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quinta-feira, 11 de abril de 2019

Nota de repúdio da OAB-SP : Contingenciamento do orçamento por Doria e paralisia no setor cultural

A Comissão Especial de Direito das Artes da Ordem dos Advogados do Brasil, Seção São Paulo, vem a público repudiar e denunciar o desmonte do setor cultural que vem ocorrendo nas três esferas da federação.


do site da OAB-SP
Os trabalhadores da cultura fizeram  um novo protesto hoje em São Paulo contra os cortes na cultura. O governador anunciou o fim do contingenciamento na cultura, mas os deputados do PT  anunciaram em coletiva que o contingenciamento continuava em vigor, como consta de informações retiradas do sistema de execução orçamentária.
Veja a nota na integra:
“A Comissão Especial de Direito das Artes da Ordem dos Advogados do Brasil, Seção São Paulo, vem a público repudiar e denunciar o desmonte do setor cultural que vem ocorrendo nas três esferas da federação.
A paralisação do setor tem sido promovida por diversas frentes, com o contingenciamento do orçamento do Estado de São Paulo para a área, resultando em 23% de corte, enquanto outros setores da economia terão corte de pouco mais de 3%, conforme anúncio oficial amplamente noticiado pela imprensa.
Ainda que o governo tenha publicado vídeo afirmando que não haverá cortes na cultura, cuja pasta tem o menor orçamento do Estado, não há informações se o contingenciamento de 148 milhões será revogado. O impacto dos cortes atinge 25 instituições culturais de grande porte e relevância, dentre elas várias bibliotecas e museus, frisando-se aqui que o descaso com a memória nacional gerou recentemente a perda total do Museu Nacional. Além dos riscos à educação e à memória, serão mais de 500 postos de trabalho perdidos, encerramento de atividades formativas e diminuição drástica do atendimento público.
Ainda no Estado de São Paulo, o PROAC, maior programa de apoio às artes do Estado, extinguiu os editais que trazem temas de culturas de matriz africana, culturas indígenas, manifestações culturais com temáticas LGBT e saraus culturais, além da linguagem do hip-hop, prevista na lei que originou o Programa.
Os Pontos de Cultura selecionados no edital 2018 não puderam acessar seus prêmios em dinheiro para a gestão 2019, impactando um total de 144 iniciativas premiadas e agora desassistidas, prejudicando o planejamento, as contratações previstas, cronogramas e compromissos assumidos.
No âmbito federal, cabe ressaltar o injustificável travamento de projetos já aprovados, com recursos captados em 2018, mas que, devido à morosidade da transição de governo, não foram validados ou não tiveram suas contas bancárias liberadas; portanto, os projetos ainda não começaram a ser executados, gerando insegurança com patrocinadores, desemprego e paralisação de uma extensa cadeia produtiva, ocasionando a falência de produtores que dependem do recurso legalmente captado. Soma-se a isso o bloqueio do sistema de encaminhamento de projetos para a lei de incentivo, o Salic, que segue inativo à espera de uma nova instrução normativa, ainda que a atual esteja vigente, o que deveria permitir que o sistema aceitasse a inscrições de novos projetos.
Há também que se registar a gravidade do entendimento do acórdão do TCU que paralisa todo o setor audiovisual, recomendando que a Ancine não repasse recursos públicos ou assine novos contratos enquanto não comprovar capacidade técnica para avaliar as prestações de contas, impacto gigantesco numa indústria que cria mais empregos e renda que a indústria automobilística no Brasil.
É preciso que as entidades responsáveis apresentem explicações para estas mudanças bruscas no setor, revogando-se imediatamente os cortes anunciados, bem como seja dada transparência sobre os planos para as políticas públicas culturais, priorizando o diálogo aberto com o setor e cumprimento dos contratos já validados, considerando os direitos adquiridos, fazendo-se necessária urgente revisão do contingenciamento do orçamento da cultura do Estado de São Paulo, em razão dos impactos ressaltados.”
Comissão Especial de Direito das Artes da Ordem dos Advogados do Brasil, Seção São Paulo.

