Postagem em destaque

FIQUEM LIGADOS! TODOS OS SÁBADOS NA RÁDIO AGRESTE FM - NOVA CRUZ-RN - 107.5 - DAS 19 HORAS ÁS 19 E 30: PROGRAMA 30 MINUTOS COM CULTURA" - PROMOÇÃO CENTRO POTIGUAR DE CULTURA - CPC-RN

Fiquem ligados nas ondas da Rádio Agreste FM - 107.5 - NOVA CRUZ, RIO GRANDE DO NORTE, todos os sábados: Programa "30 MINUTOS COM CULTU...

quinta-feira, 28 de dezembro de 2017

Centro Cultural Sítio Roberto Burle Marx será revitalizado

sitio_burle_marx
O Centro Cultural Sítio Roberto Burle Marx, na Barra de Guaratiba, Zona Oeste do Rio de Janeiro, passará por uma revitalização e contará com um repasse de 4,45 milhões do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) para as obras.
Atualmente, o local passa por obra de infraestrutura elétrica, telefonia, entre outros serviços essenciais, e já licitou a reforma de um lago.
Com 400 mil metros quadrados, o sítio abriga 3,5 mil plantas tropicais e semitropicais de espécies nativas e exóticas, coleção que atrai pesquisadores e entre 600 e 700 visitantes por mês.
Em 2015, o centro cultural se candidatou ao título de patrimônio mundial da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco), e o registro foi aceito pela entidade.
Agora, as informações serão conferidas pela Unesco em missão oficial, e o resultado da avaliação será divulgado em meados de 2019.
Segundo a diretora do centro cultural, Cláudia Storino, o apoio do banco, que corresponde a mais de 60% dos recursos do projeto de revitalização, vai contribuir para a candidatura na Unesco: “Além disso, é um aporte bem importante para o funcionamento do sítio, para o atendimento aos visitantes”.
Histórico
O sítio foi comprado pelo paisagista Roberto Burle Marx na década de 1940, com o objetivo de ali instalar sua coleção botânica. Nos anos 1970, quando Burle Marx passou a morar no local, a área abrigou também objetos pessoais, produção artística e coleções de arte e design.
Em 1985, o paisagista doou o sítio e todo o acervo à Fundação Nacional Pró-Memória, do Ministério da Cultura. O órgão foi sucedido pelo Iphan. Desde então, o local passou a ser considerado instituição pública e foi tombado em nível federal.

