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quarta-feira, 27 de novembro de 2019

EDUARDO VASCONCELOS PRESIDENTE DO CPC/RN AGRADECE A PROFESSORA SOCORRO PELO APOIO DA SEEC/RN

Foto: Chefe de Gabinete da SEEC/RN, professora MARIA DO SOCORRO DA SILVA BATISTA e o EDUARDO VASCONCELOS, presidente do Centro Potiguar de Cultura - CPC/RN e também Agente de Cultura de NOVA CRUZ/RN.

Hoje (27), o presidente do Centro Potiguar de Cultura - CPC/RN, Eduardo Vasconcelos esteve pela manhã no gabinete da Secretaria Estadual de Educação, Desportos e Cultura, professora, Maria do Socorro da Silva Batista.  Eduardo aproveitou para agradecer o apoio que a SEEC/RN vem dando ao CPC/RN e a Casa de Cultura de Nova Cruz nas ações voltadas para cultura e a Casa de Cultura.

Para Eduardo Vasconcelos estes apoios são fundamentais, pois dá mais vida e energia para continuarmos lutando pelo o fortalecimento e resgate da cultura e a Casa de Cultura de Nova Cruz precisa e muito destes apoios, portanto devemos também reconhecermos os esforços que a referida secretaria vem dando para a cultura potiguar, apesar das dificuldades.

Eduardo Vasconcelos aproveitou para agradecer também ao secretário, Getúlio Ferreira que sempre quando pode e dentro dos seus limites contribui para que estes sonhos se tonem realidade como oc aso da nossa casa de cultura, que passou mais de 2 (dois) praticamente sem atividades em virtude de dificuldades, mas agora a mesma começa a respirar e com certeza em 2020 a mesma voltará a abrir sua portas para os artistas e grupos culturais, que tanto precisam desses apoios.

Finalizando, Eduardo acrescenta que brevemente os artistas da terra terá uma surpresa boa! É só aguardar. Finalizou, Eduardo Vasconcelos.
Eduardo Vasconcelos entrega o CERTIFICADO  do I Curso de Formação promovido pela Fundação José Augusto - FJA, dias 18, 19 e 20/11 ao Agente de Cultura de Goianinha, Dennis Diego das Chagas Dantas a pedido dos coordenadores de cultura, Messias e Jefferson. 

E por falar na Casa de Cultura de Goianinha, os agentes, Rosângela e Dennis vem fazendo um excelente trabalho frente aquela instituição em favor dos artistas locais. Concluiu, Eduardo.


NOVA CRUZ/RN: "Culminância Geral do Projeto Escolas Conectadas Intercâmbio no Combate ao Racismo"

Fotos de Francinaldo Soares e Lene Rosa

Ontem (26) as escolas ALBERTO MARANHÃO, ROSA PIGNATARO, DJALMA MARINHO,, E. M; NESTOR MARINHO, entre outras (todas de NOVA CRUZ) UNIDAS fizeram a diferença no mês da CONSCIÊNCIA NEGRA, fechando com chave de OURO!

Foram várias apresentações de grupos de danças, grupo de percussão, entre outras atrações.

Professor, Francinaldo Soares e Lene Rosa:

"Culminância Geral do Projeto Escolas Conectadas Intercâmbio no Combate ao Racismo"...
Em nome de todas as escolas que fazem parte do Projeto, queremos agradecer a todos os professores, coordenadores e diretores pelo apoio...

Queremos agradecer o apoio da Secretaria Municipal de Educação do nosso município...
Também queremos agradecer o apoio da Casa De Cultura de Nova Cruz...
Em especial, queremos agradecer a todos os estudantes das escolas envolvidas no Projeto, porque sem vocês não seria possível a realização do mesmo. Parabéns pelos belíssimos trabalhos! Parabéns pelo desempenho nas apresentações. Apesar das dificuldades vocês foram uns verdadeiros guerreiros, junto a direção e coordenação das escolas.
Concluímos com sucesso nossos trabalhos.""
Professora Lene Rosa e professor, FRANCINALDO SOARES.
"Os agentes de cultura da Casa de Cultura "Lauro Arruda Câmara de Nova Cruz, *Eduardo Vasconcelos e Teobanio participaram do evento dando todo apoio ao evento.

* Eduardo Vasconcelos é também o atual presidente do Centro Potiguar de Cultura - CPC/RN.

TODOS PELO NOVO FUNDEB: Entenda por que o assunto é urgente

É impossível se importar com a escola pública do Brasil sem se preocupar com o Fundeb. Quase metade do dinheiro que sustenta a educação pública no Brasil vêm deste fundo! Ele é composto por verbas de municípios e estados, complementado pela União.
O problema é que este mecanismo essencial acaba em 2020 e precisa ser renovado com urgência. Para a UBES, UNE e ANPG, deve ser uma ferramenta permanente e com maior participação da União.
As entidades estudantis lançam nesta quarta (27/11), no Congresso Nacional, a campanha Todos Pelo Novo Fundeb, movimento para mobilizar parlamentares e a sociedade por esta causa. 
“Se não pautarmos o financiamento da educação, será o fim da escola pública brasileira. É um tema de interesse de toda a sociedade”, pontua Pedro Gorki, presidente da UBES. Secundaristas têm debatido o tema com preocupação desde 2018.
O atual Fundeb foi criado por um Projeto de Lei de 2006, com duração até 31 de dezembro de 2020. Há três Projetos de Emenda Constitucional em tramitação para substituí-lo. O mais avançado é a PEC 15,  que já passou por 30 audiências públicas. A relatora, deputada Professora Rosinha (DEM), defende aumento gradual dos repasses da União de 10% para 40%: “Estamos falando de um esforço de país. Não queremos todas as escolas com piscina, estamos falando de escolas que não podem ser chamadas de escolas”.
Entenda por que o assunto é tão urgente:

1) QUEM DEPENDE DO FUNDEB

Unidades públicas do ensino infantil ao ensino médio, principalmente nos lugares com menos verba para a educação
Todos os anos, recebem dinheiro do Fundeb os 9 ou 10 estados com menos verba por estudante.

