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domingo, 19 de maio de 2019

“Dia Nacional de Combate ao Abuso e à Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes”


Hoje, 18 de maio, é o Dia Nacional de Enfrentamento ao Abuso e à Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes. Uma data muito importante para alertar a sociedade sobre necessidade de se combater a violência sexual de crianças e adolescentes no Brasil.
A data foi instituída a pela Lei Federal 9.970/00 e remete a mesma data do ano de 1973, quando a menina de 8 anos Araceli Crespo foi sequestrada, violentada e cruelmente assassinada em Vitória (ES). Apesar da natureza hedionda do crime, seus agressores nunca foram punidos. Por conta da grande repercussão do caso na época, a instituição dessa data representou uma oportunidade de mobilização e sensibilização de toda a sociedade em relação ao tema.
Neste ano, estados, municípios, governo federal e organizações da sociedade civil promoverão nos próximos dias diversas ações, como seminários, passeatas e campanhas de mobilização.
Em Brasília, a principal atividade será a entrega da 7º edição do Prêmio Neide Castanha, concedido a pessoas ou instituições que se destacaram na defesa dos direitos de crianças e adolescentes.
A solenidade será realizada nesta quinta-feira (19), às 9h, na Câmara dos Deputados pelo Comitê Nacional de Enfrentamento da Violência Sexual contra Crianças e Adolescentes, em parceira com o Ministério dos Direitos Humanos. Após a premiação, haverá uma mesa de debates sobre as estratégias para a implantação da Lei 13.431, de 4 abril de 2017, que definiu novos procedimentos de escuta e tomada de depoimentos de crianças e adolescentes vítimas de violência.
E no dia 20 de maio, ocorrerá “Show Pela Vida, Contra a Violência – 17 anos de Mobilização”, no Parque da Cidade, a partir das 8h. A programação no local inclui ainda oficinas e apresentações culturais, que serão encerradas com uma revoada de balões pelos céus de Brasília, às 11h45.
Em São Paulo, o Hospital Pérola Byington e a Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo (USP) realizarão um evento no auditório João Yunes, na própria faculdade. A programação contará com palestrantes que falarão sobre violência sexual infantil, como prevenir e quais as garantias de direitos do sistema; gravidez decorrente de violência sexual entre adolescentes, violação dos direitos humanos, entre outros. O evento começará às 13h, com encerramento previsto para as 18h. As inscrições devem ser feitas pelo e-mail perola18demaio@gmail.com
Dados sobre a violência:
Em 2016, o Disque 100 recebeu 15.708 denúncias de violência sexual, que é a quarta violação mais denunciada na central telefônica em relação a crianças e adolescentes, atrás de negligência, violência psicológica e física. A maior parte das denúncias é referente aos crimes de abuso sexual (72%) e exploração sexual (20%). As demais ligações estavam relacionadas a outras violações como pornografia infantil, sexting, grooming, exploração sexual no turismo, estupro.
Em relação ao perfil das vítimas, a maior parte delas são meninas (67,69%). Os meninos representam 16,52% das vítimas. Os casos em que o sexo da criança não foi informado totalizaram 15,79%.
Os dados sobre faixa etária mostram que 40% dos casos eram referentes a crianças de 0 a 11 anos. As faixas etárias de 12 a 14 anos e de 15 a 17 anos correspondem, respectivamente, 30,3% e 20,09% das denúncias. Já o perfil do agressor aponta que homens (62,5%) e adultos de 18 a 40 anos (42%) como principais autores dos casos denunciados.
Com informações da Secretaria Nacional de Direitos Humanos e do Observatório do Terceiro Setor.
Portal Brasil Cultura

sexta-feira, 17 de maio de 2019

Não veio do céu nem das mãos de Isabel a liberdade


Do portal Geledés
Por Elisiane Santos e Ludmila Reis Brito Lopes* enviado para o Portal Geledés

Artigo que fala sobre a falsa abolição e repúdio as homenagens que serão prestadas na Câmara dos Deputados.


