Cultura significa todo aquele complexo que inclui o conhecimento, a arte, as crenças, a lei, a moral, os costumes e todos os hábitos e aptidões adquiridos pelo ser humano não somente em família, como também por fazer parte de uma sociedade da qual é membros,. ativistas, poetas, escritores, produtores culturais, grupos culturais, violeiros, pensantes e os que admiram e lutam pela cultura potiguar. Cultura! A Cultura, VIVE e Resiste! "Blog do CPC/RN, notícias variadas na BASE DA CULTURA!
A televisão foi implantada no Brasil em 1950, por Assis Chateaubriand Bandeira de Melo, com a TV Tupi (inicialmente com o nome de PRF 3), na cidade de São Paulo. Ele espalhou aparelhos de TV pela cidade para pessoas que nem se quer sabiam o que era uma televisão.
O Brasil foi quarto no mundo a receber a TV, e o primeiro da América Latina, mesmo com as pesquisas iniciais apontando a inviabilidade do projeto.
No nordeste “A TV Jornal do Comércio” de Recife foi a primeira emissora ser implantada, mas isso só ocorreu em 1960. Veja agora 10 curiosidades sobre a chegada da TV no estado:
1. O primeiro receptor de TV da cidade de Natal foi trazido no início do ano de 1961.
Televisão nos anos 50
Ele foi trazido pelo jovem Moacyr Gomes da Costa que retornava a Natal após estudar em São Paulo.
2. Naquele tempo o único aparelho de televisão de que se tem notícia foi provavelmente o da família Miranda Gomes
Televisão nos anos 60
Naquele ano, a única televisão de que se tem notícia foi muito provavelmente o da casa da família Miranda Gomes.
O professor Fred Sinezando, que morava pela região conta que à noite as pessoas se aglomeravam nas calçadas para tentar ver a novidade. Todo mundo estava tão “hipnotizado” com a tecnologia nova que ninguém reclamava de ver apenas um canal cheio de ruído (“chuviscos” na imagem) e um som bem precário).
3. Era uma luta captar algum sinal
Profissionais da primeira emissora de TV do Brasil “TV TUPI”, inicialmente chamada de PRF3
O professor conta ainda que após muitas tentativas insistentes de se captar o sinal vindo de Recife, finalmente uma imagem chuviscada e cheia de sombras foi captada.
A vizinhança estava toda presente para ver a novidade e foi uma alegria geral. O problema é que a recepção era muito instável. Para se conseguir continuar vendo a péssima imagem foi necessário o escritor Carlos ficasse horas no telhado, sem se mexer, segurando a antena.
4. E só dava pra ver 6 horas de programação
Ronald Golias contracenando com Pelé em ‘Família Trapo’; a apresentadora Hebe Camargo ajudando funcionários durante grande incêndio que acometeu a Record em 1966 e o programa ‘Jovem Guarda’, apresentado por Roberto Carlos. Foto: Arquivo / Estadão
Isso mesmo. Nos anos 60 a programação diária da TV vinda de Recife começava por volta de 17h e encerrava 23h.
5. Alguns natalenses ligavam a TV antes mesmo de começar a programação.
Teste Televisivo criado pela RCA em 1939
O professor fala que era um deles, e só viam assim o desenho de um índio, símbolo da TV Jornal do Comércio.
6. Um programa que dava uma boa audiência na cidade na época era o “TV Ringue”
O famoso lutador Ted Boy Marino, conhecido como “rei do telecach” na época
Com o lutador Ted Boy Marino, conhecido como “o lutador galã” e “rei do telecach”. Havia também os programas de auditório “Noite de Black-Tie” e “Você faz o Show” (com Fernando Castelão e Lolita Rodrigues). Lembra? Não né?!
Esses dois últimos programas faziam as famílias se reunirem em frente à TV para assistir as atrações nas noites de sábado e domingo. Sempre havia uma atração nacional no final.
7. Na sequência surgiram uns seriados, que chegavam “atrasados” à cidade
Série The Monkees dos anos 60
Como “Combate”, “The Monkees”, “Big Valley”, “A Feiticeira” e programas como: “Esta Noite se Improvisa”, “Família Trapo” e “Corte Rayol Show”. Não haviam redes de televisão como hoje, e os programas gravados no Rio ou São Paulo só eram exibidos em Recife e Natal uma semana depois.