2) PARA QUE SERVE O DINHEIRO DO FUNDEB

Em 2019, são 156 bilhões de reais distribuídos pelo Fundeb para municípios e estados com menos dinheiro para investir em educação. A verba ajuda a:
  • Maior parte, 60%, complementar salário de professores em lugares que não atingem o piso da profissão (atualmente R$ 2.557,74)
  • Aquisição de materiais escolares, livros didáticos, carteiras, projetores, etc
  • Funcionamento das unidades, custeio de luz, água, gás, etc
  • Reformas e melhorias da estrutura física das escolas, creches e construção de novas unida
  • Formação de professores
  • Remuneração de trabalhadores da educação (porteiros, merendeiras, inspetoras, coordenadores)

3) DA ONDE VEM O DINHEIRO DO FUNDEB

De parte dos impostos cobrados por estados e municípios, mais uma contribuição da União.
Cada estado contribui com 20% das receitas dos seus impostos para educação, e a União adiciona mais 10% do valor.

4) O QUE QUEREMOS PARA O NOVO FUNDEB


  • Um fundo permanente, garantido pela Constituição Brasileira.
  • Aumento da contribuição da União, que hoje é de 10%
  • Outras melhorias possíveis: distribuição de acordo com índices dos municípios, não dos estados; criação de um CAQ (Custo Aluno Qualidade)

5) POR QUE LUTAMOS PELO AUMENTO DA CONTRIBUIÇÃO DA UNIÃO

  • O Censo Escolar de 2018 mostra desafios gigantes na Educação, por exemplo: 
49% das escolas não estão ligadas à rede de esgoto
26% não possuem acesso à água encanada

  • Estão atrasadas 16 das 20 metas do Plano Nacional de Educação (PNE), segundo relatório do Inep de 2018. Faltam, por exemplo: vagas em creches; equiparação salarial de professores; aumento do período integral; estudantes no ensino médio na idade correta
  • O investimento por estudante ainda é metade dos países desenvolvidos.
A comparação é feita com dados da OCDE, uma entidade com 33 países para analisar políticas públicas. A média destes países é de 10,8 mil dólares por estudante por ano. No Brasil, o investimento é de apenas 5,6 mil dólares.
Investimento por aluno da educação básica por ano (em dólar)*
Média OCDE……. $ 10,8 mil
Brasil……………… $ 5,6 mil
(*dados da OCDE/ 2017)
Fonte: UBES

Elisa Lucinda: Quero a história do meu nome

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Quanto mais aprendemos com os povos originários, mais acessamos os antídotos para mazelas atuais, mais encontramos explicações para o que somos, de onde viemos, para onde vamos.


