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quinta-feira, 7 de setembro de 2017

Polícia Federal: A lei é para todos, a ficção que cimenta a realidade

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Por Eliane Pereira
Os produtores do longa metragem classificam o filme como thriller político. A produção segue quase toda a receita do gênero: cenas eletrizantes de perseguição de carros, pessoas encrencadas com a justiça fugindo da polícia, muita inteligência e dedução lógica nos bastidores da investigação que ficou conhecida como a maior operação de combate à corrupção do Brasil. Mas deixa de cumprir um dos pré-requisitos do gênero: falta suspense.
O filme conta a história da operação Lava Jato pelo ponto de vista da Polícia Federal. O ângulo ajuda a aproximar o público dos protagonistas, os delegados interpretados pelos globais Antonio Calloni, Flávia Alessandra e Bruce Gomlevsky. Mas ao escolher o olhar da polícia, o filme repete versões e fatos pisados e repisados pela imprensa e acaba se tornando previsível. Pontos controversos da operação que revelam mais abuso que inteligência foram esquecidos pela narrativa, como o grampo clandestino instalado na cela do doleiro Alberto Youssef ou os vazamentos que ajudaram a criar o clima propício para o impeachment de Dilma Roussef.
Outra ausência do filme são os meios de comunicação, em especial, a dobradinha Globo & Polícia Federal. Qualquer jornalista que tenha acompanhado uma única operação da PF já sabe como funciona o esquema: a TV Globo recebe as informações a tempo de preparar equipes, recuperar imagens, fazer entrevistas e levar ao ar cenas quentes e espetaculares das investigações policiais. Os outros jornalistas, salvo raras exceções, são avisados na hora em que os mandados já estão sendo executados pelos policiais. Esse trabalho afinado não aparece no filme.
A imprensa, que teve papel determinante na Lava Jato, aparece como simples figurante no thriller. É representada por uma coleção de atores desconhecidos que tentam imitar os trejeitos dos jornalistas escalados para cobrir anos de operação. Uma única personagem ganha destaque em meio à massa amorfa: uma repórter estridente e raivosa, que parece representar uma caricatura dos blogueiros de esquerda.
“O interessante do filme é mostrar também o contraponto. Se eu pegar a imprensa e colocar ela como sendo pró o pensamento deles [delegados da Operação Lava Jato], eu não estou trazendo nada de novo”, explica o diretor Marcelo Antunez. Ele categorizou os jornalistas do filme em dois grupos: “quando a imprensa aparece, ela aparece de duas maneiras. Ela aparece de uma maneira completamente imparcial (…) e tem uma pergunta no momento em que começa a esbarrar na política [referindo-se à pergunta da repórter raivosa se a Lava Jato quer prejudicar o PT]. A gente queria mostrar muito esse contraponto que estava de questionamento que eu acho que é saudável”. Chama atenção o cuidado de Antunez em não usar o antônimo de “imparcial” para se referir aos jornalistas que dão o tom desse contraponto fazendo críticas à Lava Jato. Antunez também não discute porque o tal contraponto se aproximou tanto do estereótipo do “petralha”.
Parcialidade

Escolher a voz da imprensa para marcar o contraponto de opiniões sobre a Lava Jato afasta a ficção da realidade. Para o cientista político da UERJ, João Feres, um dos coordenadores do site de monitoramento da grande mídia Manchetometro, a maior carência da cobertura da Lava Jato foi justamente a imparcialidade. “A cobertura da Lava Jato, a partir da eleição da Dilma em 2014, ganha um impacto muito grande na cobertura da política em geral. E o que você vê é a Lava Jato sendo associada à Dilma, à Lula e ao PT. A cobertura da política foi escandalizada e ela foi usada para atingir particularmente esses atores políticos”.

Para Bia Barbosa, do coletivo Intervozes, que defende a democratização da mídia, a parcialidade da cobertura jornalística da Lava Jato não está restrita a tendências partidárias. Ela lembra que os próprios métodos controversos da operação não ganham visibilidade. “Existe um debate acontecendo no Brasil sobre os limites da operação Lava Jato, a ponto de você ter especialistas do campo jurídico falando que a operação está sendo conduzida completamente à margem da lei. Mas a mídia não dá voz a esse debate”.
A professora Vera Karan, diretora da Faculdade de Direito da Universidade Federal do Paraná, escola onde Sérgio Moro também dá aulas, está entre os especialistas que fazem crítica à Lava Jato. A princípio, ela torcia para que o filme ajudasse a registrar as controvérsias da operação. “Eu gostaria que esse filme problematizasse e colocasse as contradições que estão tanto no sistema de segurança pública, quanto no sistema de justiça, para que aquele que assistisse formasse seu juízo”. Para ela, as pessoas não tiveram a chance de fazer isso, justamente porque a mídia não tem pautado essas questões ao assumir apenas “uma versão da história”. Depois da entrevista, a professora assistiu ao trailer do filme. Numa segunda conversa, disse que enterrou as esperanças de ver uma narrativa mais sofisticada da Lava Jato.
Cimentando a versão

Além dos jornalistas interpretados por atores, o filme também lança mão de uma matéria da repórter veterana da TV Globo, Delis Ortiz, que foi ao ar no turbulento 16 de março de 2016. Delis fechou a matéria do Jornal Nacional sobre a nomeação do ex-presidente Lula como ministro chefe da Casa Civil, medida que foi interpretada como subterfúgio para garantir foro privilegiado ao ex-presidente. “Argumentos à parte, fato é que Lula no Ministério implica o direito ao foro privilegiado, ou seja, ele escapa das mãos do juiz Sérgio Moro em Curitiba”, sintetiza Ortiz.