8. A primeira emissora com produção local só chegou em 1972
Natal-RN nos anos 70
Foram necessários 22 anos após a implantação da primeira emissora, para que o RN tivesse a sua primeira emissora televisão local e regional. Depois só no final dos anos de 1980 foram instalas outras emissoras.
9. A primeira emissora implantada no estado foi a “Televisão Universitária”
Prédio da TVU antigamente. Foto: http://www.tvu.ufrn.br/
Isso em dezembro de 1972. A TVU, como é mais conhecida, é uma TV pública, pertencente a Universidade Federal do Rio Grande do Norte, com a proposta de transmitir conteúdo educativo. Ela é uma das mais antigas emissoras educativas do país, atrás da TV Universitária de Pernambuco, fundada em 1976.
10. Os potiguares só começam a se ver na TV com o surgimento da primeira emissora de televisão comercial
Uma das primeiras marcas da TV Ponta Negra (Natal)
O marco da história da televisão no estado é o surgimento da primeira televisão comercial do Rio Grande do Norte, a TV Ponta Negra, em 1987, que colocou o estado no cenário nacional e os potiguares começam a se ver na tela através dos telejornais.
11. A concessão da TV Ponta Negra foi doada pelo General Figueiredo ao então Senador Carlos Alberto de Sousa por serem grandes amigos e aliados
Carlos Alberto de Sousa, dono da TV Ponta Negra
No documentário “TV Ponta Negra: o início da TV comercial do RN”, o jornalista Paulo Tarcisio relata que por ser de origem humilde,Carlos Alberto de Sousa era hostilizadoe sentia que só seria respeitado e teria voz se tivesse seu próprio veículo de comunicação.
O jornalista relata que em uma conversa do senador com o presidente Figueiredo, contou seu sofrimento, “e o presidente lhe disse“entre em uma concessão que eu lhe dou um canal de televisão”.
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Em seguida, Sousa conversou com Silvio Santos, que cedeu alguns equipamentospara o início das transmissões, e no dia 15 de março de 1987 a afiliada do SBT entrou no ar transmitindo ao vivo a posse do governador Geraldo Melo.
12. Depois da afiliada do SBT na cidade, outros políticos entraram na corrida para ganhar uma concessão de TV no Rio Grande do Norte
Senor Abravanel (Silvio Santos) em 1975
As concessões da TV Cabugi, afiliada da Rede Globo e a TV Tropical, afiliada da Manchete (inicialmente), cujos proprietários eram o ministro Aluisio Alves e o senador José Agripino Maia, respectivamente, foram outorgadas em 1986.
Já a TV Potengi, pertencente ao ex-governador Geraldo Melo, teve sua concessão outorgada em 1988
para transmitir a programação da TV Bandeirantes.
13. No início, as condições eram precárias e fazer televisão era um desafio
Estúdio da TV Gazeta nos anos 70
No documentário “TV Ponta Negra: o início da TV comercial no RN”, Micarla de Sousa, filha de Carlos Alberto de Sousa, relembra as dificuldades do início: “o estúdio media dois por dois, era uma coisa mínima”, além disso, fala também de como foi criado o cenário para o primeiro programa ‘O povo na TV’, apresentado por Paulo Tarcísio.
14. O primeiro telejornal de Natal era chamado de “Jornal da Cidade”
Filmagem na antiga TV Tupi
E a falta de recursos acabava limitando sua produção. O diretor executivo da TV Ponta Negra, Bosco Afonso, relata que “era uma espécie de jornal falado porque não tínhamos recursos para ir para a rua com a equipe”.
Ele conta ainda que o jornal ia ao ar por volta das 18h30, durava trinta minutos e tinha dois apresentadores que narravam as notícias do dia.
15. Mas na TV Cabugi (atual InterTV Cabugi), afilida da Rede Globo, a situação era diferente
Site da TV Cabugi nos anos 90
A jornalista Ana Luiza Câmara, em entrevista para “Os Caminhos da TV no RN: uma análise do conhecimento existente sobre a história da TV potiguar” de Luciana Salviano Marques e Valquiria Kneipp (UFRN, Natal, RN), contou que a emissora possuía 7 equipes de reportagem, compostas por repórter, cinegrafista, motorista e operador de VT.
Ela conta ainda que “tudo seguiu a cartilha da Globo”, com profissionais vindos de Recife, a OPJ (Operação Portátil de Jornalismo) mostrava como deveria ser o funcionamento da TV. “Eles estavam abrindo muitas afiliadas e já tinham uma equipe pronta pra ir treinar”, completa.
