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segunda-feira, 25 de maio de 2020

Coronavírus: as dicas da Organização Mundial da Saúde para não 'pirar' de preocupação com a epidemia

Lavar bem as mãos é a maneira mais eficaz de evitar o contágio
À medida que as autoridades em todo o mundo anunciam imposição de quarentena, outras restrições e dão orientações para tentar conter o avanço do novo coronavírus, é normal que mais pessoas se sintam assustadas ou estressadas diante de tantas notícias.
A Organização Mundial da Saúde divulgou nesta terça-feira (10/03) um relatório com recomendações para evitar o estresse que o avanço da doença pelo mundo está causando na população.
A doença covid-19, que pode causar febre, tosse e problemas respiratórios, está se espalhando pelo mundo e já afetou mais de 114 mil pessoas.
As considerações da OMS foram elaboradas pelo Departamento de Saúde Mental da entidade, como forma de ajudar no apoio ao bem-estar mental e psicológico durante o surto do coronavírus.
Veja as principais sugestões da OMS de cuidados para evitar que a prevenção contra a covid-19 prejudique sua saúde mental:

Respeite, celebre, valorize, compartilhe nossa real e importante historia.

Respeite, celebre, valorize, compartilhe nossa real e importante historia.

"Saudações aos IRMÃOS AFRICANOS PELO SEU DIA!"- Eduardo Vasconcelos, presidente do Centro Potiguar de Cultura - CPC/RN.

domingo, 24 de maio de 2020

Heleno ameaça STF após decisão de apreender celulares de Bolsonaro e sinaliza golpe

General Augusto Heleno
General Augusto Heleno (Foto: Marcos Corrêa/PR)

247 - O ministro-chefe do GSI (Gabinete de Segurança Institucional), Augusto Heleno, ameaçou diretamente o Supremo Tribunal Federal e criticou o pedido de apreensão dos celulares de Jair Bolsonaro e de seu filho, Carlos Bolsonaro, após decisão tomada pelo ministro Celso de Mello à PGR (Procuradoria-Geral da República) para avaliação.

Heleno disse que o pedido é "inconcebível e, até certo ponto, inacreditável" em nota enviada à imprensa. O ministro considerou que a medida "seria uma afronta à autoridade máxima do Poder Executivo e uma interferência de outro poder na privacidade do presidente da República e na segurança institucional do país".
A nota do ministro Heleno ainda enviou um "alerta" de que a apreensão dos celulares "poderá ter consequências imprevisíveis para a estabilidade nacional". Saiba mais:
247 - O decano do Supremo Tribunal Federal, ministro Celso de Mello, decidiu partir para cima do clã  Bolsonaro e pediu o depoimento do presidente, assim como a busca e apreensão do celular dele e de seu filho, Carlos Bolsonaro, para perícia. Em despachos enviados nesta quinta-feira (21) à PGR, o ministro ressaltou ser dever jurídico do Estado promover a apuração da "autoria e da materialidade dos fatos delituosos narrados por ‘qualquer pessoa do povo’”.
“A indisponibilidade da pretensão investigatória do Estado impede, pois, que os órgãos públicos competentes ignorem aquilo que se aponta na ´notitia criminis´, motivo pelo qual se torna imprescindível a apuração dos fatos delatados, quaisquer que possam ser as pessoas alegadamente envolvidas, ainda que se trate de alguém investido de autoridade na hierarquia da República, independentemente do Poder (Legislativo, Executivo ou Judiciário) a que tal agente se ache vinculado”, escreveu o ministro do STF.
Fonte: BRASIL 247

Encontro de artistas pela Amazônia reúne Wagner Moura, Jane Fonda e Morgan Freeman

Morgan Freeman

O evento ocorre no próximo dia 28, a partir das 21 horas (no horário de Brasília) e se chama “Artists United for Amazonia: Protecting the Protectors”. A música do evento ficará por conta de artistas como Herbie Hancock, Kali Uchis, Ivan Lins e Luciana Souza
247 - Encontro de artistas e celebridades em defesa da Amazônia irá reunir Wagner Moura, Sônia Guajajara, Oona Chaplin (Game of Thrones), Jane Fonda, Morgan Freeman, Alfre Woodard, Matthew Modine e Q'orianka Kilcher. O evento ocorre no próximo dia 28, a partir das 21 horas (no horário de Brasília) e se chama “Artists United for Amazonia: Protecting the Protectors” (Artistas Unidos pela Amazônia: Protegendo os Protetores).

A transmissão será feita pelo site e pelo Facebook da campanha e vai arrecadar doações para o Fundo de Emergência da Amazônia para iniciativas que procuram ajudar os moradores da região durante a pandemia do novo coronavírus.
A música do evento ficará por conta de artistas como Herbie Hancock, Kali Uchis, Ivan Lins e Luciana Souza.
Fonte: BRASIL 247