BALANÇO - Em 100 dias, Bolsonaro destrói direitos e é o governo mais entreguista da história


Bolsonaro e Trump
Nunca houve um presidente que fosse a Washington sem levar nenhuma pauta de interesse dos brasileiros
por Eduardo Maretti, da RBA
Planalto adota discurso e atos contra a soberania nacional, políticas de destruição de direitos conquistados ao longo de décadas e ameaça Previdência. País vive pior momento de sua história.
São Paulo – Não é por acaso que, após 100 dias do governo de Jair Bolsonaro, o presidente tem a pior avaliação para eleitos em primeiro mandato desde 1990. O desempenho está diretamente relacionado a inúmeros aspectos em todas as áreas, embora o principal símbolo negativo dos atuais "comandantes" do país seja sua atuação na política externa, pois compromete a soberania nacional de maneira nunca vista.
"Não há comparação possível em relação à questão da subserviência. Se pensarmos no regime militar, houve uma subordinação muito forte em relação aos Estados Unidos. Mas, pelo menos em alguns momentos, no governo Geisel, a subserviência não foi total", diz Maria Aparecida de Aquino, professora da pós-graduação do Departamento de História da Universidade de São Paulo (USP). "É uma coisa nunca vista. O presidente chegou a fazer um papel ridículo na sua visita aos Estados Unidos. Parecia que estava na Disneylândia."
Na comparação, a professora cita o período do general Ernesto Geisel (1974-1979) em que o governo se empenhou para concretizar um aporte financeiro ao Brasil, optando pela Alemanha, com a qual assinou o acordo nuclear em 1975. "O atual governo me parece mais dependente, mais subserviente."
Para Igor Fuser, professor de Relações Internacionais da Universidade Federal do ABC (UFABC), mesmo em "casos grotescos" de subserviência, como nos governos de Castello Branco, Fernando Collor ou Eurico Gaspar Dutra, "o Brasil não chegou ao ponto da humilhação como no governo Bolsonaro".
"Nunca houve um presidente que batesse continência para um funcionário dos Estados Unidos, ou que fosse a Washington sem levar nenhuma pauta de interesse dos brasileiros. Mesmo nos piores momentos de servilismo, o Brasil sempre procurou obter alguma coisa em troca da obediência."
Para a professora da USP, embora os governos Castello Branco e Geisel, ambos da ditadura pós-golpe de 1964, sejam muito semelhantes, e o primeiro marcadamente entreguista, "na realidade não chegam ao ponto em que chegamos hoje e nosso receio é: para onde isso tudo vai?"
De acordo com os professores, a submissão aos interesses norte-americanos é demonstrada por vários atos do governo, cujo chanceler é Ernesto Araújo. A "entrega" da estratégica base de Alcântara, a "ideia" de transferir a embaixada brasileira de Tel Aviv para Jerusalém, a permissão para que cidadãos de outras nações (como os Estados Unidos) não precisem de visto para entrar ou o apoio brasileiro contra o governo da Venezuela são concessões pelas quais o Brasil de Bolsonaro não obteve nenhuma contrapartida.
O único precedente que se poderia citar em relação a Alcântara, no Maranhão – um ponto estratégico no mapa-múndi e fundamental para pesquisas científicas brasileiras, observa Fuser – é do período da Segunda Guerra Mundial, quando o Brasil fez um acordo com os Estados Unidos para a instalação de uma base aérea no Rio Grande do Norte. "Mas isso se deu num contexto de guerra, quando os dois países eram aliados contra os nazistas. Quando terminou a guerra, os americanos foram embora. O atual acordo sobre Alcântara é algo a perder de vista."
Também com o apoio incondicional do governo brasileiro a Israel, o Brasil não obtém nada em troca e coloca em risco a exportação aos países árabes e negócios estratégicos para a economia.