Perguntado por que usar a jornalista global para ajudar a contar a história na ficção, Marcelo Antunez é categórico. “Acho que dá uma credibilidade. Eu, particularmente, quando vejo filmes baseados em fatos reais e vejo assim (…) cara isso é legal! Eu gosto. Acho que dá uma… sabe, dá uma credibilidade para o que está sendo dito. Sei lá, eu acho interessante, foi uma decisão que eu achei bacana. Eu podia mesmo ter colocado uma atriz lá, sei lá… Eu curti assim”.
No filme, assim como no Jornal Nacional, a versão que predomina é de que o ex-presidente tentou fugir das mãos da Justiça.
Bia Barbosa vê com desconfiança essa sintonia entre a narrativa ficcional e o discurso global. “Quando você completa essa narrativa jornalística e, portanto supostamente verdadeira, com um filme que vai ser lançado e que vai alcançar um público que muitas vezes não acompanha a operação do ponto de vista jornalístico, você aciona o imaginário de uma parte da população com outra linguagem audiovisual que, diferente do telejornal, tem todas as suas prerrogativas de maior liberdade de criação. Você cria um componente bastante perigoso de como a população vai consolidar sua visão sobre essa operação”.
Porém, a equipe de “Polícia Federal: a Lei é para Todos” nega qualquer tentativa de cimentar uma visão sobre a Lava Jato e adotou como uma espécie de mantra a ideia de que o único objetivo do filme é fomentar um debate saudável na sociedade. Durante a coletiva de imprensa realizada em São Paulo, em uma das pré-estreias do filme, a palavra debate e suas variações foram usadas 17 vezes por diferentes integrantes da equipe. A entrevista durou 64 minutos.
Mas apesar do discurso bem amarrado, a atriz Flávia Alessandra, que interpreta a delegada Érica, deixa escapar desejos de influência mais explícitos. Faz isso ao falar sobre o que espera dos jovens em relação ao filme. “Eu acho que para os jovens, a melhor forma de aprender, de se inteirar é via arte. Pode ser um caminho pros jovens que já votam, que talvez ainda estejam meio perdidos, que não tenham ainda entendido, conhecer a história de quando eles tinham 12, 13 anos, de quando tudo começou, e pra eles serem mais conscientes. Porque, não é piegas o que a gente vai falar, mas eles são responsáveis, sim, pelo nosso futuro. Eles são maioria, eles vão votar”.
Se depender do cronograma de distribuição e exibição do filme, os desejos de influência tem tudo para se concretizar. Depois da estreia nos cinemas, “A Lei é Para Todos” vai ser exibido na Rede Telecine, rede de canais por assinatura da Globosat, que pertence ao Grupo Globo. A data ainda não foi definida, mas o contrato de parceria foi firmado desde o início, segundo o produtor do filme Tomislav Blazic. Blazic também garante que o filme vai para a TV aberta. Claro, a Globo. Se as contas de especialistas do mercado cinematográfico estiverem certas, o tempo médio para um filme sair dos cinemas e alcançar a TV aberta varia entre 4 a 5 meses. Vai dá para começar o ano eleitoral de 2018 vendo a história da Lava Jato na Tela Quente.
Os globais e a lei

O elenco de “Polícia Federal: A Lei é Para Todos” é formado por atores que ganharam fama pelas novelas da Rede Globo. No mercado cinematográfico, contar com estrelas globais é meio passo para boa bilheteria.

Antonio Calloni, Flávia Alessandra e Bruce Gomlevsky são os protagonistas. Ary Fontoura, Marcelo Serrano e Roberto Birindelli, coadjuvantes. Eles interpretam personagens de destaque na história recente do país. Longe dos roteiros de ficção, também assumiram posições políticas em relação à Lava Jato. Veja quem é quem na ficção e na vida real:
Antonio Calloni / Ivan Romano

Antônio Calloni dá vida a Ivan Romano. O delegado que coordena as investigações na ficção foi inspirado em Igor Romário de Paula, coordenador da Lava Jato na Polícia Federal de Curitiba. Em outubro de 2014, Igor deixou transparecer que compartilhou uma foto em que o então candidato à presidência, Aécio Neves, aparecia cercado de mulheres e escreveu: “esse é o cara”.

No dia seguinte, compartilhou o editorial da revista The Economist, que defendia o voto em Aécio Neves para o bem do mercado. Já o global Antônio Calloni pediu “Fora Dilma”, mas acha que depois do afastamento da presidenta não adianta ficar pedindo “Fora Temer”. Defende a reforma política e se joga de cabeça no discurso de combate à corrupção. Calloni não esconde a estima que guarda pela turma da República de Curitiba.
Ary Fontoura / Lula
Ary Fontoura interpreta Lula, que no filme continua sendo Lula. A participação só acontece no final, na cena da polêmica condução coercitiva do ex-presidente. Ary Fontoura é veterano na Globo e comemorou 60 anos de carreira no Domingão do Faustão a uma semana da aprovação do impeachment de Dilma Roussef.
Nesse dia, defendeu a saída da presidenta e refutou o uso da palavra golpe para se referir ao impeachment. O ator também faz duras críticas a Lula e não quis se encontrar com o ex-presidente para ajudar a compor o personagem.
Bruce Gomlevsky / Márcio Anselmo

Bruce Gomlevsky vive o delegado Júlio Cesar, inspirado em Márcio Anselmo. Na vida real, Márcio foi o primeiro coordenador da Lava Jato.

Bruce Gomlevsky tem carreira fértil no teatro e vive de papéis secundários na TV Globo. O que chama atenção é o alinhamento político do personagem interpretado por Bruce em “A Lei é Para Todos”. Enquanto Júlio, o delegado inventado, declara no meio do filme que fez campanha para o PT, Márcio Anselmo fazia campanha para Aécio em 2014. Em fevereiro, Márcio Anselmo foi transferido para a corregedoria da PF no Espírito Santo.
Flávia Alessandra / Érika Mialik Marena

Flávia Alessandra encarna Beatriz, personagem que tem como referência a delegada Érika Mialik Marena, que batizou a Lava Jato. Em novembro do ano passado deixou de integrar a equipe da Lava Jato e assumiu a superintendência da PF em Santa Catarina.

Já a atriz Flávia Alessandra é ativa nas redes sociais, mas passa longe do debate político. A atriz, que também é advogada, defende as 10 medidas contra a Corrupção e ajudou a convocar as pessoas para a manifestação no dia 4 de dezembro contra as alterações propostas pelo Congresso no projeto do Ministério Público.
Marcelo Serrado / Sérgio Moro
Marcelo Serrado encarna o juiz Sérgio Moro. A participação do personagem Moro no filme é contínua, mas pontual, quase um pano de fundo. O juiz ganha mais destaque quando é preciso decidir pela condução coercitiva do ex-presidente Lula.
Já o global Marcelo Serrano foi ativo nas passeatas contra corrupção e encabeçou o grupo de estrelas que pediu o impeachment. Trocou as camisas da CBF pelo amarelo do #MoroBloco, grupo de seguidores do Moro e que compartilha carros de som com grupos de extrema-direita como o MBL e o Vem Pra Rua.
Serrado está no time dos artistas que fez campanha para Aécio Neves, com direito a depoimento em horário eleitoral. Sérgio Moro, o juiz, também mostra certa proximidade com os tucanos. A foto mais emblemática é a da conversa ao pé da orelha com Aécio Neves.
Roberto Birindelli / Alberto Youssef

O ator uruguaio Roberto Birindelli é outro global de papéis secundários. No filme também não é protagonista, mas interpreta um personagem chave: o doleiro Alberto Youssef. Birindelli recusou o papel várias vezes.

