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sábado, 21 de janeiro de 2017

O escândalo da democracia!


Texto da professora e pesquisadora da UFRJ, Ivana Bentes. Publicado originalmente no site da Revista Cult, em dezembro de 2016
“Eu, Cláudio Melo Filho, delator”. Esse poderia ser o título de um  novo gênero literário no Brasil que vai desafiar o cânone. A delação premiada. Uma literatura  político-administrativa de alta voltagem, pedagógica e perturbadora escrita na primeira pessoa do singular pelos executivos das grandes corporações brasileiras, detalhando, com espantosa verossimilhança, tudo o que parecia uma ficção política delirante, uma cena sem crime, um surto persecutório coletivo.
E entretanto: “É Tudo Verdade!” Poderia ser o título geral desse tomo inicial. Mas a pergunta que me parece ainda mais escandalosa do que qualquer afirmação ou prova trazida nas delações é: “Quanta verdade um país é capaz de suportar?”
A delação de Cláudio Melo Filho é apenas a primeira de um total de 77 acordos de delação firmados pela Operação Lava Jato com funcionários e dirigentes da Odebrecht. Outras empreiteiras e empresas ainda virão!
Como em um romance proustiano em busca de um lastro perdido, a operação Lava Jato produz uma sangria desatada e sem controle e finalmente se volta (mesmo que tardiamente) para aqueles que manipularam o próprio golpe parlamentar e impeachment ilegítimo contra a Presidente da República do Brasil.
Afinal, a ex-presidenta Dilma Roussef foi deposta por meios “legais” e ilegítimos simultaneamente. E o grupo do PMDB que a destituiu se torna agora o centro dos escândalos de corrupção. E a tormenta ainda não desabou!
 A crise mais radical apenas se avizinha. A máquina do mundo corporativo se escancara em praça pública e mostra seus dentes: a mais íntima e simbiótica relação entre o empresariado brasileiro e o sistema político.
A rede
E o que vislumbramos nessa primeira delação? Primeiramente “a rede”. Como todos sabiam, mas agora se torna palpável, a corrupção é um sistema organizado. E extremamente eficaz dentro das empresas com suas planilhas impecáveis, codinomes, valores e executivos destacados especialmente para um serviço especializado: tratar das “relações institucionais” entre as empresas e quem faz e executa as leis, quem governa o país e faz a partilha do bem comum.
Na lapidar e irretocável definição do delator, “o propósito da empresa, assim, era manter uma relação frequente de concessões financeiras e pedidos de apoio com esses políticos, em típica situação de privatização indevida de agentes políticos em favor de interesses empresariais nem sempre republicanos”.
Está também é a história de MT, Decrépito, Angorá, Boca Mole, Caju, Velhinho, Gripado, Ferrari, Carangueijo, Todo Feio, Santo, Missa, Misericórdia, Mineirinho e de uma infinidade de outros parlamentares, prepostos, mandatários, gerentes, operadores identificados por codinomes hilários.
Uma comicidade trágica, já que  respondem também pelos cargos de Presidente da República Federativa do Brasil, Presidente do Senado, Presidente da Câmara dos Deputados, Senadores, parlamentares de todos os partidos políticos, presidentes, diretores de empresas, empresários, executivos, bancários, banqueiros, ordenadores de despesas. Toda uma malha sem bordas!
Um mesmo negócio
Uma só rede com inumeráveis ramificações,  intrincada, complexa, maleável que explicita quem são os agentes e atores que mandam no Brasil. E como a “elite do dinheiro” e as corporações (sejam empreiteiras, bancos, corporações de mídia, corporações de educação, empresários, os donos do dinheiro, tratam os parlamentares e outros agentes – mídia, judiciário, etc.) como seus mero operadores, numa  “parceria” público/privado gestada para predar o bem comum.
Meu lobby será tua herança!
Uma das primeiras informações que o executivo da Odebrecht, Cláudio Melo Filho, dá sobre sua trajetória já diz muito do sistema de “cumpadrio”, do capitalismo tupiniquim e global, com “herdeiros” de cargos, de privilégios, herdeiros de uma rede de relações pessoais. Além de dinheiro as famílias da elite do dinheiro deixam uma “network” que vale milhões:
“Passei a ocupar o cargo de diretor de relações institucionais da Odebrecht S.A, em razão da ocorrência de um sério problema de saúde que impediu que o meu pai, Claudio Melo, pudesse continuar trabalhando na sua função.”
Ao longo do depoimento, Cláudio Melo Filho vai demonstrando como estava a altura da herança deixada pelo pai no cargo de lobista em Brasilia, fazendo florescer os negócios do que nomeia ao longo do texto de “minha empresa”, numa relação de dedicação à Odebrecht que mistura sem pudor ócio e negócios, afetos familiares e predação empresarial, o público como mera extensão de interesses corporativos e privados.
O negócio da corrupção e dos corruptores é uma transação afetiva, comunicacional, profundamente enraizada no modelo patriarcal açambarcador do bem comum. As benesses da máfia, família, clã, são estendidas aos que se assujeitam às regras de “fidelidade” e são presenteados, para além das contribuições financeiras, negociadas oficialmente e no caixa 2 das campanhas políticas, com relógios, mimos, deferências, salamaleques.
A corrupção produz laços sólidos. E Cláudio Melo Filho faz questão de destacar como os limites se borram entre os agentes da empresa e do estado nas relações com Geddel, Moreira Franco, Eduardo Cunha. Amizades, parentescos, afinidades, que evidentemente tinham um preço e eram monetizadas e transformadas em vantagens para os dois lados:
“Apesar dos pagamentos frequentes, sempre me disse [Geddel] que poderíamos ser mais generosos com ele. Geddel sempre me dizia que se considerava um ‘amigo da empresa’ e que isso precisava ser mais bem refletido financeiramente.”
O ex-diretor da Odebrecht também fala sobre a proximidade com Moreira Franco, conhecido pelo codinome Angorá: “Eu conheço Wellington Moreira Franco há muitos anos, pois possuo parentesco distante com ele”.
Em outro trecho, conta como a cúpula do PMDB atua para aprovar uma Emenda Parlamentar de interesse da Odebrecht, com um Eduardo Cunha fazendo visitas íntimas na madrugada para conspirações:
“Vencemos na comissão. Pancadaria geral!!! Perdi uma emenda que atendia a Agro, uma empresa da Odebrecht. Segue agora à tarde para o plenário, devendo ser votada amanhã. Seguindo para o Senado. Ontem, o Carang (Caranguejo, o codinome de Cunha) chegou em minha casa à 00:45…pode imaginar isso!!!?? Dona Cláudia quase me mata!!!  Vamos em frente!!!” 
 Caça talentos
 Outra questão que surpreende é o trabalho prospectivo dos lobistas das corporações caçando “talentos” promissores entre os parlamentares:
“Valendo-me da situação, percebi que deveria selecionar determinados agentes com relevância política e que teriam melhores condições de gerar resultados positivos para a minha empresa.”
Pouco importa o partido. Pouco importa o viés ideológico, na bolsa de apostas todos os parlamentares são virtuais cooptadores/cooptados.
“Adicionalmente, busquei identificar e apoiar políticos promissores, que, além de defender projetos de interesses convergentes, demonstram capacidade de exercer liderança no Congresso e nos respectivos partidos, passando, portanto, a figurar na lista de políticos estratégicos.”
A Corrupção será planilhada
Nas lições primorosas de gerenciamento dos “recursos humanos” recrutados, os parlamentares passam pelo crivo de “qualidade” de Cláudio Melo Filho, e das corporações que montam um sistema exaustivo de monitoramento das agendas do legislativo, judiciários, executivo. Atuam em Brasília de forma sistemática e organizada:
