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terça-feira, 5 de outubro de 2021

200 da Independência | “Fundadores do Brasil”: José Bonifácio

Passados quase duzentos anos dos episódios que conduziram à emancipação política do Brasil em relação à sua antiga metrópole portuguesa, a natureza e o papel de um de seus principais articuladores permanece ainda em debate. Nesse encontro que reúne as pesquisadoras Ana Rosa Cloclet da Silva (PUC-Campinas) e Isabel Corrêa da Silva (Instituto de Ciências Sociais, Universidade de Lisboa), as ideias políticas de José Bonifácio de Andrada e Silva serão analisadas a partir do emaranhado campo de possibilidades que as geraram, e também interpretadas tendo em vista o impacto que tais ideias causaram na gramática política conservadora que atravessou o Brasil ao longo do século XIX.

Para antecipar o conteúdo da live há dois comentários das professoras sobre a importância de José Bonifácio para a Independência do Brasil.

O que dizer de José Bonifácio e a “invocação do futuro”, no sentido da construção do Estado independente e do projeto nacional brasileiro?

Ana Rosa Cloclet da SilvaJosé Bonifácio de Andrada e Silva (1763-1838), reputado por muitos como o “Patriarca da independência”, constitui uma das mais personagens políticas mais frequentadas por sucessivas gerações de historiadores. O que, longe de torná-lo uma obviedade, ou resultar em algum consenso analítico sobre seu efetivo papel nos acontecimentos que marcaram a ruptura política entre Brasil e Portugal, em 1822, continua nutrindo polêmicas atuais, elucidativas sobre os modos como operamos com o passado, à luz de nossos sucessivos presentes. A tal ponto que, não seria exagero afirmar que José Bonifácio nos é quase tão desconhecido quanto os mais anônimos protagonistas de nossa história.  Afinal, a fama e sua contraface, a difamação, acabam por produzir o mesmo efeito: soterrar a figura humana do celebrado, ou do difamado.

É neste sentido, lembrando que há muito a ideia da “história do homem” foi substituída pela ideia da “história dos homens em sociedade” e na duração, que a presente contribuição se propõe a discutir algumas dimensões do projeto nacional de José Bonifácio. Esta discussão será empreendida à luz de uma trajetória que o situa na dupla condição de herdeiro – da tradição ilustrada luso-brasileira – e de construtor de um Estado e uma nação brasileiros, em moldes que implicavam a ruptura com o próprio constructo político de cuja crise emergiram.

Assim, integrando o quadro da intelectualidade luso-brasileira recrutada para atuar politicamente no momento derradeiro da crise do absolutismo reformista, as ideias de José Bonifácio serão aqui percebidas não como as de um homem supostamente à frente de seu tempo, nem, tampouco, como as de um retrógrado, empenhado em moldar a experiência revolucionária da independência do Brasil à Monarquia Constitucional na figura de D. Pedro I e à reiteração do regime escravista.

Ao contrário destas visões valorativas, que carregam a história de subjetivismo disfarçado de rigor metodológico e acuidade crítica, o que se busca é trazer à tona o modo como este letrado e estadista vivenciou algumas das transformações operadas num tempo acelerado. Ao abrirem um novo campo de ação e previsões aos sujeitos coevos, este conjunto de transformações liberou expectativas que já não decorriam apenas da experiência vivida. É nesta “invocação do futuro”, portanto, que brotam as ideias e o projeto nacional andradino, como se pretende discutir.

 

José Bonifácio de Andrada e Silva: liberal ou conservador? Português ou Brasileiro?