Meu nome é Zumbi, Dandara e Galdino Pataxó-hã-hã-hãe

operarios_tarsila_do_amaral111566
Por parte de mãe, tenho avó “cabocla” chamada Perpétua, descendente dos índios Cariús. O meu avô materno tem ascendência “criptojudaica”, portanto ibérica e oriental. Da parte do meu pai, tenho bisavós portugueses vindos de Trás-os-Montes e do Alentejo, portanto, mistura de muitos povos: fenícios, ibéricos, celtas, visigodos, romanos, árabes-berberes e africanos magrebinos. Quando jovem, casei-me com uma mulher “morena”. A sua mãe era “alva” e tinha olhos azuis. O seu pai era um pernambucano “negro” (usarei essa palavra que nos movimentos de “negritude” contemporâneos aproxima-se do conceito de “raça”, embora eu prefira a palavra “preto”, por indicar um ser humano com a gradação de pele mais escura e não como conceito racial – já que cientificamente não existem raças humanas). A esposa “morena” e eu (também mestiço de pele mais clara) tivemos três filhos. O primogênito é “moreno claro”, cabelos crespos, alta estatura e feição mourisca. A segunda nasceu bem mais clara, pois foi marcada com o fenótipo da “brancura” da avó materna, mas tem traços e dengo de “cigana”, que evidencia a presença desse povo nômade na família. A caçula nasceu “morena mais escura”, com olhos escuros, cabelos escorridos e negros como as asas da graúna. Todos se casaram. O primogênito com uma mulher de feições “ciganas”, a segunda com um “moreno” do Brasil Central, a caçula (de pele mais escura), com um “branco” alourado, de olhos claros, descendente de poloneses. Seguindo essa linhagem miscigenada, recebi netos e netas: moreninhas, branquinhas, indiozinhos e ciganinhos. Em tese, cada um poderá optar pelo grupo étnico que melhor lhe aprouver, erigindo códigos sociais e culturais relevantes em sua construção identitária. Essa opção, no entanto, não é assim tão simples. Vejo a corajosa luta de Marieta Severo e de Chico Buarque de Holanda, na denúncia dos preconceitos, em defesa dos seus netos de cor de pele mais escura (identificados como “pretos”), a exemplo de tantos outros avôs, avós, mães e pais. Vejo a luta das “mães pretas”, nas favelas e nas periferias, em defesa dos seus filhos perseguidos e, muitas vezes, cruelmente assassinados. Vejo o preconceito (um veneno) impregnado no cotidiano social, como se fosse alguma coisa normal, em diferentes nuances. A minha primogênita, a morena de pele mais escura, quando sai às ruas com a filhinha de pele mais clara (aparentemente “branca”), tem sempre que ouvir a indiscreta pergunta: quem é a mãe? Isto porque uma jovem mulher “preta” ou uma “morena”, segurando uma criança “branca”, para essas pessoas, tem que ser uma “empregada doméstica”. E quando é o contrário: uma mulher aparentemente “branca” passeando com o seu filho de pele mais escura (aparentemente “preto”)? A manifestação do ódio é ainda maior e expressa com maior virulência, chegando às vezes à agressão física, nesses tempos de preconceito amplificado e de fascismo manifesto.
Isso podia ser uma crônica fechada, familiar. Torno pública para denunciar a presença entranhada do preconceito em nossa sociedade e do quanto é absurda essa situação. As origens nos traem. Nós brasileiros, somos descendentes de povos africanos escravizados (nomeados “negros da África”) e de povos índios originários (nomeados “negros da Terra”), mesclados aos miseráveis degradados, foragidos e colonos europeus pobres (notadamente da grande mestiçagem ibérica) que aqui chegaram e ganharam fortuna, muitos deles explorando escravos “índios” e “negros”, violentando mulheres escravizadas e submetidas. A nossa sociedade nacional foi construída em cima de um machismo brutal. Esse é o trauma da origem que muitos tentam apagar. Se nascemos da “preta” ou da “índia” violentada pelo senhor da Casa Grande, temos que renegar a nossa mãe “preta” e “índia” e empunhar o chicote do nosso pai que se nomeia branco? A nossa mestiçagem nasce da exploração e da violência, tomando depois (em cinco séculos de conflitos) variados aspectos e representações sociais, até chegar a ser, na contemporaneidade, uma escolha pessoal (quando livre do domínio econômico e da “coisificação” da mulher), ou mesmo, em casos mais raros, uma manifestação de amor, lutando muitas vezes contra o preconceito.
O que nos faz querer ficar “brancos”, “nobres” e tão orgulhosos? A gradação social da cor na pele? A posse do dinheiro e do poder? Não somos todos nascidos da mesma mistura, feito uma safra de caju, quando os frutos vêm de cores variadas? As pesquisas indicam que é muito elevada a presença de genes de “afrodescendentes” e de “índios”, juntamente, com genes mestiços europeus, na mistura brasileira. Assim, mesmo quando pensamos ser “brancos”, geneticamente temos elevada presença de genes “afrodescendentes”. Quando pensamos ser “negros”, temos também genes de mestiços “brancos” e “índios”. A nossa cultura nacional tem uma grande e positiva contribuição de povos ibéricos-mestiços, indígenas e afro-brasileiros, e esse ethos está expresso na nossa alma, no nosso corpo. Essa é a realidade com a qual devemos trabalhar, sem orgulho e sem vergonha, na construção de uma nação mais igualitária e justa. É preciso uma educação nova e libertária. O grande líder Nelson Mandela, na sua luta contra o apartheid, afirmava: “Ninguém nasce odiando outra pessoa pela cor da pele, por sua origem ou ainda por sua religião. Para odiar, as pessoas precisam aprender; e, se podem aprender a odiar, podem ser ensinadas a amar.”
Nada justifica a presença do preconceito, e, para exemplificar o absurdo de tal comportamento, aqui lembro o grande cantador piauiense Domingos Fonseca. Em uma cantoria, o seu desafiante quis humilhá-lo, por ele ser “pardo”, e cantou: “Domingos além de pobre / É tão triste a tua cor!” Domingos, cheio de dignidade, improvisou: “Falar de nobreza e cor / É um grande orgulho seu / Morra eu e morra o branco / Enterre-se o branco e eu / Que amanhã ninguém separa / O pó do branco do meu!” O discurso de supremacia branca (ou de qualquer outra cor ou pretensa “raça”) é estupidez, é fascismo, é obscurantismo, é a manifestação de alguma coisa tão vergonhosa que nem ousa dizer o seu nome: racismo.
A maioria de pessoas de cor de pele “preta” (ou “afro-brasileira”, ou “negra”, ou grupos étnicos que assim se definem ou assim são identificados ) que faz a nação brasileira é ainda hoje marginalizada, explorada e brutalizada pela violência. Antonio Olavo afirma: “Eu vejo a autoafirmação do ser negro, ou mestiço, ou índio como um ato político, de resistência em defesa de uma identidade oprimida e explorada no Brasil. Para os que tem dúvida de sua condição, repito algo que já ouvi muitas vezes: ‘a dúvida sobre quem é negro ou quem não é, se desfaz rapidamente quando se depara com a polícia dando batida em ônibus ou numa blitz’, ou seja, numa sociedade racista, a polícia sabe distinguir o negro (aqui a polícia é negra, mas nos EUA ela é branca e também sabe distinguir o negro)”. Seguindo esse mesmo raciocínio, percebe-se também que o mestiço, o caboclo, o índio e o branco em situação de pobreza, marginalizados e perseguidos, passam a ser também “negros” e sofrem da mesma violência, posto que a situação social é de “escravidão contemporânea”, sob o jugo do neocapitalismo e do neoliberalismo, necrófilos e desumanos. No Brasil, não existe apenas o racismo como herança perversa da escravidão, existe também uma ordem social elitista e cruel que condena a população de pele mais escura, o índio e o mestiço, à pobreza e à marginalidade. Há atualmente, no Brasil, um genocídio da juventude “preta”, “índia”, “mestiça” e pobre, nas favelas e nas periferias das grandes cidades, diante da indiferença de significativa parcela da classe média “branca”, ou mestiça que se acha “branca”, ou de mestiços que se negam ser “pretos” (ou “índios” e ou “caboclos”), ou mesmo de “pretos” que se negam ser “pretos” ou “negros” (numa tentativa vã de proteger-se dos preconceitos). A maior predominância nesse genocídio é o de jovens fenotipicamente identificados como “pretos”, o que bem demonstra a dimensão da injustiça social e do preconceito reinante em nossa sociedade tão desigual e, por vezes, monstruosa.
Nesse momento histórico, afora os grupos étnicos e culturais nomeados e reconhecidos, justificam-se as novas construções identitárias e étnicas, por necessidade de exercício de cidadania, de luta política e de resistência cultural. Por reparação histórica, foram criadas as cotas para os “negros”. São justas e tardias. No entanto, quando as forças conservadoras desse País de elite neo-escravagista perseguem pessoas de cor de pele mais escura (nomeados “pretos”), devemos todos nos nomear pretos! Se perseguem índios, seremos todos índios! Se perseguem gays, seremos todos gays! Se perseguem as mulheres, todos nós seremos mulheres! Assim, nosso nome será Zumbi, Galdino Pataxó-hã-hã-hãe, Chico Brown, Ajuricaba, Amarildo Dias, Pitanga, Dandara, Lázaro Ramos, Carolina Maria de Jesus, Kelly Carolina Cadamuro, Cora Coralina, Maria da Penha e Marieta Severo. Precisamos ter a coragem de dizer não ao preconceito social, racial e de cor, à brutalidade e ao fascismo.
 *Rosemberg Cariry é cineasta, poeta e escritor.

quarta-feira, 27 de dezembro de 2017

Medidas de Temer em 2017 atingiram principalmente os mais pobres

Reprodução do portal CNM
 
 


As reformas propostas pelo governo golpista de Michel Temer (PMDB) foram lembradas com preocupação. Uma delas é a trabalhista, que entrou em vigor no mês de novembro e retirou uma série de direitos consagrados pela CLT. Outra ação do governo golpista foi a aprovação da PEC do Teto dos Gastos, que congela os investimentos em áreas como saúde e educação pelos próximos 20 anos. 

Para o taxista Djalma Alves Freire, de 69 anos, as políticas de Temer prejudicaram principalmente os mais pobres.

"Porque tudo que o governo atual está propondo é para prejudicar o coitado, os mais pequenos. A gente vê muita gente na rua. O trabalho informal está crescendo cada vez mais, o ambulante vendendo suas coisinhas, porque não tem outra opção.Ou faz isso, ou morre de fome", opina.

O mesmo sentimento de indignação é compartilhado por Antonio Tadashi, 55 anos. Ele é economista e acredita que as decisões de Temer foram feitas apenas para agradar a classe política qual ele faz parte. 

