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domingo, 17 de março de 2019

CARINHOSO - Uma flauta para restaurar. O dono era Pixinguinha

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Pixinguinha: vasta obra inclui o choro 'Um a Zero', marco da história esportiva brasileira, prestes a completar 100 anos
por Vitor Nuzzi, da RBA 
Músico se emociona ao trabalhar com instrumento que pertenceu a um dos gênios da canção brasileira, cujo acervo está no Instituto Moreira Salles.
São Paulo – No começo do ano, Franklin Correa, mais conhecido como Franklin da Flauta, estava em sua oficina com a responsabilidade de restaurar um instrumento. A tarefa não era incomum para um profissional com larga experiência, mas tornou-se especial pelo antigo dono daquela flauta: Alfredo da Rocha Vianna Filho, que o público se acostumou a chamar de Pixinguinha.
Sobre ele, o pesquisador Ary Vasconcelos comentou certa vez: "Se você tem 15 volumes para falar de toda a música popular brasileira, fique certo de que é pouco. Mas, se dispõe apenas do espaço de uma palavra, nem tudo está perdido. Escreva depressa: Pixinguinha". Muitos anos depois, instigado por um jornalista, Ary reforçou a frase. "Eu assinaria isso de novo. Se há um músico brasileiro, é Pixinguinha. E era um homem simples, sem banca."
O trabalho de Franklin foi para o Instituto Moreira Salles (IMS), que preserva o arquivo pessoal de Pixinguinha desde 2000. São documentos, troféus, recortes de jornal, fotos, um inestimável acervo de mil conjuntos de partituras, roupas... E a flauta, uma L. Billoro italiana do início do século 20, como ele observa. "Honrado e emocionado", diz o músico, sobre a obra de restauro, que durou aproximadamente dois meses e meio.
"A parte mais difícil foi escolher o que mantinha e o que reparava, pra não perder características históricas importantes e recuperar a funcionalidade", conta Franklin. "Os cuidados especiais foram decorrentes de desgastes e reparos mal feitos – não havia recursos como hoje."
Perto de completar 70 anos, Franklin começou a tocar em 1963. Profissionalmente, dois anos depois. "Comecei no jazz, minha referência era, é e sempre será Eric Dolphy", diz, citando um dos grandes nomes da música norte-americana, que morreu em 1964, com apenas 36 anos. O flautista brasileiro lembra que começou a tocar choro "pra valer" aos 30 anos. "Aí, Pixinguinha foi, é e será sempre 'a referência'."
Ele recorda de uma apresentação de Baden Powell no Teatro Opinião, no Rio de Janeiro, em 1968, citando a mais conhecida obra de Pixinguinha. "Carinhoso foi o choro que escolhi, a pedido do Baden, para solar no show dele. Era a música que eu ouvia desde que tinha nascido. E é o verdadeiro Hino Nacional, né? Todas as gerações sabem de cor."
FRANKLIN DA FLAUTA
pixinguinha
Flauta de Pixinguinha: últimas gravações foram feitas nos anos 1940, mas ele não parou de tocar
Nascido em 1897 no Rio, Pixinguinha tem obra vasta. Outra de suas canções clássicas, prestes a completar 100 anos, é um marco, inclusive, da história esportiva do Brasil: o choro Um a Zero, composto após a conquista do primeiro título sul-americano de futebol, depois de uma suada vitória contra o Uruguai, com um gol de Friedenreich, o Pelé da primeira metade do século passado. No acervo do IMS, encontram-se nada menos que 46 gravações dessa composição.
Foi também em 1919, em abril, que os Oito Batutas tocaram pela primeira vez. O conjunto foi organizado por Pixinguinha, a convite do gerente do tradicional Cine Palais, para se apresentar na sala de espera, concorrendo com outra sala, quando os cinemas incluíam música ao vivo em sua programação. Em 1997, centenário de nascimento do compositor, o também músico Paulo Moura lançou um disco em homenagem ao grupo. Para ele, com Pixinguinha – que conheceu no final dos anos 1940 – "nascia o som da alma brasileira".

 Arranjador

"Uma das coisas que vamos tentar mostrar no site é que Pixinguinha já nasceu com alma, talento e criatividade de arranjador. Ele foi arranjador a vida inteira, em todos os grupos dos quais participou ou dirigiu, e isso é muito forte na carreira dele, quase tão forte quanto o trabalho de compositor, que é magnífico", diz na página do IMS a diretora musical Bia Paes Leme. "Infelizmente os arranjos que ele fez para discos não existem, porque ninguém guardava nada. Música gravada é partitura jogada fora, ainda hoje. A sorte é que as apresentações eram feitas para o rádio, ao vivo, e durante cinco anos ele escreveu cerca de 300 arranjos para esse programa. Como os ouvintes pediam para repetir algumas músicas, ele guardava tudo, ainda bem."
O site abrigado na página do IMS é www.pixinguinha.com.br.
Em 7 de junho de 1972, Pixinguinha sofreu um duro golpe, com a morte de sua companheira, Betty. Enquanto ela estava internada, o próprio músico sofreu um princípio de infarto e ficou no mesmo hospital. Para não deixar Betty preocupada, ao visitá-la trocava o pijama por um terno. 
Dois sábados antes do carnaval de 1973, em 17 de fevereiro, Pixinguinha pôs o terno para ir ao batizado do filho de um amigo. Levava de presente uma partitura manuscrita de Carinhoso. Morreu no altar, vítima de infarto, na igreja Nossa Senhora da Paz, em Ipanema. Perto dali, a tradicional Banda de Ipanema saía para um desfile pré-carnavalesco, até que a notícia se espalha, e seus integrantes fazem uma homenagem ao músico que acabava de partir.
Segundo Franklin, Chorei e Os Cinco Companheiros foram as duas últimas faixas gravadas em flauta, em 1940, por Pixinguinha, que posteriormente passou a usar mais o saxofone. "Mas ele deve tê-la usado, e muito, não profissionalmente, talvez até a década de 1960."
Rede Brasil Atual