Em São Paulo – MUSEU DA DIVERSIDADE SEXUAL INAUGURA EXPOSIÇÃO DIGITAL QUEERENTENA COM 60 OBRAS

A primeira exposição digital idealizada pelo Museu da Diversidade Sexual – MDS, instituição vinculada à Secretaria de Cultura e Economia Criativa do Estado de São Paulo, ficará disponível para acesso público a partir do dia 25 de maio no site do Museu (mds.org.br) e na plataforma #CulturaEmCasa (www.culturaemcasa.com.br). A data também comemora o aniversário de oito anos do MDS, primeiro equipamento cultural da América Latina relacionado à temática LGTBI+.
Lançada no dia 20 de abril pela Secretaria de Cultura e Economia Criativa do Estado de São Paulo, a plataforma de streaming e vídeo por demanda #CulturaEmCasa reúne o que há de melhor na programação cultural produzida por artistas e profissionais do setor. A ferramenta disponibiliza gratuitamente conteúdos inéditos das instituições de cultura do Estado de São Paulo e os conteúdos podem ser assistidos gratuitamente por televisão, computador, tablets e celulares. Em breve, serão lançados aplicativos para cada meio.
“Nosso objetivo é que o conteúdo cultural disponibilizado na plataforma seja amplo e diverso. É difusão cultural para todos e acesso 100% gratuito. E o Museu da Diversidade Sexual contribui com essa iniciativa de forma criativa e emblemática”, afirma Danielle Nigromonte, diretora-geral da Amigos da Arte, Organização Social que gere a instituição.
O Museu da Diversidade Sexual abriu chamada pública para participação de artistas e, das 358 inscrições recebidas, vindas de todas regiões brasileiras e também de países como Portugal e Alemanha, foram selecionados 31 artistas e um coletivo, totalizando 60 obras.
A mostra foi criada com o objetivo de visibilizar os modos que artistas LGBTI+ estão encontrando para criar e discutir o momento de isolamento social que estamos vivendo devido à pandemia de Covid-19. A curadoria da Mostra, composta por profissionais reconhecidos e atuantes na causa LGBTI+, narra que um ponto em comum entre a maior parte dos trabalhos recebidos é a discussão sobre como a sociedade de modo geral está passando por experiências que já são vivenciadas cotidianamente por pessoas LGBTI+, como a solidão, insegurança, ansiedade e isolamento.
As discussões também podem se associar de alguma forma à luta LGBTI+ contra a epidemia de HIV/AIDS iniciada nos anos 1980, quando não havia estudos suficientes e pouco se sabia sobre suas características, o modo de contaminação e os avanços possíveis da ciência na contenção do vírus. Outros trabalhos metaforizam a imagem das máscaras, que se antes podiam ser vistas como algo que serve para esconder, hoje são símbolos de segurança e proteção.
Todos os trabalhos foram criados no período da pandemia e reúnem linguagens artísticas diversas, como fotografia, colagem digital, ilustração (desenho e arte digital), pintura em aquarela e guache, escultura, fotoperformance, pintura, combinação de desenhos manuais com digitais, videoperformance, videodança, técnicas mistas de desenho e fotografia, gravação em áudio, pintura em fotografia, giz oleoso e desenho. Os trabalhos são de artistas de São Paulo (capital e interior), Curitiba (PR), Londrina (PR), Rio de Janeiro (capital), Brasília (DF), João Neiva (ES), Recife (PE), Belo Horizonte (MG) e Belém (PA).
“Nesse cenário de pandemia, o MDS se torna uma ferramenta importante para conectar e estimular a criatividade da comunidade, assim como ampliar a divulgação da produção artística LGBTI+ para o mundo.” diz Franco Reinaudo, diretor do Museu da Diversidade Sexual.
Artistas contemplados (em ordem alfabética):
  • Akira Umeda
  • Alan Piter Moraes Rios
  • Andrés Carmo
  • Caju
  • Carolina Lobo e Catarina Vaz
  • Cheo Gonzáles
  • Chica Vamo
  • Chico Monteiro
  • Coletivo “Haus of X”
  • Eduardo Mauer
  • Emily Lumbreras
  • Erick França
  • Fernanda Degolin e Jessica Crusco de Queiroz
  • Gabriel Darcin
  • Gabriel Tantacoisa
  • Joice Mendes
  • Julia Aiz
  • Keila Orona
  • Leíner Hoki
  • lualeo
  • Marcelo Prudente e Pedro Orlando
  • Maysa Sigoli
  • Rick Rodrigues
  • Rodrigo Kupfer
  • Sabrina Savani
  • Stephanie Gaddi Pollo
  • Tata Barreto
  • Vantees
  • Vinicius Monção
Sobre o Museu da Diversidade Sexual
Primeiro equipamento cultural da América Latina relacionado à temática, o Museu da Diversidade Sexual foi criado em maio de 2012 e é uma instituição vinculada à Secretaria de Cultura e Economia Criativa do Estado de São Paulo. Sua missão é preservar o patrimônio sócio, político e cultural da comunidade LGBTI+ brasileira através da coleta, organização e disponibilização pública de referenciais materiais e imateriais. As atividades culturais, educativas e expositivas do MDS têm foco nas orientações, identidades e expressões de gênero dissidentes.
Sobre a Amigxs da Arte
A Amigos da Arte, Organização Social de Cultura responsável pela gestão do Museu da Diversidade Sexual (MDS), trabalha em parceria com o Governo do Estado de São Paulo e iniciativa privada desde 2004. Música, literatura, dança, teatro, circo e atividades de artes integradas fazem parte da atuação da Amigos da Arte, que tem como objetivo difundir a produção cultural por meio de festivais, programas continuados e da gestão de equipamentos culturais públicos como o Teatro Sérgio Cardoso e o Teatro Estadual de Araras. Saiba mais em: www.amigosdaarte.org.br.
Museu da Diversidade Sexual (MDS)
Estação República do Metrô, n° 24. R. do Arouche – República. São Paulo (SP).
O museu está localizado dentro da Estação República do Metrô, atrás da bilheteria. Piso Mezanino, loja 518.
Fonte: Portal BRASIL CULTURA