É Brasil. Há uma esfera civil que os perseguidores da democracia não alcançam. Algo parece estar para acontecer. Estou em Brasília no Simpósio Internacional “Indígena-Negro, da ancestralidade ao futuro”, promovido pelo MPT e a OIT. Estou entre os meus e descubro que minha tribo me perdeu. Quando entraram aqueles parentes cantando, vibrando seus maracás nas mãos ornadas, fiquei tonta: rostos pintados cobertos de simbologia; dos cocares aos adornos de peito, mãos, quadris e pés, o corpo tela. Pigmentos, cores, tudo vindo da natureza sem a ajuda de uma papelaria para pincéis ou tintas. Segue a tonteira, a doidera, a ancestralidade gritando na cabeça. É que a maioria do povo brasileiro conta que teve uma avó pega a laço. Ora, se de um lado somos herdeiros de tais estupros, por outro, somos também filhos de uma força que existe há muito mais de 40 mil anos. E que é sabedora dos poderes da natureza mais do que qualquer um da civilização branca. Começo a chorar. O que dói no meu peito é o vácuo. Nunca conheci minha bisavó Domingas. Como se chamaria originalmente? Só ouvi dizer. Que não gostava de usar calcinha. Teria nome de flor? De pássaro? Quem saberia? Foi pega a laço, roubada de sua aldeia, sua gente, sua família. Seu corpo ficou à disposição de seu caçador. Quem sabe me dizer como se chamava antes de receber o nome Domingas?
Julio e o filho, Yonã
O indígena Júlio, dono do cocar mais bonito do simpósio, me apresentou seu menino Yonã e me disse com um sorriso luminoso, banhado de puro Oxóssi: significa “Aquele que caminha sobre as águas”, na língua Xucuru. O outro veio me dizendo o seu nome original, do qual agora não me recordo, e me diz que significa “Barulho que faz o rio que corre à beira dos cajueiros”. Uma outra ainda, linda, pintada de urucum meticulosamente em volta dos olhos, precisa, e absolutamente roots, como se tivesse pulado de um quadro para a realidade, me disse com olhos sorridentes que seu nome era Pekāshaya que significa “Pena linda e verdadeira”. Mas, como não era permitido que indígenas pusessem nomes indígenas nos seus filhos (seria cômico se não fosse trágico) deram-lhe o nome de Edna. Um verdadeiro poema lhe foi tirado para ser nomeada com um nome que não conta a sua história, o seu lugar na sua tribo.
Depois veio a conversa com os Kalungas, os quilombolas, o povo preto que está no mundo desde os primórdios, o primeiro homem. A mesma história se repete, nomes lindos que em sua tradução ficam parecendo versos: “A que veio para trazer a paz”“Os olhos de Deus”“Presente de OxalᔓA que traz grande honra”. Veio uma jovem escritora linda me dizendo que seu nome era Semayat, em aramaico, língua etíope, e que quer dizer “Sol ou Céu do meio dia”. Meus olhos se encheram de lágrimas de novo ao saber disso. A hora em que nasci! Me senti órfã também da história do nome africano que me antecedeu.
Estou aqui entre Guaranis, Kaiowás, Kalungas, Pataxós, Fulniôs, quilombo Buriti do Meio, Terenas, Xukuru, Shanenawas, Bororós, Xoklengs, quilombo Retiro dos Bois de Minas, Kadiweu, Kariri xocó, Quilombo de Mesquita, Tupinambás ha ha hãe, Quilombo João Borges de Uruaçu, Jardim Cascata de Aparecida, Xavantes, BarésMundurucus e quilombo Conceição das Criolas. Estou em casa. Entre memórias. Se a gente tivesse se juntado antes, índios e negros, Crivella não tinha ganhado no Rio, nem o Witzel. Faltou terreiro, faltou maracá. Pouca gente sabe, porque isso nossa história oficial não quer contar, que em Palmares viviam indígenas, pretos refugiados e até brancos legais. Consta que eles já existiam naquela época. Inconformados, Lgbts, os sensíveis em geral, orientados por Xangô, pelo Sol, pela Lua, fundaram ali uma nação justa. O Sol, deus indígena, governa para todos. O Sol é de esquerda já que ilumina sem diferenças de classes, em relação a negros, indígenas e baianos. A união dessas forças sob fundamentos tão comuns é mesmo imbatível. Para o indígena, ele é quem pertence à mata, não é dono dela, por isso é guardião. Ele cresceu brincando de fazer a própria casa com material vindo da natureza: barro, palhas, galhos, troncos, folhas. Não sobrevive sem as coisas que planta ou que caça. Da mesma maneira, um filho de Oxóssi não desmatará pois é ele próprio a mata. Uma filha de Yemanjá não ofende o mar pois é ela o próprio mar. E assim por diante.
Alguma coisa parece que vai acontecer, uma coisa nova. Sinto os tambores, a força do canto desses dois povos. Ser humano é um ser ambientalista naturalmente. Fomos separados, foram queimados os nossos nomes, fomos pulverizados em navios diferentes para que não nos juntássemos, vivemos numa hora em que essa união se tornou irreversível. Há pouco tempo raramente se via um elenco de maioria negra em cartaz. Agora, pelo menos nas principais cidades brasileiras, o que se vê é uma proliferação imparável do que estão chamando de lugar de fala. Uma ocupação de espaços nunca dantes navegados em grupo. Era sempre um único preto solitário em cada elenco, em cada trincheira. Agora que avançamos e que o sistema de cotas misturou as cartas do jogo, agora quando nós somos a maioria pela primeira vez nas Universidades, não se pode dar mais ré nisso, e podemos dizer que o Brasil está realmente se preparando para ser um novo país. No último dia do simpósio, com saudações aos orixás, à ancestralidade, às sagradas escrituras todas expostas na natureza e nela refundadas, todos tínhamos a impressão de que algumas coisa muito grande estava para acontecer. Não passou um dia e deu bem alto nos jornais virtuais e gerais que Lula estava livre! Eu sabia que alguma coisa ia acontecer.
Toda dominação branca que nos acostumou a chamá-la de civilização tem muito que aprender com os fundamentos dos que tenta, há anos, dizimar.
Eu só sei dizer que quanto mais aprendemos com os povos originários, mais acessamos os antídotos para mazelas atuais, mais encontramos explicações para o que somos, de onde viemos, para onde vamos. Apartada e separatista, longe dos princípios amorosos com o planeta, a humanidade civilizada segue batendo cabeça, longe de si e louca por dinheiro, motivo de crimes,roubos e infelicidades.
Voltei mais nutrida, tomei lição de casa. Não sei se no meu nome indígena corre um rio, nem sei se há no meu nome africano uma estrela do mar, mas caminho na linhagem da ancestralidade e quanto mais pesquiso, quanto mais aprendo sobre o que mataram ou tentaram ocultar, fica mais fácil lembrar.
Fonte: Jornalistas Livres

BOM DIA COM POESIA - GÉLSON PESSOA

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Imagem do Google
Bom dia com poesia*
Não existe cedo ou tarde,
Quando se quer aprender.
Não existe tempo certo,
Sempre é tempo de viver.
E tudo sempre acontece,
No tempo de acontecer.


*Gélson Pessoa*

segunda-feira, 25 de novembro de 2019

“Contrato Verde e Amarelo” não é solução para a juventude

Novo tipo de trabalho do governo Bolsonaro promete mais vagas para jovens, mas tira direitos.


