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domingo, 13 de junho de 2021

Nic Cardeal: ´Mulheres sempre escreveram, mas nem sempre lidas ou valorizadas` - Por: CEFAS CARVALHO

 Foto: Arquivo pessoal

Catarinense que mora em Curitiba, Nic Cardeal é graduada em Direito. Ela publicou o elogiado ‘Sede de céu” (Poesia, Editora Penalux, 2019), e prepara  publicação de novo livro de contos e crônicas. Nic tem textos publicados em 29 antologias/coletâneas – 24 no Brasil, 5 em Portugal e 1 na Alemanha, é militante cultural incansável nas redes sociais e integra do movimento coletivo Mulherio das Letras desde a sua criação em 2016. 
 
Você lançou um elogiado livro de poesias e participou de diversas antologias. Como analisa a sua produção poética e quais seus projetos nessa área?
 
Fiquei realmente surpresa com a receptividade do meu primeiro livro ‘solo’ (Sede de céu, Penalux/2019). Eu já vinha publicando meus textos nas redes sociais, especialmente no Facebook, justamente porque sentia necessidade de ter um feedback dos leitores, já que até então estava muito insegura em relação à minha produção literária. E foi muito bom esse ‘plantio virtual’, pois os comentários positivos foram a mola propulsora que me incentivou a criar coragem para a publicação do livro. E quando realizei o lançamento, aqui em Curitiba, na Mahatma Livraria de Expansão, fiquei impressionada com a quantidade de pessoas que compareceram e compraram o livro, a primeira remessa recebida da editora praticamente esgotou naquele dia. Imagina a minha alegria! Foi realmente surpreendente e, grande parte desse sucesso no dia do lançamento devo à querida Angélica Ayres, proprietária da livraria (e com quem trabalho na ‘casa do livro’), que cedeu espaço para o lançamento e divulgou muito entre sua vasta rede de clientes!
 
Quanto à minha produção literária, naquela ocasião eu já estava com outro livro praticamente pronto, composto de crônicas curtas e alguns poucos contos, e tinha intenção de publicá-lo naquele mesmo ano. No entanto, devido a alguns contratempos, não consegui que estivesse finalizado para a publicação. Em seguida, veio a pandemia e, com ela, fiquei um tanto paralisada, deixando esse segundo livro em processo de hibernação quase forçada, pois não encontrava ânimo para dar continuidade à sua finalização, já que eu ainda estava sem ilustração para a capa. Acabei ‘ressuscitando-o’ posteriormente, revisei, excluí e substituí textos, mudei o título e, finalmente neste momento está aguardando a finalização da capa, para posteriormente ser remetido à editora. 
 
Minha produção poética não para, mas não sou prisioneira de metas preestabelecidas, o processo da escrita segue a inspiração, que em mim acontece muito naturalmente, com muita liberdade, sem cobranças. Meus projetos atuais são dois novos livros de poesia, pois já tenho material suficiente para isso e, além disso, tenho trabalhado em ideias e textos para crianças.
 
Como avalia sua produção durante o confinamento e nesses tempos de pandemia? 
 
Quanto à produção poética, continuo escrevendo sempre, mais lentamente, é claro, pois a pandemia nos rouba muito mais tempo do que antes, em função das questões práticas de cuidados pessoais com roupas, limpeza domiciliar e higienização de compras e alimentos. Como disse anteriormente, tenho praticamente dois novos livros de poesia prontos. Além disso, tenho duas histórias infantis finalizadas, que estão em fase de elaboração das ilustrações, e algumas outras sendo escritas. Também tenho participado de novas antologias e coletivos, que provavelmente devem ser publicados em breve.
 
Você é entusiasta do movimento coletivo Mulherio das Letras. Como vê a importância desse movimento e qual o impacto que teve entre as envolvidas e mesmo no cenário literário nacional?
 
 Antes da criação do movimento coletivo Mulherio das Letras (ML), eu já estava em contato com várias escritoras, através do Facebook, justamente porque comecei a publicar meus textos e isso fez com que os contatos fossem acontecendo. Depois, quando o grupo foi criado no Facebook, tudo foi ampliado de forma vertiginosa.  Tornei-me, de fato, grande entusiasta do Mulherio, estive nos três encontros presenciais, conheci pessoalmente muitas escritoras com as quais já mantinha contato virtualmente, e isso só fez crescer meu entusiasmo pelo coletivo.  Por isso, afirmo categoricamente: o Mulherio das Letras, além de ser um movimento, é um incrível ‘alimento’ que nos fortalece, que não nos deixa enfraquecer diante das agruras destes tempos difíceis, sombrios. A intenção do movimento é justamente agregar, revelar, auxiliar mulheres ligadas à literatura (escritoras, editoras, acadêmicas, ilustradoras, designers). Sobre o Mulherio, Maria Valéria Rezende já afirmou várias vezes que “a ideia é que seja uma forma de congregação de autoras,completamente livre e sem hierarquia”. Acredito muito que o impacto desse movimento entre as envolvidas sempre foi, é e continuará sendo, extremamente positivo, porque todas possuem um objetivo comum: a liberdade de expressão pela palavra escrita ou oral, que é justamente a principal definição do próprio movimento, conforme registrado nas regras do grupo: “coletivo feminista literário formado por mulheres diretamente interessadas na expressão pela palavra escrita ou oral”. Mas o coletivo não se resume à expressão artística e/ou literária. Antes de tudo é um coletivo dinâmico, feminista sim, e político, embora não partidário.  Temos, enquanto grupo de mulheres escritoras e artistas, o direito, a liberdade e o objetivo de lutarmos por nossa ampla participação na literatura nacional, bem como na política do país, afinal, viver por si só já é um ato político.
 
