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sábado, 6 de abril de 2019

Jeosafá Gonçalves: A força simbólica das palavras

A linguagem, ou a língua, aqui tomadas como sinônimos, pode assumir, a grosso modo, duas dimensões: a pragmática (prática) e a simbólica, sendo que nem a primeira nem a segunda são puras: tanto a dimensão predominantemente pragmática está mesclada com expressões de natureza simbólica, quanto a dimensão simbólica está contaminada pela dimensão pragmática da linguagem.
Por Jeosafá Gonçalves*
A dimensão pragmática da linguagem diz respeito ao uso cotidiano e prático da língua. Nela, os sentidos das palavras estão próximos e relacionados diretamente com os significados delas no dicionário linguístico: a palavra “caneta” representa um objeto empregado na escrita que se diferencia do lápis, feito com grafite, pelo emprego de tinta. Podemos, ao ouvir ou escrever “caneta”, imaginar uma infinidade de formas, tamanhos e cores de caneta, porém a palavra está associada diretamente aos objetos possíveis de comporem um conjunto formado pelos diversos modelos de caneta. Ao chegarmos ao balcão de uma papelaria e pedirmos uma caneta esferográfica azul, o funcionário rapidamente exporá a nossa frente as que tiver para vender: escrita fina, escrita grossa, com cilindro colorido ou transparente etc. Todas, canetas.
Do mesmo modo, no uso didático, as palavras assumem por função esclarecer ideias, tirar dúvidas, exemplificar, refletir sobre aspectos da aprendizagem entre outros significados. As palavras aqui tendem a evitar duplos sentidos, buscam expressar ideias, conceitos, fórmulas, pensamentos com a maior exatidão possível, eliminando tanto quanto possível ambiguidades que induzam ao erro.
O mesmo se dá nas linguagens científica (sejam elas no campo das ciências exatas, no das humanas ou ainda no das linguagens) e informativa (ou jornalística), que também tendem à exatidão para comunicar conceitos, modelos científicos, fórmulas, fatos, sistematizar experiências ou experimentos etc.
Na dimensão pragmática o peso interpretativo é mínimo e o descritivo, máximo. Tanto que para os cientistas a partir do século XIX a ciência é antes de tudo uma descrição da realidade.
Em muitos sentidos, a dimensão simbólica é oposta à pragmática. Nela, ao contrário do que se disse até aqui, a linguagem se distancia da exatidão, as palavras se afastam de seus significados no dicionário linguístico e assumem francamente caráter ambíguo (de múltiplos sentidos).
Num romance, conto ou poema em que uma personagem está o tempo todo com uma caneta na mão a rabiscar, rascunhar, escrever, a palavra “caneta” é mais que um objeto destinado à escrita: ela simboliza todas tensões vividas pela personagem, seus sonhos, ansiedades, fantasmas, expectativas, traumas, desejos etc. etc. etc. Quando em posse dessa caneta em movimento, a personagem pode estar se sentido realizada ou torturada, em êxtase ou em sofrimento profundo, próxima do gozo ou à beira do suicídio.
Aqui o uso pragmático da linguagem cedeu espaço ao uso simbólico, que carece não apenas do dicionário linguístico, se bem que também aqui ele tenha lugar, mas de dois outros tipos de “dicionários” desordenados que estão depositados na mente e no coração do leitor: seu repertório de imagens (visuais, auditivas, olfativas, palatais e táteis) e seu repertório próprio linguístico.
Para se penetrar na dimensão simbólica da linguagem, ambos esses repertórios precisam ser ativados – e não basta isso: enquanto essa ativação não for automática e rápida, os sentidos relacionados às palavras não se constituirão no espirito do leitor (é como um computador que entrou em looping, que gira, gira, gira, mas não abre a página desejada e acaba por travar).
Embora os significados das palavras no dicionário sejam a base do sentido simbólico (afinal a palavra “caneta” significa caneta mesmo, e remete à imagem da caneta), para alcançar os infinitos sentidos simbólicos de uma palavra ou expressão (conjunto organizado delas), é preciso interpretar a palavra enquanto representação de símbolos e imagens, que remetem a sensações, sentimentos, pensamentos, ideias, conceitos, lembranças, experiências alegres ou dolorosas de vida repousadas em nosso inconsciente.
O símbolo “caneta” precisa suscitar em nossa lembrança o prazer de se ter usado pela primeira vez esse objeto. Quando nossa professora falou “Agora vocês podem usar a caneta”, foi como se tivéssemos “ficado maiores”, mais responsáveis, como se tivéssemos “crescido”. Mas também o símbolo “caneta” remete seguramente a experiências que nos fizeram sofrer, por exemplo, aquela prova em que confundimos as alternativas na hora de fazer o X e marcamos por engano as erradas, embora soubéssemos as corretas.
Quanto mais imagens lembrarmos, quanto mais mobilizarmos nosso repertório de imagens, sensações, impressões visuais, auditivas, olfativas, palatais, táteis, conceituais (ideias e pensamento), maiores nossas chances de compreendermos as palavras-símbolo, que são o alfabeto da literatura.
Se a personagem inventada logo acima, presente em um texto de ficção, o tempo todo a rabiscar, escrever, anotar, num dado momento atira a caneta contra a parede e, não contente, a destrói com pisões, não é apenas uma caneta que está sendo destruída, mas talvez um sonho de escritor, poeta e de toda uma vida. Na caneta-símbolo destruída está selado o próprio destino de quem nela depositou tanta esperança subitamente frustrada.
Se essa personagem, arrependida, recolheu a caneta, guardou-a com carinho e a substituiu por outra para ressuscitar seu sonho no papel em branco, impulsos de vida triunfaram sobre os impulsos de morte. Porém se a personagem com a destruição da caneta pôs fim a seu sonho, enterrando-o definitivamente, podemos supor e mesmo deduzir, e mesmo apostar que o caminho de sua autodestruição se abriu como a boca de um dragão infernal. Daí para frente assistiremos à degradação de alguém que tinha tudo para dar certo, mas que perdeu-se definitivamente ao perder seu sonho.
A literatura depende dessa habilidade imaginativa do leitor, que pode e deve ser desenvolvida por meio de jogos simbólicos e práticas criativas de conversão da palavra-símbolo em imagens e da associação delas com situações, sensações, sentimentos, ideias, pensamentos já vividos por nós realmente (na forma de lembranças de experiências boas ou ruins) ou simbolicamente (filmes, músicas, peças de teatro a que assistimos, ou ainda jogos, brincadeiras, diversões prazerosas em que nos envolvemos durante a vida).
Quem não consegue imaginar, não acha graça em uma personagem ou situação hilária, porque simplesmente não a viu em sua mente, por conseguinte não a sentiu em seu espírito. Como rir do que, por não conseguirmos associar a nada, sequer visualizamos ou sentimos?
A cena da personagem pisoteando a caneta pode assumir um caráter trágico. Para captar essa tragédia, precisamos visualizá-la em detalhes. Porém, o autor pode introduzir um elemento de humor para “avisar o leitor” de que, afinal, o drama da personagem não é assim tão grave, e que seus exageros um tanto ridículos representam o ridículo a que todos nós estamos sujeitos quando perdemos o controle sobre nossas emoções.
No cinema, Chaplin foi campeão em extrair o riso dessas situações constrangedoras em que nos envolvemos sem querer, que parecem o fim do mundo, quando na verdade são apenas raiva momentânea e humanamente aceitável, digna de tudo, não de lágrimas.
A interpretação envolve assim a mobilização de dois repertórios interiores, o imagético e o linguístico, numa conversão (quanto mais automática possível, melhor) de palavras em imagens e símbolos, e destes novamente em palavras, que trazem para a consciência os segredos e mistérios embutidos nas imagens e nos símbolos.
Se não captamos a piada implícita, perdemos a oportunidade de rir e de extrair do riso a possibilidade de superação da dor que mora atrás ou no fundo de cada piada. Porém para captar a ironia do riso, é preciso imaginar a cena toda e deduzir dela o ridículo, o engraçado, o vexame, o humor.
Assim, quem “não gosta” de literatura tem antes de tudo uma questão a resolver com sua própria imaginação. Sem imaginar, não dá para sentir, gozar, ter prazer – aliás, nem com literatura, nem com coisa nenhuma.
* Jeosafá Fernandez Gonçalves é doutor em Letras pela USP