É desrespeitoso com a luta histórica dos movimentos negros e incompatível com os princípios constitucionais de igualdade e não discriminação a celebração da assinatura da Lei Áurea pela Princesa Isabel no dia 13 de maio.
Tal medida aboliu oficialmente a escravidão no Brasil, quando grande parte da população negra não se mantinha mais nos cativeiros, por força da luta e resistência dos movimentos negros nos quilombos, nas irmandades, nas rebeliões como a Revolta dos Malês, bem como em razão das pressões internacionais, tendo sido o Brasil o último país da América a fazê-lo. A Princesa Isabel, assim, somente cumpriu o papel de formalizar a libertação já insustentável no cenário nacional e internacional à época.
Contudo, a libertação foi realizada sem qualquer política de emprego e educação à população negra, o que resultou na estrutura desigual e perversa que historicamente pautou a sociedade brasileira, relegando aos negros e negras, que construíram o país, o lugar da opressão, da discriminação, da pobreza, do trabalho precário, da criminalização, impondo esforços sobre-humanos às gerações que se seguiram, para reverter a situação de exclusão social que lhes foi imposta pelo Estado racista.
É importante destacar que além de não terem sido assegurados postos de trabalho formais, perpetuando-se a exploração do trabalho nas fazendas e nos serviços domésticos, em condições precárias, não houve medida reparatória até hoje em relação aos três séculos e meio de escravidão, mediante reconhecimento de terras ou pagamento de valores indenizatórios à população negra. As ações afirmativas conquistadas ao longo das últimas décadas constituem medidas necessárias à efetivação de direitos, como o acesso à educação e ao ensino superior. E há ainda necessidade de medidas compensatórias para assegurar a igualdade de oportunidades no trabalho, direito também reconhecido pelo Estatuto da Igualdade Racial[1], Lei 12.288/2010, que prevê a responsabilidade do Estado e da atividade empresarial em promover tais ações.
Portanto, não há motivos a comemorar a abolição formal da escravidão, quando até os dias atuais se luta por políticas de igualdade racial no trabalho, no acesso à educação, na representatividade nos espaços institucionais, na mídia, na publicidade, no cumprimento da Lei 10.639, de 9 de janeiro de 2003, quanto ao ensino de cultura afro-brasileira nas escolas, no combate ao racismo em todas as suas formas.
A data é considerada pelo movimento negro como dia nacional de luta contra o racismo, e reconhecida como tal por governos anteriores, como faz certa declaração da falecida Ministra Luiza Bairros, responsável à época pela então Secretaria de Políticas de Promoção Racial – SEPPIR, atualmente extinta, em matéria publicada pela Agência Brasil no ano 2014, Lei Áurea não é motivo de comemoração, afirmam movimento negro e Seppir[2].
Não se pode admitir que integrantes do Poder Legislativo, que exercem mandato de representação da sociedade, desconsiderando a verdadeira história de luta pela abolição da escravidão no Brasil, prestem homenagens a uma data que marca opressão e violação de direitos humanos fundamentais à população negra, formalmente liberta, mas sem condições de dignidade e igualdade de oportunidades. O racismo estrutural persiste no Brasil e ainda há muito a ser feito para que os 54% da população negra, formada por pretos e pardos, tenham pleno acesso aos direitos sociais. Na Câmara Federal, menos de 25% dos deputados são negros[3], e isso que houve elevação da representatividade negra na última eleição. Nos Estados da federação há assembleias legislativas que não tem qualquer representatividade negra[4]. O censo do Poder Judiciário (CNJ, 2013) aponta 15,6% de magistrados entre pretos e pardos[5]. O mesmo se repete em outras estruturas de poder, instituições, empresas públicas e privadas.
Em relação às condições de trabalho, consoante dados da PNAD (IBGE), divulgados em 17.11.2017, 63,7 % dos desempregados são oriundos da população negra. Além disso, os dados da síntese de indicadores sociais, divulgados em 15.12.2017, mostram que, entre os 10% mais pobres da população brasileira, quase 80% eram pretos ou pardos.  No que concerne aos números de violência, o peso da desigualdade racial é absurdo. A taxa de homicídios de negros cresceu 23,1 % de 2006 a 2016, ao passo em que entre os não negros reduziu 6,8 % no mesmo período. Com o recorte de gênero incluído, a taxa de homicídio de mulheres negras aumenta para 15,4 %, enquanto de mulheres não negras houve queda de 8 %. Dados esses extraídos do Atlas da Violência, organizado pelo IPEA e Fórum Brasileiro de Segurança Pública. Some-se a isso o fato de, nos últimos tempos estar se tornando frequentes manifestações de racismo nas redes sociais, em locais públicos e até expressadas por autoridades.
Tais situações não podem ser reforçadas com o enaltecimento da nobreza, que deixou de assegurar direitos à população negra, em detrimento do reconhecimento da luta dos verdadeiros heróis e heroínas da sociedade brasileira no processo que levou à abolição da escravidão, tão bem retratada no samba-enredo da Estação Primeira de Mangueira[6], que emocionou ao resgatar a história do povo negro, nas figuras de Luiza Mahin, Dandara, Akotirene, Tereza de Benguela, Marielle, tampouco podemos apagar o herói Zumbi dos Palmares e abolicionistas como Luiz Gama, Dragão do Mar, Esperança Garcia, Maria Firmina dos Reis, entre outros.
Diante disso, merece repúdio da sociedade comemorações e homenagens à Princesa Isabel, desprovidas da necessária crítica às condições em que se deu a abolição e aos motivos que levaram à promulgação da Lei Áurea. Tais homenagens representam um insulto à população negra, reforçando o racismo estrutural, com a omissão de fatos históricos que constituem direitos fundamentais à memória, informação, cultura e cidadania do povo brasileiro.
* Procuradoras do Trabalho, integrantes do Coletivo Transforma MP e do Grupo de Trabalho de Raça da COORDIGUALDADE – Coordenadoria Nacional de Promoção da Igualdade de Oportunidades e Eliminação da Discriminação no Trabalho do Ministério Público do Trabalho.

** Este artigo é de autoria de colaboradores ou articulistas do PORTAL GELEDÉS e não representa ideias ou opiniões do veículo. Portal Geledés oferece espaço para vozes diversas da esfera pública, garantindo assim a pluralidade do debate na sociedade.
[1]Art. 39.  O poder público promoverá ações que assegurem a igualdade de oportunidades no mercado de trabalho para a população negra, inclusive mediante a implementação de medidas visando à promoção da igualdade nas contratações do setor público e o incentivo à adoção de medidas similares nas empresas e organizações privadas.
[2]http://www.ebc.com.br/cidadania/2014/05/lei-aurea-nao-e-motivo-de-comemoracao-afirmam-movimento-negro-e-seppir
[3]https://www2.camara.leg.br/camaranoticias/noticias/POLITICA/564047-NUMERO-DE-DEPUTADOS-NEGROS-CRESCE-QUASE-5.html
[4]https://congressoemfoco.uol.com.br/eleicoes/so-4-dos-eleitos-em-outubro-sao-negros-eram-107-das-candidaturas-em-2018/
[6]https://g1.globo.com/rj/rio-de-janeiro/carnaval/2019/noticia/2019/03/08/conheca-os-herois-citados-no-samba-e-no-enredo-da-mangueira-no-carnaval-de-2019.ghtml. O samba-enredo Histórias para Ninar Gente Grande é citado também no título desse artigo, em homenagem aos verdadeiros heróis e heroínas brasileiros e à Estação Primeira de Mangueira.
Fonte: Jornalistas Livres