Diante de uma taxa grave de desocupação e desemprego no Brasil, o governo federal criou no dia 11 de novembro o contrato de trabalho “Verde e Amarelo”, uma modalidade com menos custos para empresas contratarem jovens. O problema é que, neste modelo, também há menos direitos e perspectivas para a juventude.
A UBES luta por soluções que aqueçam a economia e diminuam o desemprego, não por vagas com menos direitos, menos salários e menos chance de crescimento. Para a entidade, a juventude deveria ser parte do desenvolvimento do país, não mão de obra barata.
O novo tipo de contratação foi lançado pela Medida Provisória 905/19, que ainda vai tramitar no Congresso Nacional, mas já vale a partir de janeiro de 2020 para pessoas entre 18 e 29 anos no seu primeiro emprego, em contratos de até dois anos, com salário de no máximo 1,5 salário-mínimo (1.497 reais).
Entenda por que não é uma solução para o Brasil nem para a juventude:

1) Menos direitos

Os principais prejuízos para uma pessoa com “contrato Verde e Amarelo” são quanto ao fundo de garantia e ao valor que recebe em caso de demissão.
Nos contratos normais, todos os meses a empresa paga 8% do salário para o FGTS (Fundo de Garantia do Tempo de Serviço) de cada um. No “verde e amarelo”, apenas 2% por mês.
Em caso de demissão, a multa rescisória paga pela empresa não será, como hoje, 40% do valor depositado na conta do trabalhador, mas sim 20% do valor depositado (que já será um total menor).
Outros direitos também são “flexibilizados”, como: permitido trabalho aos domingos (com folga em outro dia da semana) e possibilidade de parcelar 13º salário ao longo do ano.

2) Salários menores

Se uma pessoa tem o perfil para ser contratada pelo tipo “Verde e Amarelo”, o salário será no máximo 1,5 salário-mínimo, mesmo que o piso da categoria seja maior. 
Ou seja, é possível que um profissional “Verde e Amarelo” tenha a mesma função de um colega que receba mais, sem o direito de equiparação salarial (que existe nos contratos de CLT).

3) Falta de perspectiva

O contrato “Verde e Amarelo” pode ter até dois anos e não propõe nenhuma garantia de estabilidade nem plano de crescimento na empresa. 
Se nada for feito para aquecer o mercado, é grande a chance de que, ao fim do contrato, o jovem seja substituído por outro jovem também sob o regime “Verde e Amarelo”.

4) Taxas para desempregados

Se voltar ao desemprego, o jovem sofrerá ainda com outra mudança da MP 905/19: quem recebe seguro-desemprego passa a contribuir com o INSS. 
Isso é para compensar a contribuição que as empresas deixarão de pagar nos novos contratos do tipo “Verde e Amarelo”. Nesta modalidade, empresários não precisam pagar ao sistema de previdência os 20% sobre os salários, obrigatórios nos contratos em CLT. Eles também estarão liberados das contribuições com o Sistema S e o Salário Educação.
Resumindo: a medida alivia empresas, mas para isso taxa desempregados, que pagarão 7,5% do seguro-desemprego ao INSS, contribuição que hoje não existe.

5) Nova reforma trabalhista disfarçada

A proposta do “contrato Verde e Amarelo” seria parte de uma nova reforma trabalhista pensada pelo governo Bolsonaro. O problema é que nunca chegou a ser feita uma avaliação da reforma trabalhista já aprovada em 2017. As mudanças prometiam dois milhões de novas vagas, o que não aconteceu em dois anos. 
Fonte: UBES

Carteira do governo é retaliação à luta contra os cortes na educação

Entidades estudantis lançam abaixo-assinado contra ataque à autonomia do movimento estudantil. Apoie!
por Cristiane Tada.
Na tentativa de enfraquecer a luta das entidades estudantis contra suas suas medidas que visam acabar com o ensino público no país o presidente da República, Jair Bolsonaro quer acabar com o financiamento das entidades. A receita proveniente da emissão de carteiras é fonte de aporte de toda esta rede de entidades estudantis brasileiras, o que reforça a capacidade de independência e organização da rede do movimento estudantil, e são estas milhares de entidades estudantis organizadas que o Governo Federal pretende prejudicar com a medida proposta.
A UNE está recolhendo assinaturas para um abaixo-assinado contra a medida.  Entidades do movimento estudantil e social que queiram apoiar podem entrar em contato pelo redacao@une.org.br

ABAIXO-ASSINADO

*Carteira do governo é retaliação à luta contra os cortes na educação e o Future-se e ataque à autonomia do movimento estudantil*