Cacá Diegues: Governo Bolsonaro é mais horrível que a ditadura militar

Cacá Diegues
Um mundo mais leve, menos sufocante e apressado, em que a natureza é vista como parceira da vida no planeta – e não como uma inimiga que devemos conquistar. A redescoberta mundial da solidão e da solidariedade durante a quarentena é o que leva Cacá Diegues a vislumbrar novos tempos pós-pandemia.
“Passada a crise letal da Covid-19, não seremos mais os mesmos. Teremos de reaprender a conviver e ajudar a construir a nova civilização que virá depois da peste”, diz o cineasta, em entrevista ao jornal Valor Econômico. “O cinema também nunca mais será o mesmo – e tenho de agir para que siga uma direção mais justa, mais bela, humana e fraternal.”
Em isolamento social em sua casa, no Rio, Cacá completou 80 anos na terça-feira (dia 19), ao lado da mulher, Renata. Uma mostra de filmes, no Canal Brasil, celebra a data exibindo, às terças, títulos como Orfeu (1999), Deus É Brasileiro (2003), Chuvas de Verão (1978) e O Grande Circo Místico (2018), seu trabalho mais recente.
Nascido em Maceió, Cacá Diegues foi para o Rio aos 6 anos, quando o pai, o antropólogo Manuel Diegues Júnior (1912- 1991), assumiu a chefia de Difusão Cultural da Secretaria Geral do IBGE. Voraz consumidor de livros, filmes, jornais e da vasta produção artística contemporânea, ele evita a nostalgia e as perguntas sobre suas principais realizações – um dos criadores do Cinema Novo, principal movimento cinematográfico brasileiro, diretor de 18 longas e eleito imortal da Academia Brasileira de Letras.
Focalizando o presente, o cineasta projeta que “dias melhores virão”, reafirmando o título de seu célebre filme de 1989, estrelado por Marília Pêra (1943-2015) e Paulo José. Mas também revela um desconsolo sem precedentes: “Nunca vivi um período político no Brasil tão insuportável. Nem mesmo durante a ditadura militar, que durou 21 anos, foi tão terrível”.
Cacá considera “um erro grave” que a ciência e a cultura tenham sido feitas de inimigas pelo governo Jair Bolsonaro. Enquanto os cientistas apontam quem somos e o que existe à nossa volta, os artistas revelam “quem gostaríamos de ser”, diz ele. “Nada aconteceu de bom neste governo em relação à cultura. Não só não houve interesse em colaborar com o setor como também está sendo destruído o que havia. Um desastre.”
Ao mesmo tempo, o cineasta afirma que “o mais triste é que, paradoxalmente, o cinema brasileiro passa por uma fase brilhante de inteligência e criatividade, a mais rica, artística e comercialmente falando, da história do nosso cinema moderno”. Cita filmes como Bacurau, A Vida Invisível, Miragem, De Pernas pro Ar e Minha Mãe É uma Peça, além da diversidade de cinematografias das novas gerações que surgem em diferentes estados.
Há cerca de um ano, o presidente Jair Bolsonaro teceu críticas diretas à atuação da Ancine (Agência Nacional do Cinema) e chegou a afirmar que buscaria a sua extinção, sob a seguinte justificativa: “Não tem nada a ver que o poder público tenha que se meter em fazer filme”, declarou. Até 2018, a atividade florescia graças a investimentos do Fundo Setorial do Audiovisual, que aportou R$ 870 milhões só naquele ano.
Atualmente, existe mais de R$ 1 bilhão em recursos represados do fundo, que é alimentado por imposto recolhido do próprio setor. “Como a Ancine tem acesso a muitos recursos e nada acontece, às vezes imagino que tudo isso é um satânico projeto do governo para acabar com o cinema brasileiro por inércia”, diz Cacá Diegues.
A seu ver, “o mais grave não é o que ele diz que pensa. O mais grave é que Bolsonaro é um farsante, incompetente, despreparado, desequilibrado, incapaz e, sobretudo, um homem mau. O Brasil está sendo governado por uma negativa do que deveria ser o ser humano.”
Ainda durante o período eleitoral, foram veiculadas campanhas nas redes criticando a classe artística e a Lei Rouanet, que aporta cerca de R$ 1 bilhão por ano no setor. Assim, foi reativada a antiga ideia de que o segmento cultural sobrevive de favores do Estado, incapaz de alcançar a autossustentabilidade.
Alguns estudos apontam, porém, que o setor representa expressivos 2,6% do PIB do País. “Tem sempre alguém dizendo que ‘mamamos nas tetas do Estado’”, afirma o cineasta. “É triste e injusto, mas já estou de saco cheio de há mais de 50 anos refutar a mesma coisa, e a imagem do cinema continua a mesma.”
Decepcionado, ele prefere concentrar esforços em seu primeiro filme desde a morte da filha Flora, vítima de câncer, em 2019, ano em que não teve forças para retornar ao set. Em Deus Ainda É Brasileiro, Antônio Fagundes volta a viver o papel-título, desta vez para questionar: “Vinte anos atrás vocês estavam alegres e pentacampeões mundiais, e agora está todo mundo triste, desempregado, sem dinheiro e ainda perderam de 7 a 1 da Alemanha?”.
Em seu mundo ideal, “as pessoas riem muito, sem parar”, conta. O que talvez explique não apenas o desejo de rodar uma comédia num momento tão delicado, mas também em retomar ideais e utopias lá do começo da trajetória, nos anos 1960. “O Cinema Novo pensou em mudar o cinema, o Brasil e o mundo. Os filmes do Glauber [Rocha, 1939-1981] foram feitos para mudar o mundo e conseguiram. O que não podemos ter é a pretensão de que o mundo irá sempre para onde a arte quiser”, diz.
Cacá conclui: “É isso que a arte pode fazer: modificar o modo como vemos o ser humano e o mundo. Quer papel mais generoso do que esse? Eu, particularmente, vivo até hoje desses sonhos”.
Com informações do Valor Econômico
Fonte: Portal BRASIL CULUTRA

No Dia da Diversidade Cultural, secretaria é extinta pelo governo Bolsonaro

Um dia após a saída da atriz Regina Duarte do comando da Secretaria Especial da Cultura, o Ministério do Turismo fez uma mudança significativa na estrutura da pasta e extinguiu a Secretaria da Diversidade Cultural. Coincidentemente, a modificação ocorre exatamente no Dia Mundial da Diversidade Cultural, celebrado nesta quinta-feira (21/05).
Segundo a pasta, o objetivo é criar uma estrutura “eficaz e eficiente”, garantindo a continuidade das ações em andamento e a implementação das iniciativas previstas para curto, médio e longo prazos.
A Secretaria da Diversidade Cultura centralizou uma das crises entre o governo e Regina Duarte. Maria do Carmo Brant de Carvalho foi nomeada secretária de Diversidade Cultural pela atriz em 9 de março. A nomeação foi suspensa no mesmo dia pelo Palácio do Planalto.
Fonte: Portal BRASIL CULTURA

Afinal, por que os comunistas se tratam como “camaradas”?

Com a 2ª Revolução Francesa e as demais revoluções europeias, em 1848, “camarada” se tornou parte de um discurso afetuoso entre pessoas que compartilham as mesmas ideias socialistas e, mais importante ainda, lutavam por elas
A Revolução de 1917, liderada por Vladimir Lênin, derrubou não apenas a dinastia imperial dos Romanov, que dominava a Rússia havia mais de 300 anos. Com os bolcheviques no poder, caíram também as formas de tratamento de respeito usadas sob o regime czarista.
Até então, homens e mulheres pertencentes à nobreza, funcionários públicos e oficiais militares, comerciantes respeitáveis e padres – cada um deles tinha pronomes próprios de tratamento, similares ao “senhor” e ao “vosso” do português. Já as pessoas simples do povo, fossem cidadãos urbanos ou camponeses, não tinham uma forma de tratamento determinada – o que servia para aprofundar ainda mais as desigualdades da sociedade.
Em certa medida, o que viria a ocorrer na Rússia – a ideia de adaptar os pronomes de tratamento de acordo com a nova configuração social e política – já acontecera na França mais de um século antes. Após a nobreza ser abolida com a Revolução de 1789, os franceses inventaram uma nova forma de tratamento para pessoas livres: “cidadão”. Até mesmo o antigo rei da França passou a ser chamado de “Cidadão Luís Capeto”.
No século 19, com o advento do socialismo científico na Alemanha – terra de Karl Marx e Friedrich Engels –, os primeiros socialistas adotaram a palavra “kamrade” como sua forma de tratamento. A razão para a escolha não é clara. Em latim, o termo “camarada” significa, literalmente, “companheiro de cômodo”. Segundo alguns estudos de linguística, a palavra era usada para designar, provavelmente, pessoas que compartilhavam um mesmo alojamento durante os estudos.
Com a 2ª Revolução Francesa e as demais revoluções europeias, em 1848, “camarada” se tornou parte de um discurso afetuoso entre pessoas que compartilham as mesmas ideias socialistas e, mais importante ainda, lutavam por elas. Mas os russos não diziam “camarada” – e, sim, sua própria versão: “továrisch”.
Irmãos no comércio
Em russo, “továrisch” significava, inicialmente, não “companheiro” – mas “irmão no comércio”. A palavra vem da raiz “továr”, que significa “mercadoria”. Továrisch era um parceiro em atividades comerciais – aquele com quem uma pessoa comercializava. Assim, a palavra tinha uma conotação óbvia voltada aos negócios.
Entre os cossacos, um membro legítimo da comunidade era chamado de továrisch. O termo também foi usado no serviço público: de 1802 a 1917, existiu o cargo de “továrisch do ministro” – tecnicamente, ele era o vice-ministro. Depois da Revolução Russa, os bolcheviques adotaram rapidamente a palavra továrisch como modo universal de tratamento, usada para seus correligionários e os comunistas em geral.
Assim como o rei Luís 16 (chamado de “Cidadão Luís Capeto” depois da Revolução Francesa), o czar Nikolai Romanov passou a ser tratado por “cidadão” – e não por “továrisch” –, porque ele não poderia nunca ser um deles. Por sinal, dizer “você não é um továrisch para nós” era um insulto grave entre os bolcheviques.
Továrisch ou cidadão?
Em procedimentos oficiais, como julgamentos ou em corte marcial (que, aliás, era chamada de “julgamento továrisch” em russo), passou-se a usar o termo “grajdanín” (cidadão). Ora, um cidadão não é necessariamente um továrisch.
A forma feminina, porém, não se aplicava: “tovarka” foi utilizada por um breve período e logo ficou obsoleta. As mulheres eram tratadas da mesma maneira que os homens. No entanto, seus sobrenomes ainda tinham terminações femininas, por exemplo, “továrisch Ivânova” (a forma masculina seria “továrisch Ivánov”).
Entre os militares soviéticos (e, mais tarde, russos, ucranianos e bielorrussos), a palavra “tovarisch” se tornou a principal forma de tratamento. Os superiores se dirigiam aos subordinados usando sua posição e sobrenome, ou továrisch e sua posição: “Capitão Petróv” ou “tovarisch Capitão”. Os subordinados se dirigiam aos superiores usando apenas továrisch e sua posição: “tovarisch Primeiro-Tenente”, “tovarisch Coronel”.
Na tradição soviética, os líderes comunistas sempre foram chamados por “továrisch”: továrisch Stálin, továrisch Brêjnev, etc. Com o fim da União Soviética, os socialistas deixaram o poder, e o Partido Comunista da Federação Russa sucedeu o Partido Comunista da União Soviética (PCUS). Mas a forma de tratamento erguida pelos revolucionários bolcheviques se consolidou como uma das longevas tradições do campo comunista mundo afora.
Com informações do Russia Beyond.
Fonte: Portal BRASIL CULTURA