Ligia Fonseca Ferreira: As cartas exemplares de Luiz Gama

Muitos talvez o desconheçam, mas Luiz Gama (BA/1830 – SP/1882) é uma personalidade extraordinária de nossa história. Dentre os raros intelectuais negros do século 19, foi o único a ter sofrido oito anos de escravidão, fato marcante na trajetória de um homem nascido livre, cuja vida devotou a libertar escravos.
Por Ligia Fonseca Ferreira*
O líder abolicionista Luiz Gama: de ex-escravo a intelectual negro na São Paulo do século 19 O líder abolicionista Luiz Gama: de ex-escravo a intelectual negro na São Paulo do século 19
Poeta, jornalista, advogado e maçom, Gama cumpriu um destino incomum numa época impiedosa para pessoas de sua cor e condição. Desempenhou um papel pioneiro em vários campos. Na literatura, universo exclusivo de brancos, introduziu em 1859 uma voz até então ausente ao publicar sua obra única, as Primeiras Trovas Burlescas, coletânea de poemas satíricos nos quais um autor que se assume “negro” denuncia os paradoxos políticos, éticos e raciais da sociedade imperial.
Na política, exerceu incontestável liderança nas campanhas abolicionista e republicana, militando nos jornais, na tribuna e nos tribunais duas décadas antes do advento da Abolição e da República. No Direito, o advogado “provisionado” (com licença especial) inovou nas estratégias jurídicas, desenterrando leis como a de 7 de novembro de 1831, que declarava livres os africanos chegados ao Brasil a partir daquela data, combatendo a escravização ilegal.
Jamais frequentou escolas, pois, segundo ele, “a inteligência repele os diplomas, como Deus repele a escravidão”. Os brasileiros esquecem que, cem anos antes de Martin Luther King, um negro, aqui, declarou ter um “sonho sublime: as terras do Cruzeiro, sem reis e sem escravos”.
Tanto a obra poética de Gama quanto os artigos publicados nos principais órgãos de imprensa de São Paulo e da Corte são permeados por elementos autobiográficos. Porém, na diminuta correspondência conhecida, pode-se apreender aspectos mais íntimos e reveladores da “alma” de um homem que sempre se colocou como protagonista e agente da História com a qual se entrelaçava sua vida – vida que, particularmente numa carta, ele próprio se encarregou de contar.
Em 25 de setembro de 1880, o renomado abolicionista responde às solicitações feitas pelo jovem amigo Lúcio de Mendonça, como se depreende das linhas iniciais: “Não me posso negar ao teu pedido (…): aí tens os apontamentos que me pedes, e que sempre eu os trouxe de memória”. Os “apontamentos” consistiam no relato sobre sua vida, desde o nascimento e a infância na Bahia até o momento em que os dois homens se conheceram em São Paulo, em meados dos anos 1860.
Porém, as motivações do remetente e do destinatário, o teor e finalidade da carta, bem como a própria história do documento parecem simples, mas não são. Primeiramente, porque não se trata de mera curiosidade de um ou de confissões espontâneas do outro, embora seja evidente a cumplicidade entre os dois. Havia, por outro lado, uma premência pessoal e política. Apesar da diferença de idade, os laços de amizade se nutrem de afinidades diversas. Ambos participaram da fundação do Partido Republicano Paulista (1873).
Aos 26 anos, o também poeta, jornalista e advogado Lúcio de Mendonça, futuro fundador da Academia Brasileira de Letras, tinha grande prestígio em São Paulo, Rio e Minas Gerais. Aos 50 anos, Gama era, nas palavras de José do Patrocínio, o “grande chefe”, “o símbolo da grande causa”. De fato, havia mais de dez anos que realizava concorridas conferências, escrevia artigos polêmicos, encabeçava iniciativas para o alforriamento de escravos promovidas pela influente loja maçônica América de São Paulo.
O advogado autodidata se convertera em renomada autoridade na jurisprudência sobre escravidão. Terror dos fazendeiros e dos advogados e juízes corruptos, sua popularidade na província e em outros rincões do Império estava no auge, o número de inimigos também. Sua saúde era frágil. No momento em que escreve a carta, Gama sofria da diabetes que lhe ceifaria a vida em dois anos e talvez já suspeitasse que não veria as reformas que sonhara.
Justificava-se, pois, a pressa de Mendonça em obter as informações com as quais redigiria um ensaio biográfico, publicado um ano depois, porém sem nenhuma menção à carta de Gama. Mesmo se em alguns poemas das Primeiras Trovas Burlescas existem alusões à vivência como escravo, o passado do popular abolicionista não era conhecido em minúcias. Foi este o objeto maior das revelações sobre uma vida na qual perpassam questões candentes do Segundo Império e se entrecruzam a dimensão individual e coletiva.
Gama narra episódios dramáticos de sua infância numa Bahia agitada por revoltas negras e regenciais. Os detalhes denotam uma memória aparentemente intacta. Evocando sua filiação, ele se apresenta como um típico brasileiro, fruto do “casamento”, ao menos simbólico, entre África e Portugal, e sugere ter herdado dos pais, e especialmente da mãe, a mítica Luiza Mahin, as características que lhe permitiram enfrentar as barreiras impostas aos negros, escravos ou não. Ironiza também a hipócrita classificação racial então reinante no país. Desoladora é a revelação de ter sido jogado no cativeiro pelo próprio pai, cujo nome oculta, fato que até hoje alimenta o mistério em torno de se verdadeiro nome e identidade. Escreve ele:
“Nasci na cidade de S. Salvador (…) em um sobrado da Rua do Bângala, (…) a 21 de junho de 1830, pelas 7 horas da manhã, e fui batizado, 8 anos depois, na igreja matriz [de] Itaparica.
Sou filho natural de uma (…) africana livre, (…) de nome Luíza Mahin, pagã, que sempre recusou o batismo e a doutrina cristã.
Minha mãe era baixa de estatura, magra, bonita, a cor era de um preto retinto (…) tinha os dentes alvíssimos como a neve, era muito altiva, geniosa, insofrida e vingativa.
(…) era quitandeira (…) e mais de uma vez (…) foi presa como suspeita de envolver-se em (…) insurreições de escravos (…).
(…) Em 1837, depois da [Sabinada] (…) veio ela ao Rio de Janeiro, e nunca mais voltou. Procurei-a em 1847, em 1856, em 1861, na Corte, sem que a pudesse encontrar. Em 1862, soube, por uns pretos minas (…) que ela, acompanhada com malungos desordeiros (…) em 1838, fora posta em prisão; e que tanto ela como os seus companheiros desapareceram. [Segundo] meus informantes [esses] «amotinados » fo[ram] mandados para fora pelo governo, que, nesse tempo, tratava rigorosamente os africanos livres, tidos como provocadores. (…)
Meu pai, não ouso afirmar que fosse branco, porque tais afirmativas, neste país, constituem grave perigo perante a verdade, no que concerne à melindrosa presunção das cores humanas: (…) [ele] pertencia a uma das principais famílias da Bahia de origem portuguesa. Devo poupar à sua infeliz memória uma injúria dolorosa, e o faço ocultando o seu nome.
Ele foi rico; e nesse tempo, muito extremoso para mim: criou-me em seus braços. Foi revolucionário em 1837. Era apaixonado pela diversão da pesca e da caça; (…) jogava bem as armas, e muito melhor de baralho (…) esbanjou uma boa herança (…) e reduzido à pobreza extrema, a 10 de novembro de 1840, (…) vendeu-me, como seu escravo, a bordo do patacho Saraiva.”
Seguem-se então, nesta carta que tem as potencialidades de um romance, os dramas rocambolescos vividos pelo escravo Luiz. A narrativa construída na carta apresenta outros mistérios que ressaltam a capacidade do autor de safar-se de situações inextricáveis, como quando, aos 18 anos, depois de ter aprendido a ler e escrever, obtém “ardilosa e secretamente provas inconcussas” de ter nascido livre. Gama viveria outra privação de liberdade quando, soldado da polícia, reagiu às ofensas de um oficial “insolente”: “Estive então preso 39 dias (…) Passava os dias lendo e, às noites, sofria de insônias; e, de contínuo, tinha diante dos olhos a imagem de minha querida mãe. Uma noite (…) em sonho, vi que a levavam presa (…) Dei um grito (…) os companheiros alvorotaram-se; corri à grade e enfiei a cabeça pelo xadrez (…) narrei a ocorrência aos (…) colegas; eles narraram-me também fatos semelhantes; eu caí em nostalgia, chorei e dormi.”
Gama sabia do destino que Mendonça daria a suas confissões, o que nos autoriza a pensar que ele foi uma espécie de coautor da biografia e da imagem que desejava legar à posteridade, até porque, coincidência ou não, sua carta, hoje conservada na Biblioteca Nacional (RJ), só viria a público no século 20 por ocasião de seu centenário. Assim, encaminhando-se para a morte e avaliando retrospectivamente sua vida, não se furtou em fazer o balanço das realizações que mais orgulhavam o imbatível defensor que advogava de graça: “[no foro e na tribuna] ganho o pão para mim e para os meus, que são todos os pobres, todos os infelizes; e para os míseros escravos que, em número superior a 500, tenho arrancado das garras do crime”.
Vitorioso por um lado, Gama não teve uma vida tranquila. Recebeu constantes ameaças de morte que ele denunciava publicamente e em tom provocador, nas páginas dos jornais ou, num plano mais privado, escrevendo a familiares e amigos. Em 23 de setembro de 1870, deixou uma comovente mensagem a seu filho único, Benedito, então com 10 anos de idade, possivelmente antes de sair para tratar de algum processo envolvendo propriedade escrava. Ignorando se voltaria a ver sua família, deixa conselhos que sintetizam seus principais valores e crenças, antes de encerrar: “Lembra-te que escrevi estas linhas (…) sob ameaça de assassinato. Tem compaixão de teus inimigos, como eu compadeço-me da sorte dos meus”.
Dois meses depois, em 26 de novembro de 1870, escreve a José Carlos Rodrigues, jornalista brasileiro residente em Nova York, mostrando-se satisfeito por ter triunfado das ameaças de morte graças ao apoio popular: “sou detestado pelos figurões da terra, que me puseram a vida em risco, mas sou estimado e muito pela plebe. Quando fui ameaçado pelos grandes (…) tive a casa rondada e guardada pela gentalha”. Evoca também as perseguições motivadas por seu envolvimento “em favor de gente livre [africanos] posta em cativeiro indébito”, o que acarretou sua demissão do cargo de escrivão na Polícia e a nova atividade: “Fiz-me rábula e atirei-me à tribuna criminal; tal é hoje minha profissão”.
Transcritas e comentadas pela primeira vez em 2011¹, estas e outras cartas possuem uma aura especial, emanando das linhas traçadas por Luiz Gama, em cujo coração apenas ardia a ideia de liberdade, em múltiplos sentidos.
* Ligia Fonseca Ferreira, bacharel em Letras pela USP e doutora pela Universidade de Paris 3/Sorbonne, é professora da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). Organizou as coletâneas Primeiras Trovas Burlescas e Outros Poemas de Luiz Gama (2000) e Com a Palavra Luiz Gama – Poemas, Artigos, Cartas, Máximas (2011).
NOTA
  1. Cf. Com a palavra Luiz Gama. Poemas, artigos, cartas, máximas. Organização, introdução e notas Ligia Fonseca Ferreira. Imprensa Oficial de São Paulo: 2011.
[Este artigo, gentilmente cedido pela autora, foi publicado orginalmente em Cândido, jornal da Biblioteca Pública do Paraná].
Portal Brasil Cultura