A importância de um movimento como esse é fantástica, e isso já sentimos na pele, nós, que estivemos em João Pessoa/PB (Primeiro Encontro Nacional Mulherio das Letras, em 2017), no Guarujá/SP (Segundo Encontro Nacional Mulherio das Letras, em 2018), e em Natal/RN (Terceiro  Encontro Nacional Mulherios das Letras, em 2019), pois muitas das nossas inquietações, diante da histórica exclusão das mulheres nos tradicionais espaços literários, têm sido sanadas ao longo destes poucos anos de existência do movimento. Seja por meio de publicações independentes exclusivamente de autoria feminina, seja pelo aumento da participação feminina em concursos literários nacionais e/ou estrangeiros, seja nos debates e discussões acerca do papel da mulher escritora no âmbito educacional e político, nestes obscuros tempos. Atualmente o grupo nacional conta com mais de sete mil participantes no Facebook. Já temos também vários grupos regionais, como, por exemplo: ML Amazonas, ML Baixada Santista/SP, ML Bahia, ML Campos dos Goytacazes/RJ, ML Ceará, ML Distrito Federal, ML do Nordeste, ML Mato Grosso, ML Mato Grosso do Sul, ML Nísia Floresta – RN, ML Paraíba, ML Paraná, ML Pernambuco, ML Rio de Janeiro/RJ, ML Rio Grande do Sul, ML São Paulo, ML Sul Fluminense/RJ, e ML Zila Mamede – Natal/RN. Esses grupos regionais realizam eventos literários, encontros (que nesse momento de pandemia, seguem de modo virtual), divulgando suas escritoras locais. Além disso, o movimento já está espalhado pelo mundo: ML Alemanha, ML Áustria, ML Espanha, ML Estados Unidos, ML na Europa, ML Itália, ML Portugal, ML União Europa, sempre representados por mulheres brasileiras lá residentes e que têm tomado frente em encontros literários naqueles países. Há uma ideologia aí inerente, mas há também, e principalmente, uma prática constante: queremos alcançar visibilidade e, fundamentalmente, igualdade entre todos nós, mulheres e homens, no meio literário e artístico de um modo geral.
 
Afinal de contas, homens leem a produção literária de mulheres escritoras? Existe machismo estrutural no universo literário brasileiro?
 
A presença da mulher na literatura é antiga, embora tenham sido sempre os homens a alcançar maior destaque por questões históricas, sociais e culturais. Sabemos que a mulher em nossa sociedade, por razões diversas as quais não cabe aqui enumerar, tende a ser colocada à sombra do homem em todos os aspectos da vida, inclusive no aspecto profissional, na cultura, na arte e na literatura. Mulheres sempre escreveram. Mas nem sempre foram lidas ou valorizadas por sua escrita. Sabe-se, por exemplo, que entre o início do século 19 e metade do século 20, procurando fugir de um estereótipo sobre a escrita de mulheres, ou mesmo querendo desafiar o preconceito existente que afastava as autoras dos eventos e atividades literárias e artísticas, muitas delas se forçavam a assinar com nomes masculinos ou usando pseudônimos neutros, que não pudessem ser identificados como femininos. Exemplo clássico é o caso da escritora Amandine Dupin (1804-1876), que escreveu mais de 80 livros e, em quase todos, assinava com o nome de George Sand, e que foi precursora do feminismo na França, e era amiga de Rousseau, Victor Hugo, Honoré de Balzac. Outro caso famoso foi o da poeta e romancista inglesa Marguerite Radclyffe-Hall (1880-1943), mais conhecida com o neutro Radclyffe-Hall, autora do fantástico romance ‘O Poço da Solidão’. Atualmente ainda temos conhecimento de poucas mulheres escritoras, diante das inúmeras existentes, em comparação com a grande quantidade de homens. Sabemos, por exemplo, quem foram Florbela Espanca, Jane Austen, Katherine Mansfield, Virginia Woolf, Agatha Christie, Rachel de Queiroz, Cora Coralina, Cecília Meireles, Lygia Fagundes Telles, Adélia Prado, Hilda Hilst, Clarice Lispector, Alice Ruiz. Mas há inúmeras, muitas outras, por isso precisamos saber mais sobre o universo literário das mulheres.
 
Assim, não estou muito certa de que os homens leiam livros escritos por mulheres, acredito que deve haver os que leem, de fato, enquanto outros não. Mas penso que a maioria deles deve ter maior interesse nas escritoras já consagradas no meio literário brasileiro e/ou internacional. Creio que na proporção, são muito menos homens lendo livros de mulheres do que mulheres lendo livros de homens. De todo modo, acho que os homens continuam tendo muito mais visibilidade e difusão do que as mulheres, tanto na literatura como na arte de um modo geral. Há muito o que ser ajustado ainda, portanto. Justamente por isso foi criado o movimento Mulherio das Letras, para procurar ajustar essa discrepância nacional, e creio que, numa certa medida, também mundial. Portanto, é preciso permitir à mulher que sua voz seja ouvida, em todos os âmbitos, principalmente nesses tempos tão obscuros, onde o fascismo tem ressurgido com tanta força e dado poder ao machismo estrutural, um machismo que ataca, maltrata, tortura e mata – prova disso é o aumento absurdo do número de feminicídios no país. A mulher precisa sair da margem, precisa ocupar seu espaço de direito, inclusive na literatura, pois o machismo estrutural também tem sido visto no âmbito literário nacional, sem nenhuma sombra de dúvida. É urgente que a mulher assuma o papel que lhe cabe no sentido de denunciar o machismo, o preconceito de gênero e, nesse sentido, a escrita é ferramenta indispensável para a informação e a conscientização. Para que haja mudança significativamente positiva nessa questão das desigualdades, nada melhor e mais eficaz do que a educação. Como já dizia o maior educador Paulo Freire, “não sou apenas objeto da história, mas seu sujeito igualmente”.
 
Em relação ao Mercado editorial, como vê as editoras independentes e de pequeno porte?
 
As editoras independentes e de pequeno porte são fundamentais para dar voz e espaço às mulheres escritoras, uma vez que as grandes editoras infelizmente ainda continuam privilegiando os homens. As mulheres têm o direito e devem ser reconhecidas em sua capacidade literária, que é tão importante quanto à dos homens. Eu sempre me pergunto: por que não uma igualdade de direitos de todos os gêneros também na literatura?
 