"O cara tentou vender várias reformas e, basicamente, as reformas que ele tentou fazer é para penalizar a classe trabalhadora brasileira. O governo do Temer está a serviço de um grupo de pessoas. E esse projeto deles é justamente para reformular a sociedade brasileira, a economia e manter os mesmo políticos que vem governando desde a época da ditadura", diz.

Toda essa crise, segundo João Pedro Stedile, coordenador nacional Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST) teve início com o golpe contra a presidenta Dilma Rousseff.

"O Brasil vive uma grave crise econômica, que se transformou em uma crise social e em uma crise política, em função do golpe que a burguesia deu no Executivo e derrubou a presidenta Dilma, eleita democraticamente. O golpe foi precisamente isso, para eles poderem aplicar uma política econômica que joga todo o peso da crise sobre a classe trabalhadora. E é por isso que, já em 2017, começaram a aparecer os efeitos, no aumento do desemprego, na inflação, no aumento da desigualdade social", comenta Stedile. 

A quantidade de pessoas sem ocupação é justamente a preocupação da jovem recém-formada, Gabriela Martins, de 22 anos. A taxa de desemprego atinge hoje mais de 12 milhões de pessoas, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). O levantamento aponta que o índice é um dos maiores da história, apesar de quedas neste fim de ano. 

"Para mim, enquanto recém formada, é mais no sentido de apreensão mesmo, de como vai ser meu futuro no mercado de trabalho. Eu não votei nesse governo, não era um governo que gostaria que estivesse hoje em dia em vigor", reclama. 

Com o controle do governo golpista sobre os parlamentares do Congresso, Stedile acredita que o próximo ano ainda será de dificuldades para a classe trabalhadora:

"O ano de 2018 será ainda mais perverso para as condições de vida do povo brasileiro e para a concentração da riqueza e da renda. Infelizmente o governo golpista tem o controle absoluto do Congresso Nacional e, por essa razão, ao longo do ano eles conseguiram aprovar diversas mudanças na lei brasileira, que buscavam apenas jogar o peso da crise sobre a classe trabalhadora."

Diante da conjuntura, Stedile enfatiza a importância das mobilizações das massas nas ruas para impedir mais retrocessos na política e o agravamento da crise que se instalou no país.

"Companheiros e companheiras, nós teremos um 2018 cheio de mobilizações, de muita disputa política em que a própria campanha eleitoral se transformará em uma verdadeira luta de classes e é por isso que nós, dos movimentos populares, estamos convocando cada militante, cada companheiro e cada companheira e todos os movimentos para nos engajarmos nesse processo e transformarmos 2018 na derrota desses golpistas e na retomada do desenvolvimento do Brasil", defende.

As centrais sindicais e os movimentos populares já agendaram uma série de atos contra a reforma da Previdência, que poderá ser colocada em pauta em fevereiro, no retorno do recesso parlamentar. 