Arroz com Suã

Saiba como fazer a receita de Arroz com S. É uma delícia! Aproveite para aprender tudo sobre culinária brasileira aqui no Portal Brasil Cultura.
Ingredientes
Aproveite o que sobrou
1 kg de suã de porco
6 dentes de alho amassados com sal
4 copos de arroz lavado e escorrido
3 colheres (sopa) de óleo de canola
1 unidade de cebola em cubinhos
Como Fazer
  1. Aqueça o óleo, doure o alho, a cebola, refogue a suan até que fique bem dourada. 2. Coloque água, aos poucos, enquanto ela doura e depois cozinhe bem até que fique cozida. 3. Depois acrescente o arroz e coloque água para cozinhar. 4. Depois do arroz pronto, acrescente cebolinha e pimenta moída na hora.

quinta-feira, 16 de maio de 2019

ATO CONTRA OS CORTES NA EDUCAÇÃO E CONTRA A REFORMA PREVIDÊNCIA SOCIAL TEM A PARTICIPAÇÃO DO CPC/RN (EDUARDO VASCONCELOS E WASHINGTON - CPC/RN

 Eduardo Vasconcelos - CPC/RN discursa na saída da caminhada/ato contra os cortes na educação e contra a Desreforma da Previdência Social
  Uma paradinha para foto: Eduardo Vasconcelos e Washington - CPC/RN
 Membros do ato se preparam para a saída da caminhada rumo a Mirassol
  Milhares de manifestantes lotaram a Avenida Salgado Filho de fronte ao IFRN Central
 Milhares de manifestantes lotaram a Avenida Salgado Filho de fronte ao IFRN Central
 Uma paradinha para foto: Eduardo Vasconcelos e Washington - CPC/RN
Eduardo Vasconcelos - CPC/RN ao lado do Deputado Estadual, FRANCISCO DO PT/RN


Após o Centro Potiguar de Cultura - CPC/RN ter participado do Ato Contra os cortes na Educação feita pelo desgoverno, Jair Bolsonaro, os diretores, Eduardo Vasconcelos (presidente) e Washington (diretor) foram para Natal reforçar o ATO CONTRA OS CORTES NA EDUCAÇÃO E A REFORMA DA PREVIDÊNCIA.