De mostra de cinema a espetáculos de teatro, a programação esquenta


A segunda mostra Mulheres, Câmeras e Telas movimenta a programação da Cinemateca Brasileira, em São Paulo (SP). Além de exibir filmes dirigidos por cineastas, o evento promove encontros com profissionais do cinema brasileiro. O espaço cultural paulistano também oferece novas sessões do filme Roma, de Alfonso Cuarón, vencedor dos Oscar de filme estrangeiro, fotografia e direção. Já no Rio de Janeiro, a Funarte apresenta cinco novos espetáculos, incluindo a segunda edição do Rio Pole Fest, um festival aberto a todas as escolas de pole do país que queiram mostrar o seu trabalho e o seu estilo de dança. Confira a programação completa abaixo:
Cinemateca Brasileira
Roma na Cinemateca
17 e 24/3 – 20h
Endereço: Cinemateca Brasileira – Largo Sen. Raul Cardoso, 207 – São Paulo (SP)
Devido ao grande sucesso, Roma terá novas sessões na Cinemateca. Vencedor do Leão de Ouro no Festival de Veneza e dos Oscar de filme estrangeiro, fotografia e direção, o filme dirigido por Alfonso Cuarón foi grande destaque na temporada de premiações. As novas sessões acontecem nos domingos, dias 17 e 24 de março, sempre às 20h. Sinopse: Cidade do México, 1970. A rotina de uma família de classe média é controlada de maneira silenciosa por uma mulher (Yalitza Aparicio), que trabalha como babá e empregada doméstica. Durante um ano, diversos acontecimentos inesperados começam a afetar a vida de todos os moradores da casa, dando origem a uma série de mudanças, coletivas e pessoais.
2ª edição do Mulheres, Câmeras e Telas
Até 31/3
Endereço: Cinemateca Brasileira – Largo Sen. Raul Cardoso, 207 – São Paulo (SP)
Destaque da programação do ano passado da Cinemateca Brasileira, a Mostra Mulheres, câmeras e telas chega à sua segunda edição. Importante ação de difusão da instituição, contempla ações de formação e reflexão, como a mostra de filmes – que possibilita novas leituras da historiografia do cinema – e encontros com realizadoras e profissionais do cinema brasileiro. No dia 23, sábado, após a sessão de Hotel Atlântico (2009), a mesa Imagens por mulheres reúne profissionais de diferentes atividades no cinema para uma conversa aberta ao público: a cineasta e roteirista Suzana Amaral, diretora do longa-metragem, Cristina Amaral, uma das mais importantes montadoras do cinema brasileiro, Carmen Genaro, projecionista da Cinemateca, e Flora Dias, cineasta, fotógrafa e integrante do DAFB (Coletivo das Diretoras de Fotografia do Brasil). Toda a programação tem entrada gratuita. Os ingressos serão distribuídos na bilheteria uma hora antes de cada sessão, sujeito à lotação das salas.
Fundação Casa de Rui Barbosa
Mostra Rui, sua casa e seus livros: o homem e sua biblioteca
Até 4/4
Endereço: Fundação Casa de Rui Barbosa – Rua São Clemente 134 – Rio de Janeiro (RJ)
O Museu Casa de Rui Barbosa promove a mostra ‘Rui, sua casa e seus livros: o homem e a sua biblioteca’. O roteiro temático tem como objetivo buscar o diálogo entre o acervo, o espaço e o personagem. A entrada franca.
Instituto Brasileiro de Museus
Exposição Uma Nova Música Antiga
Até 31/3
Endereço: Museu Solar Monjardim – Avenida Paulino Müller – Vitória (ES)
Realizada em parceria com o grupo A Trupe Barroca, a exposição exibe instrumentos musicais originais com quase 300 anos de idade, além de réplicas fiéis, que testemunham a história da música erudita no Brasil. Entre as preciosidades que o visitante encontrará na exposição destacam-se um violino de 1820 que pertenceu à família da Princesa Isabel e um cravo em cuja tampa está pintada uma cena da Baía de Vitória no século XVIII.
Mostra Três Momentos da Pintura de Paisagem no Brasil
Até 31/5
Endereço: Museu Nacional de Belas Artes – Avenida Rio Branco, 199 – Cinelândia, Rio de Janeiro (RJ)
A mostra “Três momentos da Pintura de Paisagem no Brasil” aborda a evolução da prática da paisagem no Brasil. São 36 obras provenientes do acervo do MNBA e da Pinacoteca Barão de Santo Angelo, ligada ao Instituto de Artes da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), que exibem “paisagens puras”, não tendo sido selecionadas paisagens urbanas ou marinhas. Algumas dessas obras não são expostas ao público há décadas. A mostra é dividida em três módulos e percorre um panorama conciso do exercício da pintura de paisagem no Brasil por artistas brasileiros, estrangeiros radicados no Brasil ou, ao menos, aqui ativos desde meados do século XIX até os anos iniciais do século XX. A partir das décadas de 1920 e 1930, a pintura brasileira enveredaria por novos rumos, poucos favoráveis ao desenvolvimento da paisagem como gênero. As visitações são de terça a sexta, das 10h às 18h, e aos sábados, domingos e feriados, das 13h às 18h.
Mostra O desenho de Lasar Segall
Até 17/6 – quarta a segunda-feira,das 11h às 19h
Endereço: Museu Lagar Segall – Rua Berta, 111 – São Paulo (SP)
Com curadoria de Giancarlo Hannud, diretor do museu, a mostra “O desenho de Lasar Segall” traz 54 desenhos dos mais de 2,4 mil que integram o acervo da instituição, revelando a inesgotável riqueza expressiva e técnica de sua produção.
Fundação Nacional de Artes (Funarte)
Espetáculo Asikatali – Não é tarde demais
15 e 17/3 – 20h (quinta e sexta) e 19h (domingo)
Endereço: Funarte MG – Rua Januária, 68, Belo Horizonte (MG)