A edição da Medida Provisória 895/2019 pelo Governo Bolsonaro tem o exclusivo objetivo de retaliar e tutelar os estudantes, diante do enfrentamento que o movimento estudantil têm realizado contrário aos cortes na educação e o Future-se. Tal afirmação está evidenciada em diversas manifestações das autoridades governamentais, inclusive as do Presidente da República, como quando chamou os Centros Acadêmicos de “ninhos de rato”, ou do próprio Ministro da Educação ao se referir às universidades como ambientes de “balbúrdia”. O Governo Federal mobilizar suas instituições e políticas públicas contra organizações da sociedade civil organizada é um tema grave, que não compatibiliza com a democracia e merece ser rechaçada energicamente. Esta não é a primeira medida antidemocrática, atacaram os sindicatos em meio a discussão sobre a reforma da previdência acabando com o imposto sindical, atingiram o financiamento da imprensa que crítica as ações do governo Bolsonaro, e agora atacam a autonomia financeira do movimento estudantil. Entretanto, reafirmamos que não daremos um segundo de paz a um governo que quer sufocar os investimentos, privatizar a universidade pública e acabar com a autonomia universitária.
Soma-se a isso uma absurda inversão de prioridades. Nossa educação, a ciência e a tecnologia têm vivido um dos momentos mais difíceis de sua história no Brasil, após cortes de investimentos, que podem paralisar uma série de instituições de ensino superior, e cortes de bolsas de pesquisa que estão travando a produção científica do nosso país. Enquanto a educação pública carece de recursos, Bolsonaro e Weintraub se preocupam em criar uma nova despesa para o estado brasileiro movido pelos seus objetivos ideológicos, afinal de contas a produção dessa carteira exigirá custos para gerenciamento de dados e tecnologia que esse tipo de serviço exige, informação que o governo distorce.
Devemos alertar também sobre como os estudantes são tratados, exemplo claro disso é serem chamados pelo Secretário de Ensino Superior do MEC de “clientes”, conceito que subverte a lógica da educação vista como um dever do estado. Também em maio deste ano foi pública a tentativa do MEC em acessar os dados sigilosos de estudantes nas bases do INEP, iniciativa que foi negada pela procuradoria federal e que gerou a queda do então presidente do Instituto. Como serão obtidos e tratados esses dados sigilosos de estudantes de todo o país?
Em uma cerimônia caricata, marcada por frases de efeito, ataque às entidades estudantis e informações sem embasamento na verdade, havia também a suspeita presença do empresário Luciano Hang, dono da rede de lojas Havan, que já foi notificado pelo Ministério Público e processado pela justiça por divulgação de informações falsas, além de ser um devedor de mais de R$ 160 milhões com a receita federal. Uma presença que certamente não tem absolutamente nenhuma relação com os estudantes brasileiros.
Destaca-se também o discurso falacioso apresentado pelo presidente ao tentar relacionar o papel das entidades estudantis com um pretenso objetivo de “promover o socialismo” nas universidades, mas que na verdade tenta, sem sucesso, mascarar o caráter autoritário dessa medida e um comportamento recorrente nesse governo de não conseguir conviver com as lutas organizadas da população que tem por objetivo defender nossos direitos e nossa educação.
Além disso tanto o presidente quanto seus ministros mentiram, ao divulgarem informações e dados equivocados sobre o número de carteiras emitidas e a gratuidade do documento. Desde a sanção da nova lei, a UNE emitiu em média cerca de 150.000 documentos por ano sendo que mais de 20.000 de forma gratuita. Portanto um pouco mais de 2% do total de estudantes de ensino superior emitiram documentos diretamente com a UNE, sendo que a ampla maioria o fez diretamente com seus Grêmios, Associações de Pós-Graduandos, Centros, Diretórios Acadêmicos e Entidades municipais e Estaduais. As insinuações do Governo e do próprio Presidente da República com números milionários das entidades nacionais são provocações infundadas para confundir a opinião pública brasileira. A receita proveniente da emissão de carteiras é fonte de financiamento de toda esta rede de entidades estudantis brasileiras, o que reforça a capacidade de independência e organização destas entidades, e são estas centenas de entidades estudantis organizadas que o Governo Federal pretende prejudicar com a medida proposta.
Vale reforçar ainda que a Lei Federal 12.933/2013 garante que estudantes de baixa renda tenham acesso gratuito ao documento de estudante, portanto, a UNE, a UBES e a ANPG já garantem esse direito, o que contrasta com o discurso falacioso e demagógico adotado pelo governo para enganar a população brasileira.
Cabe destacar ainda que a legislação da meia entrada foi fruto de intenso debate que durou anos entre sua aprovação e regulamentação – que se deu em 2015 – envolvendo parlamentares, artistas, produtores e entidades estudantis em uma votação histórica que contou com ampla maioria dos deputados e senadores do Congresso Nacional em uma vitória supra-partidária. Agora Bolsonaro quer destruir todo esse acúmulo através de uma Medida Provisória.
Portanto, o que fica claro, é que esse anúncio não trata de liberdade, nem tampouco de avanço nos direitos dos estudantes, mas de mais uma medida autoritária para calar as entidades estudantis e criar mais polêmicas desnecessárias no país, tentando esconder os verdadeiros problemas do país e a crise que esse governo vive, tentando assim manter as condições para que Bolsonaro siga a todo vapor com seu projeto de desmantelamento das nossas escolas, universidades e da ciência brasileira. Atacar a carteira de estudante, conquista que surgiu da nossa luta, é atacar todos Centros Acadêmicos, Diretórios Centrais dos Estudantes, Grêmios, Associações de Pós Graduandos, Entidades municipais, estaduais, e todas demais entidades estudantis.
A existência e o fortalecimento das organizações estudantis são elementos da nossa democracia que Bolsonaro demonstra não respeitar, nós não nos calaremos diante de mais esse abuso, e seguiremos lutando pelos nossos direitos de nos organizar e pelo respeito à educação e ao povo brasileiro.
Fonte: UNE