No chamado pós-pandemia, ou novo normal, como acha que serão os eventos literários e saraus? Por falar nisso, o Mulherio planeja encontros presenciais para o pós-vacina?
 
Acho difícil tentar imaginar um pós-pandemia ou um novo normal, diante das perspectivas atuais. Creio que por muito tempo ainda, quem sabe dois ou três anos, não há como programar nada de forma presencial. Por isso, imagino que os eventos devem prosseguir de forma virtual. Ano passado, por exemplo, o Quarto Encontro Nacional Mulherio da Letras aconteceria em Porto Alegre/RS. No entanto, diante da continuidade da pandemia, foi cancelado e então realizado o I Encontro Nacional Virtual do Mulherio das Letras, que ocorreu em outubro de 2020. 
 
Não acredito que haja intenção de encontros presenciais para o pós-vacina, somente para o pós-pandemia, uma vez que já é público e notório que a vacinação contra Covid-19 não garante imunização total, apenas diminui internações e mortes. Ou seja, nenhum imunizante disponível hoje no mundo tem eficácia de 100% contra o vírus Sars-CoV-2, e isso evidentemente faz com que muitas pessoas possam ser contaminadas, ainda que tenham recebido as duas doses da vacina, de maneira que pensar em encontros presenciais pós-vacina seria de extremo descaso para com a vida. 
 
Você é bem presente literariamente nas redes sociais, principalmente Facebook. Como vê essas redes em relação à literatura e divulgação?
 
 As redes sociais foram muito impactantes para mim, especialmente na literatura. Foi por meio do Facebook, por exemplo, que tive possibilidade de conhecer ‘mais de pertinho’ diversas escritoras, tanto iniciantes, quanto renomadas e premiadas, que me encorajam e incentivam a prosseguir com meu exercício literário. As redes sociais são como janelas que, abertas, permitem essa visibilidade instantânea também do mundo da escrita. Foi através do Facebook que o movimento coletivo Mulherio das Letras pôde se concretizar, atualmente reunindo mais de sete mil mulheres escritoras de todo o Brasil e mesmo brasileiras residentes em outros países que, por iniciativa da ‘mentora’ Maria Valéria Rezende, uniram-se virtualmente no propósito de divulgar a literatura feminina e mostrar ao mundo literário que o talento feminino também é merecedor de publicação e de leitura. As redes sociais, portanto, permitem o conhecimento imediato da produção literária, tanto nacional como no exterior.

Fonte: Potiguar Notícias

Live - Ensino a distância e acesso gratuito à internet - Fonte: PROIFES

O diretor de ciência e tecnologia do PROIFES-Federação, Enio Pontes, participará na próxima segunda-feira, 14, às 10h, da Audiência Pública “Ensino a Distância e Acesso Gratuito à Internet”, promovida pela Comissão Mista Permanente Sobre Migrações Internacionais e Refugiados do Senado Federal. O debate contará com a presença do vice-presidente da Comissão, Senador Paulo Paim (PT), da presidenta da União Brasileira dos Estudantes Secundaristas (UBES), Rozana Barroso, do Presidente da Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação (CNTE), Heleno Araújo, e da vereadora pelo Partido dos Trabalhadores em Porto Alegre (PT-RS), Reginete Bispo.


Assista em: https://youtu.be/nAd7K9wSwYM ou https://www.facebook.com/paulopaim/live/

COMBATE AO TRABALHO INFANTIL : Família protegida é criança na escola

 Por CNTE

2021 06 11 familia protegida crianca na escola

No dia 12 de junho é celebrado o Dia Nacional e Mundial Contra o Trabalho Infantil, uma realidade perversa para meninos e meninas no Brasil. Segundo dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PnadC), em 2019, havia 1,8 milhão de crianças e adolescentes de cinco a 17 anos nessa situação, o que representa 4,6% da população (38,3 milhões) nesta faixa etária.

A Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação (CNTE) lançou a campanha "Família protegida é criança na escola", cobrando investimentos do governo federal na saúde, educação e assistência social além do auxílio emergencial de no mínimo R$600 enquanto durar a pandemia. Os impactos socioeconômicos da Covid-19, como o desemprego da população economicamente ativa, o aumento da pobreza e da extrema pobreza, revelam e aprofundam as desigualdades sociais existentes e potencializam as vulnerabilidades de milhões de famílias brasileiras. Por isso é importante ampliar o debate e cobrar do poder público ações que possam erradicar esse tipo de violação de direitos das crianças e jovens.

É urgente garantir:

- O cumprimento efetivo da legislação vigente de proteção integral das crianças e adolescentes, de proibição do trabalho infantil;
- O direito à formação profissional do adolescente;
- A adoção de novas ações e programas governamentais e da sociedade civil priorizando recortes de faixa etária, gênero, cor, local de residência, renda familiar e escolaridade de crianças e adolescentes;
- O investimento em políticas públicas de proteção, promoção e garantia dos direitos da infância.

Campanha do FNPETI

A CNTE faz parte do Fórum Nacional de Prevenção e Erradicação do Trabalho Infantil (FNPETI), que promove a campanha com o tema “Precisamos agir agora para acabar com o trabalho infantil”.

Houve redução desse tipo de violação de direito à criança no Brasil nas últimas duas décadas, mas é importante destacar que é uma redução lenta. O país tem quatro anos para cumprir a meta 8.7 dos Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS) de erradicar todas as formas de trabalho infantil em seu território até 2025. No entanto, se continuar no ritmo atual, não alcançará essa meta e ainda poderá ter aumento desses índices.

Organização Internacional do Trabalho

O relatório “Trabalho Infantil: Estimativas Globais 2020, tendências e o caminho a seguir” (“Child Labour: Global estimates 2020, trends and the road forward ”), adverte que o progresso para acabar com o trabalho infantil está estagnado pela primeira vez em 20 anos, revertendo a tendência anterior de queda, que registrou uma diminuição de 94 milhões entre 2000 e 2016.