Hoje é de celebrar e relembrar a história do eterno patrono da
educação brasileira, Paulo Freire, que nos ensinou que educação se faz e se
aplica com amor, com cuidado e respeito, jamais através da dor, seja ela qual
for. O que a dor nos ensina é a empregá-la contra o que se opõe a conceitos e
padrões determinados para finalidades de enriquecimento material e insaciável
fome de poder. E a dor tem nos provado sem descanso o quanto dói uma educação
sem amor. Pra sempre Paulo Freire.
No dia 25 de maio, na cidade de Minneapolis,
EUA, George Floyd foi detido e asfixiado até a morte pelo policial Derek
Chauvin. Floyd era um homem negro. Ele repetiu várias vezes que não conseguia
respirar, enquanto Chauvin, o policial, um homem branco, apertava o joelho
contra o seu pescoço. As imagens do assassinato foram amplamente disseminadas,
na mesma medida em que os protestos se espalharam por diversas cidades dos
Estados Unidos e, em seguida, em outros países.
·Mayra Marques, Mateus Pereira e Valdei Araujo professores
da Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP), em Mariana, MG *
·Como se sabe, uma das ações que passou a
fazer parte destes protestos foi a derrubada de estátuas que homenageiam
personagens de algum modo envolvidos com a história da escravização moderna ou
do colonialismo, o que logo suscitou um debate entre a defesa do “patrimônio
histórico” e a necessidade de “fazer justiça às memórias” de grupos
historicamente oprimidos. A polêmica se dá entre aqueles que alegam a defesa de
um certo patrimônio histórico e artístico versus os que demandam
por justiça e reparação.
·Nos Estados Unidos, uma das tensões com a
derrubada ou remoção de estátuas de Cristóvão Colombo envolveu parte da
comunidade ítalo-americana, que via e vê na imagem de Colombo um elemento de
reforço de sua identidade estadunidense. Segundo um articulista do The New York
Times, as estátuas “reconhecem a dívida geral que os colonizadores do Novo
Mundo, colonos e imigrantes, têm com o homem que conectou a Europa às Américas,
junto (em muitos casos) com o desejo específico dos imigrantes ítalo-americanos
de reconhecer e reivindicar o explorador italiano”.[1].
Os personagens históricos, assim como os
seres humanos, são multidimensionais, isto é, suas vidas possuem diversos
aspectos contraditórios. Assim, como separar o que está sendo homenageado
daquilo que deveria ser repudiado, se ambos estão presentes em um mesmo
personagem-monumento? Podemos celebrar o Colombo explorador e repudiar o
Colombo conquistador? Podemos nos afastar dessa concepção tradicional e
homogênea das biografias que ainda organiza as expectativas de boa parte
público? Para começar a responder a essas perguntas é preciso analisar em que
medida uma visão celebrativa e acrítica do colonialismo que Colombo representa
ainda é uma ferida aberta, assim como as concepções racistas e eurocêntricas
que fundamentam essa concepção de história.
·
Os que criticam a revisão dos monumentos públicos possuem
origens sociais e políticas distintas; seus enfoques e argumentos são variados.
O mesmo pode ser dito dos que defendem a revisão dos monumentos. Este debate
está longe de ser uma simples polarização. Alguns críticos questionam o gesto
de revisar monumentos por um suposto moralismo anti-histórico que poderia levar
à destruição de qualquer ponto de apoio no passado. Segundo esse argumento, a
nova iconoclastia (destruição de imagens) desconsidera os contextos históricos,
os progressos alcançados na luta por igualdade e relativiza valores morais e
políticos que teriam sido decisivos na construção de projetos nacionais
bem-sucedidos.
·Mais recentemente alguns críticos invocaram
o tema da liberdade de expressão em torno de uma suposta cultura do
cancelamento, da qual a destruição das estátuas seria apenas mais uma dimensão.
Nesse grupo de críticos pode-se encontrar quase todas os matizes da direita
política contemporânea, mas, também, setores da esquerda, como muitos dos que
assinaram a carta publicada na Revista Harpers em 7 de julho
deste ano em um manifesto contra uma alegada cultura do cancelamento que
estaria colocando em risco a liberdade de expressão. As posições, naturalmente,
vão oscilar desde uma recusa total a qualquer esforço de revisão – como
defendido por Donald Trump no caso dos militares confederados que nomeiam bases
militares estadunidenses – até críticos moderados que admitem a legitimidade de
algumas demandas e que questionam apenas os métodos de algumas dessas ações.
