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terça-feira, 28 de agosto de 2018

A arte de Leci Brandão resiste a modismos e à indiferença do mercado

 
Leci Brandão ergueu o punho direito ao receber o troféu de Melhor Cantora de Samba do 29º Prêmio da Música Brasileira no dia 15 de agosto. O gesto dos lutadores das causas populares cai perfeitamente na trajetória de sambista, compositora e deputada estadual de Leci. São 43 anos de obra artística que combina contestação social, valorização dos ritmos da cultura popular e religiosidade afro-brasileira. 

Por Railídia Carvalho


O preço a pagar por denunciar a injustiça social é a indiferença do mercado fonográfico. Apesar das transformações tecnológicas, a indústria fonográfica nacional, povoada de multinacionais, tem medo da força do povo. 

Caprichosamente, à margem da indústria, foi o Cd independente entitulado Simples Assim que deu a Leci o prêmio conquistado na última semana. A iniciativa foi do diretor musical de Leci Marcos Boldrini inconformado com o fato de a cantora não gravar há algum tempo e estar afastada dos programas da grande mídia. 

Em entrevista ao portal Ipa online (de Sorocaba e região) no dia 20 de agosto, Leci afirmou que o troféu do Prêmio se torna mais especial ainda porque tem como referência um trabalho feito de forma independente. 

“O Marcos Boldrini, o Rodrigo Pimental, o PH do cavaco e o Juliano Souza, produtor de shows, tiveram a ideia de gravar com o Sampagode porque fazia algum tempo que eu não entrava em estúdio”, contou Leci. Uma carreira sólida e de aceitação popular com 24 cds e dois DVDs gravados não parece comover a indústria fonográfica. 

Leci não se curva

Leci enfrenta o mercado não é de hoje. Em 1985 bancou diante da gravadora a música Zé do Caroço, que fala de uma liderança popular que "vai causar alvoroço e quer ver o bem da favela". A posição custou a saída dela da gravadora Polygram e impôs um certo ostracismo a artista. O mesmo aconteceu com a música Deixa Deixa ("Deixa ele beber Deixa ele fumar Deixa ele voar É melhor do que ele sacar de uma arma pra nos matar").

Simples Assim fala da comunidade, do cotidiano, da tradição religiosa afro-brasileira. Ganhou esse nome pela simplicidade com que aconteceu, fruto de uma espécie de ação entre amigos e admiradores de Leci. “Em dois dias montamos o repertório e gravamos em uma semana com artistas que sempre respeitaram o trabalho da gente”, contou a sambista.

Leci honra origens

Se o mercado, seja fonográfico ou de outra natureza, fecha as portas para o povo, Leci honra suas origens, inclusive na Assembleia Legislativa de São Paulo (Alesp) que viu a frequência do povo negro aumentar nos corredores. Vanguarda, Leci é a segunda mulher negra na história de 180 anos da Alesp. Foi a primeira mulher a entrar na ala de compositores da Mangueira. 

“Quando eu cheguei na Mangueira levada pelo seu Zé Branco os compositores me achavam muito magrinha e queriam saber o que eu queria. Eu disse que vim aprender, já faço samba mas quero me aperfeiçoar. A minha entrada na Mangueira fez com que eu aprendesse a tocar pandeiro, ver como fazia samba de quadra”, contou. 

Cumprindo o segundo mandato como deputada, Leci dá continuidade na Assembleia aos temas que consolidaram suas trajetória artística como a cultura, educação, igualdade racial e direitos humanos. É integrante da Comissão de Educação e Cultura da Casa.  

Leci e o protagonismo do povo

O povo que encontrou as portas do gabinete de Leci abertas na assembleia é o mesmo que desapareceu dos desfiles das escolas de samba. Comentarista por décadas dos desfiles no Rio de Janeiro e em São Paulo, Leci valorizava o protagonismo do povo das comunidades. 