Em entrevista ao site AdoroCinema, explicou o receio: “fazer um filme da Lava Jato é uma insensatez (…) Não há o distanciamento histórico e nem a compreensão necessária”. Mas disse que acabou aceitando o convite pela complexidade do personagem.
Youssef está amarrado ao juiz Sérgio Moro desde o caso Banestado, quando o doleiro foi beneficiado por uma delação premiada numa época em que ainda não havia nem lei sobre isso.
Foi preso em 2014, pela Lava Jato, e condenado a quase 122 anos de prisão por corrupção passiva e lavagem de dinheiro. Mas foi beneficiado mais uma vez pela delação premiada e conseguiu uma redução da pena para três anos em regime fechado. Já cumpriu a pena e agora Youssef planeja recomeçar sua vida empresarial.
Fonte: Brasil de Fato

Ministério da Cultura divulga os filmes que vão disputar indicação ao Oscar 2018

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O Ministério da Cultura divulgou os 23 filmes brasileiros que irão disputar uma vaga entre os indicados ao prêmio de Melhor Filme em Língua Estrangeira na 90ª edição do Oscar, em março de 2018. As inscrições, abertas no dia 9 de agosto, encerraram-se na última quinta-feira (31). O número de inscritos deste ano foi maior do que no ano passado, quando 16 longas foram habilitados.
Pela primeira vez, as inscrições dos filmes foram feitas on-line em um servidor do MinC, tornando o processo seletivo mais sustentável, ágil e econômico. Até mesmo a análise por parte da comissão de jurados será feita on-line.
O anúncio do indicado será no dia 15 de setembro na Cinemateca Brasileira, em São Paulo. Uma comissão, indicada pela Academia Brasileira de Cinema (ABC), escolherá o filme que irá concorrer a uma vaga no Oscar.
A lista de inscritos inclui títulos já premiados em outros festivais, como Gabriel e a Montanha, dirigido por Felipe Barbosa, que ganhou o prêmio Revelação na Semana da Crítica em Cannes e o prêmio da Fundação Gan. Também se inscreveram Como Nossos Pais, de Laís Bodanzky, que venceu o prêmio do público no Festival de Cinema Brasileiro de Paris e mais seis Kikitos, inclusive o de Melhor Filme, no Festival de Gramado; e Era o Hotel Cambridge, de Eliane Caffé, vencedor do prêmio do público de Melhor Filme no Festival de San Sebastián (Espanha), 40ª Mostra Internacional de Cinema e no Festival do Rio.
Fonte: Portal Brasil, com informações do Ministério da Cultura

quarta-feira, 6 de setembro de 2017

Universidades paulistas propõe reserva de vagas para indígenas e refugiados

por Redação com UEE-SP.

Unicamp e UFABC propõe importantes inserções na reserva de vagas para os próximos anos
A Universidade de Campinas (Unicamp) apresentou na última quinta-feira (31) uma proposta de mudança no vestibular que abre ainda mais o acesso a universidade: cotas, Enem, vestibular indígena e vagas para medalhistas de competições científicas. Pela nova proposta 80% das vagas deveram ser escolhidas pelo vestibular e 20% pelo Sisu via Enem. Das vagas do vestibular 15% vão para candidatos autodeclarados negros e pardos e do Sisu metade atingindo um total de 25%.
As mudanças são indicações do grupo de trabalho escolhido para discutir o tema e a decisão final acontecerá na reunião do Conselho Universitário em Novembro. Se aprovadas as novas regras valerão para ingressantes a partir de 2019.
No caso dos indígenas a ideia é um vestibular específico para que eles disputem vagas entre candidatos com saberes similares com a reserva de até duas vagas não preenchidas na primeira chamada em 16 cursos como medicina, farmácia, enfermagem, engenharia agrícola, comunicação social entre outros. Serão admitidos candidatos autodeclarados indígenas e que possuam vínculo com sua comunidade.
“É muito bom ver uma universidade importante como a Unicamp atualizando a suas formas de acesso. Quando a gente vê universidades importantes aderindo ao Enem e cada vez mais as cotas, se somando a esse coro da sociedade que está ganhando a opinião pública de que as cotas são fundamentais na democratização do acesso, é um avanço muito importante que a UNE comemora muito”, destacou o 1º diretor de Universidades Públicas da UNE, Leonardo Guimarães.
Na mesma direção a Universidade Federal do ABC (UFABC) aprovou de Julho durante reunião do Conselho Universitário a proposta de cotas para refugiados no acesso da Universidade.
A partir do próximo ano serão reservadas 2 vagas em cada curso, por turno, para refugiados do país. O acesso também será via Enem com seleção via SISU e 50% dessas vagas serão voltadas para os candidatos em situação de vulnerabilidade social, que não tenham renda familiar per capita superior a um salário mínimo e meio.
Conforme informações da comunicação da universidade, o Bacharelado em Ciência e Tecnologia terá oito e no Bacharelado em Ciências Humanas oferecerá outras quatro.
Os candidatos deverão apresentar documentação que comprovem a situação de refúgio no Brasil, indiferente dos fatores que o levaram a deixar o país. Os estudantes também terão direito às políticas de assistência e permanência estudantil, o que é muito importante por conta das condições que imigrantes vivem.
De acordo com Bianca Borges, estudante de Direito da USP e vice-presidenta da UNE em São Paulo, a reserva de vagas para refugiados mostra o cumprimento de compromissos institucionais – a dignidade das pessoas e o acesso à educação- e de compromissos internacionais assumidos pelo Brasil, como a Declaração Internacional de Direitos Humanos. ” Acredito que o pioneirismo da UFABC nessa modalidade de cotas no acesso seja um precedente importante para a ampliação dessa discussão nas demais universidades públicas”, afirma Bianca.
UNE

Ouça “História Hoje” 06/09: Dia Mundial do Tambor de Crioula foi criado há 13 anos