“Para desenvolver a nova função que havia assumido, procurei montar uma boa equipe e por em prática desenvolvimento de uma agenda de acompanhamento legislativo qualificado.”
A disputa é feita de forma sistemática, hierarquizada, com tráfico de influência, distribuição de dinheiro e compra de resultados favoráveis as corporações.
A sociedade desorganizada tem obviamente menos chances de disputar as pautas do Congresso com os lobistas profissionais. Quantas pautas, Projetos de Leis, Emendas Parlamentares, Mediadas Provisórias, Audiências Públicas, Notas Técnicas etc. a sociedade civil consegue monitorar e ter incidência?
Para isso é preciso tempo, recursos, rede de relações.  Muitos movimentos sociais, Ongs, ativistas já entenderam o poder da atuação e da pressão diretamente no Congresso, disputando Brasília. Mas trata-se de um a disputa assimétrica e desigual. Daí o poder das ruas e insurgências ou a utilização estratégica das novas formas de pressão midiativistas, por meio das redes sociais, abaixo assinados, envio massivo de e-mails, escrachos, numa tentativa de fazer frente ao lobby organizado das corporações. Mas se trata de uma disputa desigual!
Quanto custa manter lobistas em Brasília? Quanto custa manter, bancar e incidir na bancada das empreiteiras, do agronegócio, das telecomunicações, dos rentistas, da educação privada, combater as distorções e financeirização da saúde,  os interesses das empresas de assistência médica,  da indústria farmacêutica, os interesses dos ruralistas, da mídia corporativa, a extensa gama de corporações que exploram e lucram com a financeirização da vida?
Como poderemos olhar para o voto de cada parlamentar que vai decidir sobre a PEC55, a PEC que congelará por 20 anos os investimentos sociais, ou a Reforma da Previdência que condena os brasileiros a trabalhar por 50 anos, sem vislumbrar todos os lobbys em torno dessa gestão da vida e da morte? Como mapear e identificar esses poderes que cresceram na sombra?
Quando o  ex-executivo da Odebrecht,  Cláudio Melo Filho, descreve sua relação de íntima e proveitosa convivência com o Senador pmdebista Romero Jucá,  deixa escancarado os termos do negócio.:
 “ A forma como tratei os temas que relato a seguir era fundamentada em uma certeza: todo apoio desenvolvido pelo Senador [Romero Jucá], teria, nos momentos de campanha, uma conta a ser paga. As insinuações não deixavam dúvidas de que no momento certo eu seria demandado pelo parlamentar.”
De forma didática o informante destrói a linha fictícia,  para os objetivos da corporação, entre pagamentos feitos oficialmente ou por caixa 2. Tudo é compra de benefícios para a empresa:
“De forma clara e objetiva: eu e o Senador tínhamos a convicção de que os apoios aos pleitos da empresa seriam posteriormente equacionados no valor estabelecido para contribuição a pretexto de campanha eleitoral, fosse ela realizada de forma oficial ou via caixa 2.”
E mostra que cada decisão parlamentar tem um preço: “Essas contribuições eleitorais eram medidas, definidas e decididas de acordo com a relevância dos assuntos de nosso interesse que tinham sido defendidos pelo parlamentar.”
Tudo está consumado, poderíamos concluir! Como fazer a passagem de um modelo viciado e vicioso, o sistema da corrupção da democracia para um outro sistema? Como desembarcar uma casta entranhada no Parlamento, em Brasília, nas prefeituras, nos Estados, nas corporações, nas instituições, dentro da máquina do Estado? Se a elite do dinheiro tomou o Estado de assalto e este se rendeu às formas de privatização do bem comum, como disputar a máquina por dentro e por fora do Estado? Como começar as experiências de democracia direta, para além da crise dos mediadores políticos e das práticas privatizantes das corporações?
A cena mais forte, descrita por Cláudio Melo Franco, mostra o então vice-presidente de Dilma Roussef, Michel Temer negociando recursos para seu próprio partido, o PMDB, em pleno Palácio do Jaburu sentados “na varanda em cadeiras de couro preto, com estrutura de alumínio”, fazendo uso não apenas da máquina do Estado, mais de seu simbolismo para fins privados, partidários, aparelhando cargos, símbolos, autoridade:
 “No jantar, acredito que considerando a importância do PMDB e a condição de possuir o Vice-Presidente da República como Presidente do referido partido político, Marcelo Odebrecht definiu que seria feito pagamento no valor de R$ 10.000.000,00. Claramente, o local escolhido para a reunião foi uma opção simbólica voltada a dar mais peso ao pedido de repasse financeiro que foi feito naquela ocasião.”
Essa é apenas uma das histórias de uma corporação que compra pareceres, monitora novas lideranças parlamentares, elege políticos, direciona leis, interfere em votações no Congresso, participa de agendas governamentais, dentro e fora do Brasil, e agora em um processo da chamada “justiça negocial” também negocia cada delação. Não existe nada fora de negócios!
Os golpistas do PMDB são citados em operações de cerca de 22 milhões em um só capítulo das delações da Lava jato: Michel Temer, Jucá, Renan Calheiros, Eliseu Padilha, Geddel, Moreira Franco, Eduardo Cunha, Fiesp, empreiteiras. Todos juntos contra os interesses sociais. Nessa nova leva ainda não foram publicizadas (ou se encontram obstruídas) as narrativas envolvendo os parlamentares PSDB e o PT aparece de forma pontual nesses primeiros relatos.
Chegamos em um ponto sem retorno
Em um primeiro momento a tentação é passar uma régua que diz “são todos iguais”, mas a base social a que respondem cada um desses partidos não é a mesma e nem os seus distintos projetos de poder. Como fazer tábula rasa?
As contradições do neodesenvovimentismo petista permitiram uma brecha, uma franja que  André Singer sintetiza desta forma, apontando a esquizofrenia do projeto petista no que sintetizou serem “As Contradições do Lulismo” que o diferenciam, mesmo com todos os erros, de um projeto puramente privatizante e liberal:
Inclusão social sem cidadania, reindustrialização com oposição dos industriais, assalariamento precário com acesso à universidade, ampliação do crédito educacional com crescimento do ensino superior privado, wallmartização do trabalho com internacionalização dos sindicatos, agroecologia com agronegócio, autonomização dos mais pobres com passividade assistencialista, emancipação cultural com empreendedorismo, esperança de inclusão com rebaixamento das expectativas.”
O fato é que chegamos em um ponto de “não-retorno”, de ruptura, seja para o PT, seja para a democracia brasileira,  diante de um projeto que foi simultaneamente encantatório e frustrante.
O limite da democracia no Brasil emerge cambaleante desse diário de corruptores/corrompidos, subornadores/subornados, prepostos, lobistas, parlamentares e empresários chantagistas, executivos dedicados à rapina. Não é uma literatura edificante, mas se trata de um tratado assombroso sobre a formação política no Brasil.
Nesse momento em que o país mergulha na descrença. “Eu perdi a fé, que enfermidade mais terrível!”, todo brasileiro deveria ler as 82 páginas desse tratado sobre a corrupção consentida. Teremos que ler e reler toda essa literatura emergente em busca “do tempo perdido”, em busca de um reencantamento da política, em busca de um outro escândalo, virtuoso, insurgente, radical, que nos faça crer na democracia!
Leia o documento na íntegra aqui.
SINPRO/SP

sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

A cultura brasileira em detrimento


O movimento artístico e cultural romantista da primeira geração, tivera como ideal a construção da identidade brasileira por meio da valorização da natureza tropical, do índio, e da fusão de rasas no território nacional. Porém, atualmente observa-se um processo quase inverso, pois há uma valorização da cultura exterior em detrimento da cultura brasileira.

Nesse sentido, o processo de globalização age fundindo as culturas, como as músicas, as comidas, as roupas e o estilo de vida, de vários países e regiões do mundo, e os disseminam nas nações sujeitas a essa processo, bem como a Brasil. Há exemplo disso, temos o cinema; com filmes, quase que predominantemente, produzido nos EUA, e a popularização de musicas também norte-americana como o rap e o pop no Brasil.

Em consequência disso, acaba havendo um preconceito e desvalorização da cultura nacional, como sendo algo inferior e ultrapassado. Porém, isso já acontecia desde início do século XX, com a chegada das indústrias no território nacional e a modernização das grandes cidades, a burguesia repreendia as manifestações da cultura brasileira como os jogos de capoeira e as serestas, e exaltavam e copiavam a cultura europeia.

Logo, é necessário que haja uma valorização da cultura nacional. Esse pode ocorrer, através do conhecimento da historia e formação da cultura brasileira. É importante que nas escolas os alunos sejam motivados para isso, com amostra de filmes nacionais que revelem tanto a cultura atual do Brasil com a construção da mesma. É valido tambémque as prefeitura em conjunto com o estado, façam um plano de incentivo a leitura da literatura brasileira, incluindo esses livros no currículo escolar e disponibilizando essas obras em todas a bibliotecas das escolas e na internet. E também a participação de ONGs, que organizem projetos sociais incluindo a população carente na produção peças teatrais e amostras culturais, trazendo assim mais cultura para os cidadãos brasileiros.