“Tem um outro povo indo para a avenida. Tenho saudade do carnaval que eu conheci e que comentava lá no início quando o protagonista era o sambista, a baiana, o diretor de harmonia, o mestre-sala, a porta-bandeira”, lamentou. 

"O samba não se reporta à moda"

A profunda ligação afetiva de Leci Brandão com o povo brasileiro é o que distancia a artista dos tapinhas nas costas da elite brasileira e seus mecanismos de dominação e alienação como a mídia. Levanta a bandeira do samba e dos seus criadores que, assim como ela, vem das trincheiras do povo negro escravizado, dos índios aculturados e dos brancos empobrecidos. 

“O Martinho da Vila diz que o samba é a música da alegria. Se você observar onde tem samba, sempre tem gente junta, feliz, cantando e sambando. O samba não se reporta à moda. É a música brasileira que está aí caminhando sempre”, definiu Leci. Com sua licença, saudoso Luiz Grande: “Vem onda, sai onda e Leci está sempre aí. Firme e forte com força para resistir”. 




Do Portal Vermelho

“Lula deve ser solto porque sua prisão é injusta”, diz Gilberto Gil

Em entrevista à Folha de S. Paulo nesta segunda-feira (27), o cantor e compositor Gilberto Gil afirma que o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva tem o direito de ser candidato e que sua prisão é injusta. Ex-ministro da Cultura de Lula, Gil diz que sente muito pesar pelo que o ex-presidente está passando.
“Ele deveria estar aí vivendo, como nós, a plenitude das lutas partidárias e das disputas democráticas, coisa que está impedido de fazer.” O músico afirmou que quer Lula livre, não necessariamente para votar nele, mas pela arbitrariedade de sua prisão.
Ele diz ainda que são muitos os que assim consideram a prisão de Lula injusta: “juristas – daqui e de outros cantos do mundo –, cronistas políticos, milhões de eleitores. Eu não estou sozinho, muito pelo contrário. São muitos os que consideram o mesmo”.
Gil afirmou gostar muito do candidato a vice na chapa de Lula para as próximas eleições. “Gosto muito de Haddad. É um nome interessante. Um homem muito preparado e sensível. Suficientemente jovem e suficientemente maduro ao mesmo tempo para ter uma compreensão do conjunto da sociedade brasileira hoje, da inserção do Brasil no mundo, da questão da economia.”
Fonte: Site do Lula

segunda-feira, 27 de agosto de 2018

CARDEAL DO POVO O 'Povo da Rua' se reencontra na exposição sobre Dom Paulo Evaristo Arns

Exposição dom Paulo
Foto: CLEBER CARDOSO NUNES
Exposição pode ser visitada até o dia 23 de setembro, no Centro Cultural dos Correios, centro de São Paulo

Grupo de moradores em situação de rua visita mostra que homenageia o cardeal símbolo da luta pelos direitos humanos no Brasil.

por Luciano Velleda 

São Paulo — “Depois que passar daquela porta não tem mais nenhum inocente aqui dentro! Todos são culpados!”, berra o delegado, ao mesmo tempo em que bate com força seu cassetete sobre uma pequena mesa de madeira. O público se assusta. A maioria são pessoas em situação de rua, que se olham sem entender o que acontece. “Quero muita ordem aqui hoje!”, grita novamente o delegado, enquanto com as mãos busca pequenas fichas de papel e começa a chamar em voz alta os nomes ali contidos. “Vão conversar com o doutor Fleury hoje”, anuncia, com certo sarcasmo na voz.