Educação e Previdência

Infelizmente para o país, as mazelas apontadas pelos analistas estão longe de se resumir à política externa. Pelo contrário. Outra área essencial a uma nação soberana, a Educação, é objeto de atos e declarações "abusivos ao extremo", na opinião de Maria Aparecida de Aquino.
"O ministro da Educação recentemente demitido (Ricardo Velez Rodrigues) disse que ia mudar a história. Como assim? Que coisa absurda é essa, dizer que não foi golpe, que o regime militar foi maravilhoso? Cada dia é uma nova notícia mais absurda do que a outra", observa a professora. "Demitiram o ministro Vélez, o cavaleiro da triste figura, e colocaram outro cidadão que tem observações tão absurdas quanto ele."
Antes de ser demitido do MEC, Vélez Rodríguez disse que o ministério estaria incumbido de "preparar o livro didático de forma tal que as crianças possam ter a ideia verídica, real, do que foi a sua história". Ele complementou: o golpe de 1964 foi "uma decisão soberana da sociedade brasileira".
A professora da USP lembra que, no contexto dos 100 dias de Jair Bolsonaro, uma das principais políticas de destruição diz respeito à "desastrosa proposta de reforma da Previdência". Os pontos que se pode destacar são muitos "e é difícil dizer o que é pior", comenta Fuser.
"Direitos do povo sendo destruídos, a violência contra a população pobre. Ao que se faz em política externa há o equivalente em todas as áreas. O Brasil está vivendo o pior momento da sua história. Mesmo no regime militar, quando aconteciam as atrocidades, o Brasil ainda existia como país, havia políticas de desenvolvimento, preocupação com economia, apesar dos crimes e autoritarismo."

Amazônia

Outro exemplo "muito grave" de abandono da soberania nacional pelo atual governo, apontado pelos analistas, diz respeito à política ambiental e a tentativa de entrega da Amazônia. Em entrevista na segunda-feira (8), Bolsonaro afirmou que existe uma "indústria de demarcação" de terras indígenas e que pretende fazer uma parceria com os Estados Unidos para explorar a Amazônia. "Trata-se de um duplo crime: contra a pátria e contra a natureza", diz Fuser.
"Não tenho bola de cristal, mas todas essas coisas são tão abusivas e o desgaste do atual governo em apenas 100 dias é tão grande que tenho dúvidas se ele vai conseguir fazer alguma coisa, algumas dessas loucuras que tenta", afirma Maria Aparecida.
Entretanto, para ela, há uma constatação positiva em meio ao quadro de desalento. "Não dá para pensar em coisas perenes em termos históricos. Mas enquanto não for brecado, o governo tentará todos os absurdos possíveis. Se a sociedade não conseguir resistir ou se pelo menos o Congresso não tiver uma força mais ou menos organizada, a situação pode ficar muito difícil para o país."

Direitos humanos

Em documento divulgado pela Procuradoria Federal dos Direitos do Cidadão (PFDC), relacionado a sua atuação nos primeiros 100 dias de 2019, envolvendo articulação com movimentos sociais e organismos internacionais, monitoramento de políticas públicas, atuação junto ao Judiciário e interlocução com o Congresso Nacional, o órgão lista diversos tópicos.
Entre eles, mais de 60 pedidos de esclarecimentos, recomendações ou solicitações sobre medidas que afetam direitos humanos; cinco representações à Procuradoria Geral da República com sugestão de ações no Supremo Tribunal Federal sobre constitucionalidade de decretos, legislações e outras medidas que violam garantias fundamentais; seis notas técnicas ao Congresso para subsidiar parlamentares na análise de projetos de lei contrários aos direitos humanos.
Entre os exemplos citados, a PFDC menciona o Decreto 9.685, de 15 de janeiro, que ampliou as hipóteses de registro, posse e comercialização de armas de fogo no Brasil. Essa medida compromete "a política de segurança pública, especialmente no tocante ao direito à vida", esclarece o Ministério Público Federal.
Leia a íntegra do documento da PFDC aqui.