Tambor de Crioula
Em 2004 foi criado o Dia Mundial do Tambor de Crioula e de seus brincantes. Com raízes africanas, a manifestação cultural é conhecida como a expressão de um povo, transformada em dança.
Apresentação Carmen Lúcia
ANTES DE OUVIR O ÁUDIO DESLIGUE O SOM DA RÁDIO BRASIL CULTURA NO TOPO DA PAGINA
O tambor de Crioula também é considerada uma demonstração religiosa que chegou ao Brasil, junto com os navios negreiros, entre os séculos 18 e 19 e se fortaleceu no estado do Maranhão, aonde sobrevive até hoje.
O som que conduz a roda é contagiante e inconfundível: a percussão é conhecida como parelha – e é formada pelas palmas das mãos batendo sem intervalos em três tambores, que ditam o ritmo. Enquanto isso, os cantadores e as dançarinas fazem a coreografia. Os homens só tocam e apenas as mulheres dançam.
As músicas são puxadas por um solista que canta palavras de improviso, também cantadas pelos outros brincantes. Os tambores são especiais: esculpidos em madeira, cobertos por couro, com a parte de cima mais larga que a de baixo. Sempre, antes de cada roda de Tambor de Crioula, o instrumento é esquentado diretamente no fogo para ter a afinação perfeita.
As danças acontecem pelos mais variados motivos: homenagem a São Benedito, padroeiro dos negros, e a santos tradicionais da igreja católica, a nascimento de crianças, festa de Preto Velho, comemoração de aniversários,  reunião de amigos ou em tributo a entidades cultuadas nos terreiros de matriz afro-brasileira.
Não tem local e nem data fixa para acontecer, mas é mais comum em períodos como carnaval, São João, e em agosto, quando acontecem as rodas de bumba-meu-boi. Tradicionalmente, toda a festividade de bumba-meu-boi é encerrada com um tambor de crioula.
A dança não requer ensaios e lembra um samba de roda. A punga, ou umbigada, acontece quando há o encontro de coreiras no centro da roda e uma delas deseja sair. É um convite para que a outra dançante assuma a liderança dos movimentos. Já a rodada é quando a coreira, sozinha no centro, expande a saia e demonstra toda a alegria.
Desde 2007 o Tambor de Crioula é considerado patrimônio Imaterial do Brasil.
História Hoje: Programete sobre fatos históricos relacionados às datas do calendário. Vai ao ar pela Rádio Brasil Cultura de segunda a sexta-feira

Meirelles vai fechar a UERJ

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É melhor gastar com os rentistas!
Parecer do Ministério da Fazenda sobre Regime de Recuperação do Rio sugere medidas adicionais de contenção de gastos. Pela primeira vez, a intenção de fechar a UERJ e as Universidades Estaduais é oficialmente documentada. Entre as outras medidas, estão a demissão de servidores ativos, a extinção de benefícios previstos para servidores estaduais e criação de alíquota extra para a Previdência.
O Rio encerra nesta semana o longo processo que culminou na adesão do Estado ao Regime de Recuperação Fiscal. Pezão vem insistindo que, com isso, conseguirá pagar os salários atrasados e estabelecer um calendário de pagamentos.
Mas não se engana quem tem insistido que o Acordo é presente de grego. Em parecer assinado pela Secretária do Tesouro Nacional, Ana Paula Vescovi, são sugeridas outras medidas de arrocho, além das aprovadas na ALERJ. As medidas contemplam:
  • extinção de mais empresas públicas (além da CEDAE)
  • fim da oferta de Ensino Superior
  • reforma do Regime Jurídico Único dos Servidores
  • demissão de servidores ativos
  • contribuição previdenciária para inativos
  • alíquota extra de contribuição previdenciária (além dos 14% já aprovados)
Quem acompanhou toda a tramitação do Acordo vai lembrar que o Governo Federal tem insistido em algumas dessas medidas, muito embora Pezão e Temer não tenham conseguido apoio dos deputados para aprová-las. A novidade é que, pela primeira vez, o Governo Federal coloca no papel sua intenção de extinguir a UERJ e as demais universidades estaduais do Rio.
A implementação das medidas sugeridas no parecer deverá se dar caso o Estado falhe em colocar em prática alguma das medidas de ajuste já pactuadas. Durante a vigência do Regime de Recuperação Fiscal, as contas do Estado ficarão sujeitas à avaliação de um Conselho de Supervisão, que na prática vai atuar quase como um interventor. O Conselho deverá emitir pareceres sobre a situação financeira do Rio e poderá solicitar a adoção de mais medidas de ajuste além das já combinadas. 
Confira o Parecer Conjunto 01/2017 na íntegra e acesse mais detalhes do acordo na página do Tesouro Nacional.
Fonte: CONVERSA AFIADA