Isabel Corrêa da SilvaO império brasileiro é um resultado inesperado do radicalismo e inflexibilidade da assembleia nacional revolucionária e constitucional portuguesa (Cortes) que saiu da revolução liberal de 1820. Se, por um lado, a independência brasileira foi certamente um passo em frente em relação ao estatuto colonial de Antigo Regime, por outro, sendo uma nação resultante de uma reacção dinástica a um movimento revolucionário, o Brasil independente nasceu com uma espécie de DNA conservador que terá um impacto profundo e duradouro na sua cultura política e nos desenvolvimentos políticos ao longo do século XIX. Nesta reflexão, tentarei localizar a genealogia intelectual e política do discurso conservador brasileiro do século XIX, pondo-o em diálogo com o discurso de finais do século XVIII sobre o Brasil e a monarquia atlântica portuguesa, através da figura matricial de José Bonifácio de Andrade e Silva, o chamado “patriarca da Independência”.

 

A Fundação Biblioteca Nacional convida para um episódio da série “200 da Independência”.

Quinta-feira, 14 de outubro de 2021, às 17h.

"Fundadores do Brasil" – José Bonifácio

Por Ana Rosa Cloclet da Silva (PUC-Campinas) e Isabel Corrêa da Silva (ICS, Universidade de Lisboa)

 

Ana Rosa Cloclet da Silva é Docente da Faculdade de História da PUC-Campinas e do Programa de Pós-Graduação Stricto Sensu em Ciências da Religião, pela mesma Universidade, com projetos integrados à Linha de Pesquisa: Fenômeno Religioso: instituição e práticas discursivas. Doutora em História pela Universidade Estadual de Campinas (2000) e pós-doutora na mesma área pela USP (2007), com projeto integrado ao grupo temático: “Brasil: Formação do Estado e da Nação”, coordenado por Istvan Jancsó. Possui graduação em Ciências Econômicas pela Universidade Estadual de Campinas (1993) e mestrado em História pela Universidade Estadual de Campinas (1996). Tem experiência na área de História, com ênfase em História do Brasil Império. Atualmente, desenvolve pesquisas na área de História das Religiões, com pesquisas focadas na articulação dos fenômenos religião e política no Brasil do século XIX. Integra a rede de pesquisadores vinculados ao Projeto Iberoamericano de História Conceitual, mais conhecido como Iberoconceptos, no âmbito do grupo “Religón y Política”, que analisa as trajetórias semânticas de alguns conceitos expressivos das mutações nos nexos entre religião e política para diferentes quadrantes latinoamericanos, bem como os vínculos entre estas trajetórias ao longo do século XIX. Sua dissertação de mestrado, desdobrada na tese de doutoramento, teve como tema o projeto nacional de José Bonifácio de Andrada e Silva, trazendo à tona a filiação de suas ideias ao reformismo ilustrado luso-brasileiro. Neste sentido, seus trabalhos desvendam a trajetória de um personagem, ao mesmo tempo moldada e modeladora da transição de um Império luso-brasileiro a um Império brasílico. É autora de diversos artigos publicados em Revistas nacionais e estrangeiras e dos livros:

- Inventando a Nação. Intelectuais Ilustrados e Estadistas Luso-Brasileiros na Crise do Antigo Regime Português: 1750-1822. 1. ed. São Paulo: HUCITEC, 2006. (Resultado de sua tese de Doutorado).

- Construção da Nação e Escravidão no pensamento de José Bonifácio: 1783-1823. 1. ed. Campinas: Editora da Unicamp/Centro de Memória, 1999. (Resultado do seu mestrado)

- SILVA, A. R. C.; STEFANO, Roberto (Org.). História das religiões em perspectiva: desafios conceituais, diálogos interdisciplinares e questões metodológicas. 1. ed. Curitiba: Prismas, 2018. v. 1. 389p .

- ____(orgs.). Catolicismos en perspectiva histórica: Argentina y Brasil en diálogo. Buenos Aires: Teseo: 2020.

- SILVA, A. R. C.; NICOLAZZI, Fernando (Org.) ; PEREIRA, M. (Org.) . Contribuições à História da Historiografia Luso-Brasileira. 1. ed. São Paulo: Hucitec, 2014. v. 1. 463p.