Miguel Barnet: O trem da lavanderia

O Prosa, Poesia e Arte apresenta hoje O Trem da Lavanderia, mais um poema do cubano Miguel Barnet, com tradução inédita em português. Nascido em La Habana, em 1940, Miguel Barnet Lanza, conhecido por sua novela-testemunho Biografia de um cimarrón (1966), é um dos escritores cubanos de maior sucesso internacional. Sua obra está traduzida em várias línguas.
Em 1994, recebeu o Prêmio Nacional de Literatura de Cuba. Entre seus livros de poesia estão: La sagrada familia (1967), Orikis y otros poemas (1980) e Poemas chinos (2018), de onde se extraiu O Trem da Lavanderia. Trata-se de um poema em prosa de insólita delicadeza, que usa a linguagem para mesclar sentidos e intersecções entre sensações muito intensas do eu-lírico, que se vê diante de um grupo de trabalhadores de uma lavanderia.
A tradução para o português é do poeta Alexandre Pilati, professor de Literatura da Universidade Brasília (UNB) e colaborador do Prosa, Poesia e Arte. Confira o poema.
O trem da lavanderia
(Miguel Barnet)
Adentro este galpão de sombras. Tropeço em alguma cesta. Somente eu gesticulo, somente eu falo. Cheira a folhas de hortaliça, a repolho. Estendem um lençol branco, de aipo. Cheira a terra úmida, a verduras, a incenso de séculos, balsâmico. Um cão lambe uma casca de manga. Há paz neste templo da Ásia. Parece que ninguém escuta, ninguém olha.
Apenas se passa a ferro. As toalhas, no pátio, quaram ao sol, como folhas de taioba. A chuva cai pelas fendas do teto, orvalha os nódulos de roupa branca.
Amo o silêncio taciturno deste idioma de cabeças amarelas. Joaquim Li, Francisco Wong, Alfredo Jo, sonham interminavelmente um sonho profundo que não se assemelha ao nosso, enquanto passam a ferro.