Aos chegarem em Natal, ambos juntamente com a delegação de Nova Cruz se juntarem aos milhares de manifestantes que se concentravam de fronte ao IFRN CENTRAL (Av. Salgado Filho).

Eduardo Vasconcelos (presidente do CPC), após cumprimentar várias lideranças sindicais, como Fátima Cardoso e Zé Teixeira (SINTE) e Wellington Duarte (ADURN), discursou para as milhares de pessoas presentes, sendo solidário com os trabalhadores, denunciados as mazelas que o desgoverno Bolsonaro vem fazendo com o POVO brasileiro, bem como a classe trabalhadora deste país.

Eduardo Vasconcelos em seu discurso falou que é preciso "pressionar" os  parlamentares potiguares para não votarem na proposta da previdência encaminhada recentemente enviada pelo governo a Câmara Federal. Eduardo citou alguns exemplos: "Esperá-los no aeroporto, atos próximos as suas residências, etc.  Além de ida a Brasília "conversar" com os parlamentares em seus gabinetes, além de conclamar toda a sociedade a se engajarem nesta luta contra uma "ditadura" vestida de terno, caso contrário todos perderão. Concluiu Eduardo Vasconcelos.

PRESIDENTE DO CPC/RN, EDUARDO VASCONCELOS PARTICIPA DE ATO EM FAVOR DOS IFS



 Eduardo Vasconcelos - CPC/RN discursa na Praça de São Sebastião - Nova Cruz/RN ao lado de Delaias - IFRN - Nova Cruz/RN em favor do IFRN (15/05/2019).

 Alunos do IFRN de Nova Cruz/RN se preparam para caminhada e ato de protesto (Ontem-15-05)
 Eduardo Vasconcelos "Todo apoio aos IFs" - IFRN DE NOVA CRUZ/RN
 Eduardo na caminhada de protesto contra os cortes da educação - IFRN - NOVA CRUZ/RN
Estudantes do IFRN nas ruas de Nova Cruz/RN - "Bolsonaro a culpa é sua!"

Ontem (15) pela manhã a estudantada do IFRN de Nova Cruz/RN foram as ruas protestar e denunciar os cortes financeiro da educação feito pelo desgoverno Bolsanaro!

Os alunos do IFRN de Nova Cruz apoiados pela sociedade, professores e demais instituições de classes, como o SINTE - Nova Cruz, STRAF - Nova Cruz, Centro Potiguar de Cultura, entre outras entidades foram as ruas de Nova Cruz protestar e denunciar os cortes que o desgoverno, Jair Bolsonaro fez na EDUCAÇÃO afetando em cheio as universidades, entre elas a UFRN e UFERSA, além é claro dos Institutos Federais, como por exemplo o IFRN de Nova Cruz!

O ato promovido pelo Grêmio Estudantil "Nilo Peçanha" e DCE teve total apoio dos novacruzenses!

Na Praça São Sebastião ouve ato de protesto e de esclarecimentos sobre a perversidade das políticas adotadas recentemente pelo Governo Federal, principalmente na Educação como na Previdência (proposta já aprovada em duas comissões da Câmara Federal).

Os estudantes, professores, diretores e funcionários toram unanimes em afirmar as maldades cometidas pelo desgoverno Bolsonaro!  Outros atos virão garantiram os presentes.

Para o Eduardo Vasconcelos - CPC/RN é preciso que a sociedade apoie essa luta, pois caso permaneça esta tentativa de maldade por parte do governo, muitas universidades e IFs vão fechar! Simplesmente isto! Concluiu, Eduardo Vasconcelos.

A tarde de ontem os mesmos foram para Natal juntar-se aos demais estudantes no ATO promovido pelos sindicatos e a população.

Escolas como CAIC, MODELO, Alberto Maranhão, entre outras também foram solidárias com os alunos do IFRN de Nova Cruz.

"Parabéns a estudantada novacruzense pela garra e determinação que mostraram neste ato! Continuem assim que a vitória será ainda mais bonita!" - Eduardo Vasconcelos - CPC/RN.

terça-feira, 14 de maio de 2019

ORÇAMENTO - Reitores das Ifes no RN buscam apoio parlamentar contra bloqueio de recursos