De acordo com o estudo, em escala mundial, um adicional de nove milhões de crianças corre o risco de ser vítimas de trabalho infantil no final de 2022 como resultado da pandemia. Um modelo de simulação mostra que esse número poderia aumentar para 46 milhões, caso elas não tenham acesso a uma cobertura de proteção social crítica. Choques econômicos adicionais e o fechamento de escolas como consequência da COVID-19 significam que as crianças que já se encontram em situação de trabalho infantil podem estar trabalhando mais horas ou em condições de piores, enquanto muitas mais podem ser levadas às piores formas de exploração devido à perda de emprego e renda das famílias vulneráveis.

(Com informações do FNPETI)

familia protegida crianca na escola

Carnaúba ameaçada - Portal UFRN

Edição: José de Paiva Rebouças – Agecom/UFRN

Quais são as ameaças e estratégias para a manutenção das populações naturais e produtos oriundos de uma palmeira economicamente relevante? Como aliar conservação e a exploração sustentável desses recursos frente às atuais condições sociais e econômicas dos extrativistas? Essas são algumas das indagações que levaram um grupo de pesquisadores da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) a estudar a palmeira carnaúba (Copernicia prunifera), especificamente sobre as ameaças à diversidade genética da espécie. 

A cera de carnaúba é um dos principais produtos de origem vegetal da pauta de exportações do país. O valor da produção na extração de ceras e fibras da carnaúba movimenta mais de 230 milhões de reais por ano. Conhecida como “árvore da vida”, devido às diversas finalidades dos seus produtos, a carnaúba ocorre no bioma Caatinga, uma das maiores áreas de floresta tropical sazonalmente seca da América do Sul, que tem sido, no entanto, severamente afetada pela colheita insustentável dos recursos naturais.

Carnaúbas no semiárido da Caatinga, cera da carnaúba e produção artesanal – Fotos: Canvas

É no ambiente semiárido da Caatinga, principalmente nos vales dos rios do Nordeste e planícies inundáveis, na época de chuva, que se encontra a carnaúba. Esse bioma foi identificado como uma região ecologicamente vulnerável às mudanças climáticas. Os carnaubais sofrem com a intensa exploração, pois o método utilizado consiste na retirada de praticamente todas as folhas para a obtenção do pó-cerífero. Há também registros de corte e uso do caule na construção civil.

Secagem das folhas para remoção do pó-cerífero – Foto: Fábio Vieira

Nessa perspectiva, o grupo, coordenado pelo professor Fábio de Almeida Vieira, da Escola Agrícola de Jundiaí e coordenador do Laboratório de Genética e Melhoramento Florestal (LabGeM), resolveu informar estratégias de conservação com base em estudo de diversidade genética, no qual foi avaliado se as populações naturais remanescentes da espécie em uma área intensamente explorada exibem evidências de impactos genéticos negativos.

Em artigo publicado na revista Biodiversity and Conservation, os pesquisadores analisaram ainda as relações entre os resultados obtidos e a exploração intensiva dos carnaubais e como isso pode interagir com as mudanças climáticas esperadas. As populações estudadas mostraram evidências de gargalos genéticos, enquanto o cenário climático futuro de mudança climática sugere que habitats potencialmente adequados para a carnaúba dentro de sua área de distribuição nativa serão reduzidos. 

Pecuária nos carnaubais, corte e uso da madeira na construção civil – Fotos: Fábio Vieira

“Além da necessidade de conservação in situ das populações de carnaúba para minimizar a perda de diversidade genética importante, que é matéria-prima para a evolução e melhoramento, a criação de bancos de germoplasma para conservação ex situ e estratégias para o desenvolvimento de florestas plantadas e produtivas são urgentemente necessárias para aliviar a pressão sobre as populações naturais e assim garantir a sustentabilidade e manutenção dos recursos oriundos da carnaúba que geram renda para as comunidades extrativistas”, explica o professor Fábio Vieira.

Próximos passos

Sob orientação do professor Fábio Vieira, a obtenção dos dados dessa pesquisa teve início durante a realização do curso de mestrado da pesquisadora Jéssica Ritchele Moura dos Santos, aluna egressa do Programa de Pós-graduação em Ciências Florestais (PPGCFL) da UFRN, com bolsa da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES). O estudo foi orientado pelo professor Fábio de Almeida Vieira e teve avanço durante a realização do pós-doutorado do professor Fábio na University of Stirling, Escócia (UK), também com financiamento da CAPES. 

Entre os próximos passos, os pesquisadores citam um trabalho em andamento de pesquisadores da Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP) em colaboração com a UFRN que está investigando a história evolutiva e colonização da carnaúba em diferentes habitats, além das relações filogenéticas com outras espécies do gênero. Os resultados fornecerão dados adicionais relevantes para a definição de estratégias de conservação da carnaúba.

Mudas da carnaúba produzidas na EAJ/UFRN, plantio e regeneração natural – Fotos: Fábio Vieira

Colaboradores

Além da Jéssica e do professor Fábio, também assinam o artigo os pesquisadores Richeliel Albert Rodrigues Silva, ex-aluno do PPGCFL da UFRN, Cristiane Gouvêa Fajardo, bolsista do Programa Nacional de Pós-doutorado (PNPD) da CAPES/PPGCFL, Murilo Malveira Brandão, da Universidade Estadual de Montes Claros (Unimontes) e Alistair S. Jump, da University of Stirling (UK).

Fonte: Portal UFRN

Hoje é Dia de Santo Antônio

O Dia de Santo Antônio é comemorado anualmente em 13 de junho.

Santo Antônio de Lisboa, ou Santo Antônio de Pádua nasceu em Lisboa no dia 15 de agosto, provavelmente entre os anos de 1191 e 1195.

Este é considerado um dos santos mais populares entre os brasileiros e portugueses. No Brasil, Santo Antônio é conhecido por ser o “Santo Casamenteiro”, sendo que o Dia dos Namorados é comemorado no dia 12 de junho no Brasil por ser a véspera do Dia de Santo Antônio.

