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terça-feira, 7 de maio de 2019

Reação secundarista contra corte de Bolsonaro chega às cinco regiões

Mais de 100 institutos e colégios federais vestiram preto nesta segunda (6/05) e se mobilizam para a greve da educação.

Enquanto o presidente Jair Bolsonaro (PSL) participava de cerimônia do Colégio Militar no Rio de Janeiro, nesta segunda (6/05), ficou impossível não ouvir o grito de estudantes e pais do lado de fora. Eles se manifestavam contra o corte de mais de 30% para instituições federais de ensino, como Colégio Pedro II, o Cefet e os Institutos Federais (IFs).
Protesto no Rio de Janeiro (Foto: Francisco Proner).

O mesmo grito aconteceu no Brasil todo, com a campanha #TiraAMãoDoMeuIF: em ao menos 21 dos 26 estados há registros de estudantes mobilizados nos seus IFs, locais de excelência educacional e alvo da tesoura injustificada do Ministério da Educação.

Chama atenção a agilidade e abrangência da resposta secundarista, após o anúncio repentino dos cortes. Mais de 100 Institutos Federais estavam organizados nesta segunda-feira para barrar a medida, em torno da tag #TiraAMãoDoMeuIF, com roupas pretas, cartazes e palavras de ordem.
IFBA – campus Jequié
Estudantes abraçam o campus Paranavaí do IFPR
IFPI – campus Paulistana
IFPA – campus Jacobina

Paralisação Nacional da Educação
A defesa estudantil pela rede federal de ensino promete se estender em assembleias ao longo da semana. A ideia é unificar todo o Brasil em uma Paralisação Nacional da Educação, em 15 de maio.
Acompanhe o movimento pelos perfis da UBES no Instagram e no Facebook.
Defesa dos Institutos Federais

Os cortes de R$ 740 milhões anunciados pelo governo Bolsonaro na rede federal de ensino médio e técnico impediria muitas destas instituições de terminar o ano letivo. 

Com 642 unidades, os Institutos Federais oferecem ensino médio integrado ao técnico em capitais e no interior. Além de capacitação e formação cidadã, representam o desenvolvimento da ciência e pesquisa no Brasil. 

A UBES emitiu nota oficial em defesa da rede federal neste sábado, 4/05: “A economia de um país tem em sua base o conhecimento científico crítico e social, por isso, nos Institutos Federais não aceitaremos retrocessos”.

Fonte: UBES

NOTA DA UBES CONTRA OS CORTES NA REDE FEDERAL

O presidente da república, Jair Bolsonaro, nada comprometido com a educação brasileira mas sim com os desmontes para no fim defender a privatização, ataca mais uma vez as instituições de ensino da rede federal.
Sendo grande defensor da reforma trabalhista – que acabou com a CLT e os direitos conquistados -, da EC 95 – que congelou por 20 anos os investimentos para educação, saúde e segurança pública – e da reforma da previdência, extremamente prejudicial ao povo brasileiro, a qual se esforça para aprovar, Bolsonaro continua a sua perseguição aos professores e estudantes por meio da defesa do Escola sem Partido, dos ataques aos cursos das áreas de humanas e anuncia recentemente o corte de 30% dos investimentos nas Universidades e Institutos Federais.
O ministro da Educação, Abraham Weintraub, economista e executivo do mercado financeiro, chama de balbúrdia a liberdade de expressão das universidades UFF, UNB e UFBA, conhecidas pelo bom desempenho em pesquisa, e logo abrange a medida para as demais UFs e IFs. Os Institutos Federais, grandes responsáveis por descobertas na área científica, chegaram a cidades que antes nem sonhavam com acesso a tecnologia; pesquisas fomentadas nos laboratórios das instituições se estenderam para as comunidades locais por meio de projetos de extensão, e pela luta do movimento estudantil pela democratização do acesso aos IFs, a juventude periférica ocupa os espaços e vivencia a ciência. A juventude que antes deixava as escolas, sem perspectiva de futuro, passou a estudar e conhecer a tecnologia, tendo oportunidades de formação e de se tornar contribuinte para o desenvolvimento do Brasil.
Com o corte proposto o governo escolhe retroceder, colocando a maioria dos Institutos Federais em situação dificultosa para o funcionamento – como o IFF que terá menos 18 milhões, o IFPR menos 20,8 milhões e o IFRN menos 27 milhões de investimento -, mostrando mais uma vez o seu projeto de desmonte educacional em nosso país.
Somos estudantes de áreas biológicas, exatas e humanas. Fazemos parte dos Institutos Federais e o defenderemos para o bem do Brasil. Acreditamos que não há desenvolvimento sem a valorização da pesquisa, da ciência e da tecnologia. Por isso, convocamos os Institutos Federais para que se mobilizem, realizando assembleias estudantis junto de seus grêmios, conselhos de representantes de turma e coletivos, para nos prepararmos e construirmos, no dia 15 de maio, a paralisação nacional em defesa da educação, essa que nos é garantida por direito na Constituição de 1988.
Não nos calaremos diante à tentativa de nos amordaçar pela perseguição, justificada em argumentos ideológicos de quem não aceita ser contrariado. A democratização do ensino conquistada por nós com árduas lutas, bem como o desenvolvimento de projetos científicos contribuintes para toda a comunidade não podem ser prejudicados. A economia de um país tem em sua base o conhecimento científico crítico e social, por isso, nos Institutos Federais não aceitaremos retrocessos. No dia 15 de maio, estejamos juntos na linha de frente pela defesa e respeito com o que conquistamos e temos por direito, a educação pública e de qualidade!

Baixe artes, cartazes e panfleto para mobilizar seu IF

Pasta compartilhada tem artes para usar nas redes sociais e para imprimir, rumo à greve da educação em 15 de maio.

Esta pasta compartilhada pode ser de grande utilidade para quem quer barrar o corte de 30% imposto pelo governo Bolsonaro para a rede federal de ensino. São artes tanto para redes sociais quanto para imprimir, importantes para mobilizar mais gente e construir uma grande paralisação nacional da educação no dia 15 de maio.
A mobilização só cresce desde sexta-feira (3/05), dia seguinte ao anúncio do governo federal sobre os cortes. Grande parte das 642 unidades dos Institutos Federais, além de Colégio Pedro II e Cefet, no Rio de Janeiro, já estão organizados para barrar a medida e realizar atos de rua no dia 15 de maio.
Acompanhe pelos perfis da UBES no Instagram e no Facebook.