 

Isabel Corrêa da Silva é investigadora auxiliar do ICS, Universidade de Lisboa. Doutora em História pela Universidade de Lisboa (2012). A sua área de investigação é a cultura política oitocentista em Portugal e no Brasil. Interessa-se particularmente por questões relacionadas com regimes políticos, paisagens ideológicas e estruturas institucionais do republicanismo, liberalismo e monarquias constitucionais em Portugal e no Brasil. É coordenadora do Programa de Doutoramento em História do ICS e membro da Comissão Científica e docente do Mestrado em Estudos Brasileiros. É a coordenadora portuguesa da rede internacional Conexões Lusófonas. Escreveu diversos trabalhos na área de história política, como O Espelho Fraterno: o Brasil e o republicanismo português na transição para o século XX (Divina Comédia, 2013); co-editora (com Rui Ramos e José Murilo de Carvalho) e autora de A Monarquia Constitucional dos Braganças em Portugal e no Brasil (1822-1910) (D. Quixote, 2018); e co-editora e autora de Ciências sociais cruzadas entre Portugal e o Brasil. Trajectos e investigações no ICS (Imprensa de Ciências Sociais, 2015). Atualmente co-coordena (com Rui Ramos, Nuno Monteiro, José Luís Cardoso) o projecto do Dicionário Crítico da Revolução Liberal Portuguesa, 1820-1834. (D. Quixote, a ser publicado em 2021).

Acesse o canal da FBN no Youtube para acompanhar esse e outros eventos:

www.youtube.com/c/FundacaoBibliotecaNacional

Fundação Biblioteca Nacional

Secretaria Especial da Cultura

Ministério do Turismo

Governo Federal

Fonte: https://www.bn.gov.br

LIVE: Filme 'O complô': lançamento do projeto será realizado no dia 6 de outubro

 

O Brasil foi colocado a serviço do sistema financeiro e de menos de 1% da população, enquanto os demais 99% sofrem com a inflação, o desemprego e a pobreza. Os escândalos se sucedem e o mais recente é o ministro da Economia e o presidente do Banco Central terem milhões de dólares aplicados em offshores localizadas em paraísos fiscais.

O livro “O Complô: como o sistema financeiro e seus agentes políticos sequestraram a economia brasileira”, escrito pelo Constituinte Hermes Zaneti, faz um exame das origens da Dívida Externa brasileira, de sua procedência, da validade legal dos instrumentos pelos quais a dívida se multiplicou. O autor faz uma cuidadosa reconstrução das batalhas que envolveram a Constituição de 1988, criando um documento especial ao descrever os meandros que envolveram a modelação do arcabouço legal que viria permitir que o mundo financeiro, e das finanças públicas, pudesse atuar sem regras, sem limites.

No dia 6 de outubro às 19h30 vamos iniciar a produção de “O Complô” um documentário que contará como chegamos a isso e o que fazer para mudar essa situação. Não perca a live com a participação do Constituinte Hermes Zaneti, autor do livro “O Complô: como o sistema financeiro e seus agentes políticos sequestraram a economia brasileira”. O evento será transmitido pela página da CNTE no Facebook.

Fonte: CNTE

Após live, ANDES-SN lança site e redes da campanha em defesa da Educação Pública


Na última semana (23-09), o ANDES-SN lançou com uma live-show a campanha “Defender a Educação Pública, essa é a nossa escolha!”. O evento, realizado em um heliporto em São Paulo, contou com apresentação da cantora brasiliense Ellen Oléria, participação da cantora paulistana Ana Cañas e do poeta mineiro radicado em São Paulo, Sérgio Vaz. Ao final, a cantora pernambucana Duda Beat fez um show de encerramento. Todas as artistas e o poeta declaram apoio à defesa intransigente da Educação Pública e convidaram o público a conhecer a campanha lançada pelo Sindicato Nacional.