Sérgio Fernando Paranhos Fleury foi delegado a partir de 1968 do Departamento Estadual de Ordem Política e Social (Deops), durante a ditadura civil-militar. Angariou a fama de ser considerado um dos repressores mais cruéis da época, acusado de chefiar os esquadrões da morte que agiam na periferia de São Paulo nas décadas de 1960 e 1970, participar do assassinato de Carlos Marighella e Carlos Lamarca, atuar na Chacina da Lapa, em São Paulo, e a Chacina da Chácara São Bento, em Recife.
Mas isto foi em 1979. Aqui, na peça Lembrar é Resistir, encenada como parte da  Exposição Dom Paulo Evaristo Arns: 95 anos, o temido Fleury está vivo e sua presença permeia os 30 minutos do espetáculo, que conduz o público de volta aos Anos de Chumbo, por dentro das celas do Deops, em meio ao sofrimento psicológico e físico dos presos políticos. Aos berros, o delegado, interpretado pelo ator Tin Urbinatti, então “convida” cerca de 30 pessoas em situação de rua a conhecer a “sucursal do inferno”. A intimidação, a violência policial, o abuso e o arbítrio representado pelo delegado da ditadura, são comportamentos que ainda fazem parte do cotidiano de quem vive nas ruas do Brasil em 2018.

A relação de Dom Paulo com o “povo da rua” sempre foi de muito respeito e afeto. Em 1994, ao ganhar o prêmio Niwano da Paz, concedido pela comunidade budista japonesa de Tóquio, o cardeal-arcebispo emérito de São Paulo perguntou à população de rua qual seria o desejo dela. A resposta foi inusitada: queriam uma casa de oração, pois reclamavam de sofrer preconceito ao entrar nas igrejas em horários de missa. Com o valor do prêmio, cerca de US$ 190 mil, em 1997 foi então inaugurada a Casa de Oração do Povo de Rua, no bairro da Luz, região central da cidade.
Exposição dom Paulo
Celas reproduzem o Deops e a ditadura, período que marcou a atuação de Dom Paulo contra o arbítrio
FOTO: CLEBER CARDOSO NUNES
Ontem e hoje
Ao final da peça, as pessoas em situação de rua se reuniram para uma roda de conversa justamente na Casa de Oração reproduzida na exposição, acompanhados pelo padre Júlio Lancelotti, coordenador da Pastoral do Povo de Rua de São Paulo, da biógrafa de Dom Paulo Marilda Ferri e por Paulo Pedrini, coordenador da Pastoral Operária.
“O povo da rua é muito torturado, humilhado, agredido. É importante fazer a lembrança do passado não porque é bom, mas porque ainda é muito presente”, ponderou o padre Júlio Lancelotti. As pessoas então começaram a se manifestar, comentando sobre a peça de teatro que assistiram e dando depoimentos sobre a dura e violenta realidade de quem vive na rua.
Dandara Lowatcheck, de 23 anos, pediu a palavra. Detida por porte de drogas em 2014 – numa situação em que afirma ter tido uma sacola com a droga enxertada nos seus pertences –, ficou presa por 10 meses, sendo seis no Centro de Detenção Provisória (CDP) de São Vicente, na Baixada Santista. Foi torturada com choque. Era forçada a tomar banho gelado.
“Em dia de chuva, jogavam sabão em pó no corredor da cela e quem escorregasse, apanhava”, contou. Dandara disse ser comum, na prisão, os guardas dispararem tiros de bala de borracha na parede do banheiro enquanto as detentas tomavam banho. E cada nova presa que chegava era “recepcionada” com bombas de efeito moral.  
Os depoimentos se sucedem. Com pequenas variações, quem tivera a experiência de passar pelo sistema prisional narrava a violência sofrida, quase sem nenhuma diferença daquela recém encenada pelos atores ao mostrar como era a vida dos presos políticos no Deops. E quem nunca tivera “passagem” pela prisão, compartilhava a cruel experiência do dia a dia nas ruas de São Paulo, com a violência protagonizada seja pela Polícia Militar ou Civil, ou a Guarda Municipal.
Padre Júlio retoma a palavra e passa a contar fatos e causos da vida de Dom Paulo, a quem define como “o maior defensor dos direitos humanos”. “Dom Paulo estava sempre no lado dos fracos. Ele está presente na luta do povo da rua, na luta contra a tortura, foi quem mais enfrentou gente poderosa”, afirmou.
Então lembra a história do prêmio recebido por Dom Paulo e a construção da Casa de Oração do Povo de Rua. “Ninguém pode tirar aquela casa do povo da rua. Ela vai estar lá para sempre, porque foi assim que Dom Paulo quis. Eu vou morrer, vou passar, outros virão e vão passar também, mas a casa vai permanecer.”
Exposição Dom Paulo
FOTO: CLEBER CARDOSO NUNES
Reprodução da Casa de Oração do Povo de Rua na exposição sobre Dom Paulo. O cardeal construiu a casa com o recurso ganho com o prêmio Niwano da Paz
Nunca Mais 
A peça Lembrar é Resistir foi encenada pela primeira vez em 1999, ocasião em que se completavam 20 anos da Lei da Anistia. Dos atores que agora realizam novamente o espetáculo, Tin Urbinatti é o único remanescente da montagem original. Ainda vestindo o macacão cinza que usa na peça, com o longo cassetete preto apoiado no colo, Tim lembra que no final dos anos de 1990 o momento no país era de aspiração à democracia. Um clima que, avalia, mudou muito nos dias atuais.
“Agora temos a terrível surpresa de estarmos mergulhados na ditadura. Que merda! Estamos falando pra esse público que está sendo bombardeado pelo tema da ditadura”, pondera o ator. 