Entre na luta com seu IF

Para fazer do seu IF também uma trincheira contra os cortes, siga estes passos:
  • Converse com pais, colegas, professores, direção
  • Crie um grupo de WhatsApp do seu IF
  • Organize assembleias de preparação para a greve geral
  • Prepare cartazes para o dia 15
  • Compartilhe fotos e vídeos de tudo! Use a tag #TiraAMãoDoMeuIF e marque @ubesoficial e @circusdaubesoficial.
  • Fonte: UBES

Universidades e escolas protestam contra cortes de 30% no setor

Ato na UFBA tomou às ruas em Salvador na Bahia 
por Cristiane Tada.
Atos na Bahia e RJ são uma amostra do que virá no dia 15 de Maio, dia de mobilização nacional construído por estudantes e educadores.
Extremamente preocupadas universidades e institutos federais de todo o Brasil se pronunciaram repercutindo o anúncio do bloqueio de 30% no orçamento das instituições de ensino pelo ministro da Educação, Abraham Weintraub. Um dia depois do ministro ameaçar o corte como retaliação apenas às instituições de ensino UnB, UFBA, e UFF que teriam promovido “balbúrdia”, o MEC anunciou ainda na semana passada que na verdade o contingenciamento será a todas universidades e institutos federais.
Nesta segunda-feira (06/5) a comunidade acadêmica da UFBA realizou um protesto contra os cortes que saiu da Faculdade de Educação e tomou a Avenida Reitor Miguel Calmon, uma das principais vias da capital baiana. O reitor da UFBA, João Carlos Salles, afirmou que cerca de 40 mil alunos são afetados pelo corte do orçamento, que já entrou em vigor na última semana.
Alunos, pais e professores também protestaram contra os cortes nos institutos federais em frente a um colégio militar na Tijuca, Zona Norte do Rio de Janeiro. Lá o presidente Jair Bolsonaro participava de uma solenidade. Os atos são preparatórios para o dia 15 de Maio, data em que uma grande paralisação da Educação está marcada.
Protesto no RJ
“Não podemos admitir esse corte porque isso significa que o Brasil vai parar de produzir ciência, que a universidade vai perder qualidade e que esses projetos como Escola Sem Partido e essas tentativas de cercear a nossa liberdade transforme o ambiente universitário em autoritário e um lugar onde a gente não possa protestar. E para que a gente consiga proteger a universidade pública nós precisamos nos organizar e por isso estamos convocando a comunidade acadêmica a debater o assunto para que possamos motivar a luta em defesa da universidade pública em assembleias e atos no dia 15 de Maio, uma preparação para a greve geral que acontecerá em Junho”, afirmou a presidenta da UNE, Marianna Dias.

ATIVIDADES UNIVERSITÁRIAS PODEM SER INTERROMPIDAS

UFG, UFF, UFPR, UFPel, UFPE, e o Instituto Federal do Espírito Santo (IFES) já foram categóricas em dizer que o corte inviabiliza as atividades das instituições até o final do ano.
“Se forem cortados 30% do orçamento, significa simplesmente que nós funcionaremos até setembro. A UFPel não tem nenhum tipo de corte para fazer, tudo que existia para cortar já foi cortado. É uma irresponsabilidade minha, como gestor, fazer cortes a mais”, disse o reitor Pedro Hallal para a Gaúcha ZH.
Em Pernambuco o pró-reitor de Planejamento e Finanças, Thiago Galvão disse à Rádio Jornal que caso o MEC não volte atrás na decisão, a UFPE também vai ter que decidir quais ações serão paralisadas. “No primeiro semestre, o impacto não será significativo, mas, no segundo semestre pode, inclusive, inviabilizar as atividades. Esses é um processo que vai ser discutido junto com o Conselho Universitário, com a administração para ver que atividades serão paradas caso esse bloqueio seja continuado”.
Já a UFPR, afirmou que as atividades podem simplesmente parar por falta de dinheiro para despesas básicas como o pagamento de luz, água, telefone, combustível, vigilância, passagens, contratos de terceirizadas responsáveis por limpeza, entre centenas de outros serviços essenciais.
“Esse corte, nesta altura, vai inviabilizar a atividade da universidade. Mesmo com uma ação radical da nossa parte, e estamos tentando, por mais que façamos uma racionalização profunda, é praticamente impossível chegarmos com o que resta de recursos até o final do ano.”, afirmou ao site Bem Paraná, o reitor da UFPR, Ricardo Marcelo Fonseca.

Em Minas Gerais as demissões dos terceirizados já começaram. A Unifal afirma que já havia reduzido o pessoal devido ao congelamento do teto de gastos em 2018, mas agora não existe mais o que cortar. “Demitimos uns 60 em função desse bloqueio que havia sido anunciado. Temos número reduzido de servidores concursados. Como faremos para a universidade funcionar? Com colaboradores terceirizados. Como há necessidade de redução, isso vai afetar gravemente o funcionamento da universidade e de serviços prestados à população”, afirmou o reitor Sando Amadeo Cerveira ao jornal O Tempo. Entre os serviços está o atendimento da Clínica de Especialidades Médicas.
Fonte: UNE