Fonte: www.projetoredacao.com.br

CULTURA BRASILEIRA: DA DIVERSIDADE À DESIGUALDADE

O Brasil da diversidades é o mesmo tempo, o país da desigualdade
Mesmo admitindo a existência de diversos estudos e discussões antropológicas sobre o conceito de cultura, podemos considerá-la, grosso modo, da seguinte forma: a cultura diz respeito a um conjunto de hábitos, comportamentos, valores morais, crenças e símbolos, dentre outros aspectos mais gerais, como forma de organização social, política e econômica que caracterizam uma sociedade. Além disso, os processos históricos são em grande parte responsáveis pelas diferenças culturais, embora não sejam os únicos fatores a se considerar. Isso nos permite afirmar que não existem culturas superiores ou inferiores, mas sim diferentes, com processos históricos também diversos, os quais proporcionaram organizações sociais com determinadas peculiaridades. Dessa forma, podemos pensar na seguinte questão: o que caracteriza a cultura brasileira? Certamente, ela possui suas particularidades quando comparada ao restante do mundo, principalmente quando nos debruçamos sobre um passado marcado pela miscigenação racial entre índios, europeus e africanos.
A cultura brasileira em sua essência seria composta por uma diversidade cultural, fruto dessa aproximação que se desenvolveu desde os tempos de colonização, a qual, como sabemos, não foi, necessariamente, um processo amistoso entre colonizadores e colonizados, entre brancos e índios, entre brancos e negros. Se é verdade que portugueses, indígenas e africanos estiveram em permanente contato, também é fato que essa aproximação foi marcada pela exploração e pela violência impostas a índios e negros pelos europeus colonizadores, os quais a seu modo tentavam impor seus valores, sua religião e seus interesses. Porém, ao retomarmos a ideia de cultura, adotada no início do texto, podemos afirmar que, apesar desse contato hostil num primeiro momento entre as etnias, o processo de mestiçagem contribuiu para a diversidade da cultura brasileira no que diz respeito aos costumes, práticas, valores, entre outros aspectos que poderiam compor o que alguns autores chamam de caráter nacional.
A culinária africana misturou-se à indígena e à europeia; os valores do catolicismo europeu fundiram-se às religiões e aos símbolos africanos, configurando o chamado sincretismo religioso; as linguagens e vocabulários afros e indígenas somaram-se ao idioma oficial da coroa portuguesa, ampliando as formas possíveis para denominarmos as coisas do dia a dia; o gosto pela dança, assim como um forte erotismo e apelo sexual juntaram-se ao pudor de um conservadorismo europeu. Assim, do vatapá ao chimarrão, do frevo à moda de viola caipira, da forte religiosidade ao carnaval e ao samba, tudo isso, a seu modo, compõe aquilo que conhecemos como cultura brasileira. Ela seria resultado de um Brasil-cadinho (aqui se fazendo referência àquele recipiente, geralmente de porcelana, utilizado em laboratório para fundir substâncias) no qual as características das três “raças” teriam se fundido e criado algo novo: o brasileiro. Além disso, do ponto de vista moral e comportamental, acredita-se que o brasileiro consiga reunir, ao mesmo tempo, características contraditórias: se por um lado haveria um tipo de homem simples acostumado a lutar por sua sobrevivência contra as hostilidades da vida (como a pobreza), valorizando o mérito das conquistas pessoais pelo trabalho duro, por outro lado este mesmo homem seria conhecido pelo seu “jeitinho brasileiro”, o qual encurta distâncias, aproxima diferenças, reúne o público e o privado.
Ainda hoje há quem possa acreditar que nossa mistura étnica tenha promovido uma democracia racial ao longo dos séculos, com maior liberdade, respeito e harmonia entre as pessoas de origens, etnias e cores diferentes. Contudo, essa visão pode esconder algumas armadilhas. Nas ciências sociais brasileiras não são poucos os autores que já apontaram a questão da falsidade dessa democracia racial, apontando para a existência de um racismo velado, implícito, muitas vezes, nas relações sociais. Dessa forma, o discurso da diversidade (em todos os seus aspectos, como em relação à cultura), do convívio harmônico e da tolerância entre brancos e negros, pobres e ricos, acaba por encobrir ou sufocar a realidade da desigualdade, tanto do ponto de vista racial como de classe social. Ainda hoje, mesmo com leis claras contra atos racistas, é possível afirmarmos a existência do preconceito de raça na sociedade brasileira, no transporte coletivo, na escola, até no ambiente de trabalho. Isso não significa que vivamos numa sociedade racista e preconceituosa em sua essência, mas sim que esta carrega ainda muito de um juízo de valor dos tempos do Brasil colonial, de forte preconceito e discriminação. Além disso, se a diversidade cultural não apagou os preconceitos raciais, também não diminuiu outro ainda muito presente, dado pela situação econômica-social do indivíduo.
É preciso considerar que a escravidão trouxe consequências gravíssimas de ordem econômica para a formação da sociedade brasileira, uma vez que os negros (pobres e marginalizados em sua maioria) até hoje não possuem as mesmas oportunidades, criando-se uma enorme distância entre as estratificações sociais. Como sugere o antropólogo Darcy Ribeiro, mais do que preconceitos de raça ou de cor, têm os brasileiros um forte preconceito de classe social.
Dessa forma, o Brasil da diversidade é, ao mesmo tempo, o país da desigualdade. Por isso tudo é importante que, ao iniciarmos uma leitura sobre a cultura brasileira, possamos ter um senso crítico mais aguçado, tentando compreender o processo histórico da formação social do Brasil e seus desdobramentos no presente para além das versões oficiais da história.
Paulo Silvino Ribeiro
Colaborador Brasil Escola
Bacharel em Ciências Sociais pela UNICAMP - Universidade Estadual de Campinas
Mestre em Sociologia pela UNESP - Universidade Estadual Paulista "Júlio de Mesquita Filho"
Doutorando em Sociologia pela UNICAMP - Universidade Estadual de Campinas