Os que defendem a revisão dos monumentos são
muitas vezes enquadrados no rótulo de uma nova esquerda identitária ligada aos
movimentos negros, de mulheres e LGBTQIA+. Não raro esses grupos também
apresentam demandas por novas histórias e novos monumentos. Por outro lado,
setores da direita também não estão alheios ao trabalho de revisão de
personagens e eventos históricos em perspectiva iconoclasta, mesmo que
frequentemente lançando mão de procedimentos negacionistas e de falsificação,
ou seja, da distorção programática de nosso conhecimento sobre a história.
Estes grupos de direita promovem a narrativa de uma guerra cultural para salvar
uma fantasiosa civilização “cristã-ocidental” e os valores da pátria e da
família tradicional, ignorando qualquer esforço de acolhimento crítico daqueles
que pensam e vivem de modo diferente.
·No dia de 13 de maio, que no Brasil se comemora a abolição
da escravatura, a “derrubada simbólica” da figura de Zumbi pela Fundação
Palmares foi acompanhada do reforço de personagens supostamente mais afinados
com a base do bolsonarismo, como a Princesa Isabel e Joaquim Nabuco; mas também
do intelectual negro Luiz Gama, celebrado como patrono da abolição. A operação
reforçava a oposição entre uma narrativa de resistência violenta dos negros e a
via por dentro do sistema através de reformas. De certo modo, Luiz Gama, filho
de pai branco e mãe negra, cuja biografia destaca sua capacidade de prosperar
dentro da ordem, estaria mais adequado à mitologia conservadora promovida pelo
bolsonarismo.
Pelourinho
·Na Praça Minas Gerais, em Mariana, cidade que abriga nosso campus da UFOP, há um dos poucos pelourinhos em espaços públicos
ainda existentes no Brasil. Esses marcos eram usados no período colonial para
identificar o poder local quando da criação de vilas, simbolizava o poder de
administrar a justiça, o que na época poderia envolver a exposição e o açoite
em público. Muito frequentemente as pessoas punidas nesses espaços eram seres
humanos escravizados. O pelourinho de Mariana havia sido derrubado em 1871,
mesmo ano em que entrou em vigor a Lei do Ventre Livre, mas foi reconstruído e
reinstalado em 1981, em novo local, a mando do então prefeito Jadir Macedo.
·Muitos turistas que visitam a Praça Minas
Gerais em Mariana se divertem tirando fotos nas quais simulam estar algemados,
e alguns brincam que estão sendo chicoteados. Não há, no monumento, uma
explicação clara sobre a sua história, apenas uma placa dizendo que o prefeito
havia “restituído” o pelourinho à “memória nacional”. Alguns metros ao lado há
outra sinalização em que se lê: “Símbolo do poder municipal, inicialmente
composto por simples coluna de madeira com argolão ao pé, no qual eram
amarrados criminosos e cativos expostos ao castigo público” e mais alguns
detalhes técnicos. É interessante notar que o “poder municipal” não precisaria
necessariamente continuar a ser simbolizado pelo pelourinho para as gerações
futuras, já que o prédio da Câmara Municipal, erguido também no século XVIII,
se encontra preservado e ativo nessa mesma praça.
·Caso a placa de identificação do pelourinho
contivesse mais informações sobre a violência contra os presos e escravizados,
os turistas continuariam a tirar fotos agrilhoados? Encarar este local como um
lugar onde pessoas foram torturadas no passado não tem nenhuma relação com os
inúmeros casos de violência que presenciamos hoje em dia? Como não lembrar de
vários casos em que pessoas alegando fazer justiça com as próprias mãos amarram
suspeitos de roubo (geralmente pobres e negros) em postes? O pelourinho como
monumento não não seria também um símbolo dessa violência policial e social de nosso
presente? Não seria ele a reafirmação de frases populares como “bandido
bom é bandido morto”, que autorizam a prática do justiçamento contra pessoas
pretas e pobres? O tipo de frase inúmeras vezes repetida pelo presidente
Bolsonaro e que tem nas condições genocidas das prisões e cadeias brasileiras
sua materialização enquanto política pública.