domingo, 17 de maio de 2020

O impacto do coronavírus na cultura


Agora, salas de cinema e teatro passam por higienização constante por conta do coronavírus (Foto: STR/AFP)

Em tempos de lockdown, isolamento, distanciamento social e das mediações tecnológicas durante a pandemia de coronavírus, torna-se essencial refletir o impacto existente na indústria cultural e do entretenimento
Os setores cultural e criativo foram uns dos primeiros a sofrer o efeito da crise econômica e social gerada pela pandemia do novo coronavírus. Desde que o vírus chegou ao Brasil, oficialmente no fim de fevereiro, eventos e espetáculos foram cancelados ou adiados; cinemas, teatros, museus, galerias, centros culturais, salas de shows, bares e livrarias foram fechados; e a produção de conteúdos e espetáculos foi paralisada. Hoje, a oferta cultural está concentrada, basicamente, na Internet, na TV à cabo e na radiodifusão.
Agora, salas de cinema e teatro passam por higienização constante por conta do coronavírus (Foto: STR/AFP).
A cultura e a economia criativa são importantes motores da economia brasileira. O país é reconhecido mundialmente por toda a sua criatividade artística, um dos seus principais cartões de visita. Aqui, a cultura gera 1 milhão de empregos, movimentando o impressionante número de 239 mil empresas e instituições, além de gerar 10,5 bilhões de impostos e representar cerca 2,62% do PIB, de acordo com o estudo da Federação das Indústrias do Rio de Janeiro (FIRJAN), feito com base em dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
De acordo com o estudo da consultoria PricewaterhouseCoopers, o setor cresceu entre 2013 e 2017 a uma taxa média anual de 8,1%, acima do conjunto da economia. A participação no PIB é superior à de setores tradicionais, como as indústrias têxtil e farmacêutica, por exemplo. Tais dados evidenciam a relevância do setor.
Fazendo um recorte regional, estima-se que as maiores participações da Indústria Criativa nos PIBs estaduais ocorrem em São Paulo (3,9%), Rio de Janeiro (3,8%) e Distrito Federal (3,1%), todos acima da média nacional. No caso dos três estados, houve estabilidade da participação no setor nos últimos anos. Este fator, no entanto, não foi a regra: Santa Catarina, Amazonas, Pernambuco, Ceará e Amapá apresentaram avanço da participação do PIB Criativo no período de 2015 a 2017 e, entre as 27 Unidades da Federação, outras 14 apresentaram recuo.
Grande parte dos profissionais da indústria cultural são autônomos, trabalhando por projeto – são cerca de 44%, segundo dados do IBGE. Estes profissionais, na maioria das vezes,  não recebem salário fixo e nem têm carteira assinada ou são MEI (Microempreendedor Individual). Num cenário normal, já é uma vida sujeita a imprevisibilidades. Agora, ficar sem trabalhar por longo tempo pode ser financeiramente devastador. De todos eles, os mais prejudicados são aqueles que trabalham, em especial, com atividades que dependem de aglomerações, como teatros e shows. Isso porque o fluxo de caixa deles é mantido por meio das bilheterias, paradas desde meados de março, quando as atividades não-essenciais foram interrompidas.
Segundo um estudo da Associação Brasileira dos Promotores de Eventos (ABRAPE) divulgado pelo jornal O Estado de S. Paulo, 51,9% dos eventos programados para este ano no Brasil foram cancelados, adiados ou estão em situação incerta. A entidade calcula que as perdas somam cerca de R$ 90 bilhões quando a conta inclui o impacto indireto dos eventos. “Esse novo cenário, que a cadeia produtiva do setor de entretenimento está experimentando amargamente, é algo sem precedentes. Estamos falando de aproximadamente 300 mil eventos que deixarão de acontecer e milhares de empresas que apresentarão prejuízos financeiros”, ressalta o presidente da ABRAPE, Doreni Caramori.
A estagnação da cultura e do entretenimento, em decorrência das medidas de combate ao novo coronavírus, não só congelaram o setor como também jogaram um enorme “balde de água fria” nas boas perspectivas dos empresários, que apostavam em receitas 6,15% maiores em 2020, mesmo com a crise econômica que o país já vinha enfrentando.
A pesquisa, segundo Doreni, mostra ainda a extensão e a gravidade da crise na empregabilidade. Os números indicam uma estimativa de demissões de 30% dos colaboradores diretos do setor de eventos. “Se considerarmos a população total de trabalhadores, algo em torno de 1,9 milhões de empregos, estamos falando em 580 mil demissões previstas”, destaca.
Os resultados inspiraram a entidade a iniciar uma campanha para que as pessoas não solicitem o estorno dos pagamentos de ingressos. Um plano de ação também está em andamento para sensibilizar o Governo Federal sobre a necessidade de medidas urgentes para evitar o colapso do segmento.
O fechamento de teatros e espaços culturais afetou o ritmo das produções e suspendeu o andamento de projetos, como aconteceu com Otoni Moreira de Mesquita: “Enquanto artista plástico, o Covid-19 foi realmente demasiado impactante, pois estava com uma exposição no Centro Cultural Palácio da Justiça que precisou ser fechada em pleno auge de visitação, contato e conversas, inclusive com a pretensão de prolongamento até o fim do ano”, afirma em entrevista ao Mercadizar.
O cantor DanStump, que também tinha uma agenda confirmada, precisou interromper os trabalhos. “Os shows da minha turnê que eu tinha acabado de começar, foram todos cancelados. Meus videoclipes também, todos cancelados devido ao distanciamento social”, diz.
Estes são apenas alguns dos milhares de exemplos espalhados pelo Brasil. Como irão sobreviver nestes novos – e duros – tempos? Além da atual situação, há, ainda, outra preocupação: o futuro. É possível que, mesmo ao fim do isolamento, o público não consiga consumir o dobro de cultura (o que compensaria o período em que ela está estagnada), seja por seus orçamentos estarem mais limitados ou por hábito em si.
As ações para tentar salvar o setor cultural ainda são poucas diante do tamanho da crise. Em entrevista à Folha de S. Paulo, João Luiz Figueiredo, coordenador do mestrado profissional em gestão de economia criativa da Escola Superior de Propaganda e Marketing, a ESPM, afirmou que, para a economia criativa se recuperar do impacto do novo coronavírus, linhas de crédito subsidiados não são suficientes. É necessário investir dinheiro público num plano específico para o setor.