A peça foi criada pela Cia Badetes de Teatro, formada por ex-alunos do Curso de Aprofundamento em Teatro, da Escola Livre de Artes – Projeto Arena Cultural e tem como ponto de partida o desejo dos integrantes de estimular a esperança em dias melhores. Os ingressos são a preços populares de R$ 15 (inteira), R$ 7 (meia-entrada) e R$ 5 (para estudantes de teatro).
Na criação do enredo de Asikatali – Não é tarde demais, os atores da Cia Badetes de Teatro partiram de questões levantadas pelo próprio grupo sobre o sistema no qual estão inseridos, nas relações de poder e, consequentemente, no resultado de tudo isso. Através dos efeitos gerados, os envolvidos têm suas vidas afetadas de alguma forma. Tais crises e o impacto nas relações são abordados tanto no aspecto macro, no qual o sujeito aparece como integrante de um grupo social, quanto no micro, onde se avalia o aspecto individual e cotidiano. A esperança é o tema principal do espetáculo que, com leves toques de humor, tem o intuito de promover a reflexão e a perspectiva de que ainda há tempo e possibilidade de trilhar caminhos mais positivos para o futuro.
2ª edição do Rio Pole Fest
15 a 17/3 – 19h (sexta e sábado) e 17h (domingo)
Endereço: Teatro Cacilda Becker – Rua do Catete, 338, Rio de Janeiro (RJ)
O Rio Pole Fest surgiu do desejo de divulgar e incluir a modalidade do pole dance no cenário artístico e cultural da cidade do Rio de Janeiro. O festival é aberto a todas as escolas de pole do país que queiram mostrar o seu trabalho e o seu estilo de dança. E, ainda, possibilitar que alunos e artistas tenham contato com o palco sem que estejam sendo julgados, num espaço livre, em que somente a expressão artística é o que importa.
A segunda edição do evento repete o mesmo feito da temporada anterior, realizada em 2018: a apresentação de artistas vindos de cinco estados do Brasil. Normalmente, as apresentações dessa modalidade acontecem em campeonatos, submetidas a regras, estilos e obrigatoriedade de movimentos executados. Os ingressos custam R$ 90 (inteira) e R$ 45 (meia-entrada). Também é aceito o pagamento de R$ 45 (meia solidária) para as pessoas que não possuam documento comprobatório, mediante a doação de 1k de alimento não perecível.
Através de diferentes linguagens, o espetáculo infantil O Pequeno Príncipe Preto aborda a valorização da cultura negra e da diversidade (Foto: Rodrigo Menezes)
Espetáculo O Pequeno Príncipe Preto
De 16 a 30/3 – 16h (sábado e domingo)
Endereço: Teatro Dulcina – Rua Alcindo Guanabara, 17, Rio de Janeiro (RJ)
Com texto e direção de Rodrigo França, a montagem conta a história de um príncipe que percorre vários planetas com a missão de plantar as sementes da empatia, amor, respeito, coletividade, generosidade e aprendizado familiar. Os ingressos são a preços populares de R$ 30 e R$ 15 (meia-entrada). A peça traz aos palcos um personagem negro, como condutor da narrativa, para propor a quebra de paradigma e contribuir para a reflexão acerca da hierarquia da cultura afro. Através de diferentes linguagens, o infantil exalta a valorização da cultura negra e retrata o quanto é bonita a diversidade de cada povo.
Espetáculo Boca de Ferro
20 e 21/3 – 20h
Endereço: Funarte SP, Alameda Nothmann, 1058, Campos Elíseos – São Paulo (SP)
O espetáculo apresenta uma performance do paraense Ícaro dos Passos Gaya, que utiliza os princípios de apropriação e alteração em cena, agregando referências diversas ao trabalho, como a música tecnobrega – gênero que mescla as sonoridades caribenhas e as músicas populares. As coreógrafas Marcela Levi e Lucía Russo também se inspiram nos textos O Inferno (do livro A Divina Comédia), de Dante Alighieri, e Macunaíma, de Mário de Andrade, no universo trans e até mesmo em memes de internet. No solo, “o corpo do performer é suor, transtornado por sons díspares, descolado da afirmação de identidade”, afirmam os produtores. Boca de Ferro, título da montagem, é como eram chamados os alto-falantes no Pará, nos anos 1950.
Espetáculo Modum
22 a 24/3 – 19h (sexta e sábado) e 18h (domingo)
Endereço: Funarte SP, Alameda Nothmann, 1058, Campos Elíseos – São Paulo (SP)
A palavra modum, em latim, significa método. O espetáculo consiste em levar para os palcos a metodologia de treinos direcionados, desenvolvida pelo coreógrafo Hugo Campos. A maior parte da peça é improvisada, o que faz com que cada sessão seja uma “surpresa” para o público e o intérprete. A Cia Underground Vibrations adota como base a dança House, criada nos anos 1980 em clubes dos Estados Unidos. Mas, no espetáculo Modum, a companhia segue uma linguagem mais contemporânea, mesclada a elementos da cultura brasileira.
Exposição Dupla Face
Até 24/3 – 10h30 às 19h (terça a domingo)
Endereço: Funarte SP, Alameda Nothmann, 1058, Campos Elíseos – São Paulo (SP)
Com curadoria de Maria Eugenia Cordero, a mostra apresenta 33 esculturas de Pallardó, que, além de artista visual, é também ator de teatro e integrante do coletivo paulistano Cia da Vértebra. Os trabalhos permitem vislumbrar algo do seu processo de criação, uma conjugação dessas duas faces de sua expressão artística.
Espetáculo Poética do Cotidiano
Até 27/3, às 20h (quartas)
Endereço: Funarte SP, Alameda Nothmann, 1058  – Campos Elíseos, São Paulo (SP)
A peça é resultado da oficina O Século de Stanislavski, projeto contemplado no programa Laboratório da Cena Funarte 2018. Os ingressos são vendidos na modalidade “pague quanto puder”. Coordenado por Dirce Thomaz, Edson Caeiro e Geraldo Fernandes, o trabalho reúne cenas sobre temas diversos, que refletem as angústias do ser humano, sua relação com a realidade, os desejos e os sonhos e seu contato com o outro. As questões – abordadas pelas perspectivas do naturalismo, realismo e simbolismo – transitam pelos campos político, social e espiritual.