A montagem atual mistura no texto elementos da ditadura de 1964-1985, com referências a crise política e institucional do presente. Uma mescla percebida pelo público, acredita Tim Urbinatti. “Eles constatam que estamos fazendo uma crítica ao presente, eles estão pensando. O apelo à porrada é muito censo comum e avassalador.”

O ator reflete que a violência protagonizada pela polícia e os órgãos de segurança durante a ditadura, ainda é a mesma que reprime e oprime as pessoas mais pobres nas periferias do país, os negros e as pessoas em situação de rua. “A peça não tem mediação. O texto não é de 70, é de hoje. A polícia que fez aquilo lá na ditadura, é a mesma de hoje”, afirma.

Serviço
Exposição Dom Paulo Evaristo Arns: 95 anos
Em cartaz até 23 de setembro
Visitação das 11h às 17h, de terça a domingo
A peça “Lembrar é Resistir" ocorre de terça a domingo, em duas sessões, às 14h30 e 15h30.
Entrada franca
Local: Avenida São João, s/n, Vale do Anhangabaú – centro, São Paulo

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O samba vanguardista de Leci Brandão com inspiração centenária

A sambista Leci Brandão é um patrimônio nacional. No momento em que ela é considerada a melhor cantora de samba do Brasil pelo Prêmio da Música Brasileira, repercutir sua trajetória é uma missão. Por sua história artística pessoal e pela riqueza de narrativas que testemunhou e protagonizou e personagens com quem conviveu.
Por Railídia Carvalho
  • Ilustração: Olavo Costa Leci Brandão por Olavo Costa Leci Brandão por Olavo Costa
Além de cantora e compositora, Leci tem uma trajetória política coerente com o conteúdo de sua poesia. Ela conhece de perto o parlamento, está seu segundo mandato como deputada Estadual pelo PCdoB de São Paulo e, em seu gabinete aberto ao povo, recebeu a redação do Vermelho para esta conversa.