Por todas as vidas negras: justiça, liberdade e luta

Nota da diretoria de Combate ao Racismo da UNE sobre o dia da Consciência Negra. Leia na íntegra: 

por Cristiane Tada.
Temos percebido um avanço acelerado de um projeto sistêmico de opressão e de aprisionamento com a crise internacional do capitalismo. O neoliberalismo tem levantado representantes em todo o mundo que tem colocado nas suas agendas as mais absurdas pautas morais, que, escancaradamente, mostram a face do racismo, do machismo, da opressão de classe, da xenofobia e da lgbtfobia. A América Latina vem sofrendo a implementação desse projeto de uma forma que é impossível não sentir, a cada notícia que vemos, as dores que nossas irmãs e irmãos tem sofrido.
No Brasil, a presença de jovens negras e negros desde sempre incomodou as hegemonias brancas dos espaços. O único lugar que nossa presença não é questionada é nos presídios, nas ruas, no desemprego, na falta de moradia e direitos. Mas esse lugar de subalternidade nos foi imposto. Essa realidade não é aquilo que queremos. Nosso povo resiste e aprendeu a desenvolver estratégias de sobrevivência que ninguém nunca conseguiu pensar.
Quem vai pagar a conta?
Quem vai contar os corpos?
Quem vai catar os cacos dos corações?
Quem vai apagar as recordações?
Quem vai secar cada gota
De suor e sangue
cada gota de suor e sangue

Esse é um trecho da música “Cabô”, da Luedji Luna. Forte e real. A cada dia que passamos nesse país, nossas irmãs e irmãos negros passam pelo desprazer da incerteza de um futuro. Saímos de casa para a escola? Tiro. Voltamos da escola? Tiro. Enfrentamos o racismo institucional na câmara de vereadores? Tiro. É como se a cultura do medo fosse intrínseca aos nossos corpos e famílias. Como se não bastasse tirar as nossas vidas, querem apagar nossas memórias e nossas histórias. Não respeitam aquelas e aqueles que vieram antes de nós e lutaram pelo fim do racismo com suas vidas. Esse ano a morte de alguns dos nossos ganhou repercussão internacional. Nos dói, todos os dias, cada um que tomba vítima da necropolítica que o governo Bolsonaro tem adotado nesses onze meses.
Infelizmente, nós negros estamos em maioria nos dados estatísticos, mas fora das salas de aulas. A discussão sobre o último resultado do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o qual aponta que pretos e pardos pela primeira vez na história, são maioria nas universidades públicas, nos preocupa.
Uma curva na história colocou em um curto período uma outra perspectiva para o nosso povo: o período dos governos progressistas de Lula e Dilma. As marcas do combate a fome, a valorização do salário mínimo, a criação de emprego e a Lei de cotas, aliada a expansão universitária, mudou a nossa realidade. Não foi suficiente para equiparar a discrepância entre o negro e o branco, mas conseguimos avanços.
Por isso precisamos analisar as variáveis ocultas na pesquisa do órgão brasileiro. Junto a Lei de cotas que garantiu o acesso para milhares de jovens negros que jamais ocuparam a universidade, temos as dificuldades de permanência e o maior percentual de evasão. Além das já conhecidas fraudes. São inúmeros os casos que tomaram as páginas dos jornais e condenações judiciais. Na UFRGS, na UFRJ, UFRN e outras tantas universidades que coletivos auto organizados negros começaram a denunciar e exigir a efetividade da apuração e na averiguação das pessoas autodeclaradas pretas, pardas ou indígenas. que constatou a importância das comissões de aferição de cotas, assim, barrando quem não tem a sensibilidade de entender os processos históricos de violência que nosso povo viveu e que por isso precisa dessa ferramenta de reparação histórica que são as cotas.
Para além das fraudes, a perseguição às políticas de reparação e acesso da população negra às universidades e ao ensino pública sofreu, desde o início do ano, oficialmente, três ataques diretos. Os deputados Dayane Pimentel, do PSL, Carlos Bezerra, do MDB e Dr. Jaziel, do PL, implementaram projetos de lei que visavam o fim das cotas como forma de acesso ao ensino superior. Repudiamos totalmente esses ataques que representa o projeto conservador e racista da bancada parlamentar que não cansa de fazer um desserviço a população.
Nós cobramos a responsabilidade das mortes que o projeto político do atual presidente liberal e covarde exterminou a todos que o elegeram. Nos solidarizamos também com o que nossos irmãos e irmãs da América Latina vem passando, uma onda racista e misógina aos povos indígenas e quilombolas que experimentaram viver a experiência de estar no poder pela primeira vez depois da violenta colonização branca em nosso continente. Temos a tarefa central de defender nossa história de luta e resistência. Nosso povo desde sempre soube como resistir, é nossa arte. Que aprendamos com aquelas e aquele que viveram aqui muito antes de nós e que entenderam que desistir não é o caminho. Incomodar, permanecer, estar. É pela coletividade que construiremos um muro alto e forte, capaz de organizar a luta contra o racismo e pelo enfrentamento às políticas de morte que nos é empurrada. Não aceitaremos nunca mais que nossos corpos sejam pintados de vermelho. Se um dia nos viram como população que está às margens das estruturas, agora, estaremos no topo. Lutando todos os dias pela liberdade dos corpos negros que são presos políticos. Não aceitaremos nada menos que isso.

Assim, temos o desafio de fortalecer a democracia que tanto lutamos para conquistar. Precisamos caminhar para uma grande organização do povo negro, para uma retomada de poder, onde os nossos vão estar ocupando o lugar que nos foi negado historicamente, porque precisamos de políticas públicas próprias que dê conta das necessidades e demandas específicas da nossa realidade.