De acordo com a crendice popular brasileira, neste dia as pessoas que desejam casar ou conseguir um namorado preparam simpatias para Santo Antônio, acompanhadas de orações.

Saiba mais sobre o Dia dos Namorados.

O Dia de Santo Antônio faz parte das celebrações da Festa Junina, assim como o Dia de São João e Dia de São Pedro.

Origem do Dia de Santo Antônio

O Dia de Santo Antônio é comemorado a 13 de junho por ser a data de sua morte. Santo Antônio morreu em Pádua, na Itália, no dia 13 de junho do ano de 1231.

Santo Antônio foi inicialmente um frade agostiniano, tendo mais tarde entrado na ordem Franciscana (1220).

Foi muito conhecido pela sua vida despojada de riquezas, apesar de ter nascido em uma família afluente. O seu trabalho com os pobres foi essencial para que fosse rapidamente reconhecido como santo após sua morte.

A canonização de Santo Antônio aconteceu poucos anos após sua morte, e muitos consideram que terá sido uma das canonizações mais rápidas da história.

Oração de Santo Antônio

Existem muitas orações a Santo Antônio, a maior parte delas ligadas ao fato de Santo Antônio ser conhecido como o “Santo Casamenteiro”.

“Meu grande amigo Santo Antônio,

tu que és o protetor dos namorados,

olha para mim, para a minha vida,

para os meus anseios.

Defende-me dos perigos,

afasta de mim os fracassos,

as desilusões, os desencantos.

Faz que eu seja realista,

confiante, digna(a) e alegre.

Que eu encontre um(a) namorado(a)

que me agrade, seja trabalhador,

virtuoso e responsável.

Que eu saiba caminhar para o futuro

e para a vida a dois

com as disposições de quem recebeu de Deus

uma vocação sagrada e um dever social.

Que meu namoro seja feliz

e meu amor sem medidas.

Que todos os namorados

busquem a mútua compreensão,

a comunhão de vida

e o crescimento na fé.

Assim seja”.

Fonte: Portal BRASIL CULTURA

sábado, 12 de junho de 2021

Zuzu Angel: 100 anos de uma mulher revolucionária. Por Amanda Rigamonti

Zuzu Angel

Originalmente publicado em ITAÚ CULTURAL

Por Amanda Rigamonti

A moda é um de muitos aspectos que podem falar da história de um país, assim como expressar questões simbólicas individuais, de cada ser.

A moda brasileira por muito tempo não foi de fato uma moda brasileira. Ela se apoiou em reproduções e importações do que era produzido na Europa – da escolha de materiais aos estilos. A França era a grande referência, foco dos holofotes. A Europa, a França… Lugares tão diferentes deste nosso extenso Brasil, que é inclusive muitos dentro de si. Nosso clima, nossas frutas, nossa comida, nossa mata, nossas praias, nossos costumes, nossas pessoas, entre tantos outros aspectos, divergem muito daqueles que são encontrados nos países europeus.

Ainda bem que em 5 de junho de 1921 nasceu uma mulher que entendeu tudo isso, e profetizou: “A moda brasileira só pode ser internacional se for legítima”.

Zuleika de Souza Netto, a Zuzu Angel, é considerada a primeira estilista brasileira, que usou materiais, mitos, símbolos e estilos que de fato se relacionavam com este país. Foi responsável pela criação de um mercado nacional da moda.

Nascida em Curvelo, cidade do interior de Minas Gerais, desde jovem tinha grande habilidade para costura e fazia peças de roupas para suas primas e amigas. Foi criada em Belo Horizonte, onde conheceu o norte-americano Norman Angel Jones, com quem se casou. Depois de viver um tempo na Bahia, local de nascimento do primeiro filho do casal, Stuart, mudaram-se para o Rio de Janeiro, onde nasceram Ana Cristina e Hildegard. Na cidade, Zuzu abriu um ateliê em sua própria casa, na rua Barão da Torre – quando transformou seu quarto em oficina de costura. Assim nasceu a “Zuzu Saias”. Com o apoio da então primeira-dama Sarah Kubitschek (1908-1996), amiga de uma tia, passou a produzir peças em série para a sociedade carioca.

Em 1961, Zuzu separou-se de Norman e se mudou com o ateliê para uma casa maior, no mesmo bairro. A clientela cresceu, o trabalho conquistou prestígio. Em 1966, Zuzu Angel era uma etiqueta conhecida na alta sociedade carioca. A estilista promovia desfiles, aparecia na imprensa e foi progredindo até chegar aos Estados Unidos e à mídia de moda internacional.

Em 14 de maio 1971 desapareceu seu filho, Stuart Edgard Angel Jones, aos 26 anos. Ele era uma das lideranças do Movimento Oito de Outubro (MR-8), que se opunha à ditadura civil-militar em curso. Ela então entrou em uma busca incessante por Stuart e, ao receber carta de Alex Polari — militante que ficou preso com Stuart e presenciou sua tortura e assassinato — confirmando a morte dele, seguiu buscando o corpo de seu filho. Ela levou ao extremo o significado de “moda política”, desfilando uma coleção-denúncia em Nova York, no consulado brasileiro. Nesse evento, fez também um discurso em que denunciou o desaparecimento e a morte de Stuart.

Ela gritou a busca do filho, assim como o desaparecimento de muitos outros filhos de tantas outras mães. Usou seu ofício para protestar, bem como seu alcance internacional. Acabou, infelizmente, assassinada.

Antes, temendo o pior, a estilista escreveu dezenas de bilhetes e os entregou a artistas e intelectuais — como o jornalista Zuenir Ventura, o dramaturgo Paulo Pontes (1940-1976) e o compositor Chico Buarque. “Se eu aparecer morta, por acidente, assalto ou qualquer outro meio, terá sido obra dos mesmos assassinos do meu amado filho”, dizia o texto.