Brasil de Fato

Cotas raciais: além da pele negra, a conscientização

Cotas raciais: além da pele negra, a conscientização

Nós não podemos pensar em nos unirmos com os outros até que sejamos primeiro unidos entre nós.  
  Malcolm X 
por Ricardo Alexandre da Silva Corrêa via Guest Post para o Portal Geledés
Uma das características perversas da classe dominante brasileira é a difusão do pensamento de que os negros são os responsáveis pela situação marginal em que a maioria se encontra e, por essa razão, qualquer medida oriunda do Estado para alterar esse aspecto não tem justificativa aceitável. Discordando desse pensamento, assumo a lógica do sociólogo Pierre Bourdieu ao esclarecer que análises sociológicas precisam emergir de uma visão holística, pois nada que não seja imaginário existe sem um complexo de relações. Sendo assim, algumas perguntas são inevitáveis: o período escravista foi somente um detalhe na história do Brasil? Quiçá, uma obra do acaso sem efeitos posteriores?
Para avançarmos neste debate, pretendo provocar reflexões acerca das cotas raciais como elementos que buscam corrigir as distorções embrionárias na história dos afro-brasileiros, mas que esbarram em obstáculos que estão inseridos no próprio grupo étnico, em outros momentos, colocados pela classe dominante que objetivam conservar os próprios privilégios. 
O racismo brasileiro sempre se reinventou na tentativa de manter o monopólio sobre os corpos negros, nos quais os grilhões e os açoites não seriam mais aceitos depois da abolição da escravidão. Os contrários a essa violência acreditavam que com a libertação dos homens escravizados o racimo seria eliminado, mas não passou de uma utopia. Num dado momento, o racismo usou de argumentos científicos que propunham desde a inimputabilidade dos negros − sob o argumento de uma suposta alteração na formação do crânio − até a extinção da raça com a miscigenação racial. Atualmente, observamos o racismo estrutural  que produz a naturalização das hierarquias raciais onde o negro está alocado na inferioridade; vemos, também, o racismo institucional limitando a ascensão econômica e política dos negros. Na síntese de Stokely Carmichael e Charles Hamilton – definidores do termo racismo institucional – esse racismo ultrapassa as ações individuais e as questões ideológicas, contudo é determinante nas relações sociais. Diante disso, independente das bases teóricas distintas, nota-se que o racismo tem cumprido com “excelência” o papel de facilitador da classe dominante na exploração da população negra. 
Com o fim de combater essas diferentes formas de racismo, os movimentos negros elegeram as ações afirmativas, em especial as cotas raciais, como instrumentos necessários para fortalecerem a representatividade dos afro-brasileiros, derrubando todo modelo de marginalização e provendo a igualdade material entre brancos e negros. É notória a escassa participação dos negros nas instituições públicas como estudantes ou atuando como servidores; dificilmente alguém que desconhecesse a história do país acreditaria que mais da metade da população brasileira é formada por negros. O inexpressivo poder aquisitivo e a ausência de uma educação de qualidade que possa prepará-los para vestibulares, e concursos públicos, tornaram difícil o acesso àquelas instituições. São essas questões que evidenciam a urgência do Estado em lançar mão de instrumentos universais para alcançar a igualdade na sociedade, contrário disso, podemos considerar o preâmbulo da Constituição Federal, de 1988, uma mera alegoria. Ademais, embora os argumentos em defesa das cotas raciais sejam fundamentados, existem críticas contra a sua aplicação, como por exemplo: a subestimação da capacidade intelectual dos negros. Entretanto, observo que a apreensão intelectual que resulta em desempenho satisfatório do sujeito cognoscente, depende muito mais de estímulos externos do que do “voluntarismo” biológico.
Em 2012, o Supremo Tribunal Federal reconheceu a constitucionalidade do uso das cotas raciais para o ingresso nas universidades públicas, mas a sua aplicação ainda necessita de aprimoramento devida às ocorrências de fraudes: brancos estão se autodeclarando negros, desta maneira retirando as vagas de quem realmente tem direito. No entanto, destaco alguns sujeitos inseridos no processo de reivindicação de vagas que merecem uma particular atenção: o negro descompromissado com a demanda dos afro-brasileiros.
A miscigenação racial no Brasil, iniciada com o estupro sistemático das mulheres escravizadas pelos senhores de escravos, resultou em negros com fenótipos distintos dentro do próprio grupo – traços faciais, cor da pele, cabelos, entre outros −, claro que os escravos oriundos de outras regiões também contribuíram para essas diferenças. Nesse sentido, novas subjetividades passaram a ser construídas nos indivíduos, imbuídas no tratamento dispensado que levam em consideração a tonalidade de pele; quanto mais escura, maior o preconceito. Caso usemos como aporte os estudos do sociólogo Oracy Nogueira, associaremos esse tratamento ao que ele chamou de preconceito de marca, predominante no Brasil, e que se caracteriza a um tipo de preconceito que considera apenas os aspectos físicos dos indivíduos. Essas questões lembram-me da obra “Pele negra, máscaras brancas”, 1963, do psiquiatra Frantz Fanon. Nesse trabalho, Fanon menciona sobre a existência prática que coloca o negro como o elo entre o macaco e o homem. Homem branco, claro.
Esse preconceito de marca produz sentimentos nos sujeitos de não pertencimento a descendência africana, porém, fomenta a defesa dos valores da branquitude. E, quando não criticam, enxergam nas cotas raciais uma oportunidade de conquistar um espaço que os aproximem do “ser branco” e não como um reparo às injustiças que colocam os negros como suas principais vítimas. Nós, negros, precisamos de indivíduos  conscientes politicamente e sabedores de que a luta em defesa dos nossos direitos não tem caráter individual, mas coletivo. É inadmissível a assunção de uma identidade somente para conseguir o benefício das cotas raciais. A autodeclaração deve ser carregada de consciência de classe e reivindicada por negros cujos fenótipos não os excluem da sanha dos racistas. Essas características farão dos futuros advogados, engenheiros, professores universitários, médicos, promotores, juristas, entre outras funções na sociedade, afro-brasileiros defensores da ampliação daquilo que contribuiu para colocá-los num patamar superior, a despeito da vontade da classe dominante.
REFERÊNCIAS
BOURDIEU, Pierre. O Poder simbólico. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2003.
BRASIL. PRESIDÊNCIA DA REPÚBLICA. Constituição da República Federativa do Brasil: promulgada em 5 de outubro de 1988. Brasília: Senado Federal, 1988. Disponível em: < https://www2.senado.leg.br/bdsf/bitstream/handle/id/518231/CF88
_Livro_EC91_2016.pdf>. Acesso em 23/12/2017.
Carone, I. & Bento, M. A. da S. (org.) (2002). Psicologia social do racismo: estudos sobre branquitude e branqueamento no Brasil. Rio de Janeiro: Editora Vozes.
DAFLON, V. T; FERES J., J; CAMPOS, L. A. “Ações afirmativas raciais no ensino superior público brasileiro: um panorama analítico”. In Cadernos de Pesquisa (Fundação Carlos Chagas. Impresso). Rio de Janeiro, 2013.
EBC. Agência Brasil. Negros são 17% dos mais ricos e três quartos da população mais pobre. Brasília. Disponível em:<http://agenciabrasil.ebc.com.br/geral/noticia/2016-12/ibge-negros-sao-17-dos-mais-ricos-e-tres-quartos-da-populacao-mais-pobre>. Acesso em: 15 nov. 2017
FANON, Frantz. Pele negra, máscaras brancas. Bahia: Editora Edufba, 2008.
SCHWARCZ, Lilia Moritz. O espetáculo das raças: cientistas, instituições e questão racial no Brasil: 1870-1930. São Paulo: Companhia das Letras, 1993.
Nogueira, Oracy. Preconceito racial de marca e preconceito racial de origem: sugestão de um quadro de referência para a interpretação do material sobre relações raciais no Brasil. Tempo soc., Jun 2007, vol.19, no.1, p.287-308. ISSN 0103-2070