quarta-feira, 10 de abril de 2019

O indígena no Brasil - Uma luta histórica para existir

Fábio Nascimento/Greenpeace
17.abr.2015 - Crianças do povo MundurukuImagem: Fábio Nascimento/Greenpeace
Por Carolina Cunha, da Novelo Comunicação
O Brasil surge na História como a “descoberta”, pelos portugueses. Mas diversos povos nativos habitavam todas as extensões do continente americano desde tempos imemoriais. Estima-se que, à época do descobrimento, até cinco milhões de índios viviam no país.
A chegada dos portugueses foi uma verdadeira catástrofe para os nativos e resultou no extermínio de muitos povos indígenas no Brasil em decorrência de conflitos armados, doenças trazidas pelos europeus e pelo processo de escravização.
Após o contato e a partir da criação das capitanias hereditárias, que marcam o início das atividades de colonização do Brasil, os índios foram escravizados e se tornaram a base da formação da economia colonial.
A mão de obra indígena era encontrada em fazendas e arraiais nos litorais da região Nordeste e Sudeste. Havia ainda as chamadas “missões”, aldeamentos indígenas criados e administrados por padres jesuítas no Brasil, entre os séculos 16 e 18, com a finalidade de catequizar os nativos.
Os avanços de frentes de colonização para o interior formam um dramático capítulo da formação territorial brasileira. A expansão começou com sertanistas e bandeirantes, que organizavam expedições para localizar jazidas de ouro e pedras preciosas. Milhares de indígenas que habitavam o interior entraram em conflito com os colonizadores.
Paralelamente, a demanda por escravos fez surgir um rentável comércio para os bandeirantes paulistas, que organizavam as chamadas “bandeiras”, expedições de captura de indígenas para o trabalho escravo. Os bandeirantes eram ainda recrutados para combater tribos rebeladas e quilombos. Foi apenas na década de 1750 que a escravidão indígena no Brasil foi oficialmente abolida pela Coroa Portuguesa, que começou a estimular o tráfico de escravos africanos.
No início do século 20, ainda predominava a visão de que o índio deveria ser “civilizado”, ou seja, ser assimilado à cultura ocidental, se tornar um “não-índio”. Em 1910 foi criado o SPI - Serviço de Proteção ao Índio, que buscava fazer o contato com tribos isoladas e promover a coexistência pacífica entre colonizadores e indígenas nas frentes de expansão econômica.
À frente do trabalho do Instituto estava o Marechal Rondon(1865-1958), que chegou a participar de expedições que percorreram as fronteiras do Brasil instalando postos telegráficos e buscando o contato amigável com as populações indígenas, uma atitude pioneira para a época.
Durante a ditadura do Estado Novo (1937-1945), o governo brasileiro promoveu a “Marcha para o Oeste”, que visava à incorporação territorial e econômica de áreas do centro-oeste brasileiro. Nesse período, ganhou destaque o trabalho de sertanistas, como os irmãos Villas-Boas, responsáveis por atrair e pacificar povos isolados que habitavam o Brasil Central.
Os irmãos também influenciaram na criação do Parque Indígena do Xingu, voltado para a proteção das etnias que ocupavam a região do rio Xingu. A criação do parque em 1961 representa um marco histórico de proteção, isso porque ainda não havia uma legislação que garantisse efetivamente os direitos territoriais dos índios.
Após os anos de 1970, durante a ditadura, houve um período de expansão das atividades produtivas na Amazônia, que era vista como um impulso para o desenvolvimento. A construção de estradas como a Transamazônica, hidrelétricas e o desmatamento para a pecuária resultaram na expulsão de comunidades indígenas de suas terras e o contato com doenças trouxe novas mortes.
Em 1973, o governo aprova o Estatuto do Índio. E finalmente, em 1988, é promulgada a nova Constituição Federal, que inovou ao estabelecer o direito originário dos índios sobre as terras que tradicionalmente ocupam e reconheceu oficialmente direitos de cidadania, como o respeito à identidade e organização social, costumes, línguas, crenças e tradições.