Invenção revolucionária, bicicleta empoderou mulheres e mais pobres

Em um dia de outono de 1865, dois homens chegavam a uma taverna em Connecticut, nos Estados Unidos, para acalmar os nervos com uma bebida. Eles conduziam uma carroça em uma colina próxima, quando um grito terrível os deixou arrepiados. O que parecia ser o próprio diabo – com a cabeça de um homem e o corpo de uma criatura estranha – vinha “voando” colina abaixo em direção a eles, rente ao chão, até cair em um buraco.
Por Tim Harford, na BBC*
Imagine o terror que eles sentiram quando o diabo em questão se aproximou deles para se apresentar. O homem, um francês de cabelos escuros, estava encharcado e coberto de sangue. Seu nome era Pierre Lallement. O jovem mecânico estava nos EUA havia alguns meses e havia levado consigo uma máquina inventada por ele: uma construção de duas rodas com pedais chamada “velocípede”. Mais tarde, a chamaríamos de bicicleta.
Lallement patenteou sua invenção, que ainda não tinha marchas nem a corrente das bicicletas modernas. Tampouco freios. Seu modelo complexo foi rapidamente ultrapassado por outro, o chamado Penny Farthing, que tinha uma roda gigantesca na frente e uma bem pequena atrás – um veículo que não era tranquilo de guiar, mas que era duas vezes mais rápido que o velocípede. Eles eram conduzidos quase exclusivamente por jovens destemidos em cima da roda imensa que ameaçava jogá-los para frente diante do menor obstáculo.
A versão seguinte, a “bicicleta segura”, atraiu um grupo bem maior. Ela era muito parecida com as bicicletas modernas, com correia, rodas do mesmo tamanho e um quadro em forma de diamante. A velocidade era alcançada graças não a uma roda gigantesca, mas a engrenagens.
Era possível conduzir essas bicicletas até de vestido. Não que isso preocupasse Angeline Allen, por exemplo, que causou sensação em 1983 pedalando nos arredores de Nova York. “Ela usava calças!”, dizia a manchete de uma popular revista masculina, acrescentando que ela era jovem, bonita e divorciada.
A bicicleta foi uma força libertadora para as mulheres. Elas precisavam se livrar de espartilhos e de saias armadas com aros – e usar roupas mais confortáveis para pedalar com mais facilidade. Pedalar também significava se deslocar sem acompanhantes. Os mais conservadores ficaram alarmados, temendo que o que viam como “pedaladas obscenas”, pudesse levar à masturbação e até à prostituição. Temores que logo se mostraram ridículos.
Segundo a historiadora Margaret Guroff, no caso de Angeline Allen, ninguém parecia preocupado com o fato de ela estar andando de bicicleta – apenas com as roupas que ela usava enquanto fazia isso. Uma mulher vista sozinha de bicicleta, em público, não parecia um escândalo. Três anos depois, Susan B. Anthony, ativista dos direitos das mulheres no século 19, declarou que a bicicleta havia feito “mais pela emancipação das mulheres do que qualquer outra coisa no mundo”.
Hoje, a bicicleta continua empoderando as mulheres. Em 2006, o governo do Estado de Bihar, na Índia, começou a subsidiar fortemente a compra de bicicletas para meninas adolescentes que estavam começando o ensino médio – a ideia era que elas pudessem percorrer os vários quilômetros que precisam enfrentar para assistir aula. O programa parece ter funcionado, aumentando significativamente as chances de as meninas continuarem na escola.
Nos Estados Unidos, o astro do basquete LeBron James fundou uma escola em sua cidade natal em Ohio que fornece uma bicicleta para cada estudante. James relata que ele e os amigos se sentiam “extremamente felizes” quando andavam de bicicleta – que tem sido, há muito tempo, uma tecnologia libertadora para os economicamente oprimidos. Em seus primórdios, elas eram muito mais baratas que um cavalo, ainda que oferecessem o mesmo alcance e liberdade.
Da bicicleta ao carro
A bicicleta também impulsionou uma revolução na indústria, assim como uma revolução social. Na primeira metade do século 19, peças de precisão intercambiáveis eram usadas para fabricar armas de fogo para o Exército dos Estados Unidos, a um custo considerável. O processo era considerado muito caro para ser completamente reproduzido por “fábricas civis”.
A bicicleta, entretanto, conseguiu criar uma ponte entre a fabricação de produtos militares de ponta e a difusão da produção em série de produtos complexos. Os fabricantes de bicicletas desenvolveram técnicas simples e facilmente replicáveis – como estampar chapas de metal frio para criar mais formas – para manter os custos baixos sem sacrificar a qualidade. Eles também desenvolveram pneus, engrenagens diferenciais e freios. Tanto as técnicas de fabricação quanto esses componentes inovadores foram adotados depois por fabricantes de automóveis, como Henry Ford.
A primeira bicicleta segura, aliás, foi feita em 1885 na fábrica da Rover, em Coventry, na Inglaterra. Não por acaso, a Rover se tornou posteriormente um importante player na indústria automobilística. Sua transição do ramo de bicicletas para o de carros era óbvia.
A bicicleta também foi um impulso para a modernização da indústria no Japão. O primeiro passo para isso foi a importação de bicicletas do Ocidente para a capital, Tóquio, por volta do ano 1890. Depois, foram criadas oficinas para consertar bicicletas. O passo seguinte foi o início da produção local de peças de reposição. Apenas 10 anos depois, Tóquio dispunha de todos os ingredientes para produzir suas próprias bicicletas. Quando a 2ª Guerra Mundial eclodiu, o país já fabricava mais de meio milhão de bicicletas por ano.
Ver a bicicleta como uma tecnologia do passado pode ser tentador para algumas pessoas. Mas dados recentes mostram que essa não é a realidade. Há meio século, a produção mundial de bicicletas e carros era quase a mesma – 20 milhões, cada, por ano. A produção de carros triplicou desde então, mas a produção de bicicletas aumentou duas vezes mais rápido – para cerca de 120 milhões por ano. E não é absurdo pensar que as bicicletas estão criando tendências de novo.
Em um momento em que o uso de carros autônomos – ou seja, sem motoristas – já está sendo explorado, há quem acredite que o veículo do futuro não terá donos, mas será alugado por meio de aplicativos de celular. Se assim for, o veículo do futuro está aqui: já existem diversos esquemas de compartilhamento de bicicletas em todo o mundo. É um número que segue em expansão e um tipo de sistema que possibilita até o aluguel de algumas com motores elétricos.
O Uber já anunciou que planeja focar mais em seus negócios de patinetes elétricos e bicicletas, e menos em carros. Algumas empresas tiveram problemas iniciais com esse modelo de negócio – com bicicletas roubadas, danificadas ou abandonadas – e, por esse motivo, pararam de operar em algumas cidades. No entanto, este mercado parece estar crescendo, uma vez que a bicicleta ainda é o meio de transporte mais rápido para circular em áreas com trânsito mais pesado.
É verdade que ficar mais suscetível à poluição – como fumaça dos carros – e a possibilidade de acidentes são fatores que desencorajam alguns ciclistas. Mas, se a nova geração de carros é elétrica e não poluente, e conduzida por um robô atencioso e cauteloso, a popularidade da bicicleta só tende a aumentar.
* Tim Harford escreve a coluna “Undercover economist” no jornal britânico Financial Times e apresenta a série “50 coisas que fizeram a economia moderna”, transmitida pelo Serviço Mundial da BBC.
Fonte: Brasil Cultura