Espetáculo Escuta-me
Até 31/3, às 20h30 (sexta e sábado) e às 19h (domingo)
Endereço: Funarte SP, Alameda Nothmann, 1058 – Campos Elíseos, São Paulo (SP)
O enredo da peça trata de uma ex-atriz que, para resgatar sua memória, volta ao teatro onde viveu seu sucesso e também seu infortúnio. Numa encenação ora realista ora de caráter mais subjetivo, a personagem tem dificuldade em distinguir o real do imaginado. No centro das lembranças da personagem estão os ensaios da peça Casa de Bonecas, de Ibsen. As atrizes dos ensaios, entre elas a protagonista de Escuta-me, formam um triângulo amoroso com o diretor, que passa a cometer uma série de abusos e manipulações, rememorados pela ex-atriz em meio a delírios e à confusão de passado e presente.
Espetáculo Mau Lugar
Até 31/3, às 20h (sexta e sábado) e às 19h (domingo)
Endereço: Teatro de Arena Eugênio Kusnet – Rua Dr. Teodoro Baima, 94 – São Paulo (SP)
Na peça, uma cidade é atingida por uma onda de suicídios. Controlado por grandes corporações, o Estado reage, tornando o suicídio um crime hediondo: os familiares dos suicidas passam a sofrer punições violentas. A protagonista Lúcia é uma gerente de fábrica que tem sua vida transformada depois do suicídio de sua filha.
O ponto de partida da peça é a imaginação de uma sociedade distópica, tão opressiva que o suicídio passa a ser um gesto coletivo. Em geral visto como uma decisão íntima, ele se torna também um ato de resistência coletiva diante de uma situação de opressão extrema, intolerância e falta de perspectivas.
Também faz parte da programação uma série de debates sobre o tema principal da montagem, chamada Diálogos sobre o suicídio. As conversas ocorrem todos os domingos da temporada, depois da apresentação. Além desse tema, também vai ser discutida a importância histórica do Teatro de Arena Eugênio Kusnet.
Exposição Raízes
Até 7/4, das 10h às 18h (terça a sexta) e das 14h às 21h (sábados e domingos)
Endereço: Funarte SP, Alameda Nothmann, 1058 – Campos Elíseos, São Paulo (SP)
Raízes é um projeto artístico que dialoga com as culturas ancestrais e suas vertentes contemporâneas. Por meio de desenhos, pinturas e um mural, Ju Costa exalta a diversidade e a singularidade das expressões artísticas de povos de matrizes africanas e indígenas, que acreditam no equilíbrio da natureza e valorizam suas raízes sociais. A artista representa a riqueza cultural e a pluralidade racial brasileiras.
Mais informações
Exposição Estar no mundo, sem ser do mundo
Até 7/4, das 10h às 18h (terças a sextas) e das 14h às 21h (sábados e domingos)
Endereço: Funarte SP, Alameda Nothmann, 1058 – Campos Elíseos, São Paulo (SP)
Estar no mundo, sem ser do mundo apresenta 12 pinturas inéditas, resultado de uma pesquisa realizada por Maíse Couto entre 2017 e 2018. As obras são fruto de uma imersão da artista em suas questões pessoais e do enfrentamento da rotina solitária e silenciosa do ateliê. As paisagens – que atravessam as fronteiras entre figuração e abstração – em geral são habitadas por uma criança inspirada nos retratos de sua filha. O símbolo personifica sua própria imagem infantil, em espaços indefinidos, em situações e ações que revelam resquícios de lembranças e imaginação.
Espetáculo Ariano – O Cavaleiro Sertanejo
Até 14/4, às 19h (de domingo a domingo)
Endereço: Teatro Dulcina – Rua Alcindo Guanabara, 17, Rio de Janeiro (RJ)
A peça é uma viagem ao universo nordestino, por meio de alguns ícones da sua cultura, como o cancioneiro, o sertanejo, o repente, o forró, o mamulengo e o Movimento Armorial — idealizado e dirigido por Ariano Suassuna. O objetivo do Movimento é o de valorizar a cultura popular do Nordeste, criando uma espécie de arte brasileira erudita a partir das raízes da cultura do país. No espetáculo, seis cavaleiros saem à procura de Suassuna. Invadem a cidade nordestina de Armorial munidos de muita música, amor e poesia. Eles cantam e contam a lenda do cavaleiro nordestino. “Aquele que nasceu, amou, viveu e lutou, usando as armas mais potentes: a pena e a tinta”. O cavaleiro andante, de mistérios e mitos deixou seu legado e perpetuou suas histórias, sendo intitulado Ariano – O Cavaleiro Sertanejo.
Fundação Biblioteca Nacional
Exposição 1808 –1818: A construção do reino do Brasil
Até 29/3 – 12h às 16h30 (segunda), 10h às 16h30 (terça a sexta)
Endereço: Espaço Cultural Eliseu Visconti – Rua México S/N – Rio de Janeiro(RJ)
A exposição reflete sobre a época joanina, período que começa com a chegada da corte portuguesa em 1808 e, logo em seguida, pela abertura dos portos brasileiros às nações unidas e termina com a coroação do príncipe regente D. João. Deixando para trás uma Europa conflagrada, D. João passou a reinar na cidade do Rio de Janeiro, que se transformou na cabeça do Império Ultramarino. A instalação da corte no Brasil promoveu a quebra do chamado“pacto colonial”, abrindo os portos para as nações amigas.
Artistas, viajantes e naturalistas foram autorizados a conhecer e a registrar a paisagem tropical. Foram 10 anos que transformaram o Brasil, quando foram fundados o Banco do Brasil, a Imprensa Régia, o Jardim Botânico, a Biblioteca Real, atual Biblioteca Nacional, as academias Real dos Guardas Marinhas e Real Militar e a Escola Real de Ciências, Artes e Ofícios.