Como etapa seguinte, foi inaugurado o site https://www.eudefendoaeducacao.com/. A plataforma reúne informações sobre a campanha, sobre os cortes orçamentários na Educação Pública, promovido pelos governos federal, estaduais e municipais e sobre a importância da pesquisa e produção de conhecimento nas instituições públicas de ensino. Traz ainda um canal de contato com o ANDES-SN, que pode ser feito também através do email campanha campanhaeducacao@andes.org.br

Além do site, a campanha conta com perfis no Facebook (https://www.facebook.com/eudefendoaeducacaopublica) e no Instagram (https://www.instagram.com/eudefendoaeducacaopublica/), nos quais também serão compartilhados os conteúdos para mobilização em defesa da educação pública.

Claudio Mendonça, 2º vice-presidente da Regional Nordeste 1 do ANDES-SN e da coordenação do Grupo de Trabalho de Comunicação e Arte (GTCA),  ressalta que a campanha busca conscientizar a população sobre como os ataques à Educação pública atingem, e dizem respeito, a toda a sociedade brasileira. Além disso, busca pressionar e sensibilizar parlamentares e governantes pela reposição do orçamento das universidades públicas, institutos federais e cefets.

“A campanha foi motivada a partir do debate orçamentário, que tem sido profundamente afetado pelos sucessivos cortes dos governos, o que tem levado a um quadro insustentável”, afirma o diretor do ANDES-SN.

De acordo com o coordenador do GTCA do Sindicato Nacional, a previsão é que a campanha, uma deliberação do 11º Conad Extraordinário dure ao menos cinco meses. As próximas peças da campanha serão divulgadas nas redes sociais da campanha e do ANDES-SN. Além de cards, serão divulgados vídeos e realizados eventos artísticos pontuais para ampliar a divulgação da luta em defesa da educação pública.

Live-show
O lançamento da Campanha “Defender a Educação Pública, essa é a nossa escolha!” contou com a presença da presidenta do ANDES-SN, Rivânia Moura, da diretora Joselene Mota e do diretor Cláudio de Souza Mendonça, além de representantes da UNE e da Fasubra. Durante a live, também foram exibidos vídeos com saudações de diversas entidades como a Ubes, Fenet, Sinasefe, CSP-Conlutas, entre outras.

Assista aqui:

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Fonte: ANDES SN

domingo, 3 de outubro de 2021

Célia Xakriabá, Tukumã Pataxó e Cristian Wariu lançam programa de podcast “Papo de Parente”

  POR NINJA

Na última quinta-feira (30), mais uma ocupação da juventude indígena ocorreu na podosfera com o lançamento do programa “Papo de Parente”. Célia Xakriabá, Tukumã Pataxó e Cristian Wariu são as primeiras vozes indígenas a demarcar um espaço como a Globoplay e estarão no comando de conversas sobre suas vivências, respondendo questões de convidados como Caetano Veloso, Lucas Penteado, Letícia Sabatella e Sônia Bridi.

Célia é professora e ativista do povo Xacriabá. Foi a primeira doutoranda indígena da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), investigando o conhecimento de alunos indígenas. Tukumã Pataxó é estudante de gastronomia na Universidade Federal da Bahia, influencer digital e vai trazer ao programa receitas simples, com grande significado, para que as pessoas consigam reproduzir em casa. Cristian Wariu, do povo Xavante, também é midiativista, responsável pela edição e apresentão do podcast ‘Copiô, Parente?!’.

Papo de Parente estreia com duas temporadas com quatro episódios cada. A primeira será ‘Identidades’ e ficará disponível semanalmente no GloboPlay e Deezer. O podcast é uma realização da produtora Vem de Áudio, com produção e direção criativa de Letícia Leite.

Confira abaixo o primeiro episódio:

Fonte: MIDIA NINJA
Adaptado pelo Centro Potiguar de Cultura - CPC-RN

REBELE-SE CONTRA O RACISMO!