Carlos Drummond de Andrade: O poeta Quintana

Lago Burnett atribuiu-me a criação do neologismo “quintanares”, alusivo aos poemas de Mário Quintana.Infelizmente não fui eu, foi Cecília Meireles que cunhou a palavra. Bem que eu gostaria não só de ter batizado como de ter escrito os quintanares de Quintana.
Por Carlos Drummond de Andrade, no Correio da Manhã (31/07/1966)
* Monumento a Carlos Drummond de Andrade e a Mário Quintana, na Praça da Alfândega, em Porto Alegre (RS)
Por outro lado, sei que não me seria possível escrevê-los. Só o Quintana tem a fórmula, direi melhor, a ausência de fórmula dessas cantigas: ora soneto, ora trova, ora verso livre, ora prosa enganadora, por fora; por dentro, o imponderável de um achado poético não procurado, porque foi ele, achado, que achou o achador. Não me faço entender? Não faz mal. Remeto o leitor à Antologia Poética de Mário Quintana, que a Editora do Autor acaba de publicar, com o melhor de sua produção, tirado de cinco livros, além de 60 poemas inéditos.
Gaúcho de Alegrete, Quintana imagina-se a cavalo no campo, deixando que o poema, “esse estranho animal”, encontre o rumo. “Ele não quer saber de querências, de nada, / E só descobre estranhos descaminhos…” Acaba topando com os Três Reis Magos, que perguntam ao poeta se viu a Estrela. Também lhe acontece topar com D. Quixote, o Espantalho Desconhecido, Jack o Estripador, até Jesus Cristo com o Menino Jesus ao colo.
Há encontros menores, nem por isso menos provocadores de poemas. Basta-lhe um guarda-chuva perdido, que vai formar anel em Saturno; ou um grilo, um ovo. Mitos, pessoas, coisas, situações vêm ao encontro de Mário Quintana com a naturalidade de velhos camaradas de diferentes meios que têm um amigo em comum. O poeta acolhe-os com a mesma cortesia afetuosa. Disto se faz a lírica de MQ: é uma tradução, para o simples, de muitos mistérios.
Poderia chamá-lo intérprete. Pois aqueles dos risos, o da velhinha e o da garota, nós bem os percebemos e distinguimos, sem saber defini-los. Temos de recorrer a Quintana: o riso da vovó “é um riso de cobre – surdo, velho, azinhavrado – um riso que sai custoso, aos vinténs”, ao passo que a menina “lhe dá o troco em pratinhas novas”. Há casos em que o poeta nos explica o objeto pelo objeto, em sua essencialidade:
Um lampião de esquina
Só pode ser comparado a um lampião de esquina,
De tal maneira ele é ele mesmo
na sua ardente solidão!
Também nos dá a chave de sublimes compensações gratuitas:
Não é preciso um verso… nem
Uma oração…
Basta que digas a palavra anêmona
E tudo esquecerás, enredado na sua
Fantasmagórica palpitação.
A simplicidade de meios, a cantante sequência de versos que, mesmo se esquivando ao metro fixo, estão sempre banhados numa atmosfera de música surdinada, o poder de extrair de um incidente mínimo de vida a centelha de poesia que ilumina uma extensão ilimitada, eis alguns dos segredos de bolso de Mário Quintana. Porque o segredo grande, este não se revela.
O segredo de ser o poeta que ele é, e não outro, sem embargo das influências que agiram em sua formação e das afinidades que o ligam a uma família de espíritos; a organização especial, o jeito quintanar e único, a arte de aprofundar sua experiência convertendo sua poesia num bem geral de tantos que nunca o viram e que entretanto o amam à fé destes versos. Pois esta é uma poesia que, “na sua ardente solidão”, provoca imediata empatia, e se faz objeto de amor.
* Carlos Drummond de Andrade (1902-1987), escritor modernista, é considerado o maior poeta brasileiro do século 20. Este artigo de sua autoria foi publicado originalmente em Carlos Drummond Andrade – Autorretrato e Outras Crônicas (Editora Record)

segunda-feira, 6 de maio de 2019

Deputado Allyson Bezerra se pronunciou-se neste domingo (05) sobre o corte orçamentário de mais de R$ 100 milhões anunciado pelo Governo Federal para a área da Educação.

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Imagem do Google - Dep. Allysson Bezerra

Boa noite, caros jornalistas.

Segue release do Dep. Est. Allyson Bezerra.

 "Precisamos agir", diz deputado Allyson Bezerra sobre corte na Educação.

O deputado estadual Allyson Bezerra (Solidariedade) se pronunciou neste domingo (05) sobre o corte orçamentário de mais de R$ 100 milhões anunciado pelo Governo Federal para a área da Educação.
UFRN, UFERSA e IF's têm comprometimento de suas atividades, prejudicando milhares de alunos e serviços que prestam à sociedade, no ensino, pesquisa e extensão.

"Conheço bem essa realidade, como ex-estudante do IF e Ufersa. Acho equivocado se pensar em desenvolvimento, crescimento econômico e bem-estar social, com desmonte do ensino público. Precisamos agir. Comecei a contactar com colegas deputados estaduais e outras autoridades, para mobilizarmos nossa bancada federal", afirmou Allyson Bezerra.

"A reação à medida começa a se espalhar pelo país. Acredito que a integração de forças em cada estado, com esforços no campo do Congresso Nacional, é o caminho para revertermos essa decisão", concluiu o deputado.

Fonte: Assessoria de Comunicação do Deputado.

Na briga das TVs, o rádio esportivo vence

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Por Rafael Duarte Oliveira Venancio*, especial para os Jornalistas Livres

Em jogo sem câmeras entre CSA e Palmeiras pelo Campeonato Brasileiro, o velho campeão de audiência, e emoção, entra novamente em campo.

A atual problemática dos direitos de transmissão do futebol brasileiro entre os clubes e as televisões, notadamente a Globo e o Esporte Interativo, produz a cada rodada um novo capítulo. Um capítulo que decidirá o futuro da comunicação em nosso país.

Já escrevemos sobre isso anteriormente nos Jornalistas Livres, em 2017, no artigo “O futebol não será televisionado” (link aqui – https://jornalistaslivres.org/o-futebol-nao-sera-televisionado/), quando Athletico e Coritiba sem acordo com a Globo, transmitiram o seu jogo pelo Campeonato Paranaense pelo “ao vivo” do Facebook e do YouTube em suas contas oficiais nestas redes sociais.

No entanto, agora na segunda rodada do Campeonato Brasileiro de 2019, houve uma significativa diferença no Estádio Rei Pelé, em Maceió-AL, entre CSA e Palmeiras. Não havia câmeras de transmissão, apenas as do VAR (Video Assistant Referee, na sigla em inglês para Árbitro Assistente de Vídeo).

Isso aconteceu porque o Palmeiras não possui acordo com a TV Globo e o CSA não o tem com o Esporte Interativo. Logo, as câmeras lá postas eram apenas as do VAR no acordo entre a Confederação Brasileira de Futebol – CBF e a Globo, sob a alcunha de CBFtv.

Seria um jogo que ninguém dos conglomerados de comunicação resolveria ir? Claro que não! Um velho herói esportivo surgiu com renovada força: o rádio.