Mídia hegemônica destaca quando negro é responsabilizado pelo racismo

Fonte: /www.geledes.org.br
O antropólogo Antonio Risério e a ex-consulesa da França, Alexandra Loras, por vias distintas, responsabilizam negras e negros pelo racismo, ao associar as bandeiras e reivindicações do movimento negro a posições autoritárias que dizem combater. E, não por acaso, os dois ganham destaque na mídia hegemônica.
Por Dennis de Oliveira*, do Quilombo 
Dois fatos impactaram o movimento negro nestes dias. Um foi o artigo publicado pelo prof. Antonio Risério, no caderno Ilustríssima, da Folha de S. Paulo, em que ele faz críticas a determinado setor do movimento negro que considera a miscigenação como genocídio, estendendo esta crítica a todo o movimento. Outro foi a entrevista concedida pela ex-consulesa da França, Alexandra Loras, em que ela considera que as críticas que militantes do movimento negro fizeram a sua exposição em que pessoas famosas brancas têm seus rostos pintados de preto são oriundas de uma “síndrome de capitão do mato”.
O que une estas duas personalidades tão distintas é o fato de nenhuma delas ter proximidade com o movimento negro e o avaliam a partir de impressões pessoais, transformando incômodos particulares seus em categorias de análise. No caso do artigo de Risério, dá para ir mais além: ele foi publicado em um jornal que não costuma cobrir as ações do movimento negro, em especial a já tradicional Marcha da Consciência Negra de 20 de novembro.
Do ponto de vista jornalístico, isto tem um impacto de construção de significados muito particular: o leitor da Folha de S. Paulo, desavisado, vai entender que a Marcha da Consciência Negra é uma mobilização de negros que são contra a miscigenação e, portanto, nas palavras de Risério, reconstroem o racialismo direitista do início do século XX. Uma associação que não só causa repúdio, mas que justifica o fato do jornal Folha de S. Paulo não dar a devida importância a um movimento como este. Por isto, o artigo de Risério tem que ser lido dentro desta perspectiva – ele foi publicado não como uma forma de estimular o debate sobre este assunto (o que é relevante), mas sim de construir uma determinada imagem negativa de um movimento que seria o álibi para o seu desprezo pelos veículos midiáticos.
A descontextualização presente no artigo de Risério atinge, inclusive, um dos grandes intelectuais negros, Abdias Nascimento, cuja obra reconhecida do Teatro Experimental do Negro e as suas contribuições importantíssimas para a história da dramaturgia brasileira é simplesmente reduzida a uma “crise de identidade” do mesmo pelo fato dele também criticar a mestiçagem e ser ele um mestiço (ou chamado de “mulato” no início do artigo).
O tal suicídio do branco que Risério defende também como outro elemento da miscigenação não se observa nos dados que insistem em desmentir esta tese de uma democratização racial via a mestiçagem: homens brancos continuam no topo da pirâmide social e as mulheres negras na base. E talvez a Polícia Militar não esteja plenamente informada deste “suicídio branco” de que fala Risério, pois continua assassinando jovens negros, fato reconhecido pela Anistia Internacional (que tem brancos na sua direção). Gilberto Freyre foi mais sofisticado que Risério, pois não negava a existência das hierarquias sociais e raciais, e fundamentava esta ideia de que as relações privadas e “afetivas” (?) entre brancos e negras constituíam um espaço particular de equilíbrio de antagonismos em um país que não tinha constituído instituições de mediação política, segundo ele. Aliás, o quadro “Um jantar brasileiro“, de Debret (1827), mostra bem o que é este espaço de equilíbrio de antagonismos de Freyre que Risério, de forma extremamente simplória, tenta recuperar no seu artigo.
Loras: síndrome de capitão do mato
Mas o interessante é que, ao mesmo tempo em que a Folha de S. Paulo publicou o artigo de Risério, o blog “Mulheres Positivas”, do portal Estadão (do jornal O Estado de S. Paulo), entrevistou a ex-consulesa da França, Alexandra Loras. Na entrevista, a ex-consulesa rebateu as críticas que recebeu de militantes do movimento negro por conta da sua exposição intitulada “Porquoi pás?” em que imagens de celebridades brancas tem seus rostos pintados de preto. Os militantes do movimento negro criticaram a exposição pelo fato dela remeter à tática do blackface e também porque não atende a uma das reivindicações do movimento que é dar visibilidade a pessoas negras.
A resposta de Loras foi dura: disse que os militantes têm “síndrome de capitão do mato”, que têm “inveja” de uma mulher negra na elite e quer que todas voltem à senzala, num raciocínio simplista que limita os espaços sociais possíveis entre casa grande e senzala e ignora o quilombo como possibilidade de superação das relações de hierarquização racial. Loras ignora que para existir uma Casa Grande tem que haver uma senzala, sendo, portanto, impossível que todos os negros e todas as negras estejam na Casa Grande – haverá sempre uma senzala. O que o movimento aspira é a destruição da Casa Grande e da Senzala (e a construção do quilombo) e não habitar a Casa Grande – coisa que, aí sim, os capitães do mato podiam fazer no período da escravidão. Nesta lógica, quem está com síndrome de capitão do mato é ela, Loras, e não os militantes do movimento negro.
É sintomático que quando ela aborda o racismo na França nesta entrevista, ela sequer menciona as políticas agressivas do Estado francês nos países africanos. O ex-presidente Sarkozy, por exemplo, é apontado como um dos principais responsáveis pela atual situação da Líbia em que pessoas negras estão sendo vendidas como escravizados.
O lugar de fala de Loras não é de uma mulher negra mas sim de uma integrante do staff do Estado francês. O de Risério é de um inconformado como protagonismo de negras e negros na construção de agendas. E isto é que garante os espaços na mídia hegemônica destas duas pessoas. Com o avanço da agenda antirracista, os meios de comunicação hegemônicos buscam apropriar-se desta agenda esvaziando as perspectivas que sinalizam para uma crítica sistêmica ao racismo. Reduzido meramente a críticas comportamentais, a narrativa é direcionar às próprias vítimas do racismo, mulheres negras e homens negros. E, assim, por vias distintas, Risério e Loras chegam a ideias semelhantes: militantes negras e negros têm síndromes de capitão do mato, são invejosos, são tão direitistas como os eugenistas do início do século XX, têm crises de identidade… Em outras palavras, a culpa do racismo é nossa mesmo. Eles se apresentam como pessoas que querem ajudar. Que bondade!
*Dennis de Oliveira é professor da Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo (ECA/USP)
Fotos: Divulgação e YouTube

Racismo brasileiro mostra a perversidade da onda conservadora que assola o país


As ofensas racistas se acirraram nas redes e nas ruas. Em 2017, as feras se soltaram e perderam a vergonha. Muitas pessoas negras que se destacaram sofreram ataques covardes pela internet.
Mas não somente. Encorajados pelo vento norte de um conservadorismo exacerbado, médicos, advogados, estudantes, jornalistas, enfim pessoas de diferentes níveis de escolaridade, social, intelectual e econômico escancararam de diversas maneiras o racismo brasileiro que tenta disfarçar-se de “democracia racial”.
Acompanhe alguns acontecimentos veiculados pelo Portal CTB em 2017:
Portal CTB

A morte de Jesus no Sertão. Por Mauro Santayana

: Os Retirantes, de Portinari - 
Por
 Mauro Santayana
 -
Publicado no blog de Mauro Santayana
Era véspera de Natal, em ano de seca no norte de Minas e Sul da Bahia. Um grupo de sertanejos buscava o sul, e viajava a pé.
Uma das jovens estava nos últimos dias de gravidez, e com seu marido e seus pais, entrou na cidade de Montes Claros, procurando um hospital. Em andrajos, quase todos descalços, e já tarde da noite, procuravam um hospital qualquer em que a moça pudesse ter sua criança. Uma patrulha da polícia ainda tentou ajudá-los, mas, naquele tempo, com os retirantes sem documentos e sem dinheiro, os poucos hospitais negaram ajuda.
Os andarilhos foram devolvidos à estrada rumo a Belo Horizonte, situada a mais de 400 quilômetros. Tão logo a polícia os deixou, as dores do parto se abreviaram. De volta à cidade,  encontraram o parque de exposições agropecuárias com o portão encostado, e sob inesperada tempestade naquele verão inclemente, não conseguiram chegar às baias, onde, sob a guarda de vaqueiros, os animais dormiam, esperando a manhã. A manhã de Natal.
No pátio da exposição, uma árvore antiga, de copa tupida, era o único abrigo, sob a qual a moça teve seu filho. Como chovesse e ventasse forte, e a mãe estivesse desnutrida, faminta, a criança nasceu choramingando, sem forças.
Os vaqueiros perceberam o que ocorria, e, juntos, levaram a família a um hospital, comprometeram-se a custear a assistência. Já era tarde. A criança não resistira ao frio, aos seios secos, ao desprezo dos que negaram abrigo aos pais. Alimentaram a mãe com soro, e a deixaram dormir na enfermaria. O jornal da cidade soube do fato, e com sua intervenção, a moça continuou internada, até recompor-se um pouco do parto, e voltar com sua família à estrada.
A moça disse ao repórter que estava muito triste. Como estavam no Natal, ela e seu companheiro, também ainda na adolescência, queriam dar à criança, se fosse homem, o nome de Jesus. Se fosse mulher, o nome de Maria.
Os fatos ocorreram há mais de 34 anos, e deles  me lembro bem. Na época, eu dirigia a Sucursal da Folha de S.Paulo, em Belo Horizonte, e recebi a informação do “Jornal de Montes Claros”, que ainda circulava.
Redigi a matéria, como uma notícia comum, e a enviei, sem assinatura, ao meu jornal, que a publicou sem  destaque. Muito mais tarde soube que a nota, redigida às pressas, ajudara a inspirar a Campanha da Fraternidade da Igreja, com o lema de “Para onde vais”,  um ano depois.
Aquele Jesus morreu no sertão mineiro, ao nascer. Outros continuam a morrer, perdendo a trilha de seu destino, nas vésperas de todos os natais, na Palestina, na Síria, no Paquistão, nos arredores de São Paulo – e em nossos  ressequidos sertões brasileiros.
Fonte: diariodocentrodomundo.com.br