 


Astrojildo e a última visita a Machado de Assis

 

Fonte: Portal BRASIL CULTURA

quarta-feira, 29 de setembro de 2021

Único artista brasileiro negro selecionado pela Bienal de Florença abre vaquinha online para ir à Itália

 

Deivison Silvestre em seu ateliê

O artista plástico Deivison Silvestre, 32 anos, é o único mineiro (e único negro) entre quatro brasileiros selecionados para participar da XIII Bienal Internacional de Arte Contemporânea de Florença, na Itália, que vai acontecer entre os dias 23 a 31 de outubro.

Essa edição aborda conceitos de feminilidade em arte e design. Se conseguir os recursos necessários, Deivison Silvestre irá expôr três trabalhos. Tudo depende de quanto ele conseguirá arrecadar por meio de uma vaquinha online: https://benfeitoria.com/deivisonsilvestrenabienaldeflorenca2021

Natural de Mariana, o artista autodidata, formado em filosofia pela Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP), impressiona pela mistura de delicadeza e brutalidade das imagens que cria, com forte apelo político e social





DCM: Deivison, não só as obras selecionadas pela Bienal, mas muitos de seus quadros contém representações impactantes da mulher. O que te inspira a criar essas figuras femininas?





Sua obra carrega uma constante denúncia social, sobretudo do Brasil miserável. De que maneira a realidade provoca sua arte?

Minhas obras podem ser divididas em dois grupos: psicossocial, que busca expressar a dimensão subjetiva humana e sua articulação racional em negociar seu desejo (falta) no contexto contratual político – o homem político (zoompolitokos); e o grupo psicofisiológico, das expressões humanas que se justificam na angústia, no medo da morte, da dor e prazer. As narrativas que construo mostram a condição humana como um servo da vontade, tendo o paradigma da racionalidade como possibilidade de controle sobre o desespero. Minhas obras são resultado das minhas experiências fenomenológicas e, dessa forma, é coerente que meu olhar esteja voltado para os eventos sociais e políticos nacionais que me cercam, ou seja, a realidade brasileira.

De que forma sua formação em filosofia interage com sua obra?

Minha formação em filosofia foi determinante para a construção do conceito que criei, para explicar meu estilo e meu processo: o de “simiosofia”, em que as obras emergem à consciência após um processo dialético de um determinado recorte social. Uni as palavras símio (primatas = uma alusão às pulsões desmedidas) e sofia (sabedoria = a racionalidade como evidência histórica e não uma condição natural), para apontar o que torna coerente a construção política. A simiosofia se fundamenta no discurso próprio da filosofia. Minha intenção é negar a metanarrativa da arte e seus cânones clássicos, aproximando a filosofia e a arte. 

Você é de Mariana, cidade histórica marcada pelo barroco. Isso te influenciou? Quais suas influências artísticas?

A atmosfera da cidade impõe a reflexão em direção à apreciação artística, em que ateliê e arquitetura somam um conjunto notório de riquezas visuais. Fui afetado por isso, certamente. Por vezes, caminhava pelas ruas da cidade, admirando pintores em seu ato de criação, percebendo cores e a harmonia das obras. Crescia com a inclinação às artes até compreender que minhas primeiras criações eram um resultado do meu silêncio diante da vida, por não compreendê-la e, por essa razão, negá-la. Meus estudos em arte me levaram a conhecer grandes artistas que, de alguma forma, atravessam meu trabalho, como Picasso, Dali, Saudek, Zdzistaw Beksinski, Modigliani, Olivier de Sagazan…

É impressionante saber que você é autodidata, quando observamos a maestria dos seus traços. Como foi o seu processo de aprendizagem?

Um grande amigo certa vez me disse: “sua arte é um dom, é quem você é, está na sua medula”. A arte sempre foi meu maior recurso para dizer quem sou e sobre o que penso. O aprimoramento técnico deu-se a partir de uma vida intensa de dedicação, que se desdobrou em reflexões, estudos, experiências, visibilidade – tudo isso retroalimentou meu processo de aprendizagem.