Ora, a briga entre Globo e Esporte Interativo – cujo principal protagonista é o atual campeão brasileiro, a Sociedade Esportiva Palmeiras – é uma dita “briga de cachorro grande”.

Em outubro de 2018, em entrevista à Jovem Pan, o presidente do Palmeiras, Maurício Galliote descreveu como seria o acordo em vigor entre 2019 e 2024: “A Globo apresentou um contrato com algumas penalizações, algumas situações em que não concordamos. Além de números muito inferiores ao que a gente pede. Quando apresentamos a proposta para a Globo foi com números: qual o tamanho da nossa torcida, qual é o nosso público, qual é a nossa audiência, qual é a nossa perspectiva para ganho de títulos. Então nossa proposta está na mesa e vamos defender nossos números, porque temos total convicção que esses números são verdadeiros”

NÃO EXISTE NENHUMA MANEIRA DO PALMEIRAS ROMPER COM O ESPORTE INTERATIVO.

“Temos o contrato com eles e o Esporte Interativo é que transferiu para a TNT”. Este contrato é estimado em 100 milhões de reais.

Por outro lado, a Globo faz valer sua pressão econômica com os times que assinaram com ela. Esse é o exemplo do CSA, que disputa uma Primeira Divisão Brasileira após quase três décadas. O clube alagoano tem contrato de exclusividade com a Globo. Assim, sem a anuência do Palmeiras para a Globo e a proibição de possibilidade de acordo pontual do CSA com a Esporte Interativo, o jogo não pode ter sua imagem transmitida.

Em um primeiro momento, dizia-se que a TV Palmeiras faria uma transmissão  próxima daquela que já faz, porém com as câmeras viradas para os locutores. Inicialmente foi descartada por “problemas técnicos” e o clube fez a divulgação que a sua TV seria como se fosse uma rádio, fazendo alusão no tweet de chamada a um torcedor palmeirense ouvindo no bom e velho radinho de pilha. No entanto, já com o jogo começado, a TV Palmeiras fez a sua transmissão mostrando os locutores, algo próximo do que faz a Rádio Jovem Pan em seu canal no YouTube.

Restou apenas o bom e velho áudio e seu campeão comunicacional: o rádio, seja nos FMs dos aparelhos ou em suas modernizadas transmissões via YouTube ou Facebook.

A primeira a propagandear isso foi a rádio Transamérica 100,1 FM de São Paulo através de um apelativo tweet. Logo depois, os demais grandes grupos comunicacionais – tal como Rádio Bandeirantes – mandaram equipes. Outras rádios optaram por transmitir o jogo entre Corinthians e Chapecoense, realizado em São Paulo no mesmo horário de CSA e Palmeiras.

Na transmissão da Transamérica, o locutor Gavião lia frases dos ouvintes tais como

“QUE SAUDADE DE OUVIR UM JOGO QUE SÓ EXISTE NO RÁDIO”

e “Eu sigo a Transamérica porque ela não nos abandona.”

Já na transmissão da Rádio Bandeirantes, o nosso colega radialista André Russo me mandou prints muito interessantes onde havia alguma estranheza (como se fosse ruim assistir um jogo apenas com o áudio), mas muita redescoberta, tal como se o futebol voltasse para um querido e bom parceiro amoroso. Um desses prints pode ser visto a seguir.
Ora, em um trocadilho com a famosa música do The Buggles, sabemos que a TV matou a estrela de futebol radiofônica. Leônidas e Zizinho eram gigantes tal como Pelé, mas o Rei do Futebol surge junto com a popularização do futebol na TV na metade dos anos 1950, enquanto os outros dois – imensos craques dos anos 1930 e 1940 – tinham suas jogadas geniais irradiadas apenas.

Nos anos 1970 e 1980, programas de humor (ou seria de comédia ficcional – estou fazendo um pós-doutorado sobre isso para entender) tal como o Show de Rádio de Estevam Sangirardi e locutores excepcionais como Osmar Santos chamaram o futebol de volta para o rádio. Surgira até a mania de colocar a TV no mudo e ouvir pelo rádio simultaneamente.

Dos anos 1990 para cá, a Globo consolidou um estilo de transmissão onde o rádio fora novamente esquecido. Na minha opinião até agora, 2019. Com o uso do YouTube e das demais mídias sociais, os radialistas esportivos ganham novo fôlego. As TVs brigam mais um pouco em cima do desafio da Internet e do DIY inerente a ela. Nisso, o rádio – que se reestruturou enquanto podcast, audiocast, audiostreamming ou mesmo mídia sonora digital – nada de braçada.

Teremos mais jogos nessa situação antes da Copa América em junho: Chapecoense x Athletico (5/5), Atlético-MG x Palmeiras (12/5), Botafogo x Palmeiras (25/5), Chapecoense x Palmeiras (2/6), Palmeiras x Avaí (13/6) e Goiás x Athletico (13/6). É de observar.

No entanto, nesta rodada do 1º de maio, o jogo pode ter sido empate entre CSA e Palmeiras, mas o rádio esportivo ganhou de goleada das TVs em briga.

Jornalista, pós-doutorando da Universidade de São Paulo e professor da Universidade Federal de Uberlândia.

Irene, a potiguar que transformou o luto em luta por moradia


O Jornalistas Livres entrou na ocupação 9 de julho, em São Paulo, e encontrou Irene da Silva, aposentada potiguar que virou militante pelo direito à moradia aos 60 anos de idade. Ocupação transformou prédio abandonado no centro de São Paulo em lar para famílias que não tinham para onde ir.

Ocupado desde 2016, o antigo prédio do INSS na Avenida 9 de Julho, em São Paulo, é hoje uma das ocupações modelo no país. Abandonado na década de 1970, o prédio já foi palco de inúmeras reintegrações de posse e ocupações. Atualmente 120 famílias vivem no prédio. São aproximadamente 450 trabalhadores e trabalhadoras de baixa renda, brasileiros e imigrantes que, dia a dia, transformam um local antes abandonado, depredado e sem função social, em um lar organizado, com capacidade residencial e produtiva.

Em meio a essas pessoas, uma potiguar: a aposentada Irene da Silva, de 66 anos. Natural de Sítio Novo, cidade com pouco mais de 5 mil habitantes no Agreste do Rio Grande do Norte, ela tem uma história de vida com muitos trechos comuns aos milhares de nordestinos que fizeram e ainda fazem a travessia em busca de uma vida melhor em São Paulo.