 Fonte: http://brasilescola.uol.com.br/

Capoeira de Angola

Área de Atuação: Capoeira
Representante: Jaime Balbino
Projeto
Capoeira é uma expressão da tradição afro-brasileira calcada em exercícios de convivência coletiva. Visa um processo de auto-conhecimento que não se limita à atividade físico-corporal e busca uma reestruturação do indivíduo.
Angola é o estilo mais próximo de como os negros escravos jogavam a Capoeira. Caracterizada por ser mais lenta, porém rápida, movimentos furtivos executados perto do solo, como em cima, ela enfatiza as tradições da Capoeira.
Mestre Jaime 34 anos de convivência com a Capoeira Angola, professor na Fundação Casa, Oficinas do Saber, CRAS (Centro de Referência de Assistência Social), ASAC (Associação Sorocabana de Atividades para Deficientes Visuais) e outros projetos sociais. Foi Presidente da ASCA (Associação Sorocabana de Capoeira) e possui curso de “Formação de Educadores Comunitários”.
Fonte: comunidadedotambor.org.br

quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

O machismo e o preconceito cultural mataram Amanda Bueno

Reprodução/Facebook
Ludmilla
"Discriminação racial é crime", escreveu Ludmilla em seu Facebook
A TV Record decidiu demitir o apresentador Marcão do Povo, que comandava o programa Balanço Geral DF, da TV Record Brasília. Na edição do último dia 9, ele se referiu à cantora Ludmilla como “macaca”.
"É uma coisa que não dá para entender. Era pobre e macaca. Pobre, mas pobre mesmo”, disse o apresentador, também conhecido como Marcão Chumbo Grosso, enquanto comentava uma notícia sobre Ludmilla ter evitado fotos com fãs.
“Eu sempre falo... eu era pobre e macaco também", continuou, tentando consertar a ofensa.
O caso ganhou repercussão nesta terça-feira 17. Por meio de sua página no Facebook, Ludmilla afirmou que "trata-se um desrespeito absurdo e vergonhoso”.
“Infelizmente, ainda existem pessoas que não compreendem que a discriminação racial é crime e alguns ainda usam o espaço na mídia para noticiar mentiras a meu respeito, ofender, menosprezar e propagar todo o seu ódio. Não deixaremos impune tais atos, trata se de um desrespeito absurdo, vergonhoso”, escreveu.
“Isso tem que ser combatido e farei a minha parte, quantas vezes for necessário”, continuou Ludmilla. À imprensa, a assessoria da cantora informou que "tomará todas as medidas legais cabíveis”.
A hashtag #ProcessaLudmilla alcançou os trending topics do Twitter no Brasil nesta quarta-feira 18. Diante da repercussão negativa do caso, a Record demitiu o apresentador.
"A Record TV vem a público lamentar os transtornos causados à cantora Ludmilla, sua família e seus fãs motivados por um comentário feito pelo apresentador Marcão no Balanço Geral DF. A emissora repudia qualquer ato dessa natureza e afirma que este tipo de conduta não está na linha editorial de nosso Jornalismo. Por este motivo, a Record TV Brasília optou por rescindir o contrato do apresentador Marcão", informou a emissora, em nota enviada à imprensa.
Mais cedo, porém, a Record defendeu o apresentador por meio da conta Balanço Geral DF no Twitter – que foi deletada por volta das 12h30 desta quarta-feira.
Cantora diz que tomará providências legais contra "desrespeito absurdo e vergonhoso". Mais cedo, emissora defendeu apresentador no Twitter
“Referente ao caso que está sendo divulgado nas redes sociais e em alguns veículos, a RecordTV Brasília e o Balanço Geral informam que não apoiam quaisquer tipo de preconceito, independente de qual seja”, manifestou-se a emissora.
“Temos a plena certeza de que o apresentador @MarcaoTV apenas utilizou uma expressão regional para se manifestar, sem o intuito de ofender a cantora Ludmilla ou qualquer outra pessoa.”



Direitos das Crianças

Direitos das crianças

Direitos das crianças
A Convenção sobre os Direitos das Crianças estabeleceu diversos princípios aceitos por todos os países do mundo, exceto Estados Unidos e Somália. Assegurou-se globalmente o direito à vida, à liberdade, as obrigações dos pais, da sociedade e do Estado em relação à criança e adolescente.
Além disso, os países signatários ainda comprometem-se a assegurar a proteção dos menores contra as agressões, ressaltando em seu artigo 19 o combate à sevícia, exploração e violência sexual.
Participação – As crianças, como pessoas e sujeitos de direito, podem e devem expressar suas opiniões nos temas que lhes afetam. Suas opiniões devem ser escutadas e levadas em conta na agenda política, econômica ou educacional de um país. Desta maneira se cria um novo tipo de relação entre crianças e adolescentes e aqueles que decidem por parte do Estado e da sociedade civil.

Sobrevivência e desenvolvimento – As medidas que tomam os Estados-membros para preservar a vida e a qualidade de vida das crianças devem garantir um desenvolvimento com harmonia nos aspectos físico, espiritual, psicológico, moral e social, considerando suas aptidões e talentos.

Interesse superior da criança – Quando as instituições públicas ou privadas, autoridades, tribunais ou qualquer outra entidade tomar decisões acerca das crianças, devem considerar aquelas que lhes ofereçam o máximo bem-estar.

Não-discriminação – Nenhuma criança deve ser prejudicada de forma alguma por motivos de raça, credo, cor, gênero, idioma, casta, situação ao nascer ou por padecer de alguma deficiência física.

CARTILHA
MAIS DIREITOS


Fonte: O Brasileirinho 

Nota de Repúdio à repressão da PM contra as famílias sem teto e o MTST

UBES divulga nota condenando ação violenta da PM contra cerca de 700 famílias na ocupação Colonial e prisão do coordenador do MTST. Leia na íntegra: 
A União Brasileira dos Estudantes Secundaristas se solidariza com o coordenador do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST), Guilherme Boulos, que foi detido nesta terça-feira (17) em São Mateus, Zona Leste de São Paulo.
Boulos estava no local para acompanhar a ação de reintegração de posse da ocupação Colonial, que reúne cerca de 3 mil pessoas, em 700 famílias, que estão no local há mais de um ano. Hoje, esses trabalhadores e trabalhadoras, idosos e crianças foram jogados nas ruas com uma violência desproporcional por parte da polícia militar, que avançou sobre essas famílias com bombas de gás lacrimogêneo e gás de pimenta.
A repressão policial contra os movimentos estudantil e sociais é clara neste momento no Brasil. Vivenciamos isso nas ocupações nas escolas, mas resistimos!
Não abaixaremos a cabeça! Não nos calarão!
Estamos ao lado das famílias sem teto! #LibertemOBoulos #LutarNãoÉCrime
União Brasileira dos Estudantes Secundaristas
17 de Janeiro de 2017.

