma ONG especializada em pessoas desaparecidas. Nas elipses precisas, nos diálogos objetivos, na sutileza das trocas corporais, na definição clara dos espaços (os apartamentos, a escola, o bosque, os locais de trabalho, a casa rural da avó maluca, o hotel ou clube em ruínas que os meninos usavam como esconderijo, etc.), configura-se um suspense lento, em cujas frestas o filme como que secreta seu tema, sua quase-tese, da esterilização dos sentimentos, da “morte do amor”, para dizer de um modo dramático, no mundo atual.

Trailer de Sem Amor:

Corpo e alma

Em Corpo e alma, passamos quase sem transição das imagens dos cervos em liberdade para a de bois confinados num matadouro. Assistimos mesmo ao sistemático abate e esquartejamento de um deles – e é dessa ação brutal que o quadro se abre para o ambiente em que se moverão os personagens: estamos num frigorífico moderno, local de trabalho dos protagonistas, o veterano diretor financeiro Endre (Morcsányi Géza) e a jovem supervisora de qualidade Mária (Alexandra Borbély).

É interessante observar a direção desse movimento: do animal para o humano (e a diretora faz questão de nos colocar brevemente no ponto de vista do boi), do carnal para o social, para o psicológico e, em última instância, para o espiritual. O corpo vem antes, a alma depois. A relação entre os protagonistas, porém, parece ir na contramão dessa tendência. Antes de pensar em se aventurar no contato físico eles se (des)entendem no plano intelectual.
Em comparação com o realismo psicológico implacável do russo Zvyagintsev, o olhar da diretora Ildikó Enyedi é mais empático, afetuoso, apesar da aparente crueldade inicial, que enfatiza as faltas ou deficiências de cada um: o braço paralisado de Endre, a postura robótica de Mária, a pusilanimidade de um colega de trabalho, a desfaçatez de outro…
Mais que isso: Enyedi não teme romper a verossimilhança e lançar mão de uma ideia quase pueril: dois personagens que têm simultaneamente o mesmo sonho, como se o inconsciente de um estivesse em perfeita sintonia com o do outro. Do ponto de vista de um realismo convencional, haveria inúmeras outras fragilidades e inconsistências no filme, entre elas o descabido interrogatório dos funcionários do frigorífico por uma psicóloga, no bojo de uma igualmente descabida investigação policial sobre o furto de estimulantes sexuais bovinos do laboratório da empresa.
A partir de certo momento, fica claro que para a cineasta nada disso (isto é, dessas regras de verossimilhança, de coerência lógica e psicológica) importa. Estamos no cinema, é tudo construção e fantasia, deixa correr, o importante é ver depois aonde vamos chegar. E o lugar aonde chegamos é cinema puro: uma das mais belas sequências de tentativa de suicídio já filmadas é seguida quase imediatamente por uma cena de sexo não tão bela, mas igualmente inspirada. A violência e o amor, a carne e o espírito, traduzidos em imagens em movimento. Por um momento os corpos se entendem e as almas também.
Trailer de Corpo e Alma: 
*José Gerado Couto é crítico de cinema e tradutor. Publica suas criticas no blog do IMS

Nenhum comentário:

Postar um comentário