Bacurau, ou o Brasil de Bolsonaro

Filme não é ensaio sociológico e arte não é ciência (mesmo ‘humanas’). Este parece ser um bom mote para contrapor o tom dominante nas críticas sobre ‘Bacurau’, nova obra de Kleber Mendonça, em codireção com Juliano Dornelles.
Por Fernão Pessoa Ramos*
Cinema é uma arte, já agora anciã, que possui a particularidade de ser uma das primeiras ‘artes das massas’, envolvendo meio tecnológico. Talvez por esta característica, e em geral necessitando de recursos financeiros elevados, o cinema possui facilidade em condensar e representar (no modo fílmico) tendências sociais emergentes. Os principais momentos de nossa história universal (da guerra civil norte-americana à conquista da lua, passando pela revolução soviética, a frente popular francesa dos anos 1930, o pós-guerra europeu, o maio de 1968 e a contracultura, etc) deixaram sua digital em obras da cinematografia mundial. No caso brasileiro, um de seus momentos privilegiados, o Cinema Novo, teve como característica trazer em suas costas o sopro da história e grandes quadros de viés simbólico. Parecia ser natural, naquela época, representar a história do Brasil no modo diegético-ficcional narrativo e assim foi feito durante mais de uma década. O golpe de 1964 e a ditadura militar que se seguiu tiveram suas forças sociais (a alta burguesia industrial, os agentes do imperialismo, a classe média, o povo deserdado, os proprietários da mídia, o jovem revolucionário) transformadas em personagens de universo ficcional, com tramas mais ou menos lineares.
Deste conjunto, podemos destacar um traço no exercício do cinema no Brasil: nesta arte quase nunca houve cineastas populares, do povo propriamente, envolvidos diretamente, de modo hegemônico, em sua produção. Excetuando-se alguns de nossos grandes atores, é arte feita dominantemente pela classe média que, com recursos próprios ou captando financiamento público/estatal, consegue condições materiais para criar cinematograficamente. Nos momentos em que toma consciência desta situação paradoxal, e a representação do outro popular emerge como necessidade e fissura (ou ferida), o cinema brasileiro atinge seus píncaros criativos – uma grande estética que consegue abranger a nação, refletindo seus dilemas, contradições radicais e aspirações recorrentes. O ‘popular’, então, é sempre o ‘outro’ no cinema brasileiro, pois não é ele que faz a arte, como ocorre naturalmente em certa música, por exemplo (com o samba). A representação fílmica do povo pela classe média (que possui os recursos necessários para a cara arte do cinema), envolve, portanto, a constituição de uma alteridade. Na modernidade, este movimento de representação, ou saber, sobre o outro (seja de classe ou étnico), decorre em ‘culpa’ e ‘má-consciência’, sentimentos bastante cristãos dos quais as melhores obras do cinema brasileiro estão carregadas. Não propriamente ‘ressentimento’, como querem alguns, pois não é do lado popular que parte – mas sim má-consciência e seus afetos correlatos, como a culpa e a compaixão. As principais obras do período chamado ‘Retomada’, nos anos 1990 e 2000 (podemos citar ‘Central do Brasil’/Salles, 1998; ‘Carandiru’/Babenco, 2003; ‘O Invasor’/Brant, 2002, ‘Tropa de Elite 1’/Padilha, 2007 e outras) estão carregadas destas emoções de fundo judaico-cristão que embasam nossa civilização.
Nem as comédias escapam inteiramente da dialética que faz da degustação da catarse na mimesis, metamorfose de culpa e compaixão. Há, no entanto, um outro caminho que o filme ‘Bacurau’ de Kleber Mendonça percorre. Aquele que envolve a intertextualidade e o diálogo, irônico ou debochado, do cinema com si mesmo, no limite da densidade dos gêneros que sua própria história conformou (‘western’, ‘noir’, ‘musical’, ‘chanchada’, ‘ficção cientifica’). No Brasil contemporâneo de ‘Bacurau’, o Brasil de Bolsonaro, o espaço para a degustação, pela classe média, da culpa e da compaixão está subitamente se restringindo. Agora as modalidades emergentes são de coloração mais ‘punk’, por assim dizer. Uma diferença é que sistemas alternativos de produção audiovisual (com ou sem apoio estatal) estão emergindo com o barateamento de novas tecnologias e novas formas de exibição e distribuição audiovisual. Está se firmando, como nunca antes, uma nova produção com origem em comunidades periféricas. E a imagem que ela traz de sua realidade nem sempre coincide com a figura do popular criminalizado, ou vitimizado, tão ao gosto da boa consciência. Novas figuras, novos universos ficcionais estão aparecendo, para o bem e para o mal.
‘Bacurau’, neste sentido, é um filme que ainda anda no universo do popular como alteridade de classe, mas o sintoniza num modo diferente. A compaixão já não fornece a mesma combustão de antes: um lado do objeto catártico, o ‘coitadinho’ popular, saiu dos eixos e agora caminha com as próprias pernas. O artista que sabe sintonizar seu tempo (caso em ‘Bacurau’), mostra o objeto da piedade também dando ‘porrada’, também batendo, mas sem o ‘seguro’ da compaixão, o que complica o circuito do afeto no resgate da boa consciência. A catarse mudou de lado no Cinema Brasileiro? Em vez das lágrimas grossas da compaixão provocadas por ‘Central do Brasil’, ou ‘Carandiru’, agora é a descarga do olho por olho, o revide da ação que tem vontade de potência, que carrega a depuração do afeto na mimesis. São recorrentes as descrições de exaltação e aplausos entusiásticos do público (coisa rara na fruição mais anônima do cinema), nas cenas mais sangrentas da ‘Bacurau’. Se a catarse da culpa pela nação podia ser tocada em ‘Carandiru’, com ‘Aquarela do Brasil’/Ary Barroso servindo de fundo para o massacre do povo nas masmorras, porque não Vandré (‘Réquiem para Matraga’) reciclado, como fundo musical para o bangue-bangue cangaceiro sanguinário que nos lava a alma? Parece estar sendo difícil pensar a realidade social brasileira sem o auxílio da má-consciência como bengala.