Qual o significado de ser o único artista mineiro e negro selecionado para a Bienal?

Ser o único mineiro traz a responsabilidade de representar grandes artistas regionais, que buscam tornar sua arte instrumento de dignidade; me faz continuar o fluxo da representatividade negra nas artes visuais, adormecido historicamente em Antônio Francisco Lisboa (Aleijadinho), que teve sua cor apagada no tempo, pelas narrativas coloniais. Sendo negro, percebo o quão relevante esse momento é para o quadro de referências históricas de figuras negras, que começam a ocupar lugares restritos (próprios àqueles que não vivem presos ao “mundo do trabalho”) – como tem sido nas artes visuais – e tenho consciência de que isso poderá ressoar na história de outros artistas negros.

Qual o papel social e político da arte e como é ser artista num contexto como o atual, sobretudo no Brasil, contaminado por essa onda conservadora, que hierarquiza a cultura e tenta definir o que é ou não digno de admiração?

A arte conduz o espectador à reflexão sobre a condição humana, é um espelho que reflete tormentos e paixões reprimidas pela moralidade. Como artista, exerço papel fundamental nesse contexto político nacional, assim como outros artistas o fizeram noutros momentos históricos – posso citar o expressionismo alemão – , quando assumo a posição de canalizar perspectivas possíveis sobre a vida, num período de posturas conservadoras, discursos inflamados de ódio e ancorados pela religiosidade.

Você foi convidado a participar da Bienal de Florença, em 2019, mas não teve dinheiro para ir. Agora, tenta mobilizar doações para a edição de 2021. Faltam políticas públicas de apoio à arte no Brasil?

O contexto atual no país é de paralisação de programas que fomentam a cultura. Faltam não só investimentos públicos, como também participação das empresas em manifestações artísticas diversificadas, para além de nomes consagrados e centros urbanos. A maior parte das verbas das leis de incentivo à cultura ainda ficam nas capitais e sobra quase nada para a riquíssima produção artística do interior.

Ainda não entendemos a força econômica da cultura, o que ela gera em emprego e renda. Como políticas públicas culturais ainda não são eficientes no país, recorremos a iniciativas como a vaquinha online. Atualmente a Produtora Cultural Asante gerencia minha carreira, mas estou à procura de patrocinadores engajados na construção de novas realidades na arte.

Como é sobreviver e resistir pela arte nesse país?

Parafraseando o pensador Nietzsche: “Estar à beira do abismo e ainda ser capaz de dançar”. O triste é conviver com a certeza de que muitos caem e seus “corpos” são recuperados pela história.

O que você espera ao pisar em Florença, berço do Renascimento, com todo esse simbolismo histórico, cultural e artístico?

Espero firmar meu nome e arte na eternidade. Espero contribuir com meu conhecimento artístico, fruto de um trabalho ininterrupto na tentativa de documentar as relações sociais do meu tempo. Ser tomado pela atmosfera de uma cidade referência na construção da história da arte, poder admirar diretamente obras de grandes mestres como Michelangelo, Botticeli, Caravaggio… estou certo de que essa experiência será encantadora – permito-me, aqui, um impulso metafísico para prever esse acontecimento -, e terá grande influência sobre meu processo artístico.

Fonte: DIÁRIO DO CENTRO DO MUNDO - DCM

Como eu tirei as fotos de Lamarca ensinando mulheres a atirar e perdi o crédito por elas. Por Bia Parreiras

 

Bia Parreiras e suas fotos de Carlos Lamarca

Eu comecei a fotografar durante a efervescência do Movimento Estudantil em 1968 e logo fui convidada a estagiar no jornal Última Hora, na sucursal de São Paulo. Eu estava com 20 anos e cursava a faculdade de Sociologia. 

A cobertura da matéria pautada era ir até Osasco, em Quitaúna, fotografar o treinamento de tiro ao alvo das caixas do Bradesco para defenderem as agências bancárias de assaltos. 