terça-feira, 26 de dezembro de 2017

1º de janeiro — Dia Mundial da Paz


O Dia Mundial da Paz é celebrado todos os anos na data de 1º de janeiro, tendo sido uma criação vinculada ao catolicismo. No ano de 1967, o então Papa Paulo VI proclamou uma mensagem na qual foi estabelecida essa data comemorativa, com o objetivo de promover o sentimento da paz pelo mundo, entãomarcado pela Guerra Fria e pela instabilidade bélica.

É importante não confundir o Dia Mundial da Paz com o Dia Internacional da Paz, esse último estabelecido pela ONU e celebrado no dia 21 de setembro, dia em que a Assembleia Geral da Organização iniciou suas atividades no ano de 1981. Trata-se, portanto, de duas datas distintas em torno de um mesmo tema.

Por ser uma data religiosa vinculada à Igreja Católica, todos os anos o Vaticano realiza uma cerimônia oficial sobre a data, havendo sempre um novo tema para o Dia Mundial da Paz escolhido pelo próprio Papa. No ano de 2014, por exemplo, o tema foi a fraternidade; em 2015, por sua vez, o tema escolhido foi o combate ao trabalho escravo.
Se liga:
A proposta de dedicar à Paz o primeiro dia do novo ano não tem a pretensão de ser qualificada como exclusivamente religiosa ou católica. Antes, seria para desejar que ela encontrasse a adesão de todos os verdadeiros amigos da Paz, como se se tratasse de uma iniciativa sua própria; que ela se exprimisse livremente, por todos aqueles modos que mais estivessem a caráter e mais de acordo com a índole particular de quantos avaliam bem, como é bela e importante ao mesmo tempo, a consonância de todas as vozes do mundo, consonância na harmonia, feita da variedade da humanidade moderna, no exaltar este bem primário que é a Paz.

É importante, nesse contexto, reiterar que a paz é um conceito muito amplo e polissêmico. No caso do Dia Mundial da Paz, celebra-se não tão somente a busca pela paz relacionada com a quietude e a ausência de conflitos, mas também a paz que mude a realidade de muitas pessoas que sofrem com as desigualdades, a violência, a fome e a miséria. Desse modo, a paz, em alguns sentidos, pode representar uma transformação social que vise à inclusão universal das pessoas.

"Todos os dias a paz deveria ser celebrada. No entanto, a paz é comemorada em dois dias no ano".

Sendo assim, a luta pela paz no mundo atual ainda é muito árdua e difícil. Além dos vários conflitos étnicos, territoriais e de outras ordens pelo mundo – com destaque para os frequentes confrontos entre judeus e palestinos no Oriente Médio –, há também a ampla necessidade de se combater a miséria, as epidemias e a fome em várias partes do globo terrestre. Dados divulgados pela ONU, por exemplo, revelam que 1,2 bilhão de pessoas vive abaixo da linha da pobreza, ou seja, vive com menos de 1,25 dólar por dia.

O dia 21 de setembro é considerado o Dia Internacional da Paz. Em 1981, as nações foram convidadas a celebrar a paz nesse dia por ser o dia em que são iniciados os trabalhos na Assembléia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU). Esse dia é conhecido como um dia de cessar-fogo e de não violência em todo o mundo.


Em algumas partes do mundo, há a percepção de que as principais ameaças à paz e à segurança são as novas e potencialmente mais virulentas formas de terrorismo, a proliferação das armas não convencionais, a difusão de redes criminosas internacionais e as maneiras como todos estes problemas se juntam e reforçam mutuamente. Mas, para muitos outros habitantes do nosso planeta, a pobreza, a doença, a privação e a guerra civil continuam a ser as grandes prioridades...


Um afro abraço.
Claudia Vitalino.

Fonte:http://www.nossosaopaulo.com.br/Reg_SP/Barra_Escolha.

Estados Unidos manejam a Lava Jato para destruir o Brasil e a América Latina

 
Dilma Rousseff e Cristina Kirchner denunciaram que líderes nacionalistas e progressistas do continente estão sendo submetidos sistematicamente ao 'lawfare'
 

Num discurso feito em julho deste ano, no qual felicitava a si mesmo, o subprocurador geral estadunidense Kenneth A. Blanco, que dirigia a Divisão Penal do Departamento de Justiça (porque logo o Secretário do Tesouro, Steve Mnuchin, o escolheu para encabeçar a Direção de Investigação sobre Delitos Financeiros), se referiu ao veredito condenatório ditado contra o ex-presidente do Brasil, Lula da Silva, como o principal exemplo dos “resultados extraordinários” alcançados graças à colaboração do Departamento de Justiça (DOJ, por sua sigla em inglês) com os promotores brasileiros na operação “anti corrupção” chamada Lava Jato.

A unidade da Divisão Penal do DOJ que colabora com a Lava Jato é a Seção de Fraudes. De novembro de 2014 até junho de 2017, quem dirigia a Seção de Fraudes do DOJ era ninguém menos que Andrew Weissman. Ao deixar essa função, ele foi transferido e passou a formar parte do grupo de choque contra Trump encabeçado pelo Procurador Especial do FBI, Robert Mueller. Weissman tem sido, há muito tempo, o principal assessor de Mueller, e seu histórico de conduta indevida lhe valeu o apelido de “pitbull judicial de Mueller”.

Agora que se está ficando evidente o assalto judicial de Mueller contra a Presidência dos Estados Unidos, com cada vez mais membros de sua equipe ficando expostos por sua corrupção e atos ilegais, é de se esperar que sua operação latino-americana, a Lava Jato, terá a mesma sorte.