·Esse seria um exemplo da plurissignificação
aderida aos monumentos históricos, pois, nesse caso, a elite local celebra, com
a reinauguração do Pelourinho, uma suposta autonomia que reforçou a imagem da
cidade como a origem administrativa do poder em Minas, enquanto também
representa um passado-presente violento e racista que é invisibilizado ou
ignorado. O reerguimento do pelourinho no final da Ditadura Militar está
relacionado à onda ufanista de valorização do patrimônio colonial, mas também
com as ansiedades que a expansão da mineração trazia. Segundo o mesmo prefeito,
em declaração para o Jornal do Brasil em 1981, a cidade corria o risco de ter
um “futuro vazio”. O pelourinho representava a atualização de uma forma de
poder baseado na hierarquia e na violência racial que, de algum modo,
pacificava a consciência das elites locais em um momento de rápida
transformação. Na época, o turismo histórico baseado em uma concepção
celebrativa do passado colonial também começava a ser alvo de políticas
públicas locais.
·Quase quatro décadas depois de restauração do pelourinho o
futuro de Mariana não foi vazio. De algum modo as elites locais conseguiram
repetir o passado colonial de desigualdades e hierarquias. A município saltou
de 14 para 60 mil habitantes, as periferias cresceram com pouca ou nenhuma
infraestrutura, a mineração nos legou o crime da Samarco e somos hoje o
município com um dos piores indicadores socioeconômicos de Minas Gerais. O
turismo valorizou as áreas centrais da cidade beneficiando os herdeiros do
casario colonial e a especulação imobiliária.
·
Seria uma saída buscar meios de separar a
celebração das elites locais da memória da escravidão? Uma saída difícil, é
fato, já que a violência foi perpetrada por este mesmo poder que a celebra. Ao
mesmo tempo, nas disputas por prestígio e investimentos, a elite política
constantemente recorre à história da cidade como a primeira de Minas, gesto que
atinge seu ponto alto no dia 16 de julho quando, por artigo na Constituição
estadual, a cidade volta ser a capital do Estado. Geralmente a data é
comemorada com a presença do governador, o que reforça seu papel nos mitos
constitutivos da história mineira.
·Para o antropólogo haitiano Michel-Rolph Trouillot, em
Silenciando o Passado, “trivializar a escravidão – e o sofrimento que ela
causou – é algo inerente ao presente, que envolve tanto o racismo como as
representações da escravidão”.[2] É importante
ressaltar mais um aspecto da presença do pelourinho em Mariana: a cidade é
sede, desde os anos de 1980, de um curso de História vinculado à Universidade
Federal de Ouro Preto.
Como professores isso significa que não
estamos ali só de passagem, vivemos a cidade e suas contradições. Como em
muitas outras salas de aulas no Brasil e no mundo, concordamos com as palavras
dos colegas Francisco Carballo, David Martin e Sanjay Seth que recentemente
escreveram sobres os protestos antirracistas em Londres: “Os
manifestantes, muitos deles jovens, porém já amadurecidos, estão fazendo a
ligação entre a história do colonialismo, a história da escravidão e o racismo
estrutural que é o seu legado. Eles estão fazendo isso apesar de sua educação
formal, e não porque esta lhes deu essa oportunidade. A rua é a sala de aula
porque as salas de aula falharam”.[3]
·Seria ingênuo, e mesmo violento, imaginar
que comunidades humanas possam viver sem suas narrativas de orientação e
presença no tempo. Para que sejam eficazes, no entanto, é preciso que
essas narrativas sejam representativas e inclusivas. O que observamos em
situações como a do pelourinho em Mariana é uma perda de representatividade de
narrativas tradicionais convivendo com uma crise mais profunda da forma como
vivemos a nossa história comum. Portanto, não se trata apenas de refundar e
atualizar narrativas históricas, mas de questionar seus efeitos e duvidar das
condições de que isso aconteça em um tempo atualista que nos pressiona a viver
uma história pobre.
·A derrubada de estátuas pode simbolizar um deslocamento ou
uma atualização da relação com o tempo histórico, levando a inevitáveis
redimensionamentos das disputas por orientação e performances. Exemplos
conhecidos são as estátua do Czar Alexandre III, retirada pelos revolucionários
russos em 1917, os bustos de Lenin e Stalin, com o fim da URSS, e, mais
recentemente, a estátua de Saddam Hussein, em Bagdá, em 2003. Em Budapeste,
encontramos um jeito próprio de lidar com o passado: as estátuas retiradas de locais
antes públicos agora se encontram no Memento Park, um museu a céu aberto, bem
longe do centro da cidade.