14 de abril de 1976 é a data de sua morte. Na madrugada dessa quarta-feira, sofre um “suposto acidente de carro” na Estrada da Gávea, no Rio de Janeiro. Segundo informações, o acidente se deu porque a estilista ingeriu álcool, cochilou ao volante ou sofreu um infarto, tendo o carro derrapado, se chocado contra uma mureta, e capotado estrada abaixo. Em 1998, após anos de uma “batalha sem trégua” de suas filhas, é feita nova perícia, solicitada pela Comissão Especial de Mortos e Desaparecidos Políticos do Ministério da Justiça que concluiu, após ouvir o relato de uma testemunha — o advogado Marcos Pires — que a estilista não foi vítima de “acidente de causas desconhecidas”. Pelo contrário: sofreu um atentado perpetrado por agentes da repressão.

Em 2020, a Justiça brasileira enfim reconheceu que Zuzu Angel foi assassinada por agentes da ditadura civil-militar.

Sua história é muito marcada por esses acontecimentos do final de sua vida. O desaparecimento e assassinato do filho, sua coleção protesto, os constantes esforços para denunciar a ditadura civil-militar brasileira e seu assassinato. Quando lembramos de Zuzu, essas associações são óbvias. No entanto, para honrar sua memória, assim como a história do Brasil, é necessário lembrar e reforçar a importância e pioneirismo dela na criação de uma moda brasileira, assim como seu espírito libertador e revolucionário. Zuzu Angel revolucionou a moda, mas também revolucionou a maternidade, o feminino, o empreendedorismo e a militância.

Para falar desses tantos aspectos, reunimos aqui depoimentos de três pessoas que se debruçaram e seguem se debruçando nas contribuições de Zuzu para a história e para a moda brasileiras: Virginia Siqueira Starling, jornalista que está produzindo a biografia da estilista, a ser lançada pela Todavia, ainda sem data; Ronaldo Fraga, estilista que considera Zuzu como uma de suas mentoras; e Hildegard Angel, jornalista, fundadora do Instituto Zuzu Angel e filha de Zuzu. Eles falam da Zuzu que conhecem – pelas pesquisas, estudos e, no caso de Hildegard, convivência –, comentam seu legado e imaginam uma Zuzu nos dias atuais.

Uma mulher revolucionada e revolucionária

Compartilho com Hildergard a frase do filósofo alemão Walter Benjamin, “se as mães forem revolucionadas, nada restará a revolucionar”, e lhe pergunto, como é ter uma mãe revolucionada? Ela brinca “de perto todo mundo é normal!”, e conta que era algo que eles encaravam com normalidade e que ela de fato conseguia revolucionar em todos os campos – inclusive muito antes de ser reconhecida pela história como uma revolucionária.

Hildegard Angel: “Ela era uma mãe diferente na proteção dos filhos, que se viesse uma reclamação, a premissa era tomar o lado dos filhos, para depois ir escutar.

Foi uma pioneira no pensamento feminista. Foi do Conselho Nacional de Mulheres do Brasil, que escolhia as mulheres do ano. Assinou vários manifestos pela mulher. Quando eu tinha uns 18 anos, fui para os Estados Unidos mandada por ela, participei de um congresso feminista da National Organization for Women.

Ela foi revolucionária em ver beleza no Brasil, porque nada que era brasileiro era considerado belo. Não há uma autoestima brasileira, e ela tinha essa autoestima brasileira. E foi isso que a fez fazer a moda brasileira. Porque ela achava bonito o que para os outros era feio. As nossas cores, as nossas flores, as nossas matas, paisagens, nossa história. Ela valorizou os nossos mitos. E ela aí percebeu que a sua possibilidade internacional era fazer o Brasil, porque as pessoas gostavam tanto das coisas dela. Porque não adianta querer vender para o exterior o que eles têm mais bem feito.

Ela revolucionou não porque ela fez uma moda com referências brasileiras. Mas porque ela refletiu sobre a moda com referências brasileiras. Ela teorizou, conceituou e lançou praticamente um movimento pela moda legitima brasileira, com brasilidade.

E isso criou de certa forma um mal-estar, porque não era a premissa dos outros 99% que criavam moda e da imprensa de moda. Porque tinha uma colonização. Então ela teve esse mérito.

ambém foi pioneira na criação de moda de denúncia política no mundo. E teve um tecido desenvolvido para ela, o polybel, que era um algodão misto, mas não com aquela textura de coisa artificial. Era um algodão com textura de tecido natural. E é um tecido que se mantém. As peças que temos no Museu da Moda Zuzu Angel estão novas como se tivessem sido executadas ontem, e são leves. Foi um tecido desenvolvido de acordo com o que ela pretendia com a moda brasileira.”

Como você apresentaria Zuzu para alguém que não a conhece, não sabe nada da história dela?

Virginia Siqueira Starling: “Ela foi tanta coisa, ela representa tanta coisa. Então, para amigos que me perguntaram quem era ela eu falava: ela não foi só uma estilista, só uma mãe… ela foi isso tudo. Ela era a mulher que enfrentou os preconceitos da época em relação às mulheres. Ela foi uma criadora de moda que inovou, que tinha uma visão super abrangente e diferente do que se fazia na época. Ela foi uma mãe que lutou pela família, que queria a verdade sobre o filho, uma mulher corajosa, valente, que enfrentou a ditadura, peitou tanto que morreu por isso. Então eu falo que ela era uma brasileira… até difícil achar a palavra… diversa. Porque ela fez tudo que ela pôde fazer no momento que lhe foi dado. Naquele tempo, naquele lugar; eu não gosto de falar que ela era à frente ou visionária porque essas palavras acho que hoje perderam um pouco do significado.

Eu acho que no tempo dela ela enxergou aquilo ali, aquela realidade de uma forma diferente. Ela tinha um olhar muito único.”