Ainda segundo Figueiredo, o prejuízo na área pode ultrapassar os R$ 100 bilhões. Agora, a maior preocupação deve ser impedir a falência das empresas do ramo. A solução esbarra, no entanto, na gestão do presidente Jair Bolsonaro, que entrou em conflito público com a cultura diversas vezes. Desde que assumiu o cargo, o Presidente já deu diversas declarações de que, ao seu ver e durante seu mandato, a cultura não tem tanta importância assim. Porém, não se conteve apenas às palavras: até agora, foram promovidos diversos cortes no setor cultural e o Ministério da Cultura foi transformado em Secretaria da Cultura vinculada ao Ministério do Turismo, diminuindo sua importância e autonomia.
Ministério da Cultura X Secretaria da Cultura
A partir do processo de redemocratização após 21 anos de regime militar e censura no país, a classe artística reivindicava uma seção à parte no governo, na qual a formulação e gestão das políticas culturais pudessem ser executadas de maneira mais livre e independente dos outros poderes. Os pedidos foram atendidos por Sarney. No entanto, não durou muito tempo. Assim que Fernando Collor tomou posse em 1990, uma de suas primeiras medidas foi a extinção do MinC. O ex-presidente Collor transformou a pasta em uma Secretaria, vinculada diretamente à Presidência da República. Com a posse de Itamar Franco em 1992, foi restaurado o status ministerial da pasta.
A partir de 92, o MinC seguiu uma trajetória relativamente longeva. Em 2003, durante o primeiro mandato do ex-presidente Lula, o ministério deixou de atender somente às demandas específicas de fomento e passou a pensar em políticas culturais. Com os ministros Gilberto Gil e Juca Ferreira encarregados da pasta, foi estabelecido um orçamento cada vez mais crescente.
Já no governo de Dilma Rousseff, mesmo com o legado deixado pela gestão anterior, o ritmo nos investimentos reduziu e, consequentemente, a evolução esfriou. Segundo dados do Tesouro Nacional, as despesas do governo Dilma com cultura recuaram 25% de 2013 a 2014, mesmo que as despesas da União como um todo tenham crescido 19% no período.
Apenas em 2016, no governo do ex-presidente Michel Temer, a proposta de extinção do Ministério voltou ao debate público. A ideia de Temer era a de fundir o MinC ao Ministério da Educação (MEC), organização parecida com a que houve no país entre os anos 50 e 80. A fusão entre as duas pastas, porém, durou apenas 9 dias. Após fortes críticas das comunidades artística e intelectual, o MinC foi rapidamente restaurado, como se manteve até 2018.
O presidente Jair Bolsonaro foi quem levou a cabo a extinção do MinC. Por meio do Decreto 9.674, de 2 de janeiro de 2019, Bolsonaro unificou cultura, esporte e desenvolvimento no recém-criado Ministério da Cidadania. Assim, nesse primeiro momento, a Cultura já perdeu a sua autonomia como Ministério, passando a operar como uma Secretaria subordinada ao Ministério da Cidadania. A fusão seria parte do plano do governo para uma reforma administrativa, pensada e projetada pelo Ministério da Economia.
Meses depois, no final daquele mesmo ano, a Secretaria de Cultura foi transferida para o Ministério do Turismo. O Decreto 10.107, de 6 de novembro de 2019, transferiu também o Conselho Nacional de Política Cultural, a Comissão Nacional de Incentivo à Cultura e a Comissão do Fundo Nacional de Cultura e outras seis secretarias não-especificadas.
Mas, afinal, qual a diferença entre Ministério e Secretaria? Na hierarquia da Administração Pública, os Ministérios são as principais repartições dos governos nacionais. As Secretarias, por outro lado, são subseções dos Ministérios. Por esta razão, as Secretarias não tem interlocução com outros Ministérios. Além disso, as Secretarias não tem autoridade simbólica para representar o Brasil na esfera internacional.
Mas há, ao menos, outras duas diferenças importantes: os Ministérios tradicionalmente dispõem de mais recursos do que as Secretarias e, além de uma diminuição no orçamento, a extinção do MinC e a transformação dele em uma Secretaria significam também uma diminuição na autonomia da política cultural do país em relação às outras áreas.
Por isso, se a Secretaria Especial de Cultura estiver subordinada ao Ministério do Turismo, por exemplo, pode-se esperar uma ligação maior entre Turismo e Cultura nas políticas culturais do país.
Instabilidade no comando
Além da realocação da pasta duas vezes no período de um ano (primeiro, para o Ministério da Cidadania, e depois para o Ministério do Turismo), ela também foi chefiada por quatro secretários diferentes: Henrique Pires, Ricardo Braga, Roberto Alvim e, agora, Regina Duarte.
Henrique Pires, o primeiro no cargo, foi exonerado em meados de agosto por “não  desempenhar as políticas propostas pela pasta”. Pires deixou o cargo após se posicionar contra  algumas medidas do governo com relação à área, em especial a decisão tomada por Osmar Terra, ministro da Cidadania, de suspender um edital para a TV pública que trazia uma linha dedicada à produção de séries que abordam questões LGBTs e de diversidade de gênero.
Depois de Pires, o cargo foi assumido pelo economista Ricardo Braga, que ficou dois meses no comando da Secretaria. Braga foi exonerado da Secretaria da Cultura e realocado para a Secretaria de Regulação e Supervisão da Educação Superior, no MEC. O economista foi, então, substituído pelo dramaturgo Roberto Alvim, que também não perdurou por muito tempo. Dois meses após a sua nomeação, Alvim foi demitido do comando da Cultura em função da repercussão de um vídeo oficial em que parafraseava o discurso nazista de Joseph Goebbels, Ministro da Propaganda de Hitler. Atualmente, a atriz Regina Duarte está na direção da Secretaria.
Apesar da instabilidade no comando da pasta, todas as sete instituições antes associadas ao MinC permanecem vinculadas à Secretaria. São elas: o Instituto do Patrimônio Histórico de Artístico Nacional (Iphan), a Agência Nacional do Cinema (Ancine), a Fundação Nacional de Artes (Funarte), o Instituto Brasileiro de Museus (Ibram), a Fundação Biblioteca Nacional (FBN), a Fundação Cultural Palmares (FCP) e a Fundação Casa de Rui Barbosa (FCRB).
As atribuições da Secretaria também continuam idênticas à do antigo Ministério, embora agora com menor estrutura e redução no número de servidores. Desse modo, ainda que o presidente Bolsonaro tenha realizado a transferência de mais de 80 servidores, não houve redução substancial no arcabouço de competências do órgão de Cultura.
Assim, a proteção do patrimônio histórico, artístico e cultural e a regulação dos direitos autorais permanecem sob responsabilidade do órgão. As prioridades e os sistemas de financiamento, no entanto, passaram por transformações ao longo do último ano. Uma primeira modificação importante se deu na nova linha de subsídio da Caixa Econômica Federal.