Veja Di Cavalcanti Di Glauber, o “filme proibido” de Glauber Rocha

A família de Di Cavalcanti (1897-1976) conseguiu na Justiça o que muitos agentes da ditadura militar tentaram em vão: interditar um filme de Glauber Rocha. Em 1977, para celebrar o amigo falecido um ano antes, o cineasta baiano lançou o documentário em curta-metragem Di Cavalcanti Di Glauber. Na maior parte dos 15 minutos da produção, o que aparece são imagens gravadas no velório e no enterro do pintor modernista.
Por André Cintra
Montagem: André Cintra / “Prosa, Poesia e Arte” Di Cavalcanti, no Masp, em 1965. A seu lado, reprodução de dois projetos de sua autoria: as capas do livro <i>Pauliceia Desvairada</i> (1921) e da programação da Semana de Arte Moderna (1922) Di Cavalcanti, no Masp, em 1965. A seu lado, reprodução de dois projetos de sua autoria: as capas do livro Pauliceia Desvairada (1921) e da programação da Semana de Arte Moderna (1922)
A ideia de um projeto tão singular – ou mesmo macabro, para alguns – não partiu apenas do diretor, nem foi tão espontânea quanto o filme sugere. Segundo Glauber, havia um pacto entre ele e Di Cavalcanti: quem morresse primeiro seria homenageado pelo outro. O artista plástico teria prometido que pintaria um quadro do cineasta se este, porventura, partisse antes. Mas Glauber só viria a morrer em 1981, enquanto Di Cavalcanti faleceu em 26 de outubro de 1976, no Rio de Janeiro, aos 79 anos.
Ao saber da morte, pelo rádio, na manhã seguinte, Glauber correu a bater na porta de amigos. Em pouco tempo, conseguiu uma câmera 16mm com o também cineasta Nelson Pereira dos Santos, além de 900 metros de película colorida virgem. Com a promessa na cabeça e essa câmera emprestada na mão, ele levou uma equipe de filmagem para o velório, realizado no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro (MAM-RJ).
Dado o estilo espalhafatoso de Glauber, o incômodo foi geral. Atrás de imagens de impacto, o cineasta chegou a se aproximar do caixão só para mexer no lenço branco que cobria o rosto de Di Cavalcanti. A família do pintor chegou a admoestar Glauber, sem sucesso. Com o fotógrafo Mario Carneiro à frente da câmera, o trabalho de filmagem era frenético e se prolongou até o enterro, no cemitério São João Batista.
Muito frenética e muito anticonvencional também foi a narração do filme, feita depois pelo próprio Glauber, em estúdio, num ritmo alucinante, que lembra o de um locutor de rodeios. Em meio à colagem de imagens, o discurso glauberiano misturava dados biográficos e artísticos de Di Cavalcanti, poemas de autoria do cineasta, de Augusto dos Anjos e de Vinícius de Moraes, além de críticas à ditadura militar.
Com o filme pronto, Glauber lhe deu um subtítulo longuíssimo, inspirado em Versos Íntimos, de Augusto dos Anjos: Ninguém Assistirá ao Formidável Enterro da Tua Última Quimera, Somente a Ingratidão, Aquela Pantera, Foi Sua Companheira Inseparável!. O curta estreou em 1977, no Festival de Cinema de Cannes, onde recebeu o prêmio especial. Na ocasião, quem presidia o júri era ninguém menos que o italiano Roberto Rosselini.
Clique abaixo para assistir ao curta Di Cavalcanti Di Glauber
Em 11 de março do mesmo ano, a Cinemateca do MAM recebeu cerca de 500 pessoas para a primeira exibição da obra no Brasil. O filme também foi atração especial em duas emissoras televisivas – a TVE do Rio e a TV Bandeirantes, de São Paulo.
A esta altura, conforme se aproximava a data de lançamento de Di Cavalcanti Di Glauber em circuito comercial, a família do pintor modernista ameaçava ir à Justiça – e foi. Alegando violação ao direito de imagem, Elizabeth Di Cavalcanti, filha adotiva do homenageado, impetrou mandado de segurança na 7ª Vara Cível do Rio de Janeiro.
Em 11 de junho de 1979, quando chegaria ao grande público, o filme foi censurado – a Justiça concedeu liminar em favor da família do pintor. A estatal Embrafilme, responsável pela distribuição do curta, estava proibida de lança-lo. Glauber protestou: “Filmar meu amigo Di morto é um ato de humor modernista-surrealista que se permite entre artistas renascentes: Fênix/Di nunca morreu. No caso, o filme é uma celebração que liberta o morto de sua hipócrita-trágica condição”.