·O fato é que perpetuar e destruir registros
são gestos siameses e constitutivos de nossa condição humana, que podem
acontecer de modo programático ou espontâneo. No caso atual, a retirada,
ressignificação ou atualização das estátuas simbolizaria não a inauguração de
um novo regime político, mas a tentativa de dar visibilidade àqueles sujeitos
que a história teria invisibilizado ou registrado a partir de hierarquias e
distorções. A luta por equilibrar a economia da memória histórica compõe o rol
das lutas por uma sociedade menos violenta, racista e sexista e mais
igualitária. Essas novas disputas, em torno de personagens muitas vezes
desconhecidos, indica também que a presença do passado é mais complexa do que a
“consciência historiográfica” gostaria de supor. Ou seja, longe de um passado
morto e domesticado por um historiador terapeuta, o que vemos nessas disputas é
uma sociedade plural e muito atenta à forte presença da história, capaz de
identificar e disputar passados-presentes sensíveis e apontar para um
necessário esforço de atualização que abra outros futuros.
·Se considerarmos as cidades ou os países
como grandes museus, nos quais se integram as estátuas, os casarões históricos
e os monumentos que os compõem, assim como as peças expostas, precisamos pensar
sobre as decisões em relação às seleções feitas pela curadoria que, em última
instância, vai decidir sobre a relevância desse ou daquele objeto presente
nestes espaços. Ou seja, estamos diante de figuras fundamentais nessas
escolhas: os/as curadoras, que, no caso das cidades, geralmente são as
autoridades políticas, mas que também podem ser pessoas comuns que reivindicam
a inserção ou a retirada de um monumento.
·Nessa direção, ao analisar o caso americano, Trouillot
afirma que: “O fato de que a escravidão estadunidense tenha acabado
oficialmente, mas continue sob muitas formas mais sofisticadas – em especial,
sob a forma de racismo institucionalizado e de degradação cultural da negritude
–, torna a sua representação particularmente incômoda nos Estados Unidos. A
escravidão, aqui, é um fantasma, isto é, simultaneamente uma figura do passado
e uma presença viva; e o problema da representação histórica é como representar
este fantasma, algo que é, mas não é”.
·Derrubar estátuas não significa que o
passado a elas relativo será apagado, mas que há um desejo de mudança em
direção a um futuro em que aqueles que construíram suas vidas baseadas na
escravização de outras pessoas não se tornem referência. Portanto, a questão
que se coloca é: como lidar com a obsolescência de monumentos? Haveria lugar na
monumentalização pública para objetos obsoletos? Haveria uma força de
atualização, em sentido próprio, que pode ser despertado pelo que nosso
presente considera obsoleto?
·As estátuas não deveriam ser celebradas. Qualquer pessoa
familiarizada com a imperfeição das coisas humanas saberá que por trás de cada
personagem ou evento escondem-se falhas, insuficiências, erros, mentiras e
mesmo crimes. A ambivalência é constitutiva da vida humana e se enquadra mal às
exigências rigorosas da escala moral e ética. Assim, o mais prudente é
entendermos que a monumentalização de personagens e eventos históricos deveria
ser um motivo para comemoração no sentido estrito da palavra, ou seja, um
convite à rememoração coletiva, à reavaliação crítica dos sentidos e
consequências dessas pessoas e eventos para o nosso tempo.
·(*) Mateus Pereira, Mayra Marques e Valdei
Araujo escreveram o Almanaque da Covid-19: 150 dias para não esquecer ou o
encontro do presidente fake e um vírus real. Mateus Pereira e Valdei Araujo são
professores de História na Universidade Federal de Ouro Preto em Mariana.
Também são autores do livro Atualismo 1.0: como a ideia de atualização mudou o
século XXI e organizadores de Do Fake ao Fato: (des)atualizando Bolsonaro, com
Bruna Klem. Mayra Marques é doutoranda em História na mesma instituição.
·[2] TROUILLOT,
Michel-Rolph. Silenciando o Passado: Poder e
a Produção da História. Curitiba: Huya, 2016.
·[3] CARBALLO,
Francisco; MARTIN, David; SETH, Sanjay. A sala de aula e a rua. HH Magazine, 08
de julho de 2020. Ensaios. Disponível em
<https://hhmagazine.com.br/a-sala-de-aula-e-a-rua/> Acesso em 01 set.
2020.
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Este
texto não reflete, necessariamente, a opinião do Jornalistas Livres