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terça-feira, 20 de fevereiro de 2018

Como a literatura vê a intervenção. Por Marcius Cortez

POR MARCIUS CORTEZ, publicitário e escritor.
Nem sei se sou herdeira da escritora Carolina de Jesus, mas me sinto como se vivesse num quarto de despejo. Não mando mais,

nem eu nem minha família, no único lugar onde posso morar, nesse barraco tosco perto do céu com vista para o mar e para o Rio sob a mira da morte.

É visível, qualquer um vê que o verde da bandeira do Brasil

sumiu dos uniformes dos soldados. Agora eles estão vestidos com o tecido tom sangue e roxo cadavérico.

Não durmo mais. Quando amanhece, ponho a cara na janela despedaçada por um tiro de arma pesada e respiro o pesadelo.

Está faltando luz, na Rocinha falta energia várias vezes ao dia.

Uso velas. Virou rotina como os tiroteios e os gritos dos prisioneiros.
Somos todos prisioneiros.

Penso que nunca mais foi rever o êxtase. Ontem tive uma visão muito estranha. Vi micos suspensos no ar como se levitassem no interior de uma ruína buscando desesperadamente a saída de emergência.

Aqui na Rocinha tem outras pessoas que gostam de escrever.

Dizemos que fazemos o relato da destruição. Antes eu imaginava que podia pegar nas estrelas com a mão, hoje nem mais conversar com elas é possível.

Foi me tirado todo o sentido que tinha para a vida. Amor, ora não me façam rir. Só me permitem vagar entre as sombras.

A fonte secou, tudo secou. Ninguém vai me impedir de afundar. E assim será daqui por diante.

Todos que escrevem comigo ecoam nas suas palavras que aliteratura da intervenção é o relato da terra saqueada. O Rio, o Rio virou um pântano de lama.

Nunca mais esquecerei a cena. Eles atiraram para matar. Nunca mais esquecerei os mortos enterrando os mortos.

Não consigo mais escrever. Eu vi o inferno. O povo engolindo fogo e sendo obrigado a permanecer em silêncio.

Fonte: DIÁRIO DO CENTRO DO MUNDO - DCM

 

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