Paçoca de Carne de Sol

paçoca de carne de sol é um delicioso acompanhamento que é servido em quase todos os pratos do Nordeste.
Ingredientes:
4 colheres (sopa) de manteiga de garrafa
2 cebola picadas
2 dentes de alho
2 xícaras (chá) de carne-seca dessalgada, cozida e desfiada
1 xícara (chá) de cheiro-verde
4 xícaras (chá) de farinha de mandioca
3 colheres (chá) de sal
1 colher (chá) de pimenta-do-reino
Coentro a gosto
Modo de preparo:
Em uma panela, derreta a manteiga de garrafa em fogo médio, coloque a cebola e cozinhe até dourar. Adicione o alho, a carne-seca, o cheiro-verde e refogue por 5 minutos. Espalhe a farinha, o sal, a pimenta-do-reino, misture por 3 minutos e sirva em seguida com arroz branco, feijão preto e ovos fritos. Não esqueça do aipim (mandioca) cosido e com manteiga de garrafa.

Livro resgata a história de Tebas, o escravo negro que virou arquiteto

Não há momento mais oportuno para o lançamento de Tebas – Um Negro Arquiteto na São Paulo Escravocrata(2019). Apesar dos Bolsonaros e dos Holidays da vida, é tempo pródigo à valorização da história e da cultura afro-brasileiras. O pensamento reacionário e racista tem cada vez mais visibilidade, sim. Em contrapartida, sobram exemplos de reparações a personalidades negras – e o ótimo livro sobre Tebas, organizado pelo jornalista Abilio Ferreira, vai nessa direção.
Por André Cintra
Antes de falar do ressurgimento de Joaquim Pinto de Oliveira (1721-1811), o “mestre pedreiro” Tebas, voltemos a um e outro episódio destes anos recentes. A lembrança mais significativa é a do escravo liberto e líder abolicionista Luiz Gama (1830-1882), que, embora nascido na Bahia, viveu e lutou em São Paulo na maior parte da vida. Sua história andava apagada, esquecida – até ser, aos poucos, recuperada.
Na década de 1850, por ser negro, Gama foi proibido de se matricular na Faculdade de Direito do Largo São Francisco. Conseguiu, porém, frequentar as aulas como ouvinte. Mesmo sem o registro de advogado, empenhou-se mais pela causa abolicionista nos tribunais do que qualquer profissional da Justiça de São Paulo, tendo ajudado a libertar ao menos 500 escravos pelas vias legais.
A despeito dessas proezas, foi apenas em 2015 – ou seja, 133 anos após a morte do “apóstolo negro da Abolição” – que a OAB (Ordem dos Advogados do Brasil) lhe concedeu o título de “advogado”. Dois anos depois, a Faculdade do Largo São Francisco batizou uma de suas salas com o nome de Luiz Gama – uma deferência que, até então, a instituição prestava exclusivamente a ex-professores. Já em 2018, por lei, Luiz Gama foi declarado “patrono da abolição da escravatura no Brasil”, além de ter seu nome inscrito no Livro dos Heróis e Heroínas da Pátria.
As mulheres negras tampouco ficaram para trás. Na semana passada, o Senado aprovou a inclusão dos nomes de Dandara dos Palmares e Luísa Mahin no livro Heróis e Heroínas da Pátria. Companheira de Zumbi, Dandara foi uma das grandes líderes quilombolas do século 17. Já a escrava alforriada Luísa Mahin, mãe de Luiz Gama, participou da principal rebelião antiescravista na Bahia, a Revolta do Malês (1835). Ainda em março, a Mangueira venceu o Carnaval 2019 no Rio de Janeiro com o enredo História pra Ninar Gente Grande – que homenageia, entre outros ícones esquecidos, “Marias, Mahins, Marielles, Malês”.
Não são eventos fortuitos. Universidades tradicionais passaram a adotar obras de autoras negras como livros obrigatórias no vestibular. Quarto de Despejo – Diário de uma Favelada (1960), da catadora de lixo Carolina Maria de Jesus (1914-1977), está na lista da Unicamp desde 2018. Na UFRGS, além do livro de Carolina, é cobrada a leitura de Úrsula (1859), da professora negra Maria Firmina dos Reis (1822-1917). Trata-se do primeiro romance a ser escrito por uma mulher no Brasil – e, de quebra, o primeiro a defender abertamente o abolicionismo.
Legado africano
É nesse contexto fecundo que Tebas volta a ganhar proeminência – e que seus projetos passam a ser observados com mais curiosidade e reverência. Quais projetos? Só na cidade de São Paulo, a torre da primeira Catedral da Sé, o Chafariz da Misericórdia, o frontispício da Igreja da Ordem Terceira do Carmo, a pedra de fundação do Mosteiro São Bento – tudo isso passou pelas mãos e pela engenhosidade de Tebas. Em Itu, no interior paulista, esse ilustre “oficial de cantaria de pedra” ergueu o monumento Cruzeiro Franciscano, de nove metros de altura.