A Caixa Econômica Federal dispõe de um importante projeto, o chamado Programa de Ocupação dos Espaços Caixa Cultural. Esse programa seleciona, anualmente, projetos de diversas áreas – como artes visuais, teatro, dança, música, mostras de cinema, etc. A novidade, com a nova Secretaria, é a instituição de inéditos filtros temáticos.
No novo modelo, os projetos já aprovados em editais devem ser alvos de relatórios, nos quais deve constar, por exemplo, o posicionamento político do proponente, seu comportamento nas redes sociais e possíveis pontos de polêmica para a imagem da Caixa.
A Ancine, Agência Nacional de Cinema, também passou por transformações importantes. Através do Decreto 9.919, em 18 de julho de 2019, o presidente Bolsonaro alterou a composição do Conselho Superior de Cinema. O Conselho é um órgão colegiado responsável pela formulação das diretrizes da política audiovisual, cuja execução é de competência da Ancine e da Secretaria de Audiovisual. Na nova configuração, o órgão passou a contar com um número maior de integrantes do governo do que de nomes ligados ao setor.
Ainda no campo do cinema, houve um corte significativo de 43% no Fundo de Audiovisual (FSA). Principal fonte de fomento de produções audiovisuais no país, o FSA foi objeto de um Projeto de Lei (PL) apresentado ao Poder Legislativo pelo Executivo.
Alteração na Lei Rouanet
A chamada Lei Rouanet também foi alterada. Essa lei, que leva o nome do seu idealizador, Sérgio Paulo Rouanet, foi elaborada em 1991, com o objetivo de apoiar e difundir manifestações culturais no país.
Em linhas gerais, artistas, produtores e organizações se inscrevem em projetos na Secretaria Especial de Cultura (antigo MinC). Lá, os projetos são analisados e, se aprovados, os autores passam então a procurar por patrocinadores, que podem ser de natureza Física ou Jurídica. Fechada a parceria, os patrocinadores que colaborarem com investimento nos projetos culturais obtêm, em troca, abatimento percentual no Imposto de Renda.
Em abril de 2019 foram anunciadas mudanças no texto da Lei Rouanet, começando pelo nome – ela passou a ser chamada, oficialmente, de Lei Federal de Incentivo à Cultura. Além disso, o valor máximo de captação por projeto inscrito passa a ser de R$ 1 milhão, ao invés dos R$ 60 milhões anteriores. O valor da carteira (quantidade de projetos por empresa) também diminuiu drasticamente, passando de R$ 60 milhões para R$ 10 milhões. Um dos argumentos do governo é o de que, nesse formato, a Lei deve estimular pequenos e médios produtores, além de desconcentrar a produção do eixo Rio-São Paulo.
No entanto, apesar da boa intenção, especialistas afirmam que não haverá uma regionalização na produção artística brasileira. Em entrevista à ÉPOCA, Carlos Augusto Calil, professor da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA-USP) e secretário municipal de Cultura nas gestões de José Serra e Gilberto Kassab (2005-2012), afirmou que essas mudanças pouco contribuiriam para descentralizar o mercado cultural brasileiro. “O incentivo atrai a empresa que paga impostos em valores expressivos, cujos interesses estão principalmente localizados no Sudeste. É óbvio que essa região será beneficiada”, disse.
Ações diante da pandemia
O governo brasileiro anunciou medidas para auxiliar empresas e trabalhadores durante os meses de desaceleração econômica, sem incluir, no entanto, ações específicas para o setor cultural. A secretária especial da Cultura, Regina Duarte, anunciou três providências dirigidas a projetos culturais que usam benefícios de fundos setoriais ou captação por meio da Lei Federal de Incentivo à Cultura, entre elas um formato de avaliação mais flexível na prestação de contas da proposta.
Através de um vídeo publicado em seu perfil oficial no Instagram, a titular da pasta afirmou que recebeu centenas de mensagens de secretarias de cultura, produtores, atores e demais profissionais, todos preocupados com o impacto da doença.
“Sensibilizada, venho me reunindo com minha equipe e construímos uma instrução normativa que se sustenta em três eixos: permite que o proponente possa movimentar recursos abaixo do limite previsto de 20% da captação prevista; permite que o projeto cultural possa ser alterado na fase de execução a qualquer tempo e ainda um formato de avaliação mais flexível na prestação de contas do proponente”, anunciou ela.
Na sexta-feira, 08, o Ministério do Turismo anunciou a “maior liberação de recursos de sua história”. Através da Medida Provisória 963, foram destinados R$ 5 bilhões para apoiar as empresas do setor neste período. A proposta é que o dinheiro atenda os prestadores de serviços turísticos cadastrados no Cadastur (sistema de cadastro de pessoas físicas e jurídicas que atuam no setor de turismo) que conta, atualmente, com 103.110 inscritos.
Poderão ter acesso ao crédito empresas das seguintes áreas: acampamento turístico, agências de turismo, meios de hospedagem, parques temáticos, transportadora turística, casas de espetáculos e equipamentos de animação turística, centro de convenções, empreendimento de apoio ao turismo náutico ou à pesca desportiva, empreendimento de entretenimento e lazer e parques aquáticos, locadora de veículos, organizador de eventos, prestador de serviços de infraestrutura de apoio a eventos, prestador especializado em segmentos turísticos, além de restaurantes, cafeterias e bares.
As ideias são tímidas quando comparadas a iniciativas de outros países. Na Alemanha, por exemplo, o Ministério da Cultura afirmou que vai ajudar financeiramente instituições independentes e profissionais criativos freelancers. Em Berlim, museus, teatros, óperas, salas de concerto e casas noturnas estão fechadas desde 13 de março. “Estou ciente de que essa situação coloca um grande fardo para as indústrias culturais e criativas e pode causar angústia considerável, especialmente para instituições menores e artistas independentes”, declarou a ministra Monika Grütters, em comunicado oficial.
Outros países europeus que determinaram apoio a seus setores culturais foram o Reino Unido, através de subvenções e benefícios a pequenas empresas e empreendedores individuais, e a França, com uma série de programas de auxílio à forte indústria cinematográfica do país.
Na América do Sul, o Equador propôs um esquema de remuneração para artistas de menor renda realizarem apresentações em suas casas. Em São Paulo, o Governador João Doria anunciou a liberação de R$ 500 milhões para aquecer a economia do Estado, a fim de conter os efeitos nocivos do coronavírus na economia. Exclusivamente para os setores de turismo, cultura e economia criativa e comércio, avaliados como os mais impactados economicamente, foram destinados R$ 275 milhões.