Como se sabe, Weissman foi retirado da equipe de caça às bruxas porque transcendeu à luz pública sua parcialidade a favor de Hillary Clinton. Agora cada vez que se menciona a Weissman na imprensa estadunidense é para fazer referência à profunda corrupção que inunda o Departamento de Justiça e o FBI.

Cristina recebe solidariedade de Dilma - foto: Reprodução/Twitter

As ex-presidentas do Brasil e da Argentina, Dilma Rousseff e Cristina Fernández de Kirchner, respectivamente, denunciaram na semana passada que os líderes nacionalistas e progressistas de todo o continente estão sendo submetidos sistematicamente ao que denominam lawfare, o uso da lei como arma de guerra, com o propósito de impor mudanças de governo e instalar chefes de Estado comprometidos com as políticas de austeridade neoliberal que vão destruindo a região. O discurso de Blanco demonstra que por trás do tal lawfare estão os mesmos interesses imperiais que buscam dar um golpe de Estado em seu próprio país, depor o presidente Donald Trump do seu cargo e instalar alguém ainda mais fiel aos interesses do mercado.

Em discurso mais recente, Blanco se jactou do papel do DOJ em toda esta farsa, durante um evento chamado Diálogo Interamericano, na palestra “Lições do Brasil: Crise, corrupção e cooperação global”. Na ocasião, Blanco deu as boas-vindas ao seu amigo Rodrigo Janot, quem foi há até pouco tempo, e durante anos, o Procurador Geral da República do Brasil, e um dos principais sicários da Lava Jato.

“É difícil imaginar, na história recente, uma melhor relação de cooperação que esta entre o Departamento de Justiça dos Estados Unidos e os procuradores brasileiros. Esta cooperação nos ajudou de forma substancial com uma série de temas públicos que agora estão resolvidos, e continuamos juntos em uma série de investigações”, afirmou Blanco.

“A cooperação entre o DOJ e o Ministério Público brasileiro levou a resultados extraordinários. Só em 2016, por exemplo, o FBI e a Lava Jato estiveram cooperando e se coordenaram nas resoluções de quatro casos relacionados com a Lei sobre Práticas Corruptas no Exterior (FCPA por sua sigla em inglês), ligado às empresas Embraer, Rolls Royce, Braskem e Odebrecht. O caso da Odebrecht em particular é notável, devido ao seu alcance e sua extensão”, continuou Blanco, que também lembrou que “os procuradores brasileiros conseguiram um veredito condenatório contra o ex-presidente Lula da Silva, acusado de receber subornos da empreiteira OAS em troca de contratos com a Petrobras. Casos como este são os que colocaram o Brasil no topo do ranking dos países que trabalham para combater a corrupção tanto dentro quanto fora do país”.

Blanco revelou, nesse discurso, que a cooperação entre o DOJ e os procuradores brasileiros é tão grande que “operam inclusive fora dos processos formais, como nos tratados de assistência judicial mútua”, que consistem em simples ligações telefônicas de uns para outros, para trocar informações ou solicitar evidências driblando as formalidades legais quando é necessário.

Procuradores e promotores de toda a região entram e saem dos escritórios do Departamento de Justiça estadunidense (o mexicano Raúl Cervantes, quem Blanco considera um “bom amigo”, a panamenha Kenia Porcell”, e muitos outros na Colômbia, no Equador e em vários países do continente) para falar sobre as ações “contra a corrupção”, segundo o discurso do subprocurador. Embora o mesmo não tenha citado os juízes Claudio Bonadio e Sérgio Moro – responsáveis pelas condenações a Lula da Silva e Cristina Fernández de Kirchner, respectivamente – sabe-se que ambos também são parte desse esquadrão de elite judiciário, e figuras centrais da nova política de choque para o continente.

Fonte: REVISTA FÓRUM

Sigamos juntos em 2018

Os desafios são imensos. Em tempos de quebra da neutralidade da rede, urge criarmos uma sólida e combativa rede de comunicação para nos manter unidos.  

Neste final de ano e em meio a tantas dificuldades que passamos, não poderíamos deixar de registrar nosso agradecimento aos leitores que garantiram a sobrevivência da CARTA MAIOR durante 2017.
Aproveitamos, também, para reafirmar nosso compromisso de levar a você o que há de melhor no pensamento progressista e de esquerda nacional e internacional. Cientes de que teremos um ano decisivo para o futuro do Brasil, reafirmamos nossa responsabilidade na luta contra os mais diversos obscurantismos da direita. 
A luta por um mundo mais justo e igualitário nos antecede e, certamente, continuará sendo travada no futuro. Muitos deram suas vidas por esta luta, muitos nela permanecem abrindo o caminho para as novas gerações. Temos certeza de que apenas o pensamento crítico, a reflexão e o bom senso combaterão as forças que insistem em massacrar oportunidades e direitos do nosso povo.
É por isso que CARTA MAIOR aposta na comunicação enquanto instrumento de transformação social. Em 2018, com sua ajuda, nós continuaremos a nossa missão, trazendo o debate crítico, a reflexão construtiva e os caminhos apontados pelas melhores mentes deste país e do mundo.
Os desafios são imensos. Em tempos de quebra da neutralidade da rede, urge criarmos uma sólida e combativa rede de comunicação para que possamos nos manter unidos. Como já afirmamos, a Internet não será mais do jeito que conhecemos hoje. A dominação neoliberal da rede mundial de computadores exige uma reação à altura.

Cientes de que temos muito trabalho neste sentido, sobretudo às vésperas de 2018, um ano decisivo para o futuro do Brasil, pedimos a sua adesão ao nosso projeto: torne-se um parceiro da CARTA MAIOR (saiba como aqui), compartilhe o nosso conteúdo e a nossa campanha de doação em suas redes sociais e de contato. 

Boas festas,
Joaquim Ernesto Palhares
Diretor da Carta Maior

Créditos da foto: Reprodução
CARTA MAIOR

O alto preço de negar a luta de classes

 

O crescimento do populismo dos dois lados do Atlântico está sendo investigado sob os ângulos psicanalítico, cultural, antropológico, estético e, (...)

 


A atmosfera política da anglosfera está tomada pela indignação burguesa. Nos Estados Unidos, o chamado establishment liberal está convencido de ter sido roubado por uma insurgência de "deploráveis" armados por hackers de Vladimir Putin e pelo funcionamento interno sinistro do Facebook. Na Grã-Bretanha, igualmente, uma burguesia furiosa precisa se beliscar para acreditar que o apoio para trocar a União Europeia por um isolamento inglório continua inabalável apesar de um processo que poderia ser descrito como um Brexit de cão.