De família de agricultores, dona Irene viveu até os 16 anos na zona rural. O pai era vaqueiro, trabalhava para fazendeiros da região. Sem alternativa de emprego, ela e os quatro irmãos foram para a pequena cidade de Sítio Novo, onde a mãe arrumou emprego como empregada doméstica na casa do prefeito. A jovem seguiu para Natal e, repetindo o destino da mãe, também foi trabalhar como “doméstica”. Alguns anos se passaram e, após uma passagem por Manaus, chegou em São Paulo:

“Nessa época ainda tinha emprego. Os nordestinos que chegavam se ocupavam rápido na construção civil, como porteiro, cozinheiro, manobrista…Eu fui ser empregada doméstica novamente. Morei por três anos no meu primeiro trabalho aqui ”, conta.
Ocupação 9 de julho transformou antigo e abandonado prédio do INSS num lar para 450 pessoas.

Dona Irene casou, teve duas filhas e viveu uma vida simples e digna na maior metrópole do país, sempre trabalhando. Foi também ASG, costureira, office-boy e cuidadora. O marido, de Maceió, era garçom. Com as duas rendas eles sustentavam a família e pagavam aluguel, sempre no centro da cidade. Mas os anos passaram, o Brasil mudou e, muitas crises econômicas depois, Dona Irene, já viúva e idosa, se viu sem condições de pagar aluguel.

Foi então que, através de uma sobrinha envolvida com o Movimento dos Sem Teto do Centro (MSTC), surgiu a oportunidade de se mudar para uma das ocupações:
“Eu só não vim antes porque eu tinha medo, e não era dos outros moradores não. Eu tinha medo da polícia, de ser expulsa, de sofrer algum tipo de violência junto com as minhas filhas durante uma possível reintegração de posse. Mas criei coragem e vim. Morei primeiro na Ocupação do antigo Hotel Cambridge e estou aqui na Ocupação 9 de julho há cerca de um ano”, explica.
“Eu só não vim antes porque eu tinha medo, e não era dos outros moradores, não. Eu tinha medo da polícia, de ser expulsa, de sofrer algum tipo de violência”

A filha mais nova vive com ela e a mais velha, casada, também mora na Ocupação 9 de julho, em outro apartamento.

Hoje Irene espera ansiosamente para realizar o sonho da casa própria. Em até dois anos deve ser contemplada com um imóvel desapropriado que agora integra o programa de empreendimentos populares da Prefeitura de São Paulo. Mas garante que, independentemente disso, vai continuar militando:

– “Aprendi muito e aprendo todos os dias aqui dentro. Aqui são as mulheres que lutam. No último dia 8 de março, um grupo de mulheres ocupou um prédio para mostrar aos nossos governantes o que mulher sabe fazer. Minha vida deu uma reviravolta, mas não há mal que não venha para o bem. Cheguei nova em São Paulo, trabalhei, trabalhei e nunca consegui comprar minha casa. Chegava na Caixa Econômica Federal e dava com a cara na porta. Agora, com a ajuda do movimento, vou realizar esse sonho e o melhor: sem sair do Centro”, orgulha-se.

“A gente vive em vários Brasis”
A baiana Carmem Silva é uma das lideranças da Ocupação 9 de julho.

A Ocupação 9 de julho é coordenada pelo Movimento Sem Teto do Cento (MSTC), que organiza também outras cinco ocupações na região central de São Paulo.  A sigla faz parte da Frente de Luta por Moradia (FLM), que agrega outros movimentos sociais do qual fazem parte cerca de 25 mil famílias espalhadas pelos quatro cantos da cidade. A missão principal é mobilizar e organizar cidadãos que estão na luta por moradia digna. O movimento promove ações e debates, junto ao governo e à sociedade civil, para que o direito constitucional de acesso a moradia seja cumprido pelo Estado.

A baiana Carmen Silva é a líder do MSTC. Nascida em Santo Estevão, no Recôncavo Baiano, filha de um militar e de uma empregada doméstica, ela casou aos 17 anos na tentativa de escapar do machismo do pai. A tão sonhada liberdade seria apenas ilusão. “Só fiz transferir o problema. Fiquei casada por quase 16 anos e aos 32 vim para São Paulo. Sofri muita violência doméstica até conseguir tomar as rédeas da minha vida”.
Vítima de violência doméstica, Carmem enfrentou e conquistou São Paulo.

Carmen acredita ter sido salva pela política:

– “A gente vive em vários Brasis. Os governantes fazem questão de estabelecer essa gentrificação territorial para nos dividir. É uma estratégia da minoria dominante que nos separa culturalmente e nos enfraquece. Enfrentei muito preconceito quando cheguei, fui parar nas ruas, depois em um albergue e lá fui apresentada aos movimentos sociais. Quase três décadas depois, posso dizer que também sou cidadã paulistana porque conheço essa cidade como poucos e adquiri a compreensão geopolítica necessária para discutir políticas públicas de direito à cidade”, conta antes de explicar o papel do movimento na Ocupação:

“O papel do MSTC é organizar trabalhadores para cobrar do Estado. Se a gente ocupa é porque está abandonado e sem função social. O cidadão de menor renda não precisa ficar isolado em glebas, nas periferias extremas. Ele pode sim viver no coração da cidade e ter acesso a tudo o que ela oferece. Em todas as capitais brasileiras existem vazios urbanos – empreendimentos erguidos apenas para fins especulatórios. Enquanto isso, os governos não desenvolvem políticas públicas eficientes no âmbito da moradia. É aí que entram os movimentos sociais. A gente toca a luta pelo direito de existir”.

Almoços de domingo tamanho família.
Almoços mensais na Ocupação 9 de julho têm programação cultural ativa e é aberto à população.

Tem luta e sobretudo alegria e afeto. A gestora cultural Laura Maringoni faz parte do Aparelhamento, um grupo que desde 2017 atua em parceria com o MSTC na Ocupação 9 de julho. Eles montaram uma cozinha industrial no prédio, que é utilizada exclusivamente durante ações coletivas. Uma das principais é o almoço mensal. Aberto ao público, o evento é considerado hoje a principal vitrine do movimento. Chama atenção para a causa e estreita laços com uma parcela privilegiada e influente da população paulistana.

“Essa troca é muito importante até mesmo para desconstruir a ideia que as pessoas tem dos moradores de ocupações. Imagem inclusive que é fomentada pela grande mídia. Aqui não tem bagunça, não tem bandido. São famílias. Cidadãos que não tiveram as mesmas oportunidades que eu tive, por exemplo, e que merecem ter direito à moradia”, conta.
Artistas como Otto, Zeca Baleiro, Chico César e Anelis Assumpção já se apresentaram na Ocupação 9 de julho.