LGBTfobia faz mais uma vítima: Matheus Camilo, estudante gaúcho

Para a 1ªdiretora LGBT da UNE é importante falar sobre a saúde mental das pessoas LGBTs tão abalada pela intolerância
Neste segunda-feira (16/1) a LGBTfobia fez mais uma vítima, Matheus Camilo, estudante de 16 anos, militante do movimento estudantil e LGBT (Lésbicas, Gays, Bissexuais e Transgêneros) de Caxias do Sul (RS).
De acordo com os amigos nos últimos meses, ele vinha apresentando um quadro de isolamento e depressão que culminou no suicídio, fruto do preconceito de parte da família, que não o aceitava.
“É difícil, para nós que militamos pelos direitos da juventude, assimilar um acontecimento tão triste, com um jovem que tinha uma longa vida pela frente e que teve violado o seu direito mais fundamental – o direito de viver livremente, sem sofrer discriminação de qualquer espécie, inclusive por sua orientação sexual. Nossa luta é para que a juventude possa ter a esperança de uma sociedade melhor e mais justa, com a perspectiva de uma vida digna e feliz para todos”, destacou a nota da União da Juventude Socialista (UJS) de Caxias do Sul, entidade que Camilo integrava.
“Ele era estudante secundarista, e se aproximou da UJS no período das ocupações de 2015. Sempre foi participativo nas atividades e atos. Era quieto, na dele, mas sempre presente”, destacou o conterrâneo de Matheus, Josiel Rodrigues, diretor da UNE.
Dados preliminares do relatório de assassinatos entre a população LGBT no Brasil, feito anualmente pelo Grupo Gay da Bahia, mostram que 340 pessoas foram mortas por “LGBTfobia” em 2016. O estudo final deve especificar o número de suicídios também.
O ano de 2017 não parece que vai diminuir estes tristes índices. Levantamento do site homofobiamata.wordpress.com já traz 18 mortes e 4 suicídios desde o dia 01 de Janeiro. O site Buzzfeed Brasil divulgou pesquisas em que 59% dos LGBT já se sentiram discriminados. Dentre eles 13% desse preconceito veio por parte dos colegas da escola, 11% do preconceito vem dos familiares e 10% dos próprios pais das vítimas. E quanto mais jovens os LGBT, maiores os índices de denúncias: 49% dos pesquisados de até 24 anos relatam serem tratados com ironia e gozação, enquanto 24% dos que têm mais de 45 anos afirmam ter passado por essas situações
Para a diretora LGBT da UNE, Daniela Veyga, é importante conscientizar as pessoas sobre a saúde mental das pessoas LGBTs. Para ela o preconceito da sociedade e a pressão familiar acabam colaborando para esse triste desfecho. “O ambiente em que o jovem convive pode fazer muita diferença, por isso a nossa luta dentro das escolas e universidades de todo o Brasil por igualdade e respeito”.
*Os dados de “Diversidade Sexual e Homofobia no Brasil” – Editora Fundação Perseu Abramo e Instituto Rosa Luxemburg. “Relatório 2015 – Assassinatos de LGBT no Brasil” – Grupo Gay da Bahia. “Relatório sobre Violência Homofóbica no Brasil, o ano de 2012” – Secretaria dos Direitos Humanos da Presidência da República.

Iemanjá - Lenda, Mito e Sincretismo Religioso

Sincretismo é a fusão de diferentes doutrinas para a formação de uma nova, seja de caráter filosófico, cultural ou religioso. O sincretismo mantém características típicas de todas as suas doutrinas-base, sejam rituais, superstições, processos, ideologias e etc.

Etimologicamente, a palavra "sincretismo" se originou a partir do grego sygkretismós, que significa "reunião das ilhas de Creta contra um adversário em comum", que por sua vez foi traduzido para o francês syncrètisme, dando origem, consequentemente, à variante na língua portuguesa. No Brasil, a orixá goza de grande popularidade entre os seguidores de religiões afro-brasileiras e até por membros de religiões distintas. Em Salvador, ocorre anualmente, no dia 2 de fevereiro, a maior festa do país em homenagem à "Rainha do Mar". A celebração envolve milhares de pessoas que, trajadas de branco, saem em procissão até o templo mor, localizado no bairro Rio Vermelho, onde depositam variedades de oferendas, tais como espelhos, bijuterias, comidas, perfumes e toda sorte de agrados. Todavia, na cidade de São Gonçalo, os festejos acontecem no dia 10 de fevereiro.

Outra festa importante dedicada a Iemanjá ocorre durante a passagem de ano no Rio de Janeiro e em todo litoral brasileiro. Milhares de pessoas comparecem e depositam no mar, oferendas para a divindade. A celebração também inclui o tradicional "banho de pipoca" e as sete ondas que os fiéis, ou até mesmo seguidores de outras religiões, pulam como forma de pedir sorte à orixá. Na umbanda, é considerada a divindade do mar.

