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segunda-feira, 25 de novembro de 2019

Por todas as vidas negras: justiça, liberdade e luta

Nota da diretoria de Combate ao Racismo da UNE sobre o dia da Consciência Negra. Leia na íntegra: 

por Cristiane Tada.
Temos percebido um avanço acelerado de um projeto sistêmico de opressão e de aprisionamento com a crise internacional do capitalismo. O neoliberalismo tem levantado representantes em todo o mundo que tem colocado nas suas agendas as mais absurdas pautas morais, que, escancaradamente, mostram a face do racismo, do machismo, da opressão de classe, da xenofobia e da lgbtfobia. A América Latina vem sofrendo a implementação desse projeto de uma forma que é impossível não sentir, a cada notícia que vemos, as dores que nossas irmãs e irmãos tem sofrido.
No Brasil, a presença de jovens negras e negros desde sempre incomodou as hegemonias brancas dos espaços. O único lugar que nossa presença não é questionada é nos presídios, nas ruas, no desemprego, na falta de moradia e direitos. Mas esse lugar de subalternidade nos foi imposto. Essa realidade não é aquilo que queremos. Nosso povo resiste e aprendeu a desenvolver estratégias de sobrevivência que ninguém nunca conseguiu pensar.
Quem vai pagar a conta?
Quem vai contar os corpos?
Quem vai catar os cacos dos corações?
Quem vai apagar as recordações?
Quem vai secar cada gota
De suor e sangue
cada gota de suor e sangue

Esse é um trecho da música “Cabô”, da Luedji Luna. Forte e real. A cada dia que passamos nesse país, nossas irmãs e irmãos negros passam pelo desprazer da incerteza de um futuro. Saímos de casa para a escola? Tiro. Voltamos da escola? Tiro. Enfrentamos o racismo institucional na câmara de vereadores? Tiro. É como se a cultura do medo fosse intrínseca aos nossos corpos e famílias. Como se não bastasse tirar as nossas vidas, querem apagar nossas memórias e nossas histórias. Não respeitam aquelas e aqueles que vieram antes de nós e lutaram pelo fim do racismo com suas vidas. Esse ano a morte de alguns dos nossos ganhou repercussão internacional. Nos dói, todos os dias, cada um que tomba vítima da necropolítica que o governo Bolsonaro tem adotado nesses onze meses.
Infelizmente, nós negros estamos em maioria nos dados estatísticos, mas fora das salas de aulas. A discussão sobre o último resultado do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o qual aponta que pretos e pardos pela primeira vez na história, são maioria nas universidades públicas, nos preocupa.
Uma curva na história colocou em um curto período uma outra perspectiva para o nosso povo: o período dos governos progressistas de Lula e Dilma. As marcas do combate a fome, a valorização do salário mínimo, a criação de emprego e a Lei de cotas, aliada a expansão universitária, mudou a nossa realidade. Não foi suficiente para equiparar a discrepância entre o negro e o branco, mas conseguimos avanços.
Por isso precisamos analisar as variáveis ocultas na pesquisa do órgão brasileiro. Junto a Lei de cotas que garantiu o acesso para milhares de jovens negros que jamais ocuparam a universidade, temos as dificuldades de permanência e o maior percentual de evasão. Além das já conhecidas fraudes. São inúmeros os casos que tomaram as páginas dos jornais e condenações judiciais. Na UFRGS, na UFRJ, UFRN e outras tantas universidades que coletivos auto organizados negros começaram a denunciar e exigir a efetividade da apuração e na averiguação das pessoas autodeclaradas pretas, pardas ou indígenas. que constatou a importância das comissões de aferição de cotas, assim, barrando quem não tem a sensibilidade de entender os processos históricos de violência que nosso povo viveu e que por isso precisa dessa ferramenta de reparação histórica que são as cotas.
Para além das fraudes, a perseguição às políticas de reparação e acesso da população negra às universidades e ao ensino pública sofreu, desde o início do ano, oficialmente, três ataques diretos. Os deputados Dayane Pimentel, do PSL, Carlos Bezerra, do MDB e Dr. Jaziel, do PL, implementaram projetos de lei que visavam o fim das cotas como forma de acesso ao ensino superior. Repudiamos totalmente esses ataques que representa o projeto conservador e racista da bancada parlamentar que não cansa de fazer um desserviço a população.
Nós cobramos a responsabilidade das mortes que o projeto político do atual presidente liberal e covarde exterminou a todos que o elegeram. Nos solidarizamos também com o que nossos irmãos e irmãs da América Latina vem passando, uma onda racista e misógina aos povos indígenas e quilombolas que experimentaram viver a experiência de estar no poder pela primeira vez depois da violenta colonização branca em nosso continente. Temos a tarefa central de defender nossa história de luta e resistência. Nosso povo desde sempre soube como resistir, é nossa arte. Que aprendamos com aquelas e aquele que viveram aqui muito antes de nós e que entenderam que desistir não é o caminho. Incomodar, permanecer, estar. É pela coletividade que construiremos um muro alto e forte, capaz de organizar a luta contra o racismo e pelo enfrentamento às políticas de morte que nos é empurrada. Não aceitaremos nunca mais que nossos corpos sejam pintados de vermelho. Se um dia nos viram como população que está às margens das estruturas, agora, estaremos no topo. Lutando todos os dias pela liberdade dos corpos negros que são presos políticos. Não aceitaremos nada menos que isso.

Assim, temos o desafio de fortalecer a democracia que tanto lutamos para conquistar. Precisamos caminhar para uma grande organização do povo negro, para uma retomada de poder, onde os nossos vão estar ocupando o lugar que nos foi negado historicamente, porque precisamos de políticas públicas próprias que dê conta das necessidades e demandas específicas da nossa realidade.

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