Herança afrodescendente

Quando Leci surgiu para o Brasil trouxe com ela o universo comunitário, étnico e sonoro da população negra de uma parte do Rio de Janeiro. Um conhecimento que nasceu em casa no cotidiano da dona Lecy, mãe da cantora e da madrinha Lurdes Bolão.
“A minha família, minha mãe, a minha avó e a minha madrinha saíam na Mangueira. A irmã de dona Neuma, acho que era a Cecéia, trabalhava na fábrica de tecidos Confiança junto com a minha mãe. Hoje o local é um supermercado”, contou Leci.
A Companhia de Fiação e Tecidos Confiança Industrial funcionou em Vila Isabel de 1936 a 1960 e foi citada nos versos de Noel Rosa: “Quando o apito da fábrica de tecidos…”
Leci era pequena no período a que se refere. “A Lurdes trabalhava com minha mãe na fábrica e morava no morro. O Jamelão trabalhava na fábrica junto com minha mãe. Conheci dona Zica quando ia almoçar na casa da Lurdes. Ela fazia feijão, matava porco. Eram todos mangueirenses. Não conheci dona Zica porque queria conhecer a mulher do Cartola. Era o ambiente natural”, contou Leci.
Dona Neuma, Jamelão, Cartola e Dona Zica são nomes conhecidos do brasileiro a despeito do desleixo e omissão das instituições do país com a memória da cultura negra e popular.
Adulta, Leci foi levada pelo sambista Zé Branco (descrito por ela como “branquinho de olhos azuis”) a uma reunião na ala de compositores da Mangueira. Ela tinha 29 anos. Cartola, Carlos Cachaça eram alguns dos bambas. Fez “estágio” (precisava apresentar os próprios sambas e passar pelo crivo dos veteranos) e um ano depois recebeu a carteira de compositora da Mangueira.

Personalidade

Da tradição veio a reinvenção do samba particular criado por Leci Brandão: A denúncia social presente no samba se potencializou e a artista incorporou temas de segmentos discriminados, como negros, o universo homoafetivo e os povos indígenas.
A estreia de Leci fez muito barulho e pautou a imprensa e os produtores culturais na década de 70: Mulher, negra, do subúrbio, compositora, cantora, integrante da ala de compositores de uma das mais tradicionais bandeiras do samba do Rio. E engajadíssima.
A origem musical e social de Leci não a impediu de trilhar caminhos próprios. Com personalidade desde a estreia, a carioca nascida em Madureira registrou sambas de sua autoria no primeiro LP, gravado em São Paulo em 75 pela Marcus Pereira. Em uma crescente, os trabalhos seguintes de Leci amenizavam na narrativa para dar visibilidade às minorias.

Minorias

“O foco era muito a denúncia social. As minhas composições cantavam as minorias, falavam da luta. Era uma cantora de protesto sem saber que era. Isso era uma coisa da minha vida, do meu dia a dia. Não é porque estava na moda. O que chamou a atenção da imprensa na época eram as observações políticas”, recordou Leci.
A facilidade da criação se aguçava quando Leci se deparava com situações que a comoviam. Assim nasceu a música Ombro Amigo, que virou tema da novela Espelho Mágico da rede Globo e sucesso em boates por todo o país. Uma entrevista da cantora ao jornal de temática LGBT Lampião da Esquina e a história ouvida de um homem, que só poderia ter um relacionamento amoroso com outros homens se frequentasse boates, motivou o samba.
“Eu já era compositora oficial da Mangueira e fui fazer uma matéria para o jornal Lampião, do Agnaldo Silva. As pessoas se espantaram: como eu compositora da Mangueira ia dar entrevista para um jornal considerado marginalizado? Ai fiz a composição. A música não falava nada de homossexualidade. Era uma música de amor”.
Os mesmos motivos que deram visibilidade a Leci serviram de argumento para que ela sofresse cinco anos de ostracismo do mercado fonográfico. Foram cinco anos sem gravar após a censura da Polygram ao repertório apresentado por ela, incluído aqui Zé do Caroço, a subversão do negro, do pobre, do suburbano de sua condição de subjugado. “Amanhã vai fazer alvoroço alertando a favela inteira”.
A partir de 1985 na Copacabana, a cantora volta ao mercado e às raízes. “Adiel de Carvalho que me levou para a Copabacana me falou que os discos anteriores eram muito elite, muita orquestra e que os próximos poderiam ser como se estivesse no buteco tocando. Cavaco, banjo, violão, tantan e pandeiro. Ficou tudo bacana”, disse Leci.
Adiel que conhecia profundamente a carreira de Leci até aquele momento afirmava que a forma dos discos de Leci a distanciavam do povo. “Ele me disse uma coisa: Você canta para o seu povo. Mas do jeito que estão trazendo, o seu povo não está alcançando você”, relembrou Leci.
A orientação de Adiel aliada à produção do cavaquinhista Alceu Maia fez a carreira de Leci trilhar outro caminho a partir de 85. “Vieram para os discos a roda de samba, veio o baião, veio o xote, o bumbá, o bumba boi. Aí as pessoas diziam: agora a Leci tá fazendo folclore. Não é nada disso: isso é música brasileira”.
Além de Zé do Caroço, o LP que deu uma nova guinada na carreira de Leci trazia ainda a clássica Isso é Fundo de Quintal (c/Zé Maurício), uma das músicas mais executadas da sambista, e Papai Vadiou (Rody do Jacarezinho e Gaspar do Jacarezinho).
“Tem lugares que vou bem distantes do meu habitat e as pessoas tem todos os meus discos e isso é muito legal porque o Brasil é muito grande e as pessoas te reconhecem. Até porque eu não tenho esse apoio de mídia. Sou uma pessoa do rádio”.
Excluída das bajulações da chamada grande imprensa, Leci se impôs pelo talento que esbanjava nas bancas da mais popular emissora brasileira comentando, com propriedade, o carnaval do Rio de Janeiro e também de São Paulo. Não é à toa que se comove com o reconhecimento que recebe em localidades distantes dos grandes centros. Ela furou o poderio da grande mídia.