MITOLOGIA
Iemanjá (no ioruba Yèyé omo ejá; Yemọjá na Nigéria, Yemaya em Cuba, ou ainda Yemanjá ou Yemonjá no Brasil; ver seçãoEtimologia) é o orixá africano do povo Egbá divindade das águas doces e salgadas, seu culto principal situava-se em Abeokuta no rio Ògùn. É também conhecida no Brasil pelos epítetos Iyá Ori, Mãe d'água, Rainha do Mar, Sereia, Inaê, Aiucá, ou Maria princesa do Aioká, sendo reverenciada no Candomblé, Santeria, Umbanda, Xangô do Recife, Batuque, Xambá, Culto Tradicional de Ifá, Regla de Ocha, Omolokô, Terecô, Vodu haitiano e Vodu da Luisiana. É conhecida popularmente como Dona Janaína em especial na Umbanda É identificada no jogo do merindilogun pelos odus ejibe e ossá. É representado no candomblé através do assentamento sagrado denominado igba yemanja. Manifesta-se em iniciados em seus mistérios (eleguns) através de possessão ou transe, ato em que os orixas nas palavras de R. S. Barbara: "(...)vem para dançar e mostrar os seus poderes, representando em gestos suas ações míticas"

No Brasil desenvolveu profunda influência na cultura popular, música e literatura, adquirindo no processo de consolidação da cultura brasileira cada vez mais aspectos sincréticos às influências étnicas do novo mundo, ou que neste se encontraram, se tornando personagem mítico mais ilustrativamente brasileiro do que ancestral africano, conforme pode ser observado através de sua representação por diversos intelectuais, artistas e o folclore dos populares que em sua imagem reuniram as "três raças", que figura na Dona Janaína uma personalidade a parte, sedutora, sereia dos mares nordestinos, com cultos populares simbólicos que muitas vezes não expressam necessariamente uma liturgia real, esta última ainda conservada rigorosamente pelos cultos afro-brasileiros. Nessa visão, segundo Bernardo, “(...)é mãe e esposa. Ela ama os homens do mar e os protege. Mas quando os deseja, ela os mata e torna-os seus esposos no fundo do mar”

LENDA :Os mitos de Iemanjá assim como os de muitos outros orixás sobreviveram e ainda sobrevivem especialmente através da oralidade, na sociedade iorubá o "contador de histórias" tinha um papel muito importante assim como o próprio mito, o ato de narrar 
segundo E. Pereira e N. Gomes, "é uma prática social que permite aos indivíduos criarem laços entre si e com o mundo, independente de classe e modelo social.A sociedade iorubá é sustentada pelo mito, ela não é nutrida pela visão histórica, "é pelo mito que se alcança o passado e se explica a origem de tudo, é pelo mito que se interpreta o presente e se prediz o futuro, nesta e na outra vida. Como os iorubás não conheciam a escrita, seu corpo mítico era transmitido oralmente", apresenta R. Prandi.

R. M. Portz, diz que ao se passar a oralidade para a forma escrita "se perde, mas também se ganha", pois embora a história em forma escrita perca a flexibilidade da narrativa natural, permite a permanência de seu registro e divulgação para meios e contextos diferentes do qual é oriunda. Um lado negativo, menciona Portz, é que a partir de quando a história assume a forma escrita estará sujeita a consagrar-se comoverdadeira ou legítima, o que, muitas vezes, impede a valorização de diferentes versões orais por admitir-se que existe apenas uma forma correta de contar os acontecimentos de uma história ou por ignorar-se que existe criatividade dos narradores orais e que a tradição se renova, sendo o passado modificado pelo presente.

Antes de começarmos a abordar a sua mitologia é muito importante ressaltar que Iemanjá, assim como muitos orixás, teve boa parte de sua mitologia construída no processo de diáspora, em novos territórios, principalmente com o sincretismo de novas crenças e encontros com outros orixás. Para S. Poli, "A Yemanjá que conhecemos no Brasil, segundo vemos na obra de Verger, reúne elementos das divindades Yorubás Yemọja, Yeyemowo e Yewa (e outras divindades menores ligadas às águas das várias cidades yorubás que se encontravam através de seus filhos da diáspora, desde a época das senzalas).

Os principais relatos mitológicos de Iemanjá se desenrolam com os orixás primordiais da
criação iorubá do mundo. Filha da união conturbada de Olorun e Olokun (sendo esta última uma divindade feminina em Ifé e masculina no Benim ) e irmã de Olossa e Ajê Salugá. Olokun pelo caráter instável e destrutivo foi atada ao fundo do oceano em seus domínios após uma tentativa de dilúvio frustrada por Olorun, E. L. Nascimento menciona ao referir-se ao temor aos aspectos anti-sociais ou negativos dos Orixás femininos, "Iemanjá, igualmente,representa em seu aspecto perigoso a ira do mar, a esterilidade e a loucura".Não obstante, é muito frequente referências a natureza benéfica de Iemanjá, L. Cabrera assim defende: "Sem deformar essa definição encantadora e irrefutável, podemos imaginar Iemanjá emanada de Olokun, com seu poder e suas riquezas, mas sem as características tremebundas que o associam mais à morte do que à vida, como sua manifestação feminina - Iemanjá é muito maternal - e benéfica"

P. Verger aponta sua primeira união com Orunmilá, o orixá dos segredos (essa união é amplamente celebrada no culto de ifá afro-cubano com diferentes itans, mas atualmente negada pelos seguidores do culto de ifá nigeriano ), relação que pouco durou uma vez que Orumilá a expulsa e a acusa de quebrar o Ewo que proíbe o acesso de mulheres aos Odus e o manuseio dos objetos sagrados de Ifá. L. Cabrera assim registra a sequência desse mesmo itan: "Orunmilá teve de assistir a uma reunião de dezesseis awós, convocada por Olofi.Ela ficou em casa e a todos que iam consultar seu marido, em vez de dizer-lhes que esperassem sua volta, ela fazia passar adiante e adivinhava para eles. Seus vaticínios tiveram tamanho êxito, seus ebós alcançaram tão bom resultado, que o povo começou a dizer que Iemanjá era tão ou mais competente do que Orunmilá, de modo que, quando este voltou, todos lhe pediam quem Iemanjá olhasse para eles. Orunmilá explicava que as mulheres não podem jogar Ifá. Eles iam embora... e não voltavam mais".