Ronaldo Fraga: “Uma mulher que tem uma trajetória única na história da moda brasileira e mundial. E, principalmente, em tempos desmemoriados, é importante dizer: qual é o sentido de fazer mais um vestido? Nós já temos roupas para 200 anos, então você tem que fazer uma roupa que fale. E Zuzu Angel fez roupas que cantaram, dançaram, murmuraram, denunciaram, manifestaram… e é isso que a gente precisa agora.”

Hildegard Angel: “Uma grande estilista brasileira, a primeira que propôs a moda com brasilidade, com legitimidade. A primeira a fazer um desfile/uma coleção de denúncia política, no mundo!

Uma mulher de uma grande coragem, que levou a maternidade às últimas consequências sabendo que toda aquela sua movimentação poderia levar à sua morte durante uma ditadura que matava.

Então, foi essa mulher extraordinária que enfrentou o medo, superou as adversidades profissionais e foi até o fim. E, como dizia o Chico Buarque, uma mulher ferida de morte e rindo. Ela não perdia a mineiridade, o bom humor, a malícia, e era uma grande mãe. Tanto que seus filhos a amaram antes, o Stuart, e depois da morte, eu e a Ana Cristina.”

Zuzu, o Brasil e a moda

Virginia Siqueira Starling: “É incontornável falar de Zuzu quando se pensa em moda brasileira. A roupa dela representa muito mais que feio ou bonito. A discussão sobre a moda da Zuzu não é simplesmente se é feio ou bonito, mas sobre o que ela trouxe pra moda brasileira que a gente tá discutindo até hoje. Então isso eu admiro muito nela.”

Ronaldo Fraga: “A Zuzu, no ofício dela, é o Brasil que poderia ter sido, que não foi, que não vingou ainda. Foi uma estilista tropicalista, então quando você pensa em todo momento que tava, influenciando todo aquele momento do Brasil da decoração, da música, da arte, na moda estava a Zuzu Angel.”

Hildegard Angel: “O Oscar Niemeyer, o Cândido Portinari só são quem são, têm o reconhecimento que têm porque foram diferentes, propuseram o novo.

Se você olhar os valores brasileiros que se impuseram internacionalmente foram os que fizeram diferente. E foi esse o insight da Zuzu. Ela fez diferente.”

Costureira, com orgulho

Ronaldo Fraga: “Seus pais debochavam muito dela, falando ‘Dona Zuzu, a costureira’. E ela dizia ‘eles não me atingem com isso, porque prefiro ser chamada de costureira. Não me chame de estilista, eu sou costureira e com muito orgulho’.”

Hildegard Angel: “Ela valorizou a atividade das costureiras. Dizia que a prerrogativa de criar era apenas dada ao costureiro. Aliás, era previsto que o costureiro soubesse desenhar, mas entender de moda tecido, corte, caimento, era tão superficial que nem era previsto que o costureiro soubesse costurar. E ela era uma costureira que sabia costurar. E era uma criadora de moda. Então ela se insurgiu contra isso. Ela dizia que a imagem que se tem quando se fala costureiro é um homem sofisticado requintado e que cria moda, e quando se fala costureira é uma pobre coitada debruçada sobre a máquina de costura. Então ela de certa forma se colocou na posição de costureira, que foi o início da carreira dela, para valorizar a atividade, quando ela poderia também só estar fazendo poses, trejeitos, mas não, ela quis também que as costureiras tivessem o reconhecimento que ela tinha e que as costureiras pudessem também ser criadoras. Então ela foi revolucionária nesse aspecto.”

O vestir é político?

Virginia Siqueira Starling: “Quando a Zuzu fez o desfile protesto em 1971, era a moda abertamente política, então era uma coisa muito nova. Mas, de certa forma, ela já fazia uma moda política desde que ela defendia a nova mulher e que ela queria vestir a mulher que trabalha e queria fazer roupas para todo o dia. Ela desejava romper com a alta costura francesa, e isso já era política. Então as pequenas coisas também são.”

Ronaldo Fraga: “É possível pensar um país através do que as pessoas comem, a forma como elas moram, as cadeiras em que elas sentam, a música que elas escutam e a roupa que elas vestem.

Lembrando que se a mídia mais importante é o corpo, é no corpo que você se revela para seu tempo, é no corpo que você se posiciona para os seus, então a roupa é de uma importância gigante.”

A militância

Virginia Siqueira Starling: “Ela foi uma mulher que fez muito. Ela foi muito valente e foi uma pessoa criativa, dinâmica, corajosa pra caramba. Ela fez o que ela achava que tinha que fazer e a gente não pode deixar passar essa história em branco e falar que ela foi só ‘”ah, ela enfrentou a ditadura”. Mas por que ela enfrentou a ditadura, como, por que isso era importante para ela? Isso tudo eu acho que a gente tem que conhecer. Quanto mais pessoas souberem sobre a história dela, melhor.”

Ronaldo Fraga: “O primeiro contato que eu tive com a Zuzu eu nem pensava em ser estilista. Eu era um adolescente no final da ditadura militar, só lia literatura política, e caiu nas minhas mãos um livro, se não em engano do Zuenir Ventura, em que é dedicado um capítulo a cada intelectual que lutou pela liberdade durante a ditadura militar. E um capítulo é dedicado a Zuzu Angel. E, de todos ali, parece que foi a única que tinha sido morta. Foram torturados, exilados, mas a única morta era ela.

Me marcou muito a coragem, a figura, usar o ofício, um ofício insuspeito, como manifesto. E quando você vê a trajetória da Zuzu, não é uma trajetória única no Brasil, ela é única no mundo. Na história da moda você não tem um ingllês, italiano, francês, alemão que tenha usado a moda de forma tão radical como denúncia do governo como a Zuzu Angel fez. E eu acho que ela hoje deveria ser estudada para além das escolas de moda.

Zuzu é uma figura para mim no panteão daqueles brasileiros que no futuro vão entender como brasileiros que lutaram pela liberdade.”