Apenas algumas salas em todo o Brasil conseguiram exibir o curta, dias 11 e 12 de julho, antes de receberem o aviso de proibição. Um evento de lançamento com a presença de Glauber, no Cine Rio Sul, foi cancelado em cima da hora, já com os convidados presentes. Oficiais de Justiça foram ao local e lacraram as latas com a película. O cineasta, indignado, dirigiu-se a uma delegacia, sem, no entanto, conseguir nada. A Embrafilme também recorreu, mas, em 1983, a Justiça ratificou a sentença.
Em 1999, uma tese de mestrado defendida na Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo (ECA-USP) mudou o destino do curta. José Mauro Gnaspini – que era advogado, mas se pós-graduou Comunicação – sustentou que os direitos autorais de Di pertenciam não à Embrafilme, mas a Glauber. Acontece que o cineasta não foi alvo de nenhum processo. Dessa maneira – dizia Gnaspini –, era equivocado deduzir que o filme estava impedido. Sequer haveria fundamentos jurídicos do tipo.
Ao mesmo tempo, o cineasta Francisco César Filho reiniciou uma campanha pela liberação incondicional de Di Cavalcanti Di Glauber. Quando soube da campanha e da tese de mestrado, um webmaster de apelido “Dinanet” resolveu criar, no site Xoom, uma página para disponibilizar uma cópia pirateada do filme na íntegra. A escolha de um site norte-americano dificultou ainda mais a vida da família, já que o veto à exibição – mesmo que confirmado na Justiça – só valeria para o Brasil.
“Dinanet” se aproveitou de uma entrevista à Folha de S.Paulo para detalhar suas mais do que louváveis motivações: “Faço isso não só porque Di é da maior importância na história do nosso cinema, mas também para mostrar que não faz sentido proibir qualquer obra de arte num momento em que a Internet permite total liberdade de expressão”.
Cinco anos depois, em 2004, um sobrinho de Glauber Rocha igualmente postou o curta na internet. A repercussão, desta vez, foi maior, seja em virtude do parentesco, seja porque já havia milhões de internautas a mais no Brasil do que em 1999, seja porque as redes sociais ensaiavam os primeiros passos. Com a explosão do YouTube, no final dos anos 2000, toda e qualquer censura – não apenas a Di Cavalcanti Di Glauber , mas a qualquer filme – ficou para trás.
Ainda bem! Mesmo que eventualmente pareça lisérgico, à moda da virada da década de 1960 para a de 1970, Di Cavalcanti Di Glauber, em seu tributo dos mais audaciosos a um artista brasileiro, é uma autêntica obra-prima. Nas palavras do escritor “imortal” Antônio Calado, Di Cavalcanti, uma vez “embalsamado pelo documentário de Glauber”, converteu-se “no primeiro faraó brasileiro”, na acepção mais nobre do título. Tudo em meio a uma diversificada trilha musical, que inclui O Velório Do Heitor, de Paulinho da Viola, e Umbabarauma, de Jorge Ben Jor – sem contar Heitor Villa-Lobos, Lamartine Babo e Pixinguinha.]
Ironia do destino: quando Glauber morreu, em agosto de 1981, Cacá Diegues e Joaquim Pedro de Andrade pensaram em filmar o velório e o enterro do diretor baiano, à semelhança do projeto com Di Cavalcanti. Sugeriram a proposta ao documentarista Silvio Tendler, que – outra ironia – também caiu em desgraça com a família do morto. Dona Lúcia, mãe de Glauber, só permitiu o uso das imagens finais do filho em 2000, o que culminou na produção de Glauber, o Filme – Labirinto do Brasil (2003).
Devido à proibição judicial, o filme de Tendler não pôde usar cenas do filme de Glauber. “É pena, porque Di é um filme iluminado, uma super-homenagem carinhosa e também uma revolução na linguagem do documentário”, declarou Tendler. Não importa. A exemplo de Di Cavalcanti, Glauber Rocha permaneceu no centro do debate – e da polêmica – até mesmo depois da morte.
Brasil Cultura 

sábado, 16 de março de 2019

“Que nossa história de luta e resistência seja inspiração para um futuro melhor”, diz Allyson Bezerra em sessão de homenagem a Mossoró



 Deputado Estadual, Allyson Bezerra

Mesa presidida pelo Dep. ALLYSON BEZERRA
Mossoró viveu na noite desta sexta-feira, 15 de Março, um momento ímpar de celebração pelos 167 anos de emancipação política do município. A Assembleia Legislativa do Rio Grande do Norte realizou sessão solene para homenagear a data, no Teatro Lauro Monte Filho.