Eu cheguei ao quartel e percorri com os olhos todas as cenas. Havia um grupo de executivos vestindo terno e gravata, mais vários militares fardados ostentando muitas estrelas. O grupo de garotas com outros fardados sem estrelas. As garotas empunhavam armas mirando num alvo com dois ou três treinadores. 

Comecei a fotografar sem entender o porquê daquele monte de gente. Lá pelas tantas me deu vontade de atirar e pedi para o capitão e ele me passou a arma, que era de calibre baixo. 

Eu reconheci porque morei muitos anos em fazenda e junto com o meu irmão praticávamos tiro ao alvo com espingarda de chumbo. Assim, eu segurei firme a arma, mirei concentrada e acertei o alvo. 

Depois voltei a fotografar e fui para o grupo de homens olhar quem teria de importante. Lamarca logo apareceu por lá e e se reuniu com o grupo. 

Ele era de um um dos melhores atiradores e campeão brasileiro nessa modalidade, o que logo soube pelos comentários do grupo. Era uma pessoa respeitada por todos os seus superiores, por isso foi convidado para dar esse treinamento. 

O evento continuou e em seguida aconteceria um plantio de árvores pelos convidados. Foi então que o Lamarca se aproximou de mim e pediu que eu plantasse uma árvore, em nome da imprensa, para o Exército Brasileiro. Eu recusei imediatamente, agradeci e me afastei, mas ele voltou a me procurar e insistiu. A essas alturas eu já estava com medo de ser presa se recusasse e plantei a árvore.

Quando eu cheguei de volta em casa contei a história para um grupinho de amigos que sempre se reunia para discutir as estratégias do Movimento Estudantil em torno de uma mesa de mármore. Era na casa da minha tia, onde eu morava. 

Todos me deram a maior bronca por eu ter plantado a tal árvore. Isso foi em dezembro de 1968 e o AI5 foi decretado dias após o treinamento. 

Um mês depois o capitão Carlos Lamarca desertou do exército e fugiu com um caminhão lotado de fuzis para iniciar a guerrilha contra a ditadura. Ele tinha 32 anos anos quando fez isso. 

Claro que a minha turma de revolucionários estudantis me pediu para repetir cada palavra que o nosso herói falou comigo. E o Exército Brasileiro a que ele se referiu era o da Vanguarda Popular Revolucionária – VPR.

Lamarcar ensina caixas de banco a atirar (FOTOS DE BIA PARREIRAS)

Desde 1969 as as fotografias que eu fiz naquele dia vêm sendo publicadas na imprensa, livros, enciclopédia etc sem o meu crédito, que se perdeu lá atrás quando a Última Hora foi vendida. Tudo isso foi contado só para amigos e amigas e eu nunca assumi publicamente, mesmo com o ressentimento de ter uma fotografia histórica não reconhecida. 

Agora, foi o grupo Fotógrafos pela Democracia que me motivou e cobrou essa declaração pública. Eu demorei para juntar as peças dessa História. Primeiro fui ao arquivo oficial do Estado de São Paulo, onde encontrei algumas ampliações e publicações do Última Hora. 

Depois fui no arquivo da Folha, onde estão algumas poucas tiras dos dois filmes TRI X e o restante foi levado para outros jornais, porque ainda não havia controle e organização. Eu fui pesquisar isso só depois que me aposentei da Editora Abril, porque era um trabalho demorado e antes eu não tinha tempo. 

Tem mais outro detalhe: naquela época as fotografias publicadas não levavam crédito, por isso eu estou assumindo publicamente que a autoria dessas fotografias do capitão Carlos Lamarca, um grande herói brasileiro, que lutou contra a ditadura militar assassina, são que minha autoria: Bia Zaccarelli Parreiras.

Naquela época, eu era Beatriz Zaccarelli.

Lamarca em 1968 (FOTOS DE BIA PARREIRAS)

Fonte: https://www.diariodocentrodomundo.com.br