O personagem pendular representando a classe média, tão bem caracterizado por Jean-Claude Bernardet em sua análise da emergência do Cinema Novo em ‘Brasil em Tempo de Cinema’/1967, agora sumiu do horizonte. O artista que sente sua época – e Kleber Mendonça, que assina o filme conjuntamente com Juliano Dornelles, é um deles – mostra a sensibilidade do dia para o conflito direto, frontal, encarniçado. O Antônio das Mortes de ‘Deus e o Diabo na Terra do Sol’ (Glauber Rocha/1964), levando pelo braço com cuidado, tal anjo da história, os camponeses Rosa e Manuel em direção ao fim da alienação e à terra prometida do sertão virado mar, ficou atrás. O fim da mediação redentora está chocando alguns, pois a história também tem sua brutalidade e muitas vezes pegadas pesadas.
Por outro lado, e aí está incrustrada sua liberdade, ‘Bacurau’ é ficção não realista, uma espécie de ‘Mad Max’ brasileiro. Começa com o letreiro ‘daqui a alguns anos’ e imagens espaciais da Terra vista do espaço, fechando para o território nacional. O fundo musical, que ocupa exclusivamente a trilha sonora da sequência inicial, é a canção ‘Não Identificado’ de Caetano Veloso (1969), que fala de um ‘anticomputador sentimental’, de ‘um disco voador’, lançado ‘no espaço sideral do céu de uma cidade do interior’. A descrição do universo ficcional fantasista do filme é precisa e insere o filme logo na borda gênero, situando-o um futuro não muito distante (mas que não é o presente), numa terra desolada e sem lei na qual o povo resolve exercer sua potência e faz valer a força e a genealogia de sua ética de valores. Os traços intertextuais da narrativa estão claros, com tonalidades de deglutição tropicalista (arcaico/moderníssimo) e tarantinescas que fazem o pretendido realismo, que facilitaria a crítica do filme como ensaio sociológico, destoar. É fato que incomoda alguns críticos com sensibilidade social mais purista, que se sentem mais à vontade com um cinema linearmente proposicional.
A intertextualidade de gênero presente em ‘Bacurau’ faz camada e dá ao filme a centrifugação necessária para escapar das amarras nas quais o cinema brasileiro de corte social acabou preso. É movimento similar ao que já encontramos em ‘Cidade de Deus’/2002, de Fernando Meirelles, mas agora presente de modo distinto na contemporaneidade de sua constituição, voltada para a questão do empoderamento popular sem peias. E, no Brasil de Bolsonaro, o percurso é mesmo fazer a potência per si, com um porrete na mão. ‘Bacurau’ traz junto com a abundância do sangue ketchup e o enterramento vivo (outra imagem de Tarantino), a centrifugação kitsch do ultramoderno tropicalista, a ficção delirante acelerada misturada à lentidão realista-arcaica (mais na primeira metade do filme), e outras figuras que a mistura da intertextualidade de gêneros abre, como o disco voador, o pistoleiro infalível, a cidade vazia esperando o duelo e, bem brasileira, as cabeças cortadas. Essa imagem realista, estourando no gênero, talvez Mendonça tenha ido buscar em ‘Memórias do Cangaço’/1964, pequena joia do documentário brasileiro de Farkas e Paulo Gil Soares, que parece ter sido colada ao filme.
Com ‘Bacurau’, Kleber Mendonça afirma-se um dos principais cineastas da nova geração que chegou ao longa com o milênio já iniciado, mostrando um seguro domínio estilístico da arte. Em ‘O Som ao Redor’/2013, a imagem arquetípica do filme já era a impressionante cachoeira de sangue na propriedade dos ‘sinhozinhos’, antecedendo o cerco progressivo ao ‘coronel’ sanguinário em seu refugio urbano; em ‘Aquarius’/2016, é a invasão dos cupins corroendo, por dentro e oculta, sem dar aparência, as entranhas de uma classe média decadente em sua isolada ilha de resistência. Em ‘Bacurau’ o ciclo se fecha. Agora, sem mediações, a regressão inoperante dá vazão ao mito de potência represada liberada. Com fundo nietzschiano, o outro oprimido-escravo faz valer sua hora, jogando ao alto a boa consciência do mestre e seu conselho para a medida do porrete na intensidade que convém. É o Brasil de Bolsonaro, ou o Brasil que Bolsonaro deu ensejo. O mais interessante é que, nesta medida (a medida da representação que se estabelece), o Brasil de ‘Bacurau’ tome forma não através de uma representação realista, mas pela mão do gênero, que se volta como sobre-determinação para buscar fôlego na história do cinema e em estilos eminentemente intertextuais como o Tropicalismo. Talvez seja o preço que o cinema de Mendonça pague para se livrar do peso, que ainda carrega, da mediação como exercício da voz do outro, reapresentação daquilo que sabe não mais lhe ser próprio.
*Fernão Pessoa Ramos é professor titular do Instituto de Artes (IA) da Unicamp. Publicou ‘Nova História do Cinema Brasileiro’ (2018) e ‘Mas afinal… o que é mesmo documentário?’ (2008), entre outros.
Fonte: Jornal da Unicamp