Protagonismo popular

Leci é comunidade. Palavra, aliás, que é sempre bom relembrar, foi cunhada por ela durante as transmissões de carnaval nas emissoras de televisão. Assim como o caco “diz”, que ela entremeia em trechos das músicas, comunidade é uma espécie de legado da cantora. Leci é soldada do samba e reconhece os seus.
Sobre o Centenário do samba (em 2016), ela afirma: “O que eu não gosto muito é da coisa oportunista porque agora todo mundo quer falar de samba, e tem gente falando do samba de qualquer maneira. Sempre acho que está faltando gente. As pessoas ficam mais apegadas a quem tá na mídia, quem tá na televisão, quem vai no Faustão. Acho que tem que se fazer justiça a quem sempre cantou o samba, a quem sempre respeitou o samba”, enfatizou.
A ressalva também vem acompanhada de declarações de amor: “É bacana o centenário do samba porque o samba é a música da alegria, como diz o Martinho da Vila. Você está numa passeata tem samba, no estádio tem samba, na casa das pessoas, no subúrbio ou na cidade. O samba agrega, o samba salva vidas. Eu devo a minha vida ao samba. Se não fosse o samba eu não teria construído a carreira que eu construí”, se derramou Leci.
Os 72 anos de idade e 40 anos de carreira não cabem em uma única matéria. Neste caso uma homenagem a esta artista que está ao lado do povo. Leci é a antiestrela. Representa o protagonismo da cultura popular e dos excluídos. A cidadã brasileira Leci Brandão é a voz do samba e a cara do Brasil.
Do Portal Vermelho

HOJE! A AMES - NOVA CRUZ/RN COMPLETA 24 ANOS!

A AMES (Associação Municipal de Estudantes Secundaristas) de Nova Cruz, Rio Grande do Norte, fundada em 28 de agosto de 1994 na Escola Municipal Francisco Pereira Matos, entidade representativa dos estudantes secundaristas e de cursos. completa HOJE 24 anos de lutas, histórias e de conquistas! Tendo seu primeiro presidente Antonio Virgilio.  Hoje a mesma se encontra sem ação, pois o próprio movimento estudantil passa por uma crise chamada imobilismo! Mesmo assim é importante registrar este momento, pois quem fez muito pelos estudantes não pode cair no esquecimento.