terça-feira, 5 de setembro de 2017

De Uber ou ônibus, a violência sexual segue no caminho das mulheres

Colagem da campanha #meucorponaoepublico

Episódios de abuso nos transportes geram revolta e questionamentos jurídicos sobre como lidar com o agressor e proteger as vítimas.
por Débora Melo e Tory Oliveira 
Estuprada por um motorista da Uber na noite de domingo 27 em São Paulo, a escritora Clara Averbuck descartou o registro de um boletim de ocorrência contra o agressor, posteriormente excluído do aplicativo. “Não confio no sistema. Já fui mil vezes à delegacia. Já levei amiga, já levei desconhecida, já levei um monte de mulher. Já vi o tratamento que é dado”, disse.
Passado o choque inicial, o posicionamento quase que imediatamente abriu a caixa de Pandora de comentários tingidos de machismo e desconfiança: “Se ela está dizendo a verdade, por que, afinal, não foi denunciar?”
Dois dias depois, Cíntia Souza, de 23 anos, sofreu um abuso sexual em ônibus que trafegava pela Avenida Paulista. Diversos passageiros testemunharam quando Diego Ferreira de Novais, de 27 anos, ejaculou no pescoço da vítima, que estava sentada e foi surpreendida pela agressão.
Novais quase foi linchado pelas testemunhas, e o caso teve grande repercussão na mídia. Ele foi preso em flagrante pelo crime de estupro, mas acabou solto depois que um juiz entendeu se tratar, na verdade, de importunação ofensiva ao pudor, contravenção prevista em lei de 1941 e que não prevê pena de reclusão, apenas o pagamento de multa – em contos de réis. “Eu estou me sentindo um lixo”, disse Souza em entrevista à rádio Jovem Pan.
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Como acontece com a maior parte dos casos relacionados à violência de gênero, a subnotificação do crime de estupro e violência sexual são epidêmicas no Brasil, estimulada, entre outros fatores, pela falta de preparo das autoridades em acolher as vítimas e pela sensação de que a vexatória peregrinação em delegacias e tribunais, no fim das contas, acabará em impunidade. Há, ainda, o medo, a vergonha e, muitas vezes, o sentimento de culpa.
“Já ouvi casos em que a vítima relatou um abuso sofrido no campus da universidade após ter bebido. O delegado disse a ela: ‘isso não é estupro, isso é sexo arrependido’”, conta a juíza Tatiane Moreira Lima, da Vara de Violência Doméstica do Butantã, à frente de um projeto de combate ao abuso sexual no transporte público.
Desenvolvido pelo Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo (TJ-SP), o projeto será lançado em outubro e vai oferecer uma espécie de curso de reflexão sobre machismo e masculinidade a homens que tenham sido flagrados em situações de abuso. “A nossa campanha tem três eixos: primeiro, fazer com que a vítima denuncie; segundo, que o agressor seja responsabilizado; e terceiro, que a sociedade se mobilize em torno dessa causa.”
Cartaz contra abusos no transporte público
Cartaz divulgado pela campanha #MeuCorpoNãoÉPúblico (Arte de Eloísa Gomes e texto de Yandra Pascoal)
Em uma triste coincidência, a campanha “Juntos podemos parar o abuso sexual nos transportes” veio à luz no mesmo dia em que Cíntia Souza foi abusada. “Vejo o caso como emblemático e importante para que nós enfrentemos a questão da violência no transporte coletivo”, afirma a diretora-executiva do Instituto Patrícia Galvão, Jacira Melo.
A responsabilização adequada do abusador tem sido, no entanto, o maior desafio. Para o juiz José Eugenio do Amaral Souza Neto, que rejeitou o pedido de prisão preventiva contra Novais, apresentado pela delegada Denise do Prado, do 78º DP (Jardins), o caso no ônibus não foi estupro. “Entendo que não houve o constrangimento, tampouco violência ou grave ameaça”, afirmou Souza Neto em sua decisão, citando o que diz o artigo 213 do Código Penal, sobre o crime de estupro.
Mas o que, afinal, vem a ser violência contra a mulher?
Para a advogada criminal e procuradora aposentada da Justiça de São Paulo, Luiza Eluf Nagib, o tratamento dado pelo juiz no caso é equivocada e inaceitável. “Só um juiz muito fora da realidade para considerar que não houve violência”, afirmou.
“Ejacular no rosto de alguém contra a vontade da pessoa, de forma abrupta, dentro de um coletivo, é de extrema violência. É estupro. Não é mera importunação ao pudor, que tem pena de multa. Na delegacia, o ato foi enquadrado como estupro. Já o juiz desclassificou para contravenção. Não é possível aceitar esse entendimento”, criticou a autora do livro A Paixão no Banco dos Réus, que trata de crimes de feminicídio.
O promotor Marcio Takeshi Nakada, representante do Ministério Público do Estado, também havia se manifestado pelo relaxamento do flagrante. “Eu me pergunto: será que eles acham que as mulheres não merecem respeito?”, questiona Nagib.
A Lei de Dignidade Sexual (12.015), publicada em 2009, alterou o Código Penal e extinguiu o crime de “atentado violento ao pudor”, que previa reclusão. Restaram, portanto, o delito de importunação ofensiva ao pudor e o crime de estupro.
Para evitar o limbo jurídico, Nagib defende outra punição para casos como o da Avenida Paulista, intermediário entre o assédio sexual e o estupro. “Fiz recentemente essa sugestão ao Senado Federal quando participei da comissão de reforma do Código Penal”, disse a advogada. Ela sugere que o novo crime seja denominado “molestação sexual”.
Mesmo entendimento tem a juíza Tatiane Moreira Lima. “Precisamos pressionar os órgãos legislativos para que se crie um tipo penal intermediário. O que a gente tem hoje ou é nada, como a importunação ofensiva ao pudor, ou é o estupro, que começa com uma pena de reclusão altíssima, estigmatiza a pessoa para o resto da vida e cria caos social. Não é isso que a gente quer. A gente quer que o homem receba uma punição justa. Isso é Justiça.”