A população indígena hoje

Quem são os índios do Brasil hoje? Apesar do passado dramático, a população indígena está voltando a crescer. Esse aumento populacional se deve à taxa demográfica, mas principalmente ao número de pessoas que se reconhecem com a identidade indígena.
Em 1992, o censo incluiu pela primeira vez a categoria “indígena” como raça e os dados revelaram o percentual de 0,2% no total da população brasileira, com 294 mil pessoas declaradas. Segundo os dados mais recentes do IBGE (2010), o Brasil tem 890 mil índios, pertencentes a 305 etnias - uma população com culturas, crenças e hábitos diferentes entre si.
A maioria dos indígenas (70%) está concentrada em seis estados da região da Amazônia Legal: Amazonas, Acre, Roraima, Rondônia, Mato Grosso e Pará. São 274 línguas já catalogadas, o que configura uma das maiores diversidades culturais do mundo. As línguas derivam principalmente de quatro grandes troncos: Macro-Jê, Tupi, Aruak e Karib.
Mas qual é a realidade indígena brasileira? É comum a imagem de que o índio é o indivíduo que mora na floresta e que vive apenas da caça e pesca. Os índios vivem dentro e fora de Terras Indígenas, em diversos biomas.
Da população atual, 57% vivem em Terras Indígenas oficialmente reconhecidas. Mas também existem famílias que moram na zona rural e em cidades. Em alguns municípios do Amazonas, por exemplo, é comum bairros de comunidades indígenas, a maioria vivendo em situação de pobreza. A FUNAI (Fundação Nacional do Índio) estima ainda que cerca de 40 povos se encontram isolados, sem ter tido contato com o branco.
A vida nas aldeias ultrapassa a questão da sobrevivência alimentar. Muitas aldeias reivindicam o acesso à saúde e educação, questões fundamentais para a melhoria da qualidade de vida desses povos.
A luta pela garantia de direitos
Flechas, bordunas e guerreiros pintados para a guerra. Manifestações de grupos indígenas têm sido uma cena cada vez mais comuns em Brasília (DF). Isso porque além deles estarem politicamente mais organizados, tramita no Congresso Nacional uma série de projetos que afetam diretamente as questões e os direitos indígenas.
No Legislativo são os projetos PEC 215, PEC 038, 237, PLP 227 e PL 1610. No Executivo, a Portaria 303, Portaria 419 e o Decreto 7957.
A mais conhecida delas é a PEC 215, que altera as regras para demarcações de terras indígenas e quilombolas. A proposta já foi aprovada em comissão especial e que está pronta para ser votada no Plenário.
A Proposta de Emenda à Constituição transfere do Executivo para o Congresso Nacional o poder de demarcar terras indígenas e ratificar as demarcações homologadas. Para os índios, a proposta é um retrocesso e eles temem que ela emperre a demarcação de novas terras indígenas por interesses políticos.
A bancada ruralista, composta por parlamentares que representam o agronegócio, é a maior defensora da PEC 215. O principal argumento é que muitas demarcações indígenas acontecem em áreas oficialmente pertencentes a agricultores, registradas pelo INCRA. O abandono das terras prejudicaria a renda e a economia do estado.
A demarcação de terras indígenas já gerou diversos conflitos. Para haver a demarcação de uma terra indígena, a Funai deve antes de tudo elaborar estudos de identificação e delimitação, que precisam obedecer a critérios técnicos que levam em conta toda a história de ocupação daquela terra. Depois o processo deve ser aprovado pela Justiça.
Em Roraima, a região de Raposa Serra do Sol foi demarcada para os índios Macuxi e Jaricuna em 2005. No ano seguinte, arrozeiros entraram na justiça para tentar manter a posse de suas terras dentro da área demarcada, atrasando a desocupação da área. Houve conflito armado e até hoje a tensão é grande.
O Mato Grosso do Sul é o estado que apresenta os conflitos mais acirrados. A disputa de terra entre fazendeiros e os Guarani-Kaiowá deixou dezenas de vítimas. Os índios estão no processo de demarcação e ocupam fazendas localizadas na área delimitada da futura reserva. Muitos acampamentos foram retirados à força pelos fazendeiros. A morosidade da Justiça é um problema. Enquanto não sair a decisão oficial, não é possível comprovar que a terra é indígena.
As ameaças ambientais
Nas terras indígenas, a exploração e o aproveitamento dos recursos hídricos e das riquezas minerais só podem ser feitos com a autorização do Estado brasileiro. Mas as áreas de preservação ambiental e os territórios indígenas são alvos da extração ilegal de recursos.
Na Terra Indígena Yanomami, em Roraima, foi desmantelado pela Polícia Federal um esquema de atividades garimpeiras ilegais que movimentou cerca de 1 bilhão de reais nos últimos dois anos e que há anos havia sido denunciado pelos indígenas.
O avanço do agronegócio também é um fator que pressiona os territórios indígenas. No Parque do Xingu, ao longo dos anos se formou um cinturão de fazendas de soja em seu entorno, transformando o parque indígena em uma “ilha verde de floresta”.
Grandes obras hidrelétricas na Amazônia também são alvos de críticas. A maior delas é a Usina Hidrelétrica de Belo Monte, no Baixo Xingu, em Altamira (PA), que será a segunda maior do país. A barragem gerou um forte movimento de oposição entre os povos indígenas da bacia do Xingu, que temem que a hidrelétrica afete os rios e sua sobrevivência. Recentemente a FUNAI autorizou o IBAMA a conceder a licença para a barragem operar.
Outra obra que pode sair do papel é o Completo de usinas do Rio Tapajós, no Pará. O governo de Dilma Rousseff planeja erguer uma sequência de 40 barragens, que afetaria florestas preservadas e 19 Territórios Indígenas. O projeto está em fase de licenciamento ambiental.