É preciso união, força e determinação para fortalecer a entidade, deixando de lado as diferenças e buscar a união, com todos sé tem a ganhar!

A AMES sempre esteve na defesa dos estudantes brasileiros e com isso conseguiu várias conquistas, que hoje são sentidas quando os estudantes pagam a meia entrada nos setores de diversões: (cinemas, circo, festas, parque de diversões, etc), na meia passagem intermunicipal, a lei do Grêmio Estudantil nas escolas públicas e privadas, diretas para diretor de escola, entre outras.

A todos os ex dirigentes nosso abraço e agradecimentos pela participação e luta em prol da AMES.


A AMES SOMOS NÓS NOSSA FORÇA, NOSSA VOZ! Resgatar

domingo, 26 de agosto de 2018

#AnistiaJá: No Paraná, estudantes lutam contra sentenças arbitrárias pós ocupações


Jovens de escolas públicas estão recebendo condenações com valores entre mil e 30 mil reais por participar de movimento em 2016.

Qualquer um que constrói o movimento estudantil no Brasil conhece o Paraná como estado pioneiro em 2016 nas ocupações de escolas, movimento que depois se espalhou por mais de 1.300 unidades no Brasil todo, contra o congelamento de investimentos na Educação, contra o golpe político-parlamentar de 2016 e contra uma reforma do Ensino Médio autoritária. O que nem todos sabem é que quase dois anos depois esta história de resistência ainda não acabou e ganha traços cada vez mais autoritários e antidemocráticos no estado.
Adolescentes paranaenses têm recebido notificações de sentenças em que são condenados a pagar multas com valores entre mil e 30 mil reais ou a prestar trabalhos voluntários. Foram processados pelo governo estadual, de Beto Richa (PSDB) e Cida Borghetti (PP), e condenados por “reintegração de posse” de colégios já desocupados há mais de 18 meses. É o único estado onde isso acontece. Detalhe: as pessoas julgadas não tinham nem conhecimento dos processos.
“Esta perseguição é feita não só para deslegitimar o maior levante estudantil do último período, mas também para que estudantes se sintam intimidados em participar do movimento estudantil”, denuncia Wellington Tiago, presidente da União Paranaense dos Estudantes Secundaristas (UPES-PR). A entidade realiza a campanha “Anistia Já”, pela anulação dos julgamentos arbitrários que não param de chegar.
Segundo o estudante, a campanha é muito importante também para defender a legitimidade das ocupações, movimentos autogestionados que poderiam ensinar muito aos sistemas de ensino: “Era preciso lutar contra a PEC 55, temos direito de manifestar nossa opinião. E ainda mostramos um novo jeito de organizar as escolas, mais democrático, plural e com participação dos estudantes”.
Leia abaixo entrevista com Wellington, 18 anos, estudante do Colégio Estadual do Paraná, em Curitiba.

ENTREVISTA:
“O legado das ocupações deve ser mais democracia, não perseguições”

