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sexta-feira, 17 de abril de 2020

“Entre o individualismo e a solidariedade: um novo mundo em disputa”

Há quem diga que a pandemia do coronavírus marca, definitivamente, o fim do século XX. A novidade do capitalismo enquanto sistema mundializado, do desenvolvimento dos transportes e das telecomunicações, do avanço desenfreado do consumo e da destruição da natureza marcou as relações de produção e também o modo de vida acelerado em que nasceu e cresce nossa geração. A soma das muitas crises que estamos enfrentando (econômica, ambiental, política, social e sanitária), coloca para nós o fardo das contradições desse esgotamento na qual nos encontramos, mudando bruscamente nossas vidas nos cinco continentes do planeta.
O modelo de sociedade neoliberal predominante nas últimas décadas, buscou a espoliação do trabalho e da natureza ao seu máximo: reduzindo investimentos na saúde pública e na ciência que hoje tanto nos fazem falta em meio a pandemia; e com a predominância do setor financeiro, desindustrializou nossa produção, jogando uma massa trabalhadora para o trabalho informal. A juventude que ingressa no mercado de trabalho vive entre a insegurança e a precarização, e a ideia de empreendedorismo, que tentaram nos vender como saída para salvar-nos a nós mesmos da crise (de forma unicamente individual) apresenta seus evidentes limites.
Porém, não nos iludamos com as contraditórias respostas imediatas ao coronavírus dos que arquitetaram esse modo de vida nos últimos anos. Nem Boris Johnson, ao agradecer ao sistema público de saúde da Inglaterra em nome de dois imigrantes significa que os capitalistas passarão a defender no seu programa a saúde como bem universal e o fim das fronteiras, nem passaremos a uma era reformista para o fortalecimento do bem-estar social como se deu após a Segunda Guerra. Pelo contrário: é muito provável que eles cobrarão a conta em cima dos trabalhadores, implementando mais ajustes e guerra social.
Há porém, muitas oportunidades abertas com essa crise. Para nós, que crescemos sob a ideologia do “se vira”, tanto para a garantia de direitos, quanto para a construção de relações comunitárias, rompidas sob a lógica da competição, precisamos enxergar esse momento, onde nada mais voltará a ser o que foi, como uma possibilidade de fortalecer a ideia de uma sociedade pautada na solidariedade, na vida em coletivo e na valorização do humano e da natureza acima dos lucros.
Não é pouca coisa, que metade dos mais de 30.000 voluntários inscritos para trabalhar no combate à epidemia no Rio de Janeiro, sejam jovens estudantes. Mesmo longe de se formar, eles e elas se arriscam para ajudar a população. Sem falar daqueles que estão atuando nas universidades para produzir álcool gel, máscaras de proteção, respiradores e nas pesquisas sobre o COVID-19, mesmo depois de tantos ataques às universidades públicas. Nas comunidades e periferias, são muitas as iniciativas de arrecadação para aqueles que estão sem poder trabalhar. O sentimento de solidariedade e de auto-organização do povo, mais do que uma medida pontual, pode representar um avanço de consciência que não volta atrás. Junto a ele, uma rebeldia crescente contra um governo que não só não se solidarizou com nenhuma das mais de 1.500 famílias que perderam parentes para o coronavírus, mas incentiva o fim do isolamento social, e com ele, a propagação do vírus para mais pessoas.
Neste momento em que muitos governos ao redor do mundo se utilizam deste período de exceção para ampliar seu autoritarismo, nós precisamos de uma vez por todas tomar as rédeas do nosso futuro. Ainda que estejamos em casa acompanhando as notícias de forma passiva, sem podermos ir para as ruas como muitas vezes fizemos nos últimos anos, a construção do “novo normal” que viveremos pós-COVID-19 já começou. É momento de pausar para resgatar nossas utopias concretas. De transformar nossas relações ao sentir saudades, de perceber que precisamos muito um do outro. De recolocar a arte e a cultura como um elemento crucial de alimento da alma, para a imaginação ir além do que os horrores que nos colocam como única alternativa. De construir a solidariedade ativa, de não permitir mais a normalização da fome e da política de morte. De aprofundar nosso estudo científico que nos leva a constatar a necessidade histórica do fim do capitalismo e da construção de outro modelo de sociedade. Se a pandemia e a urgência de nosso tempo representam o velho que está morrendo, pode estar em nossas mãos o início de um novo que precisa nascer.
*Fabiana Amorim é estudante da UFF e diretora de Cultura da UNE.

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