Dos cinco artigos que compõem Tebas – Um Negro Arquiteto na São Paulo Escravocrata, convém tratarmos inicialmente do excepcional texto de Ramatis Jacino, doutor em História Econômica pela USP. É ele quem assinala o elo entre África e Brasil presente nas construções de Tebas – mas não só. Segundo Ramatis, “já não é possível ignorar totalmente a contribuição civilizatória do continente africano”, em especial “os avanços tecnológicos e científicos desenvolvidos por nações africanas antes da chegada dos europeus”. Tebas seria, portanto, uma evidência – e não um desvio – dessa cultura singular:
Assim, a quantidade de mão de obra especializada introduzida no Brasil através da escravidão teria sido imensa e fundamental para os diversos momentos da economia brasileira considerando que aqui chegaram escravizados especialistas em plantação, colheita e beneficiamento da cana de açúcar e do café, construtores de barcos e técnicos em navegação, mineradores, vaqueiros e profissionais no abate de animais e na utilização de seu couro e carne; artesãos têxteis e químicos com conhecimento de tintas, ourives, fabricantes de sabão e marceneiros, entre outros. Estes profissionais eram classificados de “artífices mulatos” e sua presença foi grande em Minas, Rio, Bahia e Pernambuco, deixando vestígios muito evidentes de seu trabalho na música, na escultura e na pintura. Até mesmo na produção cultural erudita, como na música clássica, no teatro e nas artes plásticas os africanos e seus descendentes estiveram presentes, como ilustram expoentes que representavam a regra e não a exceção, como Antônio Francisco Lisboa, o Aleijadinho, os “mestres mulatos” de Minas Gerais, o Frei Jesuíno de Monte Carmelo, de São Paulo e incontáveis anônimos, como os descritos em documentos recentemente descobertos.
Natural de Santos (SP), onde nasceu em 1721, Tebas tem uma biografia repleta de lacunas e imprecisões, a ponto de ter virado tema de um samba de Geraldo Filme (1928-1995). Fatos e mitos se alternam na letra da música – o próprio compositor paulista admitiu que não conhecia tudo que já tinha sido publicado a respeito de seu homenageado.
Em textos de sua época, Tebas é descrito como “mulato”, ainda que, por mais de um século, não pudemos cravar, com segurança, que ele passou pelo cativeiro. O fato de ter sobrenome – coisa incomum entre os negros no período colonial – seria um indício forte de que Tebas nasceu livre. Hoje, de qualquer maneira, é quase certo que Tebas foi escravizado em Santos e em São Paulo por nada menos que 57 anos – ele morreu aos 90.
Carlos Gutierrez Cerqueira, pesquisador do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), detona a dúvida. Em seu artigo para o livro, com base em fontes originais, Cerqueira demonstra que Tebas pertencia ao mestre pedreiro português Bento de Oliveira Lima, que morava em Santos. Ao se mudarem para São Paulo, senhor e cativo tinham um trunfo: sabiam usar a pedra como material de construção. Até aquele momento, “o sistema construtivo típico de serra acima era o da taipa de pilão”.
Os documentos comprobatórios da participação de Tebas em obras como a da Igreja da Ordem Terceira do Carmo indicam também o destino de nosso personagem. Com a morte de Bento, Tebas fica sob as ordens da viúva, D. Antonia Maria Pinto. Mas, “embora ainda cativo”, desfrutou “de uma situação algo diferente, favorável sobretudo ao exercício de sua profissão. Assim, o vemos contratando obras, dando garantias e, mais ainda, ele próprio recebendo os pagamentos combinados”.
Àquela altura, Tebas já era um escravo com mais autonomia. Curiosamente, sabia ler e escrever, enquanto a patroa enviuvada era analfabeta. Depois, já alforriado, ele “terá também escravos: João e Joaquim, ambos negros. Tebas, de cativo, tornara-se senhor. A sociedade escravocrata tinha lá a sua lógica e as relações escravistas se reproduziam até por suas próprias e antigas vítimas”. Cerqueira questiona: “Teria Tebas outra alternativa?”.
O profissional
A preocupação de Tebas – Um Negro Arquiteto na São Paulo Escravocrata não é, exatamente, a de reconstituir uma vida. Fruto de uma parceria entre a Idea (Instituto para o Desenho Avançado) e o CAU-SP (Conselho de Arquitetura e Urbanismo do Estado de São Paulo), o livro prioriza a faceta profissional desse “especialista na arte e na técnica de talhar e aparelhar pedras”. Razoavelmente afamado em vida, Tebas acabou por ficar “esquecido na metrópole de concreto”, conforme as palavras do arquiteto Carlos Lemos, destacadas no livro.
Uma metrópole que em quase nada faz lembrar a cidade provinciana e desinteressante do século 18, onde Tebas viveu, forjou-se “mestre pedreiro”, batalhou, foi reconhecido como “grande construtor” e deixou sua marca. A cidade detinha pouco peso econômico no País – e até mesmo no estado. Em 1780, sua zona urbana se limitava a 18 ruas e três pátios, a crer nos registros de Basílio Machado. Daí a sensação do historiador Afonso Antonio de Freitas (1870-1930) de que, após a construção da torre da Catedral da Sé, não havia em São Paulo nada que “deixasse de ser por Tebas executado”.