Cultura no Amazonas
Aos poucos, a pausa na cultura já vem trazendo prejuízos aos artistas locais. Agora, a única opção é aguardar e organizar os projetos. César Nogueira, sócio da Artrupe Produções Artísticas, afirma que, agora, a empresa busca a adaptação aos novos tempos e aproveita para manter os projetos em dia. “Nós estamos no aguardo de recursos de editais caírem na nossa conta, mas não sabemos quando isso vai acontecer (esperamos que seja em breve) e vamos ter que nos adaptar ao mundo que vier depois da pandemia. Por enquanto, estamos avançando no que dá da pré-divulgação do Olhar do Norte, o nosso festival de cinema, estamos escrevendo para editais, fazendo projetos para apresentar em rodadas de negócios, vendo fundos internacionais e promovendo o Boto, a nossa série que estreia dia 15 na TV Ufam”.
Com a determinação de suspensão das atividades e sem qualquer previsão de retomada a normalidade, artistas amazonenses, gestores culturais e políticos vêm se mobilizando na busca da aprovação de verbas para a manutenção das atividades durante a quarentena. Um movimento, por exemplo, que conta com representantes em todos os estados brasileiros, apela para que a Câmara dos Deputados aprove a Lei Emergencial de Cultura, que prevê cerca de R$ 150 milhões em verbas repassadas para um total de 15 mil espaços culturais de norte a sul do Brasil.
Líder do movimento no Amazonas, o gestor cultural João Fernandes, responsável por gerenciar a associação cultural Casarão de Ideias, que funciona em Manaus, afirma que a expectativa é de que cada espaço receba um repasse de R$ 10 mil que será utilizado no pagamento de contas e na realização de manutenções básicas durante o período de isolamento. “Os recursos garantem a manutenção desses lugares. Foi feito um levantamento nacional com os espaços que necessitam desse auxílio e estamos buscando sensibilizar, através de números e dados, os deputados federais para que a lei seja aprovada”, explicou em entrevista ao Jornal A Crítica.
As iniciativas não param por aí. Na segunda-feira, 11, a Comissão de Cultura e Patrimônio Histórico da Câmara Municipal de Manaus (CMM), presidida pelo vereador Professor Gedeão Amorim (MDB), irá mapear a situação de artistas que perderam trabalho ou renda durante este período. Durante sessão plenária virtual, o vereador afirmou que, após ter reconhecimento da situação e das necessidades de representantes da classe artística, decidiu buscar alternativas que possam garantir uma ajuda pública.
O vereador informa que centenas de famílias de artistas, envolvidos na rotina musical, teatral, circense estão sem o seu sustento e precisam de ajuda neste momento, em que a população precisa ficar em casa. “Precisamos ajudar os nossos artistas locais que não podem se apresentar na capital amazonense em razão da pandemia do coronavírus, tendo em vista que muitos estão sem qualquer tipo de suporte financeiro. Vamos adotar todas as medidas necessárias para melhorar a situação dos nossos artistas”, finalizou.
Medidas em curso
Como uma das medidas de apoio à classe artística do estado, o Governo do Amazonas, por meio da Secretaria de Estado de Cultura e Economia Criativa, lançou em 23 de março, a campanha Cultura Sem Sair de Casa, que oferece ao público experiências ligadas à arte no período de prevenção contra o Covid-19. São oferecidas aulas virtuais, no Youtube e no Instagram, com professores do Liceu de Artes e Ofícios Claudio Santoro, performances dos Corpos Artísticos como Amazonas Filarmônica, Orquestra de Câmara, Balé Folclórico, Corpo de Dança, Orquestra de Violões, Amazonas Band e Coral do Amazonas; tutorial de maquiagem artística, além de indicação de livros, filmes, playlists e técnicas de alongamento e respiração para amenizar a ansiedade no período de isolamento social.
Segundo o titular da pasta, Marcos Apolo Muniz, foi disponibilizado ainda o projeto Praticarte, com vídeoaulas de desenho artístico, violão e teclado produzidas, captadas, editadas e finalizadas pelo Núcleo de Audiovisual da Secretaria de Cultura e Economia Criativa. “Vamos oferecer aulas com e sem instrumentos para contemplar diferentes públicos. Queremos oferecer experiências por meio da arte, que é uma aliada nesta fase de isolamento”, afirma o secretário. “Estamos elaborando uma série de atividades que podem ser compartilhadas através dos canais digitais e trabalhando a nossa biblioteca virtual para disponibilizar vários títulos para a população”.
O projeto também inclui exibição de filmes que apresentam artistas e personalidades ligadas à Cultura do Estado. Entre os primeiros títulos disponíveis, todos do cineasta Sérgio Cardoso: “Óscar Ramos – O homem que morava no cinema Éden”, “Otoni Mesquita – Narrativas da Vida e da Arte”, “Jair Jacqmont – As Cores da Amazônia” e “Roberto Evangelista – Arte & Transcendência”.
Foi anunciado, também, que o Governo realizará um estudo sobre o impacto da Covid-19 na produção cultural e criativa no estado do Amazonas, a partir da orientação de isolamento social como medida de combate à pandemia. A coleta de dados será realizada por meio de questionários on-line disponibilizados no Portal da Cultura e o estudo abrangerá três fases, de acordo com o secretário de Cultura e Economia Criativa. O primeiro questionário já está disponível.
“A primeira fase será destinada aos artistas e profissionais da cultura, de forma a tentar prospectar a realidade deles durante essa pandemia. A segunda fase será direcionada aos órgãos e gestores públicos estaduais e municipais, para saber como foram afetados. E a terceira fase será destinada àqueles profissionais que fazem parte da cadeia criativa, mas que não estão ligados diretamente ao fazer da arte. Desta forma teremos uma visão mais clara sobre o que está acontecendo na cadeia da cultura e economia criativa”, ressalta Muniz.
O economista e artista plástico Turenko Beça, assessor de Economia Criativa da Secretaria, coordenará a pesquisa. Ele explica que o primeiro questionário, destinado aos artistas, abordará questões como atividade praticada, frequência destas atividades, estimativa da perda de renda por não poder trabalhar, os espaços onde se apresentavam, a categoria e linguagem artística, entre outros fatores.
Após a análise dos resultados, segundo Turenko, os dados obtidos poderão auxiliar na busca por decisões mais eficientes para enfrentar a crise na cadeia da economia e cultura criativa. “Precisamos de um levantamento e análise de dados para estimar os panoramas e os cenários possíveis do impacto da Covid-19. Ainda há muita incerteza sobre este período e as consequências que produzirá, portanto se faz necessário conduzir esta pesquisa”, ressalta.