A proposição foi do deputado Allyson Bezerra (Solidariedade), que presidiu a sessão em sua terra natal.

Durante sua fala, o parlamentar enalteceu a história de resistência do seu povo. “Mais do que relembrar esses 167 anos de emancipação política, desejo que a nossa história de luta e resistência não fique no passado apenas como uma lembrança, mas que seja inspiração para o futuro, um futuro melhor”, ressaltou Allyson.

O deputado estadual também direcionou seu discurso à juventude mossoroense. “Nós somos a mudança que tanto queremos, a mudança que nós jovens queremos, que querem as crianças, os idosos, os homens, as mulheres, vamos de fato mudar e já começamos a mudar, estamos olhando para o horizonte da mudança e não podemos esquecer que a mudança quem produz somos nós”, afirmou.

Nomes representativos de Mossoró foram homenageados, como Padre Sátiro Cavalcante; o poeta mossoroense Antônio Francisco; o escritor David Leite; o pastor José Dantas Filho; o médico Cure de Medeiros; o servidor da Ufersa Francimar Honorato dos Santos; o jornalista Emery Costa; a pesquisadora Maria Lúcia da Escóssia e o ex-jogador de futebol do Potiguar Odilon Gomes de Almeida.

A apresentação cultural foi feita pelos poetas Antônio Francisco e o pequeno Moisés Marinho, de apenas 11 anos – que surpreenderam o público com um show de talento.

Participaram ainda do evento, a deputada estadual Isolda Dantas e o deputado estadual Dr. Bernardo; o reitor da UERN Pedro Fernandes Ribeiro; o vice-reitor da UFERSA José Domingues Fontenele Neto; a vice-prefeita de Mossoró Nayara Gadelha; o presidente da Fundação José Augusto Crispiniano Neto e a presidente da Câmara de Mossoró Izabel Montenegro, bem como os vereadores Raério Araújo e Genilson Alves.

Fotos: Eduardo Maia/AL-RN

Valéria Persali
Jornalista DRT 0002126/RN
Comunicação Dep. Allyson Bezerra
Contato: (84) 9656-7701

A vida e obra de Carolina de Jesus, um manifesto para a literatura periférica e afro-brasileira

