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quinta-feira, 20 de julho de 2017

A dramaturga negra que representa a periferia

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MARIA SHU
Foi em um trem para a estação da Luz que encontrei, pela primeira vez, Maria Shu. O ano era de 2010, ela entrou na estação do Jaraguá, bairro na região noroeste onde ainda hoje reside e, em meio à multidão do horário de rushmatutino, o acaso do cotidiano naturalmente nos apresentou.

Por Jéssica Moreira

Eu conversava sobre teatro com uma amiga, quando aquela moça de sorriso doce e olhar e voz firmes se aproximou com seus livros nas mãos. Naquela época, ela estava no primeiro semestre do curso de dramaturgia da SP Escola de Teatro e, mesmo sem saber, reacendeu em mim a esperança de um dia também ser dramaturga, já que eu não havia passado no processo seletivo.

Hoje, após sete anos desse encontro, tenho o prazer de divulgar que, daqui a alguns dias, a obra “Epifania”, escrita por Shu em 2016, irá também criar voo e pousar no país africano de Cabo Verde, no 3º Festival Nacional de Teatro do Mindelo, que acontece de 23 a 29 de julho.

O texto, inspirado no romance “A Hora da Estrela”, faz um diálogo entre a personagem principal, Macabéa, e a autora Clarice Lispector, trazendo como pano de fundo diversas questões do universo feminino. A dramaturgia irá ganhar vida na interpretação da atriz Lilian Prado, do Grupo de Teatro Onironautas.

Essa, porém, não é a primeira vez que um texto de Shu, hoje com 40 anos, é encenado fora do país. Com este, a dramaturga já soma quatro trabalhos. Giz (2011/2013) foi o primeiro, que ganhou leitura dramática de Lavinía Pannuzio e, mais tarde, foi dirigida por Marcelo Valle. “Giz me possibilitou perceber que eu havia encontrado a minha singularidade, meu estilo dramatúrgico de escrever: uma verve poética, metafórica, híbrida de linguagens e referências”.

A partir de um processo colaborativo com a Cia Os Satyros, Shu colocou na rua Cabaret Stravaganza (2011), espetáculo que ficou quase dois anos em cartaz em São Paulo e, depois, foi levado para a Suécia. Ainda em 2017, a peça Epifania ficará em cartaz no Viga Espaço Cênico e, em setembro, a peça Ar rarefeito (2013) – 1º lugar no Prêmio Heleny Guariba de dramaturgia em 2014 – irá ganhar uma leitura dramática em Portugal.

“A minha filha Heloísa é minha maior inspiração”

A dramaturga conta que a filha, Heloísa, de dez anos, é sua maior inspiração. “Quero ser uma mulher forte para ela. Ela sonha como eu, com uma carreira artística. Ela desenha todos os dias, desde que eu lhe apresentei ao giz de cera, antes dos dois de idade. Quero que a minha filha saiba que ela pode ser o que quiser e que resistiremos e existiremos por meio da nossa arte: a minha, cênica; a dela, provavelmente, a plástica”.

Dentre as referências literárias, Shu destaca a admiração que possui pelo trabalho da mineira Grace Passô, uma mulher negra, que vem ganhando destaque com as letras. ” Por eu me identificar com o tipo de dramaturgia que ela cria, que espanca;por ela ser uma artista negra da palavra, premiada e com grande reconhecimento, por Grace se permitir permear dentro de projetos artísticos coletivos”. Além dela, alguns autores nacionais e também internacionais atravessaram a trajetória literária de Shu, como Silvia Gomez, Luciano Mazza, Newton Moreno e entre os estrangeiros Sarah Kane, Koltès, Visniec edetsaca-se Grace Passô.

A dramaturgia como cura

A chegada até aqui, porém, não foi um percurso simples. Foi aos 30 anos que a então professora de Português decidiu deixar a sala de aula para se arriscar nos palcos. Matriculou-se em um escola de artes cênicas, mas no decorrer das aulas não conseguia se enxergar atuando. “Eu não me enxergava talentosa, não me encaixava mais como professora. Entrei em depressão”. Foi quando o companheiro de Shu viu uma chamada na tevê sobre a inauguração da SP Escola de Teatro e a incentivou a se inscrever no processo seletivo.