Reitores das Ifes no RN buscam apoio parlamentar contra bloqueio de recursos
Reitor Wyllys Farkatt Tabosa representou o IFRN. Foto: Alberto Medeiros
Documento sobre impactos foi entregue em reunião realizada ontem (13) com membros da bancada federal
Na manhã de ontem (segunda-feira),13, reitores das instituições federais de ensino superior do Rio Grande do Norte se reuniram com representantes do poder legislativo com objetivo de discutir o bloqueio de 30% nos recursos orçamentários, anunciados recentemente pelo Ministério da Educação. Na ocasião, foi entregue aos parlamentares um documento, assinado conjuntamente pelos reitores do IFRN, Ufersa e UFRN, que traz informações e dados estatísticos referentes às instituições e trata dos impactos da medida no orçamento anual dos respectivos órgãos e na economia do estado. 
De acordo com o Documento, o cenário será caótico se o bloqueio prosseguir até os últimos meses do ano ou se ficar configurado como corte, uma vez que não restarão alternativas às instituições que não sejam: protelar ou suspender o pagamento de fornecedores, rescindir contratos com empresas que viabilizam a terceirização de milhares de trabalhadores e, até mesmo, chegar ao ponto de suspender parcial ou totalmente as atividades de ensino, pesquisa, extensão, empreendedorismo, inovação e diversas atividades administrativas. 
“Diante desses cortes, todas as instituições federais de ensino, sem exceção, terão dificuldades para honrar com seus compromissos e exercer seu pleno funcionamento. Nesta reunião falamos sobre o papel dessas instituições, não só no que diz respeito à promoção de uma educação pública de qualidade, mas também da importância que têm no desenvolvimento econômico e social do nosso estado.  Esperamos contar com a sensibilização e o apoio da bancada parlamentar para que eles desenvolvam ações junto ao governo, para tentarmos reverter essa situação o mais breve possível”, afirmou o Reitor do IFRN, prof. Wylls Farkatt.
Na abertura do evento, a Reitora da UFRN, profª. Angela Paiva, lembrou ainda que já existia um contingenciamento de 20% previsto na Lei de Execução Orçamentária de 2019 e que os cortes anunciados atingem diretamente obras em andamento, aquisição de livros e equipamentos. “É uma situação muito grave e estamos muito preocupados, inclusive, porque já estamos praticamente na metade do ano. Atualmente, por exemplo, cerca de 50% de nossa força de trabalho provém de contratos de terceirização, que envolvem diversos tipos de serviços, como de manutenção e segurança. A suspensão desses contratos acarreta em impactos significativos tanto na universidade como na economia do estado”, disse.
O encontro aconteceu na sala dos conselhos da UFRN e contou com a presença dos deputados federais Rafael Mota, Benes Leocádio, Natália Bonavides e o senador Jean-Paul Prates. O senador Styvenson Valentim foi representado pelo chefe de Gabinete, Adryano Barbosa. Os demais parlamentares da bancada federal que não puderam comparecer justificaram suas ausências. A reunião também contou com a participação do deputado estadual Hermano Morais, do secretário de educação do estado, prof. Getúlio Marques, do vice-governador do RN, Antenor Roberto, além da conselheira da OAB no estado, Beatriz Presgrave.
A bancada federal do RN presente foi unânime em relação à causa e declarou ser contrária ao bloqueio de recursos na educação. “Até o momento não temos uma justificativa plausível para esses cortes, não temos um ‘porquê’. O governo afirmou que o recurso seria redirecionado para a educação básica, mas não é o que a gente tem visto. Não existe essa inversão de prioridades, já que o recurso não foi direcionado para prefeituras ou para construção de escolas”, afirmou o deputado Rafael Mota, integrante da Comissão de Educação da Câmara dos Deputados.
A deputada Natália Bonavides e o senador Jean-Paul Prates defenderam o diálogo sem esquecer das mobilizações. “Não adianta nos isolarmos em nossa militância, de um lado, sem tentar conquistar o apoio da base do governo. Precisamos desses números apresentados no documento para sensibilizar todo o parlamento”, afirmou o senador.
“Não podemos esquecer de combater uma série de notícias falsas e sem fundamento que têm sido divulgadas para deslegitimar o papel e a importância das universidades e institutos federais. Precisamos defender essas instituições em todos os locais possíveis e a bancada federal do estado está empenhada nesse sentido”, completou a deputada.
Portal do IFRN
Adaptado pelo CENTRO POTIGUAR DE CULTURA - CPC/RN, EM 14/05/2019

Lula recebe prêmio de homem do ano em Nova York

Nova York recebe Lurian, filha de Lula, de braços abertos e se nega a receber Bolsonaro.
Do mídia 4p
Na noite da última quinta-feira (10), na cidade de Nova York, para onde Bolsonaro não tem coragem de ir porque foi escorraçado, o Coletivo Brado-NY e o The People’s Fórum homenagearam o ex-presidente Lula com o Prêmio Homem do Ano.
Como Lula é um preso político encarcerado nas masmorras de Curitiba, sua filha Lurian Lula da Silva recebeu a homenagem. Ela participou do lançamento do livro A Verdade Prevalecerá e fez a sua primeira aparição internacional para denunciar a arbitrariedade judicial e as violações dos direitos humanos que colocaram Lula na cadeia.
Em seu discurso, Lurian relatou a força e a coragem do presidente ao dizer inúmeras vezes que “de forma alguma sairá da sua prisão política com tornozeleira eletrônica ou outro elemento que possa pôr em dúvida a sua inocência”.
A filha de Lula também relatou que o presidente tem alertado que, ao sair das masmorras de Moro, não vai mais falar de distribuição de renda, mas sim de distribuição de riquezas.
Lurian fez uma breve análise do governo Jair Bolsonaro e apresentou os elementos do golpe que o levaram ao poder.
Juntos com Lurian Lula da Silva, também compuseram a mesa Cláudia de La Cruz representando o Fórum de Los Pueblos, Breno Altman e Juca Kfouri através de link ao vivo.
O colunista internacional do 4P e ativista do CEN, o historiador Marcos Rezende, acompanhou o evento e registrou tudo.
Jornalistas Livres
Adaptado pelo Centro Potiguar de Cultura - CPC/RN