Wellington Tiago, 18 anos, estudante do Colégio Estadual do Paraná e presidente da União Paranaense de Estudantes Secundaristas (UPES): “Queremos anulação dos processos e defender o legado das ocupações”
UBES: O que é a campanha ‘Anistia Já’, criado pelo movimento estudantil do Paraná?
Wellington Tiago: Quase dois anos depois do movimento de ocupações de escola, muitos estudantes estão sendo processados judicialmente por ter participado. São processos absurdos. O único motivo da sentença é ter ocupado sua escola.
São mais de cem pessoas processadas que, como estudantes de escola pública, não têm dinheiro para pagar os valores pedidos nas sentenças. A própria UPES está sendo notificada e não tem dinheiro para pagar.
Além da anistia destes processos arbitrários, queremos mostrar que as ocupações foram sim um movimento legítimo de protesto. A Constituição nos garante o direito à manifestação. Precisamos mostrar a perseguição que estamos sofrendo.
UBES: Qual o legado vocês gostariam que as ocupações deixassem para a educação do Estado, que não o das perseguições políticas?
Wellington: Todas as ocupações do Paraná deixaram um legado de uma escola mais democrática, mais plural, com menos preconceito, mais participação dos estudantes. Principalmente, de um novo modelo de ensino. Onde houve ocupação conseguimos deixar isso claro.
Infelizmente, para o estado ficou esta perseguição. É natural, uma vez que quem está no comando são governadores que já mandaram a polícia agredir professores, em manifestação de 2015 conhecida nacionalmente. O governo de Beto Richa (PSDB) e Cida Borghetti (PP) não deu prioridade nenhuma para a educação e ainda é acusado de desvio de verbas do ensino público.
Essa perseguição acontece não só para deslegitimar o maior levante estudantil do último período, mas também para que estudantes se sintam intimidados em participar do movimento estudantil. A maior parte dos processados deixam seus grêmios, suas entidades municipais.
A ideia da campanha é mostrar para a sociedade também que o movimento foi legítimo, que era preciso lutar contra a PEC 55, que temos direito de manifestar nossa opinião e que mostramos um novo jeito de organizar as escolas.
Cena do documentário
“Ocupa Tudo – Escolas ocupadas no Paraná”
(Carlos Pronzato, 2017)
UBES: Como a campanha está atuando?
Wellington: Estamos indo às escolas conversar com os grêmios e estudantes sobre o que vem ocorrendo. Os grêmios fazem cartazes, rodas de debate. Pretendemos realizar uma audiência pública sobre o assunto e estamos apresentando um Projeto de Lei a deputados para arquivamento dos processos injustos. No dia 30 de agosto, vamos fazer um protesto junto com professores em Curitiba.
UBES: Alguém já foi punido por ter participado de ocupações?
Wellington: Muitas pessoas já foram punidas. Pelo menos mais de cem estudantes, a própria UPES, diversos professores, trabalhadores de escolas e diretores.
No caso dos professores, estão sofrendo processos administrativos em que podem perder o emprego, apesar de concursados. No nosso caso, envolve valores financeiros.
No caso dos estudantes menores de idade, os pais estão respondendo judicialmente, com sentenças entre mil e 30 mil reais e trabalhos voluntários.
UBES: Por que acha que os processos são arbitrários?
Wellington: Em relação aos estudantes, em todos os processos até agora, ninguém foi chamado para nenhuma audiência, ninguém participou ou teve direito de ser ouvido no seu julgamento. Simplesmente recebeu a notificação. É uma perseguição, porque o réu não tem direito à defesa.
Leia também:
Fonte: UBES

BOLSONARO, NÃO!

PORQUE DIZEMOS NÃO A BOLSONARO?

Em um momento de desesperança com a política e com o nosso país, é natural que saídas fáceis tentam nos seduzir. Mas por trás disso podem estar escondidos retrocessos perigosos aos nossos direitos e a nossa liberdade. Por isso iremos combater as ideias retrógradas que atacam à nossa juventude e a democracia.

Dizemos NÃO à retribuição da violência como solução para a segurança pública.

Dizemos NÃO à privatização das nossas empresas estatais e a entrega de nossas riquezas ao estrangeiro.

Dizemos NÃO à discriminação contra mulheres, negras e negros, LGBTs.

Dizemos NÃO à qualquer tentativa de cerceamento da nossa Liberdade.

Dizemos NÃO à tentativa de dividir nosso povo pelo ódio às diferenças, sejam elas ideológicas, culturais ou étnicas.

Esse não é o Brasil que queremos. Queremos devolver a esperança ao nosso povo.

Queremos uma segurança pública.

Queremos nossa indústria e nossas empresas estatais fortes.

Queremos desenvolvimento e justiça social.

Queremos respeito e igualdade entre todas as pessoas.

Queremos MAIS democracia, MAIS participação e fortalecimento do debate político.

Queremos o nosso povo unido.

SIM À ESPERANÇA!
NÃO À BOLSONARO

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