“Agarrei a dramaturgia como uma tábua de salvação. Eu escrevia contos, crônicas, haicais, mas a dramaturgia foi a soma das minhas paixões. É minha maneira de estar no palco, de me sacudir, de me questionar o tempo todo junto com o espectador. É como se eu atravessasse de novo aquela avenida perigosa , saísse ilesa e, de quebra, renovasse completamente meu olhar cada vez que uma peça minha entra em cartaz, recebe uma leitura dramática.

“Eu gostava de brincar com palavras”

Chegar até aqui e ver seu trabalho ganhando o mundo faz Shu remontar aos sonhos que nutre desde a infância vivida nas proximidades da Rodovia Anhanguera, local onde foi acolhida por sua família adotiva, ainda bebê recém-chegada da Bahia. Das coisas que mais gostava naquele tempo, brincar com as palavras era uma de suas preferidas.

O movimento local, no entanto, impedia que a meninada saísse pelas ruas. “Lembro-me de uma vez em que eu e um dos afilhados da minha mãe atravessamos a rua. Ganhamos do outro lado da calçada, onde só havia uma faixa de grama antes da rodovia, mas chegar a outra margem ampliou nossa perspectiva; era como se olhássemos o mundo por outro viés e fôssemos os donos dos nossos horizontes, porque a partir daquele momento, nosso olhar não era mais dirigido por nenhum adulto. Decidimos voltar. Assim que Jean pôs o pé na rua foi atropelado. Inacreditavelmente, ele só quebrou um braço. Eu recuei a tempo e me salvei. Tínhamos uns seis anos”. Na maioria das vezes, a fantasia se dava dentro dos limites do pequeno quintal, onde as crianças da vizinhança se encontravam para inventar de tudo um pouco. Um dia, os adultos tiveram uma briga tão feia, que a casa cheia de felicidade de repente se esvaziou, fazendo a menina se refugiar no universo das palavras.

“Foi quando eu me entreguei à leitura e à escrita de diários, poemas, passei a frequentar assiduamente a biblioteca da escola, que promovia encontros com escritores. Lembro-me perfeitamente do Marcos Rey e do Pedro Bandeira cercado pelo olhar curioso das crianças num piso de assoalho lustroso, se desdobrando para responder perguntas ingênuas e elaboradas. Foi aí, mais ou menos com oito anos de idade que comecei a sonhar com uma carreira literária”.

Na escola, não havia dúvida, sua disciplina favorita era Português, prelúdio da primeira formação, que alguns anos mais tarde seria em Letras. Durante as aulas, era a professora Roseli, que a acompanhou do 5º ao 8º ano, que dava o incentivo para a então futura escritora ler para toda a turma as longas redações que costumava escrever. Foi em uma dessas leituras que a menina viu, pela primeira vez, um estilo diferente no livro didático.

Era uma conversa entre uma avó e sua neta, que Shu rapidamente decorou e, na aula seguinte, se caracterizou a partir do que imaginava ser a personagem idosa. Nesse dia, encenou o texto com a ajuda de uma colega. “Sempre que possível, eu encenava um texto do livro didático em sala de aula. Assim, sem saber, nasceu minha paixão pelo teatro. Em datas comemorativas na escola, eu apresentava peças que eu escrevia, dirigia, criava o cenário: devo ter sido a primeira menina negra a interpretar o herói grego Hércules“.

Mesmo apaixonada pelo teatro, foi na Pedagogia que Shu buscou curar algumas das feridas que ressoavam ainda do período escolar. Uma das poucas negras em uma escola de brancos na região oeste, Shu saiu do ensino fundamental e foi direto para uma escola de ensino médio técnica (na época, chamada de magistério), para fugir do racismo e do bullying que sofria por conta do tamanho de suas mamas.

“Beirava o insuportável e eu imaginei que eu só teria um pouco de paz se fosse pra uma escola majoritariamente de meninas: a saída foi o magistério e me apaixonei pelo ofício. Concluí os quatro anos e migrei para o curso de Letras, para amalgamar o magistério e minha paixão pelas palavras”.

Agora, já faz mais de sete anos que Shu tem na dramaturgia sua profissão. Seus últimos textos, ainda inéditos, tratam essencialmente da questão racial, já que a escritora sentiu a necessidade de entender suas subjetividades e o contexto de preconceitos que viveu e ainda enxerga também no meio artístico. “Tem artista branco lidando com o racismo como uma simples questão comercial”.


Fonte: Geledés

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