O que era apenas comida farta, foi ganhando corpo com o passar do tempo e se transformou em um grande acontecimento cultural. A movimentação artística é intensa. Cantores como Otto, Zeca Baleiro, Chico César e Anelis Assumpção já se apresentaram por lá. Além da música, tem oficinas, exposições e todo tipo de intervenções artísticas. Cultura é palavra de ordem e as ações nesse sentido não acontecem apenas durante o evento. Semanalmente, por exemplo, os moradores participam de uma oficina de desenho.

“Quando se fala em direito à moradia, não significa apenas um espaço físico, um teto sobre a cabeça. Morar é ter acesso à saúde, à educação, ao transporte público, à saneamento básico e, claro, à cultura. Trazendo as pessoas de fora aqui para dentro, a gente cria um cordão afetivo em volta desse lugar e isso se transforma em proteção para a causa”, justifica.

Laura reforça o viés político do movimento. Para ela, quem se envolve de qualquer forma está se posicionando:

– “Só podemos pensar em uma sociedade melhor, mais justa e mais equânime se a gente descruzar os braços, se unir e trabalhar. É preciso lutar juntos, de forma prática, por uma sociedade diferente da que temos hoje. Mais que nunca, precisamos resistir”, explica.

Fonte: Jornalista Livres

“Financiamento público da cultura não é uma questão ideológica”

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Foto: Gustafo Stefano. Fonte: Rede SP de Memória e Museologia Social, 2018.

Diretor do Sistema Estadual de Museus de São Paulo fala sobre programas e projetos, precariedade dos equipamentos culturais, orçamentos e nossa classe política anticultura.

Reportagem: Humberto Meratti / Revisão: Jéssica Souza (Coletivo Balaioo)

Na última semana, estive nas dependências da Secretaria de Cultura e Economia Criativa de São Paulo e obtive uma entrevista exclusiva com, Davidson Panis Kaseker, mestre em museologia pela USP, e Diretor do Grupo Técnico de Coordenação do Sistema Estadual de Museus de São Paulo (SISEM-SP), desde 2013. Kaseker é considerado por muitos gestores públicos, um militante cultural ferrenho na área.

Meratti: O que é o Sistema Estadual De Museus De São Paulo (SISEM-SP) e quais suas respectivas responsabilidades enquanto órgão vinculado à Secretaria de Cultura e Economia Criativa do Estado de São Paulo?

Kaseker: O Sistema Estadual de Museus de São Paulo, foi criado em 1986, é o sistema de museus mais antigo do país. Sua função é congregar e articular os museus paulistas, com o objetivo de promover a qualificação e o fortalecimento institucional em favor da preservação, pesquisa e difusão do acervo museológico do Estado. No último mapeamento, realizado em 2010, foram listadas 415 instituições museológicas públicas e privadas, distribuídas em 190 municípios do Estado. Trata-se de um conjunto muito expressivo de museus, bastante heterogêneo, com instituições de distintos portes e estágios de desenvolvimento, que colocam São Paulo em destaque no campo da mediação da memória, o que só aumenta a nossa responsabilidade no que diz respeito à formulação e implementação de políticas públicas para a área.

M: O SISEM atua em todos os estados brasileiros?

K: Nem todos os Estados contam com sistemas de museus, mas todos aqueles que têm um número significativo de instituições museológicas criaram este tipo de organismo, o que é de vital importância para a atuação em rede e a qualificação das instituições museológicas brasileiras.

Mi: Como o SISEM-SP vem se estruturando e atuando neste momento atual de retrocesso, com a falta de investimento e o congelamento de recursos e, até mesmo a reduções orçamentárias?

K: O SISEM-SP se estrutura em torno de premissas de parceria e responsabilidades compartilhadas, isso requer o envolvimento de parceiros institucionais como as prefeituras e instituições do terceiro setor, além dos próprios profissionais da área. Para tanto, criamos uma instância participativa de representações regionais, composta por voluntários, o que nos permite ampliar a capilaridade de nossa atuação. Dessa forma, as ações previstas para cada região administrativa são concebidas levando-se em conta o contexto, as demandas e as potencialidades locais e regionais. Ao todo, o sistema atua em cinco linhas de ação principais: articulação, apoio técnico, comunicação, formação e fomento. Neste momento, com sucessivas reduções orçamentárias sofridas nos últimos quatro anos devido à crise econômica que o país atravessou, nossos esforços têm sido direcionados a preservar as ações estruturantes e buscar a recuperação orçamentária. Nem por isso deixamos de manter constante interlocução com os profissionais dos museus, atuando fortemente por meio de nosso site, onde disponibilizamos para consulta e download materiais técnicos de grande utilidade para a atuação na gestão cotidiana dos museus, assim como tempos forte presença nas mídias sociais.

M: Qual é a situação atual do Instituto Brasileiro de Museus (IBRAM) e do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN)? Existe algum tipo de atividade conjunta entre ambas entidades e o SISEM-SP?

K: Com o IBRAM, que na atual gestão federal acabou sendo mantido e subordinado a uma Secretaria Especial de Cultura junto ao Ministério das Cidades, o SISEM-SP mantém um convênio de parceria que nos reconhece como entidade credenciadora dos museus paulistas. Assim, os museus que aderem ao Cadastro Estadual de Museus de São Paulo também são registrados na Rede Nacional de Informações Museais. Já com relação ao IPHAN, não há uma ligação direta nem atividades mutuas, embora todas estas instituições atuem no campo da preservação da memória.

M: Nos últimos anos, incêndios destruíram importantes museus brasileiros que estão sob guardas federais, estaduais e municipais, acarretando em perdas irreparáveis. O descaso é notável nos últimos anos com os equipamentos públicos culturais no sentido mais amplo. Você acredita que tudo isso ocorre em virtude do que?

K: O risco de incêndio está presente sempre nos museus e em outros equipamentos culturais, que em geral ocupam edificações de grande porte, e muitas delas antigas. Isso é um fenômeno mundial.