Cartaz contra abusos no transporte público
Disponibilizados em alta resolução, os cartazes podem ser utilizados gratuitamente (Arte de Rita de Cassia e texto de Sofia Calvit)
Para a juíza Teresa Cristina Cabral Santana, titular da 2ª Vara Criminal de Santo André, o primeiro passo é investir em ações que possam coibir esse tipo de comportamento. “Não podemos deixar a situação como está, porque é algo que acontece com muita frequência”, afirma Santana. A responsabilização criminal de quem tem esse tipo de conduta só vai acontecer se a gente conseguir olhar para o nosso ordenamento jurídico de uma maneira que não gere violência de gênero”, completa a magistrada.
Vítima de abuso sexual no transporte público, a jornalista Caroline Apple, de 32 anos, não se surpreendeu com o desfecho do caso. Em 2015, ela estava em um vagão lotado do metrô paulistano quando um homem passou a se masturbar atrás dela. Ao sair do vagão e pisar na escada rolante, sentiu parte de sua calça esquentar e molhar com a ejaculação do agressor.
Caroline denunciou o caso à época, também amplamente divulgado pela imprensa. Mas, ainda na delegacia, a sensação de justiça começou a arrefecer: o boletim de ocorrência foi registrado como importunação ofensiva ao pudor.
“Quando aconteceu eu fiquei chocada. Poxa, se o delegado nem consegue registrar o caso como deveria ser registrado, de que adianta denunciar?”, questiona.
Apesar de considerar revoltante a decisão, Apple diz não acreditar que perseguir o magistrado seja o melhor caminho. “Não adianta pegar a figura dele e malhar. Os juízes são legalistas, mas a lei não está permitindo que esses caras fiquem presos. Se ele tivesse tido um entendimento diferente, isso seria questionado posteriormente”, opina. “Esse cara tem 17 passagens e não aprendeu nada. Toda vez que ele entra na delegacia e sai pela porta da frente, você está legitimando essa conduta, está dizendo para ele: pode fazer, não pega nada.”
Em coluna publicada no site de notícias jurídicas Justificando, a professora de Direito Penal Maíra Zapater afirma que o juiz Souza Neto foi machista em sua decisão. Doutora em Direitos Humanos, ela é bastante crítica ao sistema penitenciário brasileiro, que promove encarceramento em massa. Zapater entende, contudo, que Novais foi violento e deveria estar preso.
“Esse caso me parece um caso clássico, que a gente daria em aula de decretação de prisão preventiva se tivesse sido reconhecido o tipo penal do estupro”, disse. "O problema é que fica muito difícil não vislumbrar o machismo nessa decisão quando o juiz coloca textualmente que a surpresa da ejaculação no pescoço da moça não é violência. Como que isso não é uma violência?”
“Temos medo”
Diego Ferreira de Novais tem uma ficha extensa de delitos sexuais. Levantamento realizado pelo jornal "Agora São Paulo" com dados da Polícia Civil revela que Novais foi detido 16 vezes por estupro, ato obsceno ou importunação ofensiva ao pudor. Dos registros, oito datam de menos de um ano e cinco ocorreram em 2017.
Diego-Novais
Diego Ferreira de Novais, de camiseta verde, deixa a delegacia após decisão de juiz (Foto: Reprodução/SBT)
O primeiro episódio ocorreu há oito anos, em um ônibus na Lapa. O modus operandi costuma ser o mesmo: se aproxima de mulheres em coletivos e mostra ou encosta o pênis na vítima.
Quando o caso de Diego veio a tona, muitas mulheres passaram a compartilhar nas redes sociais as estratégias cotidianas para tentar escapar dos abusos.
“A gente anda encolhida no metrô. A gente desce rapidinho do ônibus. E, às vezes, a gente até desce um ponto antes ou depois porque está encanada com algum cara que parece estar ‘encarando’. Também ficamos boladas quando o taxista puxa papo e olha para a gente pelo espelhinho do retrovisor. Pode não ser nada? Pode. Mas a gente não vai apostar porque temos medo. Muito medo”, escreveu uma delas no Facebook. Um grupo de publicitárias também reagiu com a campanha #MeuCorpoNãoÉPúblico, criando cartazes de protesto contra a situação.
Uma pesquisa divulgada pela ActionAid em junho de 2016 coloca em números a sensação de insegurança experimentada por mulheres em todo o Brasil todo: 86% das entrevistadas já sofreram abuso em público em suas cidades.
Em 2015, o Datafolha revelou que é no transporte público que as mulheres estão mais vulneráveis a assédios e abusos sexuais: 35% das entrevistadas disseram ter sido vítimas em ônibus ou trens, superando a rua, a balada, o trabalho e a escola ou a faculdade. Nos coletivos, 22% disseram ter sofrido abuso físico, 8% verbal e 4% ambos.
No ensaio "Uma breve história do silêncio", publicado no livro "A mãe de todas as perguntas" (Cia das Letras), a historiadora feminista Rebecca Solnit faz uma reflexão sobre os motivos que levam casos como esses a ficarem escondidos. “O tratamento dado às vítimas e a tolerância generalizada diante de uma epidemia de violência ensinam às mulheres que elas têm pouco valor, que erguer a voz pode resultar em maiores punições, que o silêncio pode ser uma estratégia de sobrevivência melhor”, observa.
Para Jacira Melo, do Patrícia Galvão, a sociedade precisa enfrentar a “construção cultural de violência contra as mulheres”. “Homens e garotos, de todas as idades e classes sociais, se sentem autorizados a cometer violências sexuais no transporte público neste País. É disso que estamos falando. Precisamos de uma mudança cultural muito séria.”
Carta Capital