A cultura indígena e o Brasil

A cultura indígena está presente na língua materna, nos costumes, cantos, danças, pinturas corporais, ritos, narrativas, saberes e tecnologias. Ela é uma das raízes ou matrizes da cultura brasileira atual. Seus traços são encontrados em diferentes momentos cotidianos dos brasileiros: em nossa alimentação (em comidas como mandioca, pipoca e tapioca), em objetos, como a rede de descansar, no conhecimento das ervas medicinais, na nomenclatura de animais, no folclore, religiões, em manifestações culturais tradicionais e na relação com a natureza.
Em aldeias mais isoladas, a cultura indígena é forte e está “preservada”. Mas a grande realidade hoje é que a maioria dos índios está imersa em duas culturas e dois mundos: a convivência com os brancos e a vivência da cultura tradicional.
Historicamente, quanto maior é a convivência com os brancos, maior o risco de se perder as tradições. No atual contexto, a preservação do território e da cultura constituem os principais desafios dos povos indígenas.
BIBLIOGRAFIA
"Memórias sertanistas: cem anos de indigenismo no Brasil", org. Felipe Milanez. (Edições Sesc São Paulo. 2015)
"Povos Indígenas no Brasil 2001-2005", de Beto Ricardo e Fany Ricardo. (Instituto Socioambiental).
"História dos índios no Brasil", org. Manuela Carneiro da Cunha. São Paulo: Companhia das Letras/ Secretaria Municipal de Cultura/ Fapesp, 1992.
"Caminhos e fronteiras", de Sérgio Buarque de Holanda. São Paulo: Companhia das Letras, 1994.

Por Carolina Cunha, da Novelo Comunicação.