Hildegard Angel: “Era difícil para eles matar a mamãe, porque mamãe não era uma militante política. Ela era uma mãe amargurada. Eles não teriam esse argumento de dizer que ela era uma mulher perigosa para o regime político. E, ainda, ela era uma mulher que cantava as belezas do Brasil através do que ela fazia. Então não podiam dizer que ela não era patriota.”

Uma mulher com muitas visões

Virginia Siqueira Starling: “A Zuzu já pensava lá na frente, ela pensava numa moda que não tinha estação, uma coisa que a gente discute hoje no mercado de moda, que não precisa fazer moda primeira-verão outono-inverno, a gente pode fazer moda pra mulher de qualquer lugar do mundo, uma moda pra mulher sem idade, não precisa usar sutiã, que não tenha um monte de botões e fivela… Ela já estava pensando isso no final dos anos 1960, início dos anos 1970. Então a visão dela é muito impressionante. Porque até hoje a gente ainda está discutindo isso que ela já estava discutindo na época.”

Ronaldo Fraga:

“Eu, sem sombra de dúvidas, a coloco como a estilista mais original. Ou talvez a primeira estilista a falar de temas na época hoje ainda caros ao brasil. A primeira estilista a falar em legitimidade na moda brasileira.

O primeiro nome feminino no universo dominado por homens, pelo masculino, a fazer a moda e, principalmente, em uma época em que o Brasil era mais dependente das informações do que era lançado na Europa, ela falar de identidade e moda brasileira, de usar produtos brasileiras. Imagina o que era se inspirar em Lampião e Maria Bonita em 1971? E quando vemos isso e, principalmente, quando vemos o trabalho da Zuzu, é um trabalho que vai… ela tinha um domínio do corte, da costura, da criação, e ia da roupa do dia a dia até a roupa de gala. E isso é incomum. Não é uma coisa comum.  Então a história dela com o manifesto político, com a história do Stuart, de certa forma eu acho que deixou para segundo plano a Zuzu como criadora de moda. E ela trouxe questões que ainda são muito caras e envoltas de muito preconceito na moda brasileira.”

Como você acha que a Zuzu se relacionaria com os dias atuais?

Virginia Siqueira Starling: “Eu mesma ainda não entendi, não imaginei a Zuzu nos dias de hoje com clareza. Às vezes eu acho que ela ainda estaria um pouco à margem, no sentido de fazendo coisas que outras pessoas não estão fazendo, e que a maioria continuaria a encará-la com um pouco de estranheza. Em compensação, acho que ela estaria fazendo muito sucesso. E na militância com certeza ela estaria falando, criticando, isso ela continuaria bem firme. Agora, na moda, eu não sei como a moda a receberia. Porque olhando em retrospecto é fácil pensar como a gente valoriza ou deixa de valorizar ela hoje. Mas com ela aqui eu fico um pouco dividida ainda se a maioria estaria olhando ela com um pouco de receio ou não.”

Ronaldo Fraga: “Ela estaria raivosa, nervosa. Com faixas na fachada do ateliê dela há muito tempo. Teria feito vitrines em protesto, coisa que ninguém da moda brasileira fez. Ela estaria fazendo máscaras excepcionais com artesãs Brasil afora. E estaria denunciando tudo e todos nas redes sociais. Com certeza estaria nas redes sociais, usando-as como ela usou na época o que tinha.”

Hildegard Angel: “O mundo da moda é um mundo muito personalista, e eles todos têm um ego grande, ela também tinha [risos]. Não sei como ela ia ver quem faz uma moda parecida com a dela. Não sei se ela ia achar que só ela podia fazer ou se na verdade ia gostar muito. É fácil fazer o discurso, mas viver a situação é difícil. Não tenho dúvida de que ela estaria fazendo oposição ao governo, assinando abaixo-assinados, participando desse momento de uma forma muito intensa, nas manifestações.”

Em 2014… a Ocupação Zuzu Angel no Itaú Cultural

Em abril e maio de 2014 o Itaú Cultural (IC) apresentou a Ocupação Zuzu Angel, com curadoria da equipe da instituição, de Hildegard Angel e de Valdy Lopes Jn. A exposição foi o primeiro evento do IC a tratar da moda como expressão artística e de reflexão cultural.

Foram quatro andares do dedicados a documentos, cartas, vestidos e referências que constroem o universo da fashion designer. A mostra ocupou diferentes espaços e propunha uma exposição em movimento, com performances dirigidas pela estilista Karlla Girotto. Na abertura, réplicas dos vestidos criados por Zuzu desfilaram em atrizes, que também deram voz às cartas que ela enviava a amigos e autoridades na busca por Stuart.

Em depoimento na época, o jornalista gerente do núcleo de comunicação e audiovisual do Itaú Cultural e um dos curadores da Ocupação Zuzu Angel, Claudiney Ferreira, reforçou a importância de homenageá-la:

“A Zuzu é perfeitamente uma artista e foi absolutamente e original no seu tempo. Ela foi uma referência no seu tempo e é uma referência hoje. Acho que cada vez mais se deve falar de Zuzu e estudar Zuzu. Em suas várias facetas”.

O programa Ocupação conta também com um site, que desde a primeira edição existe para trazer materiais e informações adicionais àqueles encontrados no espaço físico. O site preparado para homenagear Zuzu Angel pode ser acessado aqui. Nele, você pode se aprofundar ainda mais na história de Zuzu, com alguns depoimentos, textos e fotos.

Nessa página você pode ver um pouco de como foi a Ocupação Zuzu Angel e o desfile ocorrido na abertura da mostra.

Abaixo você encontra uma playlist com vídeos gravados na época da exposição – depoimentos de diferentes personalidades, assim como dos curadores, e também aulas e palestras ministradas como parte da mostra.

Veja também Zuleika, uma revista produzida como parte da Ocupação. Nela, que segue o modelo das antigas publicações de moda e utiliza fotos do acervo do Instituto Zuzu Angel (IZA), há textos novos e em grande parte exclusivos, assinados por nomes como Zuenir Ventura, João Braga, Hildegard Angel, entre outros.

Fonte> Diário do Centro do Mundo - DCM