Este e outros depoimentos são citados no artigo inaugural do livro, assinado por Abilio Ferreira, com o título “Tebas e o tempo”. É um caprichado e minucioso levantamento cronológico das publicações e das referências mais relevantes sobre o negro arquiteto. Didático, Abilio mostra como, de 1899 a 2018, as informações sobre Tebas foram ditas e desditas, expostas e ocultadas, reiteradas e corrigidas.
É um capítulo fartamente documentado. Ao chegar aos anos recentes, o autor dá a entender que o reconhecimento a Tebas, ao menos em São Paulo, tem alicerces mais sólidos, como suas construções de pedra. Dois exemplos: 1) em 2015, foi aprovada a lei municipal que incluiu no Calendário Oficial da Cidade a “Festa de Tebas”, a ser celebrada anualmente, em 25 de janeiro; e 2) em 2018, o construtor negro passou a integrar, postumamente, o quadro associativo do Sindicato dos Arquitetos no Estado São Paulo (Sasp), o que ratifica sua condição de arquiteto.
Presidente do Sasp, Maurílio Chiaretti frisa, em seu artigo, “a necessária revisão da profissão de arquiteto e urbanista”. A seu ver, o caso do escravo que se tornou um expoente da arquitetura serve como paradigma: “Há milhões de Tebas na construção civil – pedreiros, serventes, encanadores, eletricistas, carpinteiros, marceneiros, vidraceiros e muitos outros – que permanecem esquecidos tanto nos patrimônios arquitetônicos tombados como no debate da produção urbana”.
Mas o negro arquiteto, posto tudo isso, não deixa de ter peculiaridades. “Tebas foi um dos poucos escravizados a se alfabetizar e a conquistar a alforria pelo reconhecimento do valor do seu trabalho. Seu preço não era mensurado pela sua força física, mas pelo domínio de uma técnica”, enaltece Chiaretti. Ao endossar a opinião do arquiteto Benedito Lima de Toledo, o sindicalista afirma que Tebas “aprimorou, nas cidades de São Paulo e de Itu, tecnologias que lhe possibilitaram captar a religiosidade da época”. Foi justamente essa “expressão da religiosidade” que “o transformou em arquiteto e suas obras, em arte”.
Como isso foi possível? O presidente do Sasp arrisca uma resposta: “A formação (…) que Joaquim Pinto de Oliveira Tebas recebeu do seu primeiro senhor, o mestre-pedreiro Bento de Oliveira Lima, além de representar uma contradição do regime escravista, pode também ser vista como a sua faculdade. Mas ele foi além: não apenas se tornou um juiz de ofício de sua especialidade, membro de uma espécie de Conselho de Arquitetura e Urbanismo da época, como também compreendeu a realidade complexa do seu tempo lutando por liberdade. Miremo-nos no exemplo”.
O “mito” e a “figura histórica”
Cabe sublinhar, por fim, que documentos do século 18 e 19 carecem, volta e meia, de fidedignidade – o que ajudou a postergar as reparações a Tebas. O capítulo sobre o Chafariz da Memória, da lavra de Emma Young, doutoranda em História do Meio Ambiente pela Universidade de Nova York, aposta nessa tese. A obra, feita de pedra e inaugurada em 1792, no Largo da Misericórdia, foi um sistema pioneiro de abastecimento público de água na cidade e, ainda, “o primeiro monumento a embelezar São Paulo”.
Segundo a autora, há vários documentos disponíveis sobre o “Chafariz do Tebas” – de ordens e correspondências do governador até estudos sobre a qualidade das águas do Rio Anhangabaú. Nessa papelada, porém, falta a contribuição do negro arquiteto. “O mito em torno da vida de Tebas revela e reforça a co-construção de processos socioculturais e ambientais que desvalorizam a vida negra há muito tempo em São Paulo”, denuncia Emma. “A desconstrução de narrativas mitificadoras e de negação histórica torna visível a violência que tornou Tebas um mito, e não uma figura histórica.”
Para nossa sorte, iniciativas como Tebas – Um Negro Arquiteto na São Paulo Escravocrata facilitam a tarefa de separar realidade e mistificação. De resto, está na hora de a CAU-SP formalizar o registro de Tebas como arquiteto, à semelhança do que a OAB fez com Luiz Gama. Como a grande mídia segue oligopolizada e conservadora, é preciso que mais e mais universidades se abram ao estudo das contribuições dessas inúmeras, valorosas e inspiradoras personalidades negras. Abertura para isso existe. E, se faltava motivação ou pretexto, o bolsonarismo está aí para provar que conhecer a História nunca é demais.
Brasil Cultura