segunda-feira, 4 de setembro de 2017

Wilson das Neves: ás da bateria e sambista de rara elegância

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Morreu aos 81 anos na noite de sábado (26), em decorrência de um câncer, o baterista, cantor e compositor Wilson das Neves. Considerado um dos maiores nomes de seu instrumento no País, das Neves estava internado em um hospital da Ilha do Governador (RJ), onde residia. Na página oficial do músico no Facebook, familiares divulgaram a partida do baterista que, há 35 anos, reinava absoluto na banda de Chico Buarque: “É com grande pesar que comunicamos a todos a partida do nosso grande mestre, que foi tocar suas baquetas do outro lado. Ficaremos com as boas lembranças”, afirmaram. O corpo do músico será velado na segunda-feira (28), na quadra da escola de samba Império Serrano, sua grande paixão. O local do funeral ainda não foi informado pela família do músico.
Em março de 2009, a trajetória do músico foi tema de perfil publicado na edição 20 da revista Brasileiros. Leia, a seguir, na íntegra, a reportagem e a entrevista que originou o perfil.
O som quente e o dom de Wilson
por Marcelo Pinheiro (março de 2009)
Verão em São Paulo. Tarde amena de garoa. O asfalto úmido da Rua Augusta registra os passos de Wilson das Neves. Estacionados na guia irregular, sob um par de sandálias de couro, os pés aguardam um táxi que nos leva à Praça Roosevelt, sede de várias companhias teatrais e reduto boêmio da classe.
Minutos antes, dentro da discreta suíte do hotel – onde um piano de cauda, branco, com ares de John Lennon “Imagine” jaz solitário no hall -, das Neves veste uma camisa elegante, o usual chapéu, e me pergunta se deveria calçar sapatos. Hesitante, concluo que não seria eu quem diria a ele o que fazer com aquele par de pés calejados por infinitas horas no comando de pedais de bumbos e de chimbais. Pés que deixaram suas marcas em álbuns de mais de 600 diferentes artistas da música brasileira e mundial.
Das Neves tem hoje 72 anos. Desde 1959, quando debutou em um estúdio da Copacabana Discos, é um dos curingas da indústria fonográfica quando o assunto é bateria. Há 11 anos, assumiu a faceta de cantor e compositor de samba. Já esteve a serviço de Gilberto Gil, Caetano Veloso, Roberto Carlos, João Gilberto, Tim Maia, Wilson Simonal, Jorge Ben Jor e um sem-número de artistas. Tocou samba, bossa nova, tropicália, jovem guarda e o que viesse pela frente, com a mesma intensidade e alegria com que tocava sua própria música em álbuns instrumentais que soam como retratos de um longínquo Brasil dos anos 1960 e 1970.
Chegamos ao Papo, Pinga e Petisco, olhos atentos, das Neves logo põe à prova a velha memória. O local, reza a lenda, foi o primeiro a receber a cantora Elis Regina em São Paulo. O baterista não confirma nem desmente, diz que ali era o velho Djalma’s, mas que a gauchinha, de fato, mandava brasa no bar vizinho, o famigerado Baiúca, onde Elis cantava assessorada pelo Zimbo Trio.
Wilson passa, então, a também relembrar de seu início de carreira. Revela que a paixão pela percussão e pelo ritmo nasceu ainda na infância, vivida no Méier, subúrbio da zona norte carioca, nas copiosas festas de uma tia e nas frequentes visitas aos terreiros de candomblé, onde o batuque hipnótico dos tambores acabaria por levá-lo, do transe, ao desejo de tocar. Nos bailes da tia, a coisa foi ficando tão séria que, não tardou, havia um conjunto para animar as festas. Logo ele ficaria íntimo do baterista Edgard Nunes Rocca, vulgo Bituca, que também tocava em orquestras de bailes. Das Neves tinha 18 anos e ingressara no Exército quando, de tanto frequentar os bailes com Bituca, viu-se seduzido pela vontade de assumir o comando das baquetas.
Viver de música e mergulhar em um incrível ciclo de criação passou a ser o norte do baterista. Do período áureo da música criada às sombras do desenvolvimentismo bossa nova de Juscelino Kubitschek até o final daquele primeiro quinquênio dos anos 1960 – quando a bossa ainda não competia com a jovem guarda, mas começava a ser colocada em xeque pelas patrulhas da canção de protesto –, das Neves envolveu-se em registros instrumentais antológicos como o célebre Coisas, do Maestro Moacir Santos, Os Ipanemas, álbum de 1964 do combo homônimo liderado pelo trombonista Astor Silva, e Aquele Som dos Gatos, do grupo Os Gatos. Ao lado dos Catedráticos, de Eumir Deodato, imprimiu às belas e intrincadas melodias a cadência malandra de sua bateria em álbuns primorosos como Idéias, Ataque! e Samba Nova Concepção.
Em 1968, Das Neves alcança prestígio popular com o álbum Elza Soares – Baterista: Wilson das Neves. Naquele final da década de 1960, decide então lançar seus próprios álbuns instrumentais. Sem abrir mão da brasilidade, lança seu primeiro disco solo, intitulado Juventude 2000, e o novo repertório ganha acentos bem sintonizados com a música pop produzida naqueles idos de 1968. Do rock ao funk, da soul music aos ritmos caribenhos, do samba ao boogaloo, do jazz ao baião, a bossa de das Neves vai se impregnando de modernidade neste e nos outros três álbuns que viriam a seguir: Som Quente é o Das Neves (1969), Samba Tropi, até aí morreu Neves (1970) e O Som quente é o das Neves (1976).
Os anos 1980 parecem fechar um ciclo para o baterista. Marcam a volta de Wilson às compulsivas horas de estúdio e o casamento insperável com o conjunto que suporta o compositor Chico Buarque, de onde reina absoluto no comando das baquetas de 1982 até hoje. Segredo para muitos, o veterano das baquetas tinha ambição de ser compositor e escrevia suas coisas desde meados da década de 1970. Ao receber um convite para um novo álbum instrumental, em 1996, decidiu propor um disco com suas canções.
Por conta de uma simples fita de amostra do repertório, Wilson foi convidado a assumir os vocais. Desde então, acumula dois álbuns autorais: O Som Sagrado de Wilson das Neves, de 1997 e Brasão de Orfeu, lançado em 2004. Na ocasião desta entrevista, esteve em São Paulo para o último de uma série de shows no Studio SP, casa noturna na mesma rua Augusta onde estava hospedado. Horas mais tarde, Brasileiros foi conferir a apresentação e, a despeito do samba de Wilson não trazer nada de revolucionário, com a devida reverência à tradição do gênero, um público bastante jovem e empolgado lotou a casa para recebê-lo no exercício de sua expansiva simpatia.
Elegante e discreto crooner, acompanhado de seu entrosado quinteto, das Neves segue desfilando uma série de canções que reverenciam o samba, exibindo, orgulhoso, o verde da sua Império Serrano estampado no lenço que ornamenta o bolso de seu paletó. Ao fim de cada canção ele é aplaudido calorosamente, com direito a assovios e casais dançando coladinho, ao que volta a fascinar a todos com a astúcia de quem, do fundo do palco, conhece bem os maneirismos do showbizz. Das Neves é conhecido pelo bordão “Ô, sorte!”. E concluo que seu elevado bom humor talvez se deva muito ao fato de ele se impor como um afortunado diante das coisas da vida. Em sua mais famosa canção, escrita em parceria com Paulo César Pinheiro, insiste em afirmar que o samba é seu dom. Alguém ali haveria de duvidar?
Exercitando sua faceta de cantor e compositor, o baterista se apresenta no extinto Studio SP, em janeiro de 2009 (Foto: Luiza Sigulem)
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Leia, na íntegra, a entrevista que originou a reportagem publicada acima.
Brasileiros – Na internet, a maioria dos textos sobre sua trajetória musical afirma que você começou a tocar bateria aos 14 anos. Foram estudos teóricos ou um aprendizado autodidata?
Wilson das Neves – Não. Eu não comecei a estudar aos 14 anos. Nessa idade eu ia muito ao candomblé, porque desde muito garoto eu era fascinado pelo som dos tambores. Minha família é toda candomblecista. Na verdade, comecei a estudar o instrumento aos 18 anos em 1954, quando entrei para o Exército.
Algum familiar influenciou seu interesse por música?
Sempre gostei de música porque eu tinha uma tia que dava festas em casa quase toda semana e por qualquer motivo. Aniversário do cachorro, ela dava festa. A casa dela vivia sempre cheia de gente e a música era um elemento que não podia faltar. Havia muitos discos de big-bands de jazz que tocavam nas festas dela e eu ficava prestando atenção a tudo. Rolavam também regionais de choro e grandes orquestras nacionais. Um ambiente que muito me estimulou e tudo teve início ali, quando que conheci um baterista que começou a tocar nessas festas chamado Edgard Nunes Rocca, mais conhecido por todos como Bituca.