Cruz e Sousa, “Poeta Negro”, um dos inventores de nossa poesia moderna

João da Cruz e Sousa nasceu numa fazenda em Nossa Senhora do Desterro (SC), em 1861, filho de escravos que receberam alforria. Poeta e jornalista, introdutor do Simbolismo no Brasil, dirigiu o jornal Tribuna Popular, no qual publicou artigos contra a escravidão e o racismo.
Por Claudio Daniel*
Dois conhecidos retratos de Cruz e Sousa: poeta foi reconhecido pelas principais vozes de nossa historiografia literária Dois conhecidos retratos de Cruz e Sousa: poeta foi reconhecido pelas principais vozes de nossa historiografia literária
Casou-se com Gavita Gonçalves, com a qual teve quatro filhos, todos mortos precocemente, de tuberculose, o que levou a mãe à loucura. A vida trágica do poeta, que revolucionou a literatura brasileira, encerrou-se em 1898, com apenas 36 anos de idade.
Cruz e Sousa, considerado o maior poeta do movimento simbolista no Brasil, publicou em 1893 o livro Broquéis (1893) introduziu na poesia brasileira o novo estilo. Esse livro estranho, inventivo, de uma beleza nervosa, é diferente de tudo o que foi publicado antes, entre nós. Conforme José Aguinaldo Gonçalves, o poeta simbolista, “fascinado pelo mistério e pelo caráter fluídico das coisas, aprofundou o universo das sugestões, da ambiguidade, da abstração mística, do sentimento sensorial do mundo. Para isto, vai criar um universo vocabular próprio, voltado para a neblina, o onírico, o vaporizante, o lactescente, o litúrgico, o etéreo, o plangente, o soluçante, o errante, o luminoso, as brumas e o encantatório transcendente”.
O poeta se voltava contra a objetividade naturalista, a descrição minuciosa de detalhes, em favor de uma construção de imagens “vagas, fluidas, cristalinas”, próximas a um certo abstracionismo. Cruz e Sousa seguiu, em sua mirada de miragens, a pista indicada por Mallarmé: “Nomear um objeto significa eliminar três quartos do prazer de adivinhá-lo. Sugerir, eis o sonho”. Essa é uma linha paralela à técnica de acordes isolados na música de Débussy e ao pontilhismo de Pissaro e Seurat, na pintura, que prenunciavam a superação da tonalidade e do figurativismo por novos modos de composição.
O talento plástico de Cruz e Sousa é evidente sobretudo em Missal, coletânea de poemas em prosa publicada no mesmo ano que Broquéis. Assim, na peça intitulada Navios, o poeta nos diz: “Praia clara, em faixa espelhada ao sol, de fina areia úmida e miúda de cômoro. Brancuras de luz da manhã prateiam as águas quietas, e, à tarde, coloridos vivos de ocaso as matizam de tintas rútilas, flavas, como uma palheta de íris”. Em outra peça, Bêbado, lemos: “O mar tinha uma estranha solenidade, imóvel nas suas águas, com uma larga refulgência metálica sobre o dorso. Da paz branca e luminosa da lua caía, na vastidão infinita das ondas, um silêncio impenetrável. E tudo, em torno, naquela imensidade de céu e mar, era a mudez, a solidão da lua…”. O efeito cromático é mais eficaz com o recurso de sonoridades raras, pois é a música que melhor expressa o sentimento de vago, difuso, diáfano, despertando a intuição e o sonho. Para Edgar Allan Poe, poesia é a “construção precisa do impreciso”, “criação rítmica da Beleza”, e, seguindo nessa trilha, Verlaine irá reivindicar “a música antes de tudo”. Cruz e Sousa, afinado com seus mestres espirituais, irá fazer da melopéia um dos pilares de sua filosofia da composição e o fio condutor de todas as relações sinestésicas.
Em Outras Evocações, o poeta nos diz: “O estilo é o sol da escrita. Dá-lhe eterna palpitação, eterna vida. Cada palavra é como que um tecido do organismo do período. No estilo há todas as gradações de luz, toda a escala dos sons. (…) A palavra tem a sua autonomia; e é preciso uma rara percepção estética, uma nitidez visual, olfativa, palatal e acústica apuradíssima para a exatidão da cor, da forma e para a sensação do som e do sabor da palavra”. As palavras, em sua corporalidade, e não apenas como conceitos, têm força de expressão mágica, evocatória, como notou Mallarmé; por essa razão, diz o autor de Brise Marine, o poeta deve buscar “o verso que, de diversos vocábulos, refaz uma palavra total, nova, estranha à língua e como que encantatória”. É dessa construção do estranhamento, do inusitado, que advém a experiência do êxtase estético, que Joyce chamava de epifania. Cruz e Sousa, como um taumaturgo morfológico, criou, em seu cadinho de quintessências, um novo vocabulário, mesclando termos em neologismos insólitos, tais como: absíntica, nirvânica, pantérico, tantálico, beethovínica, estradivário, torcicolosamente. Além disso, assimilou um léxico luxuoso e alucinado, com laivos gongorinos: neblinoso, alampadário, flamívona, alabastrino, espumaroso, empurpuresce. Com esse livro mágico de sortilégios e encantações, Cruz e Sousa conduziu aliterações (“suspira, sofre, cisma, sente, sonha”), anagramas (“areia úmida e miúda”), paronomásias (“torvas e turvas”, “gralha, grasma e grulha”), assonâncias (“Das tuas asas serenas”), anáforas (“só fúria, fúria, fúria, fúria, fúria”) e outras magias com a habilidade de um mestre consumado.
A poética de Cruz e Sousa não teve uma evolução estética linear; ela oscilou entre a abstração e a caricatura, a elipse e o discurso, a brevidade e o jorro verbal, o gosto refinado e o kitsch. De Broquéis a Faróis, o poeta mudou a sua maneira de olhar para os objetos, e o resultado é uma nova forma de fanopéia, menos etérea, mais densa. Como nos diz Roger Bastide, o poeta “tinha começado pela dissolução das formas exteriores dos objetos, diluindo-os na bruma do sonho, e termina pela volta à matéria, porém matéria sutilizada e preciosa, cintilação de cristal ou de joia, certamente encarnação da Forma inteligível, mas encarnação em algo que nada mais tem de sensual e que nada retém do calor do concreto. Destruição das formas (no plural) nas cerrações da noite, cristalização da Forma (no singular) ou solidificação do espiritual numa geometria do translúcido, tais são, afinal, os dois grandes processos antitéticos e complementares ao mesmo tempo, que permitiram a Cruz e Sousa trazer aos homens a mensagem da sua experiência e apresentá-la em poesia de beleza única, pois que é acariciada pela asa da noite e, todavia, lampeja com todas as cintilações do diamante”.
Faróis, publicado em 1900 (edição póstuma), é um livro de imagens sombrias que têm a marca do triste fado do poeta: Cruz e Sousa, o filho de escravos, nascido na cidade de Desterro (hoje Florianópolis), sofreu o preconceito racial, a miséria e, nos seus últimos anos, a morte do pai e a loucura da esposa, Gavita. O pessimismo do autor, seu “tantalismo dantesco”, expressou-se aqui em poemas longos, narrativos, retórico-discursivos, com tinturas expressionistas que recordam por vezes a poesia de Trakl e a pintura de Munch: “Os miseráveis, os rotos/ são as flores dos esgotos./ São espetros implacáveis/ os rotos, os miseráveis”; “Coalha nos lodos abjetos/ O sangue roxo dos fetos”; e, com a terrível veemência dos freaks, dos danados: “Vermes da inveja, a lesma verde e oleosa,/ Anões da Dor torcida e cancerosa,/ Abortos de almas a sangrar na lama”.
O tom realista, sarcástico, que abusa do grotesco, aproxima-se, por vezes, do kitsch. O uso excessivo de adjetivos, por sua vez, é outro aspecto a ser observado: em Música da Morte, por exemplo, há nada menos que 20 adjetivos nos 14 versos do soneto! Faróis é um livro irregular; não tem a mesma alta qualidade de Broquéis. É o testemunho dramático dos insucessos de seu autor, mais do que ninguém, um “gauche na vida”. Deve-se destacar, no entanto, o poema de abertura, Recolta de Estrelas, dividido em dísticos de sete sílabas, em que o poeta usou nada menos que 42 rimas diferentes; o poema de construção semelhante intitulado Litania dos Pobres; Tédio, talvez seu poema mais próximo ao expressionismo; o conhecido Violões que Choram; e Flores da Lua, em que há ecos distantes de Laforgue (que escreveu Fauna e Flora da Lua). Faróis, apesar dos desníveis de escritura, é um livro que merece ser lido, pois é a gênese da mórbida e bela antiepopéia de Augusto dos Anjos.
Em Últimos Sonetos, talvez a mais bem acabada de suas obras, o poeta, já fatigado da existência, aborda o anseio de união mística com o Absoluto, Nirvana búdico, que representa o fim do ciclo de intermináveis transmigrações. Neste livro admirável, Cruz e Sousa levou à perfeição o soneto como gênero literário, com uma precisão técnica impecável e uma pureza de expressão raramente igualadas por outros nomes da poesia de língua portuguesa. É notável, nesta obra formalmente tão rica, a reconciliação do poeta com o quinhentismo camoniano e os modos do barroco, em versos como: “Almas vis, almas vãs, almas escuras”, “O infinito gemido dos gemidos” e, sobretudo, o quarteto inicial de Flor Nirvanizada: “Ó cegos corações, surdos ouvidos,/ Bocas inúteis, sem clamor, fechadas,/ Almas para os mistérios apagadas,/ Sem segredos, sem eco e sem gemidos”. Precisamos citar, também, Alucinação, soneto que é quase uma antecipação de Pessoa: “Ó solidão do Mar, ó amargor das vagas,/ Ondas em convulsões, ondas em rebeldias,/ Desespero do Mar, furiosa ventania,/ Boca em fel dos tritões engasgada de pregas”. O Poeta Negro, aqui, transcendendo as cortinas neblinadas do Simbolismo, alcançou um timbre universal.
A fortuna crítica do poeta é póstuma, mas ele foi reconhecido pelas principais vozes de nossa historiografia literária. Sílvio Romero considerou Cruz e Sousa “o melhor poeta que o Brasil tem produzido” e “o ponto culminante da lírica brasileira após quatrocentos anos de existência” (e, portanto, superior a Castro Alves, Gonçalves Dias e Olavo Bilac). Também José Veríssimo expressou seu respeito pela “flor singular, de rara distinção e colorido, de perfume extravagante mas delicioso” da poesia de Cruz. Por fim, obteve o reconhecimento internacional, como demonstra o ensaio O Drama de Cruz e Sousa, de Bastide, que coloca o Poeta Negro ao lado de Mallarmé e Stefan George como a tríade máxima do Simbolismo.
A poesia de Cruz e Sousa é a retorta alquímica de onde provêm as líricas saturnais de Alphonsus de Guimaraens, Pedro Kilkerry, Ernâni Rosas, Maranhão Sobrinho e Augusto dos Anjos; e está presente na primeira fase de Manuel Bandeira, no místico surrealismo de Murilo Mendes e Jorge de Lima e nas modernas experiências intersemióticas, que levaram o princípio da sinestesia, filtrado pelas teorias de Charles Peirce, aos meios eletrônicos de comunicação, como o vídeo e o computador. João da Cruz e Sousa, o poeta do Desterro, não é um esqueleto esquecido na tumba de seus ancestrais, mas um dos inventores de nossa poesia moderna.
Portal Brasil Cultura