Em nota, a Fundação Municipal de Cultura, Turismo e Eventos (Manauscult) afirmou: “A Manauscult está em contato com representantes da classe artística para, em conjunto, pensar em estratégias para atender as demandas apresentadas nesse período. A primeira medida adotada é finalizar o pagamento de projetos contemplados em editais correntes, como o Edital Prêmio Manaus de Conexões Culturais 2019. A partir daí, novas medidas serão adotadas e divulgadas nos canais oficiais”.
O futuro pós-pandemia
Em tempos de lockdown, isolamento, distanciamento social e de mediações tecnológicas durante a pandemia do coronavírus, como refletir sobre o consumo de cultura no futuro? O “novo normal” será diferente do que estamos habituados. Para a indústria cultural, o futuro fica mais assustador e sombrio por se tratar de um ano que estava sendo visto como positivo quando começou. Tentar entender que a realidade nova será essa torna-se essencial para nos prepararmos para o que vem por aí.
Quando perguntamos aos artistas o que eles imaginam para o pós-pandemia, a resposta é quase sempre a mesma: ninguém sabe o que esperar. No entanto, por mais difícil que seja, todos concordam que o momento agora é de estudo, autoanálise, criatividade e, sobretudo, reflexão para novas possibilidades. Destas novas possibilidades, sem dúvidas, surgirão novas tendências culturais.
A dupla Chápeu de Palha comentou sobre como enxergam esse período no qual a criatividade tem a possibilidade de estar bem ativa, forçando artistas a saírem de suas zonas de conforto. “Enxergamos de forma potencialmente devastadora e/ou renovadora, dependendo da forma que a indústria do entretenimento encarar a situação. Vários filmes que seriam lançados foram adiados ou suspensos, gravações de músicas (no nosso caso), eventos e etc. É uma oportunidade de renovação na forma de produção de conteúdo e entretenimento, principalmente na forma que esse conteúdo chega ao público. Acredito que novos hábitos surgirão nessa área”.
Novas tendências culturais
Os movimentos culturais funcionam em fluxos nas mais diversas direções de circulação e são protagonistas de uma série de produtos culturais, de atores sociais envolvidos para além de conglomerados midiáticos, artistas, celebridades, produtoras, consumidores, algoritmos e dados. As indústrias criativas entenderam que a pandemia permite um aumento de horas de consumo de streaming de música e ficção audiovisual, por exemplo. No entanto, analisar e observar são os caminhos para entender de fato o que as pessoas procuram nesses meios, quais hábitos são apenas consequência do período vivido pela humanidade e quais realmente passarão a fazer parte da vida desses consumidores.
Como uma resposta ao isolamento social, os artistas e produtores culturais passaram a apostar em shows e espetáculos online, as lives. Em questão de dias, elas se tornaram um fenômeno e invadiram as casas de boa parte da população que está se mantendo em quarentena. Para Paulo Junqueiro, Presidente da Sony Music Brasil, um dos componentes para o sucesso estrondoso das lives é o desejo que o público tem de ver o artista no dia a dia. “O que atrai nas lives, além do momento que vivemos, é o público ver o artista em casa de uma maneira que jamais veria”, afirmou em live promovida pelo Rio2C.
Seguindo a mesma linha, as tours virtuais a museus ganharam mais destaque. Esse comportamento deve evoluir para o que se pode chamar de experiências culturais imersivas, que tentam conectar o real com o virtual a partir do uso de tecnologias que já estão por aí, mas que devem se disseminar, como as realidades aumentada e virtual, assistentes virtuais e máquinas inteligentes.
No campo do audiovisual e da literatura, as narrativas pós-apocalípticas e distópicas, uma constante há um bom tempo, tendem a se tornar ainda mais populares, já que tem sido crescente a procura por livros, filmes e seriados sobre pandemias e vírus. A Netflix já se encarregou de iniciar esse movimento: o serviço de streaming anunciou a produção de uma série baseada no isolamento social que vivemos (ainda sem data de lançamento). E por falar em audiovisual, quem diria que o cinema drive-in de 1933, voltaria a ser objeto de desejo da população em pleno século XXI. Até 2019, apenas um cinema drive-in sobrevivia em Brasília. Com a chegada da pandemia, a alternativa aos cinemas tradicionais está voltando a ganhar popularidade.
Os serviços de streaming de música também tiveram sua ascensão consolidada. De acordo com dados recentes do Spotify, por exemplo, o consumo de playlists musicais específicas para determinadas atividades (como meditar ou relaxar) fazem com que as batidas por minuto das canções da música pop, que há tempos andavam aceleradas nas paradas de sucesso, caíssem para ritmos mais lentos. De qualquer forma, canções que lidam com tipos de sofrimento catártico, como as lives de sertanejo e de bandas emo, a nostalgia, que já era um elemento central, afetivo e mercadológico, continuam sendo importantes pontos de consumo nesse futuro incerto.
Percebemos que esse momento gera uma balança na qual um dos lados tende a se render a popularização mais efetiva de apresentações de artistas virtuais, inteligências artificiais voltadas para ambientes digitais, gerando menos riscos de contato presencial. Do outro lado da balança, a saturação do público com o excesso de efeitos visuais produzidos digitalmente, aumenta o anseio pela volta das reuniões presenciais acompanhadas de um café, à passeios no parque em família…
A cultura é considerada essencial para a vida em muitos países mais desenvolvidos. No Brasil, isso não deveria ser diferente. A área tem uma enorme importância social e econômica e, em razão disso, capacidade de gerar riqueza financeira e empregos. O investimento na cultura e na economia criativa contribui para a retomada do crescimento econômico do país. Diante de uma crise como essa, percebemos ainda mais a necessidade do apoio e valorização a esse setor. Sendo assim,  nossos governantes precisam fazer desse momento objeto de estudo e reflexão para gerar meios mais eficientes e modernos de fomento e incentivo.
Diante da incerteza e da dificuldade de adaptação aos novos tempos, a cultura vem ocupando espaço e cumprindo um papel ainda mais importante em nossas vidas. Ela vincula, reflete, preenche o espaço vazio deixado pelo isolamento social e serve de companhia dia após dia. Num momento de rupturas sociais e culturais como o que vivemos, percebemos que a arte sempre foi e será mais do que apenas possibilidade. Ela é necessária.
Fonte: Portal BRASIL CULTURA