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quinta-feira, 10 de janeiro de 2019

QUEM TRAVA O BOM COMBATE LEVA A VIDA INTEIRA ENTRE ALTOS E BAIXOS. EU NÃO A TROCARIA POR NENHUMA OUTRA.

Uma das imagens que eu mais identifico com a sina dos revolucionários é a de Sísifo levando a pedra ao topo da montanha, para logo vê-la despencar pelo outro lado. Simboliza tanto a trajetória da minha geração quanto os altos e baixos que têm me marcado a existência nestes tristes trópicos. 

A coisa vem de longe. Lá pelos meus 15 anos, percebi que não me encaixava nas perspectivas rotineiras dos jovens de baixa classe média da Mooca, bairro proletário de São Paulo que esquecia seu passado heroico e caminhava para a desproletarização. 

Meus colegas de escola queriam virar advogados, engenheiros, médicos; arrumarem bons empregos; terem belas casas, belas esposas e belas proles. Eu não queria nada disso.

Nem sabia direito o que queria, então fui procurar nos livros. Kafka, Sartre, Camus, Cony. Eles confirmaram o que eu já pressentia: a sociedade burguesa era indigna de que eu ajudasse a mantê-la funcionando. Mas, onde estava a saída?

Foi quando o marxismo me encontrou. E passei quase dois anos na transição de sonhador para revolucionário, aprendendo a colocar em prática o que antes só elucubrava.
Fim dos anos 60: feira hippie na Pça. da República (SP)

Em 1968, o que eu e meus sete companheiros secundaristas queríamos era avançar cada vez mais para o centro dos acontecimentos. Tragicamente, conseguimos. O saldo: dois assassinados, cinco presos e torturados, uma paranoica. E a derrota, devastadora, da opção para a qual contribuíramos com nossos fervor e nosso sangue, a luta armada. 

Ao sair de uma casa dos mortos pior ainda que a retratada por Dostoievski, tive novo encontro providencial: com a geração das flores e da contracultura. Numa comunidade alternativa no Jardim Bonfiglioli juntei os cacos, superei os traumas dos porões e retomei gosto pela vida.

Mas, aquele paraíso entre quatro paredes era outro corpo estranho em meio à intolerância e ao medo que grassavam no estado policial. Não podia dar certo por muito tempo. Mais uma pedra que não se manteve no topo da montanha.

Veio a fase dos circuitos literários marginais, os livros bancados por nós mesmos e vendidos para os amigos, as festas para esquecermos nossa tristeza, os espetáculos de poesia, os debates; até de uma Bienal nosso grupo participou, com o projeto nordestino do companheiro Chico Diabo. O vento do tempo levou tudo isso.
2009: Caso Battisti em julgamento no STF.

Obrigado a me incluir cada vez mais no jornalismo para sobreviver, tentei ressuscitar aquelas críticas de música e cinema que outrora discutiam a sociedade em interação com a arte, ao invés de apenas fornecerem subsídios para consumidores de discos e filmes. Quebramos a cara, eu e alguns críticos amigos. Não era o que a indústria cultural queria ou tolerava da parte de quem produzia conteúdos para ela. 

Acabei tendo de atuar num jornalismo que detestava (editorias de economia, agências de comunicação empresarial, serviço de imprensa governamental, etc.) por mera questão de subsistência. As finanças melhoraram, a satisfação profissional evaporou.

Vez por outra um bom combate, como a greve de fome dos quatro de Salvador em 1985 (vide aqui) e a defesa do Paulo de Tarso Venceslau quando quase todos lhe voltavam as costas em 1997 (vide aqui). 

Orgulho-me muito de, no primeiro caso, ter colocado a solidariedade revolucionária acima dos cálculos eleitoreiros de um partido de esquerda que se descaracterizava a olhos vistos; e no segundo, de haver sido dos primeiros a alertar para o ovo da serpente (corrupção) que acabaria destruindo o PT e boa parte da esquerda. 
A esquerda dilapidou o capital político com que saiu da ditadura
Cheguei ao fim da linha no jornalismo profissional no ocaso de 2003. Passei dois anos de enormes dificuldades, mas consegui a anistia do Ministério da Justiça, o esclarecimento de episódios em que fora muito injustiçado no passado e a publicação do meu livro.

Reconstruí a vida em 2006, as situações que haviam saído de controle se ajeitaram, veio minha segunda filha, ocupei-me intensamente da luta pela liberdade do Cesare entre 2008 e 2011. Mas, quando parecia marchar para uma velhice tranquila, as pedras começaram a rolar morro baixo de novo. 

A indenização retroativa que me permitiria sair do aluguel e manter minhas finanças equilibradas esbarrou numa sabotagem burocrática (em parte por preconceitos ideológicos, em parte devido à lerdeza habitual do Estado burguês quando o que está em jogo são os direitos violentados de cidadãos comuns) cujos efeitos ainda perduram após 13 anos, 11 dos quais de disputa judicial por mim travada contra o poder de fogo imensamente superior da União.

A esquerda que alçáramos da derrota brutal nos anos de chumbo para a posição de principal força da redemocratização brasileira desperdiçou o capital político acumulado à custa do sangue e dos tormentos de companheiros valorosos: despencou nos últimos anos para uma situação de desprestígio popular próxima àquela em que se encontrava na década de 1970.
Cabe-nos o dever de honrarmos uma tradição secular

Cesare Battisti, cuja salvação fora uma das maiores vitórias dos brasileiros com espírito de justiça em todos os tempos, viu sua situação já definida de residente legal ser pulverizada por pressões italianas e consequentes decisões ilegais e juridicamente aberrantes dos togados brasileiros. Sua pedra também tombou e ele se vê obrigado a retomar, idoso, a sina cheia de incertezas de um perseguido político.

Temos todos de empurrar novamente as pedras para cima. Até quando? Enquanto vivermos. 

Sem dúvida, cometemos erros que tornaram ainda mais desigual o enfrentamento com um inimigo que sempre teve todas as vantagens e trunfos. Por eles pagamos um preço muito alto, individual e coletivamente. 

Só nos resta seguir lutando, pois foi assim que nos construímos e só assim morreremos aliviados: se as vitórias duradouras não estavam ao nosso alcance, os que nos mantivemos íntegros temos nossa coerência como consolo. Os que lambuzaram com o melado da sociedade burguesa, conspurcado pelo suor e sangue alheios, nem isto.

E dos pósteros, só desejamos que "quando chegar o tempo em que o homem seja amigo do homem, pensem em nós com um pouco de compreensão" (Brecht). 
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Observação: por força dessas armadilhas do destino, estou sendo obrigado a reconstruir novamente a minha vida. O que mais necessito, neste momento, é de qualquer espacinho para morar na capital paulista, de forma a continuar próximo das minhas filhas. 

As dificuldades são nome sujo (segundo os imundos critérios capitalistas) e falta de recursos para depósito-caução. Companheiros estão tentando encontrar alguma boa alma que aceite receber o mês adiantado e mais nada; enquanto isso, bato pernas por aí tentando a sorte.  

E, por sugestão do nosso bom David Emanuel, inscrevi-me numa vaquinha virtual (acesse aqui), que poderá, espero, permitir-me arcar com o depósito-caução, se não houver como escapar dele. (Celso Lungaretti)

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