Bituca foi seu professor?
Eu estava com 18 anos, já estava no Exército, e decidi ajudá-lo nos bailes porque eu não tinha dinheiro pra entrar. Enquanto ele tocava eu ficava por ali, dançando. Depois, no final do baile, eu o ajudava a levar o instrumento de volta. Até que um dia ele perguntou se eu não gostava de bateria, disse que sim e ele aconselhou: “Então, porquê você não estuda o instrumento?!”. Eu não tinha referência alguma, mas ele me levou a uma escola e comecei a ter aulas. Depois disso ia ao baile com ele e já não dançava mais. Ficava ali, de olhos e ouvidos atentos nele, aprendendo. Depois de um ano o Bituca saiu da banda. Fiquei no lugar dele… E estou até hoje tocando por aí.
Nesse período ainda havia resistência ao uso da bateria no samba?
Não, nessa época a bateria já era bem aceita e difundida. A resistência tinha ficado pra trás. Acontece que a bateria não é um instrumento criado para tocar samba, ela foi criada para tocar a música norte-americana. Já na década de 1940 o instrumento chegou fortemente ao Brasil, aí é que começamos a fazer nossa tradição. Nesse período, embora anônimos, já havia grandes bateristas. Músicos que liam e que escreviam música.
Algum grande baterista deste período que você destacaria e que, hoje, não é lembrado?
Difícil citar nomes sem ser injusto. Mesmo porque nossa memória é curta. Naquela época não se dava crédito aos músicos, não se registrava nada. Músico profissional era anônimo. Na grande indústria, quem começou a colocar os nomes de rodos os músicos nos créditos dos discos foi a Elis Regina. Isso na virada para os anos 1970, quando toquei com ela. Antes dela, ninguém dava muita atenção. Crédito mesmo só para o compositor e olhe lá. Nem o maestro que arranjou o disco era respeitado.
Você fez parte de uma geração de grandes bateristas, como Milton Banana, Edison Machado, Airto Moreira e o Dom Um Romão. Todos com um estilo personalíssimo, mas ligado à cadência da bossa nova. Na bateria, a “batida diferente”da bossa foi mero casamento do samba com o jazz?
Para mim, bossa é samba e samba é um ritmo muito complexo. Se você observar bem, ninguém toca samba igual a ninguém, mas tudo deriva dele e tanto faz se é bossa nova ou se é samba. Deem o nome que quiserem dar. Para mim, a bossa é uma variação do samba e cada um a toca do seu jeito. Claro, houve na bateria tocada por aqui muita influência da música americana. O instrumento não foi criado para tocar samba e os métodos de aprendizado acessíveis no País eram todos americanos. Para fazermos um método de samba para bateria no Brasil tivemos de enfrentar dificuldades, como investir nas primeiras partituras.
No início de carreira, nos anos 1950, você tocou na Orquestra Ubirajara Silva e chegou a integrar a filarmônica do Teatro Municipal do Rio de Janeiro. Como se deu essa ligação?
O que me levou à música clássica foi a curiosidade da descoberta e o fascínio do aprendizado. Minha intenção não era dizer “vou tocar no Teatro Municipal”. Queria vivenciar o universo da música erudita, mas continuava indo ao candomblé e gostava de música popular. Se você ver bem, em uma sinfônica, nas horas vagas, quase todos os instrumentistas – dos metais, das cordas, do sopro – trabalham com música popular. Minha intenção era aprender com propriedade, e acho que aprendi. Toquei em importantes espetáculos, como Mefistófoles e Aida. Era como estar no Céu, no Olimpo, mas, pouco depois, abandonei esse ambiente, porque não me pagavam direito e eu precisava tocar em outros lugares para poder viver de música.
O período que sucede a explosão da bossa revelou grandes instrumentistas brasileiros. Percebe-se nos créditos de álbuns que boa parte desses músicos trafegava pelas mesmas gravações. Como era esse ambiente? Havia competição entre vocês?
Não. Acredito que não havia competição. As gravadoras chamavam os músicos que podiam resolver o problema. Não se chamava por simpatia, pelo nome ou pela cor. Nada disso. Era, essencialmente, a questão do músico que resolve, entende? Os arranjadores tinham uma relação de músicos com quem podiam contar e a gente acabava se encontrando nos estúdios com frequência. Com a afinidade desses encontros, começaram a surgir os trios e os quartetos nesse ambiente da bossa. Com isso, por um breve período ,valorizou-se a música instrumental, que não era prestigiada, por aqui. Até hoje, no Brasil, é muito complicado fazer música instrumental. As pessoas não ouvem, não têm conhecimento.
Em 50 anos de carreira, você teve a honra de participar de uma infinidade de álbuns que são considerados obras-primas, como o LP Coisas, do maestro Moacir Santos. Houve algum trabalho que te surpreendeu, com um resultado final maior do que a expectativa?
Olha, eu gravei com mais de 600 artistas, gosto de tudo que fiz e faria tudo de novo. Quando eu sento no meu instrumento não sento para brincar, não. Sento para fazer direito – ou pelo menos tento. Lógico que tem coisas especiais. Imagine você como eu fiquei quando o meu professor de Harmonia, Moacir Santos, me convidou para gravar com ele. Fiquei, como diria o Chico Anísio “com o peito em festa e o coração à gargalhar”.
Muitos músicos brasileiros de sua geração fizeram carreira no exterior. Permanecer no Brasil foi uma escolha pessoal?
Eu nunca tive a intenção de morar fora daqui. Opção minha. Acho que minha terra é aqui. É aqui que eu vou fazer tudo que eu tenho que fazer. Vou lá, toco, gravo. Já fui várias vezes,para fora do País. Já acompanhei vários artistas, mas meu lugar é aqui. Trabalhando com o Chico, há 25 anos, rodei o mundo. Aliás, essa semana ele ligou para me cumprimentar, porque fui bisavô. Tenho agora um bisneto, Joãozinho, filho da Graça. Tá lá me dando o maior prazer e tenho que agradecer a minha neta por me fazer bisavô vivo, porque bisavô morto não adianta nada!
Depois que você deixa o ambiente da bossa nova, quando iniciou sua carreira solo com o álbum Juventude 2000 (1968), seu som vai se fundindo com o funk, com o soul e o jazz latino. Como foi essa mudança?
Foi papo meu e do Geraldo Vespar (o produtor, violonista e arranjador cearense), que fez os arranjos do meu primeiro disco: “Ah, vamos fazer uma coisa assim mais ousada, com a intenção de atingir a garotada?”. O nome do disco, Juventude 2000, já sugere isso. Mas devo dizer que gosto de tudo. Gosto mesmo é de música. Não gosto de barulho nem esse negócio de “saiu um som!”. Qualquer instrumento bem tocado me faz bem. Tem gente que não gosta de Astor Piazzolla e, para mim, gente assim, não gosta de nada. Eu gosto de tango, como qualquer outro ritmo. Música boa é música universal.
A partir dos anos 1980 você volta a assumir o papel do homem de estúdio. Esse período foi marcado pela explosão do rock brasileiro e um recuo do samba e da MPB. A escolha de voltar a tocar como músico de apoio tem a ver com isso?
Quando você gosta do que faz não vê problema em nada. Como diz o Nelson Sargento: “O samba agoniza, mas não morre!”. Ele cai um bocadinho e se levanta – quando é bom samba, claro, porque, no meio de tanta coisa que se grava também tem muita sandice. Assim como tinha bossa sandice, hoje tem olodum sandice, pagode sandice e axé sandice. Tem os bons e os sofríveis.
Desde 1996 você resolveu tornar público seus dotes de cantor e compositor. Essa vocação era segredo antigo?
Eu já tinha gravado sete, oito álbuns instrumentais e fui convidado para gravar mais um. Disse que não queria. O Esdras, produtor, insistiu e disse a ele: “Fiz tantos discos assim… Vou ter que ficar convidando colega para colaborar e a gente sabe que instrumental não dá dinheiro. Se for para gravar um novo disco, quero gravar minhas músicas”. Eu tinha muitas composições, mas nunca tive a ousadia de gravar, nem de mostrar para ninguém.
E você compõe desde quando?
Comecei a compor nos anos 1970. Quando resolvi gravar meus sambas, minha ideia não era cantar. Minha intenção era montar um conjunto e convidar intérpretes, cantores e cantoras. Quando Esdras pediu: “Traz tuas músicas pra gente ouvir”, ele ouviu umas cinco, seis, e logo falou: “Muito bom, vamos gravar!”. Eu disse: “Vamos! Mas quem é que vai cantar?”. Ele respondeu: “Do jeito que você está cantando aí, canta você mesmo, Wilson”. Foi aí que virei cantor. Não foi nada programado, não tive a intenção. Aliás, a única coisa programada na minha vida é ser feliz.
Ouça Samba Tropi… Até aí Morreu Neves (Elenco, 1970), um dos clássicos da discografia instrumental do baterista