MEMÓRIAS DO BRASIL - Mia Couto: as dores de duas terras e o alento de Rosa

literatura
Mia Couto no palco: leitura de Guimarães, um de seus mestres, trouxe o que ele considera 'o retrato mais fiel deste país'
por Vitor Nuzzi, da RBA 
Escritor moçambicano quase desistiu de viajar, após ciclone que devastou seu país, mas trouxe "um abraço solidário" por Mariana, Brumadinho e Rio. E lamentou a ameaça de apagar a "memória da ditadura".
São Paulo – Meninas de Cordisburgo (MG), Alice, Júlia e Manuelli deixam o palco após lerem trechos de Grande Sertão: Veredas, entra Mia Couto, para falar sobre a influência de Guimarães Rosa e as dores e laços culturais que unem seu país, Moçambique, e o Brasil. Elas são do Grupo Miguilim, de jovens contadores de histórias formados há duas décadas na cidade mineira por, entre outros, Dôra Guimarães, que acompanha as três. Logo no início, Mia, aparência abatida, fala do ciclone que devastou seu país, sua cidade (Beira), e o deixou "órfão da minha infância". Pensou em desistir da viagem, mas explica em seguida os motivos que o fizeram vir, depois que um amigo o incentivou a trazer um abraço aos brasileiros, que também vivem momentos difíceis. 
"E é isso que estou fazendo: trazendo um abraço solidário de Moçambique por Brumadinho, Mariana e agora pelo Rio de Janeiro", afirma o escritor, para em seguida fazer referência ao momento político do Brasil. "Um abraço à diversidade de sua gente, à integridade de sua história – essa história que tantas vezes já foi amputada das memórias da escravatura e do racismo, amputada do genocídio dos índios e da violência contra as mulheres. E que agora está na iminência de ser amputada mais uma vez apagando aquilo que é memória da ditadura", acrescentou, sendo longamente aplaudido.
O evento na noite desta terça-feira (9) foi de curta duração – aproximadamente 45 minutos, entre as falas das meninas e a narração de Mia Couto, que no final leu um texto dele e do também escritor José Eduardo Agualusa, de Angola, sobre as ameaças à democracia no Brasil (confira ao final). Promovida pela Companhia das Letras e com direção de Bia Lessa, a atividade lotou o Teatro Paulo Autran, no Sesc Pinheiros, zona oeste de São Paulo. Os 700 ingressos tinham de ser retirados a partir das 11h. Na plateia, se espalham muitos "devotos" de Guimarães Rosa, que se reúnem em São Paulo para rodas de leitura e vão todos os anos a Cordisburgo para a chamada Semana Roseana, dedicada à obra do escritor.
Mia conta que Guimarães Rosa é um de seus mestres e referência para outros escritores africanos. Iniciou-se com uma "fotocópia" do conto A Terceira Margem do Rio. Depois, entregou alguma dificuldade ao começar a ler Grande Sertão: Veredas, lançado em 1956, quando Brasília começou a ser construída, conforme lembrou o moçambicano.
"Posso dizer que foi na prosa de Guimarães que encontrei o retrato mais fiel deste país", afirmou. "Rosa me volta a ensinar que aquela minha cidade não era apenas um lugar, era uma entidade viva que me tinha contado histórias. Como o sertão de Rosa, a minha cidade é mais da palavra do que da terra, e os nossos lugares de afeto são sempre mais da linguagem do que da geografia." Foi também o escritor mineiro que mostrou a possibilidade de diálogo entre os diferentes, lembrou, destacando o uso da cultura urbana com a cultura oral sertaneja.
No final, Mia Couto faz novas referências políticas, citando morte de líderes populares, invasão de terras indígenas e abusos "que agora têm novos mandantes". Ele lembra ainda da ação de soldados do Exército no Rio de Janeiro, domingo (7), que resultou na morte do músico Evaldo Rosa. Segundo o escritor, disparar 80 tiros contra uma família inocente "pode ser uma manifestação de uma outra lei que se quer fazer à margem de toda a lei”.
Leia o texto de Mia Couto e José Eduardo Agualusa, de 2018:
O Brasil nasceu de um passado de escravatura, violência racial e genocídio. Essas marcas estão ainda vivas. Apesar de tudo, o Brasil é um lugar de afetos profundos e de integração daquilo que parece estranho e diverso. Durante anos o Brasil foi, para nós, uma escola de vivência e de sensibilidades.

No Brasil recolhemos vozes que, afinal, eram as nossas. No Brasil fizemos eternos amigos e no Brasil encontramos, enfim, a nossa segunda pátria. O Brasil e os brasileiros inspiraram profundamente a nossa escrita, não existem palavras para dizer o quanto somos devedores do universo criativo da grande nação brasileira.

Não fomos apenas nós que encontramos no Brasil essa fonte de ensinamento. Angolanos e moçambicanos buscam no Brasil essa luz de quem há mais tempo faz seguir em frente.

É com grande temor que vemos que esse Brasil pode estar em risco de desaparecer. A tolerância está sendo substituída pelo ódio, o gosto de escutar o outro e o desejo de integrar a diferença parecem viver os seus últimos dias. Temos a crença de que nenhum pretenso salvador da pátria substitui o exercício da democracia e das instituições brasileiras. Estamos certos de que, como diz a canção, o Brasil reconhece a queda, se levanta, sacode a poeira e dá a volta por cima.

Seguimos atentos, apoiando a liberdade, o amor pela diversidade, o respeito pelo outro. Estamos com o Brasil que aprendemos a amar e que não queremos perder.
Não ao ódio, sim à democracia!
Sim à democracia, não ao ódio!