Posteriormente Iemanjá foi casada com Olofin Oduduwa criador do mundo e rei de Ifé, com a qual teve dez filhos. Alguns dos nomes enigmáticos de seus filhos parecem corresponder a Orixás, Verger apresenta dois exemplos: "Òsùmàrè ègò béjirìn fonná diwó" (o arco íris que se desloca com a chuva e guarda o fogo nos seus punhos), e "Arìrà gàgàgà tí í béjirìn túmò eji" (o trovão que se desloca com a chuva e revela seus segredos). Iemanjá cansada da vivência na cidade de Ilê Ifé governada pelo marido decide-se fugir para o Oeste, para a "terra do entardecer". Antes de viver no mundo Iemanjá recebera de Olokun, sempre precavida pois "não se sabe jamais o que pode acontecer amanhã", um vasilhame contendo um preparado mágico com a recomendação que se algum caso extremo se sucedesse, Iemanjá o quebrasse no chão. Iemanjá que já havia se instalado no entardecer da Terra foi surpreendida pelo exército de Olofin Oduduwa que estava a sua procura, longe de se deixar capturar, quebrou o vasilhame com o preparado conforme as indicações que recebera. Nasceu no mesmo lugar um rio que levou Iemanjá novamente para o Okun, os oceanos de Olokun onde foi acolhida.

Outro mito sugere que foi casada com Okere, rei de Xaki, cidade localizada ao norte de Abeokuta. Este mito parece complementar suas andanças após a fuga de seu casamento
com Olofin Oduduwa. O mito se inicia com Iemanjá se instalando em Abeokuta que seria a terra do entardecer do mito anterior, e o desfecho muito se assemelha, com a presença do vasilhame com o preparado mágico de Olokun. Iemanjá que "continuava muito bonita", despertou o desejo de Okere que lhe propôs casamento. A união se sucedeu com a condição que Okere em nenhuma situação expusesse o tamanho da imensidão de seus seios ao ridículo. Mas Okere certo dia bêbado retorna para casa e tropeça em Iemanjá que o recrimina, e este não tendo controle das faculdades ou emoções, grita ridicularizando-lhe os seios. Iemanjá foge em disparada ofendida com o feito de Okere, que lhe persegue. Em sua fuga, Iemanjá tropeça quebrando o vasilhame que lhe foi dado e dele nasce o rio que lhe ajudará a chegar até o mar. Okere não querendo permitir a fuga da mulher se transforma numa colina que lhe barra o caminho para qualquer direção. Iemanjá uma vez com sua rota até o oceano bloqueada, clama pelo mais poderoso de seus filhos, Xangô. Assim P. Verger relata o seu desfecho: "Xangô veio com dignidade e seguro do seu poder.(...) E declarou que, no dia seguinte, Iemanjá encontraria por onde passar. Nesse dia, Xangô desfez todos os nós que prendiam as amarras de chuva. Começaram a aparecer nuvens dos lados da manhã e da tarde do dia. Começaram a aparecer nuvens da direita e da esquerda do dia. Quando todas elas estavam reunidas, chegou Xangô com seu raio. Ouviu-se então: Kakara rá rá rá ... Ele havia lançado seu raio sobre a colina Okere. Ela abriu-se em duas e, suichchchch ... Iemanjá foi-se para o mar de sua mãe Olokun. E aí ficou e recusa-se, desde então, a voltar em Terra".

- A sequência de mitos apresentada denota a passagem de Iemanjá de sua origem em
Olokun à sua transformação em um rio, justificando o seu culto em Abeokuta, e alude a uma visão que só posteriormente tomaria maior forma, relacionando-a à mãe prolífica, inclusive de filhos orixás, conforme as duas menções a Xangô.

Em África, Iemanjá é senhora de traços negros com formas bem evidenciadas e seios muito volumosos, por vezes representada grávida...No Brasil nos âmbitos populares ocorreu uma aproximação entre a figura africana e a sereia europeia branca, com seus atributos de sedução e cantos enfeitiçadores, já confundida com a Iara, a Mãe d'Água. Até o séc. XIX encontramos representações de Iemanjá na Bahia como uma senhora, expondo seus grandes seios, não aludindo em nada a figura mitológica da
sereia, no entanto neste mesmo século já nos é possível reconhecer representações que, fundem os atributos do orixá com a figura europeia...

Esse sincretismo de ideias e artístico que observa-se como por exemplo, na escultura de Carybé, também é bem visível nas representações de qualquer ponto de Salvador, em oposição com a representação distinta da Umbanda, especialmente nos estados a sudeste do Brasil, que nos apresenta uma mulher de pele branca, com longos cabelos negros e lisos e roupa azul...

Ao estudar as duas deusas, mostrou que são duas faces do mesmo arquétipo. No entanto, provavelmente para não parecer racista, não confronta Maria diretamente com Iemanjá, mas interpõe uma terceira deusa, Ísis, a grande mãe do Egito antigo, distante da realidade aqui
tratada e, portanto, figura neutra para o debate atual".

A gradação da "cor da pele" dos orixás "reflete a miscigenação racial da população que os cultua e o movimento de 'abrasileiramento' da religião. Outra interpretação da concepção do orixá, mais radical quanto à desvinculação entre a origem racial, de cor de pele e os deuses, é aquela que pensa os orixás como forças da natureza", apontam M. Moura e J. B. Santos, e acrescentam, "Nesta concepção Iemanjá é o mar, Oxum os rios, Iansã os ventos(...)", aqui fazem alusão a uma nova concepção brasileira do orixá como divindade panteísta e não de culto ancestral, o que justificaria a perda de seus traços étnicos.

Um afro abraço.

Claudia Vitalino.
Fonte: Deusa Iemanjá/https://www.significados.com.br/