NO BRASIL, O AGRAVANTE É A NOSSA CULTURA POLÍTICA, QUE TRADICIONALMENTE NÃO VALORIZA A CULTURA DE UM MODO GERAL E MUITO MENOS DESTINA OS RECURSOS ADEQUADOS PARA A MANUTENÇÃO DOS EQUIPAMENTOS CULTURAIS. NA VERDADE, É UMA PRÁTICA NADA RACIONAL, POIS FICA MUITO MAIS CARO RECONSTRUIR UM MUSEU DO QUE GARANTIR AS CONDIÇÕES TÉCNICAS DE SUA MANUTENÇÃO, O QUE REQUER SERVIÇOS DE ZELADORIA PREDIAL, EQUIPAMENTOS DE SEGURANÇA E, PRINCIPALMENTE, EQUIPES TÉCNICAS CAPACITADAS PARA A CONSERVAÇÃO TANTO DOS EDIFÍCIOS COMO DOS ACERVOS. SEM FALAR QUE SINISTROS COMO INCÊNDIOS OU ALAGAMENTOS PROVOCAM PERDAS IRREPARÁVEIS DE ACERVOS.

Outro fator que também deixa a desejar é a população, a qual tem de fazer a sua parte, em primeiro lugar frequentando os museus, o que significa fazer valer os seus direitos de cidadania cultural. Infelizmente existem barreiras de natureza social, cultural e econômica que não facilitam a criação de hábitos culturais de frequência a museus.

M: Tem como reverter esse panorama?

K: Uma maneira de atrair e formar novos públicos, é garantir o acesso irrestrito de crianças e jovens aos museus, mas isso depende de vontade política traduzida em recursos para a manutenção de um programa de visitação a museus para estudantes de escolas públicas. Por fim, também os museus têm de fazer a lição de casa, atuando como espaços democráticos, antenados aos dilemas do mundo contemporâneo e, por meio de suas exposições e ações educativas, de forma atraente e responsável, tornar-se relevante para seus públicos.

Mi: Sabe-se que um dos principais mecanismos de fomento a cultura no Brasil, é a Lei Rouanet, a mesma que foi bombardeada nos últimos anos, tem passada por diversas reformulações. Qual a importância da lei ao setor?

K: O governo federal fez reformulações na lei e uma delas é o limite de R$ 1 milhão de reais por projeto, deixando brecha para tetos mais elevados para algumas exceções, dentre elas os museus, que dependem em grande parte da captação de recursos incentivados para custear suas programações anuais. Os prejuízos se acumulam para os museus, pois o primeiro trimestre já está no fim e os procedimentos de tramitação, análise e aprovação de propostas ainda não foram normalizados. Além de tudo, os ataques à Lei Rouanet sistematicamente lançados por agentes públicos nos últimos anos têm minado o interesse de empresas patrocinadoras em apoiar projetos, com receio de terem sua imagem institucional associada negativamente, mesmo que os eventuais parceiros não estejam envolvidos em escândalos. Pessoalmente acredito que, ainda há ajustes que podem ser feitos para aprimorar esse mecanismo de financiamento público da cultura e no debate público reverberado pela imprensa. Há várias medidas que certamente seriam bem-vindas para evitar as principais distorções da legislação, como o excesso de centralização de recursos no eixo Rio-São Paulo ou mesmo a dificuldade de acesso para projetos culturais de pequeno porte, dado que o aporte de incentivo das empresas segue a lógica do mercado. Em todo caso, esse é o modelo que há mais de 40 anos tem sido adotado pelo país como a principal fonte de financiamento da cultura. Se não queremos continuar adotando esse caminho, que os recursos de renúncia fiscal sejam incorporados ao orçamento aos órgãos públicos para que eles próprios atuem diretamente com esta função. A legislação do ProAC paulista que baseia-se na renúncia de tributos do ICMS, é mais eficiente que a Lei Rouanet, tanto do ponto de vista operacional, graças à parceria entre a Secretaria da Cultura e a Secretaria da Fazenda, como do ponto de vista de acesso, ainda que os volumes disponibilizados sejam de certa forma muito aquém do que seria necessário para fazer frente às demandas.

O IMPORTANTE É QUE TODOS SAIBAM QUE, O FINANCIAMENTO PÚBLICO DA CULTURA NÃO É UMA QUESTÃO IDEOLÓGICA. NO MUNDO TODO, HÁ VÁRIOS MODELOS DE GESTÃO PÚBLICA DA CULTURA E PODEMOS BUSCAR SOLUÇÕES QUE POSSAM SER APLICADAS NO CONTEXTO BRASILEIRO. HOJE, QUEM HÁ DE DUVIDAR QUE AS POLÍTICAS CULTURAIS SEJAM UM IMPORTANTE RECURSO PARA O DESENVOLVIMENTO DO TURISMO E, CONSEQUENTEMENTE, DA ECONOMIA CRIATIVA?

Mi: As últimas semanas foram marcadas por várias manifestações realizadas por trabalhadores da cultura em diversas cidades paulistas, devido a medidas anunciadas como cortes financeiros em programas e projetos, como o Projeto Guri, Pinacoteca entre outros. Você possui alguma consideração, sobre tudo o que vem ocorrendo com a área cultural no Estado de São Paulo?

K: O avanço das políticas culturais paulistas, não só na área dos museus, como também na área de formação e difusão cultural, é reconhecido nacional e internacionalmente. Ações e programas desenvolvidos pela SEC como as Fábricas de Cultura, Conservatórios Musicais, Companhias de Dança, Escola SP de Teatro, Projeto Guri, dentre tantos outros como o Festival de Inverno de Campos de Jordão, a Osesp e a própria rede de museus da SEC, representam um capital cultural que não pode ser precarizado, sob pena de se comprometer décadas de construção, um legado do próprio PSDB. Por isso não acredito que deixará de ser encontrada uma saída para evitar o que seria um grande colapso e um enorme dano aos interesses e necessidades culturais da população. Por outro lado, é importante observar que os agentes culturais de todos os segmentos e linguagens estão unindo esforços para mobilizar a opinião pública e convencer o governo da necessidade de rever as medidas de contingenciamento. Isso representa o reconhecimento de que os equipamentos e programas culturais são relevantes para a população. Costumo fazer uma analogia, sempre que tenho a oportunidade de falar em público, entre os museus, as escolas e os centros de saúde. Se um município fecha uma escola ou um posto de saúde, no outro dia a população está no corredor do gabinete do prefeito para reverter à medida. Se um museu ou um equipamento cultural é fechado, a população só irá se mobilizar se eles de fato forem relevantes para a comunidade. Nesse sentido, a despeito de seus efeitos traumáticos, o presente episódio demonstra primeiro que as políticas culturais mantidas pelo Estado são relevantes pela população e, como estamos falando de São Paulo, o debate coloca a política cultural em pauta em todo o território nacional. Não é pouca coisa.

Humberto Meratti é gestor cultural e especialista em políticas públicas culturais. Jéssica Souza é jornalista e produtora cultural.

Fonte: Jornalistas Livres