O intervalo da análise é surpreendente. A ascensão do paroquialismo militante dos dois lados do Atlântico está sendo investigada sob todos os ângulos imagináveis: psicanalítico, cultural, antropológico, estético e, claro, em termos de política identitária. O único ângulo ignorado é justamente aquele que contém a chave para entender o que acontece: a luta de classes travada contra os pobres incessantemente desde o fim da década de 1970.

Em 2016, o ano do Brexit e de Trump, tomemos dois dados devidamente negligenciados pelos mais perspicazes analistas do establishment. Nos EUA, de acordo com os dados do Fed, o Banco Central americano, mais de metade das famílias americanas não têm as condições mínimas para obter um empréstimo para comprar o carro mais barato no mercado (o sedan Nissan Versa, a 12.825 dólares). Enquanto isso, no Reino Unido, mais de 40% das famílias dependem de crédito ou de bancos de alimentos para se alimentar e cobrir as necessidades básicas.

William de Ockham, filósofo britânico do século XIV, argumentava que, quando confusos diante de explicações conflitantes, devemos optar por aquela com menos suposições e de maior simplicidade. Pois todos os habilidosos comentaristas do establishment nos EUA e na Grã-Bretanha parecem ter negligenciado esse princípio.

Relutando em perceber a intensificação da luta de classes, martelam suas intermináveis teorias de conspiração sobre a influência russa, enquanto disparam rajadas espontâneas de misoginia, queixas contra a maré de migrantes, o domínio das máquinas e assim por diante. Embora todos esses medos estejam estreitamente correlacionados com o paroquialismo militante que alimenta os fenômenos Trump e Brexit, eles apenas tangenciam sua causa mais profunda – a luta de classe contra os pobres – evidenciada pelos dados sobre a acessibilidade ao carro, nos EUA, e a dependência de crédito de grande parte da população britânica.

É verdade que alguns eleitores da classe média relativamente alta também apoiaram Trump e o Brexit. Mas muito desse apoio é decorrente do medo causado pela observação das classes logo abaixo, mergulhadas em desespero e raiva, ao mesmo tempo em que viam encolher as perspectivas de seus próprios filhos.

Há vinte anos, os mesmos comentaristas liberais cultivavam o sonho impossível de que a globalização do capitalismo financiado ofereceria prosperidade para quase todos. Num momento em que o capital estava cada vez mais concentrado, em escala global, e mais militante contra quem não possuíam ativos, eles declaravam a guerra de classes. À medida que a classe trabalhadora crescia em tamanho no mundo todo, apesar de seus empregos e perspectivas de emprego encolherem na anglosfera, essas elites se comportavam como se o conceito de classe fosse ultrapassado.

O colapso financeiro de 2008 e a recessão subsequente enterraram esse sonho. Ainda assim, os liberais ignoraram o fato inegável de que as perdas gigantescas sofridas pelo quase criminoso setor financeiro foram cinicamente transferidas para os ombros da mesma classe trabalhadora à qual não davam mais nenhuma importância.

Apesar de se verem como progressistas, a prontidão das elites em ignorar a ampliação das divisões de classe e substituí-las por políticas de identidade cegas para a questão (de classe) foi o maior presente para o populismo tóxico. Na Grã-Bretanha, o Partido Trabalhista (sob Tony Blair, Gordon Brown e Edward Miliband) foi tímido demais para sequer mencionar a intensificação da luta de classes pós-2008 contra a maioria, levando ao crescimento, em todo o coração trabalhista, do Partido de Independência do Reino Unido (UKIP), com seu paroquialismo Brexit.

A sociedade educada parecia não se importar com o fato de que se tornara mais fácil entrar em Harvard ou Cambridge sendo negro do que sendo pobre. Eles ignoraram deliberadamente que as políticas identitárias podem ser tão desagregadoras quanto o apartheid se utilizadas como ferramenta para invisibilizar o conflito de classes.

Trump não demonstrou escrúpulo algum para falar de classes claramente e incluir – ainda que enganosamente – quem não tinha como comprar um carro financiado, muito menos mandar seus filhos para Harvard. Os partidários do Brexit, igualmente, abraçaram os britânicos do andar de baixo, como tentavam mostrar imagens do líder do UKIP Nigel Farage bebendo em pubs com "sujeitos comuns". E quando grandes faixas da classe trabalhadora deram as costas para os filhos e filhas favoritas do establishment (os Clintons, os Bushes , os Blairs e os Camerons), preferindo endossar o paroquialismo militante, analistas e comentaristas culparam as ilusões da ralé sobre o capitalismo.

Mas não foram as ilusões sobre o capitalismo que levaram ao descontentamento que alimentou a vitória de Trump e do Brexit. Pelo contrário, é a desilusão com a política moderada como a que intensificou a guerra contra as classes populares.

Previsivelmente, a inclusão da classe trabalhadora por Trump e pelos partidários do Brexit os armaria de um poder eleitoral que, mais cedo ou mais tarde, se voltaria contra os interesses da classe trabalhadora e, claro, das minorias – o comportamento habitual do populismo no poder, desde a década de 1930 até hoje. Assim, Trump usou o apoio da classe trabalhadora para conduzir reformas fiscais escandalosas, cuja ambição evidente é ajudar a plutocracia, enquanto milhões de americanos enfrentam cortes na cobertura de saúde e, à medida que o déficit orçamentário federal incha, maiores impostos de longo prazo.

Da mesma forma, o governo conservador da Grã-Bretanha, que abraçou os objetivos populistas de Brexit, anunciou recentemente mais uma redução de bilhões de libras em programas sociais, educação e reduções fiscais para os trabalhadores pobres. Esses cortes equivalem exatamente às reduções nos impostos corporativos e sobre herança.

Os comentaristas do establishment, que tanto desdenham da pertinência das classes sociais, acabaram contribuindo para criar um ambiente político em que a política de classe é mais pertinente e tóxica – e menos discutida – do que nunca. Falando em nome de uma classe dominante composta por consultores financeiros, banqueiros, representantes corporativos, proprietários de mídia e executivos da indústria, eles agem como se seu objetivo fosse justamente entregar as classes trabalhadoras nas mãos sujas dos populistas e sua promessa vazia de fazer a América e a Grã-Bretanha "voltarem a ser grandes".

A única perspectiva de civilizar a sociedade e desintoxicar a política está em um movimento político que aproveite, em nome de um novo humanismo, a incômoda injustiça evidenciada pela luta de classes. A julgar pela forma impiedosa como trata o senador dos EUA, Bernie Sanders, e o líder trabalhista inglês Jeremy Corbyn, o establishment liberal parece temer esse movimento mais do que teme Trump e o Brexit.

Tradução de Clarisse Meireles
Fonte: CARTA MAIOR