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quarta-feira, 4 de julho de 2018

Internacional - América Central - Por que latino-americanos insistem em migrar para os EUA?

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Foto: Reuters/Latinstock
A realidade da violência deixa poucas escolhas além da emigração

por Anna-Catherine Brigida e Heather Gies, em San Salvador (El Salvador) 
Em El Salvador os jovens são especialmente vulneráveis às ameaças crime organizado e violência é a força motora da para a saída do país
Diante do centro de atendimento a migrantes em San Salvador, os olhos de Berenice Cruz, 19 anos, movem-se nervosamente antes que ela sussurre que fugiu de El Salvador “por causa do crime”. Quase toda a sua família no leste do país pertence a um bando criminoso, diz Cruz, mas ela não quer se envolver. O bando ameaçou matá-la, por isso ela tentou fazer a perigosa viagem até Reno, em Nevada (EUA), onde mora uma tia e ela teria proteção garantida. Não conseguiu.
“Se eu voltar para onde moro, eles vão me matar”, diz ela, pouco depois de retornar ao seu país natal, vinda de um centro de detenção em McAllen, no Texas, onde esteve detida depois de cruzar a fronteira. Cruz é um dos 11.748 salvadorenhos deportados dos Estados Unidos e do México desde o início deste ano. 
Os migrantes sofreram ataques incansáveis desde que Donald Trump começou sua campanha para presidente. A política das autoridades americanas de separar as crianças dos pais em nome de uma estratégia de imigração de “tolerância zero” provocou indignação na semana passada, de Washington a San Salvador.
Trump acabou forçado a recuar em um decreto que, segundo os críticos, ainda não vai longe o suficiente. Mas sua política continua a ignorar as difíceis realidades de milhares de migrantes que fogem da violência e da miséria no chamado Triângulo Norte – El Salvador, Guatemala e Honduras, países centro-americanos assolados pela corrupção, pelo crime organizado e a impunidade.
“Eles declaram (El Salvador) o país mais violento do mundo, mas depois dizem que não nos darão refúgio, asilo ou qualquer tipo de proteção por motivos de violência”, disse Aquiles Magaña, secretário do Conselho Nacional para Proteção e Desenvolvimento de Pessoas Migrantes, conhecido como Conmigrantes, criticando a “mudança drástica” de Trump nas políticas de asilo como hostil, racista e contraditória. 
O índice de assassinatos em El Salvador caiu no ano passado em comparação com 2015 e 2016, mas continuava alto, com mais de dez homicídios por dia, em média, em 2017. O país de 6 milhões de habitantes é um dos mais letais do mundo fora das zonas de guerra. As guerras por território entre bandos rivais conduzem à violência e perpetuam a desigualdade e a insegurança.
Esses bandos nasceram em Los Angeles e foram transportados para as ruas de El Salvador com as deportações maciças em meados dos anos 1990 de migrantes que fugiram da guerra civil no país, que durou 12 anos. Não é de surpreender que 9 em cada 10 famílias que têm crianças em El Salvador esperem migrar no futuro.
Iris Martínez, 40 anos, deixou El Salvador há duas semanas, com a intenção de escapar da intimidação dos bandos porque presenciou um assassinato dois anos atrás. “Eu sempre recebi ameaças”, diz ela depois de sair de um ônibus com 35 deportados detidos no México. Martínez pretende fazer a rota novamente, desta vez com documentos para solicitar asilo, e reunir-se a um de seus três filhos que já estão nos Estados Unidos.
Casos como o de Iris Martínez enfrentam ainda maior incerteza depois que o secretário da Justiça dos EUA, Jeff Sessions, ordenou, no início deste mês, que os juízes de imigração do país neguem asilo na maioria dos casos de violência doméstica e de gangues.
Em uma sexta-feira recente, 93 migrantes chegaram em El Salvador vindos dos EUA. Alguns tinham vivido lá por anos ou décadas. Outros foram apanhados imediatamente ao cruzar a fronteira. Em seu país, os deportados são recebidos com um sorriso dos funcionários públicos, um suco de laranja e um sanduíche, antes de ser entrevistados por autoridades e seguirem com todos os seus pertences em uma pequena sacola vermelha.
Mas a volta ao lar não é tão fácil. Há quase consenso entre os deportados no centro de que as políticas de Trump não impedirão que os migrantes sigam para o norte. “Processar quem pede asilo por cruzar a fronteira, deter famílias que buscam proteção e limitar os critérios para conceder asilo são atos cruéis e desumanos, e ignoram as condições que estão levando muitas mulheres, crianças e famílias centro-americanas a fugir de suas comunidades em busca de segurança”, disse Adriana Beltrán, do Escritório de Washington para a América Latina. 
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Segundo estatísticas do governo de 2016, quase 75% dos adultos deportados citaram fatores econômicos como motivo para deixar seu país, onde mais de um terço da população vive na pobreza. As razões para as crianças deportadas se dividiam quase igualmente entre motivos econômicos, insegurança e reunificação da família
Tessie Borden, porta-voz de uma organização sediada em Los Angeles, a Clero e Laicos Unidos pela Justiça Econômica, contestou as rígidas distinções que colocam os motivos econômicos para migração como menos válidos que as preocupações de segurança. “Esses fatores estão todos conectados”, disse ela. “O tipo de vida que essas pessoas levam não lhes deixa muitas opções, para começar.”
Josué, 18 anos, outro devolvido a El Salvador, foi para os EUA com sua mãe quando tinha 7 anos, em busca de “um futuro melhor”. Ele diz que pretende tentar a travessia da fronteira novamente assim que possível, esperando fazê-lo em tempo para o nascimento de seu segundo filho, em julho. Ele se diz mais preocupado por estar em El Salvador do que com as políticas de Donald Trump. “Este não é um lugar seguro”, afirma, mudando do espanhol para o inglês. “Ser jovem aqui é um crime.”
Os jovens são especialmente vulneráveis às ameaças e à violência dos bandos criminosos, que são as forças motoras de seu deslocamento em El Salvador, segundo um relatório da organização de direitos humanos Cristosal. “Muitas vítimas da violência não encontram proteção das autoridades”, disse Beltrán. “Na verdade, muitas temem a polícia tanto quanto os bandidos.”
Outro jovem, Enrique Valle, 29 anos, voltou de Los Angeles para El Salvador recentemente. Ele diz que seu país é lindo, mas “há lugares aonde não se pode ir, principalmente se for jovem”. O pai de Valle foi assassinado por bandidos há seis anos, quando não pagou a extorsão cobrada por sua padaria. A extorsão é generalizada em El Salvador, afetando nove em cada dez pequenas empresas, segundo o Conselho Nacional de Pequenas Empresas de El Salvador.
Enfrentando ameaças de gangues, Valle fugiu. Ele diz que em El Salvador não tem futuro – nem seu filho de 2 anos que deixou em Los Angeles. Passar mais que alguns dias com seu único irmão no bairro dominado por bandidos é perigoso demais, por isso Valle rumará para o norte em breve. “Não sei se vou conseguir cruzar novamente”, disse. “Mas vou tentar por meu filho e por minha mãe. Não dá para viver aqui do jeito que está.”
Fonte: CARTA CAPITAL

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