Cauê Menandro apresenta ritmos brasileiros

O músico e compositor Cauê Menandro será a próxima atração do programa Terça Brasileira, hoje dia 14 de maio, às 20h, no Teatro do Paiol. O espetáculo Meandros vai apresentar as canções que farão parte do primeiro CD solo do artistas.
Os ingressos poderão ser adquiridos na bilheteria da Capela Santa Maria a R$ 10 ou pelo www.aloingresso.com.br (com taxa de administração)
Acompanhado pelos músicos Caio Guimarães, Cláudio Menandro, Fernando Lobo e Marc Olaf, além da participação de Carlito Birolli e Gui Handa, o artista vai apresentar canções com referências na MPB, bossa e choro, além de ritmos da cultura popular brasileira, como ijexá, coco e maracatu.
Terça Brasileira é o programa que, há 22 anos, estimula e divulga a produção musical local por meio da Lei de Incentivo à Cultura, da Prefeitura e Fundação Cultural de Curitiba. Para inscrever projetos, os artistas interessados devem corresponder às exigências dos editais. Esses projetos são analisados por uma comissão formada por músicos profissionais da área.
Outras informações sobre o programa podem ser obtidas no http://icac.org.br/projetos-artisticos/terca-brasileira/
Serviço: Cauê Menandro na Terça Brasileira
Data: terça-feira (14/5), às 20h
Local: Teatro Paiol (Praça Guido Viaro s/nº, Prado Velho)
Ingressos: R$ 10 na Capela Santa Maria ou pelo www.aloingresso.com.br (com taxa de administração).
Fonte: BRASIL CULTURA