Carolina de Jesus, da favela do Canindé para o mundo.
Carolina Maria de Jesus nasceu a 14 de março de 1914, em Sacramento – MG, cidade onde viveu sua infância e adolescência. Seus pais, provavelmente, migraram do Desemboque para Sacramento em decorrência da mudança da economia da extração de ouro para as atividades agropecuárias.
Quanto a sua escolaridade, em Sacramento, estudou no Colégio Allan Kardec, do Grupo Espírita Esperança e Caridade, que tinha um trabalho voltado às crianças pobres da cidade, dado à ajuda de pessoas influentes. Carolina estudou pouco mais de dois anos. Toda sua leitura e escrita tem como base este pouco tempo de educação formal. Largou os estudos, mas nunca deixou de ler e escrever.
Mudou-se para São Paulo, em 1947, e foi morar na extinta favela do Canindé, na zona norte da cidade. Trabalhou como catadora de materiais recicláveis. Guardava revistas e cadernos que achava no lixo. Ela reunia em casa mais de 20 cadernos com testemunhos sobre o cotidiano da favela, um dos quais deu origem o seu livro mais famoso.
Mesmo diante todas as mazelas, perdas e discriminações que sofreu ao longo da vida, Carolina revelou através de sua escrita a importância do testemunho, como meio de denúncia da desigualdade social e do preconceito racial.
Sua obra mais conhecida, Quarto de Despejo – Diário de uma favelada, organizada pelo jornalista Audálio Dantas e lançada em 1960. Ao lançar, Carolina foi a grande revelação da literatura brasileira, a obra tornou-se best seller, teve inicialmente uma tiragem de dez mil exemplares, os quais se esgotaram na primeira semana, o livro foi traduzido em 16 idiomas e vendidos em mais de 40 países. Essa obra é uma crônica da vida na favela do Canindé, no início da “modernização” da capital paulista e do surgimento constante das periferias. Realidade cruel e perversa até então pouco conhecida. Essa literatura documentária, pela narrativa feminina, em contestação, tal como foi conhecida e nomeada pelo jornalismo de denúncia dos anos 50-60, é considerada uma obra atual, pois a temática dá conta de problemas existentes até hoje nas grandes cidades. 
Uma mulher briguenta que ameaçava os vizinhos com a promessa de registrar as discórdias em um livro. É assim que Audálio recorda Carolina nos primeiros encontros. “Qualquer coisa ela dizia: Estou escrevendo um livro e vou colocar vocês lá. Isso lhe dava autoridade”, relatou. Ao ser convidado por ela para conhecer os cadernos, o jornalista se deparou com descrições de um cotidiano que ele não conseguiria reportar em sua escrita. “Achei que devia parar com a minha pesquisa, porque tinha quem contasse melhor do que eu. Ela tinha uma força, dava pra perceber na leitura de dez linhas, uma força descritiva, um talento incomum”, declarou.
Quarto de Despejo inspirou diversas expressões artísticas como a letra do samba Quarto de Despejo, de B. Lobo; como o texto em debate no livro “Eu te arrespondo Carolina”, de Herculano Neves; como a adaptação teatral de Edy Lima; como o filme realizado pela televisão alemã, utilizando a própria Carolina de Jesus como protagonista do filme Despertar de um sonho; e, finalmente, a adaptação para a série Caso Verdade, da Rede Globo de Televisão, em 1983.
Carolina sempre foi muito combativa, por isso era malvista pelos políticos de esquerda e direita quando começou a participar de eventos em função do sucesso de seu livro. Por não agradar a elite financeira e política da época com seu discurso, acabou caindo no ostracismo e viveu de forma bem humilde até os momentos finais de sua vida.
Carolina foi mãe de três filhos: João José de Jesus, José Carlos de Jesus e Vera Eunice de Jesus Lima e em 13 de fevereiro de 1977, a autora faleceu em um pequeno sítio, na periferia de São Paulo, quase esquecida pelo público e pela imprensa. Mais recentemente, seus escritos vêm sendo objeto de artigos, dissertações e teses, em função da abertura propiciada pelos novos rumos tomados pelos estudos literários no país e no exterior, que passam a ver com outros olhos a chamada “escrita do eu”. Em paralelo, sua trajetória de mulher negra, marginalizada e oriunda dos estratos mais carentes da população brasileira foi objeto de duas biografias, ambas assinadas por historiadores de peso: a primeira, escrita por Eliana de Moura Castro em parceria com Marília Novais da Mata Machado; e a segunda, assinada por Joel Rufino dos Santos.
Carolina de Jesus recebeu e recebe ainda hoje homenagens por sua notoriedade, dentre as várias, na década de 2000, foi inaugurado no Parque do Ibirapuera, em São Paulo, o Museu Afro-Brasil, cuja biblioteca leva o nome de Carolina Maria de Jesus. A biblioteca possui cerca de 6.800 publicações com especial destaque para uma coleção de obras raras sobre o tema do Tráfico Atlântico e Abolição da Escravatura no Brasil, América Latina, Caribe e Estados Unidos. A presença afro-brasileira e africana nas artes, na história, na vida cotidiana, na religiosidade e nas instituições sociais são temas presentes na biblioteca.
Em 2014, como resultado do Projeto Vida por Escrito – Organização, classificação e preparação do inventário do arquivo de Carolina Maria de Jesus, contemplado com o Prêmio Funarte de Arte Negra, foi lançado o Portal Biobibliográfico de Carolina Maria de Jesus ACESSE AQUI  e, em 2015, foi lançado o livro Vida por Escrito – Guia do Acervo de Carolina Maria de Jesus, organizado por Sergio Barcellos. O projeto mapeou todo o material da escritora que se encontra custodiado por diversas instituições, dentre elas: Biblioteca Nacional, Instituto Moreira Salles, Museu Afro Brasil, Arquivo Público Municipal de Sacramento e Acervo de Escritores Mineiros (UFMG).
ALGUMAS DAS VÁRIAS PUBLICAÇÕES
Obra individual
Quarto de despejo: diário de uma favelada. Organização e apresentação de Audálio Dantas. Rio de Janeiro: Livraria Francisco Alves, 1960. (Memórias).
Casa de alvenaria: diário de uma ex-favelada. São Paulo: Livraria Francisco Alves: Editora Paulo de Azevedo Ltda., 1961. (Memórias).
Pedaços da fome. Prefácio de Eduardo de Oliveira. São Paulo: Áquila, 1963. (Memórias).
Provérbios. São Paulo: [s. n.], 1963.
Publicações Póstumas
Diário de Bitita. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1986. (Memórias).
Meu estranho diário. Organização de José Carlos Sebe Bom Meihy e Robert Levine. São Paulo: Xamã, 1996. (Memórias).
Antologia pessoal. Organização de José Carlos Sebe Bom Meihy. Rio de Janeiro: Editora UFRJ, 1996. (Poesia).
Onde estaes felicidade? Organização de Dinha e Raffaella Fernandez. São Paulo: Me Parió Revolução, 2014. (Conto, memória e estudos críticos).
Meu sonho é escrever… contos inéditos e outros escritos. Organização de Rafaella Fernandez. São Paulo: Ciclo Contínuo, 2018.
Outros
As crianças da favela. Revista do Magistério. São Paulo, n. 24: 8, p. 18-19, dez. 1960.
Onde estais felicidade? In: Jornal Movimento, 21 fev. 1977. (Conto).
Diario de viaje: Argentina, Uruguai, Chile. Apêndice a JESUS, Carolina Maria de. Casa de ladrillos. Buenos Aires: Edito­rial Abraxas, 1963, p. 128-191.
Minha vida. In: MEIHY, José Carlos S. B; LEVINE, Robert M. Cinderela negra: a saga de Carolina Maria de Jesus. Rio de Janeiro: UFRJ, 1994, p. 172-189.
O Sócrates africano. In: MEIHY, José Carlos S. B; LEVINE, Robert M. Cinderela negra: a saga de Carolina Maria de Jesus. Rio de Janeiro: UFRJ, 1994, p.190-196.
Traduções
Child of the dark: the diary of Carolina Maria de Jesus. Tradução de David St. Clair. New York: E. P. Dutton, 1962.
Casa de ladrillos. Buenos Aires: Edito­rial Abraxas, 1963.
Journal de Bitita. Tradução de Régine Valbert. Paris: A. M. Métailié, 1982.
The unedited diaries of Carolina Maria de Jesus. Edição de José Carlos Sebe Bom Meihy; tradução de Nancy P. Naro; Cristine Mehrtens. New York: Barnes & Noble, 1999.
Antologia
Literatura e afrodescendência no Brasil: antologia crítica. Organização de Eduardo de Assis Duarte. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2011. (Vol. 1, Precursores).
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