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domingo, 22 de abril de 2018

Às amoras: a nova literatura brasileira vem cheia de identidade


Essa é a dedicatória do livro “Amora”, de Natalia Borges Polesso, que ganhou o Prêmio Jabuti em 2016. A obra composta por 33 contos entra como destaque latino-americano na literatura por muitos outros motivos além do prêmio: estética, forma, política. Não à toa a autora está na lista Bogotá-39, que elege os melhores de autores do continente com menos de 40 anos
Por Alessandra Monterastelli
Descoberta, amores não correspondidos, relação entre mãe e filha, observar e narrar a descoberta da outra, raízes, descrições psicológicas, curiosidade e ingenuidade diante do diferente, dor, solidão, companheirismo, o pesar dos anos para uma relação. Tudo isso, e muitas outras coisas essenciais são narradas dentro dos contos que compõem “Amora”.
Por meio de uma escrita simples, mas extremamente bem estruturada, mergulhamos rapidamente no momento em que a personagem se encontra, na sua memória, ou no seu sentimento. As vezes em primeira pessoa, as vezes quem lê é apenas observador, mas das duas formas é difícil não se identificar com a situação que está sendo contada. Os contos despertam, inevitavelmente, um sentimento de comunidade. Vemos a vida das personagens, sua forma de olhar o mundo, e acabamos lembrando de alguma forma da nossa história.
A impressão passada no começo da leitura é de que a autora escreveu sem muito objetivo além do de contar, como quem joga pensamentos em um diário. Engano devido à naturalidade com que as palavras estão no papel: conforme avançamos nos contos, eles nos arrastam para questões maiores, nos convidam a sentir o que sentem as personagens e a lembrar de nossas próprias vivências.
“O tempo era bonito às quintas-feiras, aos dezessete anos”: de forma sutil, mas bonita, a descoberta. Amora têm vários contos que tratam do descobrir ser e estar fora dos padrões sociais, às vezes de forma mais sensível, às vezes de uma forma mais realista e desconcertante. Trata, essencialmente, de relacionamentos homoafetivos entre mulheres, mas fugindo completamente do habitual para esse tema. Conta o que é estar em um relacionamento, o que é se relacionar, o que é amar, algo narrado de forma constante em romances heterossexuais.

É comum que na maioria das histórias entre duas mulheres uma delas morra ou a relação acabe sendo sexualizada mais do que contada. Não em Amora. Quando a morte aparece, nos contos, não parece como uma interrupção que incomoda, mas apenas como a história, assim como na a vida. Os relacionamentos narrados são contados de pontos de vista múltiplos, entre diversos estágios: mulheres com diferentes idades, solteiras ou casadas; amores rápidos e amores adultos; às vezes contam memórias, às vezes fatos que estão acontecendo agora; traição, tesão, dor, paixão, rancor, solidão.

Existem as descobertas da juventude, mas também a vida cotidiana de duas senhoras que vivem juntas há anos e que estão inseguras diante dos primeiros sinais que a vida dá sobre a velhice e depois, do fim. Alguns contos com mais humor e ironia, outros com dor e frieza. Afinal, somos humanas.
E Natalia Borges Polesso parece, enfim, ter transmitido exatamente o que esperava. “O erotismo tangencia alguns contos, mas estou mais preocupada em contar histórias de vida. Os textos tratam de vários tipos de relação, desde curiosidades infantis por figuras enigmáticas ou estranhas até amores adultos e na velhice. Nesses três livros que publiquei, tratei direta ou indiretamente de relações homoafetivas. Com o tempo, fiz desse ponto de vista uma escolha estética, porque acho importante que essa experiência seja vista, reconhecida e respeitada”, explicou em uma entrevista após vencer o Prêmio Jabuti.
Por retratar lésbicas e o relacionamento entre mulheres, o livro é político, mas em nenhum momento panfletário; existe um pensamento estético, e a mensagem é passada através dele. Daí também a entrada do livro no espectro da literatura latino-americana, e de Natalia na lista do Bogotá-39: a política está presente no que é escrito de forma natural.
“A gente precisa se reconhecer. A gente vive em um país e em um momento em que precisamos nos assumir mulher […] Ser escritora, ser mulher, ser lésbica: para mim a escrita viabiliza todos esses pontos”, disse Natalia em certa entrevista, ao que completou: “vivemos em sociedade, somos todos seres políticos. Fazemos política todo momento”. Um fato óbvio, mas que muitas vezes passa desapercebido. A sinceridade política na literatura não deixa de ser importante, e também não precisa estar escancarada para atingir quem lê. Às vezes, o que não está escrito de forma direta é até mais pungente, e alcança (para ferir ou não) mais precisamente.
A escritora Natalia Borges Polesso
A última parte do livro reúne contos “pequenos e ácidos”, que se caracterizam por serem tiros emocionais compostos por pequenos parágrafos. Fazem refletir sobre como é sentir o ser mulher diante de diferentes situações, que por sua vez desencadeiam emoções cotidianas, momentâneas, epifânicas e as vezes dolorosas. Que talvez todas já tenhamos sentido; mais uma vez, o identificar-se está presente na escrita de Natália. É um livro sobre relacionamentos, mas também sobre identidade, no final das contas, as duas coisas nunca andam totalmente separadas.
Do Portal Vermelho

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