sexta-feira, 5 de abril de 2019

POVOS TRADICIONAIS - Quilombolas denunciam Brasil à OIT por plano de expansão da Base de Alcântara

Coletiva de imprensa ocorreu nesta quinta-feira (04) na sede da Defensoria Pública da União em São Luís (MA) - Créditos: Divulgação

Projeto já expropriou 2 mil famílias; entidades temem agravamento da situação com acordo firmado com os EUA.

São Paulo | Brasil de Fato
Quilombolas da cidade de Alcântara (MA), na região metropolitana de São Luís, realizaram nesta quinta-feira (04) coletiva de imprensa para denunciar o acordo de concessão de uso da Base de Lançamentos de Alcântara (CLA) aos Estados Unidos. A acusação foi feita formalmente à Organização Internacional do Trabalho (OIT).
O anúncio, realizado na Defensoria Pública da União em São Luís, teve a presença do Sindicato dos Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais de Alcântara (STTR), do Sindicato dos Trabalhadores e Trabalhadoras na Agricultura Familiar de Alcântara (SINTRAF) e do  Movimento dos Atingidos pela Base Espacial de Alcântara (MABE).
O tratado entre o governo do presidente Jair Bolsonaro e do americano Donald Trump foi firmado no dia 18 do mês passado. Entre outros pontos, o acordo prevê que determinadas áreas da base passem a ter acesso controlado pelo governo americano. O dinheiro arrecadado pelo Brasil na empreitada não poderá ser investido em um programa nacional de lançadores de mísseis. Também não está prevista transferência de tecnologia entre os países.
A base de Alcântara foi inaugurada em 1983. Desde então, comunidades quilombolas foram deslocadas de seus territórios sob a justificativa de se garantir sua segurança durante o lançamento de foguetes.
O comunicado emitido pelos organizadores da coletiva afirma que “O processo de expropriação das terras quilombolas já atingiu mais de 2 mil famílias quilombolas, um território que corresponde a 52% da superfície do município de Alcântara. Centenas de famílias foram reassentadas em agrovilas, distantes mais de 10 quilômetros do acesso ao mar, em terras inférteis e insuficientes para o desenvolvimento das atividades econômicas e de manejo dos recursos naturais que lhes eram características”. 
O texto ainda diz que, devido a expropriação, houve “o agravamento da pobreza, a ruptura dos laços comunitários, e a fragilização das manifestações culturais típicas das comunidades quilombolas da região”.
Desde 2008, quilombolas aguardam que o Governo Federal ratifique um relatório do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (INCRA)reconhecendo seu direito de ocupar 78 mil hectares de terras na região. Com a denúncia, eles pretendem garantir a titulação de suas terras e a realização de consulta pública que preceda o possível avanço do acordo com os EUA. 
“A coletiva cumpre o objetivo de mostrar a sociedade que existe um grande número de comunidades quilombolas em Alcântara na área pretendida para expansão da Base, e que estas comunidades estão mobilizadas e vão resistir para assegurar a permanência no seu território”, diz Danilo Cerejo, que é um dos quilombolas a frente do MABE. 
Ele explica que o acordo com os Estados Unidos agrava a situação dos quilombolas, já que afasta ainda mais a perspectiva da titulação e assentamento: “Este acordo corrobora para assolar o cenário de incerteza e insegurança jurídica das comunidades quanto a titulação do seu território, conforme RTID [Relatório Técnico de Identificação e Delimitação] já publicado pelo INCRA em 2008. Não há como avançar nessas discussões sem que se titule o território das comunidades”.
Edição: Aline Carrijo - brasildefato.com.br

Sindicato pressiona parlamentares contra a reforma da Previdência

Sindicato pressiona parlamentares contra a reforma da Previdência
Com o objetivo de pressionar e convencer os parlamentares sobre os riscos de se desconstitucionalizar direitos, acabar com o sistema público e entregar a previdência para o mercado, o ADURN-Sindicato tem atuado, em conjunto com o PROIFES-Federação, contra a PEC 6/2019, que trata da reforma da Previdência.
Com o compromisso de que não votará favorável ao texto de reforma enviado pelo governo Bolsonaro ao Congresso, a senadora Zenaide Maia (PROS/RN), o senador Jean Paul Prates (PT/RN) e a deputada federal Natália Bonavides (PT/RN), da bancada do Rio Grande do Norte no Senado e na Câmara Federal, receberam representantes do ADURN-Sindicato em Brasília e se comprometeram a trabalhar para que a proposta de reforma da Previdência, em análise na Câmara desde fevereiro, não seja aprovada.
Frente ao cenário que aponta para a completa destituição do sistema de Seguridade Social no Brasil, um ofício foi entregue também ao deputado Rafael Motta (PSB/RN), em março, solicitando o agendamento de uma reunião com a bancada de deputados do Rio Grande do Norte, mas até o momento o Sindicato não recebeu nenhuma resposta.
Na oportunidade, o ADURN-Sindicato quer debater os cenários e perspectivas para os servidores públicos e apresentar os principais pontos de contrariedade às alterações das regras para Previdência que pretende restringir o acesso às aposentadorias dos setores público e privado.
Para a diretoria, é preciso discutir com os deputados o principal argumento defendido pelo governo, de eminente falência do sistema do seguro social, aliado à necessidade de equiparação dos benefícios dos servidores públicos aos benefícios de regime geral, e apresentar os impactos do modelo de capitalização do novo texto de reforma.
"Os próximos dias serão decisivos para barrar a proposta e precisamos alertar a sociedade e fazer um trabalho de pressão e convencimento junto aos parlamentares no Congresso", afirma a professora Gilka Pimentel, vice-presidente do ADURN-Sindicato e diretora do PROIFES-Federação ao comentar a iniciativa da ANFIP em disponibilizar um link para envio de mensagens aos parlamentares.
ADURN

PRESIDENTE DO CPC/RN, EDUARDO VASCONCELOS SE ENCONTROU RAPIDAMENTE COM O SEC/RN, GETÚLIO FERREIRA E AGENDA AUDIÊNCIA PARA 3ª SEMANA DE ABRIL, CONFIRA A MATÉRIA!

Eduardo Vasconcelos, presidente do Centro Potiguar de Cultura - CPC/RN e professor GETÚLIO FERREIRA, Secretário Estadual de Educação do Estado do RN

Ontem (04) o presidente do CENTRO POTIGUAR DE CULTURA - CPC/RN, Eduardo Vasconcelos esteve na Secretaria Estadual de Cultura - SECD/RN para marcar uma audiência com o Secretário, Getúlio Ferreira, quando no mesmo instante que chegava se deparou com o próprio e em uma rápida conversa o secretário o orientou a marcar uma audiência, propondo inclusive que o mesmo falasse com a responsável da agenda para que encaixasse para a terceira semana, já que a próxima o mesmo estará toda a semana que vem com diretores do Banco Mundial.

Eduardo Vasconcelos agradeceu o carinho e atenção do secretário e aproveitou para parabenizá-lo e desejou sucessor e progresso em sua nova missão, o qual o secretário agradeceu e autorizou a secretária agendar a audiência, que ficou marcada para terceira semana de abril, onde o CPC/RN levará um calendário de ações e eventos, que serão desencadeados até o final de 2019 e pedirá com certeza apoio da secretaria para concretizações dessas ações/eventos.

Eduardo Vasconcelos o agradeceram e logo após ambos posaram para a foto.



Destinos de Páscoa e seu menu de doces atrativos

Cada vez mais os destinos brasileiros investem em atrativos para dinamizar o turismo no ano inteiro. As comemorações da Páscoa estão entre os eventos que ampliam o fluxo de turistas durante o feriado prolongado, inclusive para cidades onde o foco das celebrações é o chocolate, juntamente com o significado religioso da Semana Santa. Das plantações de cacau às fábricas de chocolate, curtir o feriado da Páscoa nos destinos onde a produção de chocolate virou um atrativo é uma viagem cheia de sabores e descobertas.
“Para ser competitivo, o destino precisa ser inovador e ofertar produtos diferenciados que atraem visitantes o ano todo, girando a economia local. A Páscoa tem se revelado uma excelente oportunidade para dinamizar o turismo, tanto nas cidades que celebram as tradições religiosas da época, como nos roteiros que elegeram o chocolate como motivo da celebração”, diz o secretário nacional de Desenvolvimento Competitividade do Ministério do Turismo, Aluizer Malab.
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amendoasdecacau Ana Lee
Amêndoas de cacau em preparação nas fazendas baianas. Foto: Ana Lee/Divulgação MTur

A Costa do Cacau, na região de Ilhéus (BA), é uma das rotas mais doces e saborosas do turismo brasileiro. Além de destino de sol e mar e dos atrativos que fazem parte da obra literária do escritor Jorge Amado, a região também oferece um tour pelas fazendas que produzem a matéria-prima do chocolate. A Rota do Chocolate proporciona ao turista uma imersão na história, cultura e gastronomia do Sul da Bahia. A implantação da Estrada do Chocolate, entre Ilhéus e Uruçuca, proporciona aos turistas a experiência de conhecer o processo de produção do cacau, desde as plantações à seleção e secagem das amêndoas, até a transformação em chocolate.
A vivência passa pelas fazendas tradicionais de cacau, entre elas, Yrerê, Riachuelo, Capela Velha e Provisão; casarões históricos dos antigos coronéis que dominaram a economia e política da região; produção caseira; e fábricas de chocolates, além de degustação da iguaria. O turismo sustentável nas fazendas de cacau, com visitas guiadas, hospedagem e comida típica, tem sido uma das fontes mais rentáveis para os produtores de Ilhéus e região. Além das plantações de cacau, a região é rica em sítios históricos e atrativos naturais, como cachoeiras e áreas de preservação.
Longe das plantações de cacau, o chocolate é o atrativo principal da Chocofest, em Nova Petrópolis, na Serra Gaúcha, que de 11 a 21 de abril celebra a magia da Páscoa no Planeta das Guloseimas. Pelas ruas do centro, se reúnem personagens como o Conde Guloseima, a Condessa Doçura e a Vovó Duquesa em vários espetáculos com dezenas de atrações voltadas para adultos e crianças. Os desfiles temáticos contam com coelhos, carros alegóricos, música e muita diversão. O Desfile de Páscoa, momento de alegria e interação com os visitantes, será realizado nos dias 13, 14, 20 e 21 de abril às 15h30min. São esperados mais de 100 mil turistas nos 10 dias de festa.
O Rastro do Coelho, com caça ao ninho, é garantia de diversão. A brincadeira, que promete muita aventura, será no Parque Aldeia do Imigrante com centenas de ovos de chocolate escondidos, de todos os tamanhos. O cenário de magia se completa com a decoração especial da cidade. O envolvimento da comunidade resulta nas árvores enfeitadas com ovos coloridos. Já na Fábrica de Ovos, são customizados os ovos usados na Osterbaun, uma grande Árvore de Páscoa no centro da festa e atração turística da cidade de colonização alemã. Haverá, ainda, a exposição Ovos do Mundo, com ovos gigantes e coloridos que retratam a celebração da Páscoa em vários países.
Esta será a 21ª edição da Chocofest, que já passou por Gramado e Canela, na Região das Hortênsias, também na Serra Gaúcha. Os dois destinos de inverno estão entre os mais visitados do Brasil e têm o chocolate como um dos atrativos turísticos. O Mundo do Chocolate, em Gramado, é um deles. A visita ao museu leva a lugares que são ícones universais do turismo, representados em mais de 200 esculturas de chocolate, como a estátua do Cristo Redentor. O Reino do Chocolate é outro espaço temático de Gramado dedicado ao chocolate, inclusive com produtos de beleza. Desde o povo Asteca, o chocolate era considerado uma bebida dos deuses. Entre outros destaques, o coelho gigante, na entrada do parque, tem 2,5 metros de altura e 1.640 quilos de chocolate.
Outros destinos de clima ameno espalhados pelo Brasil também oferecem o chocolate como atrativo aos visitantes. É o caso da Vila do Chocolate, em Campos do Jordão (SP). Na Região Serrana do Rio de Janeiro, a visita à cidade imperial de Petrópolis, entre outros atrativos turísticos, termina em uma tradicional fábrica de chocolate. Já em Vila Velha (ES), o passeio para conhecer o museu e a fábrica de um dos chocolates mais populares do Brasil também faz parte do roteiro turístico de quem visita à cidade, ao lado da capital, Vitória. Quem sobe a serra capixaba não se decepciona com as inúmeras opções de atrativos em destinos como Domingos Martins e Venda Nova do Imigrante.
Assim como as cidades do Espírito Santo, de colonização europeia, em Santa Catarina, os destinos de cultura alemã realizam a Festa de Páscoa. A Osterdorf (Vila de Páscoa), em Blumenau, vai até 21 de abril com decoração inspirada nas tocas de coelho. O parque da cidade concentra as atrações da época mais doce do ano em torno da Osterbaum (árvore de Páscoa). A vizinha Pomerode, que celebra a 11ª Osterfest, considerada a Páscoa mais alemã do Brasil, também conta com a maior árvore de Páscoa (Osterbaum) do mundo, feita com 80 mil casquinhas de ovos naturais, além da Ostermarkt, Feira de Páscoa, com artesanato e artigos de decoração, comidas típicas e apresentações de grupos folclóricos, entre outras atrações.
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Cidades viram um imenso “parque” de Páscoa para turistas. Foto: Chocofest 2018

Edição: Vanessa Sampaio

O menino que descobriu o vento

Baseado na história real do malawiano William Kamkwamba, O Menino que Descobriu o Vento. Alerta, nesse texto contém spoilers. Do mesmo diretor de 12 anos de escravidão, Chiwetel Ejiofor, o filme constrói uma longa ponte de contextualização e explicações para o título, que torna-se uma realidade.
Desde de o começo podemos observar o descaso do governo com o povo. O governo promete riqueza e alimentação, mas logo ao assumir desmata as terras. Com poucas árvores, as enchentes tomam conta das plantações, e a colheita para os dias de seca não acontece, deixando o povo na miséria. Parte da população se sente enganada, sem dinheiro, sem um governo que olhe para as minorias e sem ter o que comer.
Passada as eleições, o presidente retorna ao vilarejo, em palanque para agradecer os votos e mascarar a fome. O líder da comunidade, então, o desmente e diz para toda a população que nada do foi prometido está sendo cumprido. Descontente, com a oposição, o presidente manda seus capangas acabar com a vida do velho líder do vilarejo.
Todo aquele que vai contra o governo, é punido.
De forma breve e muito mais superficial do que o próprio filme, digo: a estrela do filme é pequeno William Kamkwamba que buscou ensinamento nos livros. Foi escondido a única e pequena biblioteca da comunidade. Passa-se mais de um uma hora e meia de filme e William ainda está em busca de construir o seu projeto que dá nome ao filme. A narrativa detalhista evidencia as relações familiares e principalmente a estima de perseverança independente da pouca credibilidade de um menino de 13 anos perante os adultos. William, provou para o pai e todo o vilarejo de que ele poderia trazer água e consequentemente, comida. Foi contra o governo e até mesmo contra o seu pai.
Munido apenas de livros, descobriu o vento, trouxe água e vida ao vilarejo. Provou que só a educação salvará o mundo.
Qualquer diferença com o atual governo, não é mera coincidência.

Povos indígenas ganham nova frente no Congresso Federal

Foto: Mídia NINJA



Aconteceu hoje, no Congresso Nacional, o lançamento da Frente Parlamentar Mista em Defesa dos Direitos dos Povos Indígenas, que conta com 219 deputadas e deputados federais e 29 membros do Senado. A deputada federal Joênia Wapichana falou sobre a importância da Frente.
“Ela tem o objetivo de trazer para o Congresso um grupo de deputados e senadores para fazer frente ao retrocesso e ataque que os povos indígenas já estão sofrendo, ela tem a missão de resguardar os direitos constitucionais dos povos indígenas”.
Joênia, a primeira mulher indígena eleita deputada federal no Brasil, será coordenadora da Frente na Câmara dos Deputados, enquanto o senador Randolfe Rodrigues (REDE/AP) fará o mesmo papel no Senado. A Frente é de grande importância para o atual momento político, em que os direitos indígenas garantidos pela Constituição Federal estão sendo usurpados, além da crescente violência contra os povos indígenas, devido a disputa por terras e preconceitos.
Foto: Mídia NINJA
Foto: Mídia NINJA
Foto: Mídia NINJA
O lançamento contou com a presença de Raquel Dodge, Procuradora Geral da República, lideranças indígenas como Sonia Guajajara, da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil – APIB, movimentos em defesa dos direitos indígenas e também do meio ambiente. A ex-ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, também compareceu ao evento.
Joênia ressaltou a importância de estar em um espaço de poder e dar voz aos povos indígenas, que sempre lutaram pelos seus direitos, como a demarcação de terras, a saúde e a educação, que estão sendo prejudicados também com as políticas do governo vigente, que já tentou municipalizar a saúde indígena. Após forte mobilização realizada por milhares de pessoas em todo o Brasil, Ministro da Saúde voltou atrás e manteve no escopo federal os cuidados com a saúde dos povos originários do Brasil.
A Frente Parlamentar Mista em Defesa dos Direitos dos Povos Indígenas é uma vitória para os mais de 2450 povos indígenas que vivem no Brasil, em cidades e áreas rurais, que contam com mandatária indígena após mais de 30 anos sem representatividade no Congresso Nacional. Antes de Joênia, somente o indígena xavante Mário Juruna foi deputado federal, entre 1983 e 1986. Essa é uma vitória não somente para a população indígena, mas também para os Direitos Humanos e em defesa da vida digna e com respeito para os povos originários. Sônia Guajajara falou sobre a importância do mandato de Joênia Wapichana.
“A invisibilidade política dos nossos povos foi durante 30 anos, sem presença indígena aqui, e agora a gente, querendo ou não, estamos entrando pela porta da frente, e a Joênia liderando todo esse processo de defesa dos direitos das nossas lutas.”
Foto: Mídia NINJA
Foto: Mídia NINJA
Foto: Mídia NINJA

Fonte: MÍDIA NINJA

“Fé em Deus, DJ”: Rennan é símbolo da repressão da cultura na favela

Foto: Reprodução // Facebook

De março de 2017 até dezembro de 2018, 18 eventos de rua foram alvo da truculência policial na cidade do Rio de Janeiro, segundo dados do Defezap.

por Samuel Costa / Mídia NINJA
Em 1995, Cidinho e Doca se eternizaram com o funk Eu só quero é ser feliz, que cantava pelo direito à vida digna, a paz e ao lazer dos moradores de comunidade no Rio de Janeiro. Quase 25 anos depois, o mundo do funk é pego de surpresa com a prisão do DJ Rennan da Penha, que era um dos organizadores do Baile da Gaiola, que acontecia na Vila Cruzeiro, zona norte do Rio. Como se pode ver pela data de lançamento da música, a violência contra a cultura nas comunidades é uma realidade antiga, mas para muitas pessoas que vivem nas comunidades, a sensação é de que a situação tem piorado nos últimos meses.
De acordo com dados do Defezap, coletivo que até janeiro deste ano trabalhava com o registro de casos de abusos de poder nas favelas, de março de 2017 até janeiro de 2019 foram registrados 22 casos de repressão a eventos culturais em comunidades da cidade do Rio, com provas em vídeo da repressão. Desse total, 11 eram bailes funk. Somente na primeira quinzena de janeiro deste ano, enquanto o coletivo ainda estava em operação, foram registrados dois casos de repressão a bailes funk na capital fluminense. Os relatos, após o período acompanhado pelo grupo de defesa dos direitos humanos, no entanto têm sido frequentes.
“Diversão hoje em dia não podemos nem pensar”
Um produtor cultural, ouvido pela Mídia NINJA que por motivos de segurança não será identificado, relatou que um DJ que trabalhava em seu baile chegou a ser levado para delegacia, onde teria sido mantido preso por cerca de oito horas. O episódio aconteceu em um domingo de janeiro e além da intercepção do DJ, os agentes também destruíram toda a estrutura da festa. O organizador afirma que eles passaram com o caveirão (carro blindado da polícia) por cima dos equipamentos de som e das barracas de cerveja durante a montagem da festa. Após o atentado, os policiais teriam alegado que o evento não poderia acontecer porque “gerava problemas no dispersamento das pessoas na manhã de segunda-feira”.
Há cerca de um mês, em Niterói, região metropolitana do Rio, um produtor morreu após ter sido ameaçado e ter visto todo o seu equipamento ser destruído pelos policiais. De acordo com os relatos do acontecimento, os agentes teriam afirmado que levariam o organizador do baile para a delegacia, caso ele não pagasse o “arrego”. As cenas de violência que se seguiram foram tão fortes, que o produtor acabou tendo um infarto e falecendo no local. Ambos os casos aconteceram após a desativação da operação do Defezap e não foram computados pelo grupo.
Na semana retrasada, Rennan da Penha foi considerado culpado em um processo que o acusa de ser olheiro do tráfico na região. O processo corre desde 2016. À época ele chegou a ficar encarcerado durante seis meses, mesmo sem saber o motivo pelo qual ele era investigado. A juíza da primeira instância entendeu que ele é inocente, devido a falta de provas. Neste ano, porém, a Justiça reverteu a decisão, após a análise de um recurso apresentado pelo Ministério Público. O processo ganhou repercussão e o DJ recebeu apoio de amigos, fãs e ativistas em ato realizado no Circo Voador, na Lapa, região central do Rio nesta quinta-feira, 28. No dia seguinte, a Justiça expediu o mandado de prisão de Rennan e mais 11 pessoas.
“Pois até lá nos bailes, eles vêm nos humilhar”
“Agora nós temos um governador que assumiu publicamente uma cruzada contra os bailes funk”, diz Salvino Oliveira, ativista do movimento de favelas. “Parece que isso legitima muito a violência do agente que está na ponta. (…) o que faz os casos serem mais recorrentes e mais violentos”, completa. Para MC Moisés da Torre, que esteve presente no ato em apoio a Rennan, a repressão tem se intensificado não somente sobre o funk, mas sobre os diversos eventos culturais que acontecem na favela. “Eu acredito que o governo está se tornando pessoal ao ponto de perseguir não só o funk, mas da favela em si”, afirma.
Para Thainã Medeiros, do coletivo de mídia comunitária Papo Reto, “Rennan é um símbolo”. Ele afirma que pelo fato de o DJ ser conhecido, o seu caso acabou ganhando uma projeção maior nos espaços de mídia, mas que outros locais passam por abusos semelhantes. Medeiros lembra de outro caso que aconteceu também na Vila Cruzeiro, a menos de um mês, quando um show do grupo Poesia Acústica foi interrompido após a chegada de policiais realizando disparos. “Eles tinham autorização, estava tudo certo para fazerem o show ali”, diz. Essas são uma das poucas oportunidades de muita gente ir a um show de graça”, pondera Salvino Oliveira. “Quem de uma área miserável do Complexo da Penha teria a oportunidade de ouvir o Poesia Acústica de graça?”, questiona.
Oliveira, que mora na Cidade de Deus, diz que esse tipo de acontecimento afeta psicologicamente as pessoas que vivem nas comunidades, assim como, quem frequenta, organiza ou se apresenta nos eventos. O ativista relata que a depender do grau de violência, os eventos deixam de ser organizados por longos períodos de tempo, por medo das pessoas. “Na Cidade de Deus, por exemplo, as pessoas já associam o barulho de helicóptero com operação, o que é bastante grave, já que lá é rota dessas aeronaves e tem um trânsito bastante grande delas”, afirma.
“Pessoas inocentes, que não tem nada a ver, estão perdendo hoje o seu direito de viver”
“A gente já trabalha esperando que no dia seguinte aconteça alguma coisa”, revela o produtor cultural da zona oeste ouvido pela reportagem. Ele relata que o estado de vulnerabilidade é grande. “Mesmo fazendo tudo dentro da legalidade é complicado quando é na comunidade. A gente não tem respaldo do Estado”, diz. Segundo ele, na comunidade onde atua, é quase certo que a polícia apareça na segunda-feira após o baile e destrua os equipamentos e barracas. As perdas materiais tem custo alto, há perda de aparelhagem de som, equipamento de iluminação, além das mercadorias dos barraqueiros e ambulantes. De acordo com os números do Defezap, dos 22 casos registrados, apenas dois não resultaram em danos materiais.
“Tem muita gente que vive disso [dos eventos]”, diz o produtor, que explica que muitos trabalhadores têm feito dos eventos de rua a sua fonte principal de sustento. “Na minha equipe eu tenho uma advogada e uma assistente social que passaram a colaborar depois de terem perdido o emprego, por exemplo. Mas para além da equipe de organização, que no caso desse produtor é formada por sete pessoas, os eventos envolvem muitos trabalhadores no comércio de bebida e comida. No baile da zona oeste são quase 400 pessoas que trabalham nas 200 barracas de cerveja e comida, segundo informou o organizador. Já o Baile da Gaiola – que existe há dez anos e recebe uma média de 20 mil pessoas – os números são maiores: são mais de 600 trabalhadores nas barracas, sem contar os 25 da equipe de Rennan.
“Nunca vi cartão postal que se destaque uma favela”
Mesmo diante de um quadro que se apresenta positivamente em termos socioeconômicos, o apoio do Estado, porém, parece cada vez mais distante.Um estudo, feito pela Fundação Getúlio Vargas (FGV) em 2009 (o mais recente encontrado), estimou que apenas os bailes realizados em espaços públicos das comunidades geravam, no total,um faturamento mensal de R$ 737,1 mil para Mc’s, DJs e equipe de som. Segundo o produtor da zona oeste, o baile que organiza costuma atrair até mesmo pessoas que não moram na comunidade. Ele afirma que em casos, como o que resultou na prisão do DJ que trabalhava em sua festa, acontecem com o intuito de afastar os frequentadores. “É um claro recado dos policiais para dizerem que a festa não vai acontecer”, diz.
Em entrevista, Leleco, empresário de Rennan da Penha, afirmou que o caso do Rennan tem o objetivo de acuar os organizadores de bailes. “Ele já havia sido inocentado, acredito que eles retomaram com isso porque ele ganhou projeção”, diz. Quando subiu no palco do Circo Voador para prestar apoio ao seu colega de trabalho e amigo, ele incentivou que a comunidade do funk se una para se defender das ofensivas do Estado. “Isso aqui não é só pelo Rennan, é pelo nosso ritmo que